5 - LXVIII - RESGATE DE PILATOS

5 - LXVIII - RESGATE DE PILATOS

Ananias se colocava ao lado de Paulo de Tarso, em tudo o assistindo. Tortuosas eram as noites de Paulo. As sombras dos que apedrejara o perseguiam, faziam-se presentes continuamente em seu cérebro. Saudava com alívio a chegada de cada amanhecer, fugindo daquelas noites agitadas que pareciam um verdadeiro inferno em sua alma. Aquelas suas vítimas não o perdoavam de forma alguma e aquela persecução ferrenha colocava sob dura prova a sua consciência atormentada.

Profundas mudanças atingiam aquela alma, ora tocada intimamente pela força da doutrina de Jesus. Filiava-se à simplicidade, abraçava a humildade, ansiava por pregar Jesus. Dizia a Ananias:

— Não tenho paz! Meu espírito navega nas tempestades da escuridão!

E Ananias lhe dizia:

— É necessário que enfrentemos o Inferno e todos os seus fatores para que possamos entender a grandiosidade da luz! Não deixes que o mal castigue a tua alma!

Paulo chorava, arrependido, mas mesmo assim tinha a felicidade de poder enxergar.

Em certo momento em que Paulo orava de joelhos, eis que uma figura espiritual se fez presente à sua frente. Era Pedro, a lhe dizer:

— Saulo, hoje chamado Paulo, não deixes que o teu coração se conturbe com os tormentos que afrontará! Escolheste a luz do Divino Mestre e então ele estará contigo. Arrependa-te, do fundo do teu coração e da tua alma, para que sejas perdoado pelas mãos que te perseguem!

— Sou um eterno pecador! Muitas vidas aniquilei! Gravei a imagem do desconsolo dentro da minha alma e ela padece sob a força de tanto mal!

— Não conheceste Jesus, o Mestre. Arrependa-te, implora o perdão a esses tantos que te perseguem! Nem mesmo a minha crucificação colocou raiva ou ódio no meu coração, pois me senti na grandeza maior de servir àquele que no passado fixara os meus olhos, pronunciara o meu nome e me dissera:

— Segue-me! Também eu demorei para compreender. Hoje reconheço a grandeza de Judas, que, a mando do próprio Mestre, fez cumprir as profecias entregando-o aos sacerdotes.

Covarde, pior do que ele, fui eu, porque ele cumpriu a missão que lhe fora destinada e, quanto a mim, falhei em minha missão perante Jesus, porque o neguei por três vezes, antes do cantar do galo! Como conforto às lágrimas que saltavam dos meus olhos, ele ainda foi até mim, segurou as minhas mãos e disse que muito me amava. Tão pouco sabes, Paulo! Está chegando o teu tempo, está chegando a tua hora!

Naquele recinto entrou Ananias, que por instantes se havia retirado. Paulo se despertou e Ananias, sentindo a presença de espíritos ali, disse:

— Paulo, a tua missão na Terra é muito maior do que podes imaginar!

— Como posso ser útil a Jesus depois de tanto mal que lhe fiz?!

— Oraste e o que viste e sentiste?

— À minha frente estava um homem chamado Pedro, um homem robusto, sem¬blante nervoso, mas com um esplendor de bondade no coração. Pronunciou belas palavras, afirmou ter também traído Jesus e que Jesus o perdoou. Disse que, na primeira vez que o encontrou, Jesus fixou os olhos dele e, chamando-o pelo nome, ordenou que o seguisse. Quanto a mim, apenas persegui as criaturas, magoei, ofendi, matei! A única oportunidade que tive foi a de encontrar a escuridão! Não, não sou digno de qualquer missão que possa estar em minhas mãos!

— Jesus me disse que tu és um dos seus escolhidos.

— Seria uma alegria sem tamanho poder servir ao Mestre com toda a força do meu coração e da minha alma! Contudo, tormentosas têm sido as minhas noites, eterna e tempestuosa escuridão! Vejo aqueles que me imploravam para que os mantivesse vivos. Eles aparecem toda noite à minha frente e me torturam! A calma fugiu do meu espírito! Parece que até mesmo a água que vou beber me mostra a imagem daqueles que matei! Ora, Deus não terá piedade de mim e ninguém me perdoará! Apenas recebo em tudo o castigo por não ter compreendido que somos todos filhos de Deus, que somos todos iguais, como foi ensinado pelo próprio Jesus. Sei que esta amargura será a minha herança para a eternidade, mas já agradeço a Jesus por ter permitido que a luz retornasse aos meus olhos. Nas minhas noites de tormento rogarei ao Mestre a proteção, que ele me livre de todo mal que a vida possa oferecer!

Naquela tarde, Paulo permaneceu por ali, na casa de Ananias, onde se instalara. A sombra da noite caindo sobre Damasco, Paulo foi aos seus aposentos e adormeceu. Imediatamente se lhe apresentaram à frente todos aqueles que ele havia executado. Com os olhos da alma viu que um daqueles homens se adiantou, dizendo:

— Mataste-nos e hás de pagar por isto! Elcênio tomou a frente e disse:

— Ele nada nos deve: nós, sim, lhe devemos. Por que o julgais, se o nosso próprio Mestre nos ensinou a perdoar?!

Paulo de Tarso, atormentado, fixava aqueles espíritos a cobrá-lo severamente.

Ali surgiu Pedro, dizendo aos espíritos:

— Todos vós ouvistes o que ensinou Jesus, que mesmo mortos viveríamos. Não cabe a nenhum de vós julgar o que aconteceu. Apenas vos foi dada a oportunidade de tal morte para que assim mesmo quitásseis a vossa dívida perante *a justiça que Jesus pregou na Terra. Paulo, não estás morto! Segue comigo agora e entenderás! E também vós todos, segui-me, porque este é o momento, esta é a hora!

Paulo indagou:

— Mas o que queres de mim? Estou muito fraco!

— Fraca é a matéria, e não o espírito! O que é da carne fica na carne e agora veremos o que é do espírito! Foi-nos dada a oportunidade de irmos agora em busca de um irmão que padece pelos seus próprios erros. Orai para que não vos derrube a tentação! Paulo, tu verás o que precisas ver e isto te acompanhará para sempre! Então, do que verás, eis que entenderás porque é que Jesus tanto nos amou e ama, e mandou que amássemos os nossos inimigos, porque, por mais ruins sejam os nossos irmãos, eles são filhos de Deus. Lembrai-vos, irmãos, de que Jesus andou no meio dos ladrões, das prostitutas, dos mendigos. Digo-vos agora: farta era a minha vida, nada me faltava. Seguindo com Jesus, aprendi a comer com os mendigos, a dormir no meio deles, que somos todos filhos de Deus, nascidos na igualdade. Jesus ordenou que eu viesse aqui e todos fôssemos de encontro a um irmão para ampará-lo. Vamos!

Pedro abriu os braços e uma grande nuvem negra se formou. Pediu que todos nela entrassem e todos o fizeram. Foram assaltados por relâmpagos e trovões, ruídos ensurdecedores. Pedro recomendava que todos tivessem fé, que se mantivessem em oração. E tudo se agitava, fogo saindo da terra. Atravessaram aquela nuvem e transpuseram uma ponte levando a um vale penumbroso, com focos ígneos no solo, soltando fumaça e horrível odor.

Aquele grupo de espíritos, sempre liderado por Pedro, foi adentrando lentamente aquele submundo. Pedro, sempre à frente, erguia os braços, abria os caminhos à passagem dos demais.

Chegando em certo ponto, encontraram um homem mostrando os pulsos cortados, o sangue a se derramar. Seu semblante era lívido, horrendo.

Pedro o fixou e aquele homem lhe indagou:

— O que vieste fazer aqui?! Vieste para completar a minha desgraça?! Porque infeliz, muito infeliz sou assim! Não tenho mais vida, não tenho mais nada!

Pedro disse:

— Irmão Pôncio Pilatos! Deus muito te ama e para ti há um grande propósito a cumprir. Ergue-te e caminha comigo!

— Perdoa-me, senhor, a minha ignorância e a sombra do mal a obscurecer a minha alma, mas não tenho força para me manter de pé!

— Em nome de Jesus, eu ordeno: levanta-te e anda!

Com a potência das palavras de Pedro se apagou todo aquele fogo e aquele espírito se revitalizou. Pedro foi até ele e o abraçou.

Paulo, admirado, acercou-se dos dois e Pedro, fixando-o, disse:

— Espírito algum é condenado ao fogo eterno do Inferno, porque todas as almas são de Deus e recebem de Deus o amor, sob uma só igualdade. Deus tanto ama o melhor quanto o pior dos homens!

Pedro retirou dali Pilatos, transpôs com ele a ponte de luz que deixava para trás aquela entrada umbralina.

Aquela nuvem negra e aqueles relâmpagos e trovões cessaram, dando lugar a um ameno local em que se erguia uma grande sinagoga.

Pedro disse a Pilatos:

— Este é o templo do Senhor! Aqui não sofrerás mal algum de quem quer que seja.

Pilatos, todo desfigurado, mergulhou num tanque, a mando de Pedro, e dali saiu todo mudado na sua aparência.

Disse-lhe Pedro:

— Para ti há algo a cumprir! Jesus te deu uma oportunidade. Prestar-lhe-ás um serviço.

Pilatos caiu de joelhos e disse:

— Será uma imensa honra servir ao Mestre! Será subida honra servir ao Senhor! O que devo fazer? Já não mais pertenço ao mundo dos vivos!

— Nada temas! Disse-nos Jesus que ninguém chega ao Céu se não nascer de novo. Uma nova vida se prepara para ti, uma nova oportunidade, e dessa feita edificarás Jesus na Terra. Mas permanece neste templo. Aqui chegarão luminosos irmãos e
cada um deles te ensinará algo necessário. São emissários de Jesus.

Paulo de Tarso se acercou e disse:

— Muito envergonhei o Senhor, o nosso Jesus! A muitos apedrejei e matei!

Naquele momento, as palavras negativas de Paulo agiram acidentalmente no ambiente, até desfazendo aquele templo. Pedro lhe ordenou com veemência:

— Cala-te e ora! Estamos no templo do Senhor e ele está sobre nós. Aqui não cabem palavras de imperfeição! Se disseres uma só palavra sombria, tudo isto irá ao chão!

Conturbado com aquilo, Paulo abraçou Pedro, que disse:

— Este é o irmão Pôncio Pilatos. Ele também crucificou muitos homens e grandes dívidas tem sobre os ombros. Jesus nos disse que seríamos cobrados de todos os nossos erros, e então a Pilatos não resta outra alternativa senão a de servir ao
Senhor, e o Senhor muito o recompensará. E assim também contigo, Paulo: muito trabalho te será dado. Ainda pertences ao mundo da carne e deves iniciar rapidamente o teu trabalho, para que seja proclamado na Terra o nome do Mestre, para que o perdão e o amor sejam pregados aos teus familiares: eles te condenarão e castigarão. Deves ir em busca dos gentios, das terras distantes, e ensinar a todos os irmãos tudo o que aprendeste. Vê: a piedade de Deus é igual para todos! Nosso irmão Pilatos se preparará para se revestir do manto carnal e a ele será igualmente oferecida a mesma oportunidade que ora o Mestre te concede. Sim, porque ele próprio defendeu o Mestre quando vivia na carne, enquanto que muitos de nós, seguidores diretos do Mestre, nos acovardamos, a exemplo de mim mesmo, que, com a minha ignorância e a minha falta de amor, fiz com que muitas lágrimas se derramassem, até que viesse a entender que Jesus era realmente o Emissário do Céu para nos libertar do fogo do ódio, do fogo da mágoa, do fogo da desigualdade. Agora muitos e muitos conhecem Jesus, mas muitos e muitos ainda precisam conhecê-lo, porque apagado ficou na sua memória. Então cabe a ti acender essa chama de amor nos corações!

Pedro pediu que aquele grupo de espíritos apedrejados por Paulo de Tarso permanecesse naquele templo, sempre orando, porquanto também a eles seria dada uma missão na Terra.

Aquele templo era então ativado sobre Jerusalém, albergando espíritos orientados a novo trabalho e nova missão. Naquela colônia eram emitidos pensamentos de harmonia e amparo aos que assumiam novas existências e missões, visando espalhar pela Terra a nova doutrina da Luz.

Paulo de Tarso retornou ao corpo e, acordando, viu que estivera em espírito ao lado de Pedro e dos demais. Ergueu-se e se ajoelhou ao chão, dizendo:

— Senhor, sei que precisas de mim! A ti servirei de corpo e alma!

Retornou ao leito e dormiu. Foi acordado no outro dia por Ananias, a quem disse:

— Estive com os irmãos que executei. Reconciliei-me com eles e deles obtive o perdão!

— De que forma se deu isto?!

— Dormia apenas o meu corpo, e não a minha alma. Eles chegaram, dentre eles Paulo e Estêvão. Em lágrimas Estêvão me fixou e disse que muito me amava. Alguns ainda se manifestavam magoados comigo, mas de repente surgiu Pedro e disse palavras reconfortantes que muito me alegraram a alma. Pude ver e entender que, por mais maldosos possamos ser, Deus nos ama com igualdade. Pude ver Pilatos, que estava no Inferno. Fui com Pedro e os demais à busca daquele homem, que de lá foi retirado e conduzido por Pedro a uma sinagoga. Eu jamais poderia admitir que um homem que tanta gente crucificara pudesse ser perdoado por Deus, retirado do fogo eterno do Inferno! Ananias, feliz foste, porque conheceste o Mestre!

— Eu era ainda criança. Um amigo de Jesus, chamado Levi, esteve muito tempo comigo, a mando do próprio Jesus. Levi também morreu apedrejado, mas não pelo teu povo, e sim pelos saqueadores. Levi muito ensinou a mim e Estêvão. Mostrou-nos um novo caminho para uma nova vida. Agora já estou bem velho, já não tenho forças para caminhar daqui, mas já andei bastante, por vários lugares, encaminhando com as minhas próprias pernas os jovens que iam até mim para que eu os ensinasse e lhes mostrasse o caminho da salvação. Agora, meu irmão, esse caminho de salvação está em tuas mãos!

— Como acontece tudo isto?! Como é que tudo se concretiza diante dos nossos olhos?! Eu acreditava que somente os bons se salvavam, que os ruins morriam e acabavam no nada, e agora tudo vejo diferente! Como posso entender estas coisas?!

— Ninguém é mau. A maldade é má somente enquanto não conhece a bondade. No dia em que a maldade conhecer a bondade, verá que a grandeza maior está no coração que ama. Perceber-se-á então que o Inferno é muito pior do que o Céu e que então haverá de se ingressar no Céu. Mas esse Céu é conquistado somente através do amor e da caridade, porque assim mesmo nos ensinava Jesus, que ninguém deve amealhar tesouros na Terra, pois o ladrão os rouba, enquanto que permanece apenas o tesouro da bondade e do amor, o tesouro que o ladrão não rouba nem a ferrugem corrói nem a traça destrói. É este tesouro que permanece no coração, e este coração pode então alçar-se ao Céu. Assim foi e será feito, porque isto Deus quer de nós. Então vai, Paulo! Vai pregar a Boa Nova de Jesus! Segue o que pediram os nossos irmãos: procura terras estranhas, outros povos, e prega tudo o que te ensinei! Mostra aos homens a grandeza de perdoar e amar até os maiores inimigos!

Paulo derramava suas lágrimas naquela manhã. Abraçou Ananias comovidamente.

A partir daquele momento, Paulo deixaria que lhe crescessem os cabelos e a barba.

Ananias beijou o seu rosto e disse, despedindo-se:

— Vai!

— Sim! Irei até Jerusalém, pois preciso rever os meus pais. Preciso também reencontrar a minha esposa e lhe pedir perdão.

JOÃO BERBEL