6 - LXIX - A PREGAÇÃO DE PAULO

6 - LXIX - A PREGAÇÃO DE PAULO

Paulo amargava o seu próprio veneno, tomado de cruciantes problemas de consciência. Preparava-se para partir à sua jornada de redenção, pregar a nova doutrina que lhe falava à alma.

Suas vestes vistosas davam lugar àquela roupagem da simplicidade quando ele rumava para Belém. Dessa feita, tal um andarilho, seguia a rota da humildade, contatando os simples e os que eram considerados de má fama, as prostitutas e os malfeitores, a exemplo do procedimento de Jesus. E ele pregava àquela gente, chamando a todos de irmãos, de filhos de Deus.

Bem sabia Paulo das dificuldades e incompreensão que encontraria, embora soubesse também do peso de sua origem e de sua linhagem.

Chegando na casa dos seus familiares, foi questionado pelo seu pai, que, vendo-o naquela situação, indignou-se, pois o queria vestido da seda dos sacerdotes, aclamado por todos sob o poder do dinheiro. Disse-lhe Paulo:

— Não te surpreendas, meu pai, porque hoje te trago uma outra Boa Nova!

— O que fizeste para que agora te vistas assim?!

Paulo viu lá no fundo a sua esposa Abigail e disse:

— Fui perdoado por Jesus, porque ele próprio é o Cordeiro de Deus! Pedi-lhe que tivesse paciência com os meus erros e hoje venho pedir-te perdão pelas minhas falhas. Hoje já nem mais sei o quanto Jesus vive dentro de mim, mas sei que estou com ele, porque assim ele quis e assim foi. Não sei qual é o meu destino, mas, no que quer que aconteça, permita Deus que Jesus esteja comigo e jamais me abandone, porque jamais o decepcionarei! Gritarei o nome dele aos quatro ventos e pregarei a todos os povos que as profecias sobre o Messias foram cumpridas!

Seu pai redarguiu:

— Mas como pode o Messias ter vindo à Terra?! Ele haveria de vir da descendência de um rei!

— Todos os reis que se sentam no mesmo trono e falam na mesma linguagem que falas são para ti considerados tal um Messias. Se eles têm a força de erguer a espada à frente dos seus exércitos, tal como ocorreu com os antigos, também poderiam ser chamados de Messias, mas o que te posso dizer é que a grandeza maior que pude sentir no meu coração, a maior de todas as alegrias, foi ver que Jesus existe, que ele não morreu, embora nossos olhos não possam vê-lo. Mulher, a ti que serviste aos meus desejos e caprichos, que me concedeste momentos de alegria, eu apenas decepcionei! Perdão te peço e que um pouco eu seja redimido das minhas tantas falhas e pecados! Isto eu rogo a Jesus em minhas orações, pois sei que ele existe! Abigail lhe indagou:

— O que foi que aconteceu contigo, Saulo?

Paulo se ajoelhou aos pés da esposa, tomou as mãos dela e as beijou, dizendo:

— Mulher, de joelhos caio a teus pés para te contar o que me ocorreu no caminho de Damasco, após ter mandado apedrejar Elcênio em Cafarnaum. Demoramos para encontrá-lo, tendo colocado toda uma legião à busca dele. Dos seus familiares fiz reféns e ele foi até nós sem demonstrar medo algum, o que muito estranhei, porquanto achava que ele se escondera sob o temor de poder ser apedrejado. Naquele momento me lembrei do grande mal que havia provocado ao teu coração, Abigail, sacrificando o teu irmão. Mulher, perdão te peço! Mas pude olhar para os olhos de Elcênio, vê-lo fitando o alto, sem perder a fé em momento algum. Ele parecia conversar com Jesus. Suas palavras foram tal uma faca a machucar o meu coração! Na minha ignorância, ordenei a sua execução, e então apedrejaram-no, assim como haviam feito ao teu irmão. Mas hoje o meu coração está arrependido! Venho de Damasco, sabendo nem poder adentrar uma sinagoga, pois é expressamente proibido falar de Jesus. Prego, todavia, nas tavernas, nas praças, onde quer que encontre pessoas agrupadas. Ajoelho-me e peço forças para que de todo bem que eu possa fazer nesta Terra, nada seja a mim acrescentado, e que, no resto de dias que Deus me reservar, possa eu praticar apenas o bem, sem retirar moeda alguma de alguém. Preciso levar a todos os corações aquilo que Jesus exemplificou. Ouve agora! Naqueles momentos em que eu me acercava de Damasco, Jesus se apresentou à minha frente. Tão grande era a minha imperfeição que a luz dele queimou os meus olhos. Penosamente pude chegar em Damasco. Percebi então o quanto eu era ignorante, observando que os próprios guardas romanos, executores de minhas ordens de morte, eram contrários àquilo que eu fazia. E aquilo eu levava avante para servir a um falso Deus, porque eu haveria de ser melhor entre os homens para adquirir mais poder. Hoje não sou mais Saulo: Paulo é o meu novo nome. Paulo de Tarso — pois Tarso é a minha origem paterna. Minha esposa, quanta tristeza há nos meus olhos! Todavia, há muita luz que podemos espalhar, há muito bem que podemos fazer!

O pai de Paulo se lhe acercou e disse: — Meu filho, és um grande orador. Foste preparado para encantar multidões, pela facilidade da tua palavra. E agora eis que te vejo quase um mendigo. Troca as vestes!

— Não! Doravante não mais envergarei as vestes dos grandes homens. Sei que estou longe do Mestre, mas sei que não mais consigo viver sem ele. Sinto que a distância nos separa pela minha imperfeição, mas sinto também que somos ligados por um profundo amor. Sei que é através da caridade e da bondade que conseguimos agradar a Jesus.

— Que palavreado é este?! — estranhou aquele pai.

— Se eu me preparar para o mundo, sentir o mundo a meus pés; se os meus olhos contemplarem multidões encantadas pelo meu verbo e minha pregação; se eu tiver o dom da profecia ou se puder falar a língua dos anjos e conhecer todas as línguas da Terra; se tudo isto eu tiver, nada serei se não tiver caridade. Se eu não tiver o amor suficiente para realmente poder acudir o meu irmão, se me despojar de todos os bens materiais e não tiver amor no coração, nada sou e de nada me valeria tudo isto, pois serei apenas um sino que soa, anunciando o romper ou o tombar de mais um dia, chamando a comunidade a orar. Sei que a minha presença muito te decepciona, meu pai, mas te garanto que não é isto que eu desejaria proporcionarte.

Depois de muita verberação, o pai de Paulo o abraçou e disse:

— O homem nasceu para ser livre, para fazer o que almeja, e não aquilo que lhe pedem ou ordenam. Então, meu filho, que tenhas contigo a tua liberdade, para que um dia a tua alma não repouse no calabouço do Inferno. Sê livre! Não deixes que se perturbe o teu coração perante aquilo que pensamos de ti.

Por ali permaneceu Paulo.

Um dia tomou conhecimento da existência de Tomás, um cristão que em Roma exercia alto poder, tal como informava Abigail.

Em torno de Paulo se reunia aquela comunidade para que fossem entrelaçados os sentimentos em torno dos ensinos de Jesus. Paulo lhes falou da importância da transformação moral do homem, da partilha do pão, da sinceridade entre os homens.

Ali estava Jatã, um cristão bem trajado e que por várias vezes viajara a Roma. Disse ele a Paulo:

— Tenho um amigo que em Roma exerce importante trabalho. É quase um político e tem nas mãos grande poder. Carrega consigo uma grande simpatia pelo cristianismo. Ele tem um filho ao qual deu o nome do avô, Camarfeu, e que é muito dedicado aos ideais paternos.

Entusiasmado, pediu Paulo a Jatã:

— Posso acompanhar-te até lá? E o que sabes de Jesus?

— O meu ramo é o comércio. Vou muito à Pérsia, ao Egito e a tantos outros lugares.

Conheço todas as rotas. Não sou lá um grande comerciante: adquiro algo aqui e vendo logo ali na frente, somente para me alimentar e sobreviver. Como tenho raízes nestas terras de Canaã, porque aqui moram os meus pais, tive as oportunidade de caminhar e conhecer todos estes lugares.

— Porém, vejo que não tens as vestes de um comerciante. Simples são as tuas roupas. Não tens lotes de camelos, a exemplo dos demais comerciantes?

— Se eu me vestir tal um grande comerciante, serei atacado pelos salteadores.

— Conheces bem os gentios?

— Tenho andado muito e conhecido muitos povos. Se quiseres, poderás acompanhar-me. Comigo segue sempre um grupo de homens e nos comportamos sempre da mesma forma: vestimo-nos e nos mostramos na simplicidade. Não temos nada que nos impeça caminhar, não temos moradia fixa. Estou aqui agora porque tive a oportunidade de ouvir falar muito bem de Jesus. Somos simpatizantes dos ensinos dele. Se desejas ingressar na nossa caravana, nada pode impedir. Não temos chefe. Cada qual compra o que quer, faz o que quer. Porém, cada um de nós respeita o sentimento do outro. Deus nos deu o dom de vagar por este mundo e então vagamos. Se faz muito frio, procuramos um local mais quente, e se o calor é demais, procuramos locais de temperatura mais amena. Não temos lugar fixo onde pudéssemos depositar o nosso corpo, porque temos sempre à frente, alhures, o nosso serviço. Paulo indagou:

— Posso mesmo acompanhar-vos?

— Sim, já o disse. Todos nós somos simpáticos aos cristãos. Iremos até Jerusalém, pois temos umas pedras preciosas que são muito apreciadas pelo povo judeu. Eles não saberão que somos cristãos. Se quiseres, podes ir conosco.
Paulo pensou: Naturalmente me reconhecerão e não me respeitarão na qualidade de cristão. Contudo, resolveu arriscar.

E assim Paulo percorreu as regiões da Palestina, lá pregando àqueles em que percebia uma simpatia por Jesus.

Aqueles mercadores resolveram percorrer as terras de Canaã, deixando a região mais baixa, onde estava o grande templo de Jerusalém, e subindo às moradas dos sacerdotes, grandes casas com grandes tanques de banho.

Saulo observava aquele ambiente e recordava que fora também um personagem daquele palco de ostentação, porquanto muito farta era a vida da sua família.

Chegaram à Judeia, à Samaria e em outros locais. Paulo pregava o cristianismo àquela gente inculta e sem religião. Discursava sobre um Evangelho diferenciado daquele comumente pregado pelos apóstolos de Jesus.

Falava que Jesus caminhara pelo mundo sem se preocupar com as coisas materiais, que Deus criara a Terra para o homem e que o homem poderia usufruir de tudo, mas não sendo o seu dono absoluto, e sim transitório, porquanto seria devorado pela própria terra. Recomendava a partilha de tudo, das colheitas, do agasalho. Insistia em que todos se ajudassem mutuamente, e dizia:

— Jesus partilha o pão com todos. Jesus é um Rei que veio para fazer do nosso mundo um novo mundo, mostrando que somos todos iguais, que não devemos desprezar os irmãos de má fama, nem aqueles que desconheceram a grandeza do amor, pois todos são chamados de filhos de Deus.

Chegaram na Pérsia, atravessaram-na, rumando à Mongólia, àqueles povos de estranhas terras. Paulo pregava a todos a doutrina de Jesus, encantando a não poucos. E chegaram na índias e outras distantes terras, Paulo sempre falando de Jesus e convertendo muita gente ao cristianismo, mudando corações para a conduta da bondade e do amor. E por toda parte Paulo deixava discípulos.

Apenas com as vestes simples, sem bolsa nem dinheiro, Paulo seguia na sua missão. Na palavra tinha a sua força, deixando valer o amor que carregava na alma. Sempre obtinha o alimento, pela bondade dos corações.

Foram anos de pregação, enfrentando difíceis situações, povos distantes, línguas desconhecidas. Paulo denotava grande facilidade no aprendizado dos idiomas desconhecidos e sabia estabelecer uma ótima comunicação, para que os povos absorvessem o sentido das suas pregações, naquelas terras longínquas chamadas de Velho Mundo.

Retornando à Pérsia, a caravana seguiu ao Egito.

Povos e povos tomavam conhecimento, através de Paulo, da descida de um homem notável chamado Jesus, oriundo das cinzas da simplicidade. A descoberta dos ensinos cristãos acendia uma luz grandiosa no meio de tantos e tantos povos.

Paulo pregou em inúmeros vilarejos do Egito, quando então a caravana já se achava dividida, poucos homens seguindo com ele.

Jatã resolveu tomar o rumo de Roma, quando então as coisas pareciam dificultar-se, pois severas eram as leis do Império. Ali os cristãos não eram apedrejados, mas sofriam nos calabouços, onde eram jogados aos leões.

Em Roma, Paulo foi levado a Tomás, que tinha um filho chamado Camarfeu, em homenagem ao seu avô. Tomás disse a Paulo:

— Meu pai era primo de Jesus e foi muito querido por ele. Caminhou ao lado de Jesus por várias vezes. Era pouco mais velho do que Jesus e nos contou muitas coisas sobre o Mestre, no pouco tempo que pude conviver com ele. Aqui me transformei num arquiteto, ajudando a edificar esta cidade. O Imperador sabe que eu e minha família somos cristãos, que há aqui um grande grupo de cristãos, mas ele não nos persegue, pois sabe das nossas passadas e boas ligações com César, o antecessor soberano de Roma. Sim, ele não ousa nos contrariar porque, sendo muito supersticioso, acha que algo de ruim lhe pode acontecer. A saúde dele já está precária. Ele pouco sai em público. Como vês, nossa igreja está com as portas fechadas. Não podemos tanger o sino, não podemos fazer nada em aberto. Temos de agir sempre às ocultas, mas temos resistido ao tempo e a tudo. Meu filho Camarfeu viaja bastante para Israel e de lá traz as notícias. Ele nasceu aqui em Roma, onde me casei com a romana Teresa. Vim para cá quando criança e, como já disse, pouco estive com o meu pai, que ordenou que eu viesse para cá, pois parecia saber com antecedência tudo o que conosco aconteceria. A condição de bem sucedido comerciante permitiu que meu pai bem me instalasse aqui, deixando-me boa soma de dinheiro. Aqui cresci e alcancei certa posição, obtendo, junto a outros, um certo respeito do Imperador, que se preocupa unicamente com a angariação de impostos. Sei que aqui viveu um benfeitor que nos abriu caminho à garantia desta vida. Era Benedites, homem bondoso do tempo de Jesus. Disseram que foi o próprio Jesus quem ordenou que ele viesse para Roma. Benedites conseguiu fazer muitas coisas boas em benefício do seu povo judeu. Criou o censo e outras medidas favoráveis ao povo, mas hoje tudo isto já não mais existe: agora vivemos sob a tirania, sob grande perseguição. As tropas romanas já não agem mais sob a força da mútua confiança: matam por bem pouca coisa. Mas contam por aqui que Benedites era braço direito do Imperador e que através dele Roma obtivera uma grande mudança para melhor. Todos os agricultores tinham então muita alegria, deles sendo retirado apenas o justo, o necessário. Benedites, com suas sábias ações, conseguia aliviar um pouco o sofrimento dos nossos irmãos. Os próprios soldados afirmam que Benedites era um homem muito bom e respeitado por todos. Era um judeu de coração romano, e também cristão. Ele falava muito em favor desse novo Rei para uma nova Terra. Hoje as coisas estão muito complicadas para os cristãos. Tudo o que acontece aqui é levado ao conhecimento do Imperador e dos grandes sacerdotes que dominam em Israel. Os sacerdotes têm agora a facilidade de visitar o Imperador, vindo para cá com os seus familiares e daqui levando presentes a cada visita. O Imperador conversa muito com eles. A notícia que aqui nos chega é que naqueles locais em que viveu e pregou Jesus são ainda apedrejados até à morte os nossos irmãos cristãos. Lembro-me do que me dizia o meu pai sobre as mulheres adúlteras que eram apedrejadas e então vejo que nossos irmãos cristãos têm passado por este mesmo e humilhante sacrifício, como se fossem adúlteros.

Ouvindo isto, Paulo começou a chorar. Dobrou as pernas e caiu ao chão. Tomás, estranhando aquilo, indagou:

— Por que te ajoelhas aos meus pés?! Paulo se ergueu, segurando nas mãos de Tomás, e, sentando-se, disse:

— Estou muito cansado. Tenho andado muito e pouco tenho repousado. Percorri o Velho Mundo e por lá preguei. Foram anos de andanças, falando dos ensinos do Mestre. Muitas vezes eu sentia medo, via-me frágil, mas respirava fundo, recordava aquele momento em que Jesus estivera comigo e então me reerguia e me sustentava em minha fé. Acho que os meus tempos já estão contados, embora ainda tenha muito que fazer. Quão bom é ser cristão, sentir Jesus! Não sei o quanto ele está dentro de mim, mas sei que está bem próximo. Talvez que ele às vezes até se afaste de mim, porque muito errei. Estive várias vezes em Roma. Encantei-me com esta cidade, com as suas muralhas, os seus castelos. É uma bela terra em que tive a oportunidade de pregar. Recebi nas mãos um certo poder, como se fora eu próprio o Imperador, ou um governador. Eu pensava em ser grande, dominar, fazer com que o judaísmo se expandisse e Israel fosse uma grande nação, igual a Roma. Então recebi de Roma e dos sacerdotes a ordem de perseguir todos os inimigos do povo de Israel. Encontrei pela frente os seguidores fiéis de um homem chamado Jesus e passei a ser-lhes o maior persecutor. Os Céus então me castigaram por todas as formas. Melhor dizendo, os Céus não me puniram, não me castigaram. Era uma linda tarde. Eu envergava a minha vistosa roupa branca e vermelha, tendo à cabeça o chapéu mostrando o comandante que eu era. Muitos irmãos judeus se vestiam quase da mesma forma, mas não tão bem e tão graduados. Como sempre, eu estava escoltado pela guarda romana naquele dia de muita beleza. Eu fitava as minhas vestes, fitava o Sol. Comigo eu levava a ordem que numa sinagoga fora passada: executar um certo cristão que tivera a oportunidade de conhecer Jesus. Viajando muito, eu nem imaginava o que os Céus re¬servavam para mim. Ciente de ter de cumprir aquela ordem, ciente de que o povo cristão era inimigo do povo judeu, eu determinara, há pouco, a execução de um cristão. Não vi raiva ou revolta nos olhos daquele homem: vi apenas fé e coragem. Dei a ordem e apedrejaram-no, matando-o. Logo vi que uma mulher chegava ali em desespero e vi que era a minha própria esposa, a chorar sobre o corpo de seu próprio irmão Estêvão, ali executado. Naqueles momentos os Céus tiveram compaixão de mim e não me puniram, mas a minha consciência me cobrava e eu ali pensava: Se alguém tivesse matado o meu próprio irmão, qual seria a minha própria reação? E me perturbei sobre qual seria a reação de minha esposa perante mim e aquele meu ato cruel. Mas eu era um homem de palavra e haveria de fazer cumprir a lei. Fui para a minha casa e minha esposa me perdoou, o que muito me sensibilizou. A partir daquele dia não mais nos relacionávamos, porque aquela imagem de morte era forte à minha frente. Foi um momento muito triste. Mas promovi muitas outras execuções, até o momento de encontrar Elcênio, que, à semelhança de Estêvão, não manifes¬tou ódio ou mágoa. Isto muito me marcou. Mas viajei para Damasco, pensando em achar e executar o cristão Ananias. No meio do cami¬nho, eis que o meu cavalo subitamente se assustou e não pude permanecer sobre ele. Não sei se ele me jogou ao chão ou se desci rapidamente. Vi então uns olhos que aos poucos se transformaram numa grande luz, bem mais forte do que o Sol. Nada mais pude enxergar a partir daquele instante. Ouvi uma voz que dizia: Saulo, Saulo, sou o homem a quem persegues! Aquelas palavras se gravaram indelevelmente dentro de mim, jamais se apagaram. Aquilo mudou a minha vida. Deixei o meu animal, as minhas vistosas vestes, e fui levado até Ananias, guiado ocultamente pelo próprio Jesus. Com Ananias passei um certo tempo, aprendendo a realidade da vida e tudo o que se sabia de Jesus. Até hoje, anos e anos já passados, venho então pregando a Boa Nova de Jesus.

Paulo se dispôs a pregar então à frente da igreja de Roma e ali dizia:

— Jesus disse a todos que, amando-nos uns aos outros, a ele estaríamos amando, que aqueles que se reconciliam com os seus irmãos terão grandes galardões nos Céus. Lembrai-vos, irmãos, de que Jesus estará conosco hoje e sempre, até que se consumam todos os séculos e séculos!

Naqueles momentos os guardas romanos ali chegaram e então a voz de Paulo se fez ainda mais fremente:

— Dai aos pobres o que tendes, dividindo os bens em memória de Jesus, porque assim ele nos ensinou. Se hoje posso falar todos os idiomas da Terra, se exerço com facilidade o dom da profecia, se posso falar a língua dos anjos, todavia, se eu não tiver comigo a caridade, serei apenas aquele sino que tange chamando-vos a rezar; e se eu doar aos meus irmãos todo bem que tiver, e não fize-lo por amor, em nada me adiantará. Jesus quer que nos amemos verdadeiramente, da forma que ele exemplificou. Guardai em minha memória tudo o que ouvirdes, porque não falo por mim, e sim por Jesus, porque não sei o quanto estou em mim e o quanto estou nele. Guardai o que ele vos ensinou: Amai o Senhor vosso Deus com toda a força de vossa alma e do vosso coração, e amai o vosso próximo tanto quanto amais a vós próprios.

Os militares prenderam Paulo naquele momento, permanecendo ele encarcerado por trinta dias, tempo que rompeu sob contínua oração, sempre enfrentando os insultos dos guardas.

No último dia, eis que surgiu uma luz na parede da prisão e uma voz que dizia:

— Paulo de Tarso, eu sou Jesus. Não estás abandonado. Por dias e dias não tens visto a luz do Sol, mas recorda que a luz está dentro de ti. Serás castigado, mas a tua hora ainda não é chegada. Nos teus dias, talvez que não me vejam os teus olhos, mas estarei contigo!

— És Jesus?!

— Sim. Sou aquele que veio ao mundo para guiar a humanidade a novas terras. Feliz é aquele que pode ouvir-me, porque o Pai me glorificou na Terra e glorificado seja todo aquele que em meu nome profetizar, que ajudar os seus irmãos! Ainda hoje serás retirado deste cárcere. Lembra-te: o teu silêncio deve ser a tua defesa. Quando tiveres de falar, respira fundo e as palavras serão colocadas na tua boca.

— Jesus! De Mestre te chamavam os teus apóstolos, porque eles te podiam ver, enquanto que a mim isto é interdito!

— Alegra o teu coração por ouvir-me. Estarei sempre contigo. Feliz, Paulo, é aquele que pode acreditar em mim sem me ver — e muitos haverão de fazê-lo. Faze-o também tu, em minha memória, e não te abandonarei até chegar o dia em que tiveres de deixar a Terra.

Paulo muito se alegrou e confortou com as palavras de Jesus, e, conforme este afirmara, logo foi retirado dali e levado à presença do Imperador, que lhe disse:

— És Saulo, aquele que mudou o nome para Paulo de Tarso. Tenho observado o que a mim tem sido passado nesses dias em que permaneceste aprisionado.

Paulo estava completamente perdido quanto ao lugar em que estava. Mãos nos olhos, tentava acomodar a visão bem obscurecida pelo vasto tempo em que permanecera sem ver a luz do dia. E o Imperador continuou:

— Sei que foste um grande homem, sei que aqui foste por nós preparado para que restabelecesses a ordem em Israel, para que pudéssemos manter o equilíbrio e a organização. Sim, fizeste um grande trabalho, eliminando muitos inimigos de Roma. Hoje, porém, vejo que não és mais aquele homem. Eu bem que poderia divertir-me jogando-te aos leões, mas isto não me cabe, pois és um judeu. Sim, apesar de tudo, um grande trabalho realizaste e agora te apresentas à minha frente na condição de um traidor. Traíste o teu povo, traíste a mim, e o preço da traição é a morte, a exemplo do que procedemos com outros traidores que também manifestavam a mesma fé que vejo em ti e que crivamos com nossas flechas. Eu poderia assinar agora a ordem da tua execução, para que todos os romanos vissem o que é feito com aqueles que teimam em contrariar a ordem. Sei da importância dos teus amigos para Roma, por causa do trabalho dos seus ancestrais, razão por que, ao assumir o trono, prometi não tomar nenhuma medida contrária a eles, pelo valor do serviço que prestaram ao Império. Porém, quanto aos novos que surgissem, a rninha atitude seria diferente: eles divertiriam os nossos animais. E de fato, muito também me diverti com a sua execução.

Paulo permanecia em silêncio, ouvindo ainda do soberano:

— Em memória do teu povo e em minha própria memória, ordenarei a tua libertação, mas serás levado ao teu povo em Israel e lá poderás tentar convertê-lo. Irás, pois, até Herodes, que já está muito velho e praticamente morto. Não sei como pode um homem teimar em viver tanto tempo! Porém, ele é o meu fiel servidor para governar aquele povo.

O Imperador ordenou que levassem Paulo e, vendo-o conformado e silente, indagou:

— Não tens como defender-te?

— A minha defesa é a minha verdade, e a minha verdade está com Jesus — porque todo mal que a mim fizeres será bem pouco perante o que fizeram com Jesus!

Enquanto Paulo se retirava, o Imperador meneou a cabeça e foi tomado de uma crise de tosse, sendo acudido pelos seus médicos.

Paulo, sendo alimentado, permaneceu no meio dos guardas romanos, que com ele rumaram para Belém.

Os sacerdotes de Israel já sabiam o que havia acontecido com Paulo e estavam ansiosos para lançar a mão sobre ele.

Na viagem, Paulo pregava àqueles militares, convertendo-os à doutrina de Jesus com muita maestria e eloquência.

Entusiasmados, os guardas comentavam entre si:

— Como poderíamos sacrificar um homem deste?!

Chegando nas proximidades do palácio de Herodes, Paulo pediu aos guardas a permissão para proceder uma pregação pública naquela praça, antes de ser entregue àquele soberano.

Paulo sabia que teria argumentos para convencer Herodes a não executá-lo, mesmo se afirmando cristão perante ele. Assim, lá estava o notável orador à frente do palácio e de uma multidão, animado a pregar também ali, corajosamente.

Inflamado, Paulo disse que, apesar de ter enfrentado inúmeras e ingentes dificuldades, ali ainda estava, bem vivo. Afirmou que Jesus era a única luz do mundo, sem outra qualquer que tanto pudesse brilhar, porquanto mostrava a força da igualdade imperando em todos os povos. Disse que tinha ido até os gentios e que todos os povos, em todos os idiomas, já haviam ouvido falar de Jesus e seus ensinos. E assim concluía:

— A todos falei da doutrina de Jesus e agora estou aqui, nas terras palmilhadas por ele. Isto é para mim uma enorme alegria!

Logo chegou até Herodes o eco daquele murmúrio perturbador à frente do seu palácio. Logo já assinava a execução de Paulo.

Os guardas argumentaram que o haviam levado ali para ser julgado, mas foi designado o seu apedrejamento.

Cruelmente apedrejado, eis que Paulo foi dado por morto e jogado ao fundo do palácio, ali onde um grande buraco acolhia o lixo e ora acolhia o corpo de um homem para que os abutres o consumissem.

Entretanto, Paulo não morrera.

Muitos cristãos estavam por ali e foram até o corpo dele para prepará-lo ao sepultamento. Perceberam então que ele ainda vivia e, silenciados sobre isto, levaram-no disfarçadamente morto e banharam-no em azeite. Ferido como estava, foi levado a Cafarnaum.

Ali instalado, junto ao Mar da Galiléia, Paulo estava bastante deformado no rosto e no resto do corpo, tantas haviam sido as pedradas que o haviam atingido. Permaneceu na casa de Pedro, ali onde se reuniam os cristãos. Lá se recuperou vagarosamente e pregou àquele povo.

Feliz estava o coração de Paulo, pleno de amor e alegria.

Passava o tempo e os sacerdotes não se davam por derrotados. Morriam uns e outros iam assumindo o seu lugar, mas todos sempre fixados naquelas suas leis de severidade, alavancando ainda a terrível perseguição por sobre o povo cristão.

Este, acuado, devagar ia abandonando Jerusalém e procurando outros locais de menor risco. Poucas famílias cristãs ousavam permanecer em Jerusalém, na Palestina. Porém, na Galiléia, em Cafarnaum ainda restavam muitos cristãos. Tudo era diferenciado na Galiléia, a tal respeito, pois era uma das mais pobres regiões e que, por sua carência, não sofria perseguição de judeus e romanos, mormente porque não havia como extrair qualquer tributo daquela gente paupérrima. Era então fácil para o cristão viver ali. Já muitos deles viajavam para Roma e se instalavam nas vilas circunvizinhas, criando novas situações. E chegou o momento em que o grande Imperador já estava quase à morte, sem ânimo para administrar tudo aquilo.

Completamente recuperado de suas lesões, Paulo intensificou a sua pregação. Conseguiu pregar no grande templo de Jerusalém, desafiando os sacerdotes e mostrando que Jesus realmente fora o aguardado Messias.

Estando no templo a pregar, eis que Paulo foi abordado por um sacerdote a contraditá-lo, dizendo:

— O nosso Messias ainda não veio ao mundo.

Paulo afirmou bem alto para que ele e os demais ouvissem:

— Sim, já veio! Esperastes por um rei. Ora, todos os reis que tiveram na mão o poder e que ergueram a sua espada para se libertarem do povo romano seriam por vós considerados na condição de Messias. Mas não tendes lido as profecias e não tendes ouvido aquilo que foi dito por Jesus? Não tendes prestado atenção no que registraram os vossos ancestrais? Quantos não foram aqueles reis que ergueram a espada e pela espada morreram, sem que nada do que esperavam acontecesse? Se não sabeis, hoje muitos irmãos se dizem, não seguidores de Jesus, e sim do Cristo, pois o Cristo é o Filho do Altíssimo, se quereis entender este grande enigma que ainda permanece em vossa consciência, que se mostra arbitrária por sobre tais situações. Estou aqui de corpo e alma! Fui preso e apedrejado, segui maltrapilho por todo este mundo, mas nenhum de vós consegue retirar de mim a fé! Hoje sabemos que o Imperador já está partindo deste mundo. Um novo César subirá ao trono e talvez que ele seja diferenciado em suas atitudes quanto aos cristãos, porque Jesus afirmou que não estaríamos abandonados. Se quereis perseguir os cristãos, que o façais, mas não sereis castigados nem por mim nem por aqueles a quem apedrejastes, e sim pelo vosso próprio Deus — porque o vosso é o mesmo Deus de Jesus. Ele é eterno, porque é soberano e justo, porque é o único. É o Deus de Abraão, de Isaque e Jacó, e isto jamais Jesus negou perante vós. O homem vai, mas ficam os seus ensinos, assim como também eu irei, porque já estou envelhecido e muito fui castigado. Minhas pernas já pouco me obedecem. Em toda a minha vida desejei um dia adentrar este templo, mas vi fracassada a minha missão quando me enxerguei encerrado naquele calabouço por trinta dias, sem ver a luz do Sol, quase me cegando novamente. Preso, fui entregue a Herodes e preguei, à frente dos portões do seu palácio, a libertação do homem através do amor, da mesma forma que fora exemplificada por Jesus, que bem nos deixou o maior mandamento: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. E hoje, aqui dentro, faço a minha pregação, pois sei que a minha missão já chega ao fim. Trago no coração uma profunda dor, porque sei da crueldade que cometi e não há como apagar, pois foram muitos aqueles que, em minha fé enceguecida por falsos ensinos, sacrifiquei, o que fez de mim um monstro. Sei que serei castigado por Deus e também pelo Cristo de Deus, porque pude vê-lo e a luz dele me cegou. Sendo cu¬rado por um dos seus discípulos, pude então renascer interiormente e sair a pregar aos gen¬tios, levando-lhes um novo ensinamento, não de um Messias, e sim de um Cristo, de um Cordeiro Divino que desceu dos Céus para guiar a humanidade em rumo da justiça exercida através do amor, da liberdade, da esperança e da paz fincada na fé dos corações. Esta é a nova ordem, esta é a nova lei! Por que tanta dificuldade em abrirdes o vosso coração e aceitardes Jesus?! Por que aguardais ainda por um Messias?! Este nome cabe bem a um rei forte, soberano e de justiça, tal como foram os vossos ancestrais que até aqui vos guiaram, mas percebi que não é um tal Messias que viria até vós, e que ele não virá, porque já veio, mas não sob o nome de Messias, e sim de Cristo, o Cordeiro do Altíssimo que derramou o seu sangue na Terra para libertar os homens, para abrir um novo caminho à humanidade, para que aqui se instale um mundo justo de perfeição, para que jamais o julgamento dos homens se levante tão forte a ponto de crucificá-los ou apedrejá-los, porquanto homem algum da Terra tem do Altíssimo a ordem para executá-los, pois aquele que julga o réu na Terra será julgado pelo ju¬ízo dos Céus. Este não ingressará no Paraíso! E que então sigamos a justiça de Deus e seja¬mos tão perfeitos não matando a ninguém, o que também está em vossas leis. Quando se lê nas Escrituras o não matarás, eis que ai se incluem todos os seres vivos da Terra, porque aquele que usa a mão para matar, assim mesmo será morto, tal como disse Jesus: Todo aquele que pela espada promove a sua vingança perecerá por força da sua mesma espada, e aquele que se faz juiz e condena à morte será réu no juízo de Deus. Ainda não absorvestes estas coisas? Não vos sensibilizais quanto a isto, porque fechais os olhos à luz que está sobre vós! Hoje não sou mais o alqueire que tapa a luz: sou o candeeiro, e que através de mim esta luz possa espalhar-se por toda a humanidade, e que aqueles que ouvem possam entender a grandeza do amor vivida e ensinada por Jesus, recomendando que nos amássemos uns aos outros tanto quanto ele nos amou. E assim esse Cordeiro de Deus se apresentou perante vós e vos tornastes dele o juiz e o julgastes e condenastes. Porém, nenhuma palavra de ódio ele lançou sobre vós e ainda pediu ao Eterno, ao Deus Único, que Ele vos perdoasse, porquanto não sabíeis o que fazíeis. Ora, bem vistes essa nova justiça. Quanto tempo ainda durará o Imperador? Qual será a maldição a recair sobre vós? Ouvistes o que foi dito pelo próprio Pilatos, quando se esquivava afirmando não caber-lhe matar um inocente, que derramar sangue inocente estaria por vossa conta e que tal maldição recairia sobre vós e os vossos filhos. Hoje são outros os tempos e novas leis se impuseram. Ordenai então o meu apedrejamento, que me matem, e então isto será um grande favor que me prestareis, porque tudo o que eu vier a sofrer neste mundo será um nada perante o que foi feito com Jesus!

Paulo de Tarso saiu do grande templo da mesma forma que entrara, sem que mão alguma tivesse ousado impedi-lo de falar e sair.

Os sacerdotes começaram a se reunir, rever as suas leis de severidade para com os cristãos. A partir de então resolveram sustar as ordens de apedrejamento, apenas conservando a proibição da entrada dos cristãos no grande templo e nas sinagogas, para que não se misturassem ao povo judeu.

Contudo, persistiam alguns sacrifícios esporádicos por parte de certos fanáticos persecutores de cristãos.

Paulo de Tarso chegou em sua casa. Sua mãe já morrera e seu pai estava muito velho. Abigail também estava bem idosa e Paulo a tomou pela mão, em certo momento, com ela rumando para Belém. Lá foram ter ao local de nascimento de Jesus.

Naquele ambiente de tantas evocações religiosas, Paulo orou. Sua voz já era fraca.

Seguido por muitos e guiado por Abigail, Paulo foi levado ao Mar da Galiléia, onde enfim tombou inerte o seu corpo, em meio a muitos cristãos.

JOÃO BERBEL