O ESPIRITISMO E AS IGREJAS
REFORMADAS

Prefácio

Aureliano Alves Netto

Sentenciava, com muita argúcia, o filósofo inglês Francis Bacon: "Há livros que devem ser saboreados, outros devorados, e poucos mastigados e digeridos."

O livro que vais ler, estimado leitor, classifica-se entre esses últimos, que são raros. E' uma iguaria saborosa e nutriente que, embora bem digerível, deve ser deglutida após demorada mastigação, para maior regalo do paladar.

O mestre-cuca muniu-se duma farta provisão de ingredientes da melhor qualidade e procedência, misturou-os quantum satis, temperou-os com condimentos adequados, fê-los passar pela cocção em fogo brando e... pronto: surgiu o prato opíparo e aromático, bem no ponto de ser servido a glutões e temperantes.

Deixando de lado a metáfora, podemos assegurar que O ESPIRITISMO E AS IGREJAS REFORMADAS é uma obra que, no gênero, nada deixa a desejar. Após sua leitura, a gente tem vontade de declamar o célebre verso de Camões: "Cessa tudo quanto a antiga musa canta".

Efetivamente, "Outro valor mais alto se alevanta", ante as obras conhecidas que cuidam da mesma problemática. Entre elas, salienta-se UMA ANÁLISE CRÍTICA DA BÍBLIA, C.G.S. Shalders — estudo minucioso dos livros escriturísticos, através de seus principais capítulos e versículos. Da lavra do mesmo autor, temos A RELIGIÃO E O BOM SENSO (Shalders foi praticante do Protestantismo durante mais de meio século). Outro protestante ex-professo, Romeu do Amaral Camargo, com 22 anos de experiência religiosa, que exerceu o diaconato na Ia Igreja Presbiteriana Independente da Capital de São Paulo, publicou DE CÁ E DE LÁ (Vozes da Terra e do Além). De eminentes escritores estrangeiros, que também perlustraram os caminhos do Protestantismo, possuímos em nossa minibiblioteca: RELIGIÃO EM LITÍGIO ENTRE ESTE MUNDO E O OUTRO (Rev. Robert Dale Owen); ENSINOS ESPIRITUALISTAS (Rev. Willian Atainton Moses); O ESPIRITISMO E A IGREJA (Rev. Haraldur Nielson). E Cairbar Schutel, abalizado escritor espírita, publicou ESPIRITISMO E PROTESTANTISMO. Com o mesmo título, Benedito A. da Fonseca, cuja filiação religiosa ignoramos, deu a lume uma "obra de muito valor", na opinião de Schutel.

O ESPIRITISMO E AS IGREJAS REFORMADAS é, na verdade, uma obra extraordinária, porque bem estruturada e produzida com pleno conhecimento de causa. Seu autor, Jayme Andrade, foi criado no seio da Igreja Evangélica, estudou em escolas protestantes, frequentou assiduamente, os cultos da religião que professava. Pesquisou, comparou, analisou e dá-nos conta das judiciosas conclusões a que pôde chegar.

Todo o livro gravita em torno do leitmotiv das dissidências entre católicos e protestantes: a Bíblia. Razão por que o Autor trata dessa circunstância com especial interesse, no mais extenso dos capítulos: "A infalibilidade da Bíblia".

A esse respeito, ocorre-nos trazer à baila alguns subsídios para o devido enfoque da questão.

No seu livro BIBLE BLUNDERS (Erros Palpáveis da Bíblia), afirma o Rev. G. Maurice Elliot: "A Bíblia erroneamente compreendida é o pior inimigo da humanidade (...) Nenhum livro é infalível.

Nenhuma Igreja é infalível. Nós temos sido erroneamente ensinados. Deus é Verdade. Amar a Deus é amar a Verdade, amar a busca da Verdade, amar a luta pela Verdade. Não há outro meio."

Carlos Imbassahy, elucidando dúvidas de um dos seus leitores, escreveu: "Assentar qualquer prova no Velho Testamento ou assentar no vazio é a mesma coisa. Até hoje não conseguimos saber onde se acham as fontes exatas em que se foi ele inspirar. Ainda se o conteúdo fosse de granito!... Mas... Há ali umas coisas incríveis, outras fantásticas, outras escabrosas, outras terríveis... Há umas matanças, umas iniquidades, uma parcialidade que não se explica. E Deus metido no meio daquilo. Os textos estão sujeitos ainda, a interpretações variadas. Cada qual opina de um jeito. O mais interessante é que um dos interpretadores dá o seu modo de ver como absoluto, irrefragavelmente certo, sem perceber, na maioria das vezes, que aquilo que ele supõe a expressão da verdade, está em flagrante oposição ao que a Bíblia diz. Não vê que é ele quem diz, e não a Bíblia; não cuida que o versículo passa a ser dele, e não bíblico. E não percebe que nos falham os elementos para o reconhecermos como "porta-voz" do Divino Espírito Santo; e seja a Bíblia nos é duvidosa, por não sabermos os esteios em que se estabiliza, muito mais duvidosa nos é a palavra dele, cuja iluminação não sabemos de onde veio." (Coluna "Na Hora da Consulta", in MUNDO ESPÍRITA, de Curitiba — 28-09-46).

Por seu turno, assim se expressa o teólogo K. Tonning, em LE PROTESTANTISME CONTEMPORAIN: "A Bíblia não pode ser o princípio único do conhecimento religioso; impede-o sua própria natureza: nenhum dos seus textos o prova; muitos se contradizem."

Em UMA ANÁLISE CRÍTICA DA BÍBLIA, pág. 213, C.G.S. Shalders observa: "Desde o berço é incutida a idéia de que a Bíblia é a Palavra de Deus, e a Palavra de Deus não erra; é pecado sequer entreter dúvida a esse respeito. Entretanto é essa aceitação errônea que tem trazido a confusão, é o que explica a multiplicidade de seitas entre os Protestantes, cada seita interpretando a Bíblia segundo o seu ponto de vista e julgando-se a única depositária da verdade."

Apesar de tudo isso, confessa Tomaz de Aquino: "Sou homem de um só livro (a Bíblia)."

Como o livro fala frequentemente em Protestantismo, vale recordar:

O termo "protestante" apareceu no século XVI, precisamente em 1529, quando, na dieta de Spira, Alemanha, seis príncipes e os representantes de catorze cidades convencionaram: "Nós protestamos, por meio das presentes (sic), diante de Deus, nosso único Criador, Conservador, Redentor e Salvador, e que será um dia nosso juiz, assim como diante de todos os homens e de todas as criaturas, que não consentimos nem aderimos de nenhuma maneira, nem quanto a nós nem quanto aos nossos, ao decreto proposto em todas as coisas que são contrárias a Deus, à sua santa Palavra, à nossa boa consciência, à salvação de nossas almas e ao nosso último decreto de Spira."

A dieta de 1529, como se vê, opunha-se a determinadas decisões assentadas na assembléia anterior, reunida na mesma localidade alemã, em 1526. (Cf. HISTÓRIA DO PROTESTANTISMO, de Jean Boisset, pág. 15).

Mas o Protestantismo, como doutrina religiosa cismática ou divergente do Catolicismo, surgiu oficialmente em 31 de outubro de 1517, por ocasião da propalada afixação das 95 teses contra as indulgências, de Martinho Lutero, na porta da igreja do Castelo de Wittenberg. (Gottfried Fitzer, em seu livro O QUE LUTERO REALMENTE DISSE, contesta essa versão. Afirma que se trata de uma lenda histórica, inventada pelas Igrejas Protestantes. As aludidas teses, segundo Fitzer, foram enviadas ao arcebispo Albrecht von Hohenzollern, de Madgeburgo. Uma respeitosa carta teria acompanhado o manuscrito).

Muito curiosa a tese n° 27, assim redigida: "É pura doutrina de homens a pregação que diz: Tão logo na caixa o dinheiro ressoa, a alma do purgatório para o céu já voa". Uma blasfêmia, em boa conceituação teológica.

A definição da fé luterana foi sendo feita paulatinamente, culminando na Confissão de Augsburgo, que é um dos primeiros textos fundamentais da Reforma (1530). (Cf. LUTERO — Biblioteca de História — Editora Três).

Martinho Lutero figura na História como um dos seus vultos mais controvertidos e excêntricos. Era um psicopata, no entender de Hartmann Griscar. — Uma alma atormentada — dizia Lucien Febvre. Para Vicente Themudo Lessa, foi o paladino da liberdade de consciência. Para Luiz Antônio do Rosário, "um personagem marcante, a cujo poder de sedução escaparam sequer alguns de seus adversários". Para Ricardo Feliu, um dos personagens mais enigmáticos e incompreensíveis da História Universal.

Preferimos subscrever as sensatas palavras de Hermínio C. Miranda: "Espíritos como Lutero renascem investidos de uma autoridade e de um apoio que os tornam praticamente invulneráveis, enquanto se mantiverem fiéis aos seus princípios e, nisto, Lutero foi inflexível. Sua missão: devolver à sua pureza original os ensinamentos do Mestre de Nazaré, abrindo caminho para a liberdade religiosa, base de todas as demais, porque, sendo o homem criatura de Deus, tem de, antes de tudo, harmonizar-se com o Pai." (AS MARCAS DO CRISTO — Vol.II, pg. 205).

Concordamos ainda com Hermínio, quando certifica: "João Huss é o precursor de Lutero, assim como Lutero abriu caminho para Kardec. Sem Lutero no século XVI, certamente não teríamos Kardec no século XIX, pronto para receber a mensagem que os Espíritos vieram confiar às suas mãos seguras e competentes." (Ibd. pág. 283).

Pena é que a doutrina luterana, ao invés de pugnar pela sua unidade estrutural e pela depuração de seus enganos ou desacertos, ramificou-se desordenadamente no tempo e no espaço. Só nos Estados Unidos, proliferam nada menos de 46 seitas protestantes diferenciadas entre si, ao que informa o Dr. César Ruiz Izquierdo, em ECUMENISMO (Burgos, 1948).

O que vimos de dizer apenas contém em essência um pouquinho do que, com proficiência e minúcia, Jayme Andrade expõe em seu admirável livro. Tão somente ligeiras considerações, não propriamente acerca, mas à margem de O ESPIRITISMO E AS IGREJAS REFORMADAS.

Deixamos de referir-nos especificamente a temas importantes focalizados no livro, todos convergentes para o tema central, tais como "A Divindade de Jesus", "As penas eternas", "A Reencarnação" e "Metapsíquica e Parapsicologia", porque, para tal, teríamos de fazer um tour de force, incompatível com o nosso entibiamento mental. Ademais, não queremos roubar ao leitor o delicioso sabor da novidade, do inesperado.

Afinal, mais não é preciso dizer: — o livro é muito bom. E estamos conversados.

Jayme Andrade

01
INTRODUÇÃO
02
A OPINIÃO
03
A INFALIBILIDADE DA BÍBLIA
04
A DIVINDADE DE JESUS
05
AS PENAS ETERNAS
06
A SALVAÇÃO
07
COMUNICABILIDADE ENTRE VIVOS E MORTOS
08
A REENCARNAÇÃO
09
BREVE HISTÓRIA DO ESPIRITISMO
10
METAPSÍQUICA E PARAPSICOLOGIA
11
CONCLUSÕES