OS CÁTAROS E A HERESIA CATÓLICA

APRESENTAÇÃO

Não vos ocupeis destes homens: deixai-os.
Pois, se o seu intento ou a sua obra provém dos homens, destruir-se-á por si mesma; mas se, ao invés, verdadeiramente vem de Deus, não conseguireis arruiná-la.
Não vos exponhais ao risco de serdes encontrados combatendo contra Deus. Gamaliel (At 5,38-39)

Tomei contato com o catarismo pela primeira vez, nas páginas do Reformador, em artigo do próprio professor Hermínio C. Miranda.

A história daquele povo culto, em meio a tanta ignorância, destemido mas pacífico e que buscava apenas restaurar o cristianismo nas suas origens apostólicas me comoveu muito mais do que poderia esperar.

Li avidamente a obra Os cátaros e a reencarnação, do dr. Arthur Guirdham, indicada no referido artigo, e revi tantas das cenas descritas na obra como se as tivesse presenciado, sempre sob intensa emoção.

O interesse pela página histórica do catarismo me levou, em 1996, a visitar toda a região do Languedoc e conhecer de perto a herança daquele movimento tão barbaramente massacrado.

Visitei Béziers, a primeira cidade a ser atacada pela cruzada contra o catarismo, e pude adentrar a catedral, hoje reconstruída no mesmo local daquela que foi queimada por determinação das próprias autoridades católicas, à época, para que o povo que nela se abrigara fugisse da ferocidade do exército invasor e não perecesse queimado, pelo único crime de tentarem vivenciar um cristianismo como aquele dos primitivos homens do Caminho. Fui a Carcassonne, cidade medieval de tal maneira preservada que nos leva a uma viagern no tempo de cerca de oitocentos anos, onde me constrangeu conhecer de perto os instrumentos de tortura para interrogatorio e confissão dos cataros, utilizados pela 'Santa' Inquisição, que surgia naquela época. Visitei cidades e castelos onde a nobreza católica, tocada pelos ensinamentos e testemunhos dos 'puros', defendeu bravamente aquela gente incapaz de levantar o braço para ferir o inimigo, mesmo que fosse para salvar a própria vida: Mirepoix, Minerve, Lastour, Queribus...

Adentrei o Ariège, região cuja vegetação inóspita me evocava distantes recordações que desconhecia em mim, e cheguei a Montségur, verdadeiro memorial a nos tocar as consciências a respeito de a que ponto a intolerância e a ignorância humanas podem nos levar. Nesse local, a 16 de março de 1244, uma fogueira gigantesca praticamente botava fim a um dos movimentos mais belos que a história da religião pôde testemunhar no Ocidente. E inenarrável a emoção de ultrapassar os pórticos do castelo onde ficou sitiado o último bastião cátaro. Trouxe dessa viagem dezenas de fotos, folhetos, livros e pequenas lembranças (dei ao Hermínio uma pequena pedra colhida nos arredores do castelo de Montségur, pois achava que talvez assim poderia transmitir-lhe um pouco da emoção que senti no local), mas o que obtive de mais valioso dessa 'peregrinação' cátara foi uma profunda consciência da importância da tolerância e do mais absoluto respeito às idéias contrárias e àqueles que as defendem, por mais estranhas estas idéias e pessoas possam nos parecer. Quantos crimes a humanidade vem cometendo pelo simples fato de alguns discordarem da crença dominante! Quantos mártires a intolerância tem criado e quanto atraso ao desenvolvimento das idéias em nosso planeta !...

Para fugir um pouco das intensas emoções que aqueles locais me traziam, busquei conhecer outras regiões de interesse histórico, mas, por mais que achasse que me distanciava do lugar onde os cataros estiveram circunscritos, deparava-me com eles a cada passo. Lyon, a terra onde nasceu o Codificador, apresentou-se para mim como o local onde se reuniram os exércitos para iniciarem a cruzada contra o catarismo. Fui à Itália. Florença não mais se me afigurava como a cidade dos Medici e berço da Renascença, mas o principal centro de difusão das idéias cátaras na Toscana e na Lombardia. Alcancei Assis, atrás das histórias do Poverello, para descobrir que, após a morte de Francisco, alguns de seus discípulos mais diretos tentaram inutilmente se refugiar junto aos cátaros do Languedoc para não serem trucidados nas mãos dos homens da Igreja. Decididamente havia algo que me levava a reencontrar aquele povo e aquela idéia. Retornei decidido a insistir com o professor Hermínio para que ele prosseguisse num projeto antigo que me havia confidenciado: o de contar a saga dos cataros em livro. Em nosso país é praticamente inexistente a literatura sobre esse movimento.

Mas a viagem entre os cataros ainda continuaria, para grande surpresa minha, aqui mesmo no Brasil. Envolvido muito particularmente com os trabalhos de pesquisa do querido L. Palhano Jr., já que suas obras vinham chegando aos poucos para publicação, participei de diversas reuniões junto ao CIPES.(1) Em outubro de 1999, em Vitória, ES, numa dessas reuniões, discutíamos a presença do espírito de Jesus de Nazaré na condução dos movimentos sinceros que buscam restaurar sua mensagem, desde o período primitivo, quando o próprio Cristo apareceu a Paulo na estrada de Damasco, à presença do espírito de Verdade junto a Allan Kardec, auxiliando-o na escrita e minuciosa revisão dos textos que comporiam a codificação espírita, incluindo suas 'aparições' por toda a história do cristianismo, sempre cheia de 'heresias' a tentarem relembrar-lhe a mensagem original. Após as discussões, passamos a um período de atividades mediúnicas. Durante comunicação de excelsa entidade, através da mediunidade de um dos presentes, de forma inesperada, encontrei-me, talvez num processo de desdobramento, novamente lá, de volta ao Ariège, em Montségur... na véspera do malfadado dia...

Eu, naquele momento, transformado em testemunha da história... O castelo como nos seus tempos de origem... um grupo de homens e mulheres estavam reunidos, oprimidos ante a fatalidade da rendição certamente seguida de morte, no dia imediato. A segurança da verdadeira fé na mensagem do Cristo seria suficiente para dar-lhes ânimo para ultrapassarem aquele derradeiro testemunho? Um dos presentes, médium, levanta a voz e por ele fala o próprio Cristo: -A paz esteja entre vós. Eis que vos mando novamente como cordeiros em meio a lobos ferozes. Não deveis temer aqueles que vos podem abater os corpos, mas não a vida. Bem-aventurados sois vós, perseguidos da incúria humana pela fidelidade à minha mensagem, pois estarei eu próprio a recebê-los, amanhã, no reino celestial.

No dia seguinte, à semelhança dos mártires cristãos nos circos romanos, eles seguiram para serem jogados na fogueira, cantando e estranhamente felizes, como a perceberem suave presença invisível aos olhos obnubilados pela cegueira da intolerância.

Em virtude da forte emoção que me dominava, retornei daquela 'visão' sem condições de narrar naquele momento, aos demais companheiros de reunião, a maravilhosa experiência que havia presenciado, o que faço finalmente, com a gentil aquiescência do autor, nestas páginas, à guisa de apresentação da obra.

(1) CIPES (Círculo de Pesquisa Espírita), instituição modelar presidida por L. Palhano Jr., cujos resulta dos das pesquisas estão apresentados em diversas obras publicadas pela Lachâtre, destacando-se entre elas Transe e mediunidade, Laudos espíritas da loucura, Viagens psíquicas no tempo e Evocando os espíritos. Há ainda diversos livros de sua autoria a serem publicados pela editora. Nosso querido e saudoso L. Palhano Jr. desencarnou no dia 14 de novembro de 2000, deixando monumental obra que servirá de modelo a quem se interessar pela moderna pesquisa científica do espiritismo.

Poderiam alguns leitores perguntar por que um autor reconhecidamente espírita escreveria sobre uma seita herética medieval e essa obra viria a ser publicada por uma editora também reconhecidamente espírita. Há alguma relação entre espiritismo e catarismo que justificasse esse interesse? Sem dúvida, para o espiritismo, o movimento cátaro tem ainda relevante papel, pois vem ratificar a inclusão da doutrina dos espíritos entre as correntes cristãs, de onde tanto esforço tem sido feito para que seja excluída. Mais do que isso, Os cátaros e a heresia católica demonstra que o espiritismo é o estuário onde vêm desembocar tantas das tradições cristãs heterodoxas combatidas de maneira pertinaz pela ortodoxia católica, apenas por buscarem escavar, dos sedimentos estranhos que se sobrepuseram à mensagem do Cristo, a cristalina fonte do evangelho.

Ninguém poderá, honestamente, negar as origens cristãs do espiritismo após conhecer a doutrina cátara que vigorou nos séculos 12 e 13, no Languedoc.

Este livro do professor Hermínio C. Miranda é uma espécie de pão a ser partilhado - da mesma maneira como era feito nas cerimônias do cristianismo primitivo e repetido séculos depois pelos cátaros - entre aqueles que buscam o verdadeiro sentido do cristianismo. Você está convidado a sentar-se para dividir conosco o seu pedaço.

Alexandre Machado Rocha. Niterói, 8 de dezembro de 2001.

..01 - OS VARAIS DA MEMÓRIA
..02 - OPÇÕES DE ABORDAGEM
..03 - OS CÁTAROS E O LANGUEDOC
..04 - BERNARDO VAI AO LANGUEDOC
..05 - COM QUE SONHAVAM OS CÁTAROS
..06 - O CATARISMO COMO DOUTRINA RELIGIOSA
..07 - UMA REFORMATAÇÃO DO CATOLICISMO
..08 - AS DUAS FACES DA CRUZADA
..09 - "QUEIMAR NÃO É RESPONDER !"
..10 - MONTSÉGUR E O QUE RESTOU DOS SONHOS
..11 - MOLDURA HISTÓRICA
..12 - APÊNDICE: CATARISMO E NAZISMO

Os cátaros e a heresia católica vem nos contar a história de uma das mais ricas civilizações que já surgiram na Europa: a dos cátaros ou albigenses.

Sua doutrina foi apagada dos registros da historia e seus profitentes violentamente expulsos da vida corporal, em decorrência da feroz perseguição movida pela igreja católica que, com esse objetivo, organizou uma cruzada e criou a famigerada Inquisição, de tão tristes realizações. Livros e gentes foram queimados em profusão nas fogueiras da Idade Media.

Os cátaros viveram principalmente no Languedoc, região sul/sudoeste da França, e desenvolveram um conjunto de crenças inteiramente baseado nos ensinamentos do Cristo.

Sua principal obra de estudo era o Novo Testamento, com destaque para o Evangelho de João e as cartas de Paulo, de onde extraíram idéias como a crença na reencarnação e a pratica da comunicação com os espíritos.

Intitulavam-se apenas bons cristãos ou bons homens e, destituídos de posses, corriam o pais pregando a mensagem do Cristo e curando corpos e almas, como alias fizeram os primitivos cristãos.

A perseguição movida pelo Vaticano contra esse pacifico grupo conta-se como das mais cruéis da historia da humanidade, quando milhares de pessoas foram levadas a fogueira, apesar de crerem no mesmo Deus e seguirem o mesmo livro
sagrado dos seus perseguidores, tendo por único crime buscarem o sentido original da mensagem do Cristo.

E como testemunho da retidão de conduta dos cátaros, podemos invocar Bernardo de Clairvaux, mais conhecido como são Bernardo, possivelmente a mais lúcida e brilhante inteligência católica da Idade Média, que sobre eles nos fala:

-"Se lhes perguntarem qual é a sua fé, ela é totalmente cristã, se lhes ouvirem as conversas, não há nada de mais inocente; e seus atos estão em harmonia com suas palavras'".

Após brilhante descrição da história e da crença dos cátaros, o autor conclui "Não há confronto entre a heresia cátara e a ortodoxia cristã, e sim entre um cristianismo recuperado, reconstituído, resgatado na sua pureza, e uma heresia vitoriosa que se outorgou o titulo e o poder de verdade única, como se destilada da mais pura tradição apostolar. Em outras palavras: no embate medieval entre catarismo e catolicismo, este é que foi a heresia."

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Depois do cristianismo primitivo, o catarismo foi um dos mais bem articulados movimentos ideológicos da história. Iniciado em torno do ano 1000, expandiu-se rapidamente pelo sul da Europa e atingiu a maturidade entre os séculos XII e XIII, no Languedoc francês, onde encontrou uma sociedade predisposta a acolher suas renovadoras propostas, que consistiam basicamente num retorno à pureza da herança cultural do Cristo, sem as deformações que tanto o descaracterizavam.

Sua história, contudo, é a da tenaz perseguição que sofreu, como doutrina e movimento, até ser extinto, literalmente a ferro e fogo, pelos poderes político-religiosos da época, principalmente pela tenebrosa Inquisição, gerada e nutrida no caldo de cultura da intolerância.

Seu malogro representa o aborto de uma civilização, dado que sua ideologia continha o esboço de uma sociedade futura que somente iria começar a realizar-se quinhentos anos depois.

Numa releitura do problema cátaro, este livro adota uma abordagem igualmente inovadora e inevitavelmente polêmica, ao apresentar o catolicismo como heresia e não o catarismo.