10 - MONTSÉGUR E O QUE RESTOU DOS SONHOS

Estabelecido, ainda que precariamente e por consolidar-se, o dominio dos franceses no Languedoc, a Igreja catara partiu para a clandestinidade, como vimos. Era como o lavrador assustado pela adversidade das condições climáticas que se empenha em preservar preciosas sementes para, no momento propicio, iniciar a semeadura, ainda que, nesse ínterim, passe fome, privações e angústias.

Por isso, diz Duvernoy (p. 256] ela "se esconde e procura para salvar-se os ninhos de águia dos Pireneus, a Espanha e a Lombardia". Repete o cristianismo primitivo que, ante a obstinada perseguição romana, refugiara-se onde fosse possível aos seus pregadores e seguidores manterem acesa a chama da esperança em melhores dias.

É impressionante a simetria. Vivem todos - ou melhor, sobrevivem - precariamente, sem saber se daqui a pouco, no entardecer deste dia ou na madrugada de amanhã, serão descobertos e aprisionados para o sacrifício maior. Em Roma, esperam-nos os leões famintos do grande circo montado para que o povão não perdesse o espetáculo de assistir a eles devorando aquela gente teimosa e incompreensível que morria orando e cantando por uma fé nova. Escondiam-se pelos bosques, nas cavernas, nas catacumbas, nos lugares ermos e despovoados, onde fossem menores os riscos. Não temiam a morte de si mesmos, mas que a mensagem do Cristo ficasse sem voz.

No Languedoc, esperam-nos as fogueiras.

Já por esse tempo, Montségur abriga a hierarquia catara toulousiana. Integravam esse grupo o parfait Gaucelm e seu "filho maior", Guilhabert de Castres, e outros parfaits e parfaites da nobreza de Fanjeaux.

A lendária montanha passou a ser a referência para aqueles que viviam por ali, à sua volta, lá embaixo, expostos à fogueira e à forca ou, no mínimo, à prisão por qualquer passo em falso. São muitos na população os que adotam, antecipando em sete séculos, a estratégia volátil e criativa dos "maquis" (termo que também Duvernoy emprega), não como guerrilheiros de uma resistência armada, mas combatentes da paz, sem armas senão as da fé. E o povão anônimo que protege e guia os parfaits - que insistem em manter o ministério da palavra evangélica em plena e perigosa clandestinidade -, de clareira em clareira, de grota em grota, levando-os a esconderijos subterrâneos, onde possam abrigar-se por uma noite ou por uns tantos dias.

Tanto os pregadores clandestinos como os que os ajudam nas suas andanças pelo território proibido contam com "o apoio da população - escreve Duvernoy (257) - e até mesmo de alguns religiosos locais", ou seja, membros da Igreja católica, por incrível que pareça.

O autor cita exemplos documentados de tal procedimento, como o de certo Guilabert Alzeu, da abadia de Sorèze, prior de Saint-Paulet (no Aude), que abrigou o diácono cátaro de Casses, por nome Bouffil e seu companheiro. Alzeu obteve para eles cartas de reconciliação do próprio Arnaud Amaury, o poderoso legado papal, chefe espiritual da Cruzada, de quem era amigo pessoal. O mesmo tipo de compreensão, tolerância e caridade cristã Alzeu presta a duas parfaites que ficam autorizadas a permanecer em Casses.

A grande figura desse período de altos e baixos para a Igreja catara foi Guilhabert de Castres. Recorreremos para as notas a seu respeito ao excelente e respeitável texto de Jean Duvernoy (pp. 265-266) em sua Hístoire cies cathares.
Quando o catarismo ressurgiu da clandestinidade, Guilhabert foi, na opinião do historiador, a alma da retomada e "assumiu pesadas responsabilidades", tenha ou não previsto "as novas desgraças que se abateriam sobre seu país e sua Igreja".

Seu irmão Isarn foi, por algum tempo, diácono (cátaro) de Laurac e suas duas irmãs eram parfaites. Ao que se depreende, pertencia a uma das melhores famílias de Castres, nas quais era comum o nome Guilhabert. Antigos documentos mencionam, às vezes, sua ligação com Bernard de Castres, cavalheiro engajado na luta contra os invasores franceses.

Guilhabert é mencionado pela primeira vez nos papéis da época, em Fanjeaux, em 1195. Sabe-se ter sido ele quem ministrou o consolamentum ao moribundo Pierre-Roger de Mirepoix, o velho, ferido numa escaramuça. Foi também ele que recebeu na Igreja cátara Esclarmonde de Foix e outras damas da alta nobreza. Representou condignamente o catarismo no colóquio de Montreal, em 1207, e no de Laurac, em 1208. Eram, ainda, tempos relativamente calmos e tolerantes, nos quais católicos e cátaros debatiam publicamente suas idéias. Como se sabe, a Cruzada começaria em 1209.

Entre 1211 e l219 ele é mencionado junto de seu irmão Isarn, em Montségur, onde mais frequentemente são encontrados nos intervalos de suas andanças pela região a serviço de seus ideais, mas também em diferentes castelos ao longo das fronteiras.

Em 1219, passa algum tempo em companhia de Raimond Mercier, diácono de Mirepoix, em Dun. Voltaria a essa localidade, em 1224, juntamente com Bernard de Lamothe e Guiraud de Gourdon, para consolar o cavalheiro Raimond dArvigna.

Em 1221, participa de uma reunião que Duvernoy caracteriza como de "interesse diplomático" na residência do prior de Manses. Estavam, ainda, presentes dois gandes senhores feudais da região dos Pireneus, o visconde Arnaud de Castelbò e o conde de Pallars Roger, o Velho, de Comminges. Não se sabe ao certo o tema em discussão no importante evento, mas Duvernoy informa que certamente se tratou ali de obter o apoio da nobreza catara espanhola, ante a expectativa da reconquista territorial, com a sonhada e possível expulsão dos cruzados.

Num período de mal disfarçada clandestinidade, que envolvia consideráveis riscos, Guilhabert trabalhou em favor da articulação de uma trégua, entre 1223 a 1225, percorrendo a região (Laurac, Puylaurens, Castelnaudary, Fanjeaux, Mas-Saintes-Puelles).

Mandou, em seguida, construir uma casa para seu uso pessoal nos terrenos do castelo de Fanjeaux, junto da residência de Bernard-Huc de Festes, e ali passou a fazer suas pregações quase que abertamente, ou seja, sem os cuidados necessários a proteger-se melhor dos espiões.

Enquanto isso, duas parfaites vieram juntar-se ao grupo: uma de suas irmãs e mais Orbia de Festes, mãe de Gaillard de Festes - que, por sua vez, era tia de Bernard-Huc.

O último ato público a que esteve presente antes da chegada do exército do rei Luís VIII, foi o concílio de Pieusse, em 1225. A partir desse momento, retornou à clandestinidade. Encontrava-se em Caselnaudary, quando as tropas francesas impuseram o cerco à cidade. Foi retirado dali, incógnito, por Bernard-Oth de Niort, misturado a um grupo de monges, o que denota bom nível de convivência pacífica entre cátaros e católicos, pelo menos em circunstâncias difíceis, sob a pressão de inimigos comuns.

Os monges ficaram em Boulbonne e Guilhabert foi conduzido a Foix, onde também podia contar com a proteção de amigos como Raimond Sans, senhor de Rabat, a quem foi entregue para ser posteriormente encaminhado ao seu "ninho de águia" (abrigo) em Miramont, no Sabartès. Ficou lá por algum tempo em companhia de Isarn de Castillon, co-senhor de Mirepoix, e (atenção!), de Pierre de Mazerolles, senhor de Gaja (também se escreve Gaia), e de Gaillardde Festes de Fanjeaux.

Como podemos perceber, a turbulenta vida de Guilhabert, no corajoso exercício de seu ministério religioso e de sua indiscutível liderança, desenro-la-se no cenário em que também viveu Roger-Isarn - reencarnação do dr. Arthur Guirdham, no século doze -, e no qual se movimentam as mesmas personagens mencionadas nos relatos mediúnicos, em vidências, sonhos e demais fenômenos de "far memory" constantes da aventura espiritual vivida pelo dr. Arthur Guirdham na Inglaterra do século vinte.

Depois de algum tempo em Gaia (grafia preferida pelo dr. Guirdham), Gilhabert de Castres retoma ao Lauragais, onde o chamam seus deveres de mais destacado líder do movimento cátaro na época. Documentos de então (Duver-noy os consultou), mencionam sua presença em Villeneuve-la-Comtal, sob a proteção de Pons, o senhor local, que, aliás, faz substancial doação aos parfaits, já naquele momento recolhidos em Montségur.

Há notícias de Guilhabert também em Labécède, sob a proteção de Pagan, o dono do castelo e futuroparfait, um dos três irmãos proprietários de Montgaillard.

Em época não indicada nos registros, três irmãs de Guilhabert vão se juntar a ele e acabam aprisionadas por Pierre de Voisins. Este cavalheiro era um barão francês (eram chamados "terriers") que perdera a propriedade que lhe fora concedida durante a Cruzada e a reconquistara. Tornara-se senecal de Carcassonne.

Pierre concordou em libertar as irmãs de Guilhabert contra o pagamento de nove mil sons.

Em 1227, Orbria de Festes e uma das irmãs de Guilhabert que vivia com ela, deixaram Fanjeaux e foram, de início para a residência de Honors, mulher de Loup de Foix, em Montaut e, depois, a Puivert, residência do próprio Loup de Foix.

Ao cabo de três anos de cladestinidade e riscos, desde a chegada do exército real em 1226, até a capitulação de 1229, Guilhabert vai para sua residência de Saint-Paul-Cap-de-Joux, antiga sede episcopal do catarismo na região toulousiana.

A essa altura, porém, a Igreja catara perdera o apoio dos antigos e legítimos proprietários da nobreza occitana. "Daí em diante - conclui Duvernoy (p. 266) -ela terá por defensores apenas os fora-da-lei e os 'faidits'."72

Encontramos outras informações sobre Guilhabert de Castres no livro de Zoé Oldenbourg. Conta-nos a historiadora que ele fora elevado, aí por volta de 1223, à posição de bispo de Toulouse, que "se honrava de tê-lo" nesse posto. Sua residência oficial - mais um ponto de referência do que de permanência, ficava em Fanjeaux, não muito distante de Prouille, onde se encontrava o primeiro convento dominicano, fundado por Domingo de Gusman, morto em 1221.

O infatigável líder cátaro vivia em permanentes viagens pastorais por toda a região, especialmente Fanjeaux, Laurac, Castelnaudary, Montségur e Mire-poix, bem como Toulouse, naturalmente.73
Por essa época - assegura Oldenbourg (p. 334) -, Guilhabert estaria perto dos sessenta anos de idade, de vez que trinta anos antes já se tem notícia de seu trabalho como dirigente da comunidade de Fanjeaux. Informa, ainda, que ele teria ainda, cerca de vinte anos de vida, sempre ativa e destemida. Não se sabe, contudo, a data e as circunstâncias de sua morte.

No debate de Montreal, em 1207, confrontara-se com Domingo e os legados papais da época. Em 1222, como vimos, estava em Castelnaudary, durante o sítio a que Amaury de Montfort submetera a cidade. Mais tarde, quando os cátaros voltaram à clandestinidade, após curto período de relativa liberdade, foi ele quem solicitou a Raymond de Péreille, senhor de Montségur, que pusesse à disposição da Igreja catara o seu castelo no alto da montanha e ali instalasse o quartel-general da resistência.

Oldenbourg declara ser "algo desconcertante" que um homem como Guilhabert, que parece ter sido uma das grandes personalidades da França no século treze,74 tenha sido praticamente ignorado pelos cronistas da época. Paradoxalmente, queixa-se ela (p. 335), conhecemos toda a correspondência de Inocêncio III, ou o registro das "cóleras e dos impulsos de piedade de Simon de Montfort". É que, como explica Brenon, os cátaros não tiveram seus cronistas ou historiado-

72 Como temos visto, eram chamados "faidits" - termo às vezes grafado comy, "faydits" - os an¬tigos barões e cavalheiros expulsos de suas terras. Os textos franceses os caracterizam como dépossedés, isto é, despossuídos. Os que conseguiram sobreviver ou seus herdeiros ainda so¬nhavam com a retomada de seus antigos domínios. Meros sonhos, irrealizáveis...

73 O leitor e a leitora de Arthur Guirdham percebem pela simples enunciação dos nomes, que essa é a geografia na qual o velho psiquiatra inglês do século vinte vivera como antigo cátaro. Apurou mesmo o doutor ter sido um dos 'filhos' hierárquicos do grande bispo

74 Há vários outros líderes de maior porte histórico citados por ela: Bernard de Simorre, bispo de Carcassonne, Sicard Cellerier, bispo de Albi, Pierre Isarn, de Carcassonne, queimado em 1226, Bernard de La Mothe, de Toulouse, também executado na fogueira, e Bertrand Marty, sucessor do próprio Guilhabert res. Ou, se os tiveram, os documentos que porventura tenham escrito sumiram ou foram também consumidos em fogueiras 'purificadoras'.

Na sua postura francamente pró-cátara, lembra Oldenbourg que "A história dos fatos e dos gestos dos apóstolos perseguidos tenha sido, talvez, tão fecunda em inspiração e ensinamentos quanto a de um são Francisco de Assis; também eles - insiste - eram mensageiros do amor de Deus".

Sinto-me no dever de repassar a você que me lê o belo texto que Oldenbourg escreveu para concluir essas reflexões. Pela minha aferição, é emocionante: "Se nada pode reparar o crime contra o Espírito - escreve (p. 335) -, pelo menos devemos, ao admitir nossa ignorância, reconhecer que algo de grande foi destruído. A história da Idade Média, tal como a conhecemos, seria falsa sem esse grande espaço que permaneceu vazio."

Na fase final da cladestinidade, aqueles que tiveram a coragem de "afrontar todas as provações - escreve Oldenbourg (pp. 431-432) - [...] refugiaram-se em abrigos inexpugnáveis como Montségur, Quéribus, ou em regiões como o Lauragais e o condado de Foix, onde a heresia continuava suficientemente forte para enfrentar a Igreja (católica)".

Na verdade, os refúgios não eram inexpugnáveis como possam ter parecido. Com tempo suficiente - dez meses - e determinação, as tropas do rei francês conquistaram Montségur.

Mais que um refúgio, porém, Montségur tornou-se a referência máxima do catarismo nos tempos da aflição e o seu ícone histórico e lendário pelos séculos afora.

Os cavalheiros, acompanhados de suas famílias, vinham em peregrinação, tanto quanto figuras anônimas do povo, em grupos ou separadas. Ali podiam assistir em paz aos singelos cultos, ouvir os pregadores, receber as bênçãos dos parfaits, solicitar-lhes conselhos ou instruções a respeito de como proceder lá embaixo na penosa convivência com o perigo que os espreitava de cada canto, por detrás de cada porta, árvore ou pedra.

O castelo situava-se em terras que, após a conquista, pertenciam oficialmente a Guy de Lévis, companheiro de Simon de Montfort e o novo suserano de Mirepoix. Constituíra, porém, parte da herança de Esclarmonde, irmã de Raymond-Roger de Foix e estava em poder de Raymond de Péreille, vassalo do conde de Foix.

Embora proprietário, pela força das leis da conquista, Guy não se arriscara a tomar posse do castelo, primeiro porque o conde Foix era senhor poderoso e respeitado, cujo domínio ninguém ousava contestar; segundo, porque Montségur era um ninho de águias, situado em região notoriamente devotada à heresia e de difícil acesso, longe das rotas habituais de circulação e (aparentemente) impossível de ser tomado de assalto. Tanto as tropas cruzadas como, posteriormente, as do rei Luís VIII entenderam não ser de seus interesses a conquista.

O pico de Montségur fica na vertente norte dos Pireneus, a uma altitude de dois a três mil metros, dominando por três lados os vales profundos à sua volta. E um imenso penhasco meio arredondado, na forma de um pão doce.75 O acesso somente era viável pela vertente ocidental, que desce para o vale em forte declive e a descoberto, ou seja, sem esconderijos para quem pretendesse assaltar a fortaleza.76

O castelo construído no tope do maciço rochoso era muito pequeno e não podia abrigar grande número de defensores e, muito menos, ainda, acolher comunidade maior por muito tempo, mesmo em tempos de paz e sem inimigos de alerta lá embaixo, vigiando cada movimento dos assediados ou de quem porventura se aproximasse.

Anne Brenon (p. 256) chama a atenção para dificuldades que não podemos nem imaginar hoje, enfrentadas por cerca de quatrocentas ou quinhentas pessoas apinhadas em forçada convivência, no topo de um espigão rochoso, em plena montanha, sem nascentes de água, sem terreno para cultivar e até sem espaço físico para construir um mínimo de habitações, por mais precárias que fossem. Sem contar, os numerosos e constantes visitantes, enquanto isto foi possível. No entanto, ali viveu uma comunidade exclusivamente cátara, durante quarenta anos, como assinala a mesma Brenon alhures (p. 250).

Em 1204, estava em ruínas o castelo que, já há algum tempo, era considerado pelos cátaros como local particularmente adequado aos seus cultos. Como vimos há pouco, Guilhabert de Castres solicitou a Raymond de Pereille, seu proprietário, que o restaurasse e o fortificasse, ainda que não houvesse àquela época qualquer necessidade premente de se defenderem seus moradores.

Oldenbourg depreende de tais informações (p. 449) que o castelo representava para os heréticos mais do que eventual refúgio contra seus inimigos, mas não esclarece por que pensa dessa maneira. De qualquer modo, data do início do século treze o interesse dos cátaros pelo local, onde alguns bispos e, em especial, Guilhabert de Castres, vinham pregar.

Eram, por outro lado, imprecisos os direitos de Esclarmonde de Foix sobre a propriedade. O que se sabe é que ela exercia considerável influência em toda aquela região, de vez que Foulques, o turbulento bispo católico de Toulouse, lhe rende indireta homenagem ao declarar certa vez que, "com sua maldosa doutrina, ela conseguiu grande número de conversões".

75 Na verdade, o texto francês de Oldenbourg (p. 448) usa a expressão "pain de sucre" (pão de açúcar), nome dado ao famoso rochedo que monta guarda à baía de Guanabara, no Rio de Janeiro.

76 Vejo no providencial Aurélio que o termo fortaleza vem, precisamente, do occitano fortalessa. Aliás, Montségur, também é occitano para "monte seguro".

Em 1232, Raymond de Pereille é o único senhor da propriedade e foi ele que atendeu ao pedido de Guilhabert, líder espitritual incontestado de toda a região, mandando promover as obras necessárias a fim de que Motségur se tornasse refúgio e sede oficial da Igreja cátara.

Foi ali também que começaram a se abrigar em pequenos grupos, as parfaites que "a tormenta dispersou" das instituições equivalentes aos conventos católicos, destinadas à educação de mulheres jovens para as tarefas da seita.77 Forçadas a abandonar as instituições cátaras, no período mais agudo da perseguição, as parfaites instalaram-se em Montségur em cabanas precárias, algumas delas cravadas na rocha e outras, meio suspensas sobre os precipícios, a grande altura. Como assinala Oldenbourg (p. 450), "constituíam abrigo inacessível e desconfortável que não deviam repugnar ao temperamento ascético daqueles seres em busca de Deus".

Num espaço assim difícil, inóspito e agreste, somente teria condições de viver gente "disposta a todos os sacrifícios" (Oldenbourg). E verdade. Muita coragem e, sobretudo, muita fé nos princípios que defendiam com a própria vida. Acresce que as parfaites e as jovens senhoras provinham, via de regra, de ricas famílias nobres, acostumadas ao conforto que as habitações da época podiam proporcionar.

Antes que expirasse a primeira metade do século treze, aí por 1240, a nobreza languedociana estava dizimada, arruinada e exilada, mas ainda preservara algum poder, e, precariamente, as respectivas propriedades. Alinhavam-se nessa situação, ainda tolerável, a maior parte dos vassalos do conde de Toulouse e os do conde de Foix, bem como alguns dos antigos vassalos dos Trencavel.

Posteriormente ao massacre de 1244, iria a Inquisição bisbilhotar minuciosamente os depoentes para conhecer com maior precisão o que se passava lá em cima, naquela comunidade disposta a tudo para preservar seus ideais religiosos.

A despeito do constante fluxo de visitantes - dezenas de cavalheiros, mulheres da nobreza e soldados que iam e vinham entre Montségur e as comunidades da região ou mais distantes, "não se apurou absolutamente nada (Oldenbourg, p. 454), a não ser que (os visitantes) ouviam os sermões".

Com prudentes ressalvas e cautelas, Oldenbourg chega a admitir a possibilidade de que as conversações entre parfaits e cavalheiros visitantes cuidassem também de aspectos políticos e até militares da situação. Não que os parfaits organizassem ou participassem de qualquer tipo de atividade bélica, mas esse era o exemplo vivo de clérigos católicos, alguns até posteriormente canonizados. Afinal de contas, foi um grupo de cavalheiros vindos diretamente de Montségur -lembra a autora - que participou do espetacular ato de terrorismo, no terrível massacre de Avignonet.

77 A realidade de tais instituições foi confirmada no decorrer do curioso surto memorialista ocorrido no âmbito das experiências relatadas pelo dr. Arthur Guirdham.

Não parece a Oldenbourg que os parfaits hajam inspirado ou ajudado a planejar procedimento tão radical como aquele, mas ela admite que eles possam até tê-lo aprovado. Afinal de contas eram seres humanos, conscientes de que a sorte da Igreja de seus sonhos estava ligada à de todo o Languedoc, sua pátria terrestre. Podiam, portanto, ser tão patriotas quanto os cavalheiros faidits, mesmo porque eram eles os que mais de perto sentiam as angústias da perseguição.

Não há como minimizar o papel de Montségur nos dramáticos eventos da época e a destemida militância e respeitada liderança exercidas por Guilhabert de Castres.

E nesse ponto de seu relato (pp. 456 e seguintes) que Oldenbourg menciona o muito discutido tesouro de Montségur que acabou tornando-se relevante episódio na legendária história da montanha de pedra.

Segundo essa autora, o tesouto consistira, de início, de depósitos de prata confiados à guarda da Igreja, como vimos alhures, ou para manutenção da comunidade que, depois de instalada em Montségur, não era auto-sustentável, mesmo reduzida a uma vida de privações submonásticas.

Além dos recursos em metal valioso - talvez algum ouro também - havia, no dizer de Oldenbourg, "livros sagrados, talvez manuscritos muito antigos e obras de doutores particularmente venerados".

A literatura cátara - acrescenta - era abundante e não ficava restrita ao Novo Testamento. Os cátaros eram estudiosos e tão apaixonados por teologia como os católicos. Haveria, além disso, outras coisas? A autora especula sobre a possibilidade de relíquias ou objetos sagrados, mas deixa a pergunta no ar. Assegura, no entanto, que nenhum depoimento posterior à Inquisição jamais mencionou qualquer particularidade acerca do tesouro.

Tanto quanto posso eu avaliar, muita coisa do catarismo permaneceu ignorada. O núcleo central da hierarquia catara afigura-se em várias passagens históricas discreto, reservado, impenetrável, inacessível ao leigo. Se, de fato, o famoso tesouro de Montségur tenha contido mesmo livros e documentos aos quais somente os maiorais da hierarquia tenham tido acesso, não teria sido a primeira vez que uma seita ou comunidade religiosa na antevéspera de sua extinção tenha procurado preservar sua história e os textos sobre os quais construiu sua identidade ideológica. Além dos livros sagrados como a Bíblia judaico-cristã registram, há exemplos outros, como atestam os achados do mar Morto, dos essênios, e os de Nag-Hammadi, dos gnósticos.

Essa obscuridade crepuscular pode ter acolhido também, informações valiosas sobre a verdadeira essência dos procedimentos cátaros, na intimidade de suas reuniões para debates teológicos ou, quem sabe?, para o exercício de intercâmbio com os espíritos, tão amplamente referidos nos textos primitivos - Atos dos Apóstolos, as epístolas de Pedro e João e, principalmente, as de Paulo, bem como no Quarto Evangelho, que constitui documento de obvias características mediúnicas para leitores e leitoras informados acerca da realidade espiritual.

Qualquer que seja a natureza do tesouro de Montségur, no entanto, o que se deduz, segundo Oldenbourg, é que o próprio local começou a assumir excepcional importância na mente de todos os crentes do Languedoc, "tornando-se um lugar santo por excelencia". Entre 1232 e 1242, com a Igreja cátara firmemente implantada ali, Montségur adquiriu extraordinário relevo. Doentes terminais e moribundos faziam-se transportar para lá, com os grandes sacrificios que podemos imaginar, apenas pelo privilégio de receber o consolamentum e serem sepultados por ali mesmo, à sombra das muralhas e dos rochedos.

Além do difícil e penoso acesso, o local parecia protegido por uma aura de sacralidade e respeito. Por três vezes consecutivas, Raymond VII, cuja atitude perante os cataros e a própria Igreja católica, aliás, era um tanto ambígua, fracassou na tentativa de apoderar-se do local, que se tornara um espinho atravessado na garganta da Igreja e na do rei de França. Compreende-se o interesse em apagar a chama viva do que ali restava do catarismo organizado, que se tornara ativo núcleo de resistência e desafio.

Da primeira vez, em 1235, o conde mandou três cavalheiros de sua confiança incumbidos de tomar posse de Montségur. Os emissários foram bem recebidos, prestaram as devidas homenagens a Guilhabert de Castres e regressaram a Toulouse.

Pouco depois, o conde enviou, com idêntica missão, um de seus administradores - baile1% - de nome Mancipe de Gaillac, mas, também ele e seus homens, limitaram-se a 'adorar' os parjaits, como de praxe, e a voltarem em paz para Toulouse.

Da terceira vez, o mesmo Mancipe foi reenviado a Montségur, com um séquito armado que se apoderou de Jean Cambiaire e de mais três parfaits e partiram com eles, de volta a Toulouse, onde foram queimados, como sempre, para "maior glória de Deus", como diziam os textos. Como se algo fosse possível acrescentar-se à glória de Deus e, ainda mais, queimando gente viva na fogueira...

O incidente, comenta Oldenbourg (pp. 455-459), caracteriza a ambiguidade de Raymond VII perante a heresia. Consta, porém, do testemunho de quem o conheceu melhor, que era bom e convicto católico e que talvez tivesse mesmo sincera rejeição pela heresia catara, que, afinal de contas, era a causa - involuntária que seja - das desgraças de seu riquíssimo condado. E possível, por outro lado, que ele tenha procurado servir-se da heresia - concede a autora - "como instrumento para ajudá-lo a reconquistar sua independência".

78 Baile - o Larousse informa que a palavra vem do italiano - bailo -, termo que identificava os governadores de colônias venezianas e que, por sua vez, vinha do latim bajulus, palavra que servia para várias situações, baseadas todas no conceito original de transportar ou carregar alguém ou alguma coisa, como uma mensagem, por exemplo. Em suma: um moço de recados. Os bajuladores têm, afinal de contas, uma longa história...

Tem suas razões Oldenbourg para considerar ambígua a atitude de Raymond VII quanto aos hereges, dado que, às vezes, ele se mostra tolerante em relação à heresia e até parece protegê-la, ao passo que, em outras oportunidades, manda capturar alguns heréticos e os envia à fogueira.

Quando do assalto final à montanha, em 1244, contou-se como certo, até o último momento, que o conde enviasse uma tropa de socorro, desde que os defensores resistissem mais sete ou oito dias. Mas ele estava fora do país e ocupado demais com as intermináveis negociações com as quais fazia o desesperado esforço para salvar pelo menos o que lhe restava. Quando, afinal, conseguiu retornar ao Languedoc, Montségur já havia sido conquistado.

Seja como for, o castelo de Montségur permanece um tanto enigmático nos documentos históricos, a despeito da respeitável postura de alguns historiadores de alto escalão que parecem - pelo menos a mim, ignaro escriba a contemplá-los à distância - empenhados em desmistificar a célebre montanha segura. Anne Brenon, por exemplo, para a qual Napoléon Peyrat, na sua Histoire des albigeois (1872) "escancarou de um só golpe a larga porta da mitologia montseguriana. Mal descoberta - prossegue (p. 269) - Montségur despencou na quarta dimensão da fantasmagoria".

Para essa especialista, coube a Fernand Niel e, mais tarde, Michel Roquebert - na meticulosa releitura que fizeram dos depoimentos inquisitoriais prestados pelos sobreviventes do massacre, Raimon de Pereille, sua família e seus companheiros -, resgatar Montségur de "um século de delírio mais ou menos estético, mais ou menos gratuito". Montségur já teria contado sua história. "Só lhe resta - conclui - calar-se e contemplar o azul das montanhas."

Brenon escreve que é uma beleza! Certamente tem suas razões para assim pensar, mesmo porque não há como duvidar de que a gigantesca fogueira que encerrou a trágica saga vivida pelos cátaros no topo do imponente maciço rochoso tenha incendiado também a imaginação de muitos e aquecido a fantasia de outros tantos.

Jean Duvernoy, com o peso indiscutível de sua autoridade, também condena Napoléon Peyrat, atribuindo-lhe o título pouco lisonjeiro de "historiador romântico" {La religion des cathares, Privât,1976, Toulouse, p. 281).

Em L'histoire des cathares [Privât, 1979, Toulouse, p. 339], o eminente historiador refere-se novamente à "veia romântica" de Peyrat, ao descrever os cátaros como "cristãos joanistas", fixados quase que exclusivamente no Quarto Evangelho. E acrescenta que, nos cinco volumes de Histoire des albigeois (publicada a partir de 1870), "num estilo já então fortemente 'démodé', e atualmente ridículo, vulgarizou todo um sistema de imagens e mesmo de clichés sobre a Cruzada, Montségur e os protagonistas do drama. "[...] a maior parte de seus disparates ou de suas invenções - continua - é reproduzida até hoje por certa literatura".

Mais adiante (p. 344), menciona ainda Duvernoy, a exploração turística dos 'achados' de Peyrat. Cita como exemplo o famoso Guide bleu - (Guia Azul, para turistas) ao 'informar', desde as primeiras edições, que na grota de Lombrives, no Ussat, milhares de cadáveres foram enterrados pela Inquisição, em 1328, quando, na verdade, Quéribus, um dos últimos redutos cátaros no Languedoc, havia sido tomado em 1255, há mais de 70 anos.

Vejo-me, uma vez mais, neste ponto, em pleno tiroteio da erudição, mas insisto em manter minha ignara opinião de que o catarismo ainda tem aspectos, digamos, 'ocultistas' a revelar. Pelo que depreendo das leituras e releituras em que me empenhei, mesmo varrendo para fora os exageros da fantasia e enxotando os fantasmas a que se refere Brenon, me parece que persistem vultos e sombras, enigmas e questionamentos, indícios e pistas sobre o que realmente se passou ali, além do inacreditável heroísmo daquela estranha gente que desejava ver, sentir, estudar e seguir o Cristo a partir de uma óptica antiga e injustamente abandonada.

Talvez seja por causa de minhas atávicas inclinações pelo mistério e o desconhecido, mas o certo é que me parece algo precipitado lançar fora a água do banho com a criança ainda na bacia.

Fico, portanto, com o prof. René Nelli, que, embora timidamente, como vimos, admite indícios de envolvimento do catarismo com a fenomenologia da realidade espiritual que justificariam, no mínimo, um estudo mais aprofundado da questão.

Reconheço a dificuldade de uma tarefa dessa natureza. Primeiro porque os próprios pesquisadores não demonstram muito interesse pela temática, quando não a rejeitam liminarmente. Segundo, porque as fontes primárias de consulta - atas e demais documentos inquisitoriais - não são nada confiáveis para uma equilibrada avaliação da matéria e nem estariam os inquisidores preparados para a tarefa. Para eles, qualquer fenômeno desse tipo provindo dos cataros seria pura e simples manifestação de bruxaria, feitiçaria, necromância ou demonologia. Terceiro porque, se é que houve mesmo práticas mediúnicas de intercâmbio com os 'mortos', os cátaros seriam os primeiros a conservá-las sob a mais cautelosa reserva.

Alguma esperança de decidir, sim ou não, sobre tal aspecto, repousa na possibilidade de encontrar-se um dia o lendário 'tesouro' dos cataros, não pelo seu valor material em prata, ouro ou objetos, mas pelos livros e documentos que, sabemos hoje, faziam parte daquele precioso acervo. Na verdade, Déodat Roché coloca os livros acima do valor puramente comercial do dinheiro dos cátaros. Conta ele (p. 134) que "Bertrand Martin (...) incumbiu quatro bons hommnes de salvar o tesouro dos livros e a reserva de prata da Igreja Catara (que haviam sido) escondidos na floresta de Serrelongue". (Itálicos meus.)

Sabemos dos cátaros o que eles ensinavam, como pregavam e procuravam servir ao povo, desde os palácios até aos casebres e pelas estradas, bosques e furnas. Mas o que realmente pensavam, debatiam, estudavam e praticavam na intimidade de suas reuniões mais reservadas?

Mesmo com toda a sua ironia e arrogante superioridade, Christian Bernardac discorre documentadamente, em Le mystère Otto Rahn (p. 277), como vimos alhures neste livro, sobre "Uma seita de espíritas em Pamiers em 1320.'

Ao mencionar certas singularidades da arquitetura das construções de Montségur e a enigmática escolha de região tão isolada e inacessível, Zoé Oldenbourg chega a admitir a hipótese de ter sido ali, em algum tempo, praticado um culto solar, ideia essa rejeitada pelos historiadores mais recentes do catarismo.

Percebe-se, aliás, que Oldenbourg é praticamente ignorada por estes. Não se encontra qualquer referência a ela e a seus livros na bibliografia de Duvernoy, Roquebert e Brennon, pelo menos nos livros que venho consultando para este estudo.
Aproveitemos a deixa para falar um pouco de Montségur e de como os franceses conquistaram, afinal, em nome do rei, a montanha tida por inexpugnável.

Foi em Béziers, exatamente onde ocorreu a primeira matança da Cruzada, que se decidiu, em 1243, que já era tempo de se apoderar do castrum [castelo fortificado] de Montségur. Interesses políticos e religiosos convergiam no interesse de tal providência. A quase inacesssível fortaleza matinha-se como um enclave rebelde em território que, de direito, já pertencia a Guy de Lévis, cruzado francês, amigo de Simon de Montfort, como vimos.

Quanto à Igreja católica, não era de se esperar que assimilasse sem qualquer reação o sangrento massacre de Avignonet, praticado por um comando de cavalheiros vindos diretamente de Montségur. Era dali, como se sabia, que a Igreja catara administrava os aspectos pacíficos da resistência religiosa em toda a região. Era "impossível - declara enfaticamente Roquebert (p. 375) - considerar le (Montségur) como uma espécie de mosteiro de contemplativos". Abrigavam-se, ali, tanto leigos, nem todos necessariamente croyants, como parfaits e parfaites, o que implicava a existência de uma comunidade com vida civil e militar, em paralelo com as atividades religiosas".

Durante quarenta anos ali viveram, segundo Roquebert, mais de mil pessoas. Por ocasião do cerco, a partir de 1243, estima-se uma população mínima de trezentas e sessenta e uma pessoas, das quais cinquenta leigos, inclusive a guarnição.
Segundo Arnaud-Roger de Mirepoix e Raymond Pereille, as duas autoridades civis máximas da comunidade, o exército do senecal do rei postou-se ao pé da montanha, pelo menos em parte, para o sítio, ao fim de maio de 1243, um mês após o concílio de Béziers.

Alguns meses decorreram até que fosse possível bloquear completamente toda e qualquer comunicação dos sitiados com o exterior. Eles sempre conseguiam furar o cerco, num sentido e noutro, "com coragem e astúcia" e até com alguma cumplicidade dos habitantes da região.

Os primeiros feridos e até mortos foram do lado dos habitantes do penhasco. Nem um lado, nem o outro, no entanto, tinha como saber das intenções do adversário. No comando das tropas sitiantes, o senecal pretendia tomar Montségur de assalto antes do inverno, mas a operação era extremamente difícil e marcada pelas incertezas. A alternativa seria um jogo de gato e rato, que Roquebert caracteriza como "guerra de posições e desgaste". Como poderiam, por exemplo, os atacantes conhecer os limites da resistência dos sitiados e de sua munição e provisões?

De qualquer modo, enquanto o comandante das tropas do rei desejava liquidar o assunto antes do inverno, Pierre-Roger de Mirepoix, comandante da defesa, esforçava-se por levar a campanha até o inverno, na esperança de que o inimigo se visse obrigado a retirar-se premido pela severidade da estação fria.

Sabe-se pouco das operações de guerra nos primeiros seis meses do sítio. Foi em dezembro que os eventos começaram a tomar rumo decisivo. A idéia dos atacantes era tomar o castelo fortificado até o Natal. Sabia-se que habitualmente não nevava na região antes de meados de janeiro, no máximo até fevereiro. Não havia tempo a perder.

A tropa real organizou um comando de soldados com armas leves, que Roquebert supõe ter sido composto predominantemente de mercenários recrutados ali mesmo e que conhecessem bem a região. O grupo escalou, durante a noite, o rochedo da Torre, acima das gargantas do rio Lasset, e se apossou de surpresa de um posto de vigilância, onde as sentinelas foram prontamente assassinadas.

Foi uma importante conquista, de vez que, pela primeira vez, a tropa assaltante tomava pé na montanha. Tratava-se de uma crista rochosa a 850 metros de altura a 800 metros de distância das primeiras defesas do castelo que, por sua vez, estavam instaladas a 1207 metros de altura.

O objetivo, portanto, era prosseguir pela crista acima até confrontar-se com os defensores. Reforços humanos, armamento mais leve e as pesadas peças da 'artilharia' da época - devidamente desmontadas - poderiam subir pelo mesmo caminho percorrido pelo comando. O 'terreno' era extremamente difícil, irregular, pedregoso e açoitado pela ventania e pelos temporais de dezembro, ainda sem as nevascas do inverno.

Pouco a pouco, as tropas invasoras foram progredindo e, mais adiante, entraram em ação as catapultas. Sabe-se que os defensores tinham, incialmente, pelo menos uma delas. "Mal se pode imaginar - exclama Roquebert (p. 384) -duelos de artilharia num local daqueles!"

Antes do Natal, que se aproximava, Bertrand Marty, bispo cátaro, resolveu despachar o tesouro da comunidade para lugar seguro, já que Montségur não oferecia mais condições de honrar por muito tempo seu nome para guarda desses valores.

Recorrendo às suas fontes, Roquebert informa que se confiaram "ouro e prata e uma quantidade infinita de moedas" - pecunia infinita, lê-se em Oldenbourg (p. 500) -, ao diácono Pierre Bonnet e ao parfait Mathieu, que essa mesma autora informa ter sido o elemento de ligação com o exterior durante o cerco de Montségur. Por sorte ou porque assim tenha sido planejado com antecedência, os portadores do tesouro foram dar precisamente num posto militar guarnecido por sentinelas amigas provindas de Camon-sur-L'Hers, praticamente vizinhos dos habitantes do rochedo.

Discretamente, os guardas não apenas deixaram passar os homens e sua preciosa carga, como lhes indicaram o melhor caminho a seguir. Daí em diante, pouco ou nada se sabe do destino final do tesouro, senão que foi escondido numa spulga - uma gruta fortificada - no condado de Foix, administrada por um Castelao do conde, por nome Pons Arnaud de Châteauverdun.

Roquebert prefere não formular hipóteses sobre a composição do propalado tesouro. "Inútil - escreve (p. 384) - sonhar infinitamente com o tesouro, que não eram mais do que os recursos da tesouraria da Igreja de Montségur..." Na sua opinião, provinham tais valores de donativos e legados dos croyants e, sem dúvida, produto do trabalho - basicamente artesanal - dos parfaits e das parfaites.

Nas precárias condições em que vivia toda essa gente, no alto de um rochedo praticamente inacessível, imperava, em Montségur, uma "economia de troca e não de produção". A comunidade ali instalada sempre teve necessidade de grandes reservas de numerário para simples sobrevivência. A partir do momento em que a tomada do reduto passou a ser mera questão de tempo, melhor seria mesmo colocar o tesouro em lugar seguro na expectiva de que pudesse eventualmente ser utilizado por futuros cátaros, em vez de deixá-lo cair em mãos do senecal do rei da França.

Ainda assim, como costuma acontecer em situações extremas, prevalecia um fio de esperança. Um dos fiapos de tal esperança materializou-se nos primeiros dias de janeiro, quando chegou à comunidade assediada certo Betrand, machinator de profissão, ou seja, um especialista na construção de máquinas, melhor ainda, um "engenheiro de catapultas".79

Vinha de la Bacalaria, uma fazenda - informa Roquebert - localizada em Capedenac-le-Haut. Bertrand, segundo se dizia, fora enviado por outro Bertrand (de Laroque), funcionário - digamos assim - do conde de Toulouse. Mais do que pelo fato de exercer profissão de extrema utilidade para aquele momento de aflição, talvez o especialista em catapultas trouxesse alguma esperança de que o conde de Toulouse conseguisse, ainda, enviar reforços humanos e até mesmo tropas mais bem preparadas para abrir outra frente de combate, atacando os sitiantes.

79 Machinator é palavra latina para a pessoa que constrói máquinas. Roquebert converte-a em "engenheiro" (ingénieur). A língua inglesa usa o correspondente - engineer - não apenas para aquele que projeta ou constrói a máquina, mas também para o que a opera. No início do aprendizado desta língua, admirei-me de que americanos e ingleses não dispusessem de outro termo - como maquinista, em português - para designar aquele que conduzia uma das barulhentas e fumegantes máquinas a vapor, tão familiares na minha infância de filho e sobrinho de ferrovia-

Tudo em vão.

Nas primeiras semanas do ano novo, a situação, que já era crítica, começou a deteriorar-se. Os franceses, ainda interessados num esforço supremo para contornar as asperezas do inverno, resolveram entre o Natal e o Carnaval (14 de fevereiro), promover uma escalada pela rocha acima, por meio de sucessivas escadas. O ataque foi repelido, com perdas importantes para os defensores da comunidade.

Em meados de fevereiro a situação se agravara consideravelmente, a despeito de pequeno reforço trazido pelo nosso já conhecido Mathieu, elemento de ligação entre os sitiados e o mundo "là-bas"; eram dois "sargentos", duas arbalètes,80 um capacete de ferro e dinheiro, com o qual se pretendia recrutar na região um grupo que desse combate aos franceses.

Foi um daqueles sargentos, enviado por Isarn de Fanjeaux, irmão de Pierre-Roger, o comandante do reduto cátaro, que trouxe um recado, no sentido de que a comunidade resistisse a todo custo até à Páscoa, em 3 de abril. Por esse tempo, o conde de Toulouse já estaria de volta às suas terras, dizia-se, trazendo substancial reforço militar da parte do imperador.

Enquanto isso, a situação dentro da praça forte - os textos usam com frequência o termo latino castrum, fortaleza, castelo fortificado, praça forte - ia-se tornando insustentável. A diminuta e compacta comunidade era bombardeada incessantemente por blocos de pedra de cerca de oitenta quilos, que destruíam as precárias residências, e por uma chuva de pedras menores expedidas pelas terríveis arbalètes do adversário ou por flechas, matando e ferindo muita gente.

80 A arbalète era uma espécie de arco de aço para atirar pedras à distância. Servia também para disparar flechas.

O inverno até que não estava muito rigoroso naquele ano, mas, como escreve Roquebert (p. 387), "...viver naquela estação do ano a 1200 metros de altitude, com feridos a cuidar, num vilarejo cada dia mais demolido, demandava desesperada energia".

Se viver ali, em tempos normais, já era dificílimo, é de se imaginar por que tormentos e angústias não passou aquela gente nos dias finais do cerco.

Em 2 de março, Pierre-Roger, certamente de acordo com Bertrand Marty, sucessor do lendário Guilhabert de Castres, pediu para parlamentar com Hughes d'Areis, o senecal, comandante das tropas francesas.

Os termos do acordo foram, previsivelmente, duros: a comunidade cátara não dispunha de qualquer poder de barganha - tratava-se de uma pura e simples capitulação.

Mas se, de um lado, os sitiados não tinham mais como resistir, do outro, os franceses também ansiavam por uma solução conclusiva.

Pierre-Roger pediu uma trégua de quinze dias antes de entregar o reduto "à Igreja e ao rei", bem como anistia geral para os envolvidos no terrível episódio do massacre dos inquisidores em Avignonet, que, como sabemos, partiram de Montségur.

Os vencedores ditaram suas condições: o dirigente de Montségur deveria designar prontamente um grupo de reféns; parjaits e parfaites seriam entregues aos representantes da Igreja, que lhes ofereceriam a alternativa da abjuração. Os que não a aceitassem seriam imediatamente queimados vivos, sem qualquer julgamento ou recurso. Os demais habitantes de Montségur, homens, mulheres, cavalheiros e soldados seriam submetidos a interrogatório pelo inquisidor Ferrer e seus colegas.

Não há, nos relatos, a mínima referência a qualquer demonstração de temor, revolta ou desespero. Os parjaits e as parfaites distribuíram seus parcos bens entre os que iriam sobreviver: o que lhes restava de trigo, fava, azeite, sal, pólvora, cera e o pouco de dinheiro que porventura tivessem ainda em seu poder. Ou pequenas e insignificantes lembranças: uma capa, um boné de linho, uma bolsa... A Pierre-Roger deram uma de tais capas "cheia de dinheiro".81 Esses valores não pertenciam à Igreja catara, e sim a croyants, que os haviam confiado à instituição em depósito, tal como hoje se faz com um banco ou uma caixa de poupança.

Foi nesse período que o engenheiro de catapultas confirmou que fora enviado por gente do conde de Toulouse com o recado de que, se fosse possível resistir durante oito dias a mais, seriam todos libertados. Isto leva Roquebert a supor que Pierre-Roger pedira a trégua na esperança de receber ainda em tempo tropas que viessem resgatá-los da aflitiva situação.

81 Roquebert não acredita nessa história, que, para ele, se trata "de uma confusão entre muitas informações recolhidas entre os que escaparam ao massacre, em consequência de manipulação desonesta e fantasmagórica das fontes" (p. 389, nota de rodapé número 2).

Não deu certo.

Raymond VII estava sempre em andanças pela Europa, tentando negociar com os poderosos - o imperador, reis, e o papa - condições menos opressivas para o emaranhado de complexidades que envolviam sua vida sentimental, religiosa, política e econômica. Entre as medidas que pleiteava, figuravam coisas hoje inadmissíveis, como licença para enterrar os restos mortais de seu pai em campo santo (cemitério consagrado pela Igreja), dado que Raymond VI morrera excomungado e não tinha direito àquela 'regalia'.

Havia, ainda, complicações matrimoniais - separação e novo casamento -, bem como a preservação de seus títulos e propriedades que ele via a escorrerem aos poucos por entre seus dedos.

Tentava manter um mínimo de relacionamento com a Igreja, sem a qual estaria perdido de todo, mas ficava entre a espada e a parede, de vez que do outro lado tinha vínculos de parentesco ou amizade com os detestados cátaros. Encontramos nos historiadores especializados, como vimos, referências às suas ambiguidades e indecisões.

Para encurtar a história: demorou-se mais do que o previsto na Itália, em negociações com o papa e o imperador. Quando regressou, afinal, a Toulouse, Montségur caíra há seis meses...

Não encontro, nos textos que me têm valido para este relato, referências às razões pelas quais fora solicitada - e concedida - a trégua de quinze dias.
Fernand Niel - citado por Oldenbourg (p. 508) -, sugere que a comunidade desejaria comemorar, pela última vez, a páscoa, que ocorria mais ou menos àquela época do ano. Não há, contudo, evidências a respeito.

Lê-se em Jean Duvernoy (La religion cies cathares, p. 175) que os cátaros celebravam três quaresmas (quarentenas, com jejum) por ano: a primeira coincidia com a dos católicos e ia da quarta-feira de cinzas até o domingo da Páscoa; a segunda, do dia de Pentecostes a uma data necessariamente variável, situada, segundo as fontes consultadas, nas proximidades do dia de são Pedro e são Paulo, ou seja, 29 de junho, ou, ainda, em tomo do dia de são João Batista (24 de junho); a terceira, de 13 de novembro (dia de são Brício), ou ainda, da primeira segunda-feira depois de são Martinho (11 de novembro) ou próximo desse dia, ao Natal.

Ora, a Páscoa - e agora pedimos ajuda ao Aurélio -, festa anual cristã para comemorar a ressurreição, cai no primeiro domingo depois da lua cheia do equinócio de março (dia 21).

Façamos algumas contas. O Carnaval naquele ano (1244) caiu no dia 14 de fevereiro, devendo entender-se essa data como a segunda-feira, dado que Roquebert informa que dia 13 foi domingo. A quarta-feira de cinzas, portanto, foi dia 16, o dia da rendição total previamente negociada. Teriam comemorado a Páscoa com toda aquela antecedência?

Pouco provável... No entanto, parece ter sido isso mesmo o que teria acontecido a crer-se na veracidade do testemunho (mediúnico) colhido pelo dr. Guirdham (in A Foot in borth Worlds, p. 176). Pelo que ali se lê, Braida (espírito) nega enfaticamente que a trégua de Montségur tenha sido negociada, a fim de que os cátaros sitiados pudessem celebrar pela última vez a festa maniquéia da primavera. Ela declara que a cerimônia foi a da Páscoa cristã.

Na véspera do dia da rendição, ocorreu no alto do rochedo um fato surpreendente, até hoje inexplicado. Vinte e um croyants e croyantes pediram a Bertrand Marty, o bispo cátaro, e a Raymond Agulher, para lhes ministrarem o consolamentum, o que significava irremediável vinculação da sorte desse grupo à dos que estavam destinados à fogueira no dia seguinte, caso não abjurassem. 82

Na madrugada do dia 16, quarta-feira de cinzas, Hugues d'Arcis apresentou-se pontualmente para tomar posse da fortaleza em nome do rei. A Igreja também se fazia representar na pessoa do arcebispo Pierre Amiel, que foi quem mandou reunir os parfaits e as parfaites e lhes exigiu que abjurassem e se convertessem à fé católica. Ninguém quis fazê-lo. Deve ter sido, aquele, o silêncio mais dramático da história...

Armou-se ao pé da montanha um espaço especial cercado de altas estacas, preenchido de lenha, à qual se ateou fogo. Em seguida, duzentos e vinte e quatro pessoas,83 parfaits e parfaites, foram jogadas lá dentro, provavelmente - supõe Roquebert (p. 389) - com a ajuda de escadas apoiadas na paliçada. "... de mãos dadas, queimaram em massa, 'com grande alegria'", informa o historiador citando, em parte, os cronistas da época.

Uma das parfaites, de nome Alazais Raseire, foi destacada do grupo para ser queimada em Bram, onde nascera. Certamente para que seus conterrâneos testemunhassem ao vivo que não convinha rebelar-se contra a Igreja.

A despeito da ostensiva participação da Igreja no episódio - lá estavam Pierre Amiel, arcebispo de Narbonne, sucessor de Arnaud Amaury, bem como os inquisidores - o massacre de Montségur não foi considerado ação inquisitorial: "não houve tribunal, nem processo e nem sentença" - diz Roquebert.

Com todo o respeito pelo erudito historiador, eu diria de outro modo. Não foram respeitadas as formalidades que costumavam acompanhar a tenebrosa rotina, mas o ritual, ainda que sumário, estava lá, cabendo ao arcebispo o assumido papel de juiz - e, portanto, na presidência de um tribunal virtual -, que condenou os heréticos e os passou imediatamente ao braço secular para a devida execução da sentença.

82 Ler, a respeito, nota no final deste capítulo (p. 370).

83 Zoé Oldenbourg (p. 512) diz que foram cerca de 210 a 215 os cátaros queimados naquele dia. Acrescenta que os mártires de uma religião vencida não são canonizados, se bem que aqueles, a seu juízo, mereceriam a honraria...

E neste ponto, vem novamente à tona a história do tesouro, que, como temos visto, volta e meia é lembrada.

Na noite de 15 para 16 de março, Pierre-Roger de Mirepoix, o líder da comunidade catara, selecionou quatro homens de sua confiança para esconderem-se "sous terre" - ou seja, em subterrâneos ou cavernas, descendo pelo precipício por meio de cordas.

O objetivo era o de remover o tesouro, que ainda se encontrava em algum lugar nos bosques da vizinhança. Mathieu, que retornara ao castelo em meados de fevereiro, teve tempo suficiente para explicar aos indicados onde haviam - ele e Bonnet - escondido as riquezas.

Como dois dos emissários - Peytavi Laurent e Pierre Sabatier - foram posteriormente localizados (dizem os cronistas), são e salvos, na Itália, Roquebert supõe (p. 390) que eles tenham transportado os valores para lá, onde teriam sido entregues a outras comunidades cátaras das várias que foram constituídas por fugitivos que escaparam com vida do Languedoc.

Os termos do acordo de rendição foram cumpridos, inclusive a anistia aos que haviam praticado o massacre de Avignonet, como Pierre de Mazerolles e outros.
Um bom número daqueles cujas vidas foram preservadas foi ouvido pela Inquisição, mas seus nomes a história não guardou, nem mesmo o de Raymond de Péreille.

Quanto a Pierre-Roger de Mirepoix, sabe-se por breve referência que, quinze anos depois, ainda vivia na penosa condição defaidit despossuído.

Montségur foi entregue a Guy II de Lévis, a quem pertencia por direito de conquista, como sabemos. Guy prestou as devidas homenagens ao rei, em Paris, como prescrevia o direito medieval, mas teve de cumprir também as posturas do direito canônico, que exigiam fossem arrasadas todas as propriedades onde os heréticos houvessem vivido e pregado.

Aliás, desde março de 1241 Montségur estava condenado a esse melancólico destino.

Raymond VII, conde de Toulouse, não tinha muito de que se queixar. Ao retornar da Itália, seis meses após a queda de Montségur, havia conseguido do imperador a restituição do marquesado da Provence, e, do papa, o levantamento de sua excomunhão e a respectiva absolvição. O texto oficial foi publicado pelo arcebispo de Narbonne no dia 14 de março de 1244, antevéspera da fogueira de Montségur.

Não conseguira acabar com a Inquisição, como desejava há algum tempo. Queria que o novo papa, Inocêncio IV, devolvesse o poder praticamente ilimitado de que dispunham os inquisidores ao clero regular: arcebispos, bispos, párocos e abades. Inocêncio recusou-se, confirmando a Inquisição na sua opressiva tarefa de patrulhamento das práticas religiosas. A tenebrosa instituição tinha ainda muito que fazer.

De qualquer modo, Raymond VII parecia estar em paz com Deus e o mundo - o imperador, o papa, o rei, os prelados de suas propriedades. Para comemorar, reuniu toda a corte no castelo Narbonnais, no Natal, e deu uma "festa suntuosa", durante a qual armou duzentos novos cavalheiros.

Pouco antes de morrer - em 27 de setembro de 1249 -, mandou queimar em Barleiges, no Agen, oitenta croyants.

Quanto à Inquisição, o 'sucesso' de seus métodos de repressão garantiu-lhe a continuidade dos trabalhos por tempo ainda indeterminado àquela altura. Sempre apoiada discreta ou abertamente pela santa Sé, como temos visto.

Ferrer, o inquisidor incumbido de ouvir os sobreviventes de Montségur, daria continuidade à sua carreira. Era um diligente dominicano catalão e construiu para si mesmo a reputação de "juiz intratável" (Roquebert, p. 393). Por onde andou, deixou a marca de sua presença em numerosas condenações à fogueira e confiscos de bens.

Outros inquisidores se destacaram no período pós-Montségur, como Bernard de Caux e seu colega Jean de Saint-Pierre. O mais competente de todos, porém - se é que essa é mesmo a palavra indicada no contexto - foi Jacques Fournier, bispo de Pamiers, que elevou as técnicas inquisitoriais ao nível de consumada arte.

Deixou uma documentação riquíssima de vários pontos de vista: histórico, social, antropológico e, afinal de contas, religioso. Suas atas e depoimentos meticulosamente escritos, encadernados e preservados, constituem fonte preciosa para pesquisadores em várias especialidades. Foi com base em seus documentos que Le Roy Ladurie escreveu Montaillou, village occitan, obra volumosa - mais de 600 páginas -, consagrada pela crítica e pelos leitores. E pensar que Montaillou não passava de diminuta comunidade de apenas 250 habitantes, a 1300 metros de altitude, perdida na amplidão rural do Ariège, habitada por gente anônima e aparentemente sem história...

O livro de Ladurie, já traduzido para o português no momento em que escrevo estas linhas, é imperdível. Sei que isto nem constitui elogio condigno, mas parece um romance, com suas histórias entrecruzadas, os amores, as traições, as ingenuidades, as crendices e o padre que se ocupava mais das mulheres locais do que de seus deveres sacerdotais.

Coube a Ferrer, o inquisidor catalão, recolher o depoimento de gente do mais alto nível social da época. Roquebert menciona algumas de tais personalidades: a dama Marquésia, nascida Isarn de Fanjeaux, viúva de Guillaume de Roquefort e viúva, em segundas núpcias, de Bertrand de Pauline e, finalmente, irmã do bispo cátaro Pierre Isam, queimado, aliás, durante a chamada Cruzada real, em 1226.

Interrogou também, Helis de Mazerolles, a velha senhora de Gaia (às vezes se escreve Gaja), filha de um magistrado de Trencavel com a dama Aude de Fan-jeaux, que se fizera ordenar parfaite em 1204, juntamente com a lendária Esclarmonde de Foix. Esta, por sua vez, irmã do conde Raymond-Roger e viúva de Jourdain de L'Isle.

Por aquela época (1204), Hélis era ainda uma criança que conservaria na memória a lembrança de sua avó Guillelme de Tonneins, também uma parfaite. Seu casamento com Arnaud de Mazerolles a tornaria castelã de Gaia.
Roquebert caracteriza (p. 397) seu filho Pierre como "auxiliar particularmente devotado da Igreja cátara, notadamente da comunidade de Montségur". Foi ele um dos líderes do comando que promoveu o massacre dos inquisidores abrigados em Avignonet.

Estou mencionando esses nomes - e acrescentaria o de Fabrissa de Mazerolles, cunhada de Hélis e Roger-Isarn - para lembrar que são os que ressurgiriam setecentos anos mais tarde, em pleno século vinte, no decorrer da singular experiência mediúnica que o dr. Arthur Guirdham relata em seus livros.

O próprio doutor, como vimos, teria sido certo Roger-Isarn, discípulo de Guilhabert de Castres, bem como irmão de Hélis, Braida, Gaia, Isarn-Roger. Suponho que este último seja o Isarn de Fanjeaux, mencionado por Zoé Oldenbourg (pp. 475 e 502).

Existe aí um entrelaçamento das famílias Fanjeaux, Tonneins e Mazerolles. Lembremo-nos, ainda, de que Fabrissa, segundo o relato de Guirdham, era a pessoa que os cátaros desgarrados e perseguidos deveriam procurar em caso de perigo iminente e que Pierre de Mazerolles, sobrinho de Roger-Isarn, era a sinistra figura que atormentava o dr. Guirdham e a sua "Puerília" reencarnada como "Sra. Smith", nos seus respectivos pesadelos sincrônicos. Mazerolles parecia, nos pesadelos, ainda eufórico e orgulhoso da matança dos inquisidores.

Ferrer resolveu aposentar-se de seu cargo de repeitado inquisidor no fim do verão de 1244, ou seja, em setembro. A partir de outubro assumiram suas tarefas e responsabilidades Pierre Durand e Guillaume Raymond. Para Ferrer, no entanto, não era, ainda, o ócio com dignidade de que fala a expressão latina, porque em 1252 foi nomeado prior do convento de Carcassonne e, seis meses mais tarde, do convento de Béziers, onde ficaria até 1254. Parece ter morrido pouco depois, em Perpignan.

Durand e Raymond serviam na diocese de Toulouse, quando foram substituídos, em 1245, por Bernard de Caux e Jean de Saint-Pierre, que funcionavam como inquisidores desde 1241, embora somente sejam conhecidos documentos seus datados a partir de 1243.

Eram severos nos interrogatórios e pródigos em sentenças condenatórias. Cinquenta e duas sentenças expedidas entre 18 de março e 22 de julho de 1246 e, depois, de 11 de agosto de 1247 a 14 de junho de 1248, foram preservadas. O que significa que outras tantas podem ter existido.

Como muitas das sentenças atingiam várias pessoas, calcula-se, segundo Roquebert (p. 402), que só nesse bloco há duzentas e uma condenações. Mesmo descontando os que foram alcançados em várias sentenças diferentes, e que outros tenham fugido, a estatística é impressionante: quarenta e nove homens e mulheres foram condenados por contumácia (reincidência ou recusa em comparecer ao tribunal), cento e cinquenta e dois remetidos à prisão, cento e vinte e quatro dos quais à pena perpétua.

Do ponto de vista quantitativo, informa Roquebert, numa tentativa de avaliação, a eficácia dos dois diligentes inquisidores "é seguramente espetacular".
Para se ter uma idéia aproximada, e guardadas as proporções, seria o mesmo que condenar hoje duas mil pessoas em Toulouse por "delito de opinião". E não se pense que essa pequena multidão pertencesse às classes mais humildes da sociedade; eram, em sua maioria, os notáveis, os mais prósperos empreendedores do comércio e das nascentes indústrias locais e até ricos proprietários de terras, ainda mais porque a condenação gerava o 'direito' ao confisco das propriedades dos sentenciados.

Os inquisidores batiam forte e alto, nas camadas mais elevadas da sociedade contemporânea, inclusive em membros de uma dezena de famílias 'consulares', ou seja, da magistratura local. Os atingidos por essas arrasadoras condenações vinham, no dizer de Roquebert, da "fina flor da melhor burguesia toulousiana..."

É incrível pensar que tudo se fazia impunemente, sem contestação possível, ao arbítrio exclusivo dos inquisidores com a cobertura direta do papa, lá em Roma, sem qualquer vínculo de subordinação ou obediência às autoridades civis e eclesiásticas locais. Os condenados não tinham direito de defesa durante o procedimento e nem de recurso à condenação. E as autoridades civis - o famigerado "braço secular" - não tinham como deixar de cumprir as sentenças.

A repressão daquele tempo - assegura ainda, Roquebert - revelou-se muito mais eficaz com os meros croyants da religião amaldiçoada do que, anteriormente, contra os parfaits e parfaites.

O objetivo era mesmo o de erradicar para sempre o catarismo da face do Languedoc. A Igreja cátara local (Toulouse) perdeu, na fogueira acesa ao pé de Montségur, seu bispo, seu fils mineur, três diáconos e um número indeterminado de parfaits.
E isso - assegura Roquebert - não foi o fim do catarismo occitano, como costumam dizer alguns historiadores.

Os inquisidores passaram a trabalhar prioritariamente à base de denúncias, a fim de desmantelar os pequenos núcleos remanescentes, de onde o catarismo pudesse eventualmente propagar-se como bacilo que, atocaiado em algumas células do tecido social, voltasse a contaminar todo o organismo social.

Após a reconstituição do tribunal de Toulouse, na primavera de 1245, os dois eficientes inquisidores ocuparam-se por algum tempo da região de Razès, instalados em Limoux, a capital. Um ano mais tarde, já haviam lavrado sentenças de penitência por heresia contra cento e cinquenta e seis habitantes da cidade e adjacências.

Deu-se, aí, curioso incidente que serve para evidenciar - se é que isto fosse necessário - a inacreditável arrogância e autoritarismo dos inquisidores.

Os condenados de Limoux, que se davam muito bem com os monges do convento (dominicano) de Prouille, recorreram ao prior Raymond Cathala, rogando-lhe que pleiteasse junto ao papa a anulação da iníqua sentença inquisitorial. Cathala conseguiu convencer Inocêncio IV, que, sem desprestigiar completamentes os inquisidores, resolveu abrandar a penitência, dispensando a humilhante cruz de pano cosida às vestes dos condenados na frente e atrás. Em lugar disso, recomendava aos inquisidores que aplicassem penalidades menos infamantes.

Pierre Durand e Guillaume Raymond ficaram tão indignados - Roquebert escreve mesmo "furiosos" (p. 405) - que anularam suas próprias sentenças e concederam a absolvição a todos. E mais: em 1248, o papa anulou as medidas de clemência, mas os inquisidores simplesmente ignoraram o papa...

Bernard de Caux encerrou sua carreira de inquisidor no decorrer do ano de 1249. Jean de Saint-Pierre continuou a servir sozinho à causa da Inquisição por mais algum tempo, mas também aposentou-se logo a seguir.
Pouco antes disso, quando ainda serviam juntos, escreveram de parceria e a pedido do prior provincial dos Pregadores da Espanha um pequeno manual de procedimentos, com base nas suas experiências pessoais. Chamou-se o livro, como vimos alhures, Processus Inquisitionis.

Bernard de Caux, o "malho dos heréticos" - a expressão está em Roquebert -, instalou-se em Agen, onde trabalhou na fundação de um convento de pregadores, nos termos de um capítulo (assembleia geral de religiosos com o objetivo de tratar de algum assunto específico) reunido em 1252, em Montpellier. Caux, no entanto, morreu no final daquele mesmo ano.

Restava, ainda, uma surpresa. Em 1281, quase trinta anos mais tarde, quando se cuidava de ampliar as instalações do convento, decidiu-se trasladar seus restos mortais para o novo coro. O corpo do antigo inquisidor foi encontrado "perfeitamente intacto" - diz Roquebert, nos termos da ata de exumação, que foi preservada.

O insólito fenômeno, como não poderia deixar de ser, "provocou um movimento popular tão exaltado e tão difícil de se conter que foi necessário esconder os despojos do frade até que a polícia interviesse."

Depois de Pierre Durand e Guillaume Raymond, que, por sua vez, haviam sucedido a Bernard de Caux e Jean de Saint-Pierre, com também vimos, a Inquisição, no dizer de Roquebert (p. 412), "encontra-se reduzida, por toda região do Languedoc, a dois inquisidores aparentemente em fim de carreira".

A intenção seria a de entregar a tarefa à ordem dos Pregadores. Será, me pergunto, que as autoridades eclesiásticas estavam, afinal, pensando em pôr em prática o conselho de Bernardo de Clairvaux, para o qual a fé deve resultar da dissuasão e não da imposição? Pouco provável.

De qualquer modo, Roquebert escreve naquela mesma página que "Terminava, assim, a onipotência da inquisição dominicana."

Alguns nobres de alto nível, cumprindo sentença de prisão perpétua, foram liberados por ordem de um emissário especial do papa. Uns tantos deles haviam sido condenados por Ferrer e outros, por Bernard de Caux.

Algise de Rosciate, enviado do papa, é incumbido de rever as penalidades impostas aos heréticos de toda a província eclesiástica de Narbonne e vizinhanças, com poderes para reduzir ou mesmo anular as que considerasse injustas.

Dois meses mais tarde, "em termos extremamente violentos", acusa os inquisidores de levarem uma vida "escandalosamente dispendiosa" - o que Roquebert considera exagero. De qualquer modo, a própria Igreja manifestava sua indignação ante os abusos, a arbitrariedade e a arrogância dos inquisidores. Com o que punha os bispos da região contra o até então intocável e temido "Santo Ofício".

Enquanto isso, Raymond VII, no dizer de Roquebert (p. 414), "continuava a fazer o que sempre fez, ou seja, manobrar e manobrar sem muitos escrúpulos". O historiador atribui-lhe a responsabilidade por haver "sacrificado Montségur" aos seus interesses pessoais e "abandonar sem se envergonhar", à sua própria sorte, seus súditos envolvidos com a heresia.

Em agosto o conde foi ao encontro da filha Jeanne e seu genro Alphonse de Poitiers, irmão do rei da França, para estar com eles no momento em que partiam para uma peregrinação à Terra Santa. Na volta, foi acometido de uma febre que o prostrou no leito. Dia 23 de setembro ditou o testamento e a 27, morreu, aos cinquenta e dois anos.

Seu corpo foi depositado na abadia de Fontevrault, junto das sepulturas de seus ancestrais.

Veja bem quais eram estas pessoas: sua mãe, Jeanne da Inglaterra; seu tio, Ricardo Coração de Leão; e seu avô Henrique II Plantageneta, todos da melhor genealogia européia da época.

Não viveu o suficiente - comenta Roquebert - para ver a realização de um de seus propósitos - o de esvaziar a Inquisição dominicana, convertendo-a em "Inquisição episcopal", pela devolução aos prelados regulares da tarefa de controlar a heresia, naturalmente que na expectativa de procedimentos menos cruéis e arbitrários.

O catarismo fora atingido na cabeça. Já não havia praticamente parfaits e muito menos parfaites no Languedoc. Os que escaparam às fogueiras atravessaram fronteiras e foram tentar, na Itália, principalmente na Lombardia, preservar a semente para futuro e possível replantio. As perseguições agora tinham de se contentar com os croyants remanescentes.

Por outro lado, admira-se o historiador da "incrível capacidade de resistência da religião proibida", atravessando crises sobre crises, conseguindo sempre furar as bravias ondas da repressão. E a essa altura, continua, "estávamos ainda a oitenta anos da última fogueira"!

Mesmo assim, o autor considera (p. 423) que a "desagregação da Igreja cátara deve-se mais ao exílio na Lombardia do que à repressão propriamente dita".

Se estou certo em minhas - porventura fantasiosas - especulações, o Languedoc fora a terra prometida. Para ali é que o planejamento espiritual havia encaminhado toda uma multidão de pessoas comprometidas com esse projeto renovador.
Ainda por motivações um tanto diversas, concordo com Anne Brenon, que, como vimos, escreveu um módulo em seu livro, intitulado "Uma sociedade predisposta à heresia?" Como Brenon fez um título interrogativo, eu responderia que sim, o Languedoc estava predisposto à tarefa da renovação do cristianismo, resgatando-o do oblívio o mais antigo, o mais autêntico, sem a contaminação das teorias, das teologías e das fantasias, dos rituais, dos sacramentos, das ambições pessoais na luta pelo poder civil e pelos bens materiais. O projeto queria de volta um cristianismo qualitativo, não quantitativo.

Não se sabe - como nos disse certa vez uma entidade amiga através de um médium - se as gerações subsequentes iriam manter o catarismo na trilha certa, sem desvios doutrinários ou de prática, que acabassem por descaracterizá-lo irremediavelmente como aconteceu com o cristianismo ao converter-se, por entropia, em catolicismo.

Seja como for, ficamos com o direito de imaginar como estaria a civilização, hoje, no planeta, após sete ou oito séculos de prática religiosa mais interessada no comportamento humano perante as leis divinas do que nas complexidades e sutilezas teológicas e no poder que tais instituições costumam criar para seus líderes.

A partir de 1240, o catarismo, mergulhado na clandestinidade, reduzira-se a um "punhado de Bons Hommes" - escreve Roquebert (p. 427).

No condado de Toulouse, novas desgraças se abateram sobre seu infeliz povo após amorte de Raymond VII. Os títulos e as propriedades passaram, como se sabe, para as mãos de Alphonse, genro de Raymond, não, porém, por força de cláusula testamentária, mas, como fez questão de deixar bem claro sua mãe, Branca de Castilha, em virtude das disposições do humilhante Tratado de Paris.

Alphonse, irmão do rei de França - a essa altura, desde 1226, Luís IX, futuro santo -, tomou posse oficialmente do condado. Sua rapacidade - informa duramente Roquebert (p. 430) - "não foi o menor de seus defeitos".
Implantou ali um regime de "pesada espoliação fiscal", sob a desculpa de que era necessário financiar as despesas da Cruzada, que continuava a castigar o Languedoc.

Os judeus foram as maiores vítimas de tal espoliação. Com o decorrer do tempo, o novo conde passou a disputar com o clero "os benefícios [?!] gerados pela repressão da heresia", no dizer de Roquebert. Ou seja, a perseguição religiosa, mais do que nunca, tornara-se fonte de renda... Os juízes civis, certamente controlados ou participantes dessa iniquidade, mandavam para a fogueira gente que os inquisidores diocesanos "haviam apenas [?] condenado à prisão perpétua..."
A repressão à heresia tornara-se, ademais, processo meramente político que nada tinha a ver com religião, se é que algum dia tivera.

A conquista de Quéribus, considerado o último reduto cátaro, assinalou o início de outras jogadas políticas, numa disputa de fronteiras entre o reinado da França e o vizinho de Aragão.

"... foram necessários exatamente cinquenta anos [de 1208 a 1258] - ensina Roquebert (p. 435) - para chegar-se às últimas consequências dos derradeiros apelos lançados por Inocêncio III pela Cruzada".
Mas fora bem-sucedida a campanha, afinal de contas. Toda a região afetada pela heresia passara às mãos do rei francês.

A heresia, contudo, resistia teimosamente, aos surtos e suspiros, agonizante, desmantelada, mas ainda respirando, na clandestinidade. Para extingui-la para sempre seriam ainda necessários três quartos de século.

Acabara a era dos grandes parfaits e das corajosas parfaites, mas ainda que fosse agora apenas lembrança de um sonho que se transmutara em pesadelo e estigma, sufocada pelos estertores da agonia, a heresia ainda respirava, aqui e ali, pelos pulmões de alguns idealistas.

Discorrendo sobre Jacques Fournier, o último grande inquisidor - se é que o qualificativo deve ser posto em tarefa tão infame -, Roquebert o equipara a Bernard de Gui e comenta que "a Inquisição encontrou nele um homem de exceção" (p. 489). Fournier foi feito bispo de Pamiers em 1317, cardeal em 1327 e papa (Bento XII) em 1334. Morreu em 1342.

Roquebert faz coro com outros estudiosos, ao mencionar "o imenso interesse do (...) registro inquisitorial" deixado por ele. E não era somente sobre a heresia em si, mas sobre tudo quanto exibisse a mais remota coloração de um desvio de comportamento, ou melhor, sobre aquilo que o senhor bispo entendesse por desvio, tais como: os feiticeiros, os iluminados, os bêbados, os homossexuais, os amores clandestinos dos seus diocesanos.

Foram seus "registros inquisitoriais" que documentaram, por exemplo, a aventura amorosa de Pierre Clergue, o pároco, com Beatrice de Planissoles, filha de Philippe, senhor de Cassou e viúva de Bérenger de Roquefort, casteláo de Montaillou.
Qualquer romancista ou teatrólogo mais atento perceberá imediatamente, nas atas, o rico filão para uma boa e histórica estória. Roquebert usa o termo apropriado para o texto das atas inquisitoriais, caracterizando a romântica Beatrice de Planissoles como "heroína de um folhetim herético-sentimental", no qual o senhor cura atraiu a beldade para uma "paixão muito sensual e para um catarismo no qual, como bom libertino, ele não acreditava..."

Pierre Clergue foi preso e condenado à prisão, onde morreu. Em 1329 seu corpo foi exumado e queimado, o que nem faz muito sentido, dado que, pela teologia vigente, já estaria teoricamente no inferno. Beatrice foi condenada à prisão em 1321, mas foi libertada no ano seguinte.

Com seus meticulosos e competentes interrogatórios, Jacques Fournier colocou Montaillou definitivamente no mapa e na história. Muitos são os autores fascinados pelos casos que ele conta em suas atas, por onde desfilam "personagens de espantosa variedade, frequentemente pitorescas" (Roquebert, 489).

Um de tais autores foi o erudito professor Jean Duvernoy, que publicou, em 1966, Inquisition à Pamiers. Não disponho desse livro, mas tenho aqui, diante de mim, uma coletânea comentada, em Inquisition en terre cathare (Privat, 1998, Toulouse, 175 páginas). Não sei se trata do mesmo livro, rebatizado.

As aventuras do cura e da castelã inspirariam uma ópera apropriadamente intitulada "Beatris de Planissoles", em texto occitano do erudito prof. René Nelli e música de Jacques Charpentier, criada especialmente para o Festival de Aix-en-Provence, em 1971.

Contando o tempo a partir de 1321, data em que a bela Beatrice foi condenada à prisão, Roquebert diz (p. 489) que os dois "amantes terríveis" se tornariam heróis de uma ópera sete séculos e meio depois, em 1971.

Grandes historiadores têm o justo direito de não serem muito atentos à aritmética - não são sete séculos e meio, "apenas" seis e meio, o que ainda é uma excelente demonstração de consistência histórica, mesmo que, na correta avaliação do autor, a aventura sentimental dos dois amantes não tenha grande coisa a ver com o catarismo.

De qualquer modo, "Esses retratos às vezes algo chocantes ou comoventes, vêm diretamente da Idade Média", como se lê na chamada impressa na quarta capa da coletânea de Durvernoy.

Roquebert, por sua vez, conclui que, de alguma forma, a estória dos dois amantes, resgatada após meia dúzia de séculos, constitui valioso testemunho daqueles tempos e espaço, em que as mentes foram impregnadas pelos postulados da "religião proibida que iria ainda viver uma longa e patética agonia, três quartos de século após a fogueira de Montségur" (p.490).

Indiferentes aos amores e aos temores, o poder religioso dominante entendia ser absolutamente necessário "extirpar do coração dos crentes (Roquebert, p. 494) o menor traço da haeretica pravita, aquela 'perversão herética', aquele desvio no qual a cristandade romana acreditara perceber o maior perigo de sua história".

Era tido como dever e direito eliminar pela morte todos os que, após recolhidos de volta ao seio maternal da Igreja, demonstrassem a mínima vacilação em termos de fé.
"Era preciso - conclui Roquebert - arrancar tais lembranças até mesmo dos cadáveres daqueles que, quando vivos, haviam aderido" à "depravação herética".

Em 11 de novembro de 1328, por exemplo, Henri Chamayoun, inquisidor de Carcassonne, e Pierre Bru, de Toulouse, expediram quinze sentenças de exumação, que atingiam, entre outros, a alta roda da nobreza, inclusive Blanche, mulher do antigo cônsul Guillaume Serre, que continuava preso nas masmorras de Carcassonne.

Em 1330, os incansáveis inquisidores preparavam-se para abrir mais dezoito processos póstumos, quando o papa João XXII interferiu, considerando excessivo esse "macabro procedimento".

Pouco antes, em 1329, uma comissão inquisitorial se reunira para examinar quarenta casos semelhantes. Os debates duraram dois dias e dali saíram várias sentenças, uma de exumação da falecida mulher de Castel Fabre, bem como a condenação de mais quatro pessoas, entre as quais o "velho, muito velho" Guillaume Serre, "que voltara à heresia como o cão ao seu vômito" - dizia o texto da sentença. Guillaume, preso há cerca de quarenta anos, tinha àquela época mais de oitenta de idade. O ódio teológico84 ainda estava no seu encalço...

"Os quatro últimos croyants cátaros (Roquebert p. 495) foram queimados à margem do rio Aude, junto da cidade."

Não há como simplesmente transliterar o texto conclusivo de Roquebert. Não saberia fazê-lo sem quebrar sua unidade e coerência. Prefiro passá-lo a você que me lê, em toda a eloquência de sua emoção.

84 Atormentado pelos intermináveis debates e confrontos com a Igreja católica e com seus próprios companheiros (dissidentes) de ideal reformista, Melanchthon, um dos ideólogos do movimento, declarou nos momentos finais de sua existência terrena, em 1560, que morria feliz. Pelo menos, acrescentou, livrava-se do "odium theologícum", a mais virulenta manifestação do rancor.

Esse catarismo [escreve o autor (p. 496)], esse cristianismo dissidente, foi erradicado após vinte anos de guerra e cem anos de Inquisição desta parte da Europa ocidental, onde se implantara tão solidamente: eis aí o aspecto religioso das coisas.

Uma erradicação que deixava grande vazio nos espíritos85 e nos corações, no seio de uma sociedade que havia, em parte, aderido à religião dos Bons Hommes, dos Amigos de Deus, como ela própria os chamava. Um vazio que a Igreja vitoriosa soube preencher habilmente pela multiplicação dos conventos de ordens mendicantes, franciscanas e dominicanas, que resgataram, em proveito da ortodoxia, as aspirações à vida evangélica que havia suscitado tantas vocações de parjaits e parfaites.

Mesmo tendo elogiado (sincera e merecidamente) o texto do eminente historiador do catarismo, devo colocar aqui algumas reflexões adicionais a fim de marcar algumas posições pessoais minhas.

Eu não diria que o catarismo deva ser caracterizado como "cristianismo dissidente" - a dissidência existiu, de fato, mas não em relação ao cristianismo, e sim ao catolicismo.

Estou ciente de que estes dois termos costumam ser tomados como sinônimos e os que assim pensam têm o meu respeito, mas o catolicismo é que era, ao tempo dos cátaros e há muito tempo, doutrina dissidente no sentido de que representava uma variação - para usar a expressão de Bossuet - do cristianismo primitivo. A doutrina cátara sempe esteve muito mais próxima, como que aconchegada aos ensinamentos originais de Jesus e às práticas que ele recomendava e exemplificava, ainda não sufocados por complexidades teológicas, dogmas, ritos, adaptações.

No confronto catarismo versus catolicismo, a que se caracterizava como facção herética, não teria sido aquele, e sim este. Referindo-se às numerosas seitas dissidentes surgidas no correr dos primeiros séculos da era cristã, Will Durant menciona o profundo envolvimento do cristianismo nascente com as religiões contemporâneas. Chega mesmo a dizer [Caesar and Christ, p. 595) que o "cristianismo não destruiu o paganismo, adotou-o". Pouco adiante, caracteriza o cristianismo como "a última das grandes criações do antigo mundo pagão".

85 Sempre que encontro a palavra esprit em textos franceses, me pergunto qual teria sido a real intenção do autor. Isso porque, ao mesmo tempo que o termo - vindo do latim spiritus - quer dizer "princípio imaterial, alma, ser incorpóreo" {Larousse), significa, também, "faculdade de compreender, de conhecer, inteligência, atenção, julgamento, disposições, atitudes" etc Alguns de tais signficados podem ser desconsiderados no contexto em que nos encontramos, que me leva a opção por sentidos mais amplos como os que constam da segunda série no dicionário [faculdade de compreender, de conhecer, julgamento, disposições e atitudes]. Isso porque o catarismo não foi apenas um movimento de resgate do conteúdo espiritual do cristianismo, mas uma atitude perante a vida como um todo, espiritualismo inclusive.

Sim, mas isto - se dirá - é opinião de historiador laico, não especificamente interessado na história religiosa. Pode ser, mas eu os vejo usualmente mais crealendados para opinar sobre tais apectos do que religiosos que também se dedicam à historiografía. Seja como for, para Durant, o que hoje conhecemos como cristianismo é uma espécie de 'heresia' vitoriosa, entre as muitas que disputavam espaço naquele tempo.

Não faltou, por outro lado, entre os chamados Pais da Igreja, quem considerasse a variedade católica de cristianismo como a "sacratíssima heresia", ou seja, modelo no qual se cristalizaram as diferentes tendências do movimento de idéias e de práticas suscitado a partir da pregação do Cristo.

Anne Brenon também chama a atenção de quem a lê para a evidência de que, a despeito da inevitável coloração medieval, o catarismo "parece muito mais arcaico nos seus ritos e na sua organização eclesial".
Concordo com essa abordagem. Para mim, quanto mais antigo e mais primitivo, mais autêntico é o cristianismo. A água colhida a centenas de quilômetros correnteza abaixo não tem como ser a mesma linfa lustral recolhida ao pé da fonte de onde jorrou.
Por isso, agradou-me o termo "paleocristianismo" escolhido por Brenon para caracterizar o catarismo.
Vejamos mais de perto como ela situa a questão.

E, sem dúvida útil lembrar aqui [escreve à p. 99] que o cristianismo primitivo não foi um jovem e simples broto que cresceu pouco a pouco de um tronco único sob a influência da palavra dos apóstolos e dos primeiros Pais da Igreja, mas um movimento multiforme e multicéfalo, do qual numerosos galhos secos foram podados, pouco a pouco.

Como podemos conferir, trata-se basicamente da mesma reflexão de Durant, para quem o que hoje conhecemos como cristianismo é a resultante de uma tendência vitoriosa, dentre muitas, ou seja, um compósito que o tornou irreconhecível.
Por isso, ela própria se pergunta se não seria possível...

ver no catarismo um desses paleocristianismos adormecido, esquecido e um tanto fossilizado em algum monte Atos qualquer, bruscamente revivificado num período histórico que oferecia todas as condições favoráveis; não é por acaso [conclui] que tantos evangelismos espontâneos se levantaram ao mesmo tempo de ponta a ponta na cristandade, no ano Mil.

Brenon não precisa do meu aplauso, mas aí o tem. Mais do que sua reconhecida competência de historiadora, penso ter funcionado, nessa e em outras relevantes passagens de seu livro, a magia da intuição.

O que ela está nos dizendo - ou pelo menos ouço-a dizer a mim pessoalmente - é que o cristianismo contemporâneo, com sua teologia, seus ritos, cultos e práticas, resulta da cristalização de um sincretismo de muitas formas e muitas cabeças e de cujo tronco foram aparados, sutilmente, galhos considerados indesejáveis. Ainda na sua avaliação - com denso colorido intuitivo -, o catarismo foi um projeto concebido para resgatar o cristianismo original, de volta ao pequeno broto que ela percebeu no velho tronco, a fim de começar tudo de novo. E que esse novo modelo era bom exatamente porque muito velho, dado que se reportava às primitivas fontes. E, finalmente, que, para que isso tudo desse certo, preparou-se também o cenário histórico-geográfico, no qual tempo e espaço foram cuidadosamente - diria mesmo carinhosamente - escolhidos. Ela chega ao detalhe de suspeitar da existência de uma "sociedade predisposta à heresia". E estou dizendo suspeitar porque ela colocou no subtítulo em que aparece essa expressão um cauteloso ponto de interrogação. (Ver pp. 119, 332.)

Infelizmente, não deu certo o plano. E não foi porque o modelo estava errado ou o ambiente fosse inadequado e o tempo não fosse aquele. Tratava-se de um projeto inteligente, generoso e competente, destinado a resgatar a mensagem esquecida e adulterada do Cristo.

Ao redigir o texto que figura em O livro dos espíritos sob o título "Prolegômenos", Allan Kardec lembra, em consonância com os ensinamentos de seus instrutores espirituais: "A razão diz que um efeito inteligente há de ter como causa uma força inteligente..."

O plano de restauração do cristianismo, "bruscamente revivificado", a que alude Anne Brenon, provém, portanto, de uma causa inteligente, ou seja, foi elaborado por seres inteligentes na dimensão espiritual, com o objetivo de reformular a civilização que há muito se perdera pelos atalhos e paixões.

Nesse mesmo tom, René Nelli, como também vimos, considera o aniquilamento do catarismo, a ferro e fogo, verdadeiro desastre histórico, por ter suscitado aquilo a que identificou como "aborto de uma civilização".
O catarismo viveu ainda um período de espasmos, lutando desesperadamente por ar e vida, como o peixe retirado da água, mas assim como para o peixe a água não estava mais ali, para o catarismo já não existia a "sociedade predisposta à heresia" a que se refere Brenon.

A espada e o fogo haviam destruído o cenário e despachado de volta para a dimensão póstuma aqueles que ali se reencarnaram para implementar o projeto.

Caracteristicamente, a tabela cronológica preparada para o livro de Brenon menciona a queima dos últimos três croyants cátaros em Carcassonne, em 1325, e após algumas datas intermediárias - apenas quatro - lembra a queima de Jan Huss, em Constança, em 1415. Huss (re)nascera na Boémia, em 1369, quarenta anos depois da queima dos três últimos croyants cataros, no Languedoc. (Não havia mais parfaits e parfaites para alimentar as chamas da intolerância.)

Enquanto isso, John Wyclif, nascido em 1320, iniciava na Inglaterra sua veemente pregação contra os abusos que continuavam sendo cometidos em nome do Cristo. A Reforma protestante começa com ele, segundo o julgamento de alguns historiadores. Huss foi um dos que deu prosseguimento ao seu trabalho e, por isso, morreu queimado, como também seu amigo Jerônimo de Praga. Estavam abrindo caminho para Lutero, no século dezesseis, e, posteriormente, para Jan Huss, de volta ao cenário humano, reencarnado como Hyppolite Leon Denisard Rivail - Allan Kardec -, cujo nome sequer figura no módulo biográfico e histórico do Larousse. Viera incumbido de trazer de volta, mais uma vez, antigos conceitos esquecidos como preexistência e sobrevivência do ser, reencarnação, imortalidade, comunicabilidade entre 'vivos' e 'mortos', existência de Deus, como "inteligência suprema, causa primária de todas as coisas". Tal como ensinaram os cátaros.
Infelizmente, nem a Reforma, dita protestante, nem a doutrina renovada que os espíritos transmitiram a Kardec encontraram no espaço histórico-geográfico em que se desenvolveram o terreno fértil de uma "sociedade predisposta" a essas novas 'heresias'. Ainda assim, era preciso começar tudo de novo...

Os inimigos ostensivos desta vez não foram as religiões dominantes por si mesmas, mas as matrizes ideológicas que, direta ou indiretamente, elas ajudaram a criar no passado - céu, inferno, dogmas, exclusividades salvacionistas - abrindo vazios culturais que o materialismo aproveitou para ocupar. Além disso, a cultura agora entrincheirada em território ideologicamente materialista, foi gradativamente perdendo a sensibilidade e o interesse pelos aspectos espirituais da vida. Em lugar de uma entidade espiritual metida numa "túnica de pele", o ser humano passou a ser considerado um mero conjunto organizado de matéria, nada mais. Em outras palavras, o ambiente não estava mais predisposto para acolher a sempre renovada mensagem espiritual de sempre.

Mas, de volta ao catarismo, como foi que tudo terminou?

A década de 50 do século treze caracterizou-se pelo desencorajamento, as abjurações e as fugas para os abrigos secretos ou para o exílio.

A Inquisição mudara de comando; não estava mais entregue às arbitrariedades dos 'profissionais' da opressão, cuja autoridade se sobrepunha, como vimos, até à do papa. Passara para as mãos do clero regular, ou, mais especificamente, dos bispos, entre 1249 e 1253. Os métodos, contudo, não mudaram muito e no que mudaram foi para pior. Anne Brenon (p. 276) fala de práticas de resgate exigidas de suspeitos que tinham de pagar "somas enormes" a troco de libertações provisórias ou adiamento de depoimentos nos temidos tribunais.

O alvo agora não eram os parjaits e as parjaites, que haviam sido mortos ou conseguiram escapar para a Lombardia, especialmente entre 1260 e 1270 - eram os croyants que, tecnicamente, nem eram cataros, e sim simpatizantes, sem posição de destaque ou comando no movimento. A Igreja, contudo, os entendia contaminados irremediavelmente pela 'depravada heresia'. Especialmente os mais ricos, que ofereciam atraente potencial de lucro pela prática do confisco e do resgate em dinheiro vivo.

Em 1285, quarenta e um anos depois de Montségur, explodiu uma reação - mais uma delas - contra o procedimento 'irregular' dos inquisidores de Carcassonne e Albi, que procuravam envolver "com maior zelo" os grandes proprietários ou as mais destacadas autoridades políticas locais, que cumpria desacreditar ou intimidar para garantir e ampliar espaços para a opressão e o terrorismo.

Brenon cita casos específicos de tal procedimento, como o do inquisidor Nicolas d'Abbeville, sucessor de Jean Galand, que desejava mandar exumar Castel Fabre. O infeliz, um burguês de Carcassonne, morrera em 1278 em mãos dos franciscanos e mesmo assim foi processado postumamente pelos dominicanos. Abbeville queria queimar seus restos mortais, como a tantos outros se fizera, a fim de ficar 'legalmente' investido dos poderes para confiscar-lhe os bens, inclusive aqueles que o herético morto deixara em 'herança' (forçada, naturalmente) para os franciscanos, seus rivais.

A rivalidade entre as duas ordens 'religiosas' não era mais segredo para ninguém, porque se explicitara abertamente nas feias disputas pelo melhor quinhão. Os desmandos foram tantos que suscitou um movimento de reação popular - "a raiva carcassonense".

Em atenção a queixas formuladas a respeito, Filipe, o Belo (rei de França entre 1285 e 1314), determinou aos seus senecais que não mais aprisionassem qualquer pessoa, em desacordo com as normas jurídicas vigentes, simplesmente porque os inquisidores assim o determinassem.

A indignação foi tamanha que, mesmo naqueles tempos em que a palavra dos 'representantes de Deus' era considerada irrecorrível, a pressão pública conseguiu expulsar Bernard de Castanet de Albi e manter os dominicanos prisioneiros em seu próprio convento durante seis anos, de 1302 a 1308.

Em Carcassonne organizou-se uma milícia popular que saqueou a residência dos colaboradores da Inquisição e exigiu das autoridades locais a transferência para a cidade dos prisioneiros do Santo Ofício, que chegaram sob proteção do próprio rei.

Movimentos semelhantes ocorreram em 1235, em Toulouse, Albi, Narbonne. "... povo e patriciado [nobres] - escreve Brenon (p. 280) - unem-se contra as explorações dominicanas entre as quais as mais insuportáveis eram inegavelmente as exumações e as fogueiras póstumas".

Ainda assim, aproveitando-se de uma reviravolta política, os temíveis inquisidores retomaram o poder de opressão nas mãos e a "Inquisição dominicana (Brenon, p. 280) momentaneamente vacilante, reassumiu sua impassível eficácia graças ao trabalho de Bernard de Gui e de Geoffroy d 'Albi." Este último, originário de lie de France,86 foi nomeado inquisidor de Carcassonne em 1303 e Bernard de Gui, do Limousine, inquisidor de Toulouse em 1307. Gui teria, no tempo devido, de ocupar-se dos Authié [encontro também a grafia Authier], dos quais falaremos daqui a pouco.

A despeito de todo esse gigantesco esforço empregado pela Inquisição ao longo de tanto tempo, "no início do século quatorze - escreve Brenon - o catarismo ainda não morrera na Occitânia". Faltava o último espasmo na prolongada agonia.
Nos arredores de Carcassonne e de Toulouse, "encurralado pelos poderes civis e religiosos (Brenon, p. 280), o catarismo não fazia mais do que sussurrar..." (Brenon escolhe bem suas palavras...), mas, no condado de Foix, onde o príncipe conseguira manter certo grau de independência, os praticantes da nova religião gozavam ainda de relativa liberdade.

Mesmo ali, contudo, e alhures no Languedoc, os croyants não tinham como atender ao que Brenon chama de "fome espiritual", à falta de parfaits que os instruíssem e consolassem. Viviam, portanto, das recordações das antigas prédicas e, quem soubesse ler, dos raros livros doutrinários porventura existentes.

Foi esse o momento para entrar em cena uma nova personagem histórica de nome Pierre Authié.

Enquanto os inquisidores empenhavam-se em "vigorosa política de repressão" (Roquebert, p. 474) - em Carcassès e Albigeois, cuidando de eliminar ou, pelo menos, neutralizar a resistência à Inquisição, "um estranho fenômeno de vasos comunicantes" estava prestes a relançar o movimento cátaro no Languedoc.

Quem primeiro percebeu, como diria Bernardo de Clairvaux, que os lobos recomeçavam a rondar a vinha do Senhor, foi Geoffroy d'Ablis, mestre em teologia, vindo de Chartres para suceder a Nicolas dAbeville, em 1303.
Ao ausentar-se para comparecer à cerimônia da coroação do novo papa Clemente V, em Lyon, Geoffroy recomendou ao prior Géraud de Blomac e ao frei Jean de Falgous, ambos do convento de Carcassonne, a mais severa vigilância, dado que tinha informações de que um ramo secreto da heresia continuava vivo e atuante.

Ele próprio, Geoffroy, em atenção a uma denúncia, mandara capturar, alguns dias antes, dois parfaits vindos do condado de Foix, por nome Jacques Authié, filho de um notário de Ax-les-Termes, e seu auxiliar [sòcí), um tecelão chamado André Tavernier, de Prades, território de Alion e, por isso, conhecido como Prades Tavernier.

86 lie de France, aprendo com o Larousse, região da França antiga com a capital em Paris, somente seria constituída em província no século quinze. Corresponderia aos oito departamentos atuais da região parisiense e mais parte do Oise e do Aisne.

Logo se descobriu que esses dois dirigiam pequena comunidade catara já implantada na região e que contava doze membros.
Vieram do condado de Foix dispostos à "reconquista espiritual" da antiga região ao catarismo.

Roquebert lamenta - como historiador, naturalmente - que não se tenha preservado senão pequena parte da documentação inquisitorial desse período, a relativa aos dezesseis meses que vão de maio de 1308 a setembro de 1309 e correspondente ao interrogatório de dezessete croyants. O suficiente, contudo, para que o historiador ateste sua "extraordinária riqueza", comparável apenas às igualmente valiosas anotações de Jacques Fournier, mais tarde, a partir de 1318.

Os depoentes falam abundantemente e com surpreendente liberdade de costumes e da vida quotidiana em suas comunidades, expandindo-se em detalhes que, com frequência, nada tinham com a heresia em si.
Lê-se em Anne Brenon (pp. 280 e seg.) que a tarefa restauradora assumida pela família Authié começou aí por volta de 1295.

Pierre Authié, notário de Ax-les-Termes, como vimos há pouco, era homem sensato e culto, de numerosa família, além de dois bastardos e uma parentela na burguesia notarial, estabelecida no Sabarthès: irmãos, genros, cunhados.
Da leitura de um livro cátaro - talvez contrabandeado, supõe Brenon, ou de uma remanescente biblioteca de família -, passou a interessar-se pela doutrina herética, abandonou seus afazeres e partiu, em companhia de seu irmão Guillaume, para a Lombardia, à procura de parfaits que pudessem instruí-lo melhor nas minúcias da heresia.

Em Coni encontraram-se com Pons Arnaud, de Châteauverdun, e, em seguida, com o derradeiro representante da Igreja, o velho Bernard Audoy, originário de Montségur, no Albigeois, e seu companheiro Pierre Raimon, de Saint-Papoul.
Entre 1297 e l299, aquele punhado de cátaros exilados planejou o 'grande retorno' à saudosa Occitânia. Iriam recomeçar a difícil sementeira em terreno ainda fértil, mas vigiado implacavelmente pelos espantalhos e predadores.

Após haver passado a Pierre e a Guillaume Authié tudo quanto podia ensinar-lhes, Audoy ministrou-lhes o consolamentum, bem como a Mathieu Germa, seu próprio sobrinho, e a mais dois noviços vindos do condado de Foix, o já mencionado Prades Tavernier e Amiel de Perles.

O pequeno grupo se pôs prontamente a caminho de volta ao Languedoc, onde chegaram, no final de 1299. O parfait Pierre Raimon, companheiro de Bernard Audoy, os acompanhou.
Essa foi a equipe - de apenas seis parfaits, ordenados na clandestinidade do exílio - que iria trabalhar nos próximos dez anos, na arriscada e romântica aventura de reativar o catarismo na região de Sabarthès, Toulouse e Razès.

Em 1300, Pierre Authié ordenou seu filho Pierre e um croyant de antiga família càtara, por nome Pons Baille.

A partir de várias residências estrategicamente situadas em Toulouse, na região do Alion e Razès, expande-se o leque do trabalho pastoral na tarefa bem-sucedida de reatar os antigos laços de fraterna amizade. E, novamente, os parfaits clandestinos e itinerantes contam com o apoio e a cumplicidade de pessoas de confiança por toda a região, especialmente no condado de Foix, onde se esboça verdadeira reconquista.

Aliás, o capítulo em que Brenon cuida deste período tem o expressivo título de "A Igreja do deserto". Roquebert preferiu chamar o seu módulo de "A Igreja da reconquista".

É realmente o que se passa naquela região. Novamente as grandes famílias acolhem os parfaits, protegem-nos e os ouvem atentamente. Brenon cita alguns desses clãs: os Châteauverdun, os Rabat, os Lodat, os Niaux. Consta que Roger Bernard III, de Foix, falecido em 1302, tenha sido consolado por Pierre Authié.

O texto de Brenon a respeito é expressivo. Os três Authié, Guillaume, Jacques e sobretudo Pierre são a alma do movimento.

São cultos, doutrinariamente bem instruídos e bons pregadores. Jacques -dizem os registros - "pregava como um anjo". Parece pertencerem à melhor linhagem catara, ressurgida em momento crítico no qual os croyants isolados e apavorados não tinham mais nenhum parjait ao qual recorrer.

Começavam a se entregar a práticas desesperadas e até supersticiosas. Conservavam piedosamente relíquias dos antigos parfaits e até pães abençoados por eles, para que pudessem garantir a si mesmos e aos seus "um bom fim".
"Era o puro e verdadeiro catarismo - assegura Brenon (p. 282) - que pregavam os Authié por toda a região, desde os casebres às mansões dos nobres..."

Novos adeptos começaram a ser recrutados, como certo Philippe d'Alayrac, de Coustaussa, que foi enviado à Itália como noviço e de lá voltou ordenado par-fait em companhia de uma mulher de Limoux, Aude Bourel, conhecida como Jacoba (Jacqueline), "a última parfaite occitana" conhecida e que se instalou em Toulouse em contato com pequeno grupo - clandestino, como sempre - mas sem a habitual companheira, pois parfaits e parfaites viviam e trabalhavam em duplas.

Em 1306, Pierre Sans foi ordenado por Pierre Authié, e, em seguida, um jovem tecelão por nome Sans Mercadier, bem como outros, mais tarde.

Cresciam, contudo, as dificuldades e os perigos que envolviam o bravo grupo de idealistas. Os olhos vigilantes da Inquisição estavam por toda parte e eram longos os seus braços. Tinha agentes e espiões atentos ao menor sinal suspeito, alguns deles infiltrados no movimento, fingindo-se de simpatizantes da doutrina catara a fim de melhor observar e denunciar os hereges.

A tortura moral e física começava a ser empregada para 'encorajar' a delação ou, antes, a desencorajar as tentativas eventuais de se recusarem os informantes a delatar.
Jacques Authié e Prades Tarvenier já haviam sido presos uma vez, em Limoux, em 1305, mas conseguiram escapar. Em 1308, Guillaume Authié e Prades escapam por um triz da grande operação de prisão em massa levada a efeito em Montaillou.

No ano seguinte, quase todos os parfaits foram capturados, um por um. Em março desse mesmo ano (1309), Jacques Authié foi queimado em Carcassonne; em agosto foi a vez de Pierre, seu pai, levado para a prisão em Toulouse, onde se reencontrou com Amiel de Perles. "Na prisão de Toulouse - escreve Brenon (p. 283) - Pierre Authié e Amiel de Perles trocam impressões acerca de sua tristeza: Bernard de Gui conseguira abater a Igreja deles." Não se preocupavam, portanto, com as próprias vidas, mas como estrangulamento de seus ideais reformistas.

Guillaume foi preso e queimado em dezembro, juntamente com Prades Tavernier. Em 23 de outubro foi a vez de Amiel, queimado em "regime de urgência". Optara pelo extremado procedimento da endura, entregando-se à greve de fome. Ansiava por um fim mais breve possível, de modo a não ter que falar mais sobre tudo o que já lhe fora possível dizer.

Pierre Authié enfrentou ainda longos meses dos torturantes interrogatórios até que, em 9 de abril de 1310, Geoffroy d'Ablis e Bernard Gui leram para ele a sentença condenatória.
Como todos os outros, morreu com bravura e sem um momento de vacilação. Antes que as chamas lhe devorassem o corpo, deu o último testemunho, dizendo que, se "o deixassem falar e pregar à multidão, haveria de convertê-la toda à sua fé".

Sabedor de sua morte, Sans Mercadier suicidou-se, atitude rara num parfait. Quanto a Pierre Sans, continuou a pregar na cladestinidade até 1312. Supõe-se que por esse tempo se tenha refugiado, provavelmente na Catalunha ou na Lombardia. Philippe d'Alayrac e Belibaste, foragidos da prisão de Carcassonne - o terrível mur, o muro ou parede -, foram parar na Catalunha, via Fenouillèdes.

Um século depois de Guilhabert de Castres, em Fanjeaux, Pierre Authié retomara a tradição dos grandes pregadores,

[...] capaz de restaurar e vivificar [escreve Brenon] uma verdadeira Igreja em toda a região, com seu punhado de intrépidos Bons Hommes.
Entre os dois [continua a historiadora], um século de guerras, de grandes fogueiras coletivas, de esperanças malogradas, de repressão sistemática, de delações, de torturas, de depoimentos extorquidos, de temores, de mortes miseráveis no fundo dos calabouços, de consolamentos clandestinos e de erraticidade.

De alguma forma, a mensagem que esses bravos pregadores estavam tentando divulgar continuou a repercutir, ainda que com imprecisões e distorsões, no depoimento de gente que com eles teve algum contato ou convivência.
Guillelme Garsen, por exemplo, declararia a Jacques Fournier, dez anos mais tarde, algo do que aprendera com "os ditos heréticos".

Depois de falar - tanto quanto ela entendera - sobre o dualismo do Deus-bom versus Deus-mau, acrescentou que "os espíritos ou almas haviam sido criados há muito tempo e deixavam o corpo das pessoas - o texto inquisitorial fala em hommes - para, em seguida, reentrar no corpo de outros homens e mulheres; eles me diziam - conclui - que talvez eu tenha sido uma rainha..."

Pierre Maury, um pastor anónimo de Montaillou, também se lembrava de aspectos marcantes da pregação daquele heréticos, no seu caso, Belibaste, o último parfait conhecido.

Contou ele aos inquisidores que, depois da morte física do corpo, a alma abrasada pelo fogo de Satã, o deus estrangeiro, cuida logo de reencarnar-se para não mais sofrer as queimaduras. "Ela se incorpora o mais rapidamente possível em outro corpo, seja este qual for, o primeiro corpo de carne que encontrar, seja de outro homem ou o de um animal ou pássaro, a fim de conseguir algum repouso nesse corpo..."

Dias depois, em outra rodada de interrogações, o mesmo depoente continuou a expor a doutrina de Belibaste. Ouvira esse herético dizer - informa o pastor - "que matar qualquer animal, exceto ratos, serpentes, sapos e outros que tais, era pecado, de vez que nesses animais há almas humanas encarnadas".

Ao comentar esses depoimentos, ressalva Anne Brenon que "essa teoria da encarnação da alma humana-divina em corpos de animais tenha sido um traço específico daquele 'catarismo montanhês'. Pierre Authié - ressalva a autora (p. 286) - não falava senão de corpos humanos".

Quanto a estas pequenas, mas expressivas e reveladoras, amostras, algumas reflexões se impõem e não quero deixar escoar-se a oportunidade de as colocar para meditação de você que me lê, bem como minha própria.

Ressaltam, em primeiro lugar, a nitidez e convicção com a qual se situa no catarismo a doutrina das vidas sucessivas. Para os cátaros, a morte não é o fim de tudo e nem suscita a destinação final e irreversível do ser sobrevivente. Os portais da morte se abrem para outra dimensão, onde a alma (ou espírito) prossegue suas intermináveis experimentações com a vida.

O corpo físico fica na terra, onde seus componentes orgânicos se desintegram. Liberada do acoplamento com a matéria densa, a alma sobrevivente pode encontrar-se em pelo menos duas situações póstumas, conforme tenha sido seu procedimento na Terra. Ou estará no gozo de relativa paz, quando tenha agido corretamente enquanto por aqui andou, ou estará afligida por tormentos indescritíveis comparáveis ao lendário suplício das fogueiras do fictício inferno. E, neste caso, desejará reencarnar-se tão logo lhe seja possível, a fim de encontrar em novo corpo físico certo sossego que o esquecimento da reencarnação lhe proporciona.

Algumas deformações figuram, portanto, nos ensinamentos recebidos, como a persistente idéia do inferno, incorporada há séculos naquilo que Carl G. Jung rotularia, séculos mais tarde, como "inconsciente coletivo". Tão persistente tem sido a fantasia do inferno que ela ainda prevalece na imaginação de crentes e descrentes, entre os que não sabem e os que não querem saber.

Não é de se admirar, pois, que o conceito de um espaço destinado ao castigo eterno dos pecadores tenha se infiltrado sutilmente na doutrina catara, pelo menos na cabeça daqueles que a expunham em segunda mão, aos inquisidores, nos termos de suas limitações culturais e linguísticas e, ainda mais, segundo o que se preservara em suas lembranças do que haviam ouvido dos últimos parfaits.

De qualquer modo, era válido naquela época, como antes dela, tanto quanto hoje e no futuro, o conceito das vidas sucessivas. Não estamos tratando aqui de simples formulação teórica, especulativa ou filosófica e nem de crença de caráter religioso, mas de uma lei natural, ensinada pelo próprio Cristo.

O espiritismo codificado pelo prof. Rivail (Allan Kardec) em meados do século dezenove, lá mesmo, na França, colocaria tais idéias na sequência, na hierarquia e no lugar adequados, ratificando, retificando e revitalizando conceitos básicos da doutrina catara. Ou, mais amplamente, do cristianismo primitivo.

Tanto no catarismo medieval quanto no espiritismo contemporâneo, no entanto, o eixo em torno do qual orbita o sistema de idéias é o das vidas sucessivas.

Tenho declarado alhures em outros escritos que o conceito da reencarnação traz em si um alto poder subversivo. É verdade isso, no sentido de que a realidade das vidas sucessivas põe em xeque toda a estrutura de apoio que a Igreja católica, por exemplo, mas também o protestantismo, o judaísmo e o Islã não teriam como adotar sem irreparáveis danos às suas respectivas teologias. E, por via de consequência, ao seu patrimônio material e ao poder civil de que dispõem.
Não tenho como apurar se a Igreja medieval percebeu esse risco e se, tendo percebido, teria sido esta a causa ou, pelo menos, uma das motivações dominantes da devastadora e sangrenta campanha de extermínio que moveu contra o catarismo.

É certo que eram relevantes e inegociáveis seus interesses materiais e políticos naquele tempo, como ainda hoje, e que a perspectiva de demolição de seus fundamentos doutrinários tenha assustado as hierarquias eclesiásticas mais do que hoje nos é possível admitir. O medo nunca foi bom conselheiro.

Sejam ou não estas as razões, a Igreja não poderia contemplar sem profundas inquietações o impacto positivo que o catarismo vinha suscitando por toda parte em amplo espaço geopolítico, além de religioso, no qual até então ela fora soberana, com poderes até sobre o famigerado "braço secular", que lhe cumpria fielmente as sentenças condenatorias, sob pena de excomunhão ou interdição.

As deformações doutrinárias contidas nos depoimentos dos croyants ou de pessoas que simplesmente dialogaram ocasionalmente com os parfaits e as parfaites são explicáveis e até esclarecedoras no sentido de que revelam o quanto o catarismo mexera com a cabeça do povão e dos nobres daquela época.

Belibaste, o último parjait, não vinha mais daquela linhagem cultural e doutrinária do passado, situando-se, ao contrário, à distância astronômica de figuras exponenciais como a de Guilhabert de Castres.

Brenon mesma chama a atenção, por exemplo, para o fato de que ele admitia a reencarnação de almas humanas em animais, hipótese que, de modo algum, seria endossada pelos Authié, ou, para lembrar por minha conta, pelo espiritismo, no século dezenove.

Do que se depreende que a doutrina cátara entrara em processo de entropia, de degradação, a partir do momento em que a repressão foi eliminando os grandes teóricos e líderes do passado. Após a família Authié e seus seguidores imediatos, restou Belibaste, que os historiadores do catarismo tratam com reservas, ante seu evidente despreparo para a função que pretendia exercer.

Há que se anotar, ainda, que a doutrina cátara da morte era a de Paulo, ou seja, a de que o componente espiritual se desprende do corpo físico que, abandonado à terra, decompõe-se. Esse esquema, por sua vez, apoiava-se em outras tantas convições paulinianas como a de que o ser humano encarnado é uma trilogia psicossomática composta - se assim podemos dizer - de corpo físico, alma e espírito [soma, psique, pneuma]. A mesma, aliás, adotada posteriormente pelo espiritismo, que considera a alma como espírito (re)encarnado.

Não há como discordar de Anne Brenon, que via nesse catarismo quase que pós-cátaro óbvias deformações doutrinárias, que surgem com mais frequência na concepção um tanto ingénua dos homens e mulheres do povo nos seus depoimentos à Inquisição. Mesmo porque tais filigranas doutrinárias estavam acima da capacidade de compreensão daquela gente simples e boa cuja prioridade maior era com o monótono varejo de suas vidas anônimas e apagadas.

Como vimos, ainda há pouco, observa a historiadora que a teoria da reencarnação de almas humanas e animais parece-lhe ser um "traço específico daquele 'catarismo montanhês', e não tem acolhida nos ensinamentos de pureza doutrinária de um Pierre Authié, por exemplo.

A mesma avaliação serviria, a meu ver, para aspectos como o diteísmo (doutrina ou crença em dois deuses igualmente poderosos em lugar de em dois princípios que se opõem ou se contrastam, como o do bem e do mal).
Tratava-se, no dizer de Brenon (p. 290) de um "dualismo pragmático" decorrente de uma metafísica - popularizada diria eu - que "não é mais a do catarismo".

O que transparece, portanto, nos depoimentos recolhidos pelos inquisidores não é a boa doutrina catara na pureza de seus tempos de apogeu, mas o que pastores, trabalhadores do campo e donas de casas entendiam (ou não entendiam) daquilo que ouviram falar ocasionalmente aos derradeiros parjaits.

Como poderia Arnaud de Cogul - pergunta-se Brenon - acreditar que Deus houvesse criado o lobo que regularmente devorava suas vacas e seus carneiros? Animais nocivos, como lobos, ratos, serpentes, moscas só podiam ser criaturas do deus-mau, ou melhor, do demônio.

Já nos livros doutrinários cátaros - os poucos que sobreviveram - vemos que todos os corpos físicos eram criação do mal. As almas, não. Como componentes divinos, ficavam neste mundo, aprisionadas nas diabólicas "túnicas de pele".
Pierre Clergue, o "cura anarquista" de Montaillou, na sua desabrida linguagem, colocava os bispos católicos na categoria de lobos e os frades dominicanos, na dos cães. Não faltou, aliás, quem desdobrasse a palavra dominicano - de são Domingos - em Domini cani, ou seja, os vigilantes "cães do Senhor".

Tratava-se, pois, de um catarismo que começava a entrar pelos atalhos de que fala Luciano dos Anjos, um catarismo "devoyé", no dizer de Brenon.

Não estou partindo da suposição elitista de que os depoentes eram de inteligência limitada e incapazes de raciocinar. A inteligência pode perfeitamente conviver com a incultura. É o que se depreende, por exemplo, dos notáveis diálogos mantidos entre Jacques Fournier, em Montaillou, com os camponeses, artesãos e donas de casa da região.

Os historiadores do catarismo, bem como antropólogos, escritores e sociólogos, não fazem segredo do encantamento que experimentam com esses curiosos textos inquisitoriais que preservaram a espontaneidade da conversa e o jogo sutil das ideias que aquelas pessoas movimentavam na mente.

É convincente nesse sentido, a leitura de Le Roy Ladurie, em Montaillou -village occitan. Jean Duvernoy recolheu testemunhos dessa natureza em seu interesssante livrinho. Brenon também oferece alguns recortes de tais depoimentos. Exemplo: Jacques Fournier pergunta a Grazida Lizier, jovem camponesa de Montaillou, se ela achava ter cometido pecado, ao manter relacionamento amoroso com um padre, o notório Pierre Clergue, antes e durante seu casamento.
"Como, àquela época, aquilo nos dava prazer, a mim e ao cura - responde ela com toda a pureza da espontaneidade - não acreditava e não me parece que se tratasse de pecado. Agora, porém, como aquilo não mais me causaria qualquer prazer, se eu fosse carnalmente conhecida87 por ele, eu teria a impressão de pecar..."

87 Para quem não esteja familiarizado com esse verbo nesta função, devo lembrar que, segundo Aurélio, conhecer é, também, "ter relações sexuais com.."

Mas Fournier insiste, perguntando à jovem se, no seu entender, aquele procedimento não estaria desagradando a Deus.

Ela retruca reiterando sua doutrina do prazer, se assim podemos dizer. Não lhe pesava na consciência o ato que, naquela ocasião proporcionava prazer a ela e ao senhor cura. Embora ressalvando que a união carnal entre homem e mulher desagradasse a Deus, "não creio - disse - que duas pessoas que se unam, pequem, desde que aquilo lhes proporcione mútuo prazer".

Dessas delicadas explorações, o interrogatório salta para o plano teológico, quando o bispo-inquisidor pergunta a Grazida se ela acredita no inferno e no paraíso. Vejam que resposta inteligente e bem colocada:

"Não sei. Ouvi dizer que o paraíso existe e acredito nisso. Ouvi dizer (também) que o inferno existe, mas nisso não acredito, nem o nego. Creio que o paraíso existe, porque é uma boa coisa, pelo que ouvi dizer, mas não creio muito no inferno porque é uma coisa má...

"E quem lhe ensinou esses erros? - pergunta o bispo.

"Ninguém, senão eu mesma" - é a resposta.

"E você ensinou isso a alguém?

"Não, ninguém m'o perguntou..."

De certa forma, a inteligente Grazida ganhou sua causa, de vez que, talvez bem impressionado com a espontaneidade da moça, o inquisidor atribuiu-lhe pena relativamente leve (prisão), logo comutada por outra que a obrigava a usar a cruz de pano costurada às suas roupas simples de camponesa.

Nesse ínterim, Grazida procedeu a uma releitura em sua teologia, admitiu seus erros e passou prudentemente a acreditar no inferno, "onde os maus e os demônios serão castigados para sempre".

Quanto à criação, ela expôs seu pensamento a Fournier. Deus teria feito "as boas coisas, úteis às pessoas, como seres humanos, animais comestíveis ou que transportam cargas, como bois, cabras, cavalos, mulas e os frutos da terra, árvores (vegetais) comestíveis". Acreditava, contudo, que Deus não havia feito o diabo, porque é uma coisa ruim, e "Deus nada fez de mau". Sábia Grazida...

Reflexos esses, imperfeitos, um tanto deformados, mas eloquentes da filosofia de vida dos simples e incultos croyants.

Nessa mesma ordem de raciocínio, Deus não poderia ter feito a Igreja católica, chamada por eles de "la Gleisa malignant romana", a "maligna Igreja romana", ou a "Igreja de lobos", em vista da opressão que exercia sobre toda aquela gente que ousava pensar diferentemente. Em contraste, mais do que em oposição a essa, lá estava, la Gleisa de Dio, a de Deus, a dos oprimidos, a dos Bons Cristãos.

A perseguição, contudo, era condição prevista pelo próprio Cristo, sendo, por isso, necessário aprender a conviver com ela. Estava lá em João (15,20), e "onipresente na literatura catara desde O livro dos dois princípios" - informa Brenon : "Se a mim me têm perseguido, também a vós perseguirão" - prevenira Jesus. "Desde o começo do mundo, sempre os lobos devoraram os cordeiros -diz o texto cátaro -, e os maus perseguiram os bons..."

Ainda assim, a violência da perseguição que marcou a história do cataris-mo, no dizer de Roquebert, não deveria ser, no entender dos cataros, respondida com a violência. "O rebanho das ovelhas do Cristo - lembra Brenon (p. 294) -não pode revidar com a violência às violências da Igreja dos lobos."

Em "diálogo bem vivo", o pastor de cabras Pierre Maury conta ao bispo Jacques Fournier (ver Brenon, p. 294) como foi que Pierre Authié lhe explicou a razão das perseguições que sofria.
O 'herético' (Authié) tomou as mãos do pastor, pediu-lhe que se sentasse ao seu lado e declarou:

[...] vou lhe dizer a razão pela qual nos chamam heréticos. E porque o mundo nos odeia e não é surpresa alguma que o mundo nos odeie (I João, 3,13) porque também odiou nosso Senhor e o perseguiu, como também aos seus apóstolos. Somos perseguidos e odiados por causa de sua lei, que observamos firmemente. Aqueles que são bons e desejam conservar fé constante deixam-se crucificar e apedrejar quando caem em poder de seus inimigos, como aconteceu com os apóstolos. E não querem renegar uma só palavra da fé constante que guardam consigo. Há duas Igrejas: uma se afasta e perdoa, a outra prende, e arranca, e esfola.

- E eu lhe respondi: Se vocês seguem o caminho da verdade, por que não pregam, como os curas, nas igrejas?

- Ele me respondeu: - Porque, se pregássemos em público, a Igreja romana perderia toda a sua audiência; as pessoas preferem nossa fé à dela porque nós não dizemos e pregamos senão a verdade, enquanto que a Igreja romana diz grandes mentiras...

Por isso Brenon imagina as agonias e as perturbações de Pierre Authié na sua prisão no "mur" de Toulouse. Soubera por intermédio de Bernard Gui que a pequena Igreja que ele tanto se empenhara em reconstruir havia sido dizimada. Seu filho Jacques e seu irmão Guillaume haviam sido queimados, como ele próprio haveria de sê-lo em breve. Estava tudo perdido, sem qualquer sopro de esperança e, sem esperança, como se poderia continuar vivendo?

A heróica tentativa dos Authié e de seus amigos fora a última chance. Uns poucos parfaits sobreviviam, ainda, na clandestinidade e no exílio, na Itália. Umas poucas e ressequidas sementes para tão largas terras a semear...
Pierre Authié, imagina ainda Brenon (p. 291),

[...] sabia que sua Igreja era a Igreja dos Bons Cristãos, a dos apóstolos, que o Cristo havia investido da missão de transmitir a mensagem e o sacramento da salvação até o fim dos tempos. Como imaginar que essa Igreja pudesse desaparecer antes de haver cumprido sua missão? Que a palavra do Cristo pudesse extinguir-se antes do fim do mundo? Que aconteceria se o último parfait morresse sem ter podido transmitir o Espírito Consolador?

E bonita e melancólica a palavra da historiadora do catarismo. Ainda assim, eu poria em outro contexto a legítima tristeza de Pierre Authié. Era, de fato, lamentável que aquele corajoso grupo de bravos não houvesse conseguido resgatar a sua pequena Igreja das garras dos poderosos de plantão, que, paradoxalmente, se diziam defensores da verdadeira fé e da palavra do Cristo. Mas aquela, certamente, não fora e nem seria a última tentativa, nem a última esperança.

Na mágica intuição que sempre bafejou os poetas, o trovador diria, como disse, que o ramo de louro voltaria a brotar sete séculos mais tarde...

O Cristo continuaria insistindo em enviar outros emissários para repetir insistentemente as mesmas verdades que ensinara e praticara, na sua breve passagem pela Terra.

O que de fato se perdera, com o colapso do catarismo, fora a oportunidade de ver germinar, florescer e frutificar aquela semente generosa plantada em ter¬reno cuidadosamente preparado.

Dificilmente poderia o futuro reunir condições tão propícias como as que prevaleciam no bucólico cenário do Languedoc. Ali fora, de fato, implantada com a necessária antecedência uma "sociedade predisposta à heresia", como intuiu corretamente Anne Brenon.

Pierre Authié sabia que a vida na Terra é apenas mergulho temporário na matéria densa, no esquecimento, em contexto de equívocos e desenganos, mas que, falecidos, parfaits e parfaites voltariam em outras existências para dar continuidade ao trabalho encetado. O Cristo não deixaria perder-se para sempre sua mensagem de paz.

Proposições renovadoras, como a dos cátaros, trazem consigo aspectos polêmicos, formulam perguntas, desafiam o contexto em que se inserem, convidam a pensar e repensar. Que respostas tinham a oferecer as correntes dominantes do pensamento político, social, econômico e, principalmente, religioso? Concordavam? Discordavam? Como e por quê? Tinham alternativas? Faziam concessões?

No caso dos cátaros, as respostas foram a espada e a fogueira. Mas Brenon diz que a espada não constitui instrumento adequado para se deceparem idéias (ainda que usualmente eficaz para cortar cabeças) e Camille Desmoulins diria, em aparte a Robespierre, que "Queimar não é responder!"
Depois do sonho dos Authié e seus amigos - que acabou no mesmo pesadelo de sempre -, restou o não menos melancólico episódio da agonia do que já estava morto.

O protagonista chamou-se Guillaume Belibaste, considerado o último parfait occitano. Sem intenção trocadilhista, foi um parfait bastante imperfeito. Escapara para a Catalunha, em companhia de Philippe d'Alayrac, logo que Geoffroy d'Ablis e Bernard Gui conseguiram a proeza de apagar os derradeiros bruxuleios do catarismo mandando para a fogueira os três Authié.

Belibaste - informa Brenon (p. 298) - não estava de forma alguma predisposto ao ofício de parfait. Nascido em família rural rica de Corbières, era casado e jovem pai de familia, quando as coisas começaram a mudar em sua vida. Não nos demoraremos em sua biografia, ou melhor, no que dela sabemos. Foi para a Catalunha e lá ficou cerca de doze anos a pregar "bem ou mal" - diz a historiadora -, a um punhado de occitanos exilados. Era um homem de Deus sem a verdadeira vocação, pregador despreparado e sem a disposição adequada de temperamento. Vivia em companhia de Raimonde Piquier, de Axat, "falsa esposa (...), mas concubina de verdade", até que a casou com Pierre Maury, integrante do grupo, porque Raimonde estava grávida (dele próprio, Belibaste) e era preciso resolver diplomaticamente o problema.

Como seus pecados haviam invalidado a investidura anterior promovida por Philippe d'Alayrac, ele pediu a Raymond Castelnau, o parfait com quem fugira do Languedoc, que o confirmasse, o que foi feito. Recaído nos pecados, ficou à espera de novo parfait que restabecesse sua condição sacerdotal, ministrando-lhe uma terceira ordenação. Não durou muito no exercício das suas funções. Arnaud Sicre, seu companheiro, decidido a recuperar os bens que a Inquisição confiscara de sua mãe, Sibille Baille, ao condená-la à fogueira por ter sido uma parfaite junto ao grupo dos Authié, usou Belibaste como moeda com a qual conseguiu realizar seu intento. O infeliz parfait - vendido à Inquisição, no dizer de Brenon - foi capturado em Tirvia - um enclave do condado occitano na Catalunha -, entregue aos inquisidores de Pamiers e, em seguida, recolhido ao temível "mur", em Carcassonne. Finalmente, seu "senhor temporal", o arcebispo de Narbonne, reclamou-o para si e o fez queimar em Villerouge-Termenès, o castelo episcopal, em 1321.

Arnaud Sicre reintegrou-se na posse dos bens de sua mãe por ordem de Jacques Fournier, o bispo inquisidor que celebrizou Montaillou.

A partir dessa data (1321) - informa Brenon (p. 300) - "o catarismo occitano desaparece pouco a pouco do testemunho dos documentos. A Inquisição -conclui - vai interessar-se, daí em diante, por outros dissidentes".

Ainda se acendem, aqui e ali, algumas fogueiras esparsas, como em 1325, para queimar Guillelme Tournier, uma simples croyante de Tarascon-sur-Ariège. Essa pobre senhora cumpria pena de prisão perpétua em Carcassonne, quando cometeu a imprudência de confidenciar a certo 'agente duplo' - um espião -, que os irmãos Authié e Belibaste haviam sido bons e santos homens, aos quais ela devia sua salvação... Pagou sua ingênua declaração com a morte na fogueira.

Em 1328, Arnaud Morlane foi condenado postumamente à fogueira. Sem poder executar alguns hereges ao vivo, a Inquisição incinerava o que deles restasse. Morlane fora reitor de Pennautiers e irmão de Sans Morlane, arcediago da catedral de Carcassonne.

No ano seguinte, 1329, foram queimados três croyants, em Carcassonne: Isarn Raynaud, de Albi, Guillaume Serre, de Carcassonne e Adam Baudet, de Conques.

Precisamos, ainda, de aprender um pouco mais com Anne Brenon, nas reflexões finais que oferece antes de colocar o ponto final em seu livro.

O catarismo surgiu e se desenvolveu [ensina ela (p. 305)] nos séculos 11 e 12, no contexto de um grande despertamento evangélico e no seio de uma efervescência de pulsões mais ou menos inovadoras, mais ou menos populares. Surgiu nesse tempo como o mais absolutista de tais movimentos e, sem dúvida, o foi: intransigente quanto à inocência do Deus de Amor, perante o mal e a morte, quanto à literalidade da leitura evangélica e sua aplicação, e levou até os extremos de sua lógica a interpretação espiritual da palavra do Cristo. Foi o único a recusar qualquer possibilidade de compromisso com Roma e em assumir postura anti-Igreja, na legitimidade duma filiação apostólica. Foi o único também a não poder evoluir, justamente em vista do caráter absoluto e acabado de sua doutrina da revelação e da salvação.

Quis transcrever o texto de Brenon, antes que tentar apenas parafraseá-lo. Tenho reiterado neste livro meu encantamento por seus insigths,88 suas idéias e pela forma literária com a qual ela as veste, ainda que, aqui e ali, não concorde inteiramente com suas colocações, ou até discorde irremediavelmente delas, o que é perfeitamente compreensível.

No parágrafo acima transcrito - penso eu -, ela identifica com sensibilidade e competência os mais dramáticos conteúdos do catarismo. Tanto quanto me é dado a mim mesmo avaliar, o catarismo foi, de fato, um movimento revolucionário e necessariamente contestador. Tinha que ser absolutista porque veio para mudar um estado de coisas que se cristalizara dentro de linhas anárquicas, em um modelo cristão deformado por um milénio de desvios e concessões. Suas intransigências eram inevitáveis exatamente porque não podia fazer concessões a certos postulados sem que ela própria, a doutrina catara, se abastardasse. No entender de seus formuladores, aspectos como a "inocência de Deus" - inteligente achado -, quanto à existência do mal e da morte, eram inegociáveis.

88 Insights - Não se assustem os puristas de carteirinha. Mestre Aurélio abona a palavra, ao ensinar: insight [Ingl.].

O mal não é, por certo, criação divina, no sentido de que a divindade o te¬nha produzido deliberadamente para atormentar ou castigar suas criaturas. Ou que precisasse dele para iluminar melhor o bem e a verdade, pelo contraste de sombra e luz. O mal é um subproduto de nossas imperfeições, ao mesmo tempo em que se coloca como inteligente mecanismo de correção de rumos, que nos reconduz ao bem a cada desvio. Deus nos criou, no dizer das entidades instrutoras da dou¬trina dos espíritos, simples e ignorantes, não maus, e não necessariamente à mer¬cê do mal, senão na medida e extensão de nossas fraquezas e imperfeições. Ao contrário, temos sempre à disposição o prémio de nossas adquiridas virtudes e o ónus dos equívocos cometidos.

Brenon chama a atenção para o fato de que o catarismo foi um movimento que "passou ao lado do grande vento apocalíptico e profético" que soprou através do Ocidente na Idade Média, a partir do escritos de Joachim de Fiore, entre os séculos treze e quatorze, bem como de outros movimentos "inspirados - diz ela (p. 305) - na mesma fome e sede evangélicas da época". Cita, entre estes, os val-denses e os franciscanos de conteúdo renovador. Mas, conclui, "o catarismo permaneceu no caminho das esperanças celestiais".

Em mais uma de suas reflexões, ela estabelece certa vinculação ideológica entre valdenses e hussitas, atribuindo àqueles "uma concepção simbólica e racional próxima da lógica hussita".

Em outras palavras: a predisposição que ela entrevê na sociedade para a heresia, não era só no Languedoc, embora fosse ali o núcleo, e nem era somente em relação ao catarismo, mas a outros movimentos ideológicos, pela Europa afora, todos eles com características reformistas e, portanto, concentrados numa releitura crítica da cristalizada ideologia católica.

O projeto era amplo, foi competentemente elaborado e começou a ser implantado com todo o cuidado. Não foi o plano que falhou, mas os seres humanos incumbidos de levá-lo a bom termo a prazo mais longo.

São evidentes o conteúdo e o propósito reformista de Francisco de Assis, por exemplo. Quando, numa das suas visões, o Cristo manifestado lembra que sua tarefa é a da reforma da Igreja, ele, na sua humildade, entende que o Mestre lhe está falando das ruínas de uma capela modesta perdida na idílica paisagem da Umbría. E se põe a juntar pedras e argamassa para reconstruí-la. Não era a igreja com minúscula, e sim a grande, com maiúscula...

Já os seguidores de Francisco, pouco depois, no Languedoc, juntaram-se aos dominicanos para ajudar a extirpar a 'heresia' catara que era, precisamente, o modelo reformista no qual as mais sólidas esperanças foram depositadas.

Com o apoio do braço secular, as forças da resistência conseguiram exterminar os cataros, não o catarismo, cujo propósito reformista voltaria como que 'reencarnado' no movimento hussita, com Wiclef e, posteriormente, no século dezesseis, com Lutero. A Reforma protestante irradiada a partir do núcleo ideológico instalado na Universidade de Wittenberg precisou, como os cataros, do apoio da espada, desta vez proprorcionado pelos barões alemães sob a firme liderança de Frederico, o Sábio.

A essa altura, porém, não havia mais, como no Languedoc dos séculos doze e treze, a "predisposição da sociedade" de que fala Anne Brenon. A Igreja de Roma, principal alvo dos que pensavam numa reformatação do pensamento religioso, continuava mais firme e intransigente do que nunca, na sua postura de única instituição capaz de garantir a salvação das almas e, a despeito de politica¬mente mais enfraquecida, ainda contava com a espada de seus próprios barões, como o duque Georg.

Realmente, a sociedade não era mais tão receptiva como fora a do Languedoc e nem a Reforma em si tinha a mesma amplitude ideológica e o mesmo cinimus restaurador, em busca do verdadeiro cristianismo, lá, nas remotas fontes de onde brotara puro e fresco.

De qualquer modo, não estou pretendendo com esta análise crítica minimizar a influência positiva da Reforma protestante no processo de libertação do pensamento religioso. Foram mais três ou quatro passos adiante, ainda que parcialmente anulados por um ou dois atrás.

Preocupada com o impacto que o modelo luterano causara na comunidade e com sua rápida expansão, a Igreja de Roma tentou deter o movimento, como o fizera até então com qualquer surto ideológico semelhante, como o dos cátaros, por exemplo.

Havia passado a época das Cruzadas, mas não a da Inquisição, a cuja metodologia recorreu na desesperada tentativa de estrangular o movimento reformista logo nas suas primeiras manifestações ou mais adiante.

O fracasso das negociações, das pressões políticas, das bulas condenatórias, das excomunhões levou às práticas inquisitoriais, que tanto 'êxito' haviam alcançado no Languedoc. Mas, como não chegaram a ousar os barões occitanos simpatizantes do catarismo, Lutero queimou em praça pública a bula que o excomungava, enquanto, com sua desabrida linguagem, não hesitava em defrontar-se com o papa,
ícone milenar de um poder civil que se tinha como que aureolado pelo toque sagrado da divindade.

Seja como for, como disse alhures, em outros escritos meus, sem a Reforma protestante, no século dezesseis, não teríamos a doutrina dos espíritos no século dezenove. Mesmo porque o espiritismo retomava um buque muito semelhante de idéias com as quais se apresentara o gnosticismo entre o segundo e o terceiro séculos da era cristã, e o catarismo, setecentos anos depois.

É de notar-se reiteradamente que tais idéias e conceitos não pertencem a este ou àquele movimento (religioso ou não) e não conferem a ninguém o direito da exclusividade. Existência, preexistência e sobrevivência do ser espiritual, imortalidade, reencarnação, comunicabilidade entre vivos e mortos, responsabilidade pessoal de cada um pelos seus atos, os bons e os 'outros', constituem aspectos da vida, leis naturais que regem os mecanismos evolutivos e não meros objetos de crença ou fé, que você aceita ou não.

Estas realidades, como a óbvia e necessária existência de Deus, aí estão inseridas e atuantes nas muitas dimensões e aspectos deste universo em que vivemos. Tais aspectos da realidade invisível independem de nossas crenças ou descrenças.

Temos de nos lembrar, por outro lado, de que o catarismo não foi estrangulado, demolido, extirpado e queimado nas fogueiras da Inquisição, foram os cátaros, seus parfaits, parfaites, croyants ecroyantes, tanto quanto aqueles que simpatizaram com suas idéias, defenderam o direito de ensiná-las e praticá-las, ou tinham com eles vínculos de parentesco, solidariedade, admiração, respeito e cumplicidade ou, ainda, que simplesmente os toleravam com maior ou menor dosagem de indiferença.

Aliás, para ser mais exato, é preciso retificar o que acaba de ser dito: as Cruzadas e a Inquisição não mataram os cátaros, e sim seus corpos físicos; não seus espíritos, não suas idéias. E os espíritos, como as idéias, voltam à vida em novas existências, em novas etapas, para retomar em outro nível as experiências que a intolerância não permitiu que fossem feitas.

Não necessariamente com as mesmas pessoas reencarnadas alhures no tempo e no espaço, o grupo de idéias básicas que compunham o catarismo manifesta-ra-se anteriormente desde remotas eras no Oriente, no Egito, no neoplatonismo, no gnosticismo, como posteriormente, no século dezenove, na doutrina dos espíritos, coligida e exposta em toda a sua lucidez e simplicidade pelo prof. Rivail (Allan Kardec).

Desta vez não sofreria pressões e perseguições tão dramáticas quanto o catarismo medieval, ainda que não tenha passado sem as cicatrizes habituais das lutas ideológicas.

Não morreu nenhum espírita na fogueira e nem se armou contra o movimento uma sangrenta Cruzada, que prometesse recompensas terrenas e celestiais: propriedades, riquezas, títulos nobiliárquicos e perdão de pecados. Desta vez, o inimigo maior e mais sutil não seria tanto a poderosa Igreja de Roma, mas a 'Igreja' laica do materialismo.

Ao contrário de gnósticos e cátaros, que viam na matéria uma espécie de demônio a temer-se, a nova corrente de pensamento propôs uma abordagem pragmática e experimental ao componente material da vida, necessário à formulação de uma estratégia mais adequada de interação que resulte em benefícios ao processo evolutivo como um todo. Em outras palavras: a matéria não é para ser satanizada, temida ou desprezada e nem idolatrada, à vista das mordomias que oferece, mas estudada serenamente. Ela precisa ser situada como instrumento de trabalho, como serva, não como dona e senhora do ser humano.

Para recorrer, ainda uma vez, ao achado de Anne Brenon, a sociedade não tem mais a predisposição que tinha no Languedoc medieval para acolher a heresia da realidade espiritual, porque a heresia maior do materialismo assumiu o comando da comunidade humana, envolvendo-a numa poderosa rede de interesses que não há como ignorar no contexto em que vivemos.

Realidades invisíveis passaram a ser encaradas sob suspeita, como diversionistas, obstrutivas, depois de caracterizadas como ocultismo, crendice, infantilidade, fantasia, ignorância, enfim, admissível em povos primitivos, mas inaceitável entre executivos, acadêmicos, líderes políticos, empresariais, sociais e até mesmo religiosos, por mais paradoxal que isto possa parecer.

Decorridos um século e meio desde que foi formulado, em meados do século dezenove, e por mais que se tenha expandido como movimento, o espiritismo continua minoritário, praticamente ignorado nos sofisticados meios intelectuais pelo mundo afora. Em raros textos de referência você encontrará um resumo confiável e imparcial das idéias que o compõem. Experimente você localizar uma simples e sumária notícia biográfica de Allan Kardec nas enciclopédias e nos grandes dicionários contemporâneos. Nada, ou muito perto disso.

Eis porque não será preciso programar uma Cruzada, nem ressuscitar das sombras o fantasma de uma nova Inquisição contra o espiritismo que, de certa forma e com diferentes ênfases neste ou naquele aspecto, pode ser considerado uma reencarnação do catarismo, mas, principalmente, uma restauração do cristianismo primitivo, um retorno às suas fontes.

O processo civilizador perdeu a grande oportunidade de se reformular para melhor, quando o catarismo foi apagado na Europa medieval, ao extinguir-se a última fogueira que incinerou o corpo físico do último cátaro. Não é sem razão que René Nelli colocou aquele subtítulo em seu livro, caracterizando o fracasso histórico do catarismo como o "aborto de uma civilização".

Não pretendo deixar com você que me lê a impressão de que considero o catarismo como a doutrina definitiva, irretocável, perfeita e acabada. Seria o mesmo que dogmatizá-la, engessando-a irremediavelmente. Estamos todos cansados de dogmas, tanto religiosos quanto laicos, sejam eles científicos, filosóficos ou meramente culturais. Ávida é um processo evolutivo em ação; as doutrinas que procuram interpretá-la têm, necessariamente, que evoluir também, seja no formato, seja na sua interação com o mundo que nos cerca.

Brenon vê o catarismo como incapaz de se adaptar ao mundo em que vive¬mos, em vista de sua explícita rejeição à matéria. O catarismo seria, para ela, um "cristianismo do Deus definitivamente ausente do mundo, estranho a toda maté¬ria, a toda emoção dos sentidos" (p. 320)."... o catarismo - prossegue mais adiante - é o cristianismo do mundo invisível dos bons espíritos e do Bem total no eterno". Com esse modelo radical, pensa a autora, "o catarismo era o cristianismo do espiritual absoluto e não podia evoluir sob pena de cessar de ser".

Concordo parcialmente com a autora. A ênfase maior da doutrina catara era posta na espiritualidade. A vida na dimensão material, um risco calculado, onde a alma reencarnada encontra mil tropeços e seduções a dificultar sua caminhada evolutiva. Os gnósticos haviam adotado a mesma atitude, alertando a criatura para esse perigoso envolvimento que adormece o espírito, embalando-o, através do corpo físico, nasprazerosas mordomias que a matéria lhe proporciona.

Não creio, no entanto, que essa postura, tanto gnóstica quanto catara, fosse tão radical e exclusivista como se supõe. Aquelas correntes de pensamento estavam bem alertadas para o fato de que a vida na Terra é da essência mesma do processo evolutivo da entidade espiritual que para cá vem, reencarnação após reencarnação, para aquilo que Gandhi chamou de experimentações com a verdade. Em outras palavras: sem a muleta material de tempos em tempos, como fazer o aprendizado de envolver-se com a matéria sem deixar-se dominar por ela?

Anteriormente, como vimos, à página 306, referindo-se a similitudes ideológicas entre valdenses e hussitas, Brenon formulara uma questão que, significativamente, deixou sem resposta. "Será - pergunta-se - (...) que foi por causa da impossibilidade de evoluir que o catarismo morreu?"

Não. Não foi. Primeiro, porque não foi o catarismo que morreu, foram os cátaros, ou melhor, seus corpos físicos; segundo, porque o catarismo foi, em si mesmo, uma doutrina evolutiva, ao colocar toda a ênfase do processo de maturação espiritual na dependência do procedimento pessoal de cada ser humano, em lugar da 'salvação' pela graça; terceiro, porque o catarismo não teve tempo suficiente para evoluir. Sua história, como vimos, é a de uma implacável perseguição da parte do sistema que ele veio para contestar e reformular. Com o tempo, depois de consolidado, teria condições adequadas para corrigir um ou outro aspecto secundário, eliminar possíveis equívocos e ampliar sua ideologia.

E verdadeira, contudo, a ênfase que o catarismo pôs na realidade da dimensão espiritual. Zoé Oldenbourg (pp. 533-534) reproduz uma prece catara, traduzida, aliás, por René Nelli, em 1953, e que assim começa: "Pai Santo, Deus justo dos bons espíritos..." e mais adiante: "Pai Santo dos bons espíritos..."

Ora, como poucos, em seu tempo, os cátaros sabiam perfeitamente que os seres humanos são espíritos encarnados e não corpos físicos, necessários às experiências que a matéria pode proporcionar. Com a mesma terminologia de Paulo (I Tes 5,23) e a mesma da doutrina dos espíritos no século dezenove, eles ensinavam que "o corpo (...) não é mais do que o instrumento da alma".89 Sem se esquecerem, contudo, que a matéria de que se serve o espírito para esse fim é "obra do demônio".

89 Estou citando La Religion des Cathares, de Jean Duvernoy, p.65, que, por sua vez, refere-se à obra de Moneta de Cremona.

Era absolutamente essencial ao processo evolutivo, portanto, que o espírito encarnado não se deixasse seduzir pelos prazeres e mordomias que a matéria oferece, esquecidos de suas origens e de sua destinação. Sendo Deus o Deus dos espíritos em geral, não poderia deixar de sê-lo dos que se encontram temporariamente acoplados a um corpo físico, vivendo suas experiências na Terra.

"Pelo seu corpo de carne - confirma Brenon (p. 64) -, destinado à corrupção e à morte, o homem é criatura do mal: pela sua alma eterna, parcela da luminosa criação caída na servidão das 'túnicas de pele', das 'prisões carnais',90 ele pertence à 'terra nova', ao mundo verdadeiro do Deus verdadeiro".

Tal como pensavam os gnósticos, e quase que com as mesmas palavras, os cataros entendiam, como também lembra Brenon, que "Nessa vestimenta - prisão de carne - a alma, criatura divina, dorme, esquecida de sua pátria celeste."

Os gnósticos diziam isso mesmo usando palavras como sono, esquecimento e embriaguez do espírito encarnado.

Reportando-se aos depoimentos ao bispo de Pamiers, em Montaillou, Brenon lembra ainda que as informações que Pierre Maury ouvira dos pregadores cataros não divergem do que se lia nos textos anticátaros do século treze. Cita um deles, no qual se lê o seguinte: "Com efeito, diziam eles, desde quando a alma humana sai de seu corpo (físico)... até que se encarna em outro corpo, ela não pode ter repouso, porque o fogo de Satã, ou do deus estrangeiro, a consome toda. Mas quando ela se (re)encarna num corpo, encontra o repouso e não sofre mais aquele fogo, dado que esse fogo não mais a afeta."

Também este ensinamento é compatível com os da doutrina espírita. Pessoas que morrem em conflito consigo mesmas e com a vida, pelos erros e crimes cometidos, levam para a dimensão póstuma pesada carga de angústias e sofrimentos. Mergulhadas numa condição em que tempo e espaço parecem inexistir, tal como os conhecemos em nossa dimensão terrena, as dores parecem mesmo eternas e 'queimam' intimamente como fogo que não se extingue. Para esses casos, a reencarnação seguinte é uma bênção, no sentido de que, novamente revestida de uma "túnica de pele" e retida em nova "prisão carnal", a alma encarnada esquece-se do suplício vivido entre uma existência e outra.

Por essas razões, Brenon vê, acertadamente, no catarismo, "uma cristologia totalmente diferente da adotada pela Igreja romana". E era mesmo.

Os cataros fizeram da mensagem de Jesus - insiste ela - uma leitura pessoal, particular, diferente da que católicos e reformistas anteriores e posteriores ao catarismo consideravam a única possível. É verdade; para eles, cataros, o Cristo não veio como Filho de Deus, com a finalidade de promover pessoalmente uma salvação coletiva dos que aceditassem nele. E, afinal de contas, o que é salvação? O que é salvar-se? Do inferno?

90 A expressão "túnicas de pele" é mencionada por Jean Duvernoy (Religion des Calhares, p.62) em conexão com Gênesis 3,21 e Judas 23. São tambérm túnicas do 'esquecimento', nas quais, segundo Jeremias 5,19, as almas "servem a um deus estranho em terras estranhas".

Para os cátaros - como confirma Brenon - "a mensagem do Cristo, no sentido profundo dos Evangelhos, era um apelo ao despertamento: para lembrar à alma encarnada que ela não pertence a este mundo".

O Cristo - lê-se mais abaixo (ainda p. 65) - "pregou o Reino de seu Pai, lembrando às almas adormecidas [na carne] sua pátria espiritual".

E isso nada tem a ver com a doutrina do resgate pelo sacrifício do Cristo na cruz. Era, pois - lembra a escritora -, um cristianismo sem cruz... e sem eucaristia".

Todas essas posturas cataras assemelhavam-se às do gnosticismo e conferem substancialmente com a doutrina que as entidades espirituais transmitiram a Allan Kardec, no início da segunda metade do século dezenove. E, afinal de contas, com o ideário original do cristianismo primitivo.

Já a visão de Jean Duvernoy difere um tanto disto que vimos expondo, não na essência, mas em significativas observações marginais.

Ele reproduz os traços predominantes da moldura catara para a leitura particular que faziam dos Evangelhos - como a de que "o corpo físico não passa de mero instrumento da alma" e, referindo-se à aversão dos cátaros pela matéria -"Toda a carne - escreve, citando Eckbert - nasce do coito. É por isso que ela é impura", mas não se mostra convencido - ao contrário - de que o catarismo possa ou deva ter resultado de 'comparações' com o marcionismo ou com os gnósticos, como dirá no texto escrito para oferecer suas conclusões, nas últimas páginas do livro, em que cuida especifamente da religião dos cátaros (pp. 386-390).

Ele entende o catarismo como "relativamente colorido de judeu-cristianismo essencialmente origenista" (de Orígenes). Aliás, para Duvernoy, "A teologia dos cátaros é, na maior parte de seus detalhes, conforme ao pensamento de certo segmento dos Pais da Igreja, dos alexandrinos, dos capadócios e de Ambrósio." Mas, ao mesmo tempo ignora aspectos como as "hipóstases gnósticas [abstrações tidas como irreais], as sigízias e as personificações abracadabrantes."91

Seria admissível - pergunta-se mais adiante (p. 388) -, "colocar em cima desse indubitável origenismo uma influência secundária gnóstica, marcionista ou maniquéia"?
E segue, por aí, no roteiro de labirínticas complexidades teóricas a tentar descobrir por que atalhos ou picadas teria passado a doutrina cátara para chegar ao que foi, na Idade Média.

91 Jean Duvernoy é de uma erudição espantosa e, para nós, leitores apenas moderadamente cultos, quase uma humilhação se não soubermos converter inveja em admiração e respeito. As tais sizígias, ainda bem, encontro no Aurélio, que diz o seguinte: 1 .Conjunção ou oposição de um planeta, especialmente a Lua, com o Sol (o que se observa no plenilúnio e no novilúnio). Entendeu?

Exemplo dramático disso pode ser identificado no esforço desnecessário e inoportuno de explicar a origem, as razões e as repercussões da existência do que entendiam por mal.

A partir daí, foi necessário enveredar por teorias e hipóteses meramente teóricas, perfeitamente dispensáveis, ociosas e inoportunas, e erigir com elas uma estrutura especulativa que nada acrescentava de útil à doutrina catara em geral; pelo contrário, criava dificuldades, antes inexistentes, como o problema de uma origem não-divina do mal.

Não seria bastante, para a época, que fosse apenas reconhecida a (ainda inexplicável ou inexplicada) existência do mal e elaborar um sistema de comportamento perante a maldade, o erro, a dor, a morte? Seria mesmo necessário explicar e justificar a existência de animais predadores - os maus - e os úteis - os bons? Quem teria criado lobos, serpentes, moscas, formigas, plantas venenosas? Será que tais aspectos da criação eram mesmo intrinsecamente maus? Ou apenas dotados de instinto ou impulso de sobrevivência?

Quando ouço ou leio pronunciamentos apaixonados que consideram certos crimes como praticados por verdadeiras feras humanas, acho que estamos sendo injustos com os animais.

Na minha avaliação pessoal, o catarismo não foi uma doutrina congelada no dogmatismo. Poderia ser aperfeiçoada com retoques num ou noutro aspecto, como, no exemplo que acabamos de discutir, o da obstinada busca para identificar quem teria sido o criador do mal.

Isto nos lembra os longos e estéreis debates teológicos medievais - dizem -para determinar-se quantos anjos poderiam pousar na cabeça de um alfinete. Seriam vinte, quatrocentos ou seiscentos mil? Ou nenhum? E daí?

No caso do mal, o que se precisa é de comportamento adequado para evitá-lo e vontade educada para corrigir os desvios que ele provocar em nossas rotas evolutivas.

Além do mais, o que é realmente o mal? A morte? Mas não é ela a porta que se abre para a renovação da vida? A dor? Mas não é ela que nos chama a atenção para o erro cometido? O Cristo ligou explicitamente o erro ao sofrimento, ao dizer: - Vai e não peques mais para que não te aconteça coisa pior.

Entendo que, em nosso estágio evolutivo, quando ainda temos muito que caminhar por aí, nesse universo que se abre diante de nós, não é preciso tentar saltar logo em busca das últimas respostas, se é que elas existem.

Estou igualmente convencido, ante as demoradas leituras que me deram alento para escrever estas reflexões sobre o catarismo, que, como diria Shakespeare, há too much adoabout nothing, ou seja, muita conversa sobre coisa alguma, em aspectos como o exagerado dualismo que se atribui às suas concepções.

Não vejo os cátaros como diteístas, por exemplo. As referências a um segundo Deus seriam apenas metafóricas, no sentido em que Paulo usou a expressão "o Deus deste mundo", para referir-se à predominância de conceitos e comportamentos inadequados perante a ética universal, tanto quanto à alienação em que vivem as grandes massas humanas em face de aspectos transcendentais da vida, como o da realidade espiritual.

O catarismo certamente precisaria de alguns aperfeiçoamentos doutrinários e isso poderia ou não acontecer, dependendo do que fariam dele as gerações posteriores.

Foi com esse propósito aparente de "aperfeiçoar e melhorar" o cristianismo, para torná-lo explícito ao povão e, mais tarde, palatável ao intelectualismo arrogante, que fomos dar no beco sem saída do catolicismo que não tem mais como nem para onde recuar ou por onde recomeçar, sem renunciar a tudo quanto é. Em outras palavras: a Igreja quebra o cristal se tentar romper com o rígido sistema ideológico que se criou à sua volta ou continua engessada no cristal se quiser preservá-lo.

Com o catarismo poderia acontecer o mesmo, ou seja, de deformação em deformação, tornar-se irreconhecível e distanciado da fonte de onde brotou ou imobilizar-se na rigidez de uma estrutura dogmática imutável e irremovível.

Ao cumprir a parte que lhe tocara na formulação da doutrina espírita, Allan Kardec alertou honestamente para esses riscos calculados, declarando que o espiritismo seria aquilo que os espíritas fizessem dele. O conceito serve para a Igreja, no sentido de que ela se tornou aquilo que os católicos fizeram dela. Serviria também para o catarismo que teria sido, alguns séculos depois - hoje, por exemplo -o produto ou resultado das modificações introduzidas nas suas estruturas doutrinárias e em suas práticas.

Mas, como se sabe, a história não se escreve com se e porém ou talvez e quem sabe?....

Creio que estamos chegados ao momento de botar aqui um ponto final.

Proponho encerrar a dissertação com a avaliação final que se lê em Jean Durvernoy {La réligion des cathares, capítulo "Conclusion" (pp. 387-390). E quando lê os bem cuidados textos do professor Duvernoy, você percebe que ele pesquisou muito, meditou mais ainda sobre o que estudou e escreveu, escolhendo meticulosamente as palavras com as quais vestiu seu pensamento.

No entendimento dele, nem os cátaros, nem seus adversários resolveram o problema do mal, "et pour cause" - acrescenta, ou seja, não sem motivo, de vez que se trata de questão realmente espinhosa.

Não adianta dizer, como Guillaume d'Auvergne ou Albert le Grand, que o princípio do mal não existe porque se trata de um não-ser. Ou, como os cátaros, para os quais o princípio do mal existe e é um não-ser.92 Palavras, palavras, palavras...

Isso não diz nada. Trata-se, segundo Duvernoy, de uma "pobre álgebra verbal", com a qual - acrescenta - "os cátaros estão menos preocupados do que se supõe".

Mas [continua], por seu espiritualismo absoluto, seu otimismo integral (tudo o que existe estará um dia reunido em Deus), por sua crença na metempsicose (reencarnação), por esquivar-se de certa maneiradas realidades materiais, o catarismo é uma das grandes tendências do pensamento ocidental. De Pitágoras e Platão a Bergson ou Teilhard de Chardin, ele esteve sempre associado a certa elite, para não se dizer a certo esnobismo.

Esse orgulho do conhecimento [acrescenta] que levou no segundo século os "pneumáticos" a desprezar os "psíquicos", os cátaros o tiveram. Eé certo que o sucesso deles junto aos clérigos, como, hoje, a moda de que se tornaram objeto, vem de que a sua fé parecia, senão melhor, ao menos mais distinta.

O catarismo teria surgido, no dizer do autor, mais autêntico, do tronco original do judaísmo, deixando, contudo, nos textos do Novo Testamento "sua marca dualista e gnóstica". Foi essa autenticidade, a seu ver, que os cátaros reinvindicaram explicitamente para si mesmos. "Eles quiseram colocar-se como cristãos e o foram. Eles se diziam sucessores dos mártires e o foram, desde os bispos de Montségur ou de Mont-Aimé, rodeados por seus fiéis cavalheiros, até o pastor de Corbières, testemunhas conscientes da fé que professavam."

De minha parte, não vejo o catarismo emergindo do tronco judaico, como o professor, mas entendo o que ele deseja dizer com isso. Ele está percebendo no pensamento cátaro um passo a mais no processo evolutivo ao qual até as religiões se submetem.

Você percebe facilmente minha admiração por esse texto. Encanta-me predominantemente nele o fato de que não se trata de um epitáfio escrito para o túmulo do catarismo, mas uma estela comemorativa, ainda que melancólica, como que a dizer: Por aqui passou uma gente que pensava grande!

Na sua Conclusão, Duvernoy lembra que essa mesma corrente passou por Pitágoras e Platão (e, portanto, por Sócrates também).

A inclusão de Bergson e Teilhard de Chardin não resulta de impulso meramente patriótico - o que já estaria plenamente justificado - mas porque são pensadores que tiveram percepção suficientemente aguçada para a realidade espiritual, Bergson mais solto porque sem compromissos com a Igreja e Chardin, ainda mais corajoso porque ousou enfrentar o sistema para dizer o que pensava de tudo aquilo. A obra destes dois é poesia pura, dado que a filosofia também pode - e deve -ser poética.

92 Se o texto lhe parece confuso ou oferece difuldades ao entendimento, não se preocupe - ele é mesmo difícil precisamente porque invade a área imponderável da discussão filosófica, onde nem sempre prevalece a clareza a que estamos habituados nós, os mortais.

Tenho mencionado alhures em outros escritos a curiosa convergência de Bergson, Chardin e as entidades espirituais que ditaram a Kardec os princípios fundamentais da doutrina espírita.
Bergson tece especulações em torno do que seria "pensar a matéria",93 o espiritismo ensina que as experiências do espírito reencarnado se direcionam para o aprendizado de como "intelectualizar a matéria".94 Enquanto isso, Chardin escreve:
"No mais fundo de si mesmo, o mundo vivo é constituído por consciência revestida de carne e osso. Da Biosfera à Espécie, tudo é, pois, simplesmente imensa ramificação de psiquismo que se busca através das formas."95

De minha parte, vejo nessa convergência uma resposta que, provavelmente, teria levado os cátaros a uma reavaliação de sua postura de exagerada reserva em relação à matéria densa, uma espécie de conciliação com a matéria, ou pelo menos, um entendimento melhor do seu papel nos mecanismos evolutivos.

De repente, a gente descobre que a matéria, por maiores que sejam seus inconvenientes e seus atrativos para os espíritos reencarnados, é necessária ao processo de maturação de todos nós e dela própria, que pode ser pensada, intelectualizada e fornecer os recursos naturais para que o psiquismo se busque e cresça, expanda-se e se encontre em si mesmo e em Deus.

Duvernoy percebe e destaca no seu texto a relevância da doutrina da reencarnação adotada pelos cátaros. Em várias passagens de La réligion des cathares, o autor aborda esse aspecto, preferindo, naturalmente, o termo metempsicose.

Claro que não podemos esperar dos historiadores do catarismo uma atitude apologética quanto à doutrina das vidas sucessivas. Seria desejar demais. A abordagem deles e delas é puramente intelectual e informativa, de modo especial da parte dos mais ligados ao meio acadêmico. Compreende-se a posição reservada que adotam. Duvernoy, por exemplo, refere-se à metempsicose relacionando-a a alguns mitos mais conhecidos [usa a expressão "mitos didáticos"]. Leiamos, a propósito, sua observação, à página 40, de Réligion...:

"[...] A Visão de Isaías e o mito do pelicano, para a Redenção, o adocianismo e o docetismo; o mito do cavalo, para a metempsicose; o da cabeça de asno, para explicação do composto humano: corpo, alma e espírito."

93 Ver Introdução de L'Évohition Créatrice.

94 [Matéria e espírito] "são distintos uma do outro; mas a união do Espírito e da matéria é necessária para intelectualizar a matéria". É o que ensinam os instrutores do espiritismo, em O livro dos espíritos, questão número 25.

95 O fenómeno humano, p. 1 54.

Não vamos nos demorar nos comentários que esse pequeno texto suscita. Queremos apenas destacar o colorido mítico que ele empresta à reencarnação sobre a qual oferece uma informação, não uma opinião e muito menos convicção pessoal.

Mesmo porque não são esses o papel predominante e a praxis historiográfica. Não que o historiador não possa ou não deva opinar, mas porque seu objetivo principal é informar, recriar os eventos passados, por meio de um processo de raconto.

Ao cuidar da escatologia catara,96 o autor escreve breve notícia, declarando as almas como aprisionadas pelo princípio do mal, em "túnicas de pele [...] Essa quantidade de almas preexistentes [continua] não é nem extinta pela morte, nem acrescida pela geração ou pela contínua criação divina. Ela evolui até os últimos tempos, através da metempsicose".

E nesse capítulo - o de número V - que ele se detém no exame da metempsicose entre os cátaros, revelando serem numerosas as referências nos registros (inquisitoriais) relativos à região do Foix, no início do século quatorze.

Fala, em seguida, sobre os avatares,97 que não é muito de nosso interesse aqui. Mas, acrescenta, citando observação colhida numa das famosas atas de Jac-ques Fournier, e que dizia: "[...] o mundo não chegará ao fim até que todas as almas, todos os espíritos criados pelo Pai celeste no céu, que ali pecaram e dali decaíram, sejam reincorporados (reencarnados) em corpos onde possam tor-nar-se bons cristãos".

Esse trecho é expressivo no sentido de que coloca o catarismo como a religião última, ou melhor, o modelo de comportamento que, afinal, 'salvaria' o ser humano, levando-o, em sucessivas etapas, aos mais elevados patamares do processo evolutivo. A salvação não seria, portanto, o produto de graça, privilégio, de crença ou de práticas ritualísticas e sacramentais, mas da purificação da criatura pelo seu próprio esforço, aprendizado e procedimento no correr de muitas e muitas vidas.

Ainda nas atas de Fournier, o bispo-inquisidor, Duvernoy resgata a informação de que o único pecado imperdoável era aquele que se cometia contra o espírito. E que isto era interpretado como denúncia de parfaits e parfaites tidos como "portadores do batismo do espírito".

Não há dúvida alguma de que o catarismo foi uma doutrina francamente reencarnacionista, o que pressupõe não apenas a preexistência do ser, mas sua sobrevivência à morte corporal, e invalida conceitos puramente mitológicos como céu, inferno e purgatório.

96 escatologia2 (Aurélio] [De escato- + -logia.] S. f. 1. Doutrina sobre a consumação do tempo e da história.

97 avatar (Aurélio) S. m. 1. Rei. Reencarnação de um deus e, especialmente no hinduísmo, reencarnação do deus Vixnu.

Vamos tentar um resumo ordenado do que colhemos em Jean Duvernoy, acerca dos conteúdos básicos da ideologia cátara, segundo sua arguta percepção e suas amplíssimas leituras.

Primeiro - o conteúdo espiritualista do catarismo que ele caracteriza como absoluto. Em face da espiritualidade, portanto, embora permaneça coerentemente dualista, no sentido de que não ignora o envolvimento do ser com a matéria - pelo contrário, reitera os riscos que isso envolve -, a doutrina catara coloca sempre a maior ênfase no componente espiritual do ser humano.

Segundo - o otimismo, segundo o qual tudo e todos se reunirão um dia em Deus. Eu nem diria que os cátaros entendessem que tudo se reuniria em Deus, mas que está reunido. Não se trata de um vir-a-ser, mas de uma realidade primordial, existente a partir da própria criação, seja qual for a maneira pela qual você a entenda ou suponha. Como bons e atentos paulinianos, os cátaros sabiam dos ensinamentos de Paulo, para quem "Vivemos e nos movemos em Deus e nele temos o nosso ser." Aliás, este conceito bate com sofisticadas teorias modernas, elaboradas no bojo da física quântica, de que o universo que nos cerca e nós próprios não somos coisas diferentes, separadas, isoláveis, mas uma só realidade cósmica.

Ou com Chardin, que considera o psiquismo ocupado em trabalhar com a forma em busca de si mesmo.

Terceiro - a doutrina da reencarnação constitui importante eixo em torno do qual gira a compreensão catara da realidade espiritual e da dinâmica do processo evolutivo. Estranho que esse aspecto essencial ao entendimento da vida continue a ser obstinadamente negado ou rejeitado ainda hoje. Oito séculos são decorridos - contando-se apenas a partir do catarismo, sem recuar mais longe no tempo - e a cultura ocidental ainda não se deu conta do relevo e da profundidade da realidade das vidas sucessivas. Entende-se, mas não se justifica: a reencarnação é uma doutrina decididamente subversiva no sentido de que exige uma desestruturação irremediável, verdadeiro sucateamento de todo um complexo e estratificado modelo cultural. Uma reformulação desse porte, não apenas religiosa, alcança amplitude e profundidade ainda não imaginadas em ramos de conhecimento como biologia, psicologia, sociologia, política, economia, para citar apenas alguns vetores. Ela exclui, por outro lado, crenças e crendices consagradas, ainda que totalmente obsoletas e inservíveis.

Quarto - não é de se admirar que o autor tenha situado o catarismo como doutrina de elite, quase esnobe - a palavra é dele -, pela satisfação pessoal que suscita naqueles que a adotam, o que ele idêntica como "orgulho do conhecimento". O que, aliás, situa no mesmo nível a visão catara e a gnose em geral e não apenas no gnosticismo do segundo/terceiro séculos. Ambos estão em busca de maturação espiritual através do conhecimento (gnose). Não de conhecimento leigo, se assim podemos dizer, que vise à simples ilustração cultural, mas daquele que exige do indivíduo atitude comportamental adequada, compatível e indispensável ao seu projeto pessoal de aperfeiçoamento ético, ou, se você preferir, sua 'salvação' da ignorância e do erro e, portanto, da dor. Convém lembrar, ainda, que nos textos de Kardec encontramos reflexões em tomo do conceito da "aristocracia intelecto-moral".98

Quinto - Duvernoy identifica no ideário cátaro99 a mesma tríade gnóstica e pauliniana que distingue seres pneumáticos, psíquicos e hílicos.

Sexto - revela-se o autor atento à clara noção que os cataros possuíam de outra tríade, também gnóstica, pauliniana e espirita - pneuma (espirito) psique (alma) e soma (corpo físico).

Sétimo - Duvernoy viu, ainda, na doutrina catara, clara tendência no sentido de trazer para o Ocidente uma leitura mais espiritualizada da vida. Este me pareceu mais um dos bons achados do erudito historiador, no sentido de que a doutrina da reencarnação, por exemplo, está há milênios incorporada à visão religiosa e filosófica da vida no Oriente. Poder-se-á realmente dizer que, lá, tais realidades são rotina e fator ordenador da vida, ao passo que de nosso lado do planeta ainda a rejeitamos ou a ignoramos. Lamentavelmente.

Oitavo - ao atribuir ao catarismo nítida autenticidade cristã, Duvernoy confere-lhe um atestado de legitimidade tal que, por contraste, resulta na caracterização da Igreja Romana como heresia. Não estou tentando ler no historiador posturas que ele não tenha assumido, nem colocando palavras e pensamentos meus nos seus textos, mas partilhando com você o que leio em suas reflexões.

Vimos, aliás, que essa é também a posição de Anne Brenon, ao considerar o catarismo manifestação paleocristã, ou seja, um cristianismo revertido às suas origens, devolvido à sua pureza primitiva. Sem dúvida, foi primoroso o trabalho dos cataros na pesquisa e nos estudos que precederam à formulação de suas estruturas ideológicas. Foram buscar no Evangelho de João, em Atos dos Apóstolos e nas epístolas, principalmente as de Paulo, ensinamentos que circulavam nos primeiros tempos cristãos, ainda incontaminados pela posterior ginástica intelectual dos teólogos, mas que, no passar do tempo, perderam-se pelos caminhos.

Coisa semelhante diz Michel Roquebert, ao declarar que os cataros não pretendiam ser mais do que bons cristãos ou, simplesmente, cristãos. O que certamente - garante-nos - o foram.
Finalmente, como poucos se lembram disso, mesmo os historiadores, cabem aqui alguns comentários sobre o aspecto, digamos, pentecostal do catarismo.

98 Você encontrará os comentários originais de Kardec em Obras póstumas, pp. 242-245, da edição FEB. Foi precisamente aí que ele formulou o princípio de que a fé precisa "encarar face a face a razão", e que "não basta crer, não basta ver, é, sobretudo, preciso compreender".

99 Devo reiterar ao leitor e à leitora interessados nestes aspectos, meu livro O evangelho gnóstico de Tomé, em que o assunto é tratado mais demoradamente.

Déodat Roche é um dos raros autores que se mostram mais interessados ou atentos ao que se poderia considerar a metafísica do catarismo. Assegura ele, como vimos (p. 193), que "o Pentecostes era a mais importante comemoração dos puros, a da liberdade espiritual". Embora não o tenha como provar documentalmente, "suspeita" - diz ele (p. 93) "que os sacerdotes (cátaros) tenham adotado tais ritos dos antigos Mistérios, como os de Elêusis, sobre os quais li alguns relatos na Viagem de Anarchasis à Grécia, pequena enciclopédia que recebi como prêmio escolar na oitava série".

Em outras palavras, Roche está mencionando, ainda que em rápida e sumária passagem, a possibilidade de estarem os cátaros familiarizados com práticas mediúnicas de intercâmbio com os seres espirituais da dimensão póstuma, o Cristo inclusive.

Sabemos, pelos relatos contidos em Atos dos Apóstolos, nas epístolas e no Quarto Evangelho, o quanto a instrumentação da mediunidade serviu aos propósitos do cristianismo nascente. A dramática cena do Pentecostes não passa de uma sessão mediúnica na qual numerosas entidades espirituais se manifestaram através dos recursos mediúnicos dos apóstolos e demais trabalhadores da primeira hora.

São explícitas, entre outras, as referências à mediunidade hoje conhecida como xenoglóssica, ou seja, aquela com a qual a entidade manifestante se expressa em língua que, em seu estado de vigília, o médium desconhece. Há referências também a fenômenos luminosos, no texto dos Atos - as tais "línguas de fogo", que pareciam pousadas sobre a cabeça dos apóstolos. Seriam materializações a indicar a presença de entidades de elevada condição evolutiva no ambiente?

Sabemos, mais, à simples leitura descompromissada dos textos, que as faculdades mediúnicas entre os primeiros cristãos eram suscitadas por um ritual singelo de passes e preces, semelhante ao do consolamentum dos cátaros. Paulo se refere especificamente a isso na sua Carta a Timóteo, alertando-o sobre as graves responsabilidades que assumira com a sua condição de intermediário entre vivos e mortos. "Por isso - lê-se em 2 Tim 1,6- recomendo-te que reavives o carisma de Deus que está em ti pela imposição de minhas mãos."100 Convém anotar que o termo carisma é definido como "dons espirituais" na Primeira Epístola aos Co¬ríntios (12, 1), na qual Paulo regulamenta meticulosamente o exercício das diversas faculdades, nos capítulos 12, 13 e 14.
Esse era o cristianismo primitivo, em toda a pureza e espontaneidade de suas crenças e de suas práticas. Lamentavelmente, seu perfil não confere com o da Igreja de Roma.

100 Carisma - ensina Aurélio - é 1. Força divina conferida a uma pessoa, mas em vista da necessidade ou utilidade da comunidade religiosa.

Não vejo, pois, qualquer justificativa em considerar o catarismo uma heresia - com aspas ou sem elas -, e atribuir ao catolicismo a condição de depositário fiel e exclusivo dos ensinamentos do Cristo e das tradições apostólicas. O Cristo jamais admitiria condenar à fogueira aqueles que pensassem diferentemente dele.

A conclusão de que o catolicismo representou - e representa ainda hoje - o cristianismo primitivo, em toda a sua pureza, e o catarismo, a perniciosa heresia que era preciso erradicar a qualquer preço, não resiste a uma honesta análise crítica.

Se é que houve uma heresia no conflito ou confronto entre catarismo e catolicisimo, certamente não é à doutrina e ao procedimento dos parfaits e das parfaites que cabe esse rótulo.

Nota explicativa à chamada na página 325:

E raro ou, no mínimo, inusitado que os editores escrevam prefácio ou apresentação para as obras que publicam. Isto foi, no entanto, exatamente o que aconteceu neste caso.

O livro estava pronto, apenas na dependência de mais uma ou duas revisões, como sempre faço, quando o enviei a Alexandre Machado Rocha, meu editor, para uma leitura preliminar, enquanto eu continuava trabalhando com o texto.

Eu sabia, naturalmente, do interesse dele pela temática do catarismo e até suspeitava de algum provável envolvimento dele no passado com a malograda 'heresia' languedociana. Não imaginara, contudo, a possibilidade de Alexandre haver participado do mais dramático episódio da implacável caça às bruxas, que foi o espantoso massacre de Montségur, em 1244. Ou - outra hipótese - de ter tido, retrospectivamente, a visão do que ali se passara naquelas horas finais de um longo e penoso sofrimento.

Sua vidência, no entanto - marcada pelo timbre autenticador da emoção -, traz à minha pesquisa duas relevantes contribuições:

Primeira, a confirmação de que os cátaros praticavam mesmo, na intimidade mais reservada de seus grupos, o intercâmbio com as entidades espirituais interessadas no movimento, tal como ocorrera no cristianismo primitivo. O fenômeno ocorrido com Alexandre - que acolho em boa-fé - reporta-se claramente a uma sessão mediúnica em Montségur na véspera da rendição incondicional do castelo-fortaleza;

Segunda, esclarece o singular episódio segundo o qual numeroso grupo de pessoas da comunidade catara de Montségur com boas chances de escapar à fogueira por não seremparfaits eparfaites, mas simples croyants, revelaram nas últimas e dramáticas horas, assumir explicitamente aquela condição, certos de que estavam assinando suas próprias sentenças de morte pelo fogo.

Em outras palavras, como simples croyants e croyantes poderiam livrar-se das chamas [outros se livraram]; como parfaits eparfaites, não.

Algo de importância transcendental teria necessariamente de ter acontecido na derradeira noite vivida no reduto de Montségur. Segundo o testemunho de Alexandre, terá sido a presença do próprio Cristo manifestado aos participantes da memorável e derradeira sessão mediúnica no alto do lendário penhasco que suscitou tão enigmática atitude entre os que o ouviram.

Portanto, o que restou dos sonhos ali sonhados foi a certeza de que, a despeito das fogueiras, o sonho continuava e se projetava num futuro que ainda não chegou, mas que talvez esteja mais perto do que imaginamos.

Hermínio C. Miranda