ESPIRITISMO - RELIGIÃO

On ne voit rien, en eftet, si l'on veut voir le monde entier dans le seul coin de terre qu'on habite,
toute l'humanité dans la société restreinte à laquelle on appartient, l'histoire dans les seules
moeurs que l'on a sous les yeux, l'absolu, en un mot, dans le relatif qui borne notre horizon sensible.
JULES BAISSAC

Principiemos por explicar a razão deste opúsculo.

Tem-se generalizado a crença, não só entre antagonistas, senão também entre amigos, de que o Espiritismo não é religião. Negam-lhe, mesmo, qualquer parte religiosa, qualquer interferência religiosa, qualquer adminículo religioso, chegando-se ao ponto de não admitirem, em seus seguidores, quaisquer práticas, por simples que sejam ou anódinas que pareçam.

O Espiritismo será para uns simples ciência, para outros mera filosofia, sem já falar naqueles para os quais não será coisa nenhuma.

Entre os oponentes, alguns combatem de boa-fé, outros de má-fé, e muitos sem nenhuma espécie de fé.

É aos primeiros que nos dirigimos ou a que dedicamos este trabalho, no intuito muito sincero de lhes modificar a opinião, uma vez demonstrados os equívocos em que laboram.

Tomaremos por base, neste pequeno trabalho, as razões que o ilustrado catedrático paulista e então Diretor do Ensino em S. Paulo, Dr. Almeida Júnior, proferiu em 7 de março de 1938, por ocaasião da consulta que lhe foi feita pelo professor Oscar Augusto Guerli, Delegado Regional do Ensino em Casa Branca.

Versava a consulta sobre se deviam ser atendidos 35 pais de crianças matriculadas no Grupo Escolar de Itobi, os quais desejavam fosse ministrado o ensino religioso espírita a seus filhos.

Pareceram-nos, as razões do Dr. Almeida, de alto quilate e as mais bem expostas que temos lido; por isso, longe de importar aquela escolha ou essa preferência um sentido de animosidade, um intuito personalíssimo, significam elas a alta consideração em que temos o abalizado professor.

Um amigo nosso, muito íntimo e muito dileto, classificou-lhe o parecer de divino. O nome do mestre que o apresentou e a maneira por que foi desenvolvido são de molde, não há negar, a provocar entusiasmo, mormente naqueles em quem as mesmas idéias vêm de feição.

Mas porque o nome de sua excelência, os seus títulos, a sua fama, o seu saber lhe emprestam ao trabalho grande relevo, já acrescido do brilho da forma, da clareza da exposição, das bases em que o professor procurou assentá-la, julgamo-nos com o dever de o tomar por paradigma dos argumentos daqueles que não vêem no Espiritismo a sua parte religiosa.

Estudaremos o parecer do Dr. Almeida com o respeito e acatamento que o professor nos merece, e só serão motivo de nossos reparos a sua tese e o pedestal em que se firma.

E explicamos o motivo da contestação. Poderá ele, o parecer, abrir caminho fácil para que os adversários do Espiritismo o afastem, por completo, do texto constitucional; cerceando a liberdade àquela doutrina e excluindo-a das garantias asseguradas às demais doutrinas religiosas, tê-la-em os transformada num simples caso de polícia.

Os credos gozam, entre nós, de favores, isenções, imunidades. Cerca-os o respeito público, envolve-os a proteção da lei. Garantem-lhes os poderes constituídos a liberdade de culto, de tribuna, de imprensa. Facultam-lhe o ensino nas escolas, mantêm-lhes a independência, asseguram-lhes a expansão, consentem-lhe a divulgação, a propaganda dos seus princípios.

É fácil compreender que a eliminação do Espiritismo do quadro das disciplinas religiosas fá-la perder todas essas mercês. É preciso, pois, desnivelá-la, pensam os seus adversários; é necessário retirar-lhe tudo que o possa fazer bracejar livremente; torna-se mister coartá-lo na propaganda dos seus ideais, impedir-lhe o progresso, tesourar-Ihe as asas, manietar-lhe os surtos, obstar a que se divulgue. Força é evitar que se conserve a par de religiões outras, às quais pode empanar, escurecer ou prejudicar. É óbvio que suas regras, cheias de lógica ou revestidas de provas, podem tornar insustentáveis os postulados das várias seitas.

Não há pois que ver: tão perigoso concorrente tem que ser afastado. Tira-se-lhe, então, tudo que lhe poderia dar vitalidade. A medida que se impõe é deixá-lo imbele, indefeso, vulnerável; o que convém é vê-lo fisgado nas malhas do Código Penal:

E, vai daí, negar-se-lhe a parte religiosa.

Se não é religião, não lhe cabem as prerrogativas constitucionais. Sem estas, fica como o viandante abandonado em meio da estrada; qualquer salteador lhe pode deitar a mão, a própria autoridade, diante dos perigos que nele vêem os interessados, ou dos embustes de que o acusam, ou das malignidades de que o cumulam, não só lhe retirará a proteção, como terá que vedar o livre exercício de sua teoria e de sua prática. Ser-lhe-ão fechados, provavelmente, os centros, as revistas, os tabernáculos, os periódicos de qualquer espécie, feitio, cor ou formato.

Se não é religião, a que título se reunirão os crentes, farão as suas prédicas, elevarão as suas preces a Deus?

Pois já não se tem dito que, por baixo de mão, vão procurando os prosélitos divulgar idéias extremistas? Pois já não os inquinaram de trapaceiros, falsos, enganadores?

Sem ver a trama ou atentar na urdidura do conluio, alguns de nossos correligionários aplaudem a campanha. Há ali os que pensam prescindirem os espiritistas de privilégios.

Não há dúvida que sim, mas o de que não podem prescindir é do apoio legal, é do prestígio da lei.

Fora da religião, com seu culto, suas palestras, suas orações, suas reuniões privadas, e com as suspeitas de que é vítima, é como se estivesse fora das normas legais, uma vez que não há para o caso legislação especial.

Sem garantias, seriam os adeptos da nova revelação, em breve tempo, presa fácil dos que esperam o momento propício por se livrar de uma doutrina molesta, com seus imperativos de renúncia, com o merecimento e a salvação pelas próprias obras, com sua caridade gratuita.

Teriam, então, que procurar esconder-se, de viver em conciliábulos, de buscar as luras para as suas manifestações de fé, de tornar clandestinas todas as suas práticas.

É possível que tais processos viessem a talho de foice para os que almejam os grandes sacrifícios ou queiram inscrever seus nomes entre os de tantos mártires que hão sucumbido por amor ao credo, mas tal não é possível esperar dos que têm por lema viver às claras, dos que acham se deva dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, enfim dos que proclamam, com a mão nos Evangelhos, que a candeia deve ser colocada bem alto, acima dos telhados.

Façamos, entretanto, um pouco de justiça àqueles que, militando em nossas fileiras, acreditam que o Espiritismo esmaecerá, se lhe emprestarem o cunho de misticismo exagerado, que tanto tem desacreditado as mais belas e mais nobres doutrinas.

Não se pode negar que é, por vezes, razoável o receio de que o Espiritismo siga as pegadas de tantas religiões que conspurcaram o ensino dos Mestres, em prélios furiosos e truculentos, que lhes deturparam os mandamentos com proibições fora de propósito, que lhes obscureceram as máximas com impenetráveis mistérios, que escravizaram as mentes com dogmas insustentáveis e obscuros, que desviaram a razão, encaminhando-a para o fanatismo; que aboliram o raciocínio, que prescreveram a subserviência mental; que mercantilizaram os ofícios divinos, que comerciaram com as coisas sagradas; que impediram o estudo, que colocaram o espírito humano como num círculo de ferro, donde ele nunca mais poderia sair; que proclamavam, como palavra de Deus, os maiores absurdos e as maiores truculências; que justificavam, em troca de uma recompensa pecuniária e em nome de Deus, os vícios, os pecados, as maldades de toda casta; que tornavam caliginoso o pensamento, já pelas trevas que o envolviam, já pelos rancores que o abismavam.

Muitas vezes, mesmo, em nome da religião, não importa qual, se cometeram, de mistura com atos de vandalismo, os de moral muito duvidosa, senão os da mais escandalosa imoralidade.

Assim foi com as saturnais, as bacanais, as lupercais.

Hispala, uma bacante, obrigada a depor, pediu perdão aos deuses, visto que a forçavam a descobrir os mistérios, e prestou a seguinte declaração, conforme conta Baissac: "A princípio era uma religião de mulheres; os homens não eram admitidos... Havia no ano três dias fixos para a iniciação. As mulheres eram sacerdotisas por seu turno. Mas, Paculla Minia, tendo sido elevada a essa dignidade, operou no culto toda sorte de transformações, que pretendeu lhe tinham sido ordenadas pelos deuses. Foi ela quem iniciou os homens, começando pelos próprios filhos. Estabeleceu que os mistérios se celebrariam à noite, e em lugar dos três dias seriam cinco por mês.

Depois da admissão dos homens e das reuniões à noite, os mistérios, como todo paroxismo místico em semelhantes condições, degenerou em uma espécie de lubricidade convulsiva; não houve infâmias a que não se entregassem com fervor: plura virorum inter se quam feminarum stupra. Os que não queriam submeter-se a essas abominações ou experimentá-las em outrem eram imolados à guisa de vítimas."

Noutra festividade da mesma natureza depõe Delancre:

"Jeannette d'Abadie, agée de seize ans, dit par exemmple qu'elle avait vu tout le monde se mesler incestueusement et contre tout ordre de nature, la femme se jouant en présence de son mary sans soupçon ni jalousie; le pere depucelant sa fille sans vergogne, la mere arrachant le pucelage du fils sans crainte, le frere celui de la soeur."

Não seria de admirar que tais cenas se passassem em épocas recuadas, numa sociedade dementada pelo fanatismo e arrastada pelas insopitáveis paixões, que tumultuavam no íntimo de pessoas moralmente atrasadas, quando ainda hoje vemos, em livros considerados santos e como tais lidos e ensinados por toda parte, páginas escabrosíssimas.

Deixemo-las, visto que o assunto pode ferir a suscetibilidade de pessoas delicadas e vejamos outras de menor gravidade, pelo menos no que respeita à licenciosidade.

É de uma crônica de Humberto de Campos a seguinte e interessante observação:

"Outro livro prejudicial à formação do espírito infantil, e que é, no entanto, adotado pela maior parte das escolas brasileiras, é a História Bíblica, aprovada pelas nossas autoridades eclesiásticas, e que resume, naquilo que ele tem de menos aproveitável, o Antigo Testamento.

Os hebreus, avós que os cristãos em má hora adotaram, não foram, como se sabe, em matéria de cordura, de clemência, de tolerância, um modelo desejável. Voltaire assinala, é verdade, que Jeová não exigia vítimas humanas, contentando-se com o sangue dos animais. Os seus profetas iam, no entanto, mais longe que o próprio Deus.

Apresentado a Achab durante a seca memorável que ameaçava extinguir o povo de Israel, realizou Elias um milagre que os sacerdotes de Baal não haviam conseguido. Impressionada com o prodígio, a multidão caiu-lhe aos pés, aderindo ao deus de Moisés. O profeta fê-la, então, erguer-se e ordenou:

- Lançai mão dos profetas de Baal, que nenhum deles escape!

O Livro dos Reis acrescenta o resultado dessa ordem:

"E lançaram mão deles - diz - e Elias os fez descer ao ribeiro de Kison e aí os matou."

A devastação dirigida pelo rei Jehu, após a morte de Achab e Jesabel, cujos corpos foram devorados pelos cães e cujos parentes e amigos rolaram mortos, sem nenhum deles ficar, de resto; a desonestidade traiçoeira de Judite; a baleia que engoliu Jonas; a passividade de Abraão imolando Isaac; tudo isso que revela a baixa mentalidade do povo de Deus e contraria, não raro, as mais rigorosas verdades científicas - é ensinado ainda hoje a crianças, como se a história doméstica dos hebreus, ou melhor, a mitologia hebraica, nos devesse merecer mais que a grega e a romana.

Para que se imagine o que tem ela de pernicioso, de feroz, de brutal, basta citar o episódio do profeta Eliseu. Dirigia-se Eliseu, um dia, a Bethel, quando, em caminho, lhe saiu à frente um bando de crianças, que lhe gritavam em algazarra:

- Sobe, calvo! Sobe, calvo!

Ante essa vaia jovial, que de um homem que não fosse "enviado do senhor" mereceria apenas um sorriso benévolo, estendeu o profeta a grande mão venerável, e os amaldiçoou; "e logo - diz piedosamente o livro escolar - duas ursas saíram do bosque, e, saltando sobre o bando, espedaçaram quarenta e dois meninos."

Até aqui a página de Humberto.

Em matéria bíblica e de ensino a crianças, desses que não são proibidos por lhes não faltar a marca da mais genuína religiosidade, podemos citar inúmeros episódios.

Conta-se, p. ex., em Números, do Velho Testamento, que Jeová dissera a Moisés: -"Vinga os filhos de Israel dos midianitas", e Moisés, mais que depressa, ordenou ao povo: - "Armai homens dentre vós para a guerra, a fim de que saiam contra Midian, para executarem a vingança de Jeová contra eles."

De fato, pelejaram contra Midian e mataram todos os homens, os reis inclusive. As mulheres e os pequeninos foram levados cativos. Despojaramm-nos de todos os seus gados, de todos os seus rebanhos e de todos os seus bens. Queimaram-lhes a fogo todas as cidades em que habitavam e todos os acampamentos. Carregaram todos os despojos e toda a presa, tanto de homens como de animais, e os trouxeram a Moisés, a Eleazar e à congregação dos filhos de Israel.

Moisés, porém, longe de contentar-se com a tremenda vitória e o formidável saque, indignou-se, ainda, contra os capitães por terem deixado viver as mulheres, e ordenou:

-"Agora matai a todos os machos entre os pequeninos, matai as mulheres que conheceram homem. Porém as meninas que não conheceram homem, deixai-as viver para vós."

O Antigo Testamento está cheio de matanças e iniqüidades que tais, umas, segundo ali se diz, por Deus presenciadas, outras por ele consentidas, outras, ainda, por ele mandadas, e outras, mesmo, praticadas por ele pessoalmente.

Diante disto é de perguntar-se: - Que idéia de Deus e da religião poderão fazer aqueles a quem forem apresentadas essas leituras?

Pois o que se admite como ensino de religião é isso. É isso o que se proclama com o caráter de religião.

Vem também a propósito uma indagação de Jacolliot:

"Que pregou Moisés? O medo, antes que o amor de Deus; a pena de talião, olho por olho, dente por dente; o roubo e a pilhagem; o massacre das nações que não consentiam em se lhe submeter ao jugo."

Não espanta que a história das religiões, mormente as ocidentais, seja uma seqüência de crimes hediondos, desde que os homens tiveram para as suas crueldades e seu instinto belicoso o exemplo, senão o incentivo de obras sagradas.

Não havia por que respeitar a liberdade, a propriedade e a vida, se os crentes já se tinham habituado, na leitura dos livros santos ou que passavam como tais, à escravização, ao saque, ao roubo, ao homicídio, à guerra.

Quem se dá ao trabalho de indagar como se tratavam uns aos outros os homens pios, o que vê é cristãos de um lado e maometanos do outro, uns com a cruz, outros com o crescente, estes em nome do Alcorão, aqueles do Evangelho, a se acutilarem e matarem desapiedadamente.

Nem se pense que os sectários oriundos do mesmo galho se tratassem melhor. Católicos e protestantes mais não têm feito que se maltratarem, odiarem e trucidarem.

Budistas do sul e budistas do norte andaram sempre mal-avindos.

Quando bandos de religiosos, que divergem, ainda em pontos mínimos, se vêem face a face, pode-se ter como certo o extermínio de uma das partes, quando não de ambas.

A carnificina é quase um ponto de fé. Se amalecitas, amorreus e saduceus foram mortos por ordem de Moisés, os bramanistas foram esmagados por vários crentes, e os budistas pelos bramanistas, e os birmaneses pelos budistas ...

O lema do Cristo era o do perdão, o da mansidão, o da paz; houve, entretanto, as hecatombes de maniqueus, a guerra dos hussitas, as Cruzadas, com suas pilhagens e morticínios, as fogueiras da Inquisição, as matanças de cátaros, albigenses e castrenses, as atrocidades no México, no Peru, a Noite de S. Bartolomeu ...

É com razão que diz Maurice Magre: "Des que les chrétiens arrivaient quelque part, ils installaient un tribunal religieux et ils élevaient des buchers."

"Desde que os cristãos chegavam em algum lugar, para logo instalavam um tribunal religioso e levantavam fogueiras."

Refere o mesmo autor que o seu mestre, provavelmente, ao notar-lhe as heresias lhe afirmara que ele havia de ser queimado, senão em praça pública, pelo menos no inferno prometido aos heréticos. O mestre - acrescenta Magre - não encarava ninguém. Vivia alegremente em seu sonho de fogo. Queimava, indiferentemente, todos os pecadores.

Parece que a sustentação, ainda hoje, das penas eternas do inferno, se acha iluminada com os clarões das labaredas inquisitoriais.

Os chamados cristãos sempre tiveram acentuada tendência para o fogo.

Merece lida, a respeito, uma página de Zevaco, escrita com o estilo leve e por vezes humorístico, que o caracteriza.

Transcrevamos uma descrição daquilo que se chamava um auto-de-fé:

"O auto-de-fé - diz o escritor - consistia em apanhar uma dúzia de culpados, na consciência dos quais se haviam encontrado uns pensamentos escondidos (un recel de pensées); empilhavam-se, então, feixes de lenha, muito bem colocados, uns sobre outros, em boa ordem e simetria, visto que nossa Santa Madre Igreja sempre foi inimiga da desordem; do monte de achas emergia um poste; havia três, dez, algumas vezes uns vinte, destes belos postes, muito convenientemente espetados; ligavam-se a eles, com cordas inteiramente novas, os malandros suspeitos de medíocre fervor católico.

Depois, vinham os monges com círios e punham fogo aos feixes; a fumaça ascendia; as chamas precipitavam-se; os infortunados tentavam esforços sobre-humanos por se libertarem dos laços; a carne tostava; escapavam-se-lhes bramidos de dor... Morriam em inomináveis agonias, com a face retorcida, a alma desesperada por tanta perversidade. Chamava-se a isto um auto-de-fé."

Um exemplo, este nosso:

Giordano Bruno proclamava que milhares de mundos, sóis inumeráveis se achavam disseminados na infinita amplidão; que a Terra era um átomo lançado no espaço; não tinha importância especial nem preeminência com relação a outras terras, as quais também se moviam no etéreo espaço infinito; afirmava que tudo é perfeição e ordem na natureza, devendo ter-se como errada a doutrina que conferisse prerrogativas ao atrasado mundo em que habitamos.

Essas e outras profundas heresias fizeram-no subir à fogueira purificadora.

Na data de sua execução, que foi a 17 de fevereiro de 1600, as ruas da cidade de Roma estavam repletas de povo. Nada menos de cinqüenta cardeais vieram para a grande festividade crematória. Por toda parte viam-se as filas de peregrinos, longas, intermináveis, com variado indumento, que se iam de igreja em igreja implorar o perdão de seus pecados, e encomendar as santas almas ao Criador.

No meio da plebe notavam-se príncipes e eminentíssimas personagens e não raro, atrás deles, o pontífice. De todas as bocas se erguiam preces; todos os joelhos baixavam à terra; as procissões desembocavam de todas as esquinas. Era uma demonstração nunca vista de humildade e brandura. Disseram-se em S. Pedro quarenta e uma mil e duzentas e trinta e nove missas (41. 239), havendo, também, um número espantoso de comunhões.

Ouçamos, agora, Arturo Labriola e Lúcio Vero:

"Quell' immenso concorso di popolo - i cronisti del tempo fanno ascendere a tre milioni il numero dei pellegrini convenuti a Roma - quel continuo pregare sembravano il segno piu sicuro che tutti i cuori dovessero inclinare a misericordia e perdono, e tutti congiungersi amorevoli nel Redentore pacifico dell' umanità. Pure non era cosi."

"Aquele imenso concurso de gente - os cronistas do tempo faziam ascender a três milhões o número de peregrinos vindos a Roma - aquelas contínuas rezas pareciam o mais seguro penhor de que todos os corações ali estavam para se inclinar à misericórdia e ao perdão, para se unirem, em amor, ao Redentor pacífico da humanidade. Mas tal não se dava."

De fato, não foi o que se viu. O pobre filósofo, cujo imenso crime era não estar ao nível da ignorância da época, nem concordar com a escravização do pensamento, foi ao suplício, acompanhado da imensa multidão Que enxameava nas ruas e nos templos. Os sacerdotes empunhavam crucifixos; soldados e guardas conservavam as suas armas, como se temessem ainda o prisioneiro, que marchava a pé, sem um parente, sem um conhecido, sem um amigo ao lado, amarrado, acorrentado, encadeado, em direção ao local do martírio, que, por ironia, tinha o nome poético de Campo das Flores.

O cortejo fúnebre cantava litanias, fazia orações e lançava anátemas ao condenado.

Depois o puseram sobre as achas e lhes deitaram fogo, enquanto a multidão piedosa alternava os olhares entre o Céu e as chamas, como agradecendo àquele o esplendoroso espetáculo que estas lhe proporcionavam.

E assim se extinguiu, nas contorções do hediondo martírio, aquele homem ilustrado, clarividente, sincero e bom, mas que abalara a Igreja secular com as verdades que viera trazer ao mundo.

Resta-nos, hoje, no século das luzes, luzes certamente mais brandas, o consolo de que já não seremos queimados. Apenas, as verdades espíritas, na opinião de muitos, ainda se não podem ou se não devem dizer de público, pelo menos nas escolas.

As vezes, olha-se com certa indulgência para uns tantos pecados. O jesuíta Antonio Blasquez, que aqui esteve em 1558, dizia em carta ao Superior da Ordem:

"Saiba Vossa Paternidade que são muito poucos os pecados da gentilidade, porque, tirando-lhes as matanças e o comerem carne humana, e fazendo-os viverem com uma só mulher, tudo mais neles é muito venial."

Como se vê, a pouco ficavam reduzidos os pecadilhos da gentilidade.

Não seria muito de admirar, diante de tudo que aí fica e em face do Testamento, se haja o Criador arrependido de sua criação e de sua criatura:

"Então se arrependeu Jeová de ter feito o homem na terra e pesou-lhe em seu coração." (Gênesis,6:6)

Provavelmente, a estas horas, a julgar, ainda, pela Escritura, está também arrependido do que ele próprio fez, senão cheio de remorsos por suas próprias malfeitorias.

Isto, sim, é que fica bem ensinar à criançada e a toda espécie humana.

Mas não é essa a verdade religiosa, nem foram aqueles os processos empregados pelos mestres.

As religiões, em vez de manterem nos homens as suas paixões, em vez de lhes minarem ou entorpecerem a razão, em vez de os obscurecerem, devem encaminhá-las a Deus pela senda do progresso espiritual.

Pode-se dizer que elas possuem um tronco comum, e isto faz com que muitos afirmem, ingenuamente, que umas são cópias de outras. É que o código moral que o Supremo Ser nos envia, periodicamente, é o mesmo. Ele baixa de acordo com a época e conforme as mentalidades.

Fala-nos do amor, do bem, da paciência, da fraternidade, da resignação.

As várias frondes estão mais ou menos adaptadas às regiões em que bracejam.

O que há de profundamente antagônico entre os princípios religiosos ou é fruto da ignorância, ou da incapacidade, ou da cupidez, ou da desonestidade.

Muitas vezes as divergências nascidas da diversidade de interpretação de um texto são futilidades que despertariam nos espíritos criteriosos um simples levantar de ombros, quando não um sorriso indiferente.

Os sectaristas, porém, frívolos e maus, é que fazem, na sua intolerância, daquele ponto mínimo, um ponto máximo de discórdia, e terminam em pugnas que maculam o nome do Criador, entretanto que o imperativo divino é que nos amemos uns aos outros.

A proporção que se desenvolver e crescer a mentalidade do ser, menos ele se ocupará com as ninharias. E é esse o ponto que almejamos.

O espírito esclarecido se alcandorará nas alturas dos grandes problemas, no assentamento dos grandes postulados, na pesquisa das grandes verdades, na investigação daquilo que possa trazer grandes benefícios. O espírito iluminado poderá compreender Deus e alcançar Deus. E isto é religião.

Num opúsculo intitulado El Cristianismo afrontando los problemas de la humanidad, escreveu um protestante:

"Damos as boas-vindas e aceitamos qualquer qualidade nobre de pessoas ou sistemas não cristãos, como uma nova prova de que o Pai Celestial, que enviou o seu Filho a este mundo, não permitiu, em parte alguma, que deixem de existir testemunhos que testifiquem d'Ele.

"Sem procurar fazer uma síntese desses sistemas e só para demonstrar como apreciamos os valores espirituais de outras religiões e crenças,
a) reconhecemos como parte da verdade suprema esse sentido da majestade de Deus e, como conseqüência, essa reverência no culto, que são tão notáveis no islamismo;

b) a profunda simpatia pela dor que fustiga a humanidade, assim como os esforços altruísticos por dela se libertar, que constitui o cerne do budismo;

c) o desejo de estar em contacto e comunhão com a Realidade suprema e última, concebida como algo espiritual, que é tão predominante no hinduismo;
d) a crença em uma ordem universal e moral e, como resultado, a insistência na conduta moral, que tão eficazmente inculca o confucionismo;

d) as investigações desinteressadas e os esforços por encontrar a verdade e por aumentar o bem-estar humano, que soem ser tão evidentes em todos aqueles que se dedicam à civilização secular, mas que não aceitam o Cristo como Salvador e Senhor.

"Fazemos em especial um chamamento ao povo judaico, cujas escrituras fizemos nossas, dos quais nos veio o Cristo segundo a carne, para que abram seus corações e volvam o olhar para esse Senhor, em quem se cumpre a esperança de sua nação, sua mensagem profética e seu zelo pela santidade."

Esse que assim escreve, esse crente em o Cristo, diante dessa mensagem, como lhe chama, está com o coração aberto para todas as criaturas. Fala por ele o sentimento do amor divino. Convida todos os povos para verem o Cristo, para sentirem o Cristo, e sentir o Cristo é ter a alma voltada para os sentimentos da solidariedade, em toda a sua máxima amplitude.

Não é outro o apelo do Espiritismo.

De maneira que o que pretendemos propagar são os ensinos de nossos maiores, com a cristalinidade com que brotaram da fonte e os comentários com que os Espíritos os elucidam.

O que se diria ou dirá é que o Pai,

a) o Sumo Arquiteto, tudo fez e edificou de acordo com uma razão suprema;

b) que, no seu espírito de bondade, salvará todos os seres;

c) que a sua lei é a da paz, o seu mandamento,

d) a fraternidade; que a servidão, da consciência ou dos corpos, nunca fez parte do seu Código;

e) que as dores não são eternas nem injustificáveis, senão um caminho para o aperfeiçoamento e o progresso;

f) que a vingança é um crime detestável;

g) que nunca o determinou, antes o que mandou seus divinos mensageiros pregassem foi o perdão sem limites,

tal como aquele que brotava dos lábios de Jesus;

a) que a criatura evolve contínua, ininterruptamente, sem haver seleções, nem privilégios junto ao seu seio amantíssimo;

b) que o Bem é o fator primordial dessa evolução;

c) que as Escrituras, nas páginas donde fluem as matanças, esses testamentos que se acham pejados de esbulhos, violências, maldades, escabrosidades ou puerilidades não representam o seu pensamento;

d) que a Caridade e o Amor são a estrada larga que conduz à redenção e, conseqüentemente, à felicidade.

Esta é a parte religiosa que os espiritistas pregam e procuram difundir.

Mas como que buscam todos fechar-lhes as portas, enquanto se abrem elas, de par em par, às obsoletas e absurdas prescrições teológicas, às velhas obras sagradas, para alguns de cujos textos tivemos as vistas voltadas, ainda que apressadamente, neste capítulo.

É nosso intuito, pois, esclarecer a questão religiosa, em geral, e no que toca ao Espiritismo, em particular, ou seja, o seu papel entre as religiões e os seres, a tarefa que lhe cabe no encaminhamennto espiritual, quando ele fala ao coração do homem e, sobretudo, quando se dirige ao da criança, como cera ainda tenra, onde facilmente se moldam os bons princípios.

Não se veja nestas linhas a presunção do entendido a fazer explicações ao desentendido, senão o desejo de um bem-intencionado por contribuir, ainda que com parcela microscópica, para a felicidade presente e futura dos seus coevos e das gerações por vir.

E então, com a consciência tranqüila, diríamos ao Criador: Pater, teci potui.

Carlos Imbassahy