4 - A SUPREMA VITÓRIA

A mônada divina, que anima a todo ser, vai-se realizando a si mesma durante o larguíssimo ciclo que tem de percorrer. Lançada à corrente da evolução, ao se desprender do Grande Todo, para continuar sujeita a Ele, não obstante a tendência a uma individualização cada vez mais pronunciada e a uma independência cada vez mais completa, ela segue seu curso, preenchendo as exigências da Lei, que está em sua natureza, e disso depende o seu aperfeiçoamento progressivo.

Este ir e vir pelo caminho que as alturas conduz, no qual o Ego se desenvolve e se torna independente, constitui uma luta contínua e tenaz, ora cruenta, ora incruenta, porém luta sempre. É condição da existência lutar; até no seio do que se chama as forças cegas da Natureza existe essa luta.

Que são os choques que com freqüência presenciais, na ordem física, senão a luta travada entre os elementos constitutivos do Todo? Não há reino algum da Natureza (e nada está fora da Natureza) em que a condição de existência não seja a luta.

Não podia, pois, o homem eximir-se de lutar. Como o poderia, se o que ele é à luta o deve? Sempre, tudo o que o constitui esteve em luta e foi esta que lhe apressou o desenvolvimento e, quanto maiores as refregas em que tenha entrado, tanto maiores os resultados de seu desenvolvimento. A inércia, se existisse, seria a morte. Onde há vida, há luta e, onde há luta, há vida.

Tudo é vida, porque tudo é luta e tudo é luta porque tudo é vida.

A vitória nas lutas é representada por toda aquisição nova que o ser efetua, para sua própria realização. A vitória, pois, é permanente em todo Ego humano. Que momento da sua existência poderia uma alma escolher, para avançar um passo no caminho de sua realização? Todos; não há momento algum que não exprima uma nova ascensão da alma. Parece-vos que não? Por quê? Por que há seres que vedes chafurdados no lodaçal, inclinados às maiores desordens, entregues aos mais abomináveis vícios e a uma vida de depravação e crimes? Isso nada prova contra a minha tese. Que elementos de confronto, de comparação e de comprovação tendes, que a possam desmentir? Não encontrareis nenhum, nem mesmo procurando-os com a lanterna de Diógenes.

Não encontrareis no ser, ou, melhor, não encontrareis em homem algum, se pudésseis conhecer todos os segredos de seu processo evolutivo, nem um momento sequer em que nele não se verifique algum progresso efetivo. Não vo-lo parece? É natural, porque sois míopes de entendimento e completamente nulo é o vosso poder de análise desses arcanos.

É ininterrupto, pois, o progresso nos seres, por menos que o possais compreender e o é não em um somente, ou num milhão deles: em todos. A Natureza tem horror à exceção; para todos, a mesma Lei, os mesmos processos de desenvolvimento, as mesmas facilidades, idênticos obstáculos, tudo igual.

Lutar! Já dissemos que era condição da vida, exigência do desenvolvimento de todos os seres.

Vitória! Dissemos também que cada passo que o ser avança em sua evolução é uma vitória. Triunfa, portanto, sempre o ser, porque cada passo é um grau mais alto alcançado na escala do eterno ascender.

Luta! E os contendores quem são? Serão inimigos irreconciliáveis? À primeira vista, sim; em realidade, não. Luta, no homem, a natureza superior com a natureza inferior. Elas são os opostos de um mesmo todo, que se interpenetram, completam e auxiliam mutuamente. A natureza inferior se sublima, desenvolvendo-se e purificando-se, em luta com a natureza superior; suas derrotas constituem vitórias porque, com a depuração e sublimação de si mesma, ela avança e, por conseguinte, ganha a batalha quando a perde. A natureza superior se eleva na luta, mais se firma e ascende na escala de seu próprio aperfeiçoamento, ao registrar suas vitórias, que aumentam de valor na proporção em que diminui a força brutal da natureza inferior, que, a seu turno, se apura.

Temos visto como daquilo que há de mais abjeto sai o que há de mais nobre; como do gérmen, transformado, metamorfoseado ao infinito, brota o fruto; como do demônio nasce o anjo, do impuro a pureza imaculada. Temos assistido às metamorfoses infinitas de toda substância, para chegar a ser o mais apetecível o que foi desprezível; como os seres conscientes passaram antes pela inconsciência, sendo esta o fundamento da consciência lúcida futura.

À nossa visão, manifesta se tornou a evolução do existente, partindo do mais ínfimo e rudimentar, para chegar às maiores grandezas, culminando alturas incomensuráveis.

Temos considerado o homem como um microcosmo, para verificarmos a unidade de vistas e de plano na Criação, em virtude da qual o que há em cima existe em baixo, e o Universo inteiro se contém no homem, que é dele uma redução, uma miniatura exata.

Temos visto passar ante os nossos olhos atônitos o ente humano, desenvolvendo-se, desde que chegou a essa categoria, até alcançar a de super-homem e adquirir a aptidão de penetrar, viver e desenvolver-se ainda mais nos planos supraterrestres, até atingir os divinos.

As faculdades superiores da alma humana têm aparecido sucessivamente às nossas vistas, sempre a se desenvolver, até galgar os cumes da perfeição.

Vimos que o egoísmo, por lei natural, se transforma em altruísmo; que o espírito guerreiro nos trouxe o espírito de paz, encarnado naqueles que outrora dirimiram pelas armas suas contendas, semeando na Terra o pranto e o luto.

Vimos o ladrão metamorfosear-se em espírito probo e equânime; a mulher impura em virgem imaculada; o vicioso num exemplar de virtude; o ignorante subindo às mais altas hierarquias sacerdotais no templo de Minerva.

Tudo temos visto nascer, desenvolver-se, ascender, dar frutos de sabedoria e de amor e terminar no extremo aperfeiçoamento anímico.

Tudo são vitórias, pois, na Criação; o que chamamos derrotas são puras ficções. A fonte do altruísmo deve buscar-se no egoísmo mais vulgar e grosseiro. Do mesmo modo, as maiores vitórias têm sua gênese, seu fundamento certo, nas maiores derrotas. "Não há mal que em bem não se mude", diz um dos vossos adágios, e é certo: no fundo do que vos pareça o maior mal, se esquadrinhardes com o escalpelo da vossa razão espiritual, encontrareis a base do maior bem.

Vimos também, seguindo a lei dos contrastes, nascer das desigualdades sociais a igualdade futura; assistimos à volta auspiciosa da saúde, a gerar-se da própria enfermidade; porém, como bem sabeis, tendo-se em vista o Espírito, colocando-se o observador acima do transitório e efêmero.

Em todo o percurso do campo de ação que nos traçamos de princípio, temos podido apreciar como tudo passa da imperfeição à maior perfeição, do menor ao maior bem; como da inconsciência surgiu a consciência, da guerra a paz, da ignorância a sabedoria, do vício a virtude, como surge do carvão o diamante, que é uma bela representação da purificação das almas.

Do mesmo modo, temos visto o legendário e mitológico Satanás morrendo no seu calvário, para redimir-se das culpas de todos aqueles que ele antes havia tentado, a fim de os lançar no inferno de sua perdição.

E tudo o que temos visto, experimentado e compreendido leva-nos a apreciar as coisas todas com a lente do otimismo mais acentuado.

Se temos assistido à aniquilação do mal e do vício; se não reconhecemos existência à morte, e temos perfeita convicção, mais do que convicção, certeza, de que o pior dos seres há de chegar, incontestavelmente, à Perfeição e à Pureza; se temos podido apreciar a conversão dos Herodes em Vicentes de Paulo; se o inferior não pode permanecer indefinidamente na inferioridade, pois que, forçosamente, terá que chegar ao superior, por que não ser otimista e cantar um hino perene ao glorioso Otimismo, que é o Imperador da Criação?

Tudo são vitórias, irmãos meus que ledes estas páginas, tudo são vitórias e só o Bem é real, o Bem que, com a Verdade, forma uma Unidade indestrutível. Sede otimistas, amigos meus, e tecereis uma coroa de rosas para vossas frontes, que vos dará, não a ilusão, mas a certeza de estardes vivendo uma eterna e florida Primavera.

Lutais, venceis, contais contínuas vitórias em vosso ascender para as alturas; porém, além dessas vitórias parciais, há uma vitória final, com relação a este mundo, uma suprema vitória. Sabeis qual é, amáveis leitores e amigos meus? Se o não sabeis, podeis adivinhá-lo. A suprema vitória é aquela em que o ser humano, tendo por pedestal todas as vitórias parciais que ganhou, se converte em Cristo.

Alcançar a condição de Cristo, a natureza divina do Cristo, haver vencido a carne e o mundo, conquistado domínio sobre todos os elementos e sobre todas as coisas, haver chegado à condição de Espírito puro e sábio, que já não tem necessidade de novas reencarnações na Terra, nem em mundos outros quaisquer, é haver conquistado a suprema vitória.

Todos estais a caminho de alcançá-la e chegareis a conquistá-la, tanto mais depressa quanto maior esforço ponhais em colocar-vos de harmonia com o Infinito, vivendo a vida interior e santa do Espírito e imitando, em toda a sua integridade, a vida exemplificadora do Cristo, renunciando-vos a vós mesmos, para viverdes inteiramente consagrados ao serviço de Deus, no serviço dos vossos semelhantes e da Criação inteira.

A Criação é o campo do vosso labor; nela vos moveis; dela viestes à existência, obrigados a contribuir para a realização integral do plano divino, latente, em toda a sua potencialidade, no Grande Todo.

Assim, assegurar-vos-eis a suprema vitória, e convencer-vos-eis de que deveis procurar conquistá-la, porque para isso viestes à existência, é que se destinam as páginas que perlustrastes. Esse o seu único objetivo.

Cantai, pois, hinos em louvor da Causa Suprema, que vos deu a vida para que conquistásseis uma eterna felicidade, trabalhando pelo aperfeiçoamento do vosso ser.

Laborai sem descanso o vosso campo, o campo do Senhor, e procurai sempre ascender, munindo-vos das duas únicas asas que a Deus conduzem: a Sabedoria e o Amor. Tais são os desejos veementes deste vosso irmão, que vos abençoa em nome de Deus e vos deseja todo bem, ao desejar-vos que presto alcanceis a suprema vitória.

Angel Aguarod