4 - LXVII - CONVERSÃO DE PAULO

4 - LXVII - CONVERSÃO DE PAULO

Zete conheceu o jovem Jobe, que se apaixonou por sua filha. Preocupado com o paradeiro de João, eis que Zete obteve a noticia de que ele havia sido aprisionado pelos romanos, que o haviam exilado numa ilha, local de que retiravam minérios.

Zete fez amizade com as pessoas do lugar e se empregou como serviçal naque¬la ilha, onde conheceu João.

Ali João começou a escrever tudo o que sabia de Jesus, enquanto que Zete muito o auxiliava, pegando todos aqueles escritos e montando um livro, já que detinha um pouco de conhecimento. Daí surgiu o Evangelho de João.

Saulo, de sua parte, continuou no seu trabalho. Ansiava por colocar as mãos sobre João, mas também ansiava pela prisão e morte de Ananias. Sabendo que este fora para Damasco, preparou-se então para buscá-lo nessa cidade. De Cafarnaum foi até Jericó, tomando o rumo de Damasco.

Era um dia radiante de luz.

As palavras de Elcênio emergiam, faiscantes, à memória de Saulo, que pensava: Como pode ter Estêvão morrido sem pronunciar nenhuma palavra de revolta e ainda abençoando a todos?! E Abigail, mesmo eu tendo matado o seu irmão, por que ainda tanto me ama e perdoa?! E Paulo, aquele primeiro que executei, como não apresentou nenhuma raiva?! E Elcênio, por que se me mostrava até agradável, sem nenhuma palavra de revolta?! O que é que esse Jesus fez com a cabeça desses homens?!

Aquele martírio tomava a razão e o coração de Saulo, aquela incomum atitude de serenidade e conformação dos cristãos. Como é que ele deveria agir para acabar com aquela crença e aquele povo tão fiel ao seu Jesus?

A certa altura da caminhada, Saulo se acercou de um de seus militares e disse:

— Marcos, acompanhaste o que aconteceu com Elcênio, aquele que apedrejamos. O que achaste daquilo?

— Ora, era apenas mais um cristão e estamos cumprindo ordem do teu povo e dos romanos. O que mais poderíamos fazer?

— Viste o olhar daquele homem? Notaste a fé naqueles olhos? Ora, nenhuma palavra de revolta ouvi dos lábios dos tantos homens que apedrejamos. Fé tão grande jamais vi nos meus próprios irmãos judeus! Garanto que, estivesse eu no lugar deles, teria tanto medo que tentaria fugir de todas as formas. Viste esse Elcênio, o último que executamos? Caminhou calmamente pela rua, chegando sereno até nós. Não vi medo algum no coração dele e não vi medo em todos os demais que matamos. Como pode um homem ter tanta fé assim?! E muitos deles nem tinham visto esse Jesus!

— Se queres a minha opinião, não sou muito favorável à lei do teu povo, executando assim as pessoas. Para falar a verdade, desconsidero esse nosso Deus. Não acredito mesmo em Deus. O único Deus meu é Roma, é a força do exército romano!

Este sim é o meu Deus! Quanto a vós, judeus, apedrejais esses homens por apenas serem cristãos, por acreditarem num desses profetas. Quereis que acreditem somente em vós, no que dizeis?! Ora, pareceis os donos da verdade! Somente vós quereis estar com todas as razões, não concedendo a esse povo razão nenhuma! Ora, são irmãos vossos, mesmo assim! Em Roma punimos os contraventores, os ladrões, os assassinos, enquanto que vós matais os vossos próprios irmãos, aqueles que não fazem mal a ninguém! Matá-los somente porque crêem em outro profeta?! Matá-los apenas por crerem nesse Jesus?! E esse João Batista, que também tem muitos seguidores?...

— Pois então: os próprios seguidores de João Batista são os seguidores de Jesus. Mas João Batista não se proclamou como sendo o Messias!

— E que diferença há nisto? Qual é o prejuízo que isto traz ao teu povo, acreditar ou não nesse Messias?! É o que penso! Saulo, tenho caminhado muito com os meus homens, junto de ti e teus homens, e observo o tanto de amigos e admiradores que conquistas em cada lugar que aportas, em nome da tua religião. Deves, pois, saber que já estou muito cansadq disso tudo! Para te falar a verdade, já não suporto mais ver esse derramamento de sangue! Sendo militar, fui bem preparado para enfrentar qualquer batalha, qualquer facção inimiga, mas é outra coisa ver essa matança de gente inocente e indefesa! Ainda bem que tal culpa não cabe a mim, porque nós, romanos, apenas representamos o apoio a ti, e não temos força de condenar e executar. Sim, vós sois os executores! Não obstante, até já trago a consciência um tanto pesada com tudo isso. Pareço ouvir à noite o grito daquelas pessoas inocentes! Saulo ergueu a voz:

— Não inocentes, e sim malfeitores! Dizes isto porque não conheces a nossa lei e não leste as Escrituras, não viste o que o nosso povo passou no deserto para chegar até aqui e construir o nosso Israel, a terra de um único Deus, o Deus de Abraão, de Isaque e Jacó! Se pudesses ler e entender, plena razão me darias! Porém, Marcos, és um bom companheiro! Sigamos em frente! Temos de executar mais uma missão! Estamos no encalço de Ananias: a sentença dele já está gravada!

Marcos, sentado no cavalo, virou-se para o lado e indagou, contrafeito:

— Que culpa cabe a esse irmão?! Quem foi que ele matou?! O que foi que ele roubou?!

Saulo apenas meneou a cabeça, enquanto que Marcos se endireitou no cavalo e a tropa seguiu.

O sol era escaldante e, caminhando, de repente Saulo ouviu uma voz a chamá-lo pelo nome. Estacou e ordenou que a tropa se detivesse. Olhou para os lados e não viu ninguém.

Eis que a mesma voz o chamou:

— Saulo!

A tropa parou e ele ordenou silêncio.

Pela terceira vez a voz se lhe fez ouvir.

Saulo se adiantou, ordenando que a tropa permanecesse pouco atrás. Cavalgou um pouco, desceu do cavalo, colocou-se à frente dele e caminhou um pouco.

Subitamente, eis que uma enorme luz apareceu à frente de Saulo, que a fixou e viu nela aqueles expressivos olhos de Jesus, este dizendo:

— Saulo, Saulo! Sou o homem que persegues! Por que me persegues?

Saulo estava completamente cego. Ajoelhou-se e pediu perdão ao Senhor, mas voz alguma ouviu. Sem nada enxergar, ergueu-se. Marcos o acudiu e ele disse:

— Deixa-me aqui e segue! Não sou digno de enxergar mais nada! Marcos, tens razão! Matei muitos inocentes e não sou digno do perdão de Deus! Vai!

— Não posso deixar-te aqui nesta situação. Levar-te-ei até Damasco e lá te colocarei numa hospedaria, onde te darão todo o apoio necessário, pelo que representas para o teu povo. Estamos bem perto de Damasco. Levar-te-ei comigo, 'enquanto os meus homens esperarão aqui.

Marcos o colocou sobre o cavalo e cavalgaram.

As vistas de Saulo ardiam horrivelmente.

Em Damasco, as pessoas viram com estranheza aquele romano chegando com aquele homem cego.

Marcos fitou os olhos de Saulo e os viu tal duas brasas, tão vermelhos estavam, e sugeriu:

— Ardem muito os teus olhos! Lavemos com água.

— Não! Não sou digno de lavá-los com água! Pequei bastante contra Deus e Ele ora me castiga. Deve ser as palavras que me disseste! Marcos, estás dispensado! Vai e não persigas mais nenhum desses cristãos! Dize a todos que Saulo morreu, sem lhes relatar o que realmente aconteceu comigo. Dize-lhes apenas que Saulo não mais existe!

Adentraram a hospedaria e Marcos disse aos hospedeiros:

— Este é Saulo. É um dos vossos. Deixá-lo-ei aqui. Fazei a vontade dele, dai-lhe tudo o que for necessário.

Marcos se foi e Saulo lá se instalou. Ali em Damasco, eis que, em certo momento, Ananias orava e de repente Jesus ali chegou, a lhe dizer:

— Ananias, é chegado um novo tempo! Ananias ouviu aquilo e, olhando para os lados, não viu ninguém. A voz lhe era familiar e repetia:

— Ananias! É chegado um novo tempo! Ananias, intrigado, olhou, olhou e nada viu. E por uma terceira vez a voz repetiu:

— Ananias! É chegado um novo tempo! Virando-se, Ananias viu que a porta se abria, dando passagem a Jesus, com aquela veste alvíssima, resplandecente, e seus cabelos caindo aos ombros, e a barba cerrada. Um forte halo se formava em torno dele.

Ananias, que orava, emudeceu, emocionadíssimo, e ouviu:

— Bem perto daqui, Ananias, há uma hospedaria. Lá está Saulo. Vai até ele e dá-lhe tudo o de que necessita!

— Não podes dar a mim tal missão! Saulo matou o meu melhor amigo! Sei que ele persegue com fúria os cristãos e sei que também me matará!

— Não temas pela tua vida, porque aquele que perde a vida em meu nome outra vida ganhará! Não te preocupes com qualquer mal! Vai até aquele irmão, porque ele também é um dos meus escolhidos, tanto quanto escolhi a ti e aos demais. Ele é um vaso que deve ser preparado para conter lindas flores. Assim como vieram tantos dos meus para acalmar as tribos de Israel, eis que Saulo também será o apaziguador dos nossos irmãos da Judéia. Vai até ele, ensina-o e prepara-o para a sua nova missão. Vê aquela água do jarro? Toma-a, leva-a contigo e banha os olhos dele, e ele em ti verá a mim, e tu lhe dirás o que tem de fazer.

Ananias estava por demais emocionado por ter recebido a visita do Mestre. Passos miúdos pelo avançar da idade, foi até a hospedaria.

Saulo, ajoelhado, clamava por misericórdia.

A serviçal não queria permitir que Ananias adentrasse o quarto de Saulo. Disse-lhe Ananias:

— Tens sido bondosa e todos nós devemos ser bondosos. A misericórdia de Deus é infinita para com todos nós! Devemos amar-nos uns aos outros, principalmente os que nos perseguem, os que contra nós levantam falso testemunho, porque assim nos foi ensinado. O nosso Deus de Israel é um Deus misericordioso!

A serviçal disse:

— Aquele homem está cego e não deseja receber visita alguma. Pediu para não ser incomodado.

— Dize-lhe que aqui estou a mando daquele que lhe tirou a visão.

Aquela mulher, mesmo assim, relutava. Ananias disse a viva voz:

— Por que ignoras a voz do Senhor?! Estou aqui em nome de Jesus!

Aquela voz forte chegou até o quarto de Saulo, que, tateando dificultosamente, foi ter à porta, abriu-a e disse:

— Deixa-o entrar!

Ananias adentrou o quarto, molhou as mãos com aquela água e banhou os olhos de Saulo. Este fixou Ananias e viu nele aquele mesmo rosto que vira naquela cegante luz. Emocionado, indagou:

— Tu és Jesus, o nosso Deus?!

Não houve resposta. Seus olhos foram voltando à normalidade e viu-se, afinal, à frente de Ananias.

Por algum tempo Ananias permaneceu na hospedaria, a cuidar de Saulo, e depois o levou para a sua casa, lá o instruindo sobre tudo o que aprendera a respeito de Jesus e sua doutrina.

Foram meses de proveitosos colóquios.

Em certo momento, Ananias o chamando por Saulo, ouviu dele:

— Saulo morreu! Paulo é agora o meu nome — o nome da minha primeira vítima! Sou agora Paulo de Tarso — porque de Tarso eu vim.

Grande transformação moral se operava em Saulo. O arrependimento muito pesara em sua alma, reformulando todos os seus sentimentos e projetando dentro dele uma nova visão de Jesus e seus ensinos.

JOÃO BERBEL