HORIZONTE TRIBAL E MEDIUNISMO PRIMITIVO

1. MEDIUNISMO E ESPIRITISMO - As ciências sociais tem uma grande contribuição a dar ao estudo do Espiritismo. Quem viu isso com mais clareza, segundo nos parece, foi Ernesto Bozzano. O grande discípulo italiano de Herbert Spencer, profundamente ligado ao desenvolvimento dos estudos sociológicos, uma vez atraído para o campo dos estudos espíritas, soube aplicar a este o conhecimento adquirido em outros campos. Seus trabalhos sobre as manifestações supranormais entre os povos selvagens, publicados na revista milanesa Luce e Ombra, em 1926, posteriormente reunidos no livro Popoli Primitivi e Manifestazioni Supernormali, representam uma das mais poderosas contribuições para o esclarecimento histórico do problema espírita.

Kardec já havia esclarecido que os fatos espíritas são de todos os tempos, uma vez que a mediunidade é uma condição natural da espécie humana. Mas é com Bozzano que temos a primeira penetração espírita no exame antropológico e sociológico do homem primitivo, revelando-nos, com base em investigações científicas, as formas pré-histórica do fenômeno mediúnico. Aliás, os estudos de Bozzano levam-nos mais longe, pois revelam também as origens mediúnicas da religião. Temos assim uma teoria espírita da gênese da crença na sobrevivência, que se apresenta como uma síntese das teorias opostas da teologia e da sociologia.

Para maior clareza do nosso estudo, servimo-nos do esquema que nos fornece o chamado "método cultural", dos antropólogos ingleses, aplicado por John Murphy, com pleno êxito, em seus estudos sobre as origens e a história das religiões. Método usado na antropologia cultural e no estudo das religiões comparadas, aplica-se perfeitamente às necessidades de clareza do nosso estudo. Seu esquema é constituído pelos "horizontes culturais", dentro dos quais o desenvolvimento humano pode ser analisado na amplitude de cada uma das suas fases. É evidente que não vamos muito além do esquema. Nosso intuito não é o estudo antropológico, nem o das religiões comparadas, mas apenas o esclarecimento do problema espírita.

Os "horizontes culturais" são os meios em que se desenvolveram as diferentes fases da evolução humana. A expressão é metafórica. Chama-se, por exemplo, "horizonte primitivo", o mundo do homem primitivo. A palavra "horizonte" mostra que devemos encarar esse homem dentro dos limites da nossa visão, de todas as condiçôes do meio físico e social em que ele vivia, na paisagem cultural fechada pelos horizontes do mundo primitivo. Podemos assim examinar cada fase em seu meio, cada homem em seu mundo, compreendendo-os melhor. O estudo de Bozzano, embora anterior a esse método, integra-se nele.

O "horizonte primitivo" é geralmente dividido em três formas:

O primitivo propriamente dito, o anímico e o agrícola, Em nosso esquema, reduzimos as duas primeiras formas a uma única: o "horizonte tribal", que nos permite abranger numa visão geral o problema mediúnico do homem primitivo, e destacamos a terceira forma, dando-lhe autonomia. Isso porque o "horizonte agrícola" tem interesse especial no tocantes à mediunidade. Assim, nosso esquema da fase pré-histórica do Espiritismo é o seguintes: horizonte tribal, agrícola, civilizado, profético e espiritual. Até o "horizonte profético", segundo Murphy. O "horizonte espiritual" é uma formulação nova, exigida pelo Espiritismo.

O horizonte tribal caracteriza-se pelo mediunismo primitivo. Adotamos a palavra "mediunismo", criada por Emmanuel para designar a mediunidade em sua expressão natural, pois é evidente que ela corresponde com precisão ao nosso objetivo. Mediunismo são práticas empíricas da mediunidade, Dessa maneira, temos as formas sucessivas do mediunismo primitivo, do mediunismo oracular e do mediunismo bíblico, só atingindo a mediunidade positiva no horizonte espiritual, que surge com o Espiritismo. Somente com o Espiritismo a mediunidade se define como uma condição natural da espécie humana, recebe a designação precisa de "mediunidade" e passa a ser tratada de maneira racional e científica.

Convém deixar bem clara a distinção entre fatos espíritas e doutrina espírita, para compreendermos o que Kardec dizia, ao afirmar que o Espiritismo está presente em todas as fases da história humana. Os fatos espíritas - assim chamados os fenômeno ou suas manifestações mediúnicas - são de todos os tempos. As práticas mágicas ou religiosas, baseadas nessas manifestações, constituem o Mediunismo, pois são práticas mediúnicas. A doutrina espírita é uma interpretação racional das manifestaçôes mediúnicas. Doutrina ao mesmo tempo científica, filosófica e religiosa, pois nenhum desses aspectos podem ser esquecidos, quando tratamos de fenômenos que se relacionam com a vida do homem na Terra e sua sobrevivência após a morte, sua Vida e seu destino espiritual.

É enorme a confusão feita pelos sociólogos neste assunto, seguindo de maneira desprevenida a confusão proposital feita pelos adversários do Espiritismo. Os estudos sociológicos do mediunismo referem-se sempre ao espiritismo, Entretanto, a palavra "Espiritismo", criada por Allan Kardec, em 1857, e por ele bem explicada na introdução do O Livro dos Espíritos, designa uma doutrina por ele elaborada, com base na análise dos fenômenos mediúnicos e graças aos esclarecimentos que os Espíritos lhe forneceram, a respeito dos problemas da vida e da morte. As práticas do chamado "sincretismo religioso afro-brasileiro", por exemplo, não são espíritas. O sincretismo religioso é um fenômeno sociológico natural. O Espiritismo é uma doutrina.

Defrontamo-nos, neste ponto, com uma complexidade que também tem dado margem a confusões. Os fatos mediúnicos são fatos espíritas, assim chamados pelo próprio Kardec, mas não são Espiritismo. Porque o Espiritismo se serve dos fatos mediúnicos como de uma matéria-prima, para a elaboração de seus princípios, ou como de uma força natural, que aproveita de maneira racional. Exatamente como a hidráulica se serve das quedas dágua ou do curso dos rios para a produção de energia. Esclarecidos estes pontos, podemos passar a análise dos fenômenos mediúnicos no Horizonte Tribal.

2. ORIGEM SENSÓRIA DA CRENÇA NA SOBREVIVÊNCIA. - Bozzano apoia-se especificamente nas pesquisas do antropólogo Andrew Lang e do etnólogo Max Freedom Long, realizadas entres as tribos da Polinésia, para mostrar a existência dos fenômenos espíritas no horizonte tribal. Serve-se também de outras fonte, não esquecendo os estudos de seu mestre Herbert Spencer. Andrew Lang é o autor da tese espírita da origem mediúnica da religião, tese que lançou em seu livro The Making of Religion. Bozzano esposa essa tese e procura esclarecê-la, confrontando-a com a tese spenceriana, na qual encontra, aliás, os germes da explicação espírita do problema.

A primeira afirmação de Bozzano é a da universalidade da crença na sobrevivência. Vejamos como ele inicia o seu estudo: "Se consultamos as obras dos mais eminentes antropólogos e sociólogos, notamos que todos concordam em reconhecer que a crença na sobrevivência do espírito humano se mostra universal". Esse fato é confirmado por várias citações textuais. A seguir, Bozzano analisa as explicações que lhe dão os sociólogos e antropólogos, para concluir pela inoperância das mesmas. Somente Spencer encontra intuições seguras, que são mais tarde desenvolvidas por Lang. Este realizou um trabalho de análise comparada dos fenômenos do mediunismo primitivo com as experiência metapsíquicas, concluindo pela realidade daqueles fenômenos, que constituem a base concreta da crença na sobrevivência.

O primeiro fato concreto a surgir no horizonte primitivo, no tocante a esse problema, é o da existência de uma força misteriosa que impregna ou imanta objetos e coisas, podendo atuar sobre criaturas humanas. É a força conhecida pelos nomes polinésicos "Mana" e "Orenda", Considerada em geral como imaginária, essa força produz os mais estranhos fenômenos. Bozzano lembra a resposta de MareI Habert a Goblet D' Alviella, sobre a natureza imaginária dessa força. Dizia Habert: "Passa-me pela mente uma nuvem de dúvida. Mana e Orenda não seriam talvez concepções demasiado abstratas, para podermos considerá-las o princípio de que partiram os selvagens, para chegar aos espíritos?"

A dúvida de Habert é considerada por Bozzano "fundamental e psicologicamente" justa, uma vez que conhecemos a natureza concreta do pensamento primitivo, incapaz dos processos de abstração mental que caracterizam o homem civilizado. Mana ou Orenda não é uma força imaginária, mas uma força real, concreta, positiva, que se afirma através de ampla fenomenologia, verificada entre as tribos primitivas, nas mais diversas regiões do mundo. Essa força primitiva corresponde ao ectoplasma de Richet, a força ou substância mediúnica das experiência metapsíquicas, cuja ação foi estudada cientificamente por Crawford, professor de mecânica da Universidade Real de Belfast, na Irlanda. O método comparativo, seguido por Lang, oferece-nos ai seu primeiro resultado. A imaginária força dos selvagens encontra similar nas pesquisas dos sábios europeus e americanos, empenhados nos estudos espíritas e metapsíquicos.

O etnólogo Max Freedom Long, que era também mitólogo, realizou demoradas pesquisas entre as tribos da Polinésia, e particularmente das ilhas do Havaí, convivendo durante anos com os selvagens, para verificar a realidade e a natureza dessa força primitiva. Conclui que os kahunas, curandeiros polinésios, consideravam a existência de três formas de Mana, ou três freqüência, três voltagens dessa força, a semelhança da corrente elétrica. A mais baixa voltagem correspondia à força emitida pelos corpos materiais do cristal ao organismo humano; a voltagem média, à proveniente da mente humana; e a voltagem superior, à proveniente de uma espécie de centro espiritual da mente humana, permitindo ao homem prever o futuro e realizar fenômenos físicos a distância, bem como materialização e desmaterialização de objetos.

Outra curiosa conclusão de Freedom Long é a de que os kahunas consideravam essa força como susceptível de acumulação. Os curandeiros, que usavam de feitiçaria, podiam prender espíritos inferiores que, a seu mando, faziam provisões de Mana para atuar em ocasiões oportunas. Bozzano mostra que as conclusões do etnólogo correspondem às de Andrew Lang e aos relatos e observações de numerosos outros estudiosos do assunto, bem como de viajantes e missionários que conviveram com tribos diversas, em diferentes épocas e várias regiões do globo. Por outro lado, estabelece as relações entre essa força e o ectoplasma, o que também fizera Freedom Long.

O segundo fato concreto, de ordem espírita, do horizonte tribal, é o da existência dos próprios espíritos, também universalmente afirmada. Antropólogos e etnólogos costumam estabelecer arbitrariamente certa distância de tempo entre o aparecimento de um e outro fato. Bozzano, entretanto, rejeita essa tese, para sustentar a simultaneidade de ambos. Lembra que nenhuma pesquisa ou observação revelaram essa pretensa sucessão dos fatos e assevera: "A verdade, pelo contrário, é que essas duas concepções aparecem sempre associadas". Uma das provas está nas próprias conclusões de Freedom Long, onde vemos os espíritos operarem através de Mana, ou seja, servindo-se dessa força. A coexistência das duas concepções, a da força misteriosa e a dos espíritos, impõe-se também diante da multiplicidade dos fenômenos mediúnicos no meio primitivo, onde, como acentua Bozzano, a presença de "agentes espirituais" se impunha, de maneira positiva.

Vemos, assim, que as superstições dos selvagens, as suas práticas mágicas, não eram nem podiam ser de natureza abstrata, imaginária. Decorriam, como tudo na vida primitiva, de realidades positivas e de fatos concretos, conhecidos naturalmente dos selvagens, como sempre foram e são conhecidos dos homens civilizados, em todas as épocas e em todas as latitudes da Terra. Somente nos momentos de grande refinamento intelectual, quando os homens constróem o seu mundo próprio, de abstrações mentais, e se encastelam nas suas tentativas de explicações racionais das coisas, é que essas realidades passam a ser negadas, por uma reduzida elite. O materialismo é portanto uma espécie de flor de estufa, artificial, cultivada, em Compartimento de vidro, que isolam a mente da realidade complexa da natureza.

O aparecimento desses dois fatos no horizonte primitivos - a ação de uma força misteriosa e a ação de entidades espirituais - deve ser considerado entretanto, juntamente com o problema do antropomorfismo. De uma posição positivista, como a que Bozzano assumia, antes de se tornar espírita, esse dois fatos se explicariam pelo próprio antropomorfismo. De uma posição espírita, entretanto, tal explicação se toma insuficiente. Porque o antropomorfismo é a característica psíquica do mundo primitivo, a maneira rudimentar de interpretação da natureza pelo homem. Reduzir todo o processo da vida primitiva a esse psiquismo nascente, limitá-lo apenas à mente embrionária de criaturas semi-animais, é um simplismo que o Espiritismo rejeita.

3. DA LITOLATRIA AO POLITEÍSMO MITOLÓGICO - O antropomorfismo é uma espécie de fase preparatória do animismo. A fase em que o homem primitivo ainda não desenvolveu suficientemente o seu psiquismo, e em que interpreta todas as coisas em termos exclusivamente humanos. Quer dizer, aplica ao exterior as noções rudimentares que possui da natureza humana, dando forma humana aos elementos naturais. Podíamos aplicar-lhe o princípio de Protágoras, o sofista: "0 homem é a medida de todas as coisas." Mas uma medida por assim dizer afetiva, sem o controle da razão. É pelo sentimento, e não pelo raciocínio, que o homem primitivo humaniza o mundo.

Estamos certamente no alvorecer da razão, e mais do que isso, no subsolo do processo do conhecimento. As teorias materialistas não enxergam nada mais do que a luta dessa razão nascente com o mundo exterior. Para elas, as manifestações supranormais não são outra coisa além de projeções desse poder psíquico, visões alucinatórias da mente primitiva. Murphy, citando Rodolfe Otto, lembra que estamos diante de um processo de adoração rudimentar, em que o homem parece adorar-se a si mesmo nas coisa exteriores. Veremos como o antropomorfismo, por este aspecto, se enquadra na "lei de adoração", que Kardec estuda em O Livro dos Espíritos.

O antropomorfismo se revela por duas formas, que tanto podem ser sucessivas como simultâneas, o que é difícil precisar. Admiitindo que sejam sucessivas, podemos citar como primeira forma a vital, ou seja, aquela em que o homem primitivo projeta nas coisas o seu sentimento vital, elando vida às coisas inanimadas. A segunda forma é a volitiva, esse "segundo grau do antropomorfismo", de acarreio com Murphy, em que o homem projeta também a sua vontade, e por isso mesmo personaliza as coisas. Neste grau já nos defrontamos com o desenvolvimento do animismo, a fase em que o homem vai dar não apenas vida e vontade aos objetos e coisas, mas a sua própria alma.

Bozzano já nos mostrou o absurdo de admitir-se um processo tão complexo de abstração mental em homens primitivos. Somente a tese espírita, pode portanto, socorrer as teorias materialista, que tateiam no caminho certo, mas não conseguem firmar-se nele. A tese espírita nos mostra que o processo do antropomorfismo é auxiliado pelos fenômenos mediúnicos. O simplismo da projeção anímica nas coisas exteriores complica-se com a resposta dessas coisas ao homem, através da ação natural dos espíritos. É evidente que o homem primitivo tem de interpretar as coisas de acordo com as suas experiências vitais. A razão se forma na experiência. O homem enquadra o mundo nas categorias nascente da razão, enche essas categorias, como queria Kant, com o conteúdo das sensações. Mas as categorias, como explica hoje o Relativismo Crítico, e particularmente René Hubert, não são fixas ou estáticas, mas dinâmicas. São a própria experiência em movimento, e não um resultado da experiência. E essa experiência implica os fatos supranormais, o contato do homem primitivo com forças estranhas, como no caso de Mana ou Orenda, e com os "agentes espirituais" de que fala Bozzano.

Podemos formular uma verdadeira escala da adoração no mundo primitivo. Embora seus graus possam ser simultâneos e não sucessivos, o simples fato de existirem esses grau, mostra que a adoração, resultando de um sentimento inato no homem, desenvolve-se num verdadeiro processo. No grau mais baixo, temos a litolatria ou adoração de pedras, rochas e relevos do solo; no grau seguinte, a fitolatria ou adoração vegetal, de plantas, flores, árvores e bosque; logo acima a, zoolatria ou adoração de animais; e somente num grau mais elevado, a mitologia propriamente dita, com a sua forma clássica de politeísmo. O processo da adoração se desenvolve, assim, a partir do reino mineral até o humano ou hominal. Cada uma dessas fases é ligada à outra por uma interfase, em que os elementos de adoração se misturam. E os resíduos das várias fases, desde a litolátrica, permanecem ainda nos sistemas religiosos da atualidade. O homem carrega consigo as suas heranças, através do tempo.

Se encararmos todo esse processo dentro apenas da teoria do antropomorfismo, ou mesmo do animismo, será difícil ou impossível explicar a sua persistência nas fases superiores do desenvolvimento humano. Porque o natural, e até mesmo o dialético no desenvolvimento, é o homem libertar-se progressivamente daquilo que o ajudou numa fase e o atrapalha em outra. A persistência do antropomorfismo e do animismo, nas próprias elites culturais da atualidade, demonstra que neles havia alguma coisa além da simples projeção do homem nas coisas. Essa "alguma coisa", como já vimos, é a presença dos "agentes espirituais", atuando incessantemente sobre o homem e as comunidades humanas, em todas as fases da pré-história e da história.

Kardec dedicou o segundo capítulo da terceira parte de O Livro dos Espíritos à "Lei da Adoração". Os Espíritos Superiores que o ajudaram mediunicamente na elaboração do livro, ensinaram-lhe que "a adoração é o resultado de um sentimento inato no homem", como o sentimento da existência da divindade. Acrescentaram que ela faz parte da lei natural, ou seja, do conjunto de forças naturais que constituem o mundo, ao qual o homem naturalmente pertence. A seguir, mostraram como a lei de adoração se desenvolve nas sociedades humanas, a partir da adoração exterior de objetos materiais, até atingir aquela fase superior que definiram com estas palavras: "A verdadeira adoração é a do coração". Já vimos, anteriormente, que esses ensinamentos espirituais concordam com a interpretação antropológica de Murphy e Rodolfe Otto, de que o antropomorfismo é uma forma de "adoração rudimentar".

Lembremos ainda, para evitar confusões, que os Espíritos não falavam a Kardec por meio de visões ou de outras formas místicas de revelação. Quando dizemos que os Espíritos Superiores ajudaram Kardec a elaborar O Livro dos Espíritos, os chamados "homens cultos" costumam torcer o nariz, lembrando que também a Bíblia, os Evangelhos e o Alcorão foram ditados por Deus ou por Espíritos.

Acontece, porém, que as antigas escrituras pertencem às fases do mediunismo empírico, enquanto a codificação espírita pertence à fase da mediunidade positiva. Os Espíritos Superiores (superiores em conhecimento e refinamento espiritual, precisamente como os homens superiores), conversavam com Kardec e o auxiliavam através da prática mediúnica. Quer dizer: através de comunicações mediúnicas sujeitas a controle, e não de revelações místicas, aceitas de maneira emotiva.

Por outro lado, quando acentuamos a natureza racional do Espiritismo, não negamos o valor do sentimento. O velho debate filosófico entre razão e sentimento, traduzido no plano religioso pelo dualismo de razão e fé, encontra no Espiritismo a sua solução natural, pelo equilíbrio de ambos, na fórmula clássica de Kardec: "a fé raciocinada". No estudo do antropomorfismo, com suas formas rudimentares de adoração, encontramos todo um esquema elucidativo do velho e debatido problema. Razão e fé se apresentam como as formas de contradição de um processo dialético.

4. AMPLIAÇÃO DA TEORIA DE SPENCER - O materialismo do século dezoito negou a ação dos "agentes espirituais", tanto sobre as comunidades primitivas, quanto sobre as coletividades civilizadas. Bozzano que foi positivista durante anos, explicava a crença na sobrevivência através da teoria de Spencer, o filósofo que chegou a considerar como um Aristóteles moderno. Em que pese toda essa admiração, a realidade inegável dos fatos espíritas mostrou a Bozzano que a tese spencereana estava errada, que não era possível explicar-se a gênese da crença universal na sobrevivência por alguns fenômenos comuns, sensoriais, que exigiriam do homem primitivo uma reelaboração mental, no plano abstrato. Não obstante, Bozzano reconheceu que Spencer "pusera os pés no caminho certo". Chega a ser emocionante a maneira por que o antigo discípulo corrige o mestre, reconhecendo-lhe os méritos.

Entende, Bozzano, que faltou a Spencer o conhecimento das experiências metapsíquicas. Dessa maneira, o gênio de Spencer viu-se obrigado a tatear no plano das ciências materiais. Apesar disso, precisamente por ser um gênio, Spencer tocou no ponto central do problema, indicando os rumos certos de sua solução. A crença na sobrevivência decorre de experiências concretas do homem primitivo e não de formulações do pensamento abstrato. Sua origem está nas sensações, e não na cogitação filosófica. Esse o ponto central, que Spencer soube ver. Usando o método comparativo, Bozzano mostra como a tese de Spencer pode ser desdobrada ou ampliada, com o acréscimo dos fatos metapsíquicos, para tornar-se plenamente verdadeira.

Vejamos como isso é possível. As origens da crença na sobrevivência, para Spencer, são estes fatos comuns da vida primitiva: o sonho, quando o selvagem se sentia liberto do corpo e agindo em lugar distante; a sombra que o seguia nas caminhadas ao sol e a sua imagem, refletida na água, quando se debruçava nas bordas de um lago; o eco de sua voz, repetida pelos desfiladeiros e as cavernas. Bozzano acrescenta, ao sonho comum o sonho premonitório, que faz ver com antecedência um acontecimento futuro; ao fenômeno da sombra e do reflexo na água, os fenômenos de vidência, de aparição e de materialização de espíritos; ao eco, o fenômeno da voz-direta. E acrescenta, ainda, à força imaginária de Mana ou Orenda, a prova concreta das ectoplasmias. Como se vê, a tese spencereana desdobra-se, amplia-se, atingindo os fatos metapsíquicos, que escapavam a Spencer. Com essa ampliação, a gênese da crença na sobrevivência não deixa o terreno do concreto, dos fatos sensoriais, em que Spencer a colocara. Mas, ao mesmo tempo, o problema da indução, que implica o uso do pensamento abstrato, é substituído pela experiência imediata, mais acorde com a mentalidade primitiva. O selvagem não precisa induzir, dos vários fenômenos citados por Spencer, uma supra-realidade, pois esta se impunha a ele através dos fenômenos espíritas ou metapsíquicos, direta e imediatamente.

Quanto ao problema das ectoplasmias, convém lembrarmos que o ectoplasma, emanação fluídica do corpo do médium, é hoje uma realidade, cientificamente comprovada. Não somente as experiências clássicas de Richet, Crookes, Schrenck-Notzing e outros a comprovaram, como também e principalmente os estudos experimentais do Prof. W.J.Crawford, da Universidade de Belfast, Irlanda, que já referimos. Esses estudos foram realizados entre 1914 e 1920, com a médium Kathleen Goligher. Verificou Crawford a existência de alavancas de ectoplasma, produzindo os fenômenos de levitação. Mais tarde, chamou essas alavancas de "estruturas psíquicas". No Tratado de Metapsíquica, entretanto, Richet se refere a essa estrutura como "Alavancas de Crawford".

Gustavo Geley realizou também numerosas experiências com ectoplasma, servindo-se da médium Eva Carriére, a mesma que realizara sessões com Richet, em Argel, na casa do General Noel, produzindo as excelentes materializações de Bien Boas, um árabe. Richet publicou, no Tratado, uma fotografia dessas materializações, vendo-se o fantasma de Bien Boas pairando no ar e ligado por uma "alavanca" ao corpo da médium. Constatou Geley, com o mais rigoroso critério científico, as formas de emanação fluídica do ectoplasma, que descreveu como "uma substância esbranquiçada que sai do corpo da médium". Aconselhamos os interessados neste assunto a lerem o capítulo intitulado Ectoplasma, do livro História do Espiritismo, editado em português pela Livraria "O Pensamento", de São Paulo, em 1960, em tradução de Júlio Abreu Filho.

Mas o que nos interessa, quanto ao ectoplasma, neste momento, é a sua relação com as forças mágicas de mana ou orenda. Além da emanação fluídica esbranquiçada, a que se refere Geley, o ectoplasma apresenta-se também de forma invisível. Assemelha-se, então, a uma força imponderável, como o magnetismo ou a eletricidade. O Prof. Imoda, italiano, nas experiências de ideoplastia, que realizou com a médium Linda Gazzera, em conjunção com Richet, expõe uma curiosa teoria das três formas do ectoplasma: a invisível, a fluídica-visível e a concreta, no seu livro Fotografias de Fantasma. Geley, por sua vez, constatou que o ectoplasma, em forma invisível, girava em torno das pessoas, nas sessões, antes da produção de fenômenos.

O mais curioso, porém, é a comparação dos dados colhidos sobre a força mana ou orenda, na Polinésia, por Freedom Long, e as observações do Prof. Crawford, em Belfast, sobre o ectoplasma. Verifica-se então a plena correspondência entre as duas forças. Os selvagens polinésicos diziam, como já referimos, que o ectoplasma humano é produzido pela mente. O Prof. Geley afirma, por sua vez, que os Espíritos, nas sessões experimentais realizada por ele e outros cientistas, na Europa e na América, agiam sobre o cérebro dos médiuns e dos participantes da reunião, para provocar a emanação do ectoplasma. A observação vulgar dos selvagens, traduzindo uma simples opinião, coincide, assim, com a observação científica de Geley. Como em tantos outros casos, a ciência confirma, dessa maneira um conhecimento vulgar, adquirido na experiência comum.

Provocada a emanação, o ectoplasma gira em torno dos assistentes, flui em redor do grupo, aumentando pouco a pouco sua intensidade e sua força, para afinal se dirigir ao médium. Liga-se ao sistema nervoso deste, formando aquilo que Geley considera "um suprimento". É graças a este "suprimento" que os Espíritos, chamados por Geley de "operadores", conseguem produzir, em seguida, os vários fenômenos de levitação, movimento de objetos e materialização. A teoria científica do "suprimento" de ectoplasma corresponde também à "superstição" polinésica de acumulação ou armazenamento de mana ou orenda, para operações mágicas posteriores.

Resta acentuar que o processo de seleção do médium e de realização de sessões é praticamente o mesmo, entre selvagens e civilizados. Bozzano explica que os selvagens se utilizam de indivíduos sensitivos, depois de prová-los quanto a essa qualidade, e realizam suas sessões à noite ou ao entardecer, evitando a luz excessiva do sol. Freedom Long chega a pormenores curiosos. Os selvagens se dispõem ao redor de uma pequena cabana de palhas, para cantar e dançar, ao entardecer. O médium fica no interior da cabana. Esta corresponde, como vemos, a cabina mediúnica das experiências científicas, onde o médium se livra da incidência da luz na sala de sessões. As experiências de Crookes, por exemplo, feitas a plena luz, com as famosas materializações de Katie King, eram desse tipo. A médium, ficava num gabinete ou cabina, onde se processa a elaboração ectoplásmica. Só depois de materializado, o espírito sai para a sala iluminada.

Os fenômenos produzidos nas selvas são naturalmente mais grosseiros, violentos e fortes, que os produzidos nas experiências científicas. Isso se explica pela qualidade mental dos assistentes, do próprio médium, e consequentemente dos "operadores" ou espíritos que atuam no meio selvagem. Os fenômenos do meio civilizado são mais sutis, revestindo-se, por vezes, de inegável harmonia e beleza, como ocorria nas materializações de Katie King, com Crookes, e nas famosas sessões com o médium Douglas Home, onde havia encantadoras materializações de mãos.

As mãos grosseiras da selva, porém, e as delicadas mãos inglesas das sessões de Home, revelam a mesma coisa: a sobrevivência do homem após a morte do corpo e a possibilidade de comunicação entre encarnados e desencarnados. As mãos produzidas por manas ou orendas indicam aos homens o mesmo caminho de espiritualização indicado pelas mãos de ectoplasma. Das selvas à civilização, os Espíritos ensinam aos homens que a vida não se encerra no túmulo, como não principia no berço.

J. Herculano Pires