NA SEARA DO MESTRE

Constitui funesto erro o supor-nos senhores e detentores da obra ingente e sobre-humana da regeneração social, ou seja, da REDENÇÃO das almas aqui encarnadas. Essa obra não é nossa. Não temos a envergadura e os requisitos para o desempenho de semelhante missão.
Por misericórdia nos foi outorgada a oportunidade de desempenharmos certas tarefas de pouca monta dentro da imensidade daquele labor, de acordo com as nossas restritas e acanhadas possibilidades.

Dizemos por misericórdia, porque se trata de facultar aos devedores os meios de ressarcirem seus débitos atrasados. A parte que, toca a cada um de nós, pode ser comparada às sombras de um grande quadro. Tomar, portanto, esta parte ínfima como sendo o quadro completo, é simplesmente irrisório. Demais, essa pretensão pode inutilizar-nos, tornando-nos incapazes de fazer o mínimo, de que fomos incumbidos. Seremos, nessa hipótese, substituídos, talvez com vantagem para a consecução da obra, e grande desproveito para nós.

Não devemos supor que temos sobre nossos ombros o peso de responsabilidades que vão muito além das nossas forças. Deus não se equívoca nos programas que traça. Não nos exaltemos para que não sejamos humilhados. Consideremo-nos como obreiros de baixa classe, que realmente somos, cumprindo-nos sempre agir na esfera que nos foi determinada pelos legítimos executadores da majestosa edificação.

Não nos julguemos indispensáveis, nem mesmo necessários, por isso que das próprias pedras Deus pode suscitar filhos de Abraão. Outrossim, não computemos o tempo em nosso abono, porque há últimos que serão primeiros e primeiros que se tornarão derradeiros. Tão-pouco consideremos o vulto do que temos feito, porquanto o valor das nossas obras não se aquilatará pela quantidade, mas pela qualidade. Lembremo-nos da lição que nos oferece a parábola dos trabalhadores das diversas horas do dia.

A balança da Divina Justiça não acusa o peso material das nossas realizações, porém registra, com a máxima exação, a essência dos nossos feitos, isto é, os fatores ou motivos que os determinaram. A originalidade daquela balança está em desprezar o que se vê, para considerar o que não se vê. Se assim não fora, só os argentários lograriam realizar obras meritórias .

Identifiquemo-nos, cada um de nós, com a parcela mínima do trabalho que nos foi determinado. Se devemos carregar a caçamba de reboco, não queiramos levantar colunas e erguer capitéis e pilastras. Melhor faz, e mais mérito tem, o servente humilde que não se descuida de seu mister, do que o oficial cuja imperícia e leviandade se tornam motivo de escândalo para todos. Transportemos a nossa pedra com boa vontade, sem presunção, pois o Supremo Arquiteto tomará na devida conta a nossa perseverança.

Há obreiros humildes que passaram despercebidos aos olhos dos homens, e hoje desfrutam, no Além, posição de destaque, "pois aqueles que me foram fiéis no pouco, o muito lhes será confiado", conforme ensina a parábola dos talentos. Outros há, cujos feitos o mundo encarece, completamente desconhecidos nos tabernáculos eternos. Os olhos de Deus não vêem como os humanos. A sua potência visual penetra o âmago e os recônditos mais ocultos, enquanto a dos homens só descortina as exterioridades sempre ilusórias e enganadoras.

Muito recebe o que nada espera. Portanto, tomemos na merecida conta a seguinte advertência do Mestre: — Depois de terdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, pois só fizemos o que devíamos fazer. "Ninguém pense de si mesmo mais do que convém." Vigiemos e oremos, para que não se enfunem as velas da vaidade, arrastando o nosso barco para o sorvedouro. Não nos iludamos com as aparências. Toda obra que se cristaliza no personalismo, já está condenada, porque importa no cabouqueiro arvorado em arquiteto.

Afastemos, pois, da nossa mente, a falsa e perigosa idéia de sermos dirigentes, quando realmente devemos ser dirigidos. O Espiritismo é doutrina dos Espíritos. Foi revelada por eles e compilada por Kardec. Seu objetivo é espiritualizar as almas reclusas no calabouço da carne, a fim de libertá-las. Seu reino, o de Jesus, cuja moral veio restaurar em sua primitiva pureza, não é deste mundo. Será, pois, de cima que virá sempre a ordem de comando. Sejamos servos diligentes e despretensiosos. Resignemo-nos a obedecer se quisermos, de fato, realizar, nesta existência, obra meritória. Tudo o mais são vaidades que se constituirão em fonte de decepções e de amarguras.

Vinícius

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