BASES CIENTÍFICAS DO
ESPIRITISMO

PREFÁCIO

A afirmação de ter o Espiritismo uma base científica escandaliza a muitos homens; e o simples anúncio da publicação desta obra deu lugar, por causa do seu título, ao aparecimento de antecipados juízos adversos; mas, os fatos que constantemente se têm dado, resistindo ao embate de mais de trinta e três anos de ridículos, denúncias e antagonismos, parecem demonstrar que ele possui seguros elementos de vitalidade, quando não o sejam de verificação científica.

Que mais é a Ciência senão uma coleção de verdades presas umas às outras? Segundo João Stuart Mill, a linguagem da Ciência deve ser: "Isto é ou não é; isto se dá ou não se dá. A Ciência busca conhecer os fenômenos e descobrir as leis que os regem. Portanto, o Espiritismo tem uma base científica em seus fatos provados.

O pretendido cientista que imagina conhecer tão perfeitamente as leis da Natureza, a ponto de declarar que a clarividência e a escrita direta espiritual estão fora dos limites do reconhecimento científico, está sob o domínio de uma alucinação mais séria do que aquele a quem finge lastimar.

O pouco critério com que, em todas as idades, o mundo tem deixado de submeter estes e outros fatos correlatos a uma pesquisa impávida e científica, tem sido a fonte de incalculáveis prejuízos. Nos tempos antigos, a suposição de que tudo o que vinha do mundo invisível, atestado pelos chamados milagres ou poderes super-humanos, procedia de Deus ou dos deuses, deu origem a toda a espécie de imposições teosóficas, superstições, revelações enganosas e ilusões disparatadas. Nos tempos medievais, durante a excitação contra os feiticeiros, monstruosas crueldades foram praticadas sob a sanção legal, pelo fato de não se reconhecer que nada de sobrenatural ocorre nos domínios da Natureza, e que todos os fenômenos, sejam quais forem, podem ser submetidos à investigação científica e à análise. Alguns fenômenos psíquicos notáveis foram considerados como satânicos e antinaturais, e uma antiga proibição hebraica, fundada na ignorância, tornou-se a escusa para punirem com a morte a muitos inocentes suspeitos de produzirem em outros, influenciando-os, inexplicáveis manifestações de faculdades anormais.

Em nossos dias, apesar do repúdio que tem sofrido a crença nos Espíritos, a credulidade do descrente inventa novos perigos. Desprezando os fenômenos como impossíveis, como antinaturais ou sobrenaturais, os especialistas da ciência que, apesar da sua competência no ramo que cultivam, ignoram os primeiros rudimentos da ciência psico-fisica, iniciada agora, em vez de esmagarem a superstição por sua atitude teimosa, estão a lhe dar motivos para aparecer. Pessoas convencidas por experiência própria da existência desses fenômenos, não encontrando um guia, uma luz nos homens de ciência apontados por seus laboriosos estudos e experimentação como capazes de explicá-las, começam a fantasiar sistemas sobre aquilo que testemunham, ou a aceitar com precipitada crença o que lhes dizem alguns médiuns ou pretensos possuidores de alta e divina inspiração espiritual. O mesmo que antigamente se deu com os oráculos, dos videntes e dos mitos, dar-se-á hoje, com algumas variantes, a menos que uma ciência, ao mesmo tempo investigadora e liberal, reverente e audaz, se interponha para evitar tal repetição e proteger os incautos contra as fraudes e ilusões que podem nascer do pouco desenvolvimento das faculdades mediúnicas.

A acusação promovida em 1876, em Londres, pelo professor Lankester, especialista da ciência física e adepto do monísmo materialista de Haeckel, para lançar um paradeiro aos fenômenos que se produziam sob a mediunidade de Hennry Blade, recorrendo para isso ao forte braço da lei, não foi mais que um ato de superstição, incitado pelo mesmo fanatismo (tendo por objeto a descrença em vez da crença) que provocou os processos de Matthew Hopkins, de Maningtree, Gent, o famoso "feiticeiro" inglês, do ano de 1645.

Os primeiros cientistas da Alemanha libertaram de uma vez Slade das suspeitas de Lankester; e Zollner diz, referindo-se a Slade: "Os fatos fisicos por nós observados em sua presença destroem, em todos os terrenos razoáveis, a suspeita de que ele, em algum caso, tenha recorrido à impostura. A nosso ver, portanto, ele foi um inocente condenado, uma vitima dos conhecimentos acanhados de seus acusadores e juízes. Os notáveis acontecimentos que últimamente se deram em plena igreja em Knockmore, na Irlanda, onde mãos e figuras animadas apareceram misteriosamente demonstram o quanto importa que esses fenômenos não continuem a ser postos de parte. Estudado e interpretado racionalmente, libertado dos erros espontâneos ou impostos por alguns, o Espiritismo é uma salvaguarda contra todas as superstições, Ele mostra que o mundo invisível está, como o nosso, dentro dos limites da esfera da Natureza Universal; dá-nos a chave de muitos mistérios que têm confundido os filósofos e desnorteado os historiadores; prova que não é aos Espíritos, mas, sim, aos nossos defeitos e paixões desenfreadas, que devemos temer. Se indivíduos ruins se têm alistado em suas fileiras, se os levianos lhe têm emprestado a sua má reputação, se ele tem sido defraudado e desencaminhado, cabe às almas generosas a restrita obrigação de joeirar e condenar-lhe os fatos e refrear os abusos. É, portanto, com pesar que vejo um campeão tão liberal da verdade, como R. H. W. Emerson, recomendar a ignorância como sendo a melhor política a seguir-se em tal assunto, que, nas mãos do fanatismo ou da impostura, tem sido a causa de tão grandes desastres e decepções, públicos e privados, em todos os tempos de que a História faz menção. Em recente artigo sobre a Demonologia, esse distinto escritor observa; "Há muitas coisas que um homem sensato deve desejar ignorar, e neste caso estâo os fenômenos espíritas. Evitai-os como se tratásseis dos segredos dos coveiros e carniceiros." Tu quoque, Brute?

Ideal, material e moralmente falando, tal conselho é uma injustiça. As próprias comparações, empregadas com o fim, de esclarecer, pecam por falta de similitude; pois, pelo fato de termos sensibilidade estética, ou por pusilanimidade, havemos de recuar ante o conhecimento dos segredos do coveiro e do carniceiro, não nos inquietaremos em relação ao modo por que serão sepultados os cadáveres das pessoas que nos são caras. Devemos ser indiferentes aos sofrimentos infligidos aos pobres brutos, cujas vidas são sacrificadas aos nossos apetites carnívoros. Esse sentimento não tem o poder salvador: é surdo e adulterado . Não é procurando fazer que evitemos a verdade, como coisa desagradável, que o filósofo conseguirá impedir que alguém, salvo os tímidos e os fracos, busque tudo o que há de genuíno e demonstrável nos fenômenos que nos prognosticam a continuação da vida humana.

Que contraste entre essa opinião e a do Dr. John W. Draper, o assaz conhecido professor de Química e Fisiologia da Universidade de Nova Iorque! Referindo-se aos mistérios da Vida, diz: "Deus deu-nos a inteligência para compreendermos todas essas coisas. Não simpatizo com aqueles que dizem estar este ou aquele problema filosófico acima da nossa razão." E, como antecipando-se a esses fenômenos suprassensíveis, que por causa da nossa concórdia desejam que evitemos, o eminente fisiologista diz que a aplicação da ciência exata à Fisiologia vai "levando para o terreno da demonstração física a existência e a imortalidade da alma humana, fornecendo-nos conspícuas explicações dos atributos da Divindade".

Notai a linguagem do venerável filósofo alemão, J. H. Fichte, usada poucas semanas antes da sua morte, em 1879:

"Apesar da minha idade e do meu afastamento das controvérsias do dia, sinto que é de meu dever dar testemunho do grande fato do Espiritismo. Ninguém deve ficar silencioso." E' esta uma declaração digna do filho do ilustre contemporâneo de Kant, do herdeiro dos esplêndidos dotes de seu pai!

O progresso do moderno Espiritualismo apresenta-nos alguma coisa de maravilhoso. Em cerca de quarenta anos ele tem, pelo menos, conquistado vinte milhões de adeptos em todas as partes do mundo. Adaptando-se, apesar de sua afinidade eclética com todas as manifestações da verdade, a todas as nacionalidades e classes sociais, e repetindo as suas manifestações, peculiares por toda a parte, entre pessoas que ignoram suas fórmulas e antecedentes, ele se apresenta com a feição de uma verdade universal, com o desenvolvimento de uma grande e transcendental ciência, que vem confirmar todas as tradições e intuições sobre a imortalidade da alma, e anuncia o despontar de uma aurora em cuja luz todas as outras ciências, que tratam da natureza e do destino do homem, devem buscar orientar-se no futuro.

Mais de quatro quintas partes deste volume encerram matérias tratadas pela primeira vez. Algumas passagens, salteadas e frequentemente modificadas, foram incluídas, extraídas das publicações por mim feitas, no decurso dos últimos trinta anos, em quase todos os periódicos que se ocupam desse assunto na Inglaterra e nos Estados Unidos. Como as diversas partes desta obra foram escritas com grandes -intervalos, é possível que se encontrem repetições da mesma ordem de pensamentos; mas isso, apesar de ser pela crítica julgado um defeito, pode ser vantajoso para o leitor, por acentuar as considerações mais essenciais. As objeções feitas à existência de um fato da natureza, não podem ser científicas; mas, como continuam a aparecer contra o Espiritismo, da parte de pessoas em outros assuntos bem instruídas, dedico algum espaço à sua refutação. É, porém, passado o tempo em que os fatos narrados neste volume eram desprezados, como coincidências, ilusões ou fraudes. A hora aproximou-se e já soou, em que o pretendente ao título de filósofo, de físico ou de metafísico, que desdenhar a ocorrência constante dos fenômenos aqui referidos, será considerado como uma reliquia do passado, ou como um desertar das questões mais -importantes do seu tempo. O Espiritismo já não é o desespero da Ciência, como o classificara eu no frontispício da minha primeira obra sobre esse assunto. Seus direitos a um reconhecimento científico, da parte dos observadores inteligentes, já não podem ser postos em dúvida.

EPES SARGENT

CAPÍTULO I
CAPÍTULO II
   
Fatos típicos: Propósito do Espirito. Insuficiência da teoria materialista
Teoria de Leibnitz. Afirmação do Prof. Denslow
Fenômeno privado. Suas esperiências com Slade e a Sra. Simpson
Fraudes mediúnicas Samuel Watson, Wesley, Priestley, Oberlin
Testemunho de um jurista Catálogo de fenômenos
Fairbairn Experiência de Zollner
Hopps. Nós em um cordão sem fim
Herber Spencer Testemunho de T. L. Nichols
Manifestações de formas entre os índios Opiniões de Plutarco, Cícero, Sto Agostinho
Experiência pessoal em pneumatografia Experiências do Mesmerismo
Afirmação de José Cook Teoria de Braid
   
CAPÍTULO III
CAPÍTULO IV
   
Respostas às objeções de Wundt A clarividência é uma faculdade espiritual
Carta aberta a Ulrici Mais objeções - A.R. Wallace
Slade em Leipzig O dr. Elliotson
Wundt contradiz-se William White
Objeções a um reconhecimento científico Análise da clarividência
   
CAPÍTULO V
CAPÍTULO VI
   
Será a Ciência Espiritual hostil à Religião? Provas fenomenais. O corpo espiritual
O argumento da tradição A mão espiritual
Aceitação de John Stuart Mill Manifestações de formas completas
Sistema de I.H.Fichte Testemunhos do Dr. Gardner
Teodoro Parker acerca do Espiritismo Burnham descreve a formação de uma mão
   
CAPÍTULO VII
CAPÍTULO VIII
   
Provas do sonambulismo provacado, etc.. Testemunhos acumulados.
Revista do Mesmerismo Comunicações espirituais
Cuvier e Laplace Experiências com A. J. Davis
Gall, Spurzhein, Hahnemann Importância das provas científicas
Experiência de Epes Mais objeções anticientíficas
   
CAPÍTULO IX
CAPÍTULO X
   
Distintos estados mentais A realidade do mundo invisível
Locke acerca da identidade Antagonismo indiscriminado
Fenômenos da consciência Há mais perigo em ignorar
O dr. Gregory Fatos que refutam
Teoria de Tiedemann O testemunho bíblico
Unidade múltipla da mentalidade Objeções swedenborgistas
   
CAPÍTULO XI
CAPÍTULO XII
   
O sentimento da imortalidade A grande generalização
Indiferença pela continuidade da vida O Teísmo à luz do Espiritismo
Efeitos de uma falsa psicologia A personalidade divina
A vontade e o temperamento A prece
Fanatismo no secularismo A doutrina das esferas
Gênese da crença nos Espíritos Psicometria