4 - AMAR A DEUS, NA INTEGRIDADE DE SUA OBRA

Porque a criatura humana, mesmo inconscientemente, pratica atos de amor a Deus, e o ama, depois, amando-se a si mesma e ao próximo, não se conclua que nessas formas de atuar na vida se contêm todas as que podem ser consideradas como expressão do amor do homem ao Criador Supremo.

Alguma coisa haverá que não possa constituir objeto de uma afeição, de uma preferência do ser humano, que não possa exprimir sua aspiração pelo aperfeiçoamento próprio?

Depois de o espírito humano haver saído da inconsciência, quando já adquiriu o domínio de si mesmo, conseguiu discernir entre o bem e o mal e compreendeu que na obra da Criação há um infinito de maravilhas, uma inesgotável fonte de sabedoria dirigindo-lhe o desenvolvimento, deve procurar estender a esfera de seu amor a tudo o que vive e respira, até mesmo àquilo em que a ciência humana por muito tempo não reconheceu mais do que um atributo - a inércia, por não revelar aos sentidos corporais do encarnado o que quer que parecesse animado por um hálito de energia vivificante.

Assim, pois, não há coisa alguma na Criação a que possa o Espírito evolvido conservar-se indiferente. Em todos os domínios da Natureza palpita o sopro divino, animando os seres e as coisas. No próprio reino mineral não há o que vos cause admiração? A formação das massas, consideradas inertes, dos cristais e demais corpos não revela um plano preconcebido por uma sabedoria infinita? Não tem sua razão de ser tudo isso? Haverá na Criação o que não corresponda a uma necessidade? Não; não existe o supérfluo; tudo traz impresso em si o porquê de sua existência; tudo corresponde, nas inquirições humanas, a algo superior, que o homem tem sabido coordenar e concordar com os misteres da vida, com as exigências do próprio plano divino, revelado pelos sábios que descendo de altas esferas, encarnaram na Terra para lecionar à humanidade e revelar-lhe os segredos do Altíssimo.

Vossas indústrias, vossas artes, tudo quanto é objeto da atividade humana encontra no reino mineral o de que precisa para dar completa satisfação às necessidades do Espírito. Nesse reino, encontrais materiais para construir vossas vivendas, para curar vossas doenças, para satisfazer ao vosso amor do belo e até à vossa vaidade, como as pedras preciosas, tão cobiçadas por tanta gente.

São inumeráveis as aplicações que podem ter e têm na vida os produtos minerais que revelam a sabedoria sem limites do seu Criador, que é também o Criador das inteligências que souberam achar a aplicação precisa de cada um dos elementos que se lhes oferecem ao exame e à análise.

Inesgotável é o reino mineral, sob todos os aspectos, para estimular a atividade do homem, aguçar-lhe o engenho a fim de compreendê-lo e encontrar a utilidade que todo ele tem para que a espécie humana logre tornar sua vida mais prazenteira. assim como para lhe dar sustento e comodidades. No reino mineral vai-se desenvolvendo a vida e se incuba outro reino, que o segue na escala do progresso dos elementos e das massas: o reino vegetal.

Porém, se digno da vossa admiração é o reino mineral, que vos inspira amor, amor esse que se traduz em amor a seu Criador, mais admirável ainda é o reino vegetal. Desnecessário se faz que assinalemos a superioridade deste reino sobre o anterior, porquanto não há ente humano que não se aperceba por si mesmo dessa superioridade, manifesta no maior desenvolvimento dos elementos que o constituem. Neste reino, a vida torna-se mais sensível; a beleza de seus exemplares cativa mais o espírito humano e mais pronunciado é o amor que lhe dedica a criatura. E o é, porque esta tende sempre à maior perfeição em suas aspirações e em seus gostos. Ora, é claro que o reino vegetal oferece ao homem motivo de mais alta aspiração do que o reino mineral e desperta nele mais fortes emoções, pela maior beleza das partes e do conjunto. O homem dispensa-lhe maior atenção, porque ele lhe atende a maiores necessidades do corpo e da alma. No reino vegetal, à criatura humana se depara maior número de elementos do que no reino mineral, com que atender às necessidades de nutrição do seu organismo, de cura das suas enfermidades, de satisfação a suas inclinações ao belo e ao útil, porque o reino vegetal produz, de maneira exuberante, para muitas das necessidades físicas, morais e artísticas do ser humano.

Neste reino, a vida deu um passo mais para os cimos da perfeição; nele, essa vida acha-se intensificada e, na cúspide da evolução de seus exemplares mais interessantes, começa a alvorecer a vida animal. E o ente humano ama ao reino vegetal, sendo as plantas o encanto de muitas almas sensíveis e enamoradas do belo e do útil. Mas, amando às plantas e seus produtos, o ente humano ama a Deus, porque a ninguém é possível admirar uma fibra de erva, uma flor, um fruto, sem lhes admirar o Autor; não é possível amar às plantas e às flores e extasiar-se ante os esplendentes panoramas da vegetação sem amar ao Criador de tanta maravilha. Assim, amando-se ao reino vegetal, ama-se a Deus.

Segue-se, na progressão ascendente, o reino animal; é este o elo superior da cadeia do progresso dos seres e do desenvolvimento da vida neles.

A sabedoria do Criador, que se revela de maneira tão potente nos reinos anteriores, no que nos preocupa, ainda mais exuberante aparece. O reino animal, continuação dos reinos precedentes, penetrado da mesma vida que naqueles se foi desenvolvendo, causa admiração maior porque nele se individualiza a energia vital. A mônada divina, manifestando-se em indivíduos diferentes e por diferentes modos de expressão, começa a tornar-se patente, e o homem, ao contemplar esse reino admirável, sente-se tomado de inexplicável vertigem, pois não pode deixar de compreender que há ali, em cada um dos indivíduos que o compõem, uma ordem de manifestação de inteligência, não igualada antes pela criatura humana; que em cada um dos indivíduos se adivinha uma inteligência por mais embrionária que seja, reveladora de uma potência inteligente infinita, da existência de um Criador Supremo, causa de quanto existe, porque tudo isso revela um plano preconcebido e uma exuberância de sabedoria inconcebível.

Depois da invenção do microscópio, o homem sentiu-se ainda mais confundido na contemplação do reino animal, porque o descobrimento do mundo dos infinitamente pequenos, que lhe veio com a construção daquele instrumento, patenteou-lhe, de maneira mais clara, a sabedoria divina. Ele compreendeu que, se admirável é qualquer indivíduo do reino animal, considerado em seu conjunto anatômico e em cada uma de suas partes, sob a ação das leis fisiológicas e biológicas, mais admirável é ainda essa sabedoria, revelando-se no mundo dos infinitamente pequenos. Um elefante e uma formiga demonstram a sabedoria inegável de uma inteligência infinita, porém, um infusório, que só com potentes microscópios se pode perceber, dotado de órgãos completos para a vida de relação, para a nutrição e reprodução, denotando ter um objetivo a sua existência e dando a impressão de estar consciente de seu existir e da missão que deve preencher, proclama ainda muito mais alto a sabedoria divina e desperta no pensador maior admiração pelo soberano Artífice.

Qualquer que seja o exemplar que estudeis do reino animal, ele vos revelará sempre a sabedoria infinita de Deus. Nesse reino, anel superior ao vegetal na escala da evolução da vida, se aprende a mais amar a Deus. Quem, nas ternas e encantadoras avezinhas multicores e canoras, não amará a quem as criou? Quem, ante o fiel companheiro, que, no cão, Deus lhe deu, não amará a seu Pai? E quem, ao notar as nobres qualidades desse fiel amigo do homem, não adivinhará nele o Espírito que um dia revestirá corpo humano? E, como o cão, não há outros animais próximos do homem na escala da evolução? Não vos admira a inteligência do cavalo e do elefante? E as raças símias nada vos dizem da proximidade das encarnações humanas?

Estudando, analisando os reinos todos da Natureza, desde o mineral aos tipos superiores das espécies animais, não descobris uma cadeia ininterrupta, cada um de cujos elos é uma etapa no caminho do progresso percorrido por aquela mônada, que saiu do seio de Deus e que, tomando forma na substância universal, se foi realizando até alcançar os tipos mais completos do reino animal?

Dar-se-á que, chegada a tais alturas, pare a evolução dessa chispa divina? Não a atrai sua pátria de origem? Ela é, ou representa, o filho pródigo que, para adquirir experiência e aprender a governar-se, foi lançado na corrente da evolução, devendo voltar à casa paterna, enriquecido, com as suas elevadas faculdades em pleno desenvolvimento.

Tudo o que existe em qualquer dos reinos em que a Criação está dividida, todas as partes desses reinos e todos os indivíduos que os formam não patenteiam Deus, manifestando-se, realizando-se a si mesmo em suas criações? Algo haverá na Criação que mereça desapreço? Alguma coisa pode haver que não proceda do Criador dos sóis e dos mundos?

Não; logo, nada pode haver sem objeto; nada que não corresponda ao plano da Criação, plano divino, que o homem deve respeitar e para cuja execução deve contribuir.

Deste modo, ao homem consciente não é lícito, sem incorrer em séria responsabilidade, deixar de utilizar para o bem, e só para o bem, tudo quanto procede de qualquer dos reinos da Natureza; não lhe é lícito abusar de coisa alguma, nem destruir desnecessariamente nenhum dos exemplares de qualquer desses reinos, nenhum fragmento sequer de um exemplar deles, porque tudo preenche um fim providencial, tudo evolui, e as destruições abusivas e desnecessárias perturbam o regular desenvolvimento das futuras mônadas humanas, que nas infinitas formas existentes se vão realizando.

Uso e não abuso é o permitido. A crueldade, sobretudo, deve ser desterrada para sempre da consciência humana que não queira condenar-se a sofrer a crueldade dos outros, ou dos elementos, por sanção da Lei.

Já a certa altura da evolução, o homem deve ver, em tudo quanto vive e respira, um ser que necessita de proteção, para facilidade do seu desenvolvimento. O Ser Supremo põe os seres que têm vida individualizada e já revelam inteligência e vontade em contacto com o homem, para que este admire neles a Onipotência e a Bondade infinitas, e se constitua, contribuindo para seu próprio desenvolvimento e cumprindo sua missão terrestre, colaborador da Divindade.

Aprendei, finalmente, a amar a tudo e, amando a tudo, porque tudo procede de Deus e tem uma finalidade, amareis ao Pai de todos os seres, na integridade de sua obra. Somente quando tenhais conseguido amar a Deus em toda a sua obra encontrar-vos-eis em condições de ascender de classe, de continuar a vossa evolução em mundos superiores à Terra.

Angel Aguarod