DUALIDADE DE ALMAS

A Unanimidade de Kamakura

Eões se passaram desde que o eterno Espírito Criador criou da plenitude da sua luz e do seu amor o céu e os mundos, a fim de viver por si mesmo a diversidade na Unidade. Sua consciência, potencial da força criadora inesgotável não-manifestada, criou inúmeras novas consciências, as quais, por sua vez, se revestiram de forma e qualidade no mundo visível e material. Ininterruptamente, o Verbo Divino se manifestou a partir da sua ancestral fonte espiritual para, incessantemente, criar mais vida e unir-se às forças com a mesma vibração. Incontáveis povos passaram pela Terra, condicionada pelo tempo, durante uma época da evolução. Culturas surgiam e se extinguiam como a espuma das ondas do mar nas praias do Universo. Na Terra, a maioria dos homens havia perdido o conhecimento interior de sua origem divina, enredando-se nas malhas da ilusão e do medo.

A lei de causa e efeito, que gira ininterruptamente a roda das reencarnações, acorrentava a maioria das almas andarilhas às suas ações e aos sofrimentos do mundo. Contudo, o anseio interior por luz e amor, inerente a todas as criaturas, mantinha-se vivo. Apenas algumas almas purificadas, que passaram por duras provações em roupagens terrestres, conseguiriam despertar novamente a luz divina em si e tornar-se mestres do amor. Alguns desses mestres ascensionados de corpo sutil, dedicaram-se especialmente ao surgimento da luz no planeta Terra. Em templos etéricos eles cuidavam do equilíbrio das forças, compensando as vibrações humanas desarmoniosas. Eles são, na verdade, os verdadeiros e desconhecidos pastores de almas do mundo. Vamos dar-lhes a palavra!

Eu sou Kamakura, mestre ascensionado de corpo sutil, Senhor da Luz dos Templos etéricos da Renovação e da Sabedoria! Meu raio de luz se estende à Terra, onde acompanho o meu protegido AlectAlectus. AlectAlectus é uma alma gêmea e um mestre em ascensão do século XX. Do ponto de vista espiritual, almas gêmeas são a metade de almas de constituição masculina e feminina, que se fundem num todo divino. Neste livro, descreverei a história da alma gêmea AlectAlectus durante suas duas últimas encarnações e o espaço de tempo intermediário de evolução no mundo espiritual. Que o leitor acompanhe a minha narração como se fosse uma lenda, da qual só eu, Kamakura, possuo a chave.

Há muito tempo, com a Queda dos Deuses, muitas almas criadas pela mão do Criador se partiram em duas. Dessa forma, foram criadas as dimensões de polaridade nas quais a vontade humana se distanciou cada vez mais do divino. Desde então, as almas assim bipartidas viajam por todos os céus e mundos à procura da metade perdida. AlectAlectus, ou as duas metades de uma alma - Alectus, o aspecto masculino e Alecta, o feminino -em muitas vidas sutis e terrenas trabalharam pela sua nova aproximação. Na vida atual e na última encarnação na Terra, eles colocaram sua alma gêmea perfeita a serviço do seu Eu Superior, para concretizar sua unidade também no plano terreno.

Na minha narrativa, o seu Eu Superior ou alma superior consciente se chama Pace, o Senhor da Unidade. Pace gosta de enfatizar seus enunciados com a palavra Sanctus. A vibração dessa palavra - Sanctus - desperta nas almas um sentimento, que se assemelha ao eterno pressentimento de beleza e alegria, enfim, ao Numinoso. Pace vigia o caminho terrestre de seu duplo, em suas presentes encarnações humanas de Felicia e Ciria. Quando as metades de almas como as de Felicia e Ciria já constituem uma unidade espiritual, a lei da natureza da união do homem e da mulher perde completamente seu significado. Quando Felicia e Ciria tiverem passado por sua última prova na Terra, livres de todos os conceitos e desejos humanos, fundindo-se, em todos os planos, numa unidade, seu dual será um mestre ascensionado de corpo sutil. O pórtico no Nagual, o Ser Ancestral eterno do Criador, estará para sempre aberto para ele. No Nagual, origem e objetivo são a mesma coisa e a diversidade torna-se novamente simplicidade. AlectAlectus é um precursor do terceiro milênio, quando muitas almas gêmeas povoarão a Terra de modo semelhante, para, finalmente, ascender à luz como uma unidade pelo amor incondicional.

Nesse meio-tempo, as forças criadoras manifestadas na polaridade darão origem a um potencial de energia que os mestres ascensionados chamam de Alma do Mundo. Ela é a soma de todas as energias cósmicas na polaridade. Seu pólo positivo atrai energias carregadas de luz, enquanto o negativo se alimenta da escuridão. Assim sendo, o espírito inquiridor do homem atua imprescindivelmente em conjunto com o cosmo, colhendo alegria ou sofrimento, de acordo com o pólo prevalecente. Da mesma forma, os pensamentos e os sentimentos humanos de sua alma geram um grande reservatório de experiências reais de várias espécies, cujo reflexo se faz sentir em sua índole. Eu o chamo de perispírito.

Muitas vezes, vou me referir ao corpo astral nas minhas narrativas. O corpo astral é um corpo de substância sutil e tem íntima relação com o homem e o seu físico. Ele é o suporte do perispírito e a garantia de continuidade da vida após a morte na Terra. Durante o sono profundo de uma pessoa, ele se desprende do corpo físico para buscar orientação espiritual nas esferas cósmicas. Através do cordão de matéria sutil, também chamado cordão de prata, ele fica em contato com o corpo físico e assegura assim a sua vida. A pessoa morre no momento em que a alma rompe o cordão de prata, a fim de continuar sua evolução em mundos invisíveis. Encerrando, eu gostaria, ainda, de falar sobre a consciência.

Ela é a eterna, intocável, fonte criadora não-manifestada, através da qual a consciência se expressa como forças multiformes que materializam as formas de vida.

Antes que eu, Kamakura, comece a história, coloco um manto transparente violeta, bordado com rosas douradas, em volta das almas que me ouvem. As forças cósmicas da renovação fluirão ininterruptamente para elas e entrelaçarão, de imediato, seus perispíritos com o Meu Espírito.

Que comece então a viagem da alma AlectAlectus.

1 - SeraphAymah

Há muitos anos, antes do alvorecer das eras, vivia na Rússia uma entidade masculina de elevada linhagem, de nome Seraphis. Diversas culturas floresciam na Terra que, recentemente criada, repousava virginal a seus pés. Sempre que a sabedoria do seu espírito supremo se unia aos quatro elementos, Fogo, Ar, Água e Terra, o seu povo, onde quer que fosse, era abençoado com uma terra fértil. Ao contrário da maioria dos homens, Seraphis não havia perdido o contato com seu verdadeiro lar, além das fronteiras deste mundo. Ele podia transportar seu espírito às dimensões superiores com a velocidade do pensamento, de onde idealizava as formas-pensamento que deveriam se materializar durante sua existência terrena. Quando ele se abria às forças dos elementos, tinha a capacidade de modificar, à sua vontade, a constituição da Terra; da palma da sua mão desabrochavam flores, e ervas daninhas se transformavam em palha. Ele devia esse dom especial ao conhecimento e ao poder do pensamento. Assim sendo, mantinha-se constantemente em contato com os seres celestiais e seres elementais terrestres, os quais o serviam alegremente submissos. Até a linguagem dos animais lhe era conhecida.

O rosto de Seraphis era fulgurante como uma estrela que, aliado à sua inteligência privilegiada e ao respeito por todas as formas de vida, concedia-lhe o poder de atuar tão criativamente. Os homens o amavam e consideravam-no acima de qualquer outro. Certa vez, Seraphis decidiu promover uma festa especial. A cultura havia desabrochado plenamente e ele desejava compartilhar sua gratidão com seus companheiros espirituais e humanos. Para esse magnífico festival de flores, ele convidou todas as famílias leais, dedicando sua atenção a cada convidado. Subitamente, ele sentiu uma luz cálida invadir-lhe coração onisciente, quando seu olhar caiu sobre uma jovem que ainda era quase uma menina. Pensativo, acercou-se dela estendendo-lhe a mão e olhando-a profundamente nos olhos. Nesse instante, ele soube com toda certeza que, à sua frente, pulsando num corpo humano, estava a alma que completava a sua. Ambos sentiram a magia desse momento e abaixaram os olhos. Seraphis perguntou pela família e pelo nome da jovem: ela respondeu que se chamava Aymah. Quando os que estavam em volta se viraram na direção deles, delicadamente ele pousou sua mão no ombro da moça e quis saber se algum dia ela poderia visitá-lo. O rosto branco e lindo dela corou e, discretamente num sussurro audível apenas para ele, ela respondeu que sim.

A partir desse momento, sempre que seu tempo permitia, Seraphis mandava buscar Aymah para fitar seus magníficos olhos e segurar suas delicadas mãos. E quanto mais seu olhar mergulhava naqueles olhos escuros, mais o Príncipe, apenas alguns anos mais velho que a jovem, sentia-se preso a lembranças remotas. Ele tinha a impressão de estar contemplando o oceano de eras passadas, de estar sendo examinado por um fluxo dourado que invadia sua alma com o olhar de Alectus, a sua alma gêmea. O verbo eterno começava a vibrar em sua alma. Ele ouvia encantado, e tinha a impressão de sentir-se como outrora, em remotas eras, quando era o elemento feminino dando à luz a Criação. E nessa sua contemplação, ouviu um som vindo das profundezas de incontáveis eões como ondas, dizendo seu verdadeiro nome espiritual: "Alecta." Ainda que Aymah não desconfiasse que fosse sua alma gêmea, ela sentiu desde o começo um profundo amor e uma imensa confiança pelo igualmente jovem príncipe, valorizava seus encontros carinhosos acima de tudo. Como em parte alguma do mundo ela sentisse tanta segurança como ao lado de Seraphis, as horas passadas em sua companhia tinham para ela o valor de um manto fulgurante de proteção celestial que lhe proporcionava um consolo infinito. Freqüentemente, gozando da mais plena felicidade, os dois amantes caminhavam pelos jardins paradisíacos do país abençoado. E, em todos os lugares onde eram vistos juntos, levantava-se um murmúrio na multidão ao verem um casal tão misterioso.

Mas a vida terrestre e a política quiseram que Seraphis já fosse casado com uma mulher de nome Tatjana, que era igualmente bela, mas de natureza fútil e ciumenta. Ao tomar conhecimento dos encontros de Seraphis e percebendo que seu esposo amava a jovem de todo coração, o temperamento dela inflamou-se de ira. Tomada de despeito, instigou a corte tecendo secretamente planos pérfidos contra a família de Aymah. Os pais dela eram ricos e de boa estirpe, mas não pertenciam à nobreza. Em pouco tempo, as intrigas já surtiam efeito. Velhos amigos repudiavam a família, credores negavam-se a dar-lhes novos prazos e muitos empregados, depois de receberem dinheiro de Tatjana, abandonaram a família. Assim, em pouco tempo, toda a família caiu em extrema pobreza e em profundo desespero. Aymah enfraqueceu a olhos vistos e, um dia, em virtude do grande e insuportável sofrimento por que passava, adoeceu gravemente. Ela se julgava responsável pelo súbito infortúnio que se abatera tão inesperadamente sobre seus parentes.

Justamente nesta época, uma viagem prolongada reteve o príncipe longe de sua amada. Ao voltar, ficou sabendo do ocorrido e, apressadamente, foi ao encontro dela, pois receava o pior. Quando Seraphis viu Aymah, pálida como a neve, as feições ema-ciadas e o corpo castigado pelas dores, ele, em desespero, tombou ao lado de sua cama. Mergulhou o rosto nas pequenas mãos dela e chorou amargamente durante longo tempo. Pesaroso, finalmente conseguiu dizer: "Oh, meu amado sol, como pude dei-xá-la sozinha por tanto tempo? Por que não tive nenhum aviso interior da traição e por que não a desmascarei em tempo? Podereis vós, oh, o que estou dizendo, poderás tu, meu eterno Tu, per-doar-me algum dia?" Então a moribunda abriu os olhos e colocou as mãos brancas como cera nas dele, sussurrando: "Meu amado príncipe, firmamento e raio de luz de minha alma, siga-me na jornada para nossa pátria espiritual! Eu o reconheço: você é Alecta, meu segundo Eu. Sem você eu não quero mais viver!" Seraphis sentiu-se como que abatido por um raio. Aymah havia pronunciado seu nome espiritual com essas últimas palavras. Sua dor diante dessa perda brutal cresceu imensuravelmente e ele chorou por longos dias.

A partir de então, as duas almas viveram separadas em mundos diferentes. Seraphis, porém, tinha que completar seu plano terreno, embora não conhecesse mais a felicidade. O aguilhão da amarga decepção ficou profundamente arraigado em seu íntimo. Por que os seres espirituais, os anjos do céu não o haviam alertado e por que ele não havia desconfiado dos planos de sua mulher? Ele jamais poderia aproximar-se novamente de Tatjana. Dedicou-se exclusivamente à consecução do trabalho ainda por fazer na Terra. Também Aymah, cuja alma permanecia no mundo espiritual do seu amado, sofria horrivelmente. A escuridão caía sobre os claros horizontes do seu espírito. Ela sentia-se amedrontada pela separação e pela traição que sofrerá ainda tão jovem. Era como se toda a Rússia continuasse a chorar no céu, sempre e sempre. Finalmente, chegou a hora noturna em que Seraphis constatou alegremente que a meta de sua vida fora alcançada, e que ele poderia deixar a Terra para voltar a Alectus. Seraphis caiu em um maravilhoso êxtase e se ouviu dizendo a si mesmo:

"Você já viu alguma vez o cisne branco, grande como uma montanha nevada, atravessando o mar de lágrimas da humanidade, essa sublime beleza de perfeita paz? Toda lágrima se apressa a tocá-lo e se condensa na sua plumagem. E ele volta e torna a voltar, e carregando sempre outra vez as lágrimas para um lugar de florescem cálidas alegrias. Desajeitadamente, o grande nadador vai para a terra firme e descarrega-as agitando sua plumagem. Quem poderá vê-lo, eterno benfeitor dos tristes? Aquele que a avistar sabe algo sobre a bênção da eternidade. Alegro-me em é-lo. magnífico amante do gênero humano; deixe-me colocar a pérola branca no seu bico vermelho para expressar meu agradecimento; ela há de acompanhá-lo e espelhar os céus durante o seu suave deslizar na água e o seu pesado andar na Terra." Quando Seraphis despertou, ainda era noite. Seu espírito contemplou o imenso mar de lágrimas da humanidade, intuindo que doravante esse mar ficaria ainda maior. O maravilhoso país rasso descoloriu e uma neblina cinzenta ofuscou as cores brilhantes da Mãe-Terra. As futuras gerações seriam surdas e mudas ao apelo dos espíritos elementais, explorando a Terra sem piedade, sem ao menos lhe agradecer pelas suas amorosas dádivas. E, finalmente, eles sufocariam no seu próprio egoísmo. Vislumbrando todas estas coisas, o Príncipe, envelhecido, chorou amargamente, como outrora, diante do leito de morte de Aymah, até que seus olhos ficaram inertes e uma luz radiante os iluminou. Era a luz que emanava da pátria eterna, consolando-o e envolvendo-o docemente como se fosse uma túnica confeccionada com os mais seletos brilhantes que, a seu pedido, espalhou-se sobre todo o reino da Terra. Ele compreendia que essa túnica fora tecida pela realização de suas ações na Terra e que o guiaria até o seu lar. Assim confortado, Seraphis desprendeu-se de sua vida terrena. Envolvido na tênue substância do corpo astral, sua alma, Alecta, continuava a pulsar e, ainda sob a impressão das vibrações terrenas, durante o caminho para o mundo espiritual, subitamente ouviu a voz de Pace. Este disse:

Amado Alecta, ouça-me! Vou dissolver a polaridade entre a parte da sua alma e aquela de Alectus e, assim, tornar perfeita sua alma gêmea. Como AlectAlectus ela deverá, mais uma vez, trilhar o caminho da Terra para, finalmente, desembocar como força una no Meu Ser e despertar na consciência de sua própria divindade. Iniciarei sua alma gêmea nos meus templos da espiritualidade, impregnando-a irrevogavelmente com o conhecimento do Nagual, eis que somente nisto se resume tudo o que tem sido criado. No Nagual, sua alma se encontrará com um novo arquétipo da criação. Somente nele repousa a energia que haure o eterno potencial da fonte primitiva, sustentada pela inteligência planejadora do Grande Um. Alecta, ao pensar no caminho que AlectAlectus terá de percorrer pela galáxia de cerca de quatro bilhões de estrelas e outros corpos celestiais, você não acha que os acontecimentos futuros serão repletos de milagres? Nesta galáxia, a alma de Alectus e a sua serão necessárias para fixar no centro da Terra um novo raio de energia. As duas células espirituais, AlectAlectus, se fundirão numa só unidade terrena para que se faça uma nova vida.

Eu, Pace, trabalharei com a absoluta concentração do espírito criador e darei a você, Alecta, e à sua alma gêmea, Alectus, um invólucro humano. Como unidade, você se tornará, algum dia, o condutor de energia através do qual as forças espirituais irradiarão raios de luz para o mundo. Você, como futura alma gêmea na Terra, permitirá que o meu espírito imprima um renovado alento de amor na alma do mundo. Em sua última e decisiva vida terrena, você abdicará totalmente do inferno das ilusões históricas. Sua unidade reconhecerá o meu paraíso, que é o seu lar eterno. Você será criado pela emanação do meu amor para realizar a sua missão na Terra e, algum dia, despertará como duas pessoas para uma nova percepção e uma nova compreensão da xinidade. Você, como alma gêmea terrestre, espelhará o amor universal da união no planeta.

Sanctus.

2 - Muito Acima dos Planetas

E»ssas palavras de Pace, reveladoras dos acontecimentos vindouros, ficaram gravadas no perispírito de Seraphis, ainda preso a Terra, para que ele pudesse absorver essas energias consoladoras. Mas então, a alma de Seraphis distanciou-se da Terra, voando rapidamente através do portal da unidade dourada. Esse portal branco abre-se para todos os seres que tenham alcançado a plenitude terrena. São almas que, durante longo tempo promoveram a paz na Terra, doando-se para os homens e que viveram animados pela vontade do seu Eu Superior. Quando a freqüência de um desses seres espirituais coincide com a leve substância de que é feito o portal, ele se escancara, levando a alma para o fluxo da unidade universal, para se fundir com ele. Subitamente, Seraphis sentiu a cálida sensação de uma voz bem conhecida que, alegremente chamava: Alecta! Alecta! E então aconteceu na atmosfera rarefeita aquilo que não pôde acontecer na Terra: as almas contidas nos corpos astrais de ambos se abraçaram e Seraphis, aliás, Alecta, reconheceu sua amada Aymah nesse divino amplexo, cujo espírito flutuara em sua direção como Alectus. E, enquanto ambos, mudos de emoção, ficaram entrelaçados, ressoou simultaneamente sete vezes a voz de Pace, o Senhor da unidade:

EU SOU PACE em ALECTALECTUS,

EU SOU amor, poder e sabedoria,

EU SOU o Graal que tudo abrange,

EU SOU o conteúdo que flui,

EU SOU o Alfa e o Ômega,

EU SOU a síntese de todo ser, AlectAlectus, bem-vindos ao lar,

No Ser Universal!

Quando a voz de Pace se perdeu no éter, uma coluna brilhante formou-se dentro de um círculo de prata. Dela faiscou uma luz branca candente. A infinita força do Espírito Criador iluminou o céu e todos os planetas. De repente, um resplandecente anjo branco materializou-se em frente a AlectAlectus. Ele pegou a Terra, qual uma bolinha de gude azul, em suas mãos translúcidas, acariciando-a e beijando-a. Em seguida, elevou a voz e disse:

Alma gêmea AlectAlectus, espírito do espírito de Pace, eu saúdo você! Eu sou o anjo consolador e o sinal de que Pace ajudará o mundo e seus habitantes, quando chegar a hora. A alma gêmea deverá habitar em duas pessoas e percorrer o vale das dores, para revelar aos moradores da Terra, que servem à lei do amor e querem renegar o egoísmo, o poder da luz do futuro. AlectAlectus, você manifestará na Terra o espírito do Senhor da Unidade, intocado pelas trevas do mundo! Meu amor é uma força imensa em seus novos raios, que você, como alma gêmea, levará para a Terra!

Nesta hora, um êxtase celestial tomou conta de Alecta, e ela cantou:

Anjo, anjo Alectus meu, Verbo Eterno do Ser,

Audível somente aos sábios e anciãos,

Tecido em milhares e milhares de formas Brilhantes fios de vida que deslizam Através de incontáveis distâncias cósmicas.

Suas mãos puras e brancas

Pintam o mundo e os muros do Mestre.

Elas tecem a trama dos espíritos da vida Em esplendor colorido para seu Mestre e Senhor. Rosas e margaridas florescem Ao tocar o mundo com seus pés.

Meu anjo Alectus,

De alma pura do princípio ao fim

Somente os olhos espirituais a vêem,

Misericordiosa como a pomba da paz,

Junto ao seu exército celestial Ajuda a tecer o tapete dos seus seres Exala os raios de sol do Criador Para o interior dos mundos criados:

Temos um coração, que brilha azul Doando néctar e orvalho celeste,

Acalentando o mundo nos braços da Virgem Mãe, Sustentando o calor interno das criaturas.

Anjo, anjo Alectus meu,

Sejamos uma única alma!

3 — A Unidade Espiritual

Depois que Alecta se uniu a Alectus na pátria imorredoura, as almas gêmeas viviam celestialmente na harmonia atemporal, muito acima dos planetas, nas esferas dos Serafins. Mas, como na Terra, o desenvolvimento dos mundos espirituais requer a expansão da vida, pois todos os lampejos de consciência criadora são direcionados nesse sentido. Essa ordem também valia para a alma gêmea AlectAlectus. Freqüentemente, ela passava em retrospectiva os acontecimentos de sua vida passada na Terra, a fim de aprender com as dores e as alegrias, pois a lembrança das dores assim passadas e a longa separação ainda lançavam sombras em vários aspectos do seu perispírito. Isso fez AlectAlectus recuar diante de um novo contato com o mundo da matéria. Enquanto isso, a Terra havia dado incontáveis voltas ao redor do Sol. A vida dos homens seguia seu rumo normal de nascimento e morte, paz e guerra, chegada e despedida, alegria e luto. Mas, como Alecta já havia previsto quando era o príncipe Seraphis, os homens destruiríam cada vez mais a Natureza com seu egoísmo e, assim, também a si mesmos. Apenas uns poucos ainda eram capazes de servir à vida felizes e satisfeitos, e continuar a se desenvolver.

Pace, o Senhor da Unidade, conhecia a situação da Terra. Num dia celestial, ele enviou o anjo branco consolador a AlectAlectus, o mesmo que havia beijado ternamente o globo terrestre em forma de uma bolinha de gude, e que os alertara sobre as intenções de Pace. Ele deveria transmitir para a alma gêmea a mensagem de que a hora da próxima missão na Terra já havia chegado. O espírito da Unidade Eterna queria manifestar-se novamente nos campos terrestres como a unidade AlectAlectus, para o bem da humanidade. Ele tinha a missão de enviar um novo raio da luz universal à Terra. Pace conhecia a resistência dos seus protegidos. Por esse motivo, preparou cuidadosamente as partes mímicas de Alecta e Alectus para a viagem à Terra. Valendo-se se visões, ele os conscientizou da importância dessa missão. Ele lhes mostrou o sofrimento da humanidade e seus anseios por amor e paz, consolo e unidade.

Durante uma dessas instruções, foi mostrado a Alectus como ele, junto com Alecta e Pace, formavam um triângulo, que se alongava para o alto como uma ofuscante pirâmide branca. Um raio de luz azul-real desprendia-se de seu ápice, mergulhando todo o cosmo numa suave luz rosada, na qual os tênues corpos duais flutuavam quais brancos delfins cruzando os oceanos do universo, amoldando-se às suas formas, cores e sons. Alecta e Alectus caíram num crescente e profundo êxtase, pois jamais haviam sentido, como nesse momento, a fusão de suas metades espirituais com tanta intensidade e o amor à vida com tanta força. Então Pace lhes mostrou uma cena na qual a Terra aparecia como uma única e imensa lágrima; como um planeta cinza, inamistoso e frio. Milhões de pessoas passavam fome, fugiam, morriam de frio ou de sede, caindo como moscas.

A luz de Pace atingiu inesperadamente o globo terrestre envolto em trevas. Dele emergiu a alma dual de AlectAlectus, pura e intocável. Na cena seguinte, aparecia seu futuro nascimento na Terra, que provocaria uma tremenda comoção no campo espiritual. Parecia que milhões de átomos se partiam, sobrevoando o mundo em miríades de centelhas de amor. Cada uma delas sofria nova divisão dos átomos, espalhando-sej em segundos, como um único mar de luzes de amor do espírito criador da Terra, que vibrou com a manifestação da união AlectAlectus. Pace e seus anjos orientavam consecutivamente as almas duais em experiências como esta e, outras mais, o que, medido pelo tempo da Terra, corresponde a milhares de anos. Finalmente, Alecta estava pronta para a sua nova prova na Terra. Antes de iniciar viagem, Pace guiou AlectAlectus pela atmosfera etérica do templo da Sabedoria, dizendo:

EU SOU quem EU SOU! Nada se perde no Ser da Mente Eterna. AlectAlectus, você vai fazer contato como alma gêmea terrena, por sua livre vontade, com o mundo terrestre, no momento certo e no instante que eu determinar. Em mim, como alma gêmea, você é a dualidade eterna, o começo e o fim, a revelação e a realização. Eu, Pace, vou insuflar constantemente o hálito cósmico da vida na sua unidade. Na Terra você se chamará AlectaFelicia e AlectusCiria. Vou libertar vocês de todas as emoções, para que o seu ser, tornado humano, possa receber o amor do meu espírito e aprender a se doar, como poucos de vocês fizeram e como muitos ainda farão. Até agora, poucos bastavam para muitos. O pai cósmico, EU SOU, e a mãe cósmica, EU SOU, é a realização da vida eterna. Um de meus filhos cósmicos é você, Alectus; e uma de minhas filhas cósmicas é você, Alecta. As porções de suas almas são aspectos da eterna atividade do espírito gerador. Quando você, AlectAlectus, tiver superado todo o egoísmo humano como Felicia e Ciria, a sua unidade espiritual terrena será uma divindade encarnada. Os aspectos de amor do espírito criativo deverão reconduzir à Terra a vibração da harmonia das esferas. Você nascerá no horizonte dos céus como a filha e o filho cósmico, sendo o elo de ligação entre os homens e os Anjos.

No centro da Terra existe um poderoso pólo de energia. Ele lembra uma cratera de profundidade infinita, maior que o mundo. Comparada ao fogo de milhões de vulcões, nele fervem as forças que são exaladas pelo espírito criador no Nagual. Alecta, hei de insuflar no seu corpo físico, que se chamará Felicia, as energias desse centro espiritual. E quando, mais tarde, Alectus viver na Terra como Ciria, se dará o mesmo. Como alma gêmea terrena, você será um condutor manifestado de energia, através do qual o espírito manifestado enviará um novo raio de amor para iluminar a alma mundo. Esse condutor que será gerado, servirá algum dia para outras almas gêmeas possam achar o caminho para o mundo dos homens. Assim, uma nova força será formada na Terra e ela se-

mais forte que toda escuridão.

Sanctus.

da pela beleza e poder dessas palavras, Alecta cantou:

Sob bênçãos as rodas celestiais se curvam.

Aos pés de Pace, saúdam os mundos,

Ao ritmo da dança, cosmicamente vibrando.

Eles repentinamente sentem:

Uma branca vaga,

Que o amor absorve.

Estrelas chovem do céu, brancas e vermelhas,

A convocação é da unidade.

A alma aspira descer

Aa infinita expansão e crescer em Pace,

E os céus tremem com esse nascimento.

E as rodas celestiais se formam

Tomando-se uma, a pura,

Longamente esperada. Ela continua a se expandir, Compenetrada do espírito, consumida pelo amor,

Sublime, linda e sábia,

Ela é o círculo dos círculos;

E o que foi densa névoa no plano material,

Fica claro e iluminado pelo Sol.

O observador de almas flutua no planeta;

O homem-deus dourado saúda a Terra.

Aós inspiramos e expiramos um amém

Ao templo do corpo terreno.

Não o Meu, não o Seu, um único Ser.

Então admirados, ouvimos A alma gêmea dizendo à Terra: EU SOU!

Um sorriso de agradecimento espalhou-se pelos céus, e Pace respondeu a Alecta:

Você deverá expressar e irradiar por intermédio de sua personalidade humana aquela porção mais íntima de sua alma onde habita o Eu Superior, que EU, Pace, SOU, ativarei. Seu perispírito será restabelecido através da unificação com o Verbo, como era no Princípio.

Sanctus.

Foi um momento maravilhoso, quando Alecta, durante a despedida, beijou a testa e o coração dourado de Alectus, cingindo uma tiara incandescente de amor na sua fronte cintilante de estrelas. Inesperadamente, o coração de Alectus transformou-se num resplandecente corpo de luz e ele ouviu, perfeitamente consciente, o chamado de seu nome eterno. O espírito de amor, Pace, se rejubi-lou quando viu Alecta e Alectus unidos na nova chama de amor. Os lírios brancos do campo, sobre os quais eles flutuavam, inclinaram alegremente suas frontes delicadas. Eles também intuíam o momento das bodas espirituais do casal terreno e como ela acontecia no coração eterno de Pace. E, mais uma vez, Ele tomou a palavra:

Despertou uma unidade cósmica terrena, do poder do espírito vital! AlectAlectus, você é uma nova manifestação do ser eterno no tempo. A consciência espiritual universal brilha como uma nova aurora da criação na sua unidade. O Verbo Universal está parindo uma nova chama na alma da Deusa-Mãe. Veja, AlectAlectus, como o eterno Sol espiritual nascerá no horizonte da sua unidade terrestre! Com o girar da roda solar cósmica, você gerará vida eterna e difundirá a paz de Pace! Assim está escrito na minha lei.

Sanctus.

Finalmente, plenamente consciente e de livre-arbítrio, Alecta deixou as radiantes alturas e desceu à via amarga e difícil, até as trevas opressivas da Terra. Um resplandecente serafim branco a acompanhou e seria na Terra o seu anjo guardião, Wunsilija. As oalavras encorajadoras de Pace a acompanharam:

Eu, Pace, imprimi profundamente em você, Alecta, o conhecimento de que, como alma gêmea, você é um aspecto do espírito criador e uma força emanadora de amor do universo. Sua união com Alec-tus acontecerá na Terra. Como instrumento espiritual e de posse do livre-arbítrio humano, você decidirá como melhor servir como alma dual às leis divinas e à criação. As forças espirituais cada vez estarão mais impressas na sua unidade anímica, assim como o seu Eterno Ser se infiltrará cada vez mais na alma do mundo. Como alma gêmea encarnada, você aprenderá a ver através dos nossos olhos de seres de luz e a viver da força da nossa consciência. Através de nós, você reconhecerá o que é espiritualmente no espaço e no tempo. Você se desenvolverá, simultaneamente, nas dimensões terrestres e espirituais, dando um novo sentido às dimensões de tempo e espaço. Seu espírito de unidade gerará nova vida, afim de expandir a criação conosco. Você existe através de nós e conosco, assim como nós existimos através de você e com você, luz e som cósmicos.

As almas gêmeas unidas serão a expressão do amor espiritual divino. Alecta, você sente o fogo do seu Eu Superior no coração? Ele é o vínculo do amor, é o EU SOU. Como unidade, você é Árvore da vida, simbolizando a paz e o amor, e também fundadora de uma nova civilização espiritual. Nós, Seres de Luz, vemos a sua unidade na Terra como um planeta sutil. Ele simboliza o todo cósmico.
Um dia, os pensamentos e ações que emanarão de você e de Ciria, a partir da compreensão amorosa da sua unidade, se expandirão pelo universo. A luz de suas almas chegará às estrelas e há de tornar fértil a Terra. Nós, Seres de Luz e Anjos, faremos soar seu amor impessoal como um eco na alma do mundo e nos reinos da natureza. Assim, muitos seres da Terra sentirão e ouvirão seus pensamentos de paz. Eles perceberão os pensamentos da Grande Unidade enquanto aprendem a aceitar o despertar de sua divindade. Dia virá em que os hinos de louvor dos anjos ressoarão novamente no planeta e as pessoas de todas as raças conviverão em harmonia. Em uma era ainda distante, em que as forças dos espíritos elevados reinarão novamente, não haverá mais guerra, nem doenças, nem mentiras e não haverá a morte.

Eu, Pace, revelo a você, Alecta, essa profecia, para que as energias do meu pensamento sejam absorvidas pelo seu perispírito e pelo seu corpo etérico. Do nosso início comum, algum dia nascerá um novo mundo e uma nova cultura. Quando você, como Felicia, e Ciria estiverem juntas na Terra, Eu e muitos outros Seres de Luz faremos uma aliança com as suas consciências de amor. Os caminhos do amor, da justiça e da paz terão, graças à nossa orientação, um novo sentido para você e serão reconhecidos como a divina verdade por vocês. Vocês sentirão cada vez mais intensamente o ponto de fusão do seu Eu Superior ao entrar em contato com o eterno fluxo da vida. Ele fluirá no coração do seu ser humano e se derramará em seus corpos etéricos. Vocês abençoarão toda a vida com a energia desse fluxo, e, quando estiverem amadurecidas, se reconhecerão como uma divindade manifestada. O Eu Superior criará um corpo etérico de onde a sua alma gêmea irradiará a chama de luz para todos os âmbitos da vida. O caminho é longo e as provações, imensas. Prevejo que profundos processos de sofrimento as aguardam na Terra; mas, apesar de tudo, vocês acharão consolo na Minha Força.

Sanctus.

4 - A Infância de Felicia

A vibração das palavras de Pace haviam levado Alecta, envolvida pelos braços de seu anjo seráfico, cada vez mais para a densidade terrestre. Os pais da criancinha que estava em gestação eram duas naturezas muito diferentes; porém, ambos eram acen-tuadamente terrenos e tinham um temperamento forte. Conscientemente, a alma de Alecta havia escolhido, para sua futura vida na Terra, pais de natureza não espiritualizada. Ela queria experimentar o pólo oposto de sua encarnação na Rússia apenas para compartilhar o destino dos terrestres através da sua consciência sensível humana, para que aqueles eventos horríveis, como outrora na Rússia, jamais pudessem ocorrer novamente.

No auge do verão, um dia quente estava findando. Uma leve brisa começava a soprar por entre os vales das montanhas. Ela passava agradavelmente pelo vale estreito, de cujas alturas po-dia-se ver uma pequena aldeia sem igreja e sem escola, uma ruína; abaixo dela havia uma fábrica reconstruída. O nome dessa localidade era Pittiburg. Um pouco afastado da estrada principal, havia um grande prado onde estavam sendo construídas várias casas populares com minúsculos jardins. Uma casa de telha de madeira construída no estilo da região sobre um pedestal de pedra, enfeitada com balcões onde desabrochavam flores, emprestava vida à única rua da aldeia. Sua alta cumeeira exibia orgulhosamente um altivo galo metereológico aos ventos. Um grande jardim ricamente desenhado circundava a casa. Ele tinha sido habilmente planejado às margens do leito do alegre riacho Imme, que, deslizando serra abaixo, passava por cima das pedras sem fazer alarido.

Nessa hora noturna, algo de muito natural acontecia na casa. Sem alteração nem esforço, uma jovem e roliça parteira assistia à igualmente jovem porém magra senhora Simone no nascimento do seu terceiro filho. Deveria nascer um menino; a criança parecia ser do sexo masculino. Ninguém que olhasse depois para o bebê pensava que era uma menina. Seu rosto deixava transparecer uma comovente expressão de determinação masculina, se bem que, fisicamente, se tratasse de uma delicada menina. Os pais logo perceberam que aquela pequena criatura havia trazido consigo um sol interior. Ela irradiava graça e paz e sorriu logo. A loura Simone, de olhos azuis cerúleos, de nariz um pouco grande demais, de lábios finos, debruçava prazerosamente o seu rosto emoldurado por cachos sobre o berço, porque sentia que a presença daquela criança era um imenso consolo para ela. Simone ainda não completara vinte anos quando um trágico e inesperado acidente havia tirado a vida de sua primeira filhinha; mas na ocasião ela já estava novamente grávida. No entanto, a vinda da segunda filha não lhe trazia nenhuma alegria e ela culpava Deus e o mundo pela precoce e incompreensível perda. Dessa forma, uma sombra se abatera sobre aquela casa agradável de grandes cômodos e sobre os seus habitantes.

Ninguém compreendia por que, com o terceiro nascimento, de repente tudo voltara ao normal. A mãe sentira, durante a gravidez, uma força diferente em todo o seu ser. Era como se, ao perceber os primeiros batimentos cardíacos da criança que ela trazia no ventre, uma dolorosa braçadeira que apertava seu coração se houvesse partido. Foi um tempo feliz de novas expectativas e, assim, pela primeira vez, ela teve bons pressentimentos e, também pela primeira vez, teve um parto fácil. Havia, porém, um pequeno problema; os pais, que esperavam um menino, não conseguiam se decidir por um nome de menina. Então a parteira interveio, ajudando-os: "Um coraçãozinho dourado desses vocês deveriam chamar de Felicia! Ela chegou aqui como um augúrio de boa sorte!" Mais tarde, a própria parteira também teve uma menina, dando-lhe o mesmo nome. Mas, apesar de amar muito a sua filha, sempre que vinha visitá-los, dizia que esse nome não Lhe tinha dado sorte, pois a sua Felicia não era alegre e despreocupada; antes, sua natureza era depressiva e séria.

Felicia mal se sustentava nas perninhas e já gostava de dar cambalhotas. Quando o pai voltava da fábrica, ela já o esperava, as pequenas mãos enfiadas no meio das pernas, tentando dizer:

Por favor, paizinho, uma cambalhota!" Então ele a puxava pelas mãozinhas e a arremessava pelo ar. O pai, Roman, tinha uma aparência imponente com seu volumoso cabelo castanho, cortado bem curto e um rosto oval, meticulosamente escanhoado com a -avalha. Seu nariz era bonito, levemente adunco, e sua boca ex-r ressava, a um só tempo, sinceridade e determinação. Felicia her-dara seus olhos castanhos brilhantes, bem como seu rosto, seu ca-belo e a cútis, que nada tinha de pálida. Por felicidade, não L-erdara sua natureza inacessível e o mau humor com que Roman muitas vezes encarava o dia; também não herdara o corpo robusto do pai. Muitas vezes seu pai a achava espontânea demais; mas, em seguida, ficava novamente fascinado pela menina de apenas três anos que girava, sensível e delicadamente, ao som de uma música que ele improvisava no piano. Quem saberia dizer de onde vinha esse fogoso sol que se desenvolvia com tanta rapidez?

Num domingo, Felicia estava brincando na caixa de areia. Suas roupas não eram adequadas. Ela havia saído furtivamente e estava ali com a blusinha branca de organdi, saia preta de pregui-nhas, sapatos de verniz preto e meias brancas, fazendo bolinhos de areia que ela enfeitava com seixos. Subitamente, Felicia sentiu uma tremenda dor. Ela deu um grande e alto grito, sendo ouvida de imediato. Felicia havia pisado num vespeiro. E, no minuto se-uuinte, estava no colo do pai. Roman a levou para a cama dela no andar de cima. O pé inchara tanto que tiveram de cortar o sapatinho. Então ela chorou ainda mais, porque gostava muito daquele brilhante sapatinho preto. A mãe fez compressas com acetato de alumínio e preparou um chá calmante. Logo Felicia adormeceu. Ela sonhou com uma criatura querida, muito menor que ela, com minúsculos sapatinhos de verniz, que se sentou no travessão da cabeceira de sua cama, balançando as perninhas. A criatu-rinha disse: "Felicia, veja como seus pais a amam! Você me promete que só dará alegrias a eles durante toda a sua vida?" "Oh! Sim!" respondeu entusiasmada a pequena. "Sabe: eu tenho um amigo lá no céu que é tão bonito quanto você, mas muito, muito maior, que se chama Mumsi. Vou vê-lo todas as noites; aconchego-me em seus braços fortes e peço que me ajude a consolar os meus pais." "Por que você quer consolar os seus pais?" perguntou a criatura, pequena como um elfo. "Eles são um casal feliz! Seu pai é um homem respeitado e bem-sucedido e sua mãe realiza suas tarefas em obediência e alegria." "Sim" disse a pequena Felicia, "é verdade; mas eles são tão materialistas, usam as pesadas vestimentas marrons da Terra. Eu gostaria de plantar flores celestiais sobre eles, aquelas que florescem onde mora o meu amigo Mumsi." Então o pequeno ser, que era uma réplica minia-turizada de Felicia, começou a balançar seu corpinho frágil para cá e para lá e cochichou: "A vida toda você proporcionará alegria aos seus pais e às outras pessoas, e sempre se esforçará para plantar flores celestiais nos canteiros humanos, escuros e regados de lágrimas."

Simone entrou com o médico. Felicia já sorria novamente; o pior havia passado. Freqüentemente, a sempre alegre Felicia tinha acessos de solidão causado pela sensação de não estar no lugar adequado; como se ela se houvesse perdido num mundo estranho. Se ela já pudesse dar nome ao inesperado sentimento de abandono que a dominava, com certeza teria dito: "Costumo sentir saudade de algo que me faz falta, mas que não consigo compreender." Nesses momentos, ela procurava rapidamente a mãe pela casa e pelo jardim; aconchegava-se a ela e pedia: "Mãe, por favor, posso ajudar?" Nenhuma vez a mãe a mandou embora. Nessas ocasiões, ela incluía a menina nas suas atividades. Por essas pequenas coisas, Felicia lhe foi grata a vida toda; o sentimen-to de estar protegida e segura nunca lhe faltou. Também nesses momentos, Simone gostava de abraçar cheia de felicidade a filha e dizer: "Você é o meu raio de sol!"

Aproximadamente um ano depois, Felicia foi fazer compras com a cozinheira na cidade próxima, chamada Torga. Na mercearia, uma menina estava sentada nos degraus da loja do andar de baixo. A criança, quase da mesma idade dela, estava apática e ihava fixamente com os olhos estranhamente vidrados. Lá foi a requena Felicia reanimar a triste criatura. Ela brincou com o mpom do seu gorro de tricô, fez voltas mirabolantes, jogou o gorro para o alto e o deixava cair, mas a criança desconhecida não reagia. "Por que você não fala comigo? Eu me chamo Felicia Sa-marei. E você, como se chama?" Não obteve nenhuma resposta. Lm sentimento de importância se apoderou da nossa pequena ;: rsoladora e ela, valendo-se de sua atitude mais característica, arraçou tempestuosamente, com muito amor, a menina triste, re: ar.do-a e apertando-a contra si, até que, horrorizada, sentiu-se bruscamente arrancada dali pela cozinheira. Felicia chorou amargamente. Ninguém conseguiu consolá-la no caminho de ?ita. Ela se lembraria durante toda a vida daquela criança. Nin-mem sabia naquele momento que aquela menina sentada na es-ra daria havia contraído poliomielite e que morrería em breve, co-m outras tantas crianças. Moravam no sítio, onde não se dava menção às doenças. Felicia foi contaminada. Só graças à grande dedicação e ao grande amor dos seus pais, ela foi salva. Ela ficou de aaarentena na casa patrimonial, com uma irmã da Cruz Ver-meíha: semanalmente, e cercando-se de todos os cuidados, a mãe a visitava. Durante esse longo e monótono período, o mais boni-• mm recia à noite, quando a irmã Isa soltava seus longos cabelos que chegavam até o chão e que usava escondidos debaixo de uma touca. Isa os penteava até que soltassem faíscas. Ela tinha de penteá-los por longo tempo, até que Felicia batesse as mãos de alegria. Como, no final, ela escapou praticamente sem seqüelas, Pace lhe mostrou, uma noite, durante um sonho: um trem comprido, com pessoas tristes e encurvadas que fugiam passou por ela. De repente, Felicia transformou-se numa fonte borbulhante, diante da qual as infelizes pessoas paravam, bebiam e se refrescavam. Ela sentiu como se transformava num pequeno algo que vibrava dentro de cada pessoa e ficou muito feliz por isso.

Depois que a menina de cinco anos voltou para sua família, certa vez, ao cair da tarde, ela estava de pé no degrau superior da escada de três degraus que dava acesso à pequena varanda, olhando o prado e a cerca de madeira que ladeava a estrada da aldeia. Há três semanas, a grossa neve cobria aquele prado e naquela ocasião, toda encapuzada, ela havia construído um boneco de neve com Winnie, sua irmã um ano e meio mais velha. Quando ambas ouviam o tilintar de sinos no pescoço de um cavalo, corriam para a cerca para ver um trenó passar deslizando, que às vezes carregava madeira, às vezes estrume. Os patins do trenó rangiam na estrada branca. Durante a noite começara o degelo e, hoje, o prado estava marrom, com algumas manchas de neve e enfeitado de campânulas brancas. Na ponte do Imme, homens com varas compridas dirigiam as grossas placas de gelo para que estas não danificassem os pilares da ponte. A noite se aproximava, a penumbra envolvia tudo. Subitamente, a sonhadora Felicia viu algo brilhar à sua direita, atrás do prado onde havia um portão, geralmente trancado, cujas escadarias davam para o Imme. De repente, seus olhos se arregalaram. Ali estava um gigantesco e reluzente anjo de cabelos de chama, usando vestimentas brancas. Ele se dirigia com gestos delicados a um pequeno anjo que trazia pela mão. Felicia passou a mão sobre os olhos estupefatos e demasiadamente abertos: o anjinho usava o mesmo vestido corre rarquesa e as mesmas pequenas sandálias brancas que ela asava. Enquanto isso, a escuridão era total. Felicia olhou como atarantada, porém os dois anjos já não estavam mais ali. Sire chamou pela filha. A pequena correu tão depressa quanto réée e atirou-se nos braços da mãe gritando de júbilo: "Mãezi-eu vi um anjo bem grande, mais que o dobro de sua altura,

e e»e me trazia pela mão!"

Xessa noite, a alma de Felicia voou para o imo de sua pátria esrmtual e, brincando, rolou no céu das crianças. Presa de lem-r ranças espirituais, ela teve a impressão de ouvir a voz de Pace res soar pelo alegre céu de amor:

O maior de todos os poderes, o que permeia toda a vida, é o amor!

Eu Pace, abraço você, Alecta, com a força de amor do seu anjo manco. Enquanto sua vida terrena durar, ele será um aspecto parcial da sua alma; através de você, ele dará aos necessitados de ajuda consolo e compreensão. As chamas ardentes do amor de sua alma resplandecem pelos seus olhos. Felicia, isso não é um sonho! Eu. Pace, estou sempre em você e lhe dou a Minha Paz.

Sanctus.

Fínn.a virou-se feliz para o outro lado e murmurou no sono: Querido grande Anjo Branco, eu lhe agradeço. Você é o meu coração!"

5 - A ADOLESCÊNCIA DE FELICIA

Kamakura saúda com amor! Muitas almas ancestrais moram em corpos jovens. A alma antiga, sábia, de Felicia, transparecia através do seu corpo juvenil como um cálido sol. Ainda como criança pequena, ela já conhecia intuitivamente a força de cura do amor. Com a naturalidade do seu coração, ela iluminava as índoles tristes. O anseio de ajudar o próximo às vezes mexia dolorosamente no seu íntimo; porém, quando o seu amoroso coração se exauria, ela também procurava por consolo e ajuda.

Felicia sofria freqüentemente de infecções de garganta. Várias vezes por ano ela era atacada por uma forte angina. Era como se se visse presa pelo sentimento de se esconder, enquanto o médico e a mãe se desdobravam em cuidados. Ela tinha a impressão de atrair por si mesma, essa doença indesejada e incômoda. Sim, por que ela deveria sempre se esconder atrás de uma doença que despertava a compaixão dos outros? A menina de doze anos usava uma grossa compressa antiinflamatória em volta do pescoço fazendo seu dever de casa. De repente, Felicia sentiu como se alguém muito conhecido, que não era seu pai nem sua mãe, colocava a mão fresca no seu ombro febril. Ela fechou os olhos e tentou, apesar do pescoço inflamado, encostar o rosto naquela mão carinhosa. Ela ouviu uma voz aveludada e suave dizer: "Eu sou o seu Anjo da Guarda e fui seu acompanhante na sua longa viagem à Terra. Você também me viu certa vez, quando pequena, no seu jardim. Você se lembra de mim? Eu sou Wunsilija. Eu noto que você com uma parte do seu ser tenta se esquivar desse mundo a que você pertence agora. Você não vê como as pessoas precisam do seu coração dourado, que doa calor, consolo e alegria onde passa? Também sua irmã Winnie, tão séria e melan-;: dca. a ama à sua maneira. Ela se alimenta da sua jovialidade e das suas idéias engraçadas. Veja, ela tem muito mais dificuldade - z relacionamento com as pessoas do que você, porque não foi -e-rebida com o mesmo amor maternal que você recebeu ao che-22- ao mundo. Seja especialmente bondosa com ela!"

O sentimento se desvaneceu e a voz se apagou. Felicia ; \ ou sua cabeça entre as mãos e não soube se devia alegrar-se — a visita do anjo ou se devia chorar por suas palavras. Winnie errrou de repente no quarto. Felicia se levantou com um salto e ; rraçou a irmã tão tempestuosa e calorosamente como nunca fizera antes. Winnie, que gostava de fingir superioridade e distân-: r, admiravelmente não repeliu essa esfusiante demonstração de 2 mor. Era como se algo superior houvesse penetrado na sala, levando infinito consolo às duas crianças terrenas.

A família estava almoçando. Alterada, Felicia contava que o prafessor de francês não acreditou quando ela lhe assegurou que -ão havia "soprado" a lição. Em sua indignação, ela segurava com força o apoio maciço de cristal lapidado para facas. Roman . ?mentou em tom apaziguador: "Bem, como se eu não conheces-se bem a nossa xereta Felicia!" Mesmo não sendo uma menina da-da a acessos de ira, a essas palavras do pai a mão de Felicia se abriu e o pequeno e duro objeto voou contra a cabeça de Roman. No mesmo instante, a menina saiu pela porta e correu para seu cuarto, onde se trancou rapidamente, pois agora o mundo deveria acabar. Depois de um longo tempo, a mãe apareceu diante da porta trancada e disse num tom de voz severo, mas de algum modo conciliador: "Felicia, abra a porta e saia; não vai lhe acontecer ?.ada. Nós precisamos esclarecer esse fato; mas venha agora e peça desculpas a seu pai!" Felicia não saiu e fechou-se obstinadamente em silêncio. Seu coração batia de medo. Todos os pecados causados pela sua natureza impulsiva e espontânea desfilaram diante dos seus olhos. Pela primeira vez, ela compreendeu que, por causa da excessiva devoção das pessoas por ela, era muito mimada, e, por esse motivo, gostava de tripudiar. Mas, dessa vez, quando se tratou da nota final de sua colega de escola, ela realmente havia ficado em silêncio. Simone teve que reiterar várias vezes sua intimação, até que a porta se abriu e um rosto choroso se esgueirou pelo vão. O diário de Felicia, dessa época, registrava: "Tem uma coisa que eu continuo a notar: no íntimo as pessoas têm algo que sempre fica vazio. Eu gosto das pessoas. Mas amar, eu sinto que só poderei amar a Deus!"

A família havia se mudado, pois Roman adquirira uma fábrica maior, num lugar mais agradável. A nova residência, Santa Maglia, era uma fazenda com instalações de todos os tipos, uma pequena casa de hóspedes, uma capela e um grande pomar. No interior da propriedade jorrava um chafariz muito simples construído com pedras naturais. Ouvia-se o seu murmúrio dia e noite, muito mais suave que o rumor do Imme. Depois do vale estreito e escuro do Imme, a paisagem dos contrafortes da serra de Santa Maglia era uma bênção para a natureza de Felicia. A região toda parecia um imenso jardim. A natureza era tão bela, que Roman dizia que ela se assemelhava a uma rapariga sedutora. Com essa palavra desconhecida, Felicia criava suas próprias imagens. Para a mocinha, Santa Maglia trouxe, até então, seu contato mais direto com a natureza. Quase diariamente a família cavalgava pelas bem cuidadas plantações, pelos prados floridos, cada qual em seu cavalo. Somente Olivier, o irmão mais novo, que Felicia amava muito e com quem fazia maravilhosos jogos de fantasia, ainda não os acompanhava. Seu grande amigo, o cavalo Wunibald, era mais velho que os outros cavalos, e tão inteligente que se comportava como um cordeiro nas mãos da mocinha, embora os adultos tivessem dificuldade para montá-lo. Quando Felicia fazia algumas acrobacias em seu dorso, como por exemplo a tesoura, ou ficava em pé, Wunibald se agachava assim que pressentia que ela corria algum perigo. Por isso, ela deixava que ele deslizasse com os cascos no gelo quando o tempo era especialmente ruim no inverno, enquanto seus pais, muito preocupados, come-cavam a xingar. Mas ela ria, divertindo-se, e Wunibald relinchava. Um pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial, os ca-. alos da família foram recrutados. Wunibald voltou doente do -recrutamento. Ele tossia e só conseguia acompanhar os outros cavalos com muito esforço. Um dia, durante a costumeira cavalgaria Roman mandou levar Wunibald para casa, enquanto os ou-—cs cavalos saíram galopando. Essa foi uma triste e também a derradeira cavalgada de Wunibald. Tiveram de sacrificá-lo. Durante semanas o travesseiro de Felicia ficou molhado de lágrimas nela dor de perder, na época, seu mais querido amigo.

Quando Felicia brigava seriamente com um dos seus irmãos, eia procurava pelo pai, sempre que possível. De alguma maneira, eia confiava mais nele do que na mãe. Quando se postava chorando à sua frente e lhe contava a sua desgraça, ele não procurava esclarecimentos, apenas passava-lhe a mão pela cabeça dizendo: Isso já passou!" Na verdade, havia tanta força em seu gesto e em suas palavras, que Felicia saía correndo, livre e feliz.

Os batentes das janelas em Santa Maglia eram tão rebaixados que se podia sentar confortavelmente no peitoril. A então adolescente de quinze anos estava escarranchada numa janela aberta lendo um livro com um copo de leite na mão. O outono entremeava de dourado o dia que chegava ao fim, transformando-se num poente em chamas. Cerca de mil ovelhas, muitas brancas e algumas pretas, jovens e velhas, pastavam tranqüilamente no grande prado perto da casa. Os dois cães de pastoreio mantinham os animais curiosos longe da varanda sem gradil. Um ruído monótono era gerado pelos balidos e pelo pastar do grande rebanho. Felicia havia encostado o livro e sonhava acordada envolta pela paisagem rósea. Seu anseio acompanhava o sossegado som dos animais e ela esqueceu novamente a sua condição de ser humano. Enquanto contemplava assim distraída, do andar térreo, a nda dos corpos lanudos brancos e pretos, ouviu uma voz interior, distante: "Pastoreia as minhas ovelhas!" Seu olhar se tornou sério e distante e ela se viu mergulhada naquela paisagem de luz e paz, enquanto tantas pessoas em outros lugares se destruíam interna e externamente e muitas morriam em sua miséria.

Desde os dez anos de idade, aproximadamente, Felicia percebia que estava no mundo com uma missão muito especial. Ela sempre teve de se esforçar muito para compreender a desigualdade deste mundo. E, mesmo que prezasse a condição socioeco-nômica de seus pais, no íntimo ela se sentia ferida pelo bem-estar da família. A maioria das lágrimas vertidas em sua jovem vida ela chorava por aqueles que estavam em dificuldade ou que viviam na pobreza. Freqüentemente, fazia perguntas e levantava polêmicas que eram problemáticas para seus pais. Para suportar a amarga realidade do mundo, Felicia se recolhia com prazer ao reino mental dos pensamentos claros e criativos. Nele, os conceitos vigentes no mundo pareciam-lhe obtusos e opressivos. Quanto mais velha ficava, mais ela buscava somente esses pensamentos, sentimentos e ações amorosas. Felicia criou para si mesma uma integridade moral inatacável.

Pastoreia as minhas ovelhas! O sol terminava de se pôr atrás da floresta de Santa Maglia, colorida pelo outono. Na penumbra, o pastor prendia o grande rebanho num redil incom-preensivelmente pequeno. Mas as ovelhas gostavam disso. Elas se encostavam firmemente uma nas outras e deitavam-se quietas. Felicia levantou os olhos e contemplou a resplandecente Vê-nus que acabara de despontar, e mais uma vez, ouviu a voz que se perdia ao longe: "Pastoreia minhas ovelhas!" Subitamente dissociada do tempo, sua alma foi tomada pela lembrança de Alectus. Uma profunda saudade da pátria espiritual esgueirou-se sorrateiramente em sua alma, e a saudade do lar a envolveu em tristeza. De repente, ela sentiu o amor do Anjo Branco em seu coração. Ele disse:

EU SOU um branco raio incandescente no fluxo dourado do universo! Felicia, abra bem a alma e ouça as palavras de Pace: a sua missão não começou agora. Não, ela começou há muito tempo antes desta encarnação. Com amor, despertei a lembrança de uma vida passada, de uma vida passada nas esferas espirituais em sua alma, que se revelou através de Mim em você e Alectus. Uma faceta do Meu Espírito deverá imergir como uma chama de energia rosada em vocês dois. Felicia, você terá de estabelecer uma novafre-qüência de amor no plano terreno. Por esse motivo, vou designar, por um determinado espaço de tempo, certas tarefas para você executar, pelas quais se aproximará de sua unidade terrestre.

O Eu Superior de vocês determinou, há muito, o tempo da rea-proximação da alma de vocês. Mas, como pessoas, vocês ainda têm de passar por provas que vocês escolheram antes do nascimento. Só então a tarefa da vida de vocês como almas gêmeas poderá começar. Durante um certo tempo vocês sofrerão muitas ansiedades e dificuldades. Justamente por serem uma unidade espiritual, vocês sentirão com mais intensidade como são dolorosos os opostos em sua humanidade. Felicia, continue previdente e forte, você vai superar com a sua alma gêmea os obstáculos terrestres. De alguma maneira, AlectAlectus há de ajudar muitas pessoas na passagem de um mundo antigo para um mundo novo. Não permita nenhuma suscetibilidade na sua condição humana; seja somente a expressão do meu infinito Amor! A alma dual eterna de vocês é uma luz resplandecente, uma trama cósmica de pensamentos. Teça a sua condição terrena e sua atual consciência humana nessa trama! A parte perfeita da sua alma conheceu nesse meio-tempo o padrão total do Eu Superior de AlectAlectus. Como pessoas, vocês serão obrigados a transformar a consciência divina em ações na vida exterior. Felicia, você jamais esteve num processo terreno tão importante de aprendizagem e amor! Tente compreender pacientemente o que pode ser renovado no plano humano para que possa ser elevado à unidade. Você não precisa fazer nada; você só tem que amar a si mesma e ao Eterno Um. Você se encontra no caminho de uma nova criatividade e aprende diariamente a integrar a sua vontade na vontade do Espírito Criador. Sim, Meu Amor pode até ser doloroso, mas apenas em áreas onde você ainda é inexperiente.

O eterno Espírito Uno colocará seu perispírito em unanimidade com a sua divindade. A vontade criadora está ligada a toda matéria, bem como à exteriorização do seu ser externo humano. A finalidade disso é o seu aprimoramento. Meu Espírito Universal está entrelaçado com a sua alma gêmea. Ela também se casará mais tarde com as suas personalidades. Desse modo, a sua unidade alcançará o auge da evolução espiritual. Felicia, você está no meio de uma grande aventura, trilhando o caminho da compreensão da totalidade de eternos processos mentais. Supere os sentimentos de limitação! Supere com Amor aquilo que afaz sofrer! Em virtude da sua humanização que deverá vibrar no interior da unidade cósmica, vive e age o Verbo Criador, que era no princípio e que é eterno. Todos os pensamentos que se desviam disso são ilusões. A unidade é o verdadeiro mundo e ela deve se tornar a força de seus sentimentos em tudo o que você pensa e é. Do ponto de vista espiritual, você vive da unidade que tudo preenche, que não ê comandada pela lógica do raciocínio, mas pelo fluxo eterno do amor. Sem a unidade, sua alma gêmea não será capaz de viver! No sentido da palavra, você está morta sem o conceito de unidade.

Sanctus.

6 - O CHAMADO ESPIRITUAL À TERRA

O fogo do amor cósmico na porção da alma de Alectus queimava intensamente e desencadeava nele um torturante anseio por FeliciAlecta. Sua consciência tecia ativamente finíssimos fios de energia em direção ao mundo terreno, com o que crescia a esperança de captar impulsos da alma da sua alma gêmea, para estabelecer com ela um contato espiritual. O Senhor da Unidade, Pace, manifestou sua compaixão e levou Alectus com ele ao Templo etérico da Graça. Admirado, Alectus olhava para o prédio redondo, transparente, que girava devagar em círculos. Dos sete andares, resplandecia uma luz indireta amarelo-clara. Feliz, ele estendeu a mão translúcida e seus dedos compridos e finos pecaram cuidadosamente a maçaneta prateada, que cintilava como ama estrela brilhante na porta oval. Mas antes que ele a tocasse, a rorta se escancarou. No mesmo instante, Alectus se viu em um grande recinto inundado de luz. No meio, sete anjos com harpas se sentavam numa condensação de nuvens. As mãos transparen-tes dos anjos, de um violeta-claro, tocavam pensativamente as cordas dos instrumentos que levitavam. Subitamente, os sons das harpas produziram um som semelhante ao rumorejar do mar, que se difundiu pelo éter num fluxo de compaixão.

A voz baixa e cálida de Pace exortou Alectus a deitar seu corpo astral sobre o altar da graça. Em seguida, ele passou sete vezes a mão sobre seus olhos. A dor da saudade desvaneceu-se na emanação violeta do consolo, e Alectus caiu em profundo sono. O som das harpas aumentou de intensidade e coros de anjos em Vestimentas níveas se fizeram ouvir. O rosto de Alectus irradiava a beleza da sua alma livre e cada inspiração trazia Alecta para mais perto dele. De repente, formou-se ante seus olhos espirituais um túnel azul-claro, transparente, que chegava até a Terra. Alec-tus percebeu, esperançoso, que seu chamado por Alecta havia penetrado profundamente na alma dela. Ao mesmo tempo, a criança humana Felicia dormia profundamente. O chamado espiritual da sua alma gêmea ressoou na porção de sua alma como o soar de mil sinos. Rapidamente, as freqüências de seu corpo astral se elevaram e, sem esforço, ela pôde se distanciar do seu corpo físico. A alma de Felicia emanava constantemente centelhas incandescentes de amor pelo cosmo e, ao mesmo tempo, Alecta fazia ecoar longamente sua voz: "Alectus, meu eterno amado, estou chegando!" Protegida pela vibração de Wunsilija, seu corpo astral flutuou através do túnel do tempo azul-claro em direção à pátria de luz infindável do Senhor da Unidade. Diante do Templo etérico da Graça, seu Anjo Guardião se despediu com as palavras: "Unidade terrestre, você despertou graças ao poder da palavra! Você é luz e sol na noite da Terra! Você se acostumará graciosamente ao meu chamado e reconciliará o mundo com a luz das estrelas!"

Novamente, a porta oval se entreabriu e, em tom solene, a voz de Pace convidou Alecta a entrar no interior resplandecente do Templo. Seus olhares se cruzaram cientes do acontecimento sagrado e a luz que emanava do seu chakra do coração clareou ainda mais a sala. Alecta se inclinou diante dos Anjos da harpa e flutuou em direção do corpo astral adormecido de sua alma gêmea. Ela sussurrou: "Alectus, meu eterno Ser Uno, Alecta o saúda com amor!" Ela beijou-lhe delicadamente a fronte. Imediatamente, ele abriu os olhos e, levitando, abrigou-se, felicíssimo, em seus braços etéricos. A mão de Pace empunhou um bastão de ouro, que veio flutuando pelo ar. Com o mesmo, ele tocou o corpo astral de Alecta e de Alectus. No mesmo instante, ambos se fundiram em um corpo e suas almas se uniram em silêncio. A silhueta de seus corpos astrais desfez-se em ouro líquido branco. Ela fiuiu para a corrente cósmica do consolo e, muitas almas, vibrando em planos astrais baixos, sorveram avidamente essas forças curativas com gratidão. A unidade AlectAlectus abriu-se às palavras consoladoras de Pace. Ele disse:
Alectus, o seu tempo de vida na Terra se aproxima cada vez mais!

Não tema! O beijo eterno de Alecta marcou indelevelmente a sua testa astral. Como pessoa, ele lhe abrirá o seu campo da clarividência. Assim está escrito. Como alma gêmea encarnada na Terra, o seu Eu divino, humanizado, provará que você pode viver na Terra o que aprendeu espiritualmente.

Uma chama rosada brilhou quando o corpo astral de AlectAlectus se tornou visível novamente. O bastão na mão de Pace tocou o chakra da coroa de Alectus e centelhas douradas brilharam na luz indireta amarelo-clara. Levantando-se em labaredas, elas se tocavam, unindo-se num fogo que não crepitava, mas que emitia uma melodia em sons alongados. No Templo da Graça, esses sons eram semelhantes a uma música de ninar. Os sete anjos da harpa tocaram novamente nas cordas transparentes, fazendo o acompanhamento numa harmonia indizível. O fogo na coroa de Alectus queimou forte e longamente, até se transformar numa esfera sonante que, ficando cada vez mais silenciosa, se deslocou na direção de Pace, onde começou a abaixar. As harpas haviam silenciado. Uma expectativa muda preenchia o Templo, cuja luz amarela, que penetrava pelos sete andares, esmaecia num tom suave azul-violeta. Todos olhavam enlevados a esfera em chamas. Ela pulsava, como se quisesse expulsar algo. Então Pace tocou a esfera com seu bastão de luz e convidou Alecta a falar:

"Oh! Maravilha da eternidade! Oh! Bênção do ser eterno! O amor trouxe a consciência da minha alma a este templo da graça para eu gerar a energia que levará o meu eterno amado a reencar-nar na Terra. Ali, eu vivo com uma consciência humana num corpo de moça que é feito de sentidos radiantes, mas sem a visão das lembranças. Antes que você vá definitivamente à Terra, ainda posso estar com você mais uma vez, meu amado Alectus, despertando a lembrança do chamado na porção de sua alma que contém a inextinguível sabedoria do Onipresente. Como homem, você se lembrará de nossas alegrias celestiais e o meu beijo infinito despertará a palavra de Pace, que continuará a vibrar."

Neste momento, centelhas ofuscantes como estrelas cadentes pularam da esfera em chamas, e Alecta falou novamente:

"Oh! Maravilha da eternidade! Oh! Bênção do ser eterno! Veja Alectus, nós aqui no céu de Pace somos um ser único! Como nos fundimos agora em um corpo astral e nossas almas vibram entrelaçadas, estamos ao mesmo tempo separados como seres individuais, porque você ainda não nasceu para a Terra, na qual eu resido agora. Porém, já estamos poderosamente unidos através da afinidade da porção de alma que nos completa. Você deixará o lar espiritual da visão cósmica, como eu deixei outrora o da graça universal, para me manifestar na Terra como pessoa. Aqui, neste lugar celestial, Pace me oferece a oportunidade de poder dar à luz espiritualmente a sua condição humana. Neste templo iluminado, imprimo em você o Conhecimento Imperecível - nós estamos irrevogavelmente unidos! Alectus, ouça a sua Alecta! O Verbo e o Ser do Espírito Criador são idênticos. Jamais seremos separados! Nossas almas gêmeas são uma unidade cósmica. Pegue o meu fogo de amor, que já arde na Terra, para imprimi-lo profundamente no seu ser; ele esquentará futuramente o seu coração humano, porque na Terra faz muito frio! Nós jamais esqueceremos este acontecimento sagrado no Templo da Graça!"

Subitamente, a estas palavras, os anjos presentes se desvaneceram numa luz branca brilhante.

"Querido Alectus, amor, luz e conhecimento são eternamente Unos! Por favor, confie e vá em breve para o reino da Terra. Nisso, a luz branca se desfez bem devagar. Os andares iluminados pela luz azul-violácea se tomaram novamente visíveis e ; cetro de Pace brilhou como mil sóis. Suavemente incandescente. a esfera de fogo pairou dentro da nuvem branca na direção de Aiectus e pousou sobre seus olhos sutis. Novamente se ouviram ;s sons alongados que ficavam cada vez mais baixos, até que a esfera fundiu-se na testa de Aiectus. Um silêncio ansioso reinava. Então a magnífica beleza do Deus-Pai-Mãe luziu, como a mais alta manifestação da unidade universal. O colo do Deu-Pai-Mãe se escancarou e deu à luz a unidade AlectAlectus. Uma neblina azulada pairou no silêncio, condensando-se numa forma transparente, semelhante a um coração pulsante. O bastão de Pace tocou-a e Alecta ajoelhou-se a seus pés. De sua visão sutil caíam pérolas como lágrimas na nuvem branca, até que esta cintilou como neve à luz do luar. A voz baixa de Pace disse: "AlectAlectus, assim espiritualmente batizado, você está abençoado para ir à Terra! Você se reconhecerá em todos os caminhos, pois EU SOU o seu caminho!"

De repente, o templo se encheu de luz rosada e os anjos presentes se postaram em adoração. Veja, o túnel azul-claro do tempo abriu-se novamente e, cintilando em tons dourados na parte superior, deixou ver na soleira da porta oval, o Anjo Guardião de Alecta, Wunsilija. Ele se aproximou da nuvem branca, ergueu o corpo astral ajoelhado de Alecta e saiu flutuando com ela rumo à Terra.

7 - A PROVA DA COMPETÊNCIA DE FELICIA

Na época em que seus pais mudaram pela segunda vez, Felicia tinha 16 anos. Winnie e seu irmão Olivier estavam, não sabemos os motivos, em colégios internos. Assim, em Fortino, no novo lar, ela viveu o período de relacionamento mais intenso com os pais. Disputas em família sempre foram normais e estavam na ordem do dia. Principalmente o pai de Felicia opunha enérgica resistência às opiniões da filha. Seus assuntos preferidos eram pobreza e riqueza, espírito e matéria. "Veja só que menina bacana a dos Zeller!" disseram os pais dela certo dia. Urma Zeller pertencia a uma família tradicional de Altenfurt, uma cidadezi-nha próxima, e era apenas dois anos mais nova que Felicia; mentalmente, ela era muito mais madura em seu ser humano, mas se mostrava muito inexperiente e infantil. O desejo dos pais se realizou. A precocemente madura Urma era graciosa, ria muito e alto na presença dos outros. Ela demonstrava alegria, embora no fundo de sua natureza não a sentisse. Logo Urma revelou a Felicia a sua verdadeira personalidade. Freqüentemente, ela soluçava com tamanho sentimento que a amiga ficava amedrontada. Não era um pranto causado por uma dor momentânea ou por algum sofrimento; antes, parecia que se dilacerava toda a sua alma. Nessas horas, Felicia segurava a amiga nos braços como uma mãe e tentava consolá-la. Urma havia tido uma infância difícil. A mãe morrera de febre puerperal; o pai só conhecia seus próprios interesses: luxo e mulheres. Assim, começou para Urma uma odisséia quando era apenas um bebê, pois nenhum dos parentes queria ficar com a criança. Quando, finalmente, ela foi parar num campo de concentração com seus avós maternos judeus, a consciência da sua outra avó se comoveu. Ela conseguiu, aepois de muita luta, libertar a criança e desde então a abrigou na sua família. Porém, todos eram especialmente severos com E rma; talvez temessem que os traços de caráter do pai se revelassem nela.

O décimo sétimo aniversário de Felicia chegou. A guerra havia se propagado e os ânimos das pessoas estavam exaltados. Na hora do lusco-fusco, a moça atravessou sozinha a parte erma do parque e refletiu sobre Urma. E sentou-se num banco do qual tinha uma ampla visão da paisagem da charneca. Seus olhos, que haviam ficado tristes, observavam a distância, como se buscassem um apoio bem atrás da vida das pessoas. Ela fechou os olhos e, suavemente, o seu branco anjo Wunsilija a conduziu ao país dos sonhos. Absorta, Felicia via um recém-nascido meticulosa-mente arrumado e coberto com uma cobertinha, num berço simples de grades, junto à janela de um quarto pobre. Seu olhar pousou sobre os olhos castanhos-escuros muito abertos da criança. Subitamente, sem saber por que, ela teve que chorar e suas lágrimas caíram nos olhos da criança desconhecida. Uma saudade muito conhecida espalhou-se pela alma de Felicia e, como quem procura proteção, ela se cobriu com a aura clara da criancinha. Só assim ela achou consolo. Uma inspiração profunda trouxe a sonhadora de volta à realidade. Ela notou um temporal de cor ama-relo-enxofre pairando no céu acima dela; um vendaval agitou violentamente as árvores, levantou-lhe a saia e espalhou seus cabelos. As primeiras grossas gotas de chuva caíam no chão enquanto ela, absorta, continuava ali, sentada. De repente, Felicia saiu correndo quando o temporal com relâmpagos e trovões des-carregou-se acima de sua cabeça. Sem ser notada, ela subiu ao quarto. Na penumbra iluminada pelos coruscantes relâmpagos, ela permaneceu quieta, sentada, ouvindo os trovões. Como uma febre, o forte desejo de ver o seu Anjo Branco a invadiu. Novamente, ela fechou os olhos e logo percebeu a seguinte mensagem que, conforme pôde entender, não vinha de Wunsilija:

EU SOU um Anjo da Renovação! Eu elevo afreqüência do seu pe-rispírito e lhe revelo a minha magnificência espiritual! Através de Mim você conhece o Rei dos Reis, o que sempre está comigo e no seu anseio. Graças ao seu amor solitário pelo Eterno Criador, você se tornou um vaso dourado cheio de água preciosa. Através de Mim, em breve você tirará sabedoria desse recipiente com a percepção humana consciente. Sinta a maravilhosa paz que está fluindo para o seu íntimo! Clarões iluminam os seus pensamentos rasgando o véu da escuridão humana. Em breve a visão de sua alma me contemplará, mesmo que Eu não tenha forma. EU SOU um Anjo da Renovação e uma faceta do Espírito de Pace! EU SOU a força de liderança escolhida por Ele em sua alma e eu a dirijo para a alma de Alectus. Desdobro o conhecimento em seu Ser Humano e à unidade com Alectus na Terra, que ainda repousa no futuro.

Toda alma gêmea assim unida na Terra se manifestará como uma divindade. Porém, a Consciência de Deus despertada nas almas gêmeas somente poderá ter efeito quando os aspectos do ego humano tiverem sido superados e o amor impessoal estiver sendo vivenciado. EU SOU o Anjo da Renovação! Felicia, sua alma deverá receber nos templos sutis da Sabedoria as novas bênçãos do espírito de amor, fazendo fluir minhas energias para o seu ser. Assim se realizará uma missão cósmica. O conhecimento espiritual de sua alma gêmea aumentará a frequência de sua saudade por Alectus. Você é criativamente ativa em premonição comigo e pela unidade terrena e está aprendendo a sentir que você e o Espírito Gerador são Unos. Com isso, o seu Eu exterior se transformará rápida e inevitavelmente. Assim que as energias do seu corpo sutil estiverem afinadas harmonicamente, você encontrará a sua alma gêmea para viverem na Terra. Um homem-deus terá voltado à Terra fazendo com que as almas eleitas se reconheçam nele.

Compreenda que todos os acontecimentos se passam, simultaneamente, em espírito, no Eterno Todo-Uno, no Ser Vivo. Assim acontece também na vida terrestre, a afinidade entre o interior e o exterior, entre o princípio ativo e o passivo. Processos que suscitam sentimentos de separação nas pessoas não existem na nossa dimensão. Nós, Seres de Luz, vivemos além do tempo; Nós somos o Todo-Uno que une todos os aspectos da criação, expressando amorosamente a vontade geradora sem vontade própria. Sentimentos de j. separação renegam sempre a presença do Espírito Criador no mun-

do. Deixe-me ser bem-vindo sempre em sua alma eterna, e a minha bênção a renovará! EU SOU a luz na sua penumbra! EU SOU a dissolução dela! EU SOU a inteligência ativa em você! Ela atende ininterruptamente os desejos do Grande Todo, pois somente através Dele vive o Universo Criador. Eu arranco as raízes de suas necessidades humanas e desdobro em sua alma o Reino do Meu Céu, que mora no seu interior. EU SOU o Anjo da Renovação! Deus a abençoe!

A força para as provas vindouras estavam profundamente despertas na alma de Felicia; a moça que estava se tornando mulher sentiu-se misteriosamente reconfortada.

8 - AYONAPLEJA

A difícil descida de Alectus à Terra

Neste capítulo, eu, Kamakura, descreverei quais as provações que foram impostas à mãe biológica de Alectus, e como as almas gêmeas se encontraram pela última vez na matéria sutil. Amor, luz e bênção!

Paredes brancas e úmidas cercavam a mulher que transpirava. Era dia de lavagem de roupas e Alina tinha que dar conta de um imenso monte de meias masculinas verdes e malcheirosas. No país próximo grassava a guerra. Por apenas alguns segundos, os olhos castanhos amendoados da mulher pousaram amorosamente sobre seu ventre dilatado. As mãos delicadas, avermelhadas de tanto lavar, alisaram suavemente a barriga. Ela começou a cantarolar bem baixinho e um sorriso de felicidade revelou por um instante toda a sua beleza. Uma tiara azul-clara remendada escondia sua trança loura presa no alto da cabeça. Alina cantou mais alto e todos os músculos acompanhavam, retesados, o ritmo alternado da canção de ninar. De repente, ela se calou. Seus braços finos penderam como que paralisados ao longo do corpo. Indefesos, eles balançavam no ritmo crescente e decrescente da sirene que já disparava novamente na fronteira próxima. Com os joelhos trêmulos, ela se atirou sobre um banquinho desconjunta-do. E começou a gemer baixinho, transida de medo. Ela sentia os fortes batimentos do seu coração amedrontado pulsar nas têmporas, ao mesmo tempo em que mandava uma jaculatória aos céus.

Subitamente, uma clara e harmoniosa voz soou do canto atrás do fumegante tacho de lavadeira: "Alina, Alina, o Anjo de AYonaPleja está aqui!" Admirada e assustada ao mesmo tem-ela olhou fixamente na direção de onde vinham as palavras, mãos calosas tiraram desajeitadamente as lágrimas dos íhos. Ela tentou ficar em pé, mas seu corpo pesado e enfraque-hdo caía de volta no banquinho. E novamente a voz, suave e me-xiiosa, voltou a sussurrar: "Alina, querida Alina, o Anjo de Luz

AyonaPleja está aqui!" Com muito esforço, ela soergueu o tórax e. com voz quebradiça, arriscou-se a dizer: "Alô, quem está aí?" De repente, ela ouviu o som de uma canção de consolo de Ayo-raPleja perdendo-se ao longe, cuja voz clara a atraía magicamen-:e: "Eu canto o hino do Sol para você; somente a força do Verbo é ; meu prazer. O raio de luz de AyonaPleja flui da fonte do sagrado Graal." Os olhos estupefatos de Alina perceberam uma labareda em forma de espiral e a lavanderia encheu-se aos poucos de um vapor amarelo-claro que espalhava luz. As faces pálidas de .Alina coloriram-se de um suave carmim. Enlevada pelo chamado do anjo, aguardou em feliz expectativa a sua mensagem. Uma paz profunda espalhou-se pelas suas feições infantis antes que ela caísse em sono profundo.

"Eu sou o Anjo de Luz AyonaPleja. Eu sou a força da magia do amor no seu coração! Não tema! O poderoso Espírito do Mundo mandou-me a você para abençoar a criança que você carrega em seu ventre. Tenho permissão para levá-la ao resplandecente mundo dos anjos. Alina, será como num sonho! A alma do seu filho será abençoada por Pace, o Senhor da Unidade, no Templo do Sol Espiritual. Você quer, Alina, confiar a sua vida e a da sua criança à direção dos Anjos? Longo e cheio de sofrimento será o seu caminho terreno e muitas provações a conduzirão por íngremes escadarias para a transformação. Reflita bem se você quer seguir o chamado de Deus e de seu Senhor, liberando para sempre a alma do seu filho. Muitas coisas dependem disso! Se você disser que sim, as hostes celestiais terão uma revelação para o seu primogênito. Mesmo assim, como ser humano, essa criança não será poupada de sofrimento e aflição. Se você disser que não, ele receberá uma feliz vida terrena; contudo, o segredo que Deus ha-veria de revelar estaria selado para a Terra por um longo tempo. A revelação da qual nós, os anjos, estamos falando, será futuramente, através de sua criança, uma fonte de ajuda para muitas pessoas na Terra. Com pureza, essa criança trará para a vida terrena o dom da clarividência. Ao mesmo tempo, um raio de luz deverá atingir a alma do seu filho para que o amor impessoal se manifeste de uma maneira nova. Alina, pense bem antes de responder!"

Subitamente, Alina despertou. Seu receio inicial havia desaparecido. Ela olhava fixamente a luz cambiante da chama, ainda tonta, mas completamente lúcida, ela disse com voz quase inaudível: "Sim, eu quero me tomar uma humilde serva do amor! Sim, eu quero ser a que carrega a alma que me foi confiada! Sim, eu vou liberar a alma dessa criança para todo o sempre. Querido Anjo de Luz, você tem certeza que eu, a insignificante Alina, tenho capacidade para me desincumbir dessa missão?" "A bondade e a confiança do seu coração são as forças de que necessita", respondeu AyonaPleja suavemente. "Você foi eleita para essa missão e tem de aceitá-la sem questionar. Seu filho carrega o nome espiritual de Alectus. Ele deverá seguir o chamado de Pace como alma clarividente! Nós lhe agradecemos com amor!" Uma forte tontura tomou conta de Alina. Seu corpo esgotado deslizou devagarinho para o chão e ela caiu novamente em sono profundo. Um casulo de luz envolveu protetoramente o corpo da moça inconsciente. De dentro da clara chama saiu um anjo com as cores do arco-íris. Ele disse: "Venha, Alina. Minhas asas a carregarão ao reino maravilhoso de Pace." Livre da gravidade terrestre, seu corpo astral flutuou para as esferas de luz. Seu corpo inerte permanecia protegido envolto pela chama de luz brilhante.

Alina sonhou: nas asas do anjo, seu corpo astral levitou pelas esferas amarelo-violáceas e aterrissou no céu branco de Pace.
Seu coração sutil abrigou cuidadosamente a alma de Alectus. Ao unge, eram audíveis melodias celestiais de anjos tocando trom-betas; cada vez mais se intensificava o som de fanfarras anunciando a chegada de Alectus. Um portão de brilhantes abriu-se. O anjo e o corpo astral de Alina estavam num campo de lírios brancos sobre um chão róseo-avermelhado. O anjo com as cores do arco-íris convidou a criança sutil, Alectus, a beber o precioso néctar dos lírios brancos. O caule de uma flor especialmente brilhante alçou-se às alturas. Ela inclinou seu cálice e gotas de orvalho celeste cor-de-rosa caíram diretamente em sua alma. O anjo do arco-íris disse em voz solene: "Alectus, eu vou mergulhar você na correnteza fluídica sempre brilhante das esferas. Eu o abençoo com a graça da clarividência cósmica!"

Nesse momento apareceu uma entidade irradiante no tapete de lírios brancos. Ela era andrógina, iridescente, vibrando em todas as cores. Devagar, aproximou-se flutuando de Alectus e chamou: "Querido, você não está me reconhecendo? Eu sou Alec-ta, a que o aproxima da eternidade, nascida do Eterno Espírito! Agora você está preparado para receber a mensagem amorosa de Pace. Ela lhe revelará o segredo da unidade através do tempo." E, dirigindo-se para Alina, o anjo do arco-íris disse: "Aqui você vê um casal celestial: a eterna unidade de Alecta e Alectus. Duas almas isoladas puderam se reencontrar no céu. Elas eram aspectos individuais de uma divindade. Agora esta alma unida jamais será separada de novo! Ela preservará a unidade também na Terra. Essas almas gêmeas serão um instrumento manifestado do Espírito de Pace que difundirá seu Amor entre os homens. Alina, alegria celeste flui através do seu ser! Volte agora para o seu corpo físico!"

No instante desse acontecimento, fortes contrações abdominais despertaram o corpo de Alina da sua inconsciência. Como flocos silenciosos de neve, algumas recordações desse sonho caíram sobre a sua consciência humana. "AyonaPleja", sussurravam seus lábios ressequidos, "AyonaPleja, você ainda está aí?" Um tremor de intensa alegria celestial a perpassou e lágrimas de esperança desceram pelo seu rosto. Com o coração jubiloso, ela chamou: "Ele está aqui! O anjo AyonaPleja não é um sonho!" Apesar da incontrolável alegria, as contrações aumentaram, ficando cada vez mais fortes. Então AyonaPleja falou telepaticamente com a alma de Alina: "Querida Alina, você pode perceber o Anjo Branco da Morte do seu lado direito? Diga, você o sente?" Mudo, o seu coração respondeu que sim. "Não fique triste, Alina, se ele levar agora a alma do seu filho nascituro de volta para o paraíso de Pa-ce! O tempo terreno de Alectus acontecerá um pouco mais tarde. Lembre-se da sua anuência, quando você aceitou passar por qualquer provação sem questionar! Como consolo, eu desperto na sua alma o amor celestial, esse ardente sentimento de amor que, durante a sua inconsciência, doou-lhe o Conhecimento da Eterna Felicidade."

O Branco Anjo da Morte soprou a alma de Alectus para fora do corpo de Alina que, com um grito lancinante, todo penetrante, expulsou do corpo materno o natimorto. Pouco depois, seu marido Tabori achou a esposa desfalecida no chão frio da lavanderia. Um médico, conhecido deles, a tratou, recuperando sua saúde. Apesar desse aborto, a aventura do sonho permaneceu nela como uma lembrança positiva. E ela sabia do retorno da criança perdida. Mesmo que agora Alectus estivesse novamente em sua pátria espiritual, a alma dele quedava-se em profundo luto. A saudade de Alecta, sua alma gêmea, era só dor e aflição, embora não se sentisse capaz de reiniciar imediatamente a viagem à Terra. A pergunta dolorosa sobre o fato de Alecta adquirir novamente um corpo de carne, escurecia as claras vibrações de sua alma. Mas Pace, o Senhor da Unidade, compadeceu-se daquele ser desanimado, elevando-o com as Sabedorias dos Mestres Ascen-sionados. Ele disse:

Querido Alectus, venha comigo ao templo etérico do Conhecimento e ouça-me bem. Como homem, você reconhecerá a lei da causa e do efeito e viverá rigorosamente de acordo com a mesma. A alma gêmea da Terra é um aspecto do EU SOU manifestado! Ela trará uma nova chama sobre a Terra, ativando a Alma do Mundo. Você aprenderá a se elevar acima dos sentimentos de sua índole para estar na liberdade do Meu Espírito. Somente como unidade divina você é um aspecto de Poder Universal! Alectus, EU SOU Pace! Admita a força do meu espírito na sua alma! Minhas vibrações são os alicerces para o seu processo de se tornar humano para sua alma gêmea. Da mesma maneira, EU desperto a consciência em todas as almas gêmeas que, ao Meu chamado, se encaminharão à Terra. Minhas palavras são forças de luz; elas estimulam o retorno à Terra das almas eternamente unidas, que eu agora invoco para o seu fortalecimento, pois você é uma fração delas:

Almas gêmeas, nascidas do Sol eterno e universal, nascidas do EU SOU, Eu as saúdo! Almas gêmeas, altares do Espírito Cósmico, Eu consumo o seu batismo de fogo! Almas gêmeas, vocês percebem em sua unidade a eternidade do Verbo Universal, do EU SOU, e pelo qual as almas gêmeas existem! Almas gêmeas, vocês são partes de uma alma de Luz como divindades manifestadas diante do Espírito Criador! Almas gêmeas, vocês são corações cósmicos na maravilhosa realização do Espírito reinante! Alma gêmea AlectAlectus, você será na Terra um reflexo eleito da minha eterna luz nos tempos que se iniciam agora. Sinta a força da minha revelação que SOU EU!

Sanctus.

A energia contida nessas palavras elevou de tal modo a freqüência da alma de Alectus que o anseio ardente por Alecta se tornou insuportável. A eterna chama do amor penetrou-o poderosamente e ele pensou, profundamente comovido: "Você está muito distante, Alecta, infinitamente longe, no oceano universal do amor em tudo. Quando a palavra de Pace ressoa, os mundos tremem. O profundo silêncio de sua porção de alma, querida Alecta, é a carícia do não-ser em mim. Uma pomba branca dança sobre as ondas espirituais e voa, feliz, sobre a espuma de vagas da alma. Ele é o símbolo do nosso ser e não-ser, o símbolo da nossa união em espírito. Na dança das ondas do oceano de Pace, a plumagem da ave se torna rosa e seu suave corpo sutil se desvanece na torrente de vagas cósmicas. Alecta, meu Eterno Ser Uno!"

Uma imensa onda de paz encheu a alma de Alectus. A energia de Pace transformou-se numa coluna de luz em espiral, que se uniu rapidamente com a Terra. Desde a encarnação de Alecta, haviam-se passado quase dezessete anos na Terra. A saudade de sua alma gêmea tornava Alectus disposto a aceitar um novo nascimento a fim de selar o pacto divino de amor com Alecta. Admirado, ele constatou que dezessete anos planetários passados na sua dimensão representavam apenas instantes na outra dimensão. Livre, Alectus chamou no éter: "Alecta, você ainda se lembra da beleza solene, quando em dimensões sem formas, inspiravamos e expirávamos todo o Ser da Fonte Primordial? Esse sentimento celeste continua a arder em mim, e o branco Anjo do Nascimento lança seu alento sobre a minha existência sutil. Alecta, querida, eu pedi ao anjo a minha volta para o mundo dos homens. Agora as suas forças ativarão por tanto tempo a minha alma até que o ritmo do Espírito Criador insufle nova vida terrena em mim e me ligue ao tempo e ao espaço. Logo iniciarei minha viagem à Terra! Alecta, querida da minha alma, você ouve o chamado da minha saudade no seu coração? Alecta, eu irei logo e você me achará! Diga, minha amada, também brilha a recordação celeste em sua alma, esse ardente sentimento de amor, quando o Espírito de Pace nos procura e chama? Eu ainda sinto o seu beijo sagrado na minha testa sutil arder como um fogo eterno! Alecta, é difícil ser humano?" Finalmente, o divino ardor amoroso havia despertado de tal maneira a saudade em Alectus que ele permitiu que Pace o lançasse à Terra. Alectus se revestiu com a matéria de sombras do mundo terreno. Que felicidade no coração da mãe Alina, quando ela finalmente embalou em seus braços a tão intimamente esperada e amada filha Ciria! A recém-nascida dormia, enquanto a consciência suprema de Alectus continuava ligada a Pace. Este dizia:

Nunca mais você comerá os frutos do jardim de tempos idos. De momento a momento, os grandes Anjos Brancos da Paz darão à luz sempre renovadamente à minha verdade e a manifestarão no Universo. Você se alegrará com a colheita dos tempos vindouros como jamais se alegrou. Sua alma continuou fiel no serviço à vida. Em pacientes ciclos a Terra gira ao redor do Sol, para sempre e eternamente a sua semente espiritual carregará a nova chama, que agora ainda dorme, mas que em breve despertará no coração de muitos homens e nas almas gêmeas celestiais. Eu, Pace, e minhas legiões estamos aqui, para selar a nossa consciência no seu ser divino e humano. Nossas forças estão no seu Ser Supremo e o ajudam a se incorporar como ser humano.

Vá sempre em frente, não olhe para trás! Não observe mais os dois lados de um acontecimento, pois somente pela antiga lei é que a polaridade é válida. Na realização terrestre, existe somente a unidade, como você aprenderá a vivenciar como alma gêmea. Em qualquer situação, treine o silêncio! Desprenda-se do burburinho do mundo exterior! Lembre-se de que o seu Eu Divino nunca poderá ser tocado por ele! Você vibra deforma nova e renascida no nosso plano celestial. Através de sua revelação, você honrará e amará a criação. Eu, Pace, vou ajudá-lo a fundir sua consciência terrena com a da sua divindade. Eu amo você em todos os acontecimentos.

Sanctus.

9 — A Infância de Ciria

Ajudada por mãos invisíveis, Ciria passou pela sua difícil infância e juventude. A aceitação de sua vida terrestre sem questionamentos estimulou as forças de luz em seu perispírito e, como Felicia, ela se desenvolveu graças à amorosa proteção do seu Anjo Guardião. As duas meninas guardavam previdentemente em seu coração a luz espiritual do seu lar celestial. Kamakura envia consolo e força a todas as almas receptivas!

Radiante de felicidade, Alina embalava sua delicada filhinha Ciria nos joelhos. O olhar de seus grandes olhos castanho-escuros perdia-se nos grandes olhos castanho-escuros de Ciria. Mesmo que Alina apenas se lembrasse vagamente dos acontecimentos do sonho que tivera durante a primeira gravidez, ela sabia que sua filha era especial. Ela sentia profundamente em seu coração a grande necessidade de proteção da sua filhinha. Ciria era uma criança atenta, calma e introvertida. Sorrindo, ela estendia os bracinhos finos e as pequenas mãos se prendiam carinhosamente nos cabelos da mãe. Rindo, ela deslizava para o chão, onde pegava o cordão colorido feito à mão que ela, cheia da fantasia, puxava atrás de si como se fosse um carro. Pernas muito finas carregavam o corpo frágil pelos dois pequenos cômodos que Alina e seu marido Tabori haviam alugado. Quem dá à minha filha a força para correr em volta aos oito meses de idade, e que espírito a capacita a falar sem erros tão cedo? Essa a pergunta que Alina repetia para si mesma.

O final da Segunda Guerra Mundial se aproximava; contudo, a pobreza continuava grande. Tabori estava desempregado e procurava manter sua pequena família com biscates. Eles moravam em Stahlingen, uma cidade um pouco maior nas proximidades da fronteira. O relógio do campanário batia sete horas quando o alto e magro Tabori Mahra abriu, sem fazer barulho, a porta de sua moradia. Cuidadosamente, ele colocou seu casaco, numeras vezes remendado, sobre a cama no dormitório. Seu olhar fitou as paredes nuas do quarto onde uma cadeira de espaldar quebrado e uma cômoda herdada completavam todo o mobiliário. Como um desvairado, ele permaneceu imóvel na porta. Seu olhar circulou pelo segundo quarto que também abrigava, perto da mesa redonda de madeira, o fogão. Debaixo da janela sem cortina estava a caminha de grades de Ciria. Sobre a mesa havia flores do campo, embrulhadas em papel de jornal molhado. "Também na casa dos pobres vivem as flores", pensou Tabori alegremente, e a dor de não poder adquirir um vaso para as flores se desfez. As idéias de Alina de revestir a pobreza de dignidade, sempre tornavam a comovê-lo.

Seus braços compridos pendiam lassos ao lado do corpo de grande estatura. Seus pés estreitos estavam metidos em desgastadas sandálias marrons. Os ossos pontudos dos tornozelos à mostra ansiavam por uma calça mais comprida. Seu maior orgulho, porém, era a camisa de algodão azul-escuro. Se bem que o tecido já tivesse ficado fino por causa das freqüentes lavagens, ainda não apresentava nenhum remendo. Os olhos absortos de Tabori fitaram a bonita Alina. A seus pés sentava-se a pequena filha, imersa na brincadeira. A fina fralda embaixo do seu traseiro magro tinha a missão de isolar a menina do frio que vinha do chão. Ciria segurava em suas mãozinhas delicadas um cordão feito de um resto de lã, seu único brinquedo. Sua ilimitada fantasia fazia o cordão virar um verme, uma lesma ou um cachorro que, rindo, ela chamava de Pipo. Subitamente, Alina sentiu a presença de Tabori. Ela levantou a expressiva cabeça, como que magicamente atraída em sua direção e disse, sem vê-lo: "Meu querido, não fique triste, venha cá e nos cumprimente! Logo a nossa vida será melhor. Hoje é um dia de sorte. Veja: nossa vizinha Selma nos presenteou com seis batatas inglesas. E na floresta eu encontrei ervas e amoras. Este pequeno banquete nos dará alegria." Tabori sentiu como se uma mão invisível o envolvesse num finíssimo manto consolador. Um novo alento brilhou em seus olhos. Nesse momento, Ciria lhe estendeu seus bracinhos finos e chamou, sorrindo: "Por favor, papai. Cambalhotas no ar, por favor, por favor!" "Ela não é doce, uma gracinha?" disse Tabori erguendo a menina. Suavemente, ele arremessou o corpo frágil da menina no ar. Soltando gritinhos estridentes de entusiasmo, Ciria caiu de volta em seus braços fortes. A cambalhota no ar era o seu maior divertimento. "Diga cambalhota, meu docinho!" E a pequena repetia rindo: "Cambaiota."

Ciria foi levada para a cama e logo caiu em profundo sono. Seu rosto angelical era expressivo; irradiava proteção e paz. Então Tabori sussurrou para sua querida mulher: "Nós vamos nos mudar daqui! Em Sonnenhofen mora um antigo colega de escola que possivelmente arranjará trabalho para mim. Sabe, Alina, um ardente sentimento de esperança queima na minha alma, dizendo que esse meu colega é a nossa salvação. Amanhã mesmo vou escrever para ele." Os olhos de Alina brilhavam mais intensamente e ela respondeu, igualmente sussurrando, para não acordar a menina: "Sim, meu querido, tudo vai dar certo. Eu o sinto em meu coração." Instintivamente, ela acariciou seu ventre, onde se gerava uma nova vida. Hoje, porém, ela ainda queria guardar o segredo só para si. Silenciosamente, ela cobriu Ciria e um sorriso celestial iluminou momentaneamente o vale de sombras de sua existência.

A menina frágil ainda não tinha um ano de idade e já se revelava um perfeito ser humano que podia caminhar e falar. A alma antiga e encarnada de Ciria jamais perdeu o contato com as dimensões de Pace. Assim, ela nunca achou difícil com seu corpo astral, visitar o lar celestial, onde muitas vezes também ia Felicia. Uma noite, ela julgou sentir sua proximidade e esticou a mão na sua direção para lhe falar. Mas ela estava sem forma num mundo informe. De repente, ela ouviu um rumorejar, como se um -acho se aproximasse aos poucos. Sua alma absorveu em si, entusiasmada, o trovejar e o borbulhar dessa magnífica energia, até que, ébria de tanta alegria, deixou-se cair novamente em seu corpo de criança. Somente muitos anos depois, já como mulher madura, ela perceberia novamente esse rumorejar: ela estava ao lado de Felicia e, espontaneamente, como quem procura por ajuda, procurou a sua mão; o trovejar se transformou em palavras, que Ciria se via obrigada a repetir, devagar e pausadamente:

Tenha coragem, querida! EU SOU a irradiação de Luxor! EU SOU uma força purificadora que espanta a força dos pensamentos tenebrosos, que ainda obscurecem a Terra! EU SOU um raio de altafre-qiiência, que a alma gêmea apenas está começando a absorver. EU SOU a consciência de Pace que tudo abrange! EU SOU um chamado da vontade espiritual do Criador! EU SOU a chama de ascensão das almas gêmeas! EU SOU um fluxo de amor universal em Alecta, que despeja minhas forças na Terra, assim como EU SOU um fluxo da vontade universal em Alectus, que põe as minhas forças em movimento na Terra. Eu abro a alma do mundo, para que os impulsos da nova era possam fluir para o seu interior. Eu firmo as forças das almas gêmeas unidas pela eternidade com as almas da humanidade. Mesmo que Felicia e Ciria ainda evoluam separadamente como seres humanos, suas almas estão participando do processo de limpeza do mundo. Assim, quando sua unidade também estiver realizada no plano terrestre, suas almas estarão prontas, com a ajuda das almas que tenham freqüências semelhantes, a atuar na inversão da polaridade e na alteração da estrutura do planeta Terra. A comunhão de todas essas almas compõe, assim, a índole planetária. Os poderes cósmicos da luz manifestada fazem esforços imenos para guiar a humanidade por novos caminhos e estimulam o processo de reformulação dos pensamentos. Dessa maneira, o conhecimento antigo se transmutará no novo conhecimento.

EU SOU a força de ascensão para a porção de alma encarnada, AlectAlectus, e manifesto nela a chama branca cristalina do meu espírito. Minhas qualidades serão as deles. Durante muitas noites eu guio os corpos astrais de Felicia e Ciria para os meus templos etéricos da ascensão. Em seus pavilhões iluminados, onde aflama da ascensão pulsa, suas almas se carregam de amor universal. Elas haurirão a energia em expansão da Alma do Mundo no plano de vida da era que está apenas começando. Os treinamentos espirituais no meu templo da chama geram impulsos expansivos em dimensões do tempo e difundem, simultaneamente, o eterno Ser. Futuramente, as almas gêmeas na Terra serão o exemplo da liberdade. Assim, as futuras gerações poderão viver em harmonia com a lei cósmica.

A Deusa-Mãe cósmica, que carrega eternamente o Verbo dentro de si, é a força universal da transformação dos ciclos planetários. Ela, que concebe infinitamente o gerado pelo Deus-Pai, faz refluir o concebido como amor e sabedoria para ele próprio. Ó humanidade, reconheça o infindável ciclo da vontade do Criador na contínua realização do espírito eterno! Ele é, a um só tempo, Não-nascido e Nascido, Imanifestado e Manifestado, Não-Ser e Ser. Da corrente vital da vida eterna, o Deus-Pai-Mãe desencadeia o fogo das transmutações na matéria densa. A nova chama de amor extinguirá tudo o que não for marcado pelo Espírito Criador e tudo o que não corresponda à humilde realização de amor e sabedoria. A ancoragem do raio Deus-Pai-Mãe nas almas gêmeas terrenas originará a vida no domínio da Luz Branca. A partir desse raio, milhares de anjos criarão novos átomos de cura. AlectAlectus está sobre a Terra para in-trojetar a transmutação da matéria em consciência, afim de que, pela sua representação, as almas prontas possam ter a revelação dos maravilhosos caminhos iridescentes para a Luz.

Somente aqueles que contemplarem a chama salvadora com respeito, e que não se agarrarem imaginariamente aos futuros acontecimentos, poderão participar do crescimento interior da humanidade. A humanidade tem que compreender que tudo o que existiu fora, volverá para dentro; e que o que esteve dentro agirá sobre o exterior. Deus não é mais o próximo, não é mais o pai, nem a mãe pelos quais os homens procurarão. Deus-Pai-Mãe é a mais alta manifestação da unidade e virá a ser a mais íntima percepção do homem. A Luz Branca se tornará, algum dia, o alento consciente de sua existência. As leis espirituais em ação nas altas esferas sutis acolherão incontáveis almas pela inversão da polaridade e pela sua purificação na Terra. Elas elevarão a qualidade de todo pensamento, sentimento e ação. Nada que o ego humano busca fazer poderá se afirmar dali por diante no vale das sombras! Tudo virá à tona! Depois da inversão dos pólos, os mestres ascensionados cruzarão os desertos de uma terra destruída abençoando-os. Muitas pessoas verão literalmente anjos e, estimuladas por uma força sobre-humana, seguirão suas pegadas de luz para ajudar na reconstrução de uma vida nova. A mudança da estrutura planetária será um advento espiritual no mundo todo. Ela será percebida pelas pessoas como um poderoso fogo em suas almas e elas notarão a grande força transformadora do espírito na matéria.

AlectAlectus na chama da unidade do Deus-Pai-Mãe, na an-cestralidade de todo o amor, rebobinará o fio da vida no coração espiritual. Alecta é a bobina na mão de Alectus, ao mesmo tempo em que mão e bobina são uma coisa só. Essa unidade é um elixir da Criação, na qual o Criador reside e sorri sua Sabedoria. Nos tempos vindouros, os homens olvidarão seu Eu finito e aprenderão a ser mão e bobina! Então a vida terrena será uma ponte única e espiritual pela qual as almas aspirarão passar para, na luz eterna, reencontrar-se com o seu Criador.

Sanctus.

10 — Tabori

Sete anos haviam-se passado. O profundo pressentimento de Tabori havia-se revelado correto. Seu velho amigo lhe deu um emprego de pintor em seu negócio. Graças à sua grande competência, a empresa teve um significativo aumento de prosperidade. Muitos fregueses faziam questão de ser atendidos por ele, pois os cômodos ficavam meticulosamente limpos e as paredes recém-pintadas brilhavam. Tabori era uma pessoa excêntrica mas, mesmo assim, era respeitado pelos seus semelhantes. Ele realmente não nascera esquisitão, não. Antes, a sua juventude cheia de percalços o havia tomado uma pessoa quieta e depressiva. A mãe de Tabori falecera um pouco antes do seu segundo aniversário. Até os oito anos de idade ele ficou morando com a família de sua avó, onde ele se sentia mais tolerado do que amado. Como viúva, a avó passou por muitas dificuldades para conseguir o sustento dos seus seis filhos. As costuras noturnas e a minguada ajuda da assistência social mal davam para uma humilde sobrevivência.

Certa manhã, os filhos encontraram a mãe e avó morta em sua cama. Paralisadas de medo, as mãos de Tabori se crisparam, por causa do susto, convulsivamente no lençol. Ele se lembrou das palavras do padre, durante as aulas de religião: "Deus ama especialmente os mortos. Porque eles dão seu último sorriso, porque a alma deles pode voar em direção às estrelas." Agora também a minha avó deu seu último sorriso, pensou ele, desesperado. "Em seguida, correu para o banheiro onde trancou a porta pelo lado de dentro e sapateando o chão, gritou como um posses-so: "Deus do céu! O que vai ser da gente agora? Eu estou com muito medo; por favor, nos ajude!" Então seu corpo flácido e tomado de dor insuportável desfaleceu. A assistente social, senhora Sonderegger e o seu colega, o senhor Schleimer, arrombaram rapidamente a porta e cuidaram do corpo já quase sem vida. Os seis filhos acharam sem custo um novo lar na casa de diversos parentes. Antes Tabori nem sequer imaginava que tornaria a vê-los.

Nós não sabemos onde deixar o menino", estrilava com voz tão aguda e alta a senhora Sonderegger que um calafrio percorreu Tabori. "Pobrezinho. O que o destino ainda reservava para ele? Ele parece ser fácil de lidar. Tem jeito de ser um menino obediente! Os tempos são difícieis e ninguém quer ficar com o órfão. E terrível, mas nossos esforços não deram nenhum resultado! E nossos esforços foram grandes, realmente grandes", dizia em voz alta a senhora Sonderegger para si mesma. Devagar, o colega Schleimer levantou a cabeça roliça e disse com voz rouca: "Como solução intermediária, eu proponho que mandemos o menino para o orfanato!" Visivelmente aliviada, a senhora Sonderegger disse: -"Uma proposta muito boa, senhor colega. Vou providenciar imediatamente o preenchimento do seu protocolo!" Ao cair daquela tarde, o diretor do orfanato veio buscar o menino. Imensamente oprimido, Tabori se perguntava por que o novo professor usava um hábito de monge. Quando o alto portal do orfanato se fechou silenciosamente atrás dele, ele se viu diante de doze monges da ordem, e compreendeu, então, que eles seriam responsáveis pelo seu futuro.

Altos muros e o respeito pelos eclesiásticos ocultavam a vida no interior do orfanato. E certo que as crianças recebiam uma quantidade suficiente de alimento que vinha da horta do convento e havia enxergas que serviam de cama. "Isso é melhor que o chão nu, pensava Tabori, mas em seus olhos escuros bruxuleava uma dor melancólica e profunda. Na escola, ele era esperto e dis-tinguia-se pela sua grande inteligência. Somente os castigos e as mortificações físicas humilhavam repetidamente sua alma. Apenas os sonhos a respeito de voar após a morte renovavam-lhe o ânimo e as forças. Entrementes, ele festejou seu décimo nono aniversário e, ainda, à menor falta cometida; ouvia: "Mahra, um passo à frente! O que você sussurrou para o seu colega?" E novamente o medo, seu velho conhecido há muito tempo, paralisava-lhe a voz e, gaguejando, ele forçava para dizer palavra por palavra pela garganta ressequida: "Perdão, padre Osvald. Com certeza eu não 'soprei'!" A vara de vime na mão do professor descia zunindo pelo ar, atingindo os dedos de Tabori. "Para você nunca mais cair na tentação de mentir! Depois do jantar, você vai rezar cinco terços. Sentado!" Assim comandava o monge com voz agastada. O rosto de Tabori assemelhava-se a uma parede de concreto. Nem a mais leve reação se podia perceber nele. Este será o meu último terço, pensou amargurado. Em dois dias vai começar a minha aprendizagem profissional como pintor de residência. Um fluxo de energia cálida perpassou por sua alma tornada tão solitária; contudo, seu rosto magro continuava inexpressivo e fixo. A capacidade profissional de Tabori determinou que a comunidade colocasse à sua disposição um quartinho simples, fora dos muros do orfanato. Com vinte e seis anos, ele casou-se com Alina.

11—0 Acidente

Qms a vontade do espírito, que as almas gêmeas AlectAlectus fossem duas pessoas distintas e que vivessem separadas, sendo provadas por muitos males terrenos a fim de que, mais uma vez, pudessem passar pelas experiências básicas dos seres humanos. As recordações da encarnação na Rússia, impressas em seus perispíritos, deveriam assim ser definitivamente apagadas. Desse modo, Felicia e Ciria aprenderam a superar as obscuridades do seu ego humano. Espiritualmente conscientes, ambas haviam escolhido antes do nascimento o status material de seus pais e muitas outras circunstâncias de sua vida atual, como pedra de provação. A experiência amarga e triste que Felicia passara na Rússia, quando houve a traição de que fora vítima Aymah e toda sua família, e que ela não pudera reverter, tornou-a de tal modo avessa a riquezas materiais que ela se sentia obrigada a compartilhar da miséria dos pobres. E assim, a vida abastada de sua família causava-lhe grandes problemas. Com Ciria, contudo, era completamente diferente. A penúria de seus pais recordava-lhe inconscientemente a injustiça que ela sofrerá em sua vida anterior na Rússia. Ela ansiava pela abastança que usufruira nos palácios de Seraphis - circunstâncias de que ambas só tomariam consciência muito tempo depois, paulatinamente.

Em face dessa ansiedade de alma, a infelicidade da qual eu, Kamakura, falo agora, oprimia o ânimo de Ciria de modo especialmente intenso. De mãos dadas, cantando alegremente a plenos pulmões, estavam um dia Alina e sua filha mais velha, Ciria, passeando pela floresta primaveril que recendia maravilhosamente. A alguma distância, seguia-as o pai, Tabori, porque os dois mais novos dos seus seis filhos, Sarah e Arabin, só conseguiam acompanhá-los a passos lentos. A cabeleira cacheada do menino de três anos, Arabin, assemelhava-se a flores em caracóis de ouro branco, que brilhavam expressivamente. Desde o terrível acidente sofrido um ano atrás, o mais novo era o filho mais querido de Tabori. Ele ainda se preocupava silenciosamente com a vida do menino. Fé e confiança ajudaram o pai devoto a transpor a hora do medo. Ainda agora, Tabori não prestava atenção especial à dor aguda que amiúde sentia na região do coração. Sorrindo, ele pensava: "A dor no meu coração é certamente a expressão do meu medo". "Você logo me conta outra vez a história do anjo da guarda?", tagarelava alegremente Arabin, arrancando deste modo o pai dos tristes pensamentos, que, instintivamente, o pequeno intuía. Antes que a resposta de Tabori o alcançasse, os irmãos Darigo e Ikra se aproximaram correndo e gritando estridentemente, cercando seu irmão mais novo. "Nós estamos brincando de índio, Arabin. Venha, vamos apostar corrida!" "Meninos, deixem o pequeno em paz!" disse Tabori com voz grave, cheia de preocupação. "Mas papai, nós só queremos brincar e ser alegres!" As duas crianças pulavam, extrovertidas como dois índios selvagens, e seus gritos altos: "bunga bunga horga honga" ecoavam no mato próximo. De repente, Arabin torceu o rosto comprido que aos poucos ia ficando cianótico e se transformando numa máscara fantasmagórica. Os olhos castanho-escuros intumesceram como dois riachinhos e grossas lágrimas começaram a escorrer sobre suas faces pálidas. A criança arfava aflita por ar, como um peixe em terra firme. Novamente, o pequeno estava sendo vítima de um acesso.

- Proibi vocês de mexer com o Arabin! - gritava pai Tabori, fora de si de medo. A segunda filha, Saris, deixou cair sua corda colorida de pular e acorreu rapidamente. Ela pegou as mãos dele e puxou os braços de Arabin para cima. Ao mesmo tempo, ela cantou com voz baixa e firme: "Os braços de Arabin fazem ginástica no ar e em breve ele será novamente uma criança sorridente!" Presa de um medo mortal, a menina de dez anos balançava com força, como estivesse em transe, os braços de Arabin para cima e para baixo, até que o pequeno começou a respirar normalmente. Para Saris, os minutos de medo pareceram um deserto infindável. Então Arabin abriu devagar os olhos brilhantes e murmurou, com voz fina: "Agora eu sou novamente uma criança sorridente!" Em seguida, seu pequeno corpo caiu profundamente esgotado. Espiritualmente ainda ausente, mas cheia de consolo, Saris sussurrou: "E você respira no vento, você respira no vento." Os braços de Tabori pegaram Arabin com cuidado. Cochichando, ele mandou que os três irmãos fossem correndo para a floresta chamar a mãe. Dos olhos escuros de Tabori corriam lágrimas e seu olhar fixo perdia-se na distância longínqua. Quando Alina percebeu o que havia se passado, ela se virou tomada de dor para Ciria. "Sou novamente culpada pelo que aconteceu com Arabin, mamãe", soluçava esta. Alina sorriu torturada enquanto apertava amorosamente a filha contra seu corpo quente. "Fique quietinha, minha querida. Tudo vai ficar bem." Suas mãos calosas acariciavam suavemente a cabeleira revolta da menina. Em seguida, ela se afastou depressa. Ciria sentou-se chorando no tronco de uma árvore cortada nas proximidades. "Senhor de bondade, não deixe o pequeno morrer, por favor, dê-lhe vida! Bom Deus. Você me ouve?" Soluçando, ela se atirou no chão macio da floresta escondendo seu rosto pálido nas mãos brancas como cera que se fecharam, crispadas, no solo quente. A lembrança do acidente acontecido há um ano a assaltou como uma sombra negra. Ela viu na sua frente a casa de fazenda perto da rua. Do outro lado, havia uma pequena capela. Os sons claros dos sinos soavam indiferentes. O relógio do campanário batia exatamente cinco horas. Naquele dia, Ciria havia sido incumbida de cuidar de Arabin, o irmão caçula. Ela ia a trilhar o caminho de volta para casa quando, de repente, ele se soltou de sua mão e, rindo, se aproximou correndo do chafariz que murmurava baixinho na frente da casa de fazenda. Os olhos de Arabin faiscavam de entusiasmo quando ele encheu a boca de água. Provocante, ele asso-prou a água diretamente no rosto de um outro menino. Fugindo deste, ele correu descuidadamente para a estrada. Os terríveis quadros da recordação passaram novamente pela sua mente: o baque surdo, quando Arabin quebrou o farol do caminhão com a cabeça, o guinchar ensurdecedor dos freios e o grito lancinante do irmão antes do silêncio total. Em seus pesadelos, ela via a infelicidade de outrora como se fosse uma mão negra, transparente, que oprimia o seu coração. Tudo o que ela tocava transforma-va-se instantaneamente em vidro partido. Ciria se recordava do corpo inanimado do irmão no chão. Longe da vida, ele estava inerte deitado numa poça vermelha de sangue como um pequeno anjo branco. "Irmã Morte, então você finalmente veio castigar o meu erro", disse ela, profundamente desesperada. "Você vai levar a alma de Arabin para junto de Deus? Por favor, deixe-o sobre a Terra e leve a mim no lugar dele! Aqui, na pátria dos homens, eu sou culpa e vergonha; mas no éter sem fronteiras do eterno amor do Criador, reluzirei como uma estrela incandescente. Querida irmã Morte, envolva-me com a sua túnica escura e cálida e devolva-me a vida eterna!" Ciria estava rígida como uma coluna aos pés do corpo aparentemente sem vida do irmão que ainda jazia no chão, e cada vez mais pessoas os cercavam. Quando Alina, que fora chamada, se aproximou correndo do inconsciente, a multidão dividiu-se em duas fileiras. Ela correu por essa ala como se fosse um desfiladeiro sem fundo. Soluçando, ergueu o pequeno olhando para a capela e falando alto: "Senhor, você me deu essa criança. Eu obedeço a Sua Vontade se quiser tomá-la de volta!" Então Ciria caiu desmaiada nos braços de uma vizinha.

Protegida e unida ao seu Anjo da Guarda, Ciria acordou numa melancólica manhã de inverno. Desde o trágico acidente do irmão, haviam-se passado sete meses sem claridade. Agora sim as crianças podiam voltar a falar e rir, pois Arabin já estava bem. Muitas privações e doenças se abateram novamente sobre a família, mas o amor irradiante de Alina era o consolador que tudo superava. As crianças já estavam adultas quando, inesperadamente, o pai Tabori faleceu de um infarto do coração. Em sonhos, Ciria viu sua alma desabrochar como um botão em flor nos mundos celestiais. Mãe Alina ainda pôde viver por longos anos, cercada amorosamente por seus filhos. E em muitas noites desses tempos difíceis, Ciria consolava-se com as mensagens de Pace:

Eu, Pace, uno-me ao seu perispírito e a preencho com o meu Espírito. Eu oriento a sua personalidade e afaço compreender que você é um elo importante entre as obrigações terrenas e a responsabilidade celeste. Você percebe cada vez mais nitidamente os grandes processos de desprendimento que ainda atuam em todos os planos do seu ser. A qualidade mais forte para aspirar ao mundo finito é a ausência de sentimentos de culpa. Somente assim você vai conseguir superar os sofrimentos e as tentações do mundo. A união terrena com a sua alma gêmea que se aproxima de você será um mistério. Ciria, mais tarde, para mergulhar eternamente na realidade espiritual durante a realização da unidade das almas gêmeas, você deverá aprender que a vida e a morte são idênticas. Muitas almas gêmeas virão compartilhar o seu exemplo como o mesmo sentimento. Como AlectAlectus você representa o presente e o futuro, mesmo que sua alma gêmea ainda não seja humanamente palpável para você. Saiba que tudo o que procura realização, mora no interior do seio cósmico do seu Ser Eterno. Interiorize profundamente estas minhas palavras e sinta que você é um aspecto da vontade criadora.

Sanctus.

12 — 0 Aniversário de Ciria

As seis crianças da família Mahra, três meninas e três meninos, brincavam na caixa de areia quando Tabori chegou cansado em casa. Seu chefe, Gwendi, o mestre dos pintores, alugou uma pequena casa popular para os Mahra, na qual eles puderam passar quatro anos felizes. Era verão. Ciria comemorava seu décimo primeiro aniversário. Não havia dinheiro disponível para convidar as amigas, mas mãe Alina sabia como transformar as necessidades de seus filhos em alegria. Assim, debaixo de uma amei-xeira, sobre o gramado, estava uma pequena mesa de madeira, o bem preservado presente da querida avó de Ciria. Os olhos febris de Ciria brilhavam, mas a gripe de verão não conseguia obs-curecer sua alegria. Suas faces, normalmente tão pálidas, ardiam feito duas maçãs vermelhas. Os lábios cantarolavam uma canção composta por ela mesma: "Silfidizinha Rigala, sua Ciria hoje não está. Continue brincando alegremente, seja contente e jovial; seja Lua e Sol, seja vôo e vento. Ciria continua sendo a sua criança mais amada. Silfidizinha Rigala, amanhã estarei novamente com você e nós nos divertiremos com o jogo dos 'fios de sombra'. Faremos tramas de luz e mostraremos nossa face alegre ao mundo." Alina parou na porta entreaberta do porão e contemplou sua sonhadora menina. "Ciria, querida, onde estão seus pensamentos?" perguntou ela sorrindo. "Ah! Eu estava justamente falando com a Silfidizinha Rigala. Nós costumamos brincar juntas no rio atrás da pequena capela. Cantei uma canção para ela. Eu sempre faço isso quando não posso encontrá-la." Alina aproximou-se da filha e, preocupada, apertou a menina contra seu coração.

Mamãe, como a nossa mesa está brilhante e bonita. Com que orgulho ela carrega os meus presentes! - Os olhos de Alina brilharam, ela pensou: "Ciria há de se alegrar com estas dádivas de amor." O dedal florido de Alina estava ali, cuidadosamente embrulhado numa folha da ameixeira. Uma agulha de costura escondia-se num retalho de tecido que fora embrulhado, por sua vez, em papel casca de ovo. Ali também havia um lápis novo, o presente comum de Alina e de Tabori. A irmã Saris e o irmão Da-rigo renunciaram às suas maçãs de merenda, e os dois mais novos presentearam a irmã mais velha com muitas flores multico-loridas do campo. "Mamãe: mais tarde podemos brincar de novo de 'vibrando no hálito da Terra e ouvindo a linguagem das plantas' ?" - A resposta de Alina perdeu-se na gritaria dos dois irmãos mais novos, que corriam rindo para Ciria e a abraçavam amorosamente. O campanário bateu quatro horas. "Daqui a pouco começa a minha festa", pensava Ciria, curtindo imensamente toda aquela agitação. Ela rodava em círculos até que uma forte tontura a jogou ao chão. Ao abrir os olhos depois de algum tempo, seu pai, para sua grande surpresa, estava sobre ela e a olhava com uma expressão de severidade. "O que você está fazendo no chão?" perguntou ele irado. Tremendo pelo corpo todo, Ciria le-vantou-se devagar. Como já acontecera tantas outras vezes, ela automaticamente protegia sua cabeça com ambos os braços, para se esquivar de uma possível bofetada. Mas hoje esta não veio. Tabori afastou-se calado e deitou-se para fazer a sesta, como costumava fazer freqüentemente.

Alina, marcada pela palidez e pelo medo, saiu da casa e mandou Ciria guardar os presentes no bolso do avental. Depois, ordenou que as crianças fossem para o porão e que permanecessem ali em silêncio até que fossem chamadas. Ciria se perguntava por que, às vezes, seu pai se comportava de modo tão estranho. Ela ainda não sabia naquela época que Tabori sofrerá um choque quando criança. Mesmo assim, Ciria o amava fervorosamente. Incansável, ela lhe perdoava todos os seus terríveis acessos, como, por exemplo, quando ele destroçava a árvore de Natal, quando batia em seus filhos porque estes riam alto demais, ou quando, por motivos não esclarecidos, ele se trancava durante dias no quarto de dormir. Por outro lado, papai também sabia ser muito amável, consolava-se ela. Sentados em círculo, segurando-se firmemente pelas mãos frias e úmidas, as crianças Mahra permaneceram silenciosas no porão. Para quebrar o feitiço do medo que se havia infiltrado neles, Ciria perguntou a seus irmãos: "Vocês se recordam da grande alegria que papai nos preparou no verão passado, quando ele assou um delicioso bolo para nós?" Em uníssono, as cabeças anuíram algumas vezes silenciosamente e nos olhos arregalados rebrilhou uma centelha de esperança. "Nós vamos pensar só nisso agora e ficar bem quietos e bonzinhos!" Com um olhar sério, Ciria contemplou os dois irmãos mais novos. Eles compreenderam a intimação e, cochichando, reforçaram a promessa de se manter em silêncio. Às dezoito horas, Alina libertou seus protegidos e disse mais uma vez: "Vão dormir comportados, meus queridos. A noite há de saciar a fome de vocês e, amanhã, nós vamos brincar de 'vibrando no hálito da Terra'." Silenciosamente, eles obedeceram. Com cuidado Ciria escondeu seus presentes de aniversário debaixo do avental que ficava curto demais. Antes de adormecer, ela pediu que seu Anjo da Guarda se manifestasse. Assim que ela deslizou para o sono, seu corpo astral flutuou em direção do templo etérico do conhecimento de Pace. Súbito, um vulto resplandecente apareceu à sua frente, dizendo: "Tenha fé na minha luz! Eu Sou o seu amoroso Anjo da Guarda Nikolaus."

Minhas palavras são ondas elétricas, que percorrem o seu corpo trazendo-lhe harmonia. A palavra EU SOU dissolverá um dia a aflição e o luto em seu perispírito. A chuva de bênçãos a consola e na liberdade do espírito você é essa chuva abençoada. Amor e graça! Bênçãos de Deus!
Aquele que interiormente extasiado anseia pelo Espírito Criador, que almeja o eterno, encontra-se no caminho do Mestre. Minhas vibrações de amor incandescentes permeiam você. Quando a consciência divina AlectAlectus começar a se manifestar na Terra, você não terá mais que tolerar qualquer dor na sua natureza e no seu perispírito. Pode uma águia segurar o céu ou um peixe o oceano? Após o reencontro com sua alma gêmea, um profundo processo de evolução iniciar-se-á para sua alma gêmea terrena. O caminho será íngreme. Você e sua alma gêmea terão que passar por um período de experiências carregado de sofrimentos, até que sua existência humana seja transmutada num centro de amor verdadeiro e impessoal. Então a unidade de suas almas poderá refletir o amor cósmico na condição de existência terrena. Suas personalidades deverão repousar continuamente no espírito de Pace. Para esse fim, vocês vieram para a Terra como almas gêmeas. Qualquer unidade manifestada permite que o Espírito Eterno se expanda em todas as direções. Neste milênio que ora se inicia, os perispíritos das pessoas criativas puderam mergulhar durante períodos criativos no fluxo do Espírito Eterno. Elas se uniram aos pensamentos e sons cósmicos e manifestaram-se em obras peculiares na Terra. Mas logo recaíram novamente sob as leis da matéria bruta. Em contrapartida, as futuras almas gêmeas sempre se manterão ligadas ao fluxo do Espírito Criador, pois elas, exclusivamente a serviço de Deus-Pai-Mãe, servirão à chama da unidade. Seus atos e seu ser estarão em plena comunhão com a vontade do Grande Um, e portanto, jamais deixarão o Fluxo Gerador. Ande passo a passo e confie que Eu estou lhe guiando. Eu me encontro no seu interior e você nunca está sozinha. A chuva de bênçãos é a sua proteção, pois EU SOU ela.
Subitamente, a aparição de Nikolaus se desvaneceu e um forte jorro de luz surgiu diante da visão sutil de CiriAlectus. Sua voz ressoou como música das esferas:
Eu. Pace, lhe asseguro: nada é difícil! A imaginação humana é que materializa os sofrimentos. Cada onda do tempo que rola bate nas margens da polaridade e gera novos momentos de separação. Os perispíritos amadurecidos clamam pela unidade universal. Ela doa as forças de Deus-Pai-Mãe ao desperto afim de que o Espírito, nascendo eternamente sobre a Terra, encontre sua manifestação. As pessoas que já têm consciência, aprenderão a sentir o toque amoroso dos Anjos e dos Mestres Ascensionados. Assim como a linha traçada no horizonte pelo Espírito Criador define a expansão do espaço, não sendo apenas uma linha rígida, os homens amadurecidos entre os homens se tornarão simbolicamente linhas que fluem. Eles serão realidades espirituais e sempre novos eflúvios do Amor Criador. Assim que os perispíritos das pessoas puderem se amoldar ao Deus-Pai-Mãe, elas entrarão em contato com os acontecimentos multidimensionais do Universo e uma magnífica Criação, ainda não compreensível ao intelecto, começará a despontar.

Sanctus.

Quando Ciria despertou desse sonho, sentiu-se secretamente fortalecida e cheia de recordações celestiais. Mais tarde, as palavras de Pace voltariam novamente à sua memória.

13 — A Despedida

Sobre a cama de Ciria estava uma mala marrom, bastante gasta. Presa na correia de couro uma etiqueta cinza-claro com os di-zeres: "Mademoiselle Ciria Mahra, Institut pour Jeunes Filies, Rue de la Reine, Bruxelles." A hora de se despedir de seu lar havia chegado. Ao contrário de Alina, Ciria não conseguiu sentir alegria nem gratidão por poder freqüentar a escola de comércio em língua francesa. Graças à intervenção do padre local, a madre superiora do internato havia anuído à proposta de aceitar Ciria como voluntária. Ela lhe ofereceu a oportunidade de pagar a escola com trabalhos domésticos. Ciria conteve um soluço que teimava em fazer-se ouvir. A certeza de não rever sua família por um ano e meio deixava-a muito abatida. Tristemente, ela examinou o conteúdo minguado da mala e lágrimas de desespero encheram seus olhos. Meticulosamente lavadas e dobradas com precisão, as peças de roupas empilhadas na mala de viagem: três saias azul-marinho de pregas, dois pulôveres desbotados nas cores branco e azul-claro, uma blusa cor-de-rosa, lingerie branca remendada, um casaco de lã cinza-claro, quatro aventais de retalhos, feitos com esmero à mão, e dois pares de sapatos, respectivamente de verão e de inverno. Finalmente, Ciria se decidiu; respirou fundo e com gesto severo limpou o rosto molhado de lágrimas. Orgulhosamente, olhou para os três pares de meias soquete tricotados por ela mesma e para as meias cinza-claro. Suas mãos pálidas tatearam algo embaixo do cobertor, que escondia cuidadosamente o maior tesouro da sua atual existência: um par de meias-calça de nylon, o presente de despedida de seus pais. Com carinho, ela as colocou sobre o pulôver preferido; em seguida, suas mãos procuraram no bolso do seu avental a sua longa trança loura, que tivera permissão de cortar. Ainda brilhando vivamente, a trança assumiu o lugar de honra, ao lado da meia-calça. Novamente, ela respirou fundo e sentiu-se realmente adulta pela primeira vez. "Ninguém pode desconfiar da dor na minha alma", pensou ela, firmemente determinada. "Eu quero tentar ser grata e deixar os meus pais orgulhosos."

Era fim de setembro. No coração de Ciria não só roía a dor da despedida do lar paterno, mas também sentia falta do maravilhoso calor do verão que se findara. Mesmo que nesse ínterim ela tivesse completado quatorze anos, ainda se ocupava com seus dois jogos preferidos, que Alina lhe ensinara quando criança: "Vibrando no hálito da Terra e Ouvindo a linguagem das plantas." Também nesse verão os jogos foram muito animados e lindos. Muitas vezes suas pernas compridas corriam, como que levadas por asas, para a floresta espessa atrás da pequena capela. Ali ela escondia sua cabeça quente no capim fresco. Em profunda entrega, ela ficava atenta ao ritmo do mundo. Com leve movimento, a consciência de vento bafejou a natureza e Ciria ouviu seus sete sons. Ela os acompanhava cantando alto quando, fascinada, conseguia se afinar em uníssono com a escala da Terra. Em momentos como esse, sua natureza sensível repousava em harmonia com a Mãe-Terra.

As raízes grossas das velhas árvores, dignas de honra, vibravam em mi; as mais delicadas, porém, vibravam em dó maior. As correntezas ocultas dos inúmeros riachos geravam melodias suaves de fá até dó maior. O cântico místico da natureza ativava as forças ocultas da alma de Ciria e, fortalecida, sua clarividência entrava em cena.

Seu olhar absorto procurava a serra próxima. Fascinada, ela observava os rostos pétreos dos gigantes adormecidos da serra. A aura deles envolvia-os como um manto azul e lhe parecia que ele drapejava livremente ao vento. Com grande entusiasmo, Ciria cantarolava alternadamente em dó menor e em ré com eles. Os corpos pesados de rocha erguiam-se altos para os céus e emprestavam ao observador um impressionante quadro de força. Sempre que o sol se punha atrás dos picos das montanhas, havia um grande sossego debaixo da terra. O ritmo da sua respiração se espaçava, perfeitamente audível para Ciria, e ganhava em profundidade; todos os sons da natureza regozijavam-se ao mesmo tempo em dó menor. Ciria amava indizivelmente esse uníssono e tinha a impressão de que um fogo invisível começava a crepitar no centro da Terra. Ela conhecia os incontáveis Espíritos da Natureza que faziam a vigília nos mundos etéricos. Mergulhada em seus pensamentos, Ciria pensou: "Ó divina Mãe Natureza, quando fecho os olhos, você me acolhe protetoramente no seu mundo de perfeita harmonia. Eu observo os seres não-humanos e a vida invisível se manifesta em minha alma. Eu ouço o cântico das sereias, das ninfas e das ondinas que povoam as águas. O vento carrega seus sons místicos por sobre os mares de todos os continentes. Assim, abençoadamente, você é ativa em todos os países do mundo. Elevo meus pensamentos amorosos a você, Mãe-Terra. Meus lábios balbuciam uma oração e, alegremente, eu sinto a grandiosa ligação entre os anjos e a natureza. Juntos, eles pro-vêem amor e luz para o interior de toda a vida. Eu vejo sua incansável lida na trama infinita da Criação. Ó divina Mãe Natureza, não está longe o dia em que fecharei os meus olhos para sempre e repousarei eternamente na sua harmonia."

O corpo insensível de Ciria se espreguiçou prazerosamente. Agora, ela repousava de costas e seus olhos ofuscados piscavam olhando o céu sem fim. Esquecidos estavam a pobreza e o sofrimento. Em profundo estado de concentração espiritual ela começou a falar com as árvores e as flores. Ela lhes contou sua vida e cada inspiração a libertava mais um pouco do seu pesado fardo terreno. Esses jogos envolviam a sensível Ciria como fios de uma teia de aranha num casulo protetor. Ela se perdia completamente neles e até o chamado de sua mãe passava despercebido. Um dos irmãos, às vezes, tinha de arrancar a menina dos seus devaneios. Nesses momentos o rosto de Ciria parecia ainda mais pálido do que de costume e seu olhar absorto traspassava com estranheza seus semelhantes sem, na verdade, os ver. Quando a força de Alina não era mais suficiente para consolar a filha, ela chamava pelo espírito do ar "Adimil", sobre o qual às vezes Ciria contava histórias lendárias. Alina pensava: "Ó maravilhoso, celestial redemoinho de vento, venha voando e console a minha menina!" Então ela convidava amorosamente Ciria para ir ao terreiro e brincar com o vento. Era uma peculiaridade de Ciria deixar cair imediatamente os objetos que tinha nas mãos quando a mãe a mandava brincar ao ar livre. Então ela corria cruzando os campos e prados; livrava-se dos sapatos e meias, gritando de júbilo. Às vezes o vento soprava fortemente no seu cabelo despenteando-a amavelmente, insuflando de força seus pulmões, até que ela, rindo, lutava para respirar. "Adimil, seja suave e bom!" Ela exultava, fora de si de alegria nas correntes de ar e momentaneamente, qualquer tristeza era levada pelo vento. Antes que ela iniciasse o caminho de volta com o coração aliviado, fazia questão de fazer fluir sua gratidão em forma de alegria para a Natureza. Nesses momentos ela rezava alto e pedia a Adimil que ele soprasse com tanta força que sua oração chegasse até Deus. "Querido grande e divino Deus, diga a Alina que você me ouve sempre e que o seu olhar está no meu coração. Eu não posso ver o seu olhar, mas, quando oro e clamo alto por você, eu sinto a sua proximidade. Querido Deus, devo deixar em breve a minha pátria; por favor não esqueça o meu novo endereço; fique comigo para que eu não chore na despedida." Enquanto Ciria ainda rezava, um indizível sentimento de felicidade a invadiu e uma profunda fé em Deus envolveu-lhe o coração. Na verdade, Pace havia tirado a aflição de sua alma, enquanto ele a fazia tomar conhecimento do seguinte:

Toda alma encarnada traz de vidas anteriores as boas e as não tão boas qualidades geradas como capital espiritual por superar na vida seguinte. Além desse crédito, alguns perispíritos progressistas lembram-se também dos conhecimentos espirituais de sua última e sutil vida, que o intelecto aprende a assimilar durante o decorrer da evolução terrena. Esses processos de vida de longa duração elevam gradativamente o perispírito para as esferas mais próximas. Mas, às vezes, acontece que os mesmos ainda não conseguem suportar a alta freqüência da nova dimensão e, em virtude disso, recaem nos seus antigos padrões de comportamento. Imediatamente, a lei de causa e efeito entra em cena eoEu Superior exige uma próxima encarnação terrena. Esse processo de viver, morrer e viver se estende até que o homem, desenvolvendo a crescente faculdade de conscientização, reconheça a legitimidade dessa lei e aprenda a aceitar a vontade espiritual, que é, enfim, a vontade do Criador. Em vista disso, o sofrimento adquire um sentido mais profundo e, na crescente compreensão do amor, pode ser gradativamente dissolvido.

Jesus Cristo anteviu no Getsêmani como o sofrimento espiritual e físico pode se transformar no germe da ressurreição. Ele mostrou aos homens como o Espírito adquire poder sobre a matéria densa e sobre a matéria sutil, submetendo-se à vontade espiritual. Seu testemunho ensina a humanidade a aceitar o sofrimento, não como um fardo opressivo, mas também como semente da ressurreição. O perispírito que se desenvolve no mundo humano ou sutil aprenderá a sentir na dor o hálito da compaixão do espírito universal que o aprimora, conferindo-lhe uma força que cura.

O mensageiro das almas gêmeas vindouras, AlectAlectus, envia desde agora o espírito de sua unidade para o reino da Terra! Ele também o envia à frente do seu tempo, quando o prisma de culpa e pecado for dissolvido e a luz límpida, sem refrações, do Espírito Criador puder agir! A força do seu amor transpassará o Universo e será percebida por toda alma como a luz que leva ao Absoluto e à felicidade. Inúmeras almas gêmeas estão amadurecendo neste espírito e deverão espalhar harmonia na Terra. Assim está escrito. Ci-riAlectus, espírito do meu Espírito, transmita o meu amor à outra metade de sua alma que ainda vive separada de você e sinta a vontade universal de revelar o amor do Espírito da Criação. A força do amor transpessoal que o centro de sua alma gêmea irradia é um aspecto da nova chama na qual muitas almas gêmeas evoluirão e desabrocharão. Eu, Pace, estou trabalhando com você para instituir novamente na Terra o reino dos céus. As almas gêmeas serão a luz que norteará o mundo com fé e consolo!

Sanctus.

14 — 0 Lado Sério da Vida

Queridos humanos, quando os sofrimentos os oprimirem e as sombras do mundo obscurecerem sua alma, pensem em elevar seu olhar para a resplandecente luz que brilha em seu interior e, assim, perceber o seu Eu Superior. Sintam seu amor e sua força construtiva em seu coração! Fiquem calmos a confiantes e saibam que sua luz pode superar as trevas de vocês! Kamakura saúda com amor os homens do reino da Terra.

Também Felicia havia chegado numa idade em que ansiava por esse tipo de consolo. O outono havia chegado. A Segunda Guerra Mundial bramia em todo seu horror. Os homens de todas as nações esperavam pela paz; somente alguns poucos ainda tinham fé na vitória. Felicia estava servindo no trabalho obrigatório onde se alistara logo depois do exame final do curso secundário. Não era apenas o fato de estar longe de casa; muito ao contrário, ela se encontrava entre mulheres jovens e precocemente amadurecidas, de um outro nível social. Ela trabalhava junto com simples serviçais. Felicia não conseguia comentar uma única palavra sobre o seu maravilhoso lar. Novamente ela teve a sorte de ser amada como uma criança por aquelas pessoas tão diferentes. Com admiração, ela constatou por quantas amargas experiências da vida aquelas jovens mulheres já haviam passado.

Num domingo chuvoso, as moças estavam sentadas fora do alcance da vista da inspetora dos barracões que serviam de dormitório. A monotonia rondava. "Sabe, Felicia, o que a gente gostaria de fazer? Transformar você numa mulher da sociedade! Você ficará muito bonita! Nós queremos maquiar você de verdade e soltar o seu cabelo preso", tagarelavam as cabeleireiras e maquiadoras com crescente bom humor. Para isso, elas já haviam contrabandeado o necessário para dentro do acampamento, e não levou muito tempo para que Felicia se transformasse numa aparição completamente diferente: surgiu uma fina dama de sobrancelhas arqueadas, maçãs do rosto coloridas de carmim, boca sedutora e cabelo artisticamente penteado. Todas bateram palmas e executaram uma dança de alegria; ela era muito querida! Elas eram muito gratas pela ajuda que Felicia lhes prestava quando, falando com eloqüência, intervinha em favor daquela que, no momento, era vítima das intrigas da inspetora.

Felicia descobriu que a saudade de casa é uma doença grave. A impressão de nunca mais conseguir sair daquele tormento e de morrer ali, fazia-a sofrer muito. Certo dia, ela correu irada para o barracão vazio e chorou desesperadamente diante da insensibilidade de uma líder que sempre a observava com inveja. Então uma sombra desprendeu-se da escuridão. Eily adiantou-se igualmente chorosa e, abraçando Felicia, soluçava: “O que foi que fizeram com você? Comigo, tudo bem. A bronca é merecida. Sabe, eu me encontrei novamente com um dos meus antigos companheiros e eles me pegaram em flagrante. Mas você, a melhor de nós, como alguém pode acusá-la de alguma coisa? Eu lhe digo: se mais pessoas fossem como você, minha vida com certeza seria diferente!"

A grande guerra estava no auge. Incontáveis lágrimas rolavam entre as moças quando as notícias da pátria destruída e dos pais ou irmãos tombados chegavam. Felicia era solidária e consolava toda colega que fosse atingida com a força da chama de sua fé na única e imorredoura vida. Um pouco antes do término do trabalho obrigatório ela adoeceu. Na primeira noite, antes de ser internada no barracão que servia de enfermaria, Felicia ficou junto de suas companheiras. Era um outubro amargamente gélido. As finas paredes do barracão mal continham a friagem. Um aquecedor de ferro amornava o recinto. Apesar da proibição, Lily tinha consigo lingerie de seda. A noite toda essa alma abnegada esquentou as peças de roupas no aquecedor e as colocou, altemadamente, em volta da garganta inchada e dolorida de Felicia. Esse gesto de amor ficou gravado pelo resto da vida em sua lembrança e despertou sua simpatia pelas "meninas perdidas", pois antes do trabalho obrigatório, Lily havia sido uma prostituta da cidade. Finalmente, o acampamento foi fechado e Felicia levada doente para casa. Assim que chegou, iniciou-se um intenso; processo de relacionamento com sua amiga Urma. Seguindo uma exigência de Urma, ela jurou fidelidade à amiga que se sentia tão sozinha e, com isso, renunciava cada dia mais à sua própria vida. Ela esperava, assim, salvar a alma de Urma com o seu sacrifício. Ambas tinham gostos iguais quanto a música, arte e literatura e procuravam resgatar na cidade quase destruída pequenos presentes como livros ou quadros. Qualquer achado era motivo de festa.

Era fim de maio. Em Fontino, as macieiras estavam em flor. As duas moças haviam se sentado sob a sombra da maior árvore, sobre um cobertor. O gramofone reproduzia um som tão fanhoso que foi necessário colocar uma bucha de pano no alto falante que, no momento, tocava a área da famosa suíte de Bach em ré maior. As abelhas zuniam, o céu resplandecia num maravilhoso azul sem nuvens. Urma havia soltado seu cabelo e a farta cabeleira loura cobria seus ombros. O rosto gracioso com uma pinta pouco perceptível estava voltado para Felicia, e os olhos pequenos e críticos azul-escuros fitavam-na ardilosamente. Felicia sentiu com temor que ia novamente ser vítima de uma de suas agressões. "Você já comeu a sorte às colheradas quando era criança", disse Urma sorrindo, apoiando-se num dos cotovelos. Depois, olhou bem para rosto de Felicia. "Você foi mimada demais e não tem noção do que seja o mundo. E normal você também não é. Você não quer saber nada sobre a linguagem dos sentidos. Você é uma asceta que não pôde sê-lo e uma santa sem esperanças!" Os olhos de Felicia encheram-se de lágrimas. Ela prendeu-se à palavra "mimada demais" e, para se proteger, em pensamentos, procurou voltar ao tempo do duro trabalho obrigatório. Vieram-lhe à memória os primeiros dias no acampamento, naquele amontoado de barracões primitivos, sem amor, no meio de uma floresta escura de pinheiros. A fria sala do refeitório com aquele quadro insuportável do "Führer" surgiu outra vez diante de seus olhos; a terrível situação sanitária e como ela nunca perdera tempo falando sobre todas essas circunstâncias, enquanto que as outras, ousadamente, davam vazão à sua indignação. Mas, realmente, recordando, reconhecia agora o quanto aquelas moças eram muito superiores a ela em questões práticas. Na sua casa, ela apenas cortava as flores e fazia o arranjo dos vasos para todos os ambientes da casa. Ela nem ao menos sabia como se varria o chão; que dirá então de como manter um aquecedor de carvão funcionando? Ela apenas sabia das coisas que não se tinha de aprender, e nestas ela era aplicada ao máximo. Durante toda a vida ela estivera cercada de serviçais com quem se entendia muito bem e que ficavam felizes quando podiam prestar-lhe algum favor. Eles sentiam o respeito e o amor pelo próximo que ela lhes dedicava, especialmente em virtude de sua condição social. Mimada demais, sim, mas também usara do direito de exigir o mínimo possível. Acaso isso não conta?

- O que você tem? - insistia Urma. - Por que está chorando? Eu só quero ajudá-la a compreender melhor o mundo!

- Você me visitou uma vez durante o trabalho obrigatório do Estado, em Barenberg, e eu lembro que você se queixou da viagem complicada e a longa caminhada quando fui buscar você com uma autorização especial na estação privativa de trem -disse Felicia. - Você pôde me acompanhar num dia inteiro de trabalho, o que também conta como um obséquio da líder. Você acha que eu me comportei como criança mimada?

- De maneira alguma, pois você era amada por todas e elas
sempre a ajudavam quando tinha alguma dificuldade com tarefas práticas.

- Certamente - disse Felicia, pensativamente. - Eu reconheço que me falta algo em questões práticas, mas só fiquei consciente disso agora.

- Você é uma pessoa muito amável, mas lhe falta algo mais, principalmente a aptidão que a tornaria uma verdadeira cidadã da Terra. Você nunca vai se adaptar e não vai conseguir se fixar. Neste mundo temos que pensar em nós mesmos e batalhar arduamente. Não podemos nos entregar a idealismos. Você sempre parece estar do avesso e quer transformar essa latrina da vida em paraíso. Isso é ridículo!

- Não, não se trata disso! - exaltou-se Felicia, com o rosto vermelho e os olhos faiscando. - Se não começarmos por nós mesmos a estender os braços e, num amplexo, trazer os aflitos até nós... você deveria saber disso, pois é tudo o que fica sabendo por mim... se não compartilharmos nossas dádivas de fé, compreensão e confiança com os nossos semelhantes, nada se modificará!

- Está certo, minha tulipa de fogo - assim Urma costumava chamar Felicia quando esta começava a arder de agitação -, você está certa, mas não ganha nada com isso. Cada qual tem que se virar sozinho. Eu também. Certamente que eu amo você, como jamais amarei outro ser humano, mas um dia eu vou procurar o meu prazer todo particular. Nessa hora, por onde andará a minha “única trança sagrada"?

Felicia sentia hoje tão fortemente como nunca que ela havia se perdido na alma de Urma e que manter a harmonia com ela se transformara numa necessidade vital. Ela fitou o mar róseo-esbranquiçado de flores balançando nos galhos fortes acima de suas cabeças por onde o sol, que estava a pino, se infiltrava. Ela queria salvar aquela alma de qualquer jeito. Silenciosamente, ela se perguntava com o coração cheio de lágrimas: "O meu Deus, por que eu estou aqui? Será que cheguei cedo demais? Este mundo jamais compreenderá o amor e a luz, a doutrina da ressurreição do mundo, da matéria densa para a mais sutil, que eu queria lhe levar. Eu só tenho causado confusão. Realmente não tem sentido quando preparo alegria para aqueles que me circundam; quando irradio felicidade e ânimo para aqueles que me são caros, e aos estranhos, quando procuro consolar todo aquele que está triste. Ainda há pouco, ouvi claramente o que o homem realmente quer. Cada qual tem que se preocupar consigo mesmo. E eu, meu Deus, eu apenas consigo me preocupar com os outros! Quem melhor que Você, que me criou, sabe disso? Eu não desejo nada para mim mesma."

Interiormente ela já podia ouvir o que Urma responderia: "porque todos os seus desejos sempre foram satisfeitos".

- Sabe, minha sábia Mãukul - que era o seu apelido quando queria rebater a "única trança sagrada" -, sabe? Eu ainda tenho um desejo e este é que o seu coração se torne tão límpido e cheio de Deus como o meu. Eu vou fazer de tudo, não vou dar sossego aos meus assistentes invisíveis até que a harmonia, a ingenuidade e a alegria que eu senti antes do nosso encontro sejam transmitidas a você. Todos os dias você me convence mais de que pertence muito mais a este lugar do que eu. Eu não vou desistir de você; ao contrário, vou me aprofundar cada dia mais em você. Espere só! - A música tinha terminado fazia tempo, Urma agora estava deitada relaxadamente com a cabeça apoiada no braço dobrado e, sorrindo, disse apenas: "Estranha no mundo!"

A noite, Felicia sonhou com seu lar espiritual. Seu branco Anjo da Guarda, Wunsilija, cuidava da sua alma que ardia de dor. Enquanto ela flutuava pelas claras esferas, Wunsilija consolava sua protegida com as palavras: "Continue confiando. O amor eterno de Pace a mantém protegida. Na escola terrena sua alma aprende a suportar a pressão terrestre. Com essa prova, sua alma concordou antes de você nascer, EU SOU consigo! EU SOU a luz da sua alma, que clareia os seus caminhos!" Quando eles chegaram a um jardim de rosas brancas, Wunsilija entregou o corpo astral de Felicia às vibrações das palavras de Pace, que emanavam de uma coluna de luz cor-de-rosa:

FeliciAlecta, uma chama de luz branca a precede na Terra iluminando se:, caminho com nova força. Ela manifesta minha energia luminosa e minha paz. A chama azul do Deus-Pai-Mãe cósmico dispensa a você e a todos os seres encarnados um fortalecimento perceptível. Suas forças amorosas deverão agir pacificamente atendendo d hora do meu chamado em diversos lugares. A compreen-sãc das conseqüências e o controle dos sentimentos são imprescin-aiveis. Somente a entrega à vontade do Criador possibilita superar as situações da forma mais conseqüente. Você deverá, como ser humano, servir ao Espírito criador e aprender a dominar qualquer situação. Felicia, no dia do reencontro com a sua alma gêmea na Terra, forças poderosas iniciarão a construção de um corpo de luz. Ele será o suporte de minhas energias e o seu casulo de proteção sutil bem como o da sua alma gêmea. Qualquer freqüência que não seja idêntica à minha poderá invadi-lo. Ele também será o órgão sutil da clarividência e da clariaudiência que servirá ao seu intelecto terreno como instrumento de conhecimento cósmico. Esse corpo de luz será um aspecto do fluxo vital universal e sua força de amor irradiante modificará as almas em ascensão, sem, contudo, as doutrinar. Suas energias de paz permearão os corações dos homens e despertarão em suas almas o conhecimento de que o Criador age em todo ser. A força geradora do Um eterno possibilita a expressão da geração e a concepção espiritual no plano terreno e extraterre-no. Assim, flui do Nagual para a Criação manifestada, dando à luz a novos aspectos de amor. Uma contínua e maravilhosa expansão do fluxo de amor é assim possível.

Subitamente, o branco Anjo da Guarda estava novamente em pé perto dela. O corpo astral de Felicia ardia e, visivelmente, irradiava calor. Wunsilija sussurrou para ela: "Você é portadora da alegria celestial! Felicia, as palavras de Pace deverão consolá-la":

No grande reservatório de amor da consciência de Alectus, as minhas forças amorosas começam a se mexer e enviam os primeiros sinais luminosos ao seu ser físico. Eles circulam nele, esses pequenos astros, tornando-a um instrumento bem afinado.

Eu, Pace, falo à eterna alma gêmea: “Venha, amada unidade, não receiel Veja, tudo se rende ao meu espírito! Você obedecerá ao meu chamado e seguirá a minha chama branca. A beleza do seu Ser prenhe do Espírito florescerá em sua vida terrena e essa força trans-passará com calor incandescente muitas almas gêmeas para que, assim, transformem a humanidade. Assim está escrito na lei espiritual. As almas gêmeas obedecerão ao poder de amor da vontade criadora para que o mundo dos homens se torne novamente o reino de Deus. O amor das almas gêmeas é a Sabedoria em atividade em todos os planos do Universo.

Este consolo era maravilhoso e necessário, pois os tormentos da alma de Felicia aumentavam ameaçadoramente. Ainda era possível ocultar seu estado dos entes queridos mais próximos, mas ela sentia que isso não podia continuar assim. A natureza da Ur-ma havia se fortalecido ao seu lado e muitas atitudes de Felicia, que ela a princípio rejeitara, foram depois adotadas. Contudo, os embates espirituais entre as duas moças haviam se acirrado. Felicia começava a batalhar pela paz interior de Urma e lutava por incutir em seus pensamentos uma atitude mais conciliadora que a orientasse a uma nova direção. A primavera havia chegado novamente e o calendário assinalava alguns dias antes da Semana Santa. Mergulhada em pensamentos, Felicia andava pelos caminhos do jardim que vicejava nos canteiros emoldurados por arbustos esmeradamente aparados, recordando-se da conversa que tivera com Urma há aproximadamente um ano. De repente, seu interior se contraiu. Ela sentia em si a força de uma árvore, de um carvalho, assim ela pensou, pois os carvalhos são fortes. O pensamento sobre uma outra Semana Santa sobreveio-lhe com misteriosa força. A lembrança do acontecimento de quase dois mil anos atrás estava quase se materializando diante do seu espírito. E uma felicidade a subjugou, uma felicidade tão grande que sentiu a elevada consciência do seu Ser obtendo forças ao contemplar, em sonhos, o histórico acontecimento da crucificação de Jesus Cristo. Com respeitosa admiração, Felicia constatou que esses sentimentos de outrora correspondiam ao seu sentimento precoce de criança e, ó milagre, à sua felicidade momentânea. De alguma maneira, esse sentimento estava ligado ao conceito de sacrifício pessoal. Ela compreendeu, espontaneamente, que deveria pôr em ação suas palavras de quase um ano atrás para Urma: "Eu não vou deixar você, Urma, muito pelo contrário, vou me intro-jetar em você e na sua alma, para salvá-las." Com júbilo interior ela apenas conseguiu pensar: "Então estarei livre, completamente livre!" Distraída, fixou os olhos nos seixos claros e pequenos de cristal do caminho do jardim onde ela permanecia, quem sabe há quanto tempo.

15 — A Semana Santa de Felicia

Eu SOU o amor no interior de todo homem, de toda alma, de toda vida! Kamakura saúda com bondade. Toda alma que sente dor e carrega corajosamente a pesada cruz do mundo, trabalha junto na construção das forças de luz. Servir à vida sempre exigirá sacrifícios. Para o cosmo, essas são energias curativas que aumentam a freqüência nos planos sutis e a vibração dos planetas.

Em Felicia, a tristeza que Urma lhe causava com as repetidas reclamações aumentou imensamente durante o decorrer do ano. Seus ouvidos retumbavam com as acusações do ponto de vista de Urma, que achava o mundo complicado e completamente entregue a si mesmo, ao contrário de Felicia, que acreditava na manifestação divina da vida finita, que vence toda resistência. Em virtude da aproximação da Páscoa, Felicia lembrou-se de sua promessa e disse de coração leve para Urma: "Durante a Semana Santa que vem eu vou comungar inteiramente com a vítima do sacrifício de amor, Jesus e, será por você! Estou firmemente convencida de que, através da minha entrega, sua aversão à vida se transformará. Você me é cara demais para que continuemos como dois galos de briga vida afora. Temos que clarear as coisas na nossa amizade para termos paz." O que fazia Felicia agir desta maneira já fora predestinado pela sua alma imortal. Na sua opinião, esse era o único caminho que a levaria novamente na direção certa. Em virtude do sentimento de amor de sua alma por Jesus Cristo e da confiança de que todos os acontecimentos eram necessários, ela imaginava ter encontrado o sentido da finalidade. Ela apenas comunicou aos seus parentes que faria um retiro espiritual na Semana Santa. Ninguém a proibiu de fazer isso.

No Domingo de Ramos, Felicia lembrou-se em espírito como naquela época, há dois mil anos, ela percebera o alegre tumulto e o júbilo dos habitantes de Jerusalém, e era como se cristais pontiagudos se cravassem em seu corpo sutil. De segunda até Quinta-feira Santa ela não viu mais nada a não ser um mar cinzento. Mergulhada nele, toda a criação da Terra, como se estivesse diante da questão: soçobrar ou sobreviver. Contudo, na Sexta-feira da Paixão, o dia da Crucificação, ela viu, de forma maravilhosa, a Mãe-Terra e suas criaturas, como se estivessem livres e mergulhadas numa luz rósea. Depois de decorridos dois mil anos, ela sentiu novamente aquele misterioso sentimento de libertação. Seu coração eternamente ensolarado ardia, aguardando com ansiedade as últimas horas desse dia terrestre; seu corpo humano era tomado pela ânsia da morte. Em pensamento, ela viu Jesus Cristo trilhar seu último caminho; captou os eflúvios de amor e de ódio de seus seguidores e, como outrora, ela falou, enlevada pelo Espírito: "Vai, meu queridíssimo; passe ao outro lado; lá, serás Rei do teu Reino Celestial! Agora estás livre para sempre, para sempre!" E acrescentou: "Agora também serei livre para sempre, para sempre!" Felicia teve a impressão que, por horas, cascatas de luz branca jorraram sobre seu corpo enfraquecido e sobre todo o seu Ser. Do interior da plenitude dessa luz clara, uma poderosa voz ancestral retumbava em infinita repetição: EU SOU o seu Eu Superior desperto!

No Sábado de Aleluia, já completamente lúcida, Felicia chegou a uma conclusão espiritual básica: "Somente o próprio homem pode trabalhar na sua transformação." Contudo, ela tentara transformar a vida de Urma. A lei espiritual que determina com a maior precisão aquilo que aproxima cada ser vivente de sua redenção, tinha, enfim, se revelado e, constantemente, ela repetiu as palavras: O homem tem que saber o que faz, o homem não deve ser soberbo. Com isso, ela havia encontrado o ponto de equilíbrio absoluto entre o Ser Espiritual e o físico. A soberba se manifesta no espírito quando uma pessoa se excede ou imagina ser mais do que realmente é. Mas também acontece no plano físico, quando impomos ao nosso corpo mais do que ele pode suportar. Felicia reconheceu a lei da sua vida: no equilíbrio do espírito e do corpo ela deveria, daí em diante, concentrar seu Ser no momento. O acontecimento da Páscoa havia cravado essa verdade como um prego de ouro na sua condição de ser humano. Somente agora ela compreendia totalmente o significado da expressão: "Faça-se a Tua Vontade!" A amizade com Urma ha veria de se modificar. Felicia ainda se atinha naturalmente aos votos de fidelidade a Urma mas, a partir de agora, com a anuência de ambas, Urma procuraria seus próprios caminhos.

No Domingo de Páscoa a vida familiar atingiu seu auge de felicidade. E Felicia, novamente reintegrada, sentiu que a sua natureza humana havia se tornado muito séria. Dolorosamente, ela percebia que fugia do contato com o mundo. Apesar de ser espontaneamente sorridente e tratar todas as pessoas com bondade, ela não sentia aquele fervor, aquele entusiamo anterior para executar quaisquer atividades do mundo. Apenas a música, a execução de peças no piano de cauda, os saraus fazendo trio com seu pai, que tocava violino, e com o padre local, que gostava de se ocupar com o violoncelo, a ajudavam temporariamente a transpor as sérias modificações por que passava. O percurso diário para a Universidade parecia-lhe destituído de sentido porque ela não conseguia mais concatenar seus pensamentos aos processos da razão. Contudo, Pace influía libertando e, em sonhos, consolando sua alma. Suas vibrações atingiam apenas sua consciência humana como um pressentimento:

Eu, Pace, preparo-a para a força do amor ãa unidade. Meu Espírito abre com elevadas consequências a sua consciência para o acontecimento vindouro. Eu insuflo modificações na alma do mundo e na consciência coletiva. A sua unidade espiritual contribuirá, num tempo pré-determinado, para a revelação do Deus-Pai-Mãe na Terra. Ela foi eleita para servir de intermediária entre o mundo espiritual e o denso, para acender o Deus-Pai-Mãe uni-ficador na alma humana. Uma hoste de amor de almas gêmeas orientará, em dimensões sutis e na Terra a inversão da polaridade do mundo. Todos eles são parteiros espirituais para as almas desenvolvidas que, afim de servir nos planos sutis expandindo a vida, querem se desfazer de seu corpo físico. Em virtude disso, uma nova luz também começará a resplandecer em nossas esferas. Felicia, ouça-Me, armazene tudo no amor, no EU SOU, naquilo que agora você também conhece como pessoal. Aceite simplesmente, com naturalidade e sem questionar o que é. Você viverá a alegria do nossos céus.

Sanctus.

Quando, certa vez, em profunda entrega, Felicia rogava por ajuda para prosseguir na sua evolução, sentiu, repentinamente, um vento quente do interior do qual soava a voz de Pace, delicada e suave, ao mesmo tempo em que cumpria a exigência de conservar a sua consciência humana:

Felicia, você se libertou da roda dos nascimentos e mortes. Uma tarefa não menos fácil a aguarda, ou seja, elevar os planos de seu subconsciente à luz da minha verdade. O eterno hálito do Espírito Criador impõe a transformação de todo o seu ser. Ordene ao seu subconsciente que abra as comportas ao unir-se ao meu hálito e que trabalhe conscientemente com a minha energia. Assim, no decorrer do tempo, todos os movimentos de todos os seus corpos serão idênticos às eternas e insuperáveis revoluções do cosmo.

Seu perispírito servirá com absoluta obediência quando a força pura do amor assim o ordenar. O fluxo da inspiração do hálito cósmico é o dar e o tomar do Espírito; é a troca maravilhosa entre o Imanifestado e o Espírito atuando na manifestação.

Sanctus.

16 — A Luta

N ós, Seres de Luz e Anjos, somos o hálito universal do amor. Querido ser humano, ao unir-se a ele, o seu perispírito assimila um pedaço da pátria espiritual. Nós, seus silenciosos e invisíveis auxiliares, o envolveremos com nosso amor quando você desejar. O seu Eu Superior lhe delega certas obrigações que são imprescindíveis para a sua contínua evolução. A nossa luz prepara os seus caminhos e fortalece a sua confiança. Nesse sentido eu, Ka-makura, quero relatar a continuidade do caminho de Ciria.

Indecisa, a menina Ciria, que havia se tornado uma moça, aguardava na plataforma do trem. Suas pernas tremiam visivelmente de agitação e seus pequenos pés prendiam com força a mala nova, presente de despedida da madre superiora. O largo vestido de verão, de listas brancas e azuis, disfarçava habilmente seu corpo que havia se tornado um tanto "gordinho". A bolsa de plástico balançava pendurada numa comprida correia, fixada na altura do ombro com um alfinete de segurança na gola branca. Na bolsa, entre outras coisas, havia um lenço impecavelmente branco, no qual estavam embrulhados trinta francos, o seu salário dos últimos dezoito meses. A mão direita, que ficara calosa pelo trabalho pesado, cerrou-se em punho dentro do bolso largo da saia, onde escondera o diploma da Escola de Comércio para Moças. Embrulhado em algodão molhado, a mão esquerda segurava um pequeno buquê de margaridas murchas, seu presente de boas-vindas para os pais. A volta havia lhe parecido quase uma eternidade. Seus olhos tímidos, com olheiras escuras, finalmente localizaram seus pais que aguardavam; contudo, ela não se mexeu do lugar. Pessoas levadas pela agitação corriam temerosamente pela plataforma. Algumas acenavam vivamente umas para as outras. Os braços em movimento sobre suas cabeças pareciam-lhe tlàmulas drapejantes ao vento. As lágrimas de despedida e de alegria dos viajantes caíam sobre os trilhos como uma emanação sutil. Rostos alegres e tristes, olhos que choravam, corações sorridentes, gargantas que cantavam, naturezas receosas geravam essa atmosfera peculiar. Com um apito agudo, um trem expresso adentrava a plataforma cinco. Comunicações sobre chegadas e saídas trovejavam dos alto-falantes. As estações de trem são os palcos mais coloridos do mundo, pensou Ciria, visivelmente deprimida. Ela se sentia uma forasteira que não fazia parte deste planeta.

Agora seus olhos procuravam estabelecer contato visual com os pais. "Anjo da Guarda, vai indo na minha frente!" gemeu ela baixinho. Subitamente, Alina descobriu a filha e correu para ela de braços abertos. "Você está aqui, minha querida, vem, deixe-me olhar e abraçar você!" Com instinto materno, Alina alisou o cabelo selvagem de Ciria e limpou disfarçadamente as lágrimas de alegria de seus olhos. Enquanto isso, o pai Tabori também havia alcançado as duas. Sem graça, seus braços compridos procuravam enlaçar a filha mais velha. Rapidamente ela se libertou e disse: "Vejam. Eu ganhei como presente uma mala nova. Por favor, papai, carregue-a com cuidado!" O gelo entre eles havia sido quebrado. Uma boa hora de caminhada ofereceu tempo suficiente para que Ciria pudesse, através de seus relatos, pôr os muitos e essenciais acontecimentos dos últimos meses para fora de sua alma. Em sua grande agitação, ela freqüentemente voltava a falar francês, mas Alina e Tabori sorriam com compreensão e, em dado momento, quando houve a oportunidade, Alina sussurrou: "Cuidado, nossa filha domina o francês quase tão bem como sua língua materna!" Um pequeno hausto de orgulho e alegria percorreu o rosto de Tabori, iluminando-o com rara beleza.

Quanto mais se aproximavam de sua casa, mais consciente Ciria ficava do crescente sentimento opressivo no seu coração. Ela não ousava perguntar pela sua irmã paralítica, Saris. O medo de uma resposta terrível fazia-a silenciar no meio da frase. Desajeitadamente, seu olhar sincero procurava os olhos de Alina. Então a mãe intuiu a pergunta silenciosa no coração cheio de dor da filha. "Saris foi operada da coluna", disse ela baixinho; e o pai Tabori assoou-se desajeitadamente. "Nós temos que ter muita paciência e nunca devemos desistir de ter confiança em Deus", murmurou ele com voz seca e torturada. Sem palavras, como se subitamente uma negra mão os estrangulasse, os três prosseguiram calados. Cansada, Ciria enganchou-se nos braços de seus pais. Ela tinha a impressão de que ia desmaiar. Como num filme, os quadros do passado voltaram a projetar-se nela. Ela ainda tinha ante os olhos a grande casa cinza no qual sua família teve que viver por quatro anos porque não havia sequer um proprietário que alugasse uma residência para oito pessoas. A casa sempre lhe parecera um enorme rosto escuro de olhos vazados. As vidraças tinham trincas ou faltavam completamente. O dinheiro para consertar nunca aparecia. Com as mudanças das estações, pedras haviam caído do muro, e nos quartos frios, a água gotejava das paredes bolorentas. A constante luta contra os camundongos fazia o pensamento de Ciria eriçar-se novamente. Ela recordava-se do grito lancinante da irmã que, certa manhã, a arrancou do sono como um forte trovão. Saris havia gritado, fora de si: "Mamãe, mamãe, eu não posso mais mover as minhas pernas! Por favor, se apresse, por favor! Venha, eu não posso mais andar!" Tudo sucedeu rapidamente. Uma ambulância veio buscar a irmã; a casa e seus habitantes foram colocados sob quarentena por seis semanas. Uma vez por dia o serviço social fornecia comida quente em vasilhas de lata cinzentas, que eram colocadas em frente da porta de entrada. A casa escura e fria, com suas paredes cinzentas e molhadas, as pessoas pálidas e doentes e os camundongos cinzentos e atormentadores. Agora tudo isso é passado, graças a Deus, pensou Ciria com uma dolorosa opressão. A paralisia infantil obrigara Saris a ficar para sempre numa cadeira de rodas.

Mas a roda da vida continuava a girar para todos. Ciria havia conseguido, junto à família de um médico de língua francesa e que tinha dois filhos, fazer um ano de aprendizagem de economia doméstica e recebera, com louvor, o diploma de governanta na cidade de Villerois. Aos dezoito anos, ela arrumou um empre-go na Inglaterra para cuidar de quatro crianças pequenas, ocasião em que aprendeu a língua inglesa. Seu profundo desejo de for-mar-se como médica, enfermeira ou de ter seu próprio jardim-de-infância era inviável por motivos financeiros. Corajosamente, Ciria dedicou-se a diversas ocupações. Com a idade de vinte e quatro anos, casou-se com um homem dezessete anos mais velho que ela e muito sensível. Mas, após dois anos de casada, Ciria adoeceu e, refletindo, chegou à conclusão de que ele não era o seu grande e esperado amor. Ela se tornou cada vez mais consciente de que ele era o substituto do amor de pai que nunca tivera. Depois de mais dois anos perdidos de casamento, ela foi assaltada por um medo pânico. O peso de sua consciência por ter que simular talvez por toda uma vida sentimentos falsos por seu dedicado marido, valendo-se constantemente de doenças como fuga, a empurraram para a resolução de deixá-lo um dia.

- Por que você quer desistir desse homem correto e sincero, - perguntou Alina com o coração preocupado. - Ah! Pudesse eu compreender seu desamor e sua ingratidão - reclamava ela com voz chorosa. - Você não pensa no seu filho? Você está sabendo que vai tirar o pai de Noel? Ele lhe deu tanto, coisas com as quais só pude sonhar a vida toda: ele satisfaz todos os seus desejos. Ele a ama e lhe oferece proteção. Você pode morar numa casa bonita, você tem um jardim, um carro, vestidos e muitas outras coisas, que podem lhe dar alegria. Você tem tudo! O que mais você quer? De repente, a soberba e o orgulho dominam o seu coração? Filha, o que está acontecendo com você?

Ciria permanecia muda. Com os olhos arregalados, ela deixou as admoestações de sua mãe resvalar sobre si como chuva de verão. Subitamente, ela levantou-se dizendo decidida: "Vou ter que fazê-lo! Perdoe-me!" Em seguida, saiu em desabalada carreira da casa paterna. Alina caiu chorando sobre uma cadeira. Seus gemidos altos alcançaram Ciria como uma vaga na maré cheia e o soluçar de sua mãe quase lhe arrancava o coração do peito. Ela correu por muito tempo, até que seu corpo extenuado encontrou abrigo na floresta próxima. Chorando, deitou-se de costas sobre o musgo macio. Seus longos cabelos louros ocultavam sua face coberta de lágrimas. A larga saia azul absorveu, aos poucos, a umidade do chão da floresta; ela nem o percebeu. Com os lábios azulados, ela balbuciava "Ó Deus, meu Deus, onde você está?" Longo tempo se passou antes que ela se acalmasse. O choro se transformou num gemido baixinho até que o Irmão Sono envolveu a jovem mulher em seus braços.

Sons baixos de harpa convidavam para dançar em nuvens de cor amarela-clara. No círculo, eles se transformavam em minúsculos seres celestiais que, flutuando por ali, assemelhavam-se a filhinhos de anjos. "Silfidizinha Rigala, por que você também está aqui?", perguntou Ciria com voz fraca.

- Ouvi o seu chamado e senti a sua profunda dor, minha pequena querida - respondeu Rigala confiadamente. - Eu estou sempre com você, mesmo que não brinquemos mais como quando crianças. Venha; vou consolá-la e mostrar-lhe o meu lar! Veja bem! Você vê o mundo infinitamente cheio de flores e sente seus preciosos perfumes? Você vê o mundo das cores iridescentes e dos sóis dourados, o mundo da Lua violeta e das alvas estrelas? Você vê os arco-íris róseos expandindo-se infinitamente, como símbolos da beleza espiritual e da harmonia? Inspire-os com amor, minha pequena! Respire fundo e sinta alegria. Sua noite de agonia agora se consome no fogo! Respire fundo. Agora você é límpida; e amor da fonte da vida. O espírito do tempo a manda voltar, porque você ainda é uma criança terrena e tem que obedecer.

Ciria abriu os olhos. Bruscamente, ela afastou os cabelos úmidos de seu rosto pálido. Este foi um sonho maravilhoso, pensou ela, e um sorriso suave clareou um pouco sua expressão triste. Em seguida, ela quebrou um galho fininho do arbusto próximo com o qual prendeu o cabelo. Seus dedos tatearam sobre os .r s ainda doloridos, limpando as lágrimas. Devagar, soergueu seu corpo rígido de frio. Ela sentia os braços e as pernas meio en-mecidas e levantou-se com um pouco de esforço. Só agora ela se dava conta da saia molhada e suja e um grande medo a assaltou ao pensar na volta para casa daquele jeito. Nervosamente, suas mãos se precipitaram para o bolso do casaco para procurar o molho de chaves. Graças a Deus, ele estava ali. Ela sentou-se num cepo de árvore nas proximidades e refletiu como poderia alcançar sua casa sem ser notada. Um olhar para o relógio, contudo, deixou-a enregelada de susto. Eram quase sete horas da noite. Seu marido já deveria estar em casa há mais de uma hora. E Noel? Meu Deus, Noel! Como pude esquecê-lo, meu filho amado?, gemeu ela baixinho. Tomara que Günther o tenha buscado na vizinha. Ó você, meu pequeno, meu querido docinho! Coitado do Noel, que tipo de mãe eu sou! Em seguida, correu para casa. "Vou entrar sorrateiramente pelo porão e, com a ajuda de Deus, hei de alcançar o banheiro sem ser vista", pensou ela, torturada. Ciria teve muita sorte; seu plano deu certo. Meia hora depois já banhada e trocada, ela apareceu na soleira da porta da sala. Günther estava sentado na sua confortável poltrona de couro cinza, de costas para ela. Sobre seus joelhos se balançava Noel, de um lado para outro, rindo alto. Na televisão estava passando seu programa favorito "O coringa e a lebre", uma divertida história de dormir. Vendo pai e filho assim juntos, o coração de Ciria confrangeu-se dolorosamente.

Hoje à noite direi a Günther que pretendo deixá-lo... passou-lhe pela mente. Ela tossiu de leve, ao que, Günther imediatamente se voltou em sua direção, dizendo: "Querida, onde você esteve durante todo esse tempo? Nós nos preocupamos com você!" Sua voz quente e suave apertava-lhe a garganta. Noel pulou dos joelhos do pai e correu para os braços estendidos da mãe. Muda, ela apertou o rosto querido de encontro ao seu colo, enquanto balbuciava: "Tive uma pequena altercação com minha mãe. Por favor, perdoe-me o atraso!" "Mais tarde falaremos sobre isso, minha querida, tudo vai ficar bem novamente" disse ele em tom conciliador. Mas no decorrer dessa noite, Ciria revelou ao seu marido que pretendia deixá-lo para sempre. Silenciosamente, ela rezou: "Nikolaus, meu amigo e auxiliar espiritual, eu temo o caminho que está diante de mim!" Então ela sentiu uma corrente quente em seu coração e uma voz lhe dizia: "Tenha confiança! Trabalhe com a energia, com confiança e deixe-a fluir para dentro da decisão da sua vida! Tenha confiança, cresça em confiança! Eu sou o seu companheiro constante. Eu sou a força da confiança na sua condição de ser humano."

1 7 - A Independência de Ciria

Toda pessoa que, conscientemente, vence suas fraquezas, é um rei! Kamakura envia amor e luz.

Uma semana depois, Ciria, com o coração pesado, aguardava no ponto de ônibus da cidade de Gütschberg. A pequena mão de Noel repousava quente e úmida na sua mão fria. A costumeira tagarelice do menino havia emudecido. Os olhos azuis-acinzentados tristes do menino de quatro anos a fitavam inquiridores e continuamente. Imóvel e rígido, ele permanecia ao lado da mãe como um pequeno soldado. No seu lado direito, igualmente inexpressiva, a mala nova de cor cinza. Finalmente, o ônibus aguardado parou no ponto. As pesadas portas se abriram com um rangido. Rapidamente, Ciria levantou Noel e sentou-o num banco. Em seguida, voltou correndo e empurrou com muito esforço a pesada mala sobre os três degraus do veículo. Ela havia abandonado tudo: o marido, os vestidos que ela ganhara durante o casamento, os presentes; simplesmente tudo que a pudesse lembrar de Günther. Pobre como uma cigana, ela havia se casado e, igualmente pobre, ela deixava agora o ninho aconchegante. Havia cinqüenta francos na sua carteira, a soma exata que ela trouxera ao se casar.

Ciria havia arranjado um emprego em Leissingen, na casa de um viúvo com três filhos; assim, ela não foi obrigada a separar-se de Noel. Seu coração não teria superado a dor de deixar seu filho diariamente numa creche. Durante quatro anos, ela pôde ser a mãe substituta para os três semi-órfãos e ajudar no laboratório de prótese dentária do sr. Hensler, o pai das crianças. Ela gostava muito desse trabalho e depois de algumas semanas, as crianças a chamavam de mamãe. Noel adaptou-se muito bem à família Hensler. A menina Sabrina, de sete anos, que sofria de um retardo mental, gostava especialmente dele. Infelizmente, o sr. Hensler não conseguiu superar o suicídio da esposa, tornando-se um alcoólatra crônico. Quando, certa vez, em estado alcoolizado, ele ameaçou as crianças com a espingarda carregada, encenando uma tentativa de suicídio diante de seus olhos, o departamento de assistência social decidiu tomar-lhe as crianças, abrigando os órfãos em casa de parentes. O sr. Hensler foi internado numa clínica psiquiátrica, o que atingiu duramente Ciria e Noel. Pobre como uma cigana ela se mudara para junto da família Hensler e, do mesmo modo, novamente, depois de quatro anos, abandonava esse ninho aconchegante. Mas, dessa vez, contra a sua vontade. Era esse o castigo de Deus por ela ter deixado Günther? Ele precisou de anos para conseguir superar a dor da separação e jamais se casou de novo.

Uma conhecida de boa índole, a sra. Müller, ficou com pena dos dois e os acolheu para abrigá-los por algumas semanas. A intenção de Ciria era procurar emprego na sua cidade preferida, Sondelfingen, e mandar Noel à escola. Seu irmão Arabin também morava um pouco afastado com sua família nessa cidade, numa casa de quatro cômodos. Assim, cogitava ela silenciosamente, os dois não estariam totalmente sozinhos e desprotegidos. A pena da lei espiritual também escreveu para Ciria a continuidade da evolução no caderno de sua vida. Um dia, inesperadamente, Arabin ligou para a irmã, dizendo: "Eu e minha família decidimos acolher você e Noel até que você tenha encontrado um trabalho e uma moradia. A gente se ajeita um pouco, não se preocupe, tudo vai dar certo." "Deus não está castigando o meu comportamento. Ele não me castiga. Posso continuar vivendo confiando nele!" disse Ciria com altos brados de júbilo, abraçando a sra. Müller, tomada de surpresa. "Ainda há um futuro cheio de esperança para mim e para o Noel", gaguejou ela entre lágrimas de alegria. No dia seguinte, ela arrumou os parcos pertences e despediu-se agradecendo a dedicação da sra. Müller. A visão de Ciria e Noel levara-a às lágrimas, quando ambos, parados no ponto de ônibus, mão na mão, lhe acenaram pela última vez. Durante um sonho, Ciria viu uma região da cidade na qual ela encontraria uma casa. Por isso, matriculou, confiante, Noel na escola dessa região, mesmo que, no momento, ainda morasse um pouco longe, na casa do irmão. Foi a proteção dos anjos que fez o diretor esquecer a pergunta obrigatória sobre o local de residência. Durante três meses, Arabin levava diariamente Noel de carro através da longa e grande cidade, para deixá-lo na escola do outro lado.

Um dia, Ciria viu a realização do seu sonho maravilhoso. Ela estava novamente consultando os classificados de residências quando seu olhar pousou sobre um anúncio em letras pequenas: "Moradia discreta de três cômodos aguarda por inquilinos calmos! Se assumir a limpeza da lavanderia e das escadarias, ofereço um abatimento significativo no aluguel." Ciria fechou os olhos e viu com a visão interior os cômodos da casa anunciada. Ela desenhou cada detalhe numa folha de papel e disse para Arabin: "Essa é a nossa casa. Eu a vi num sonho. Ela está esperando pelo Noel e por mim! Nós estamos salvos da aflição e da necessidade!" Ciria pôs o esquema da casa bem debaixo de seus olhos, dizendo: "Veja: tão bonita e prática é a moradia, como se fosse construída para nós!" Em seguida, caiu nos braços abertos do perplexo irmão. Meneando a cabeça, contudo, visivelmente aliviado, ele instou com a irmã para que ligasse imediatamente para a proprietária. Uma profunda e cálida voz feminina se anunciou: "Künz-le, alô, quem fala?" A agitação tirava o fôlego de Ciria. Arabin a cutucou, acenando que finalmente falasse. "Alô, Deus a abençoe, sra. Künzle, aqui quem fala é Ciria Mahra! A sra. anunciou uma residência e eu..." Ciria parou novamente, mas imediatamente a sra. Künzle retomou a palavra, perguntando: "A sra. poderia vir ver a residência ainda hoje à noite? Sabe, sra., sra., ah! Como é mesmo o seu nome? Mahra, Ciria Mahra! Eu a aguardo dentro de uma hora, sra. Mahra. Eu gostei da sua voz!" A sra. Künzle pousou o fone no gancho, sem se despedir formalmente. Ciria agradeceu muito a oferta do irmão em acompanhá-la. Um pouco antes de saírem, contudo, ela irrompeu em lágrimas, dizendo: "Com o que vou pagar o aluguel?" Arabin parou o carro e respondeu com voz sumida: "Cirinha, fique firme, tudo vai dar certo! Eu o sinto profundamente no íntimo." Quando eles finalmente chegaram à casa da sra. Künzle, evidenciou-se que o desenho que Ciria fizera de acordo com seu sonho era idêntico àquele que a sra. Künzle lhe passava às mãos, junto com o contrato de locação. Dessa maneira, ela confiou com renovado ânimo no seu guia espiritual.

Noel e sua mãe mudaram-se para a nova casa. Eles mal dispunham de dinheiro para as instalações. Günther deu-lhes uma cama de presente, o que eles aceitaram alegres e agradecidos. Ciria pintou caixas de madeira com capricho que, depois de empilhadas, serviam como estante de livros ou enfileiradas como bancos. Desenhos feitos com carinho por Noel e tecidos usados tingidos decoravam as paredes brancas. Panelas amassadas compradas no brechó estavam perfeitamente limpas e areadas no armário da cozinha. O brechó era uma verdadeira mina de ouro, bem como o velho proprietário, que presenteou Ciria com muitos utensílios domésticos. Sua pequena estatura resplandecia como uma árvore de Natal quando ela entrava na loja. Ele gostava dela e admirava sua coragem. Sem graça, seus dedos grossos apresentavam um ou outro objeto diante de seus olhos. Então ele sussurrava algo, abafado pela barba grisalha, sem trato: "Este objeto já está aqui tempo demais! Você pode aceitá-lo em sã consciência como presente." Seus olhos saltados, porém carinhosos, brilhavam como pequenos sóis e muitas vezes os óculos estreitos, sem aro, caíam-lhe do nariz de tamanha agitação. Pigarreando, cheio de timidez, ele dizia de novo: "Amanhã mesmo vou procurar a ótica!"

Sondelfingen também se tornou a cidade preferida de Saris, a irmã paralítica de Ciria. Depois de muitos anos torturantes de dor, finalmente ela se reintegrou na vida social; encontrou uma moradia espaçosa de um cômodo com banheiro no bloco de residências do lar de deficientes físicos Sonnmatt. Nesse lar moravam exclusivamente deficientes físicos ou pessoas presas a cadeiras de rodas. Saris se sentia no sétimo céu. Quando Ciria a visitou rerta tarde, ela abriu a porta com o rosto resplandecente. "Você brilha não como um, mas como cinco sóis ao mesmo tempo", disse Ciria abraçando sorridente a irmã. "Eu me sinto livre e feliz como um pássaro; minha vida adquiriu novamente sentido", retorquiu Saris. Elas falaram até que seus corações se sentiram aliviados das preocupações da vida. Então Saris se despediu da irmã com as palavras consoladoras: "Você vai encontrar trabalho logo. Eu o sinto no meu coração!" Ciria amava muito sua irmã e tinha uma ilimitada admiração pelo modo como esta carregava sua pesada cruz sem nunca se queixar. Alguns dias mais tarde, o telefone de Ciria tocou. Quando ela tirou o fone do gancho, nem teve tempo de dizer o seu nome, pois as palavras de Saris jorravam do outro lado: "Ciria, você tem que me ajudar; por favor, aju-de-me!" "Com prazer, se eu puder", foi sua resposta, surpresa. "Ontem o diretor do lar dos deficientes me perguntou se eu podería substituir durante um mês a telefonista que adoeceu. Espontânea como sou, eu logo disse que sim. Mas hoje, fiquei consciente da minha incapacidade para exercer essa profissão. Será que você pode me substituir? Para você esse trabalho é algo fácil!" "Oh! Sim, com prazer", respondeu Ciria, com o rosto afo-gueado de alegria. "Você é um anjo, querida irmã", ressoava sua voz aliviada do outro lado. "Muito obrigada!" "Não", dizia Ciria. "Você é um anjo, porque me arrumou trabalho!" As quatro semanas planejadas de substituição se tornaram quatro anos de emprego efetivado.

18 — As Experiências de Meditação de Ciria

Diria ainda estava à procura da meta de sua vida. Incansavelmente, ela rogava ao seu Anjo da Guarda Nikolaus por sinais visíveis e ajuda. Certo dia, uma amiga a convidou para participar de um curso de meditação. Mesmo que não tivesse a mínima idéia sobre meditação, ela a acompanhou por curiosidade. Durante os primeiros exercícios de relaxamento, ela constatou que não havia perdido o dom da clarividência que já manifestara quando criança. Assim sendo, ela conseguia descrever a casa de participantes do curso, pessoas estranhas a ela; detectar males físicos ou descrever talentos e fraquezas de crianças em desenvolvimento. Após a conclusão do curso, certa noite Ciria se preparava para a primeira sessão de meditação a sós. Em silêncio, abriu a porta do quarto de Noel e constatou, aliviada, que ele dormia profunda e calmamente. Em seguida, ela fechou sem fazer barulho as janelas e acendeu uma vela amarela. Para poder sentar-se o mais ereta possível, escolheu uma cadeira sem espaldar. Seu olhar estava voltado para o leste e a música de fundo logo colocou seu corpo no relaxamento desejado. Com os olhos do espírito, ela viu uma mão que saía de dentro da luz e que passava suavemente pelo seu corpo. Seu físico vibrava levemente; ela não percebia mais nada do exterior, nem as lágrimas que rolavam dos seus olhos fechados. De repente, seu corpo astral, leve como uma pluma, flutuou até o forro do recinto. Ela viu, então, seu corpo físico que se tomara rígido, sentado na cadeira. Uma flama irradiante brilhou dentro da luz e uma silhueta resplandecente e transparente, de inenarrável beleza, surgiu, dizendo em voz baixa:

EU SOU o seu Anjo da Guarda! EU SOU um aspecto universal de amor na sua alma! Há muito tempo, você foi a minha filha mais nova na Terra. EU SOU seu Anjo da Guarda Nikolaus. Hoje eu pude me mostrar a você. Ciria, meu espírito ama o seu espírito! Eu sou o guardião de sua alma límpida. EU SOU o seu bom pastor e sempre prestativo ao seu lado quando você chama por Mim. Eu vou tirá-la da escuridão terrena. Você verá a minha luz cada vez mais brilhante para levá-la como força da paz ao mundo. Assim está escrito na lei espiritual. Você é a portadora da energia do espírito que arde eternamente no mundo. Eu abençoo você e sua alma! Através desta bênção você levará a cura a muitos habitantes da Terra. Os espíritos da luz marcarão com fogo o seu raciocínio humano, para que você aprenda a ver e a ouvir, respectivamente, com os olhos e ouvidos do cosmo. Minha força amorosa a atrai para o meu espírito universal. Você respira nele e recebe da fonte do amor a recompensa de sua vida anterior. Contemple as distâncias infindáveis do éter! A eterna luz do Espírito Criador refulge na sua alma. Você sempre será amada por mim e pelos elevados poderes espirituais; você nunca está sozinha! A chuva de bênçãos está com você!

Amada criatura, volte agora flutuando devagar ao seu corpo físico e transcenda diariamente a saudade dolorosa do lar de luz infinita! O cajado espiritual do bom pastor que EU SOU repousa invisivelmente na sua mão. Eu aceito a sua condição de ser humano afim de que você irradie luz. Do meu ponto de vista, você tem um coração azul. O coração azul é o símbolo espiritual do amor impessoal e a superação dos sentimentos pessoais. EU SOU seu Anjo Guardião! Você está em eterna união com as forças de luz do cosmo e com o seu mensageiro terreno! Siga o meu chamado!
Como um eco que se findasse aos poucos, Ciria ouvia a voz se tornando cada vez mais baixa:

EU SOU o seu Anjo Guardião! Anjo Guardião, Anjo Guard..., seu consolo, sua luz!
Devagar Ciria abriu os olhos e respirou fundo. Seu rosto molhado de lágrimas ardia como fogo. As mãos frias tateavam o corpo que ainda vibrava, para constatar se ele ainda estava ali; profundamente abalada, ela se perguntava: Ainda sou normal ou isto é o começo da loucura? Em seguida, ela se levantou como uma mulher alquebrada e se arrastou para a cozinha. Sedenta, tomou três copos de água. Depois, apagou a vela com um sopro e abriu largamente as janelas. Como uma sonâmbula, tirou as roupas e colocou seu corpo trêmulo debaixo do chuveiro. Em seguida, deitou-se cansada na cama e disse alto para si mesma: Amanhã o mundo parecerá novamente novo, pois todo dia é um recomeço! Essa experiência de meditação profunda modificou totalmente a vida de Ciria. Depressa ela superou sua aversão inicial pela clarividência. Ela trabalhava apenas durante meio expediente no lar dos deficientes e à noite ela oferecia, juntamente com uma amiga, cursos de meditação. Quando, em outra ocasião, Ciria meditava silenciosamente, ela pegou no sono e teve um sonho maravilhoso que só anos mais tarde chegou ao seu consciente. Uma voz que ela não conhecia lhe dizia em tom cálido:

EU SOU um Serafim! EU SOU o Anjo Guardião de sua alma gêmea, FeliciAlecta, que logo você irá conhecer. EU SOU Wunsilija! Eu lhe trago a mensagem de um novo padrão de pensamentos, que reconciliará o coração dos homens! Ouça-me! Até hoje não existe sobre a Terra nenhuma espécie de qualidade de alma que não possa ser apreciada deforma positiva ou negativa. A fidelidade de um pode ser a traição de outro; ou a obediência de um pode se tornar a guerra do outro. Amada CiriAlectus, o seu Eu Superior e o de Alecta estão lapidando agora todas as qualidades até que ambas, como seres humanos, tenham se tornado dignas de sua divindade e possam viver unicamente do sentimento da verdade espiritual. A sua alma gêmea e, futuramente, toda alma gêmea que vive na Terra, se servirá desta como exemplo a fim de despertar nos seus semelhantes o amor espiritual, que algum dia deverá iluminar toda a humanidade. A conseqüência espiritual, o amor à paz e um sentimento de solidariedade livre do ego desabrocharão em muitos corações humanos. E nessa hora o pensamento cósmico da unidade regerá a alma do mundo e guiará os homens. Nós, Seres de Luz, estamos preparando vocês e as futuras almas gêmeas para a inversão da polaridade. Quando a divindade desperta num homem, ele-va-se afreqüência do seu chakra secundário nas têmporas. Ele tor-na-se um ponto ardente de concentração espiritual, imprimindo-lhe no perispírito o conhecimento universal. As pessoas assim amadurecidas aprendem a decifrar a linguagem cósmica e são capazes de conviver com a Terra e seus habitantes em total harmonia.

Alma gêmea AlectAlectus, você é amada pelas hierarquias do mundo espiritual! Confie na sua atuação, obedeça alegremente quando guiarmos seu perispírito ao lar sutil do amor! O que você fizer como alma gêmea terrena jamais poderá corresponder ao que o mundo entendeu até agora como um trabalho, porque esse trabalho está exclusivamente a serviço do ser espiritual, pois o seu desempenho é uma evolução. A unidade espiritual de sua alma gera em você e na sua aura a expansão e a libertação e, com o tempo, haverá de evoluir uma nova forma de vida na Terra, pois o raciocínio deverá compreender e servir à experiência interior com amor. E assim, a polaridade do bom e do mau, da luz e da sombra, se dissolverá totalmente. A nova chama, Deus-Pai-Mãe, deverá trans-mutar seu corpo sutil por tanto tempo até que você, como alma gêmea terrena, tenha alcançado a capacidade de participar da renovação do homem e da Terra. Longo é o caminho; mas, por menor que seja, cada passo é abençoado.

AlectAlectus, da eterna luz em espiral do espírito, as forças da unidade de sua alma fluem como ondas de renovação sobre a Terra. A energia de Pace absolutamente conseqüente preparou você durante muitas vidas sutis para a obediência espiritual, para que sirva de exemplo na Terra e constitua a energia básica das almas gêmeas vindouras. Sua tarefa será a mesma, porque deverá transcender o pensamento da divisão do raciocínio para viver em paz. Almas gêmeas encarnadas se tornarão condutoras de energia para as forças de limpeza que emanarão de nossas dimensões iluminadas para a Terra. A mais elevada manifestação universal da unidade, que é a trindade Deus-Pai-Mãe, será, orientando tudo, aquilo que futuramente acontecerá na região das almas do mundo dos homens. Em muitos perispíritos, a consciência da maturidade desperta devagar: eles reconhecem o eterno jogo entre o Espírito Criador e a criação e o sentem como uma relação em que existe sentido. Confiantes, eles se entregam ao poder do amor da unidade universal. Dessa forma, o homem do novo milênio se reconhecerá como criatura e criador. EU SOU um Serafim!

Então a voz cálida de Wunsilija foi sumindo, enquanto Pace se anunciava:

CiriAlectus, Eu ativo na sua alma a força manifestada, Deus-Pai-Mãe, e afaço fluir por todos os seus corpos. Você sabe que a humanidade terá que enfrentar tempos difíceis. A inversão da polaridade não será um castigo; ela servirá para a renovação. O campo magnético da Terra será fortemente elevado na sua freqüência e produzirá mudanças na lei da gravidade. Igualmente o corpo humano terá de alterar sua freqüência. As forças do Universo serão o sinal do Espírito infinitamente atuante, que realinhará os astros. A compulsão do poder e a destruição criadas pelo egoísmo humano, serão liberadas através da união da chama de Deus-Pai e Deus-Mãe. Uma nova revelação do espírito universal começará a se manifestar na Terra graças à inversão da polaridade. Alma gêmea AlectAlectus, você é a precursora e o sustentáculo da energia dessa nova chama, Deus-Pai-Mãe. Minha Alma a treina para que seja uma alma mesma humanamente personificadas remarão sobre os povos. Mas esteja certa de que também as almas mestras encarnadas terão que se dissolver. Elas têm saudade do Nagual, que EU SOU no Não-Ser. Tenho manifestado meus pensamentos universais e meu sentimento cósmico em sua alma gêmea para que a minha realidade penetre nas suas personalidades e na sua natureza para que não possa perceber nada além do Amor total.

Ciria, durante a sua vida terrena, Eu, Pace,falo na sua alma com a voz da justiça espiritual. EU SOU aquele que penetrou na sua consciência, para prepará-la para a vindoura união com Alec-ta na Terra. Em breve, o meu ser desabrochara nas suas almas gêmeas terrenas manifestadas e realizará a idéia do Meu espírito. Vou tornar vivente o amor cósmico Deus-Pai-Mãe na sua alma gêmea terrena, para que você possa fazer refluir sua força como bênção no mundo dos homens. Ciria, seu ser humano se conciliará totalmente com a unidade universal, que EU SOU. Sua divindade a impele ao conhecimento de que o meu amor espiritual na sua vida terrena e no ser coeterno são idênticos. Meu amor é vida manifestada e, ao mesmo tempo, espírito imanifestado no Nagual. Todos os mundos são individualidades, personalidades mortais e, mesmo assim, são um corpo de manifestação do imorredouro, eterno Ser.

Sanctus.

19 — Daniel e Felicia

Kamakura une seu Espírito de Amor à alma do mundo e, assim, a todos os homens! A manifestação da vida é comparável a um imenso diamante que é incansavelmente lapidado pelos auxiliares etéricos do Espírito Criador. Os Anjos da Renovação atraem magneticamente as forças positivas que as boas ações dos homens geram e que são transmitidas a esse diamante. Ele aumenta proporcionalmente cada vez mais e de suas facetas refulgem raios de luz de indescritível beleza. Estas geram, por sua vez, vibrações cósmicas que se misturam com inúmeros perispíritos no mundo sutil e denso. Eu, Kamakura, sou um condutor de energia através do qual as iridescências dessas jóias fluem para o leitor quando ele quiser abrir-lhes a alma. Voltemos agora para Felicia e travemos conhecimento com uma pessoa que foi muito importante na vida dela.

Daniel era de uma família muito conhecida por Roman, pai de Felicia, há muitos anos. Um dia, Daniel apareceu em Fontino e fez-se anunciar a Roman, relatando que havia sido designado do front para supervisionar a construção de uma instalação de holofotes nos arredores. Em pouco tempo, firmou-se um relacionamento de amizade entre Daniel e a família de Felicia. Ele era uma pessoa calma com grande senso de humor, e sua bondade e tran-qüilidade emprestavam-lhe um carisma todo especial. Totalmente ao contrário de Felicia, Daniel era profundamente enraizado na Mãe-Terra. Ele representava justamente o que ela sempre imaginara como sendo um verdadeiro ser humano. Durante seu primeiro passeio sob o sol de abril, eles estavam sentados no declive de um prado com vista para as montanhas, fazendo um piquenique. Daniel havia surpreendido Felicia com iguarias raras, pois comida boa era artigo escasso. As pessoas da zona rural o amavam e sempre o presenteavam com ovos, manteiga ou com um pequeno pedaço de toucinho defumado. "Sempre desejei encontrar uma mulher para a qual eu pudesse levantar os olhos como se fosse minha mãe", dizia ele justamente, enquanto servia pão com frios para Felicia. Ela não tomou isso como uma referência pessoal, mas o comentário a tocou profundamente. Até o presente momento ela nunca havia pensado em se casar. Contudo, a natureza de Daniel a atraía e quando o tempo dele o permitia, eles iam passear, o que os tornava cada vez mais íntimos.

Certa vez, Felicia visitou Daniel na sede do comando onde ele residia e o que geralmente se chamava de posto de comando. A minúscula casinha ficava numa colina e oferecia uma boa vista. Dali ele comandava alguns homens e, mais tarde, mulheres, que tinham a incumbência de operar os holofotes. Felicia estava muito alegre nesse dia e falava vivamente. De súbito, ela disse: "Agora nós já somos tão íntimos, mas ainda continuamos a nos tratar de senhor e senhora." Daniel levantou-se rindo e disse: "Isso nós temos que festejar agora; nós seremos irmãos!" E tirou uma garrafa ainda fechada de Cointreau, que trouxera da campanha da França, de dentro do armário; abriu-a e serviu o licor em delicados cálices. Eles entrelaçaram seus braços segurando os pequenos cálices firmemente nas mãos. Ele a beijou nos lábios dizendo "ex"l ao que eles esvaziaram o conteúdo dos copos de uma só tragada. Felicia nunca havia tido uma experiência igual; parecia-lhe estar vivendo um sonho maravilhoso.

Apenas algumas semanas depois, Daniel pediu a mão de Felicia.

Nesse momento, contudo, ela se lembrou dolorosamente da promessa feita a Urma, de servir à alma dela e de permanecer ao seu lado. Ela reuniu toda sua coragem e contou-lhe o destino peculiar que a ligava a Urma e do seu sentimento de sentir-se completamente forasteira no mundo. Ele a abraçou com tanta força e tão longamente como nunca antes, e disse: "Nós nos pertencemos de maneira maravilhosa; eu também me sinto um estranho neste mundo! Devemos procurar nos consolar e fortalecer mutuamente." Os olhos de Felicia encheram-se de lágrimas e ela chorou encostada no seu peito. Finalmente, ela disse: "Você me faria um favor e falaria com Urma? Eu preciso de um sinal de Deus!" Daniel concordou imediatamente. Enquanto ele foi falar com Urma, Felicia lia continuamente a oração que ela havia escrito para aquele momento: Meu Senhor e meu Deus, somente Sua Vontade eu quero realizar. Minha alma está a Seu serviço. Ajude essas duas pessoas a cumprir sua verdadeira missão e faça com que a reconheçam! Você sabe que eu amo Daniel, mas vou desistir dele se os Seus desígnios forem diferentes para ele e para mim. Eu amo a Sua Vontade acima de tudo! Abençoe a nós três e faça-nos encontrar o nosso verdadeiro caminho! Eu agradeço à Sua Infinita Sabedoria.

Ela havia combinado com a amiga que esta a chamaria quando a conversa com Daniel tivesse terminado. O telefone estava ao seu lado. Duas longas horas se passaram. De repente, todos os pensamentos abandonaram Felicia e uma névoa branca apareceu diante dos seus olhos. Nada mais existia além dessa luz branca cegante. Felicia sentiu a proximidade de Wunsilija no seu corpo sutil. Seu corpo astral se fundiu com a ondulante túnica de luz de seu Anjo Guardião, que disse:

Minha querida criança celestial na Terra! Deus a saúda! É chegada a hora em que posso retirar o véu do desconhecimento da sua consciência humana. Contemple agora a alma de Urma! Contemple-a com todo o seu amor e tente sentir o que você sempre sentia quando ela, sacudida pelo pranto, chorava em seus braços e você a embalava baixinho, com uma canção de ninar, tentando consolá-la como uma mãe que consola o filho que acabou de cair. Você sempre tinha a impressão de estar caindo água de um iceberg. Sim, sem saber, você derreteu o iceberg de ódio no interior de Urma, com o qual a alma de Tatjana saiu de cena na Rússia durante sua última encarnação. Felicia, você compreende agora o mistério? Urma era Tatja-na, a então esposa de Seraphis. Depois de sua vida terrena, seu pe-rispírito sofredor vagou por tanto tempo por uma planície fria e tenebrosa no astral, até que se sentiu suficientemente forte para imaginar a luz quente da Terra, desejando voltar novamente para reparar a injustiça que lhe fizera. Seu Eu Superior compadeceu-se dela e a preparou para esta encarnação e reencontro com sua alma. Seu amor incondicional deu-lhe o calor para esta vida, que ela precisa aprender a superar. Você pode implantar duas graças de Deus em sua alma: tolerância e perseverança. Após um breve desabrochar da sua juventude, ela seguirá, tomada por grande agradecimento e em silenciosa entrega, um caminho discreto, quase sem meios, através do qual ela alcançará a maestria dessas duas virtudes. Pelo lampejo de recordação na consciência de sua última existência na Rússia e a sua proteção que a acompanhará ainda por muito tempo, ela conseguirá dissolver um sentimento de culpa profundamente arraigado. E quando algum dia você tiver reencontrado a sua alma gêmea, o Eu Superior de Urma apagará a sua existência terrena, e seu perispírito, que terá se tornado mais livre e mais claro, continuará se desenvolvendo na entrega aos mundos sutis.

Felicia sobressaltou-se, pois o telefone tocara. Ela precisou de algum tempo até conseguir atender. A voz conhecida de Urma disse, sem o cumprimento, apenas uma única frase: "Eu a congratulo por este homem; ele tem um caráter extraordinário!" E logo ela desligou novamente o telefone. Felicia só conseguiu tomar conta da situação bem devagar. Ela foi até a porta de entrada e, andando sobre os seixos até o portão de entrada, sentiu-se velha. Quando ela abriu o portão de ferro, Daniel estava à sua frente, pálido; os ombros largos do seu corpo esbelto estavam completamente encurvados. Ele a abraçou delicadamente e disse: "Esse não fui algo superior me ajudou. Mas está tudo bem, Urma a liberou. Você será a minha mulher; ela continua sendo sua amiga e euvou me dar bem com ela. Felicia, ficaremos noivos oficialmente agora e vamos nos casar em breve." Seu coração batia-lhe no peito e ela tinha muita confiança nesse coração. De braços dados, os dois foram até o parque e sentaram-se num banco. Daniel usava seu uniforme de trabalho: botas altas e brilhantes, uma calça de montaria e uma túnica com gola militar com o reverso da gola forrado de vermelho. Ele sabia que esse uniforme militar era o único que Felicia tolerava, pois ela tinha pavor de uniformes. Ela havia posto ambas as mãos sobre o joelho direito dele e a mão dele encobria as suas, aquecendo-as. A noite que se aproximava anun-ciou-se com um ocaso vermelho. "De agora em diante, teremos responsabilidades iguais para tudo", disse Felicia alegremente, olhando seu rosto como se fosse uma fascinante paisagem. Um "sim" pensativo fez-se ouvir. Subitamente Daniel começou a rir e a puxou para si: "Lembra-se do seu primeiro cartão postal para mim, quando você escreveu: Eu o saúdo, subespécie do ponto de vista da eternidade?" "Sim, com certeza! E nas nossas alianças gravaremos U.D.D. Sabe o que significa?" "Não." "Unos diante de Deus."

Nesse momento, Eu, Kamakura, contemplava com silenciosa alegria o sonho de amor do Espírito Criador e observava o caminho que se iniciara com Tatjana e Aymah e como ele tinha continuidade com Urma, com Daniel e com Ciria. Porque após sete décadas, Felicia enlaçará a delicada silhueta de Ciria e dirá feliz: "Agora estamos unidas para sempre em Deus!" Tantos amorosos fios de ouro foram tecidos por AlectAlectus através de Felicia e Ciria com os seus corações humanos e muitos outros fios dourados serão tecidos. Os céus refulgem quando o amor duradouro se instala nos corações humanos! Felicia se encostou no ombro de Daniel e sua mão esquerda acariciou suavemente os contornos do rosto dela. De repente, ele se levantou num sobressalto. Ele a beiEsteja confortada, Felicia, e sinta a minha unidade em você! Estenda seus braços etéricos e receba a bênção que corresponde ao meu ser. Estou orientando sua alma para que perceba a sua finalidade. Sinta a onipotência do amor que você é através de mim! Você tem que aprender a sentir a sua consciência divina até nos dedos dos pés: cada passo é como renascer na vida terrena quando você o trilha conscientemente e na intenção da unidade, Felicia, ouça! Na porção de alma de Alectus eu sou a emissão e a conclusão de minhas energias geradoras, que ela dissemina por todos os planos. Ela é o leito do rio vivo da minha eterna correnteza de sabedoria. Na sua porção de alma, eu sou a forma da concepção amorosa, na qual meu Espírito sempre se reveste de forma. Como Alecta, você é a constante personificação do meu amor! Sua alma gêmea manifesta na Terra a nova chama do amor que emana do Espírito Criador. EU SOU a luz do mundo e vou refulgir através de sua unidade, quando os anjos da trombeta anunciarem a minha chegada!

Meu Espírito é um aspecto do princípio universal da vida. Eu desempenho uma missão espiritual no planeta Terra. Faço anunciar através de sua alma gêmea terrena a palavra cósmica. Hoje, determinadas pessoas festejam o solstício de verão e o aniversário de João Batista. Saiba que hoje também é um dia especial para MIM! Porque Eu, Pace, já falava naqueles tempos pelo profeta Elias, quando abri a consciência do povo hebreu para Jeová, sob a liderança de Moisés. Em breve o meu Espírito deverá abrir também a alma das pessoas que sobreviverão à inversão da polaridade, ao raio de Deus-Pai-Mãe, e Eu vou conscientizá-los de sua própria divindade. EU SOU um Espírito gerador que se revela aos eleitos através de todos os tempos. Estou em cada soleira do recomeço espiritual!

Felicia, você deverá se unir cada vez mais à Sabedoria Universal que é Deus-Pai-Mãe, e, finalmente, dissolver-se nela. Ela é o colo espiritual materno das vindouras almas gêmeas. Também para elas a sabedoria universal será revelada como a mãe cósmica, que pare infinitamente suas ações terrenas. Amada Felicia, hoje eu coloco um aro de ouro em volta do seu peito sutil para proteger a eterna Alecta. O branco do seu corpo sutil mistura-se ao rosa do corpo sutil de Alectus. Eu lhe concedo como prenda segurança e firmeza para o desempenho da sua missão terrena. Contemplo a divindade desperta em você e uno sua condição de ser humano com ela. Alegre-se, pois o Espírito do Eterno Um habita em você! Através dele você é o hálito espiritual e o fluxo vital; vpcê ê o Princípio e o Fim, você é Ser e Não-Ser! Algum dia a alma gêmea retornará para a Onipotência do Ser Uno. Felicia, após a concretização de sua missão terrestre, Eu, Face, vou submergir a semente de todas as almas gêmeas unidas na Alma do Mundo. O ainda não-manifesta-do haverá de se manifestar!

Sanctus.

Felicia juntou as mãos no sonho e ouviu. Ela viu seu vulto em oração como uma silhueta contra a luz. Um ruído suavemente crepi-tante perpassou pelo céu; os anjos levaram as trombetas aos lábios: Grande comoção nos mundos espirituais! A neve branca tomou-se azul-noite. A Terra estremecia como uma noiva quando o noivo se aproxima. O amor de FeliciAlecta se transformava nesse momento sagrado naquele anseio cósmico que o atrai sempre de novo do mundo da profundeza escura para a luz espiritual. Ela sentiu a alma gêmea como o foco desse anseio. O que ainda estava dividido como pensamento humano, fundiu-se, ante seus olhos espirituais, num único cérebro no horizonte. Ele ardia como o sol da manhã. Subitamente, Felicia acordou, sentou-se na cama e começou a rezar com fervor: Sol espiritual, revela-nos o dia da unidade! Etemo ele é, esse dia! A alma gêmea beija sua nova aurora criadora! Mesmo na condição de ser humano, ela resplandecerá como a estrela Vésper no firmamento! Ela é a força de Deus personificada! Amém! Em seguida ela caiu sobre o travesseiro e sentiu, de repente, com silenciosa felicidade, que estava grávida.

20 - A Luz Triunfará

O tempo é o processo contínuo visível do Espírito ativo gerador. O tempo é a mutação na transformação da criação. O tempo é o jogo cósmico do Espírito manifestado. O tempo é um espelho do comportamento de almas separadas. O tempo é a determinação finita do reino das sombras da Terra. O tempo é o conforto cármico dos homens. O tempo é a força de dissolução dos pensamentos terrenos. O tempo é o enjeitado das almas gêmeas que se buscam. O tempo é a ponte visível entre o Criador manifestado e suas criaturas. AlectAlectus entrou voluntariamente no tempo e doou ao seu fluxo uma nova imagem de vida. Isso se tornará lentamente visível e continuará a resplandecer por longo período nas vagas da correnteza do tempo. Assim que as duas porções de almas encarnadas de Alecta e Alectus tiverem se reencontrado, a parte mais difícil da sua evolução humana deverá começar, porque as vibrações da frequência diferente de seus corpos sutis e de suas características humanas terão que ser igualadas.

Quaisquer almas gêmeas que viverem futuramente na Terra terão que superar o caminho da unidade; a lei espiritual lapidará por tanto tempo ambas as personalidades, até que, como Felicia e Ciria chamadas por nós FeliCiria, se tornem idênticas com o fogo do despertar de sua divindade. O caminho de uma alma gêmea encarnada sempre é doloroso. Seus perispíritos têm de aprender a superar todas as ações e fraquezas inconscientes. O inexorável caminho interior fecha, no decorrer do tempo, os portões do mundo exterior. Somente o caminho da senda estreita da renúncia total da vida pessoal levará a uma meta, aliás, ao retorno da divindade na Terra. Sua chegada é sempre um hino de louvor do Espírito para o mundo. No processo de densificação da matéria, a unidade das almas gêmeas representa um campo energético manifestado pelo Espírito, através do qual suas forças de luz universais fluíram e encarnaram, ajudando porções separadas de almas a consumar sua união. A unidade revela a plenitude do amor espiritual e sabedoria.

Almas gêmeas encarnadas representarão realidades tornadas divinas no decorrer do tempo, comparáveis a sóis incandescentes. No serviço do amor na Terra, elas apresentarão novas estruturas e formas de expressão para a continuidade da evolução. Cheio de alegria, Pace nota que muitos perispíritos em ascensão se deleitam com esses sóis em fogo e que a dissolução gradativa de seus sofrimentos despertará sua consciência divina. Pace traspassará todas as almas gêmeas com a luz da unidade universal, para que através delas a vida espiritual na Terra venha a se expressar. Anjos, cheios de beleza e graça, formarão com forças universais de luz um magnífico arco-íris que se estenderá desde o alto do céu até a Terra. Em seguida, eles fundirão suas cores, com o que formarão o portal sutil, incandescentemente branco, através do qual as almas gêmeas, depois do cumprirem sua missão, retornarão para o éter intangível. Ele é o portal do Um dourado, pelo qual todos os mestres as-censionados passaram desde sempre e sempre haverão de passar.

Almas gêmeas, que, como unidade espiritual, terão a missão na Terra de se testar nos sistemas humanos de poder, ajudarão com o coração reconfortante de amor na consciência social em contínua transformação. Pois antes que este milênio chegue ao fim, os homens e a Terra serão vistos e considerados de modo completamente novo. Também não está mais distante a hora em que o trabalho científico da humanidade se adiantará pela experiência de sua totalidade divina. A nova chama gera desde agora a base da iluminação para muitos habitantes terrestres e, em seus corações, despertará a sabedoria de Deus-Pai-Mãe. Almas gêmeas, que deixam os céus como deuses, reformularão os planetas, como aconteceu há eões. Sua imensa força de amor surgirá no campo áurico da Terra para refletir o espírito da unidade. A noite branca não está mais distante. Abençoado é o vale das dores, pois a harmonia retornará à Terra.

A mais elevada concentração de Onipotência gera o Ser Universal. A permuta entre o Espírito Criador e a criatura resulta em constante transformação de vida e morte. A cada nascimento de uma alma corresponde uma ação de amor do Criador; e a cada morte terrestre uma ação das criaturas. Assim, toda morte precede uma vida. Do ponto de vista espiritual, o homem representa o microcosmo e a unidade das almas gêmeas, um aspecto do macrocosmo. Na encantadora diversidade, a unidade se reflete, assim como a unidade se reflete na diversidade. A energia criadora é infinitamente atuante.

Tudo o que foi gerado pelo Espírito Criador de beleza presta homenagem à magnificência de sua eterna vontade. Nos mundos superiores, o trabalho de conciliação com a Natureza está em pleno andamento. Poderes celestiais unem a Alma do Mundo com a eterna força do amor. Como se a lançasse em poços escuros, assim Deus-Pai-Mãe lança sua luz dourada no coração dos homens. As vibrações de Pace inverterão a polaridade da consciência doente do mundo e abrasarão as almas que estiverem despertando com sua sabedoria espiritual. Amado homem terrestre: sinta a todo-pene-trante luz do amor espiritual em seu coração! Suas almas corajosas, no caminho da unidade, se envolvem no manto de luz protetor do Espírito da reconciliação! A unidade haverá de abençoá-los! Unidade é bênção! A luz triunfará! Deus os saúda!

Kamakura.

21 — Hilarião

Mesmo que Felicia desejasse muito o seu filho, fisicamente ela se sentia mal. E o médico proibiu-a de ter seu filho em casa com a parteira, mas ela desejava isso ardentemente. Assim, teve que se dirigir à clínica da cidade, pois suas condições de saúde eram consideradas de alto risco. Hilarião, assim Daniel e Felicia chamaram seu filhinho, estava destinado a nascer no pior do caos. Na clínica, quase nada funcionava. O sistema de aquecimento e as outras instalações estavam em estado precário e as vidraças quebradas haviam sido remendadas com papelão. As parturien-tes arrastavam-se, cansadas, pelos longos e frios corredores. Enfermeiras andavam trotando como sonâmbulas em direção às portas dos quartos, nos quais, eventualmente, os alarmes piscavam. Apenas os casos muito graves eram tratados com a devida seriedade. Quando as últimas contrações de Felicia começaram, Daniel teve de deixá-la, pois quando começava a anoitecer, toda área do hospital era fechada por causa dos saqueadores. Felicia ficou sozinha no quarto por mais de duas horas. Um pressentimento surdo lhe dizia que ela tinha sido esquecida. Mas, subitamente, a porta se abriu num golpe e duas mulheres a arrancaram, sem pronunciar uma palavra, de cima da cama e a conduziram pela escada para a sala de parto. Felicia desceu as escadas sentindo fortes dores. De repente, foi acometida por um grande mal-estar e uma tontura forte a fez desmaiar.

O que aconteceu em seguida ela não soube dizer. Também o parto não deixou nenhuma lembrança. Felicia só acordou na sala de parto quando a parteira colocou uma pequena trouxa branca sobre o seu peito, dizendo que aquele era o seu filho. Ela beijou a cabecinha coberta de penugem e, logo em seguida, a parteira levou-o embora. Hilarião não pesava nem dois quilos e tinha uma grave lesão: sobre a vista direita, havia uma grossa veia, parecendo um hematoma, e a minúscula cabeça parecia ter sido apertada por um fórceps. Tudo naquela delicada criatura parecia contraída, e, logo, o médico constatou uma paralisia do lado esquerdo do corpo. Durante as primeiras semanas de vida do bebê, eles proibiram Felicia de ver o filho. Alegavam que os corredores do hospital eram muito frios e que a criança não suportaria a perda de calor. Mas havia uma freira bochechuda, da zona rural, que arcou com o risco e, vez ou outra, embrulhava a criança num grosso cobertor para fazer uma surpresa para Felicia. A madre superiora Al-reda, que não tinha conhecimento disso, lutava com muito empenho pela sobrevivência de Hilarião. Com a ajuda de um conta-gotas, ela pingava dia e noite o leite materno entre os lábios do recém-nascido. Na hora de bombear o leite materno, irmã Al-reda pegava regularmente no sono, de tanto cansaço. A princípio, Felicia ainda era obrigada a acordá-la para desligar o aparelho, mas com o tempo ela mesma realizava o processo sozinha e permitia, com silencioso prazer, que a tresnoitada irmã recuperasse o sono reparador. Elas haviam feito amizade rapidamente.

Um dia, depois de uma visita de Daniel, Felicia mostrou à irmã Alreda o anúncio do nascimento em letras pequenas: "Por misericórdia, a fonte da cura ainda continua no fluxo das mais selvagens quedas. Nós somos agradecidos por poder anunciar o nascimento de nosso filho Hilarião." "Quem escreveu a mensagem?", quis saber irmã Alreda, e seus olhos encheram-se de lágrimas. "Eu me lembrei disso como sendo um conforto", respondeu Felicia. "Como é que vocês conseguem continuar tão calmos e cheios de confiança?" Felicia sussurrou bem devagar: "A vontade de Deus é o meu lar." O que ela não dizia, entretanto, era que havia falado com o seu Anjo, pedindo-lhe que intercedesse para que Hilarião pudesse ficar por mais tempo com ela e com Daniel, até que eles houvessem compreendido o significado da vida dele na sua. Irmã Alreda suspirava: "E eu que entrei para a ordem há muitos anos com o desejo de aprender a reconhecer a vontade de Deus e, ainda hoje, procuro por Ele. Quer dizer então que não temos de ir a um convento para isso." Após três semanas chegou o grande momento de Hilarião poder ser amamentado, mesmo que adormecesse depois de cada mamada. Isto e mais a longa convalescência de Felicia foram os motivos pelos quais puderam voltar para casa. Para os pais de Hilarião, não havia o acaso. O que aconteceu ficará para sempre - era a sua resposta curta quando alguém os interrogava sobre a lesão de Hilarião. Eles estavam convictos de que tudo na vida fazia sentido e estava encadeado. Assim, desde o princípio, eles tiveram confiança em que um profundo sentido se ocultava por trás da trágica vida do seu filho.

Trocando de lar várias vezes no período pós-guerra ao lado de seus pais, Hilarião percorreu um caminho extremamente penoso, marcado por constantes sofrimentos físicos. Num dia de verão, Felicia sentou-se ao lado do filho de dois anos, deitado sobre uma coberta na meia-luz de um grupo de bétulas novas, e contemplava pensativa o delicado ser que não podia sentar-se ou espiar com interesse para o mundo, mas que apenas podia ficar deitado de costas, ouvindo, volvendo a cabecinha estreita para o lado. Ao ver a criança esperneando calada na delicada filigrana que a luz do sol formava, atravessando os galhos em suave movimentação, Felicia tinha a impressão de ver a vida de Hilarião como um barco que balançava ao ritmo dos eternos mistérios que não se revelam aos profanos. Os olhos de um fundo azulado de seu querido mas que, na verdade, pareciam descorados, estavam muito abertos e exprimiam algo encantadoramente belo, algo longínquo, estranho. Eles se movimentavam como chamas inquietas ao vento, como se procurassem o seu lugar de origem. No decorrer do tempo, Felicia havia inventado muitas pequenas rimas para Hilarião, que muito o animavam. À sua maneira, ele sabia rir muito. Sobretudo, porém, ele apreciava as orações escritas especialmente para ele. O ritual noturno para dormir tinha que ser conseqüentemente respeitado. Quando Felicia pensava em suprimir uma parte, como, por exemplo, quando recebia visitas, ele começava a chorar. Apoiado no seu bracinho são, Hilarião prestava atenção, em silêncio, alegremente enlevado. Quando a última palavra houvesse sido pronunciada, ele se deixava cair para trás e estendia o bracinho são para puxar a mãe contra si e beijá-la de seu modo, mordendo-a fervorosamente na bochecha. Para o quinto aniversário de Hilarião, Felicia escreveu:

A Lua crescente no céu noturno convida-o para adormecer nesta hora. As estrelas estão próximas de você, argênteo tilintar sobre a seara coberta de neve. Ó caminhante de distâncias desconhecidas, devagar você coloca o pé neste rincão! Você sabe que a mãe trouxe o espírito do seu mundo na hora da concepção e do nascimento.

Ela não foi a sua ponte para o denso reino da Terra; ela foi o elo de ouro, do sutil, do desprendido, do qual suavemente você surgiu. Assim, você permanece do outro lado e toca o envoltório terrestre que lhe foi destinado, apenas com o dedo mínimo da sua mão direita. Seu corpo flácido pende, como um tecido sem forma, dos ombros de sua alma. Agora, meu filho, que cinco vezes completou um ano - primavera, verão, outono que procuraram despertar-lhe a existência; cinco invernos também se esforçaram, cintilantes em sua brancura, para alegrá-lo, agora o meu colo gostaria de trazê-lo novamente à vida. É chegada a hora! Ó, ouça; quando de manhã a foice prateada desaparece no caminhar dos astros, e uma estrela sucede a outra mais alta quando, envolta em frio e coberta de gelo, a Terra dorme à meia-noite, ó ouça a minha nova canção! Meu amado, Hilarião: ouça com seu ouvido afinado a canção que vem do meu íntimo, aquela que realmente transforma: Eu amo tanto a Terra! Ela é tão linda, ela é o tapete aos pés de Deus, no qual estão tecidas as tramas da vida. O, deixe-nos, nós que vemos os céus abertos, que contemplamos o ouro do sol nas mãos do Criador, e ouvimos, de estrela em estrela, o cantar dos coros de anjos diante de Sua fronte; ó, deixe-nos juntos, criança sábia, tecer fios com essa luz - prateados, dourados, azul-safira - no escuro tapete vermelho e preto deste mundo! O grande Anjo Miguel, o seu irmão celestial, não seria designado para carregar a balança do mundo se ele não gostasse, mais que todos os outros anjos, arar e semear neste campo escuro do nosso mundo. Dê-lhe a mão, dê a mão ao grande Anjo da nossa existência, e tenha coragem, a coragem que ora me embala, para doar à Terra o que ela precisa: o espírito de amor, sacrificando o corpo, essa luz solar mergulhada no cá-lido, macio torrão natal. Ó, ascenda ao grande país das almas! Deixe o seu inverno; seja finalmente primavera! Dê força à pobre vestimenta que tão penosamente pende de seus ombros! Pegue com sua mão sadia, não apenas com o dedo mínimo, e puxe, dê formato ao tecido! É tão lindo existir em honra do Espírito Criador, tão lindo vir para a Terra por ele e semear na sua luz e levar os frutos colhidos para Ele! Você ouve, você o fará para a honra de Deus, pela fama do nosso amor. A Terra nos agradecerá na despojada credulidade de seus milagres. Deus haverá de coroar-nos pelo sofrimento do caminho com o seu tardio e maravilhoso

Amém!

Mas, apesar da inabalável fé de Felicia na sua melhora, o espírito de Hilarião já estava destinado a despedir-se da Terra. Em decorrência de uma picada de vespa, uma forte infecção selou seu aniversário celeste. Na noite do segundo dia da doença, ele estava febril nos braços de Felicia enquanto Daniel armava sua cama no quarto do casal. Na manhã seguinte, os pais não deixaram o filho sozinho por nenhum momento. Perto das onze horas, Hilarião pronunciou subitamente um claro e humano "Ah". Foi sua primeira e sua última palavra. Sua alma havia voado para o lar. Desde o princípio, Felicia havia sentido que a alma de Hilarião desempenhava um extraordinário contato terreno para despertar determinadas forças nos seus pais. Assim, depois de sua despedida, ela se entregou a uma profunda comunhão com a alma dele. Seu espírito mantinha contato com o espírito do filho e, assim, ele pôde amenizar, das esferas celestiais, a profunda dor da separação. Em seu íntimo, Felicia sentiu que Hilarião fora um aspecto do espírito de Pace, que assim quis saudá-la, a espiritualmente solitária, através dessa criança amada. Daniel ficou profundamente abatido, muito mais do que quando se despediu dos seus pais. Mas, como sempre, seu sofrimento foi silencioso e sem perguntas. Depois que, soluçando, terminou de fechar o caixão do filho, disse para Felicia: "Eu estou ouvindo apenas uma frase: 'E o Verbo se fez carne!'". Depois disso, ele nunca mais questionou o sentido da vida de Hilarião; apenas vigiava com consciente atenção a vida de seus entes queridos.

Imediatamente depois da morte de Hilarião, Felicia escreveu no seu diário: "A criança, amada no sofrimento, amada na luz, três vezes Você permitiu, ó Espírito Criador, que eu ficasse dormindo bem perto dela, como nos meses da espera, quando eu a carregava no seio e ninguém a via. Testa contra testa, a dele sobre a minha, como se eu estivesse sendo alimentada pela semente em germinação através dele; a criança luminosa com o rosto tão conhecido que silenciosamente me doa a paz em sonho. Ó Senhor, junte as lágrimas de gratidão como as minhas e faça-as florescer nos revoltos e abandonados canteiros do mundo, que se desespera, porque não reconhece o Ressuscitado!" Certa noite, Felicia sonhou que andava com Hilarião numa charrete de duas grandes rodas e um gracioso assento. Hilarião segurava as rédeas nas mãos e o cavalo dourado com os arreios púrpura trotava alegremente. Hilarião inclinou-se para Felicia e seu rosto, agora sadio, resplandecia e, num tom quase travesso, ele, que nunca pôde dizer palavra, disse: "Goldilein, eu me alegro tanto com você!"

22 — Tempo de Maturidade

Daniel, doze anos mais velho, protegia patemalmente Felicia, pelo que ela lhe era muito grata. Além do mais, ela se sentia fortalecida e abençoada pelo seu filho no mundo espiritual; mas, mesmo assim, sua inexplicável saudade não cedia. De uma maneira maravilhosa, ela podia abrir-se a respeito com o marido. Todos os aspectos extraordinários de sua personalidade estavam diante do seu olhar compassivo. Ele a amava fervorosamente, com um sen-timento interior, mas nunca falava a esse respeito e também não lhe fazia declarações de amor. Por isso, Felicia gostava de chamá-lo de seu cavaleiro do Graal. Se bem que, pela sua natureza simples e pragmática, não conseguisse acompanhar verdadeiramente seus mais íntimos sentimentos, ele a deixava agir livremente. Durante quarenta anos eles residiram numa casa de madeira tradicional da região, no meio de uma floresta de bétulas, numa reserva botânica de proteção ambiental. Flores raras floresciam ali e, no outono, havia uma quantidade suficiente de cogumelos comestíveis. Schleland, assim se chamava a propriedade, tinha a vista para o curso movimentado de um rio, atrás do qual levantava-se uma solene cadeia de montanhas. Animais mansos aumentavam rta a graça do parque natural que se delimitava com a casa. As portas de Schleland estavam sempre abertas: para as crianças, para aque-às les que buscavam a paz e para os necessitados. Quem permanesse nesse local de sossego, sentia-se em casa. Assim, Felicia trabalhava muito, sobrecarregada, e com infinita abnegação. Para ue Daniel esta foi a época da retomada dos negócios. Em parte, ele participou da reconstrução das dependências da fábrica, mas em outros assuntos do pós-guerra ele foi considerado um elemento de equilíbrio. Se bem que o legado de seu pai fosse difícil, ele levantou a empresa familiar com grande sucesso. Por estar demasiadamente sobrecarregado, os últimos dez anos de sua vida foram marcados por uma grave doença.

Felicia lembrava-se amiúde de um sonho especialmente claro: duas mãos bonitas, como as de Daniel, lhe apresentavam uma criança e uma voz que vinha do invisível, profunda e cálida como a de seu marido, dizia: "Senhor, agora podes despedir o teu servo em paz, pois seus olhos já viram o Salvador do mundo!" Felicia dizia para si mesma no sonho: "Agora eu estou sonhando. Mas quando eu acordar, se ainda vir esta imagem, então ela é verdadeira." Quando despertou, ela viu a mesma imagem iluminada, infinita e reconfortante. Uma voz interior lhe dizia que a criança simbolizava algo vindouro.

Quando a fase aguda da doença de Daniel começou, eles tiveram de se mudar de Schleland, tão cheio de afazeres. Finalmente, chegou o fim do tempo da vida em comum. Uma luz de vela clareava a noite. Felicia fazia vigília junto ao amado que estava morrendo conscientemente. Ela lia salmos, hinos de igreja e orações em voz baixa. Sempre que ela se interrompia, ele dava sinal para que prosseguisse. Sua voz estava fraca demais para cantar, pois a dor da separação iminente lhe estrangulava a garganta. Subitamente, Daniel soergueu-se com sua última força e acariciou o braço dela, com sua mão bonita e fina, sem tocá-lo, sem dizer palavra. Depois deitou-se e fechou os olhos para sempre. Uma paz sobrenatural irradiou-se pelo seu rosto. Era como se ele sorrisse por entender a sua difícil vida. Felicia teria apreciado muito seguir junto com a alma dele! Mas havia uma música em seus ouvidos, que a prendia à Terra. Ela sabia que era uma ária do Oratório de Natal de Bach. Por três dias seguidos, ela ouviu essa melodia com júbilo no seu íntimo, sem lembrar-se, contudo, da letra. E então, subitamente, recordou-se das palavras: "Prepare-se Sião com delicados impulsos do mais belo, para em breve ver mais amado!" Era como se essa melodia lhe transmitisse a profunda felicidade da alma que acabava de separar-se dela para tornar o seu luto mais ameno. Nos anos seguintes, Felicia, delibera-damente, viveu cercada de gente para continuar ativa. Ela era como que guiada pela mão sutil de Daniel, mas havia liberado totalmente o caminho de sua alma. A poderosa afluência das palavras de Pace também confortavam a alma de Felicia. Durante os sonhos, ela freqüentemente ouvia suas palavras:

Amada Felicia, você é agradável ao Espírito Criador! Pace está criando clareza e equilíbrio em sua alma! Esteja consciente de que você está a caminho da completa união com o Ser ancestral! Seu perispírito deverá aprender a deixar-se guiar somente pela Vontade do Criador. Sua eterna presença deseja atuar em você. Ela é completa alegria na alma e saúde no corpo. Saiba que o subconsciente sempre se orienta pelo passado e que aquilo que não foi devidamente trabalhado causa efeito no corpo. Você sofreu muito física e psiquicamente no plano terreno, coisa que ainda não integrou no seu consciente, por parecer secundário ao seu coração ardente, mas os acontecimentos continuarão a agir no seu subconsciente, sem a orientação do seu espírito desperto. Mas eu, Pace, desejo que você trabalhe conscientemente os acontecimentos passados e os libere; não trabalhe somente para os outros, mas para você também. Não se esqueça de sua responsabilidade pela sua vida pessoal e não se desgaste unilateralmente! Mas tenha bom ânimo e será reconfortada! Seu subconsciente trabalhará junto com você, se você assim lhe ordenar em suas meditações. Ele reforçará sua atividade espiritual e a capacidade de amor e a livrará do sentimento de abandono. Supere a sua solidão e saiba que a união com sua alma gêmea na Terra está muito próxima! Você intuirá com a sabedoria que tranqüiliza que a humanidade não está perdida. Fique tranquila; a unidade supera os medos do mundo!

Sanctus.

23 — Gautama Buda

Kamakura envia-lhes luz e amor! O Espírito ativa em todo lugar e em qualquer tempo. Ele não conhece limites. O encontro entre Felicia e Ciria ainda não havia acontecido na Terra quando o Mestre Ascensionado Gautama Buda fundia sua mensagem para o mundo em suas porções de alma:

EU SOU Gautama, o Senhor do Mundo! Deus os saúda!

Amado ser humano. Quando você ouvir o quinto verso da Sexta Sinfonia de Beethoven, permitindo que ela flua pelo seu corpo, você estará se abrindo ao mestre sutil Gautama Buda, que EU SOU. Então a sua alma se unificará com Shambala, a sede da hierarquia espiritual sobre a Terra. Minha mão etérica toca você com muito amor. Ela ajuda toda pessoa de boa vontade a deixar suas incertezas e a colocar a sua natureza em harmonia. Acima das vibrações do seu Anjo Guardião pessoal, fluem as minhas energias de luz para o seu corpo. Hoje, que você está lendo esta mensagem, este é o dia. Sempre que sua consciência humana me chama, aspectos conscientes do seu perispírito flutuam nos raios de meu Ser para Shambala. Para o caminhante sutil, o seu corpo astral, afluirão as minhas energias nas cores rosa, ouro e azul e, com toda certeza, sua alma perceberá a minha presença. Todos os céus agradecem.

Amado ser humano: EU SOU o único foco ardente da Terra! EU SOU o átomo permanente que cuida da conservação deste planeta, que já se manifesta por dois mil anos na chama trina! EU SOU e permaneço o centro espiritual no ponto focal da Terra. EU SOU a energia da alegre serenidade na sua mente e nos seus sentimentos e estimulo a qualidade do seu pensamento. EU SOU um pastor zeloso de sua natureza! EU SOU o observador e orientador da energia luminosa nos corpos sutis, que aumenta de hora em hora, servindo a toda a Criação, expandindo-a sempre mais. Todos os céus agradecem!

Amado ser humano: EU SOU a nova semente na alma do mundo e em muitas dimensões cósmicas, que produzirá os frutos da unidade espiritual no planeta Terra! EU SOU também a luz incorporada da Alma do Mundo, que principia a se irradiar para o exterior. EU SOU o acréscimo da força e da coragem, da luz e da sabedoria, na alegria e na gratidão, na paz e na bondade. EU SOU o espírito manifestado do amor, que deseja compartilhar seu amor com todas as almas no planeta Terra. EU SOU um aspecto da nova consciência, que depois da inversão da polaridade da Terra, a conduzirá através de todo instrumento que tiver sido escolhido pelo meu Espírito! Assim está escrito. EU SOU a corrente do conhecimento universal que está se ampliando. Todos os céus agradecem.

Amado ser humano, depois da modificação estrutural do planeta Terra, almas gêmeas deverão povoá-lo, para realizar o novo plano do Criador. Meu Espírito serve à unidade de todas as almas. Eu colocarei a palavra de Deus-Pai-Mãe em suas línguas e marcarei profundamente suas almas com a Sua Vontade! Desta maneira, elas derramarão o amor universal na Terra, elevando sua frequência. Todos os céus agradecem.

Amado ser humano, eu, Gautama, estive outrora no planeta Terra na pessoa de Buda e muitas almas gêmeas ascensionadas foram meus discípulos fiéis. Por isso, e conforme a lei da causa e do efeito, essas almas receberão seu pagamento espiritual: a inconfundível ligação no nível consciente, com Shambala. EU SOU uma energia, que ainda há de despertar deuses adormecidos no homem. Vou mergulhar os corpos sutis das almas gêmeas unidas pela eternidade no fluxo espiritual da minha luz dourada; fortalecer sua unidade terrena e equiparar afreqiiência de seu físico com a minha vibração de luz. Hei de tecer fios dourados de energia em seus corpos astrais para que sua irradiação também eleve a freqüência dos campos sutis. O espírito da nova era gerou uma célula nova como fluxo unificador de amor no coração irradiante do coeterno Criador. Todos os céus agradecem.

Amado ser humano, aquela unidade eterno-espiritual que já habita a Terra, AlectAlectus, é a precursora terrena das almas gêmeas vindouras. Ela libertará um Anjo da Unidade que ora está atado à Terra. Este servirá a vontade universal e se empenhará no despertar espiritual da huminadade. O Anjo Branco da Unidade esperou pacientemente por milhares de anos. Ele guiará todas as almas gêmeas unidas através do portal do Um dourado até Meu Reino, para Shambala. Minhas forças de equilíbrio, de ponderação, de harmonia e amor levarão as almas gêmeas à eterna maestria! Todos os céus agradecem.

Amado ser humano! Quanto mais FeliciAlecta e CiriAlectus se esforçarem em assimilar Minhas Energias, mais intensivamente arderá o foco divino de sua eterna unidade na alma do mundo. No centro do chakra da coroa, o símbolo da Minha Força, encontra-se uma pedra preciosa sutil, com a qual preparo o cérebro das almas gêmeas para suas missões terrenas. Sem esse ajuste em suas auras, seus corpos sutis não poderíam suportar minhas energias. EU SOU o mestre de todas as almas gêmeas e nelas sou a energia criadora ativada. EU, Gautama Buda, SOU um aspecto do espírito de Pace. EU SOU a felicidade universal, que se levanta nas almas gêmeas AlectAlectus como um sol cósmico e, algum dia, deverá arder em todas as almas gêmeas. Eu serei o sorriso nos seus lábios! EU SOU a força do despertar do raciocínio dos homens. Todos os céus agradecem.

Amado ser humano, Meu Espírito há muito tempo está interligado com a alma gêmea AlectAlectus. Eis que ora se trata da conscientização humana, para que essa alma mestra encarnada na Terra chegue à sua atuação espiritual. Vou juntá-la com outras almas mestras. O acontecimento universal está em maravilhosa preparação! EU SOU um aspecto da energia universal e da sabedoria que libertará muitos homens do cárcere da matéria. EU SOU a força da esperança que devolverá à Terra e aos homens o paraíso! Como AlectAlectus, as futuras almas gêmeas encarnadas também contribuirão para aumentar aflama da cor do arco-íris de Sham-bala. Ela, que arde eternamente, é o elixir inexaurível da vida para a Terra. Ela resplandecerá em todas as almas gêmeas e se tornará um aspecto manifestado da fonte ancestral, da qual jorra infinitamente a luz do Espírito Criador sobre a humanidade. Almas gêmeas que são deuses encarnados permanecerão por tanto tempo no plano físico até que o espírito da nova era esteja ancorado na consciência da humanidade. Sua abnegação ao eterno princípio do amor será imensurável. Após a realidade de sua missão terrena, elas retornarão ao Nagual e existirão na não-respiração do hálito sempiterno do Espírito Criador. Todos os céus agradecem.

Amado ser humano, as amarras que ainda o prendem ao finito serão dissolvidas pela força do espírito, que EU SOU, para que o verdadeiro Ser das eternas almas gêmeas seja reconhecido. Elas se mostraram fiéis à vontade criadora desde o princípio. Está escrito na lei espiritual, que o amor do espírito universal porá fim a todo deslumbramento. Mas para que isso ocorra, é preciso que aconteça a inversão da polaridade, a modificação da estrutura e da frequência do planeta e de seus habitantes. Almas gêmeas encarnadas unirão novamente o espírito das criaturas com o Espírito do Criador. Assim, devagar, a Terra também se tornará o espelho que refletirá novamente a verdade eterna. A força da irradiação do Meu Espírito se estampará no rosto dos vindouros deuses e resplandecerá em todos os mundos. Todos os céus agradecem.

EU SOU Gautama Buda, o Senhor do Mundo.

Deus os saúda.

24 - O Sonho de Felicia Sobre Shambala

Após ter recebido a mensagem de Gautama, Felicia teve um sonho muito nítido. Com um sorriso sábio, Wunsilija flutuou em direção à adormecida, cujo corpo astral desprendeu-se imediatamente do físico. As duas silhuetas etéricas voaram para as esferas de Buda, através do portão escancarado do Um dourado.

Ele deu sua mão luminosa a Felicia e a conduziu ao ofuscante reino de Shambala, cuja irradiação cristalina jamais poderá ser descrita por Felicia com palavras humanas. Enlevada, ela fitava a plêiade dos mestres ascensionados. Gautama mostrou-lhe a fonte energética de Shambala, que lhe pareceu semelhante à entrada do Nagual. Ao mesmo tempo, ela viu que essa entrada vibrava na mais alta freqüência e que dali saía um estimulante feixe que se dirigia ao interior da Terra. Gautama lembrou a Felicia a cooperação de algumas almas gêmeas ligadas a Alect-Alectus, e como elas o haviam cercado como entidade etérica durante sua missão na Terra. Com suave bondade, ele disse a Felicia que acompanhara a vida dela desde o nascimento até o presente momento, em que as almas gêmeas se encontrariam na Terra. "Querida Felicia, Eu, Gautama, vou revestir a Terra com uma luz branca e ajudar as almas gêmeas da Terra no fortalecimento de sua alma mestra. As almas mestras são os construtores e os educadores da humanidade." Felicia sentiu Shambala como um único e transparente lar de felicidade do Espírito Criador e nada havia além de bondade. Tudo acontecia numa freqüência que não podia ser assimilada pelo ser humano. A luz não era comparável a vagas de flores brancas ou a campos nevados iluminados pela Lua terrestre; e, mesmo assim, Felicia percebeu que a transparente incandescência branca de Shambala tinha uma estreita relação com a limpidez do que é verdadeiramente belo na Terra. Enquanto ela flutuava, admirando-se, de mãos dadas com Gautama, ele dizia que neste plano eram desenvolvidos arquétipos mentais para ajudar os homens na Terra. O cisne, que outrora aparecera para o moribundo Seraphis, havia sido uma energia de Shambala. Ele próprio havia despertado essa imagem em Seraphis, para reconfortar o príncipe, cuja alma estava em vias de partir.

Felicia sentia-se inenarravelmente agraciada com esse sonho. Um pressentimento havia despertado nela e ela se perguntava como era possível que arquétipos espirituais vivos pudessem atuar entre Shambala e o planeta Terra, comparáveis a uma trama flutuante que subisse e descesse. A irradiação de Buda permaneceu presente nela como uma longínqua e suave bondade.

Profundamente comovida, Felicia escreveu uma carta, em pensamento, para sua alma gêmea:

Alectus, recebemos os raios de nosso lar na Terra que, incandescente, reflete a fonte do nosso Ser. Assim que nós nos tivermos encontrado, os mesmos reforçarão a nossa unidade e, com o passar do tempo, tornarão a nossa humanidade incontestável. Energias espirituais eternamente conhecidas serão sinais cintilantes de luz no nosso ser finito. Você é o Verbo, que EU SOU! Deixe-me ouvir em você a palavra de Deus que você capta de mim! Deixe-nos contemplar o nosso Ser, o Uno! Veja, ele se encontra envolto numa aura cor-de-rosa que, gradativamente, toma-se dourada. Ele ilumina o cerne branco da nossa etema unidade, que respira em Deus-Pai-Mãe. Mesmo que, como duas pessoas, sejamos como duas ilhas no ilimitado oceano de Pace, nos será concedida a força para que sejamos um continente de infinito amor no mundo vindouro. Nossa alma una fundir-se-á com a força primeva do universo que faz a mutação, em constante movimento, de sóis e planetas. Essa força de mutação impulsiona a vida em direção a sistemas gradativamente mais elevados da unidade, para alegria dos que servem à vida espiritual. Almas terrenas e almas celestes sentem cada vez mais conscientes a Verdade: o que é, o que não é, o que será. Há incontáveis materializações que são geradas apenas por um, e este novamente as dissolve. Vida materializada é vida em dissolução. Vida não-materializada é Espírito Criador. A unidade cósmica manifesta amor e o doa para qualquer entidade que possa receber a graça e dispersá-la. O continente do amor divino está em contínua expansão e uma paz florescente há de se instalar nos jardins destroçados da humanidade. Estes ficarão ocultos por longo tempo no nosso amor divino manifestado na Terra, regados com lágrimas de compaixão, até que, finalmente, produzam os frutos da paz. Essas lágrimas são um néctar reconfortante para amenizar as dores da consciência dos homens. Que a unidade se torne como um astro na Terra para todo aquele em que o espírito do amor se revela!

Toda criatura humana carrega em si o hálito divino. O destino dessa criatura é decidido pelo uso da respiração na vida. A percepção espiritual está ilimitadamente contida em cada um; contudo, passa por variações de cor e por limitações através das qualidades da mente. Toda criatura possui um modo próprio, totalmente individual. Querido Alectus, o Espírito Criador, o eterno Um, criou em nós, duas pessoas diferentes, a capacidade de transcender as particularidades pessoais e, assim, desdobrar uma nova força que atuará redimindo e libertando muitos. Louvada seja a onipotência do amor!

25 - A Clarividência

Aumentava a cada hora, o desejo de Ciria de tornar acessíveis às pessoas as experiências de meditação. Quando sua amiga Ve-rena expressou várias vezes o mesmo desejo, elas decidiram transformar essa vontade em ação. Ciria alugou uma grande casa nas proximidades da escola de Noel, para que ele não sentisse nenhuma diferença. Logo, os cursos de meditação tiveram grande repercussão junto ao público. A notícia sobre o sucesso dos cursos se espalhou rapidamente, inclusive fora de sua comunidade. A sala ampla e iluminada oferecia o mínimo espaço para vinte participantes e, pela primeira vez na vida, Ciria alegrou-se com a ausência de mobília. "Faz sentido. Eu não saberia mesmo onde colocar os móveis", pensava ela, intimamente agitada. Cuidadosamente, ela começou a juntar as cadeiras duras de pinho e contou, para ver se não cabia mais uma. De repente, Verena apareceu na porta e disse sorrindo: "Então, sua esforçada, os participantes também têm que respirar!" "Você tem razão", respondeu Ciria tirando, visivelmente sem graça, os cabelos do rosto afo-gueado. Sua clarividência e a crescente capacidade de minimizar dores com a imposição das mãos, causavam não apenas fascinação, mas também faziam as pessoas acorrer movidas pela curiosidade. Verena também tinha a capacidade de ver, em transe de meditação, a aura dos participantes, com suas cores. Estas, por sua vez, fomeciam-lhe a informação sobre o estado físico e a disposição psíquica atual do visitante.

Enquanto isso, três anos cheios de realizações se passaram. O círculo de pessoas que meditavam expandia-se mais ainda. Por sorte, os próprios alunos também quiseram um turno da tarde, o que facilitou o talento de organização das amigas para que os cursos transcorressem sem atritos. Numa agradável noite de primavera, Ciria sentava-se diante da mesa da cozinha. Numa cesta bege feita à mão, havia inúmeros envelopes empilhados; matrículas para o próximo curso de meditação. Sem fazer ruído, Noel, que então contava treze anos, entrou na cozinha. Protetoramente, colocou seus braços compridos em tomo dos ombros de Ciria e, apontando com os longos e finos dedos para a cesta, disse: "Então, mãezinha, isto tudo não é demais para você?" Ciria sentiu o sangue subir-lhe ao rosto; ela o fitou sem desviar os olhos. "Acho que você está certo, querido Noel; é necessário que procuremos uma outra solução." "Vou continuar ao seu lado", disse ele sorrindo, e deixou o recinto tal como entrara, calado. Subitamente, lágrimas corriam pelas faces de Ciria. "Meu Deus, Noel me chamou de mãezinha, como nos velhos tempos!" pensou ela. A natureza introvertida de seu filho, demasiadamente sensível, de novo fez despertar a consciência pesada que a vinha torturando há algum tempo. "Por que Noel está tão introvertido, dado a acessos de melancolia", perguntou ela aflita a si mesma. Sua voz interior respondeu de modo quase ameaçador: "Você não percebe que ele está sofrendo por se sentir solitário durante todas as noites?" Um sentimento de profundo desespero sobreveio-lhe e ela, muda, rogou: "Por favor, querido Nikolaus, guie-me ao reconhecimento de minha verdadeira missão!" Antes do esperado, o caminho se abriu. Quando menos esperava, ela conheceu um homem cuja proximidade espiritual tocou-a imediatamente. Casaram-se logo em seguida e, com Noel, foram morar na zona rural para começar uma vida nova. Mas essa é outra história!

Durante essa época, o espírito de Pace atuava cada vez mais perceptivelmente na psique de Ciria. Há muito tempo ela estava familiarizada com as viagens astrais noturnas. Assim, ela foi mais uma vez, acompanhada de Nikolaus, ao templo etérico do amor. E, como sempre, ao ouvir as palavras de Pace, estas se transformavam de imediato em imagens que ela podia ver com seus olhos espirituais. Pace disse:

Ciria, seus sentidos espirituais se juntam com os da corrente cósmica de alta freqüência e seu perispírito comunga com os iluminados, revestidos de tênue substância. O crescente amor impessoal em você constrói novas forças no seu corpo astral. Estas se unem sempre com mais intensidade à dos mestres ascensionados e com as fontes de energia de Shambala. O âmago de sua alma, onde mora a palavra de Deus, deverá ser divulgado publicamente através de sua condição de ser humano. Assim, a sabedoria também se manifesta no seu Eu exterior pela unidade da alma gêmea terrena, que é uma divindade encarnada. Brevemente você terá se desenvolvido de tal maneira que a desarmonia dos pensamentos da humanidade e o caos que a rege não poderão mais coagi-la. O poder do amor do Ser Cósmico Deus-Pai-Mãe vencerá a sua dor psíquica! Nenhum sofrimento será capaz de quebrar o círculo de luz que você, como Alectus, unido a Alecta, manifestarão um dia! A rosa cor-de-rosa é o símbolo da luz cósmica que se tornou Verbo. Esta rosa desabrocham no centro do seu coração e, graças à sua força, você conseguirá superar também as dores do seu corpo.

Ciria, uma alma gêmea na Terra, é uma entidade criativa, espiritual, que tem a capacidade de assimilar informações cósmicas. Você reconhecerá os sinais do novo milênio e, a serviço da eterna lei, obedecerá ao seu chamado. As amorosas vibrações do meu Espírito deverão fundir também os corpos astrais das vindouras almas gêmeas na Terra em um corpo astral etérico e peculiar. Este será uma ponte tênue pela qual as almas em ascensão poderão retornar ao seu lar espiritual. O corpo astral manifestado das almas gêmeas aumentará gradativamente os campos energéticos que circundam a Terra, elevando a sua freqüência e promovendo a inversão da polaridade de antigos padrões. Novas forças criadoras reviverão no planeta, libertando a consciência humana das suas amarras. Os casulos de energia que envolvem e interpenetram a Terra representam um aspecto manifestado da biblioteca astral da Terra, que é chamada de crônica-Akasha. EU, Pace, SOU o reflexo da crônica-Akasha em todas as almas unidas! Meu espírito pulsa nelas. Minha inteligência atua sobre elas de maneira criativa, pois ela repousa no meu seio. Na crônica-Akasha, os planos criativos do Espírito coeterno estão armazenados e intrinsecamente ancorados. A Terra a ser reformulada já se reflete nas nossas dimensões. Agradecimento e alegria!

Ciria, nós, seres de luz, a tornamos cada vez mais consciente do círculo de ação das leis cósmicas e casamos seu espírito com o nosso espírito. Nós lhe transferimos o nosso saber na forma de imagens e a ensinamos a convertê-las em linguagem humana. Esteja ciente de que a sua vida esconde segredos cósmicos e que você é abençoada! Eu desperto no seu perispírito a lembrança do Anjo de Luz AyonaPleja. Ele é um potencial de energia em sua unidade com Alecta, do qual emanam forças curativas para áreas de tormentos em seu subconsciente. Eu, Pace, implanto no seu espírito, e em todas as almas gêmeas unidas do futuro, aspectos da minha inteligência, para que a sabedoria cósmica possa ser expressada na existência terrena. Desde que o amor sempiterno do Espírito Criador possa ser expressado visivelmente pelas almas gêmeas no mundo terrestre, a manifestação do Meu Espírito na Terra evoluirá de modo novo. Amor é poder sagrado! Ele é silêncio, humildade, alegria e sabedoria! Amor é tudo no todo e jamais pode falhar! Deste modo, Eu faço fluir em frequência elevada a corrente espiritual do meu amor através de sua alma gêmea na Terra. Ciria, eu apago as desarmonias no seu perispírito, para que a névoa inerente à sua compreensão humana seja clareada, para ela não ser mais exposta à escuridão. Jamais limite a sua capacidade de pensar! Agradecimento e alegria estejam com você!

A sabedoria cósmica está à disposição das almas gêmeas unidas. Elas captarão, com força de vontade concentrada, o desejo espiritual do seu Eu Superior durante a sua existência humana, fazendo efetivamente a sua vontade. Muitos habitantes terrestres perceberão como suas almas se tornarão luzes claras e irradiantes no mundo. As impressões sobre separação estarão com a polaridade invertida. A claridade cósmica das almas gêmeas unas interpene-trará sempre mais o planeta Terra. Desta forma será possível ao Espírito Criador estender continuamente a visão da eternidade no tempo. As asas das almas gêmeas estendem-se com a mais elevada graça para despertar a consciência de existir multidimensional-mente na alma do mundo. Agradecimento e alegria!

Sanctus.

O Anjo Guardião Nikolaus e o Anjo de Luz AyonaPleja trouxeram o corpo astral de Ciria de volta ao plano físico. Como não existem divisões para o espírito, esse conhecimento também foi passado para a metade de alma de Alecta. Assim, Felicia e Ciria tiveram a esperançosa percepção de que o encontro com sua outra parte era iminente. Ela ainda não conseguia imaginar como isso se daria, mas tinha a impressão de que sua vida atual estava murchando. Ela própria, inclusive, começou a sentir-se estranha, e também as pessoas. O espírito de Pace havia se tornado suas vidas e elas ansiavam por cumprir a missão que Ele lhes destinaria.

26 — A Luz na Sombra dos Planetas

Agora eu, Kamakura, virei contar sobre o passado próximo na vida das almas gêmeas e do seu reencontro. Mostrarei a você, amado ser humano, como age a lei universal, que me enche de grande alegria. Minha bênção flui para o mundo!

Durante os anos de sua velhice, Daniel havia mandado construir uma pequena casa no coração da Suíça; sem cercas, com um jardim que a circundava, fácil de cuidar, para que ali, junto de Felicia, pudessem passar o acaso de suas vidas. Após a sua morte, ela morou sozinha na casa, mantendo um bom relacionamento com os vizinhos solidários. Cinco anos já haviam se passado desde a partida do marido, quando ela ouviu, por meio de uma amiga alemã, que no mesmo cantão e não muito distante dela, vivia uma clarividente; ao analisar os escritos dessa clarividente, a amiga sempre tinha a impressão de tratar-se de um parentesco psíquico com Felicia. Ela gostaria muito de presenteá-la com um livro da autora, Ciria Mahra. A amiga enumerou diversos títulos deixando que ela escolhesse. Espontaneamente, Felicia decidiu-se pelo livro "A Inversão da Polaridade". Quando finalmente estava de posse de seu presente, começou imediatamente a lê-lo; qual não foi a sua surpresa, pois o conteúdo correspondia em tudo aos seus pensamentos. As mensagens dos anjos transmitiam precisamente a verdade e a sabedoria que ela havia preservado cuidadosamente em seu interior, preocupada com a incompreensão dos seus semelhantes. Agora, porém, seu maior tesouro havia sido divulgado ao mundo de uma forma tão amorosa. A necessidade de conhecer a autora cresceu gradativamente, de hora em hora, e Felicia não pôde mais resistir, dando vazão ao seu desejo. Assim, sem refletir, ela escreveu o que lhe ia na alma, acompanhando a corrente do instinto, e deixou a folha aberta perto de si por algumas horas, como se quisesse carregá-la de energia, enquanto não a levava ao correio. Quando não ousava esperar por uma resposta, eis que esta já chegava, igualmente manuscrita. Ci-ria havia fixado nessa carta uma data longínqua para o encontro: "Se esse for o momento certo, o dia estará livre para ambas."

A partir dessa hora, Felicia viveu em secreta ansiedade pelo dia que ainda parecia tão longe. E então o momento chegou. Mal Pentecostes havia passado, o sol brilhava e sua aura estava toda mergulhada numa luz clara e benfazeja. A campainha da casa soou, o coração cheio de expectativas começou a bater acelerada-mente. Ela abriu a porta e viu uma criatura graciosa à sua frente, delicada, magra, trajando um vestido branco. Apesar da graciosa figura, sua atenção se prendeu unicamente nos olhos grandes castanho-escuros da senhora Mahra. Quando seus olhares se cruzaram, algo incompreensível tomou conta de Felicia. Aqueles olhos eram completamente diferentes dos de todas as outras pessoas que ela conhecera: eles olhavam somente para o interior. Uma grande calma apoderou-se de Felicia. Era como se, diante daquele olhar, ela estivesse novamente pisando uma Terra há muito conhecida. O lar espiritual inesquecível delineava-se contra um fundo escuro à sua frente. Enquanto, ao mesmo tempo, Felicia ouvia uma música de que ela gostava desde a juventude, a melodia do trecho da entrega da rosa, da ópera "O Cavalheiro das Rosas", de Richard Strauss: "Onde estive certa vez e fui tão feliz..." Felicia não sabia como fizera sua visita entrar na sala e como ambas chegaram a se sentar; contudo, em sua imaginação, a imagem daquele ser delicado ainda ficaria retido por longo tempo em sua mente. Elas conversaram normalmente, mas o raciocínio de Felicia não conseguiu guardar quase nada do que foi dito, porque sua alma havia tomado o primeiro plano.

Ela teve certeza de que já tinha visto aqueles olhos. Há muito tempo! Se bem que ainda conversasse com Ciria, ela pensou ao mesmo tempo: "Eu a amo, eu amei algum dia esta criatura! Só eu, o que aconteceu comigo?" Então a palavra "alma gêmea", profundamente gravada no seu subconsciente desde a juventude, passou pela sua memória. Ao longe, ela ouvia sua voz no meio da conversação dizer "você". Exultando intimamente, ela ouviu o mesmo da boca de Ciria. Um calor que subia pelo corpo, mas que Felicia só costumava sentir em profundo êxtase espiritual, invadiu-lhe o peito e ela teve de respirar fundo para manter o equilíbrio exterior e interior. Um sentimento totalmente deslocado no tempo, quase como se estivessem levitando, surgiu entre as duas mulheres. Felicia não soube dizer mais tarde como tudo havia terminado. Ela apenas se lembrava nitidamente de que as duas disseram a uma só voz: "A gente se revê em breve!"

Então é assim que acontece, ela pensou, profundamente comovida, quando o Grande Um se interpõe entre duas pessoas, despertando suas almas na Terra para que se unam! Os corações começam a arder como uma magnífica aurora. Esse símbolo sempre havia sido para Felicia de grande significado. O rosado da aurora mostra em todo seu esplendor o poder do sol que nasce e, apesar disso, é mensageiro de mau tempo. O mesmo aconteceu também para Felicia e Ciria; o novo e alvorecente dia de suas almas unidas nascera predestinado. Mudanças dolorosas atingiram seus relacionamentos com as pessoas queridas. Os amigos mais caros se sentiram rejeitados e o ambiente pessoal de ambas entrou em grande confusão. Irresistivelmente, porém, Felicia e Ciria eram impulsionadas, como por uma força divina, a ficarem juntas. Os poderes celestes conduziam tudo de tal maneira que ninguém podia se opor ao desenrolar dessa situação. Um longo e difícil caminho iniciava-se para as almas gêmeas; contudo, sempre mais pessoas sentiam como a crescente união servia de enriquecimento para todos. Felicia reconheceu, cheia de felicidade, que, aquela saudade inexplicável que sentira tinha sido pela sua alma gêmea. Agora, ela estava convencida de que o seu mundo exterior se renovaria, conservando o brilho de toda uma vida realizada. Ela sentia sua densidade humana mais dolorosamente que antes; mas, apesar disso, estava completamente esperançosa com a experiência de um novo começo. Sua alma pressentia que durante essa época de Pentecostes, o coração solar, gerado há eões, finalmente começaria a pulsar na Terra pela primeira vez. Agora ela estava totalmente na corrente de Pace. Ele era o oceano de seu amor por Ciria. Agitada até as profundezas do seu âmago, ela escreveu para sua alma gêmea recentemente encontrada:

Mãos angelicais cuidadosas conduzem o corpo da nossa unidade ao templo etérico do amor e o colocam sobre um local de repouso. Ele se iguala a uma peça de fina ourivesaria e puro marfim. Um ouro cálido brilha das novas paredes que se encontram em cantos abaulados. De nossa alma gêmea reluz um ponto vermelho-rubi e outro violeta. O vermelho-ru-bi resplandece suave e calmamente; está realizado e feliz. O ponto violeta vibra vez ou outra em tons prateados; está inquieto e interage comigo como um elemento de procura. Da imensa abóbada do templo, jorra uma luz que banha ambos os pontos fazendo com que fulgurem na luz branca. Minha reação é de agradecimento e alegria, por estar contida no branco de nossa unidade de amor de Pace. Querida Ciria, de repente me sobrevêm o sono. Eu me imagino num balanço com as cores do arco-íris e só sinto confiança! Seres celestiais, deixem-me dormir, para que Alectus desperte em mim! Os anjos cantam: "Não é sono, é o despertar!"

Neste momento, a caneta caiu das mãos de Felicia e ela, sentindo uma tontura, deitou-se na cama. Apenas se deitara, ouviu a voz de Pace, que ressoava com o tom poderoso e sobrenatural de um órgão:

Amada unidade. Está começando agora, na sua vida cotidiana, o trabalho de reconhecimento das forças de luz que vocês aprenderão a utilizar de modo consciente. No decorrer do tempo, vocês ficarão sabendo mais acerca desse grande acontecimento espiritual! Seus perispíritos farão contato com as dimensões do meu Espírito, pois eles procuram a conexão para a fonte do EU SOU! EU SOU com vocês e em vocês! EU SOU o seu coração uno! EU SOU o seu hálito uno! EU SOU aquele que está em cada célula do seu ser uno! EU SOU o eterno espírito de suas almas gêmeas! Sintam em seus seres o meu amor onipresente, que lhes proporcionará um sentimento sobrenatural de felicidade! A unidade de suas almas é como um coração cósmico que pulsa no corpo astral do espírito eterno. Vocês também me perceberão no seu subconsciente, que já foi trespassado de luz por mim. Felicia e Ciria, vocês trabalharão dia após dia em si mesmas; terão que ancorar a sua eterna unidade na existência terrena. Meu espírito unirá suas personalidades com a força universal do amor. A consciência Deus-Pai-Mãe, que EU SOU em suas almas gêmeas, as conduzirá à compreensão de tudo o que foi criado. Quando tiverem passado as provações na Terra que o Eu Superior exige, vocês tornar-se-ão um aspecto espiritual do amor do Criador, que insuflou a consciência no existir humano. Por ocasião de seu primeiro encontro, implantei em suas metades de alma a vontade universal, afim de forçar as suas personalidades a uma vida comum. Nenhuma pessoa na Terra foi algum dia pai ou mãe de almas gêmeas, pois EU SOU Deus-Pai-Mãe em sua unidade! O universal e o indivíduo são uma coisa só! Nos céus impera a alegria, alegria que EU SOU.

Sanctus.

Felicia levantou-se sentindo a cabeça pesada e anotou imediatamente o que tinha ouvido. Ela pensou: “Agora é chegada a hora de vir a ser, eu o sinto! Faça-se a Sua Vontade! Espírito Criador deixe acontecer!"

2.1 - O Grande Momento

Eu Kamakura, faço resplandecer a luz em toda alma desperta! Os raios do meu amor interpenetram o mundo com seus incontáveis e desiguais indivíduos. Como a mentalidade de Ciria e Fe-licia é originalmente diferente, é interessante para o leitor saber como esse reencontro agiu sobre Ciria e, em comparação com Fe-licia, quais foram suas primeiras reações.

Numa manhã do mês de março, Ciria estava em seu escritório diante de uma imensa pilha de correspondência. Em anos passados, ela havia lançado alguns livros sobre meditação e clarividência, e muitos leitores lhe escreviam. Ciria lia pessoalmente cada carta e combinava com a secretária quais respostas poderiam ser dadas por telefone. De repente, ela pegou intuitivamente um envelope e o abriu, curiosa. Uma mulher desconhecida perguntava se ela teria interesse em ajudá-la com seus compromissos sociais e comunitários. Como Ciria era muito conhecida, essas perguntas já faziam parte do seu cotidiano. Pensativa, ela segurava a carta nas mãos e dizia para si mesma: "A senhora Samarei deve ter uma personalidade especial! Nunca antes a irradiação de uma letra me impressionou tão profundamente e o prefácio de um texto me alegrou tanto! Assim que tiver tempo, vou pessoalmente dar-lhe uma resposta!"

Dois meses depois, Ciria foi de carro até a aldeia vizinha, fazer uma visita à senhora Samarei. Como havia ultrapassado a entrada descrita, ela manobrou o carro numa pequena viela. Ao fazer isso, não viu um piquete de concreto, no qual bateu ao dar à ré. Apressadamente, desceu do carro e constatou, assustada, profundas ranhuras na tampa traseira do porta-malas e uma lâmpada traseira quebrada. Para se acalmar, entrou num café próximo. Mas a infelicidade raramente vem só. Ela não percebeu as migalhas de chocolate sobre a cadeira que escolheu e, em seguida, ao lavar as mãos, o espelho lhe mostrou sua saia branca toda manchada. Ela ficou com raiva e sentiu as lágrimas inundarem-lhe os olhos e pensou: "Espero que este acontecimento fortuito seja um bom presságio!"

Quinze minutos depois, Felicia Samarei e Ciria Mahra estavam uma diante da outra, fitando-se carinhosamente. Em segundos, todas as impressões exteriores e os pressentimentos de Ciria se dissolveram. A tontura comum durante as sessões de meditação a assaltou de repente e uma inquietação íntima inexplicável embargou-lhe a voz. Agradecendo, ela tomou o lugar que lhe era designado na sala clara; e, mesmo assim, sentia-se cada vez mais irreal. Então as vibrações de Nikolaus alcançaram seu ser, acalmando-a; e, de repente, ela percebeu a importância desse encontro. Em seu coração, distante da Terra, uma palavra destacou-se instantaneamente: Alecta! E, no mesmo instante, a voz da eternidade mergulhou na sua alma. Os portais fechados do perispírito de Felicia e de Ciria abriram-se de repente e, naquele instante, o Espírito de Luz, Pace, penetrou em suas existências humanas. No encontro dos seus olhares, o alento do Eterno Ser Uno tocou-as, e a alma de Ciria rejubilou-se em altos brados ao ouvir a voz de seu Anjo da Guarda, quando ele disse: "Você não está fitando olhos desconhecidos. Oh! não! você contempla a si mesma no espelho celestial." Contudo, Ciria reprimiu essa certeza e dirigiu-se à anfitriã com renovada atenção. No momento, elas conversavam sobre algumas experiências de suas vidas.

Ao se despedirem, uma nova onda de sentimentos inexplicáveis abateu-se sobre Ciria. A antiga impressão de um longínquo lar espiritual, inalcançável, desvaneceu-se por completo, pois o tão almejado reino dos céus havia-se revelado ainda há pouco na sua condição humana e psíquica, durante as horas que
ali passara. O raio de amor divino que unia as duas porções de alma de Alecta e Alectus refulgiu com o poder do fogo em seu íntimo. Meio aturdida, Ciria questionou se havia despertado de um longo sono, pois a realidade momentânea lhe parecia um conto de fadas. "Vamos nos rever em breve!" disseram ambas a uma só voz. Com um suspiro profundo, Ciria sentou-se ao volante e voltou para casa. A pequena casa de férias às margens do lago era o seu refúgio silencioso e um presente de amor indizível de seu sensível marido. A atmosfera harmoniosa da pequena sala atuava como um bálsamo sobre a sua natureza, e de seu olhar interior nascia, sempre renovada, uma estrela radiante. Para ficar sabendo mais coisas a respeito do encontro por intermédio de Niko-laus, ela se preparou para a meditação. As energias amorosas dos seus auxiliares levaram rapidamente seu corpo ao transe. Em breve, Ciria ouvia a voz suave de seu Anjo da Guarda. Ao mesmo tempo, ela percebeu que seu amor ilimitado subia-lhe como um calor psíquico pelo corpo; e, através do canal intuitivo, ela contemplou com seu olhar clarividente Aquela que Tudo Contém, a biblioteca cósmica do mundo. Seu olhar caiu sobre um livro cintilante, transparente, com a inscrição: "Assim está escrito!" Debaixo do título, brilhava novamente uma estrela dourada. Mãos invisíveis abriram a primeira página e a visão psíquica de Ciria leu o seguinte texto:

Eu, Pace, sou um templo universal de luz, assim como a eterna força de paz e amor das suas almas em união. Felicia e Ciria, eu mostro a vocês a raiz da existência espiritual de Alecta e Alectus: EU SOU a raiz! Através dela, vocês se tornaram uma centelha psíquica da minha consciência. A hora do seu despertar terreno chegou. Vocês nasceram para o mundo como duas pessoas comuns, para realizar a reconciliação e a união em suas porções de alma na Terra. O caminho atual é curto e a lei espiritual trará muitas novidades para a realização da sua missão. Gradativamente, seus corpos astrais e as qualidades de suas personalidades serão irradiadas pelo meu centro. Vocês perceberão minhas forças cada vez mais nítidas; elas geram a consonância entre os seus perispíritos. Seus egos conhecerão tantas vezes a morte até que venham a ser regidos pela sabedoria do Espírito Criador e sua condição humana repouse no seu Eu Superior. Vocês sabem que as difíceis provas impostas a vocês possibilitarão o despertar de um novo raio em suas almas gêmeas terrenas, que se orientarão na direção da Terra. Aceitem as almas gêmeas com sua compreensão humana e conheçam a divina eternidade da unidade que vocês são sobre a Terra!

Então a folha do livro se transformou num reluzente portal - no portal do Um Dourado. O pequeno cadeado de prata fechou-se novamente com um leve estalido e, como se fosse uma lente de aumento, deixou visível somente o título: "Assim está escrito!" Ciria nem bem acabara de receber esta mensagem, quando ouviu novamente a voz de Pace:
Ó Amadas, deixem soar em vocês o tom ancestral do Ser: OM, OM, OM! Ciria, diante de sua visão psíquica, o meu espírito radiante resplandecerá como uma chama. Ele tornará o invisível visível para você. A chama abençoará a sua visão espiritual com a luz de Deus-Pai-Mãe. Em breve, farei desabrochar o seu chakra da coroa, o lótus branco de mil pétalas. Através dele, os seus centros de energia se elevarão, facilitando a comunicação conosco, os celestialmente iluminados. No centro do chakra da coroa reflete-se a força primeva manifestada pela memória eterna, que gera o nascimento do Verbo. O chakra da coroa é também a expressão simbólica do Espírito Criador manifestado no Ser e no Não-Ser, o Verbo e o Nagual.

Felicia e Ciria, seus corpos terrestres foram construídos sob a orientação do seu Eu Superior, que EU SOU. A força geradora manifesta sua vontade, principalmente pelas suas visões espirituais e os chakras da coroa. Como vocês têm acesso às freqüências universais como unidade psíquica, o seu Eu Superior não usou nenhuma energia dos chakras, que estão unidos às forças terrestres, para o desenvolvimento de seus corpos terrestres. Ao contrário, com seu nascimento, o Eu Superior desceu à substância densa. Ele fez fluir suas forças divinas pelos portais tênues de energia das suas colunas espinhais para ativar de modo igual todos os chakras. Esses portais de energia são uma espécie de caule de flores que saem dos chakras na espinha.

FeliCiria, reflexo humano de AlectAlectus, ouçam! Assim que as energias do seu chakra da coroa e frontal se fundirem e puderem captar e irradiar, qual um sol central de energias cósmicas, as energias de todos os seus corpos, pensamentos e sentimentos, vibrarão na unidade do seu Eu Superior. Então você realizará exclusivamente a vontade de sua consciência divina na Terra. Você saberá que partilha das capacidades criadoras do grande espírito, pois ele não conhece divisões. Sua consciente orientação amorosa desfará qualquer inconsciência humana. No momento em que se aproxima o salto quântico, todas as almas gêmeas viverão o amor eterno, minha inconfundível fonte de poder, como um despertar espiritual. Mesmo que agora já estejam despertas, elas ainda desenvolverão pensamentos criativos em planos espirituais.

Agora ficaremos juntos, em silêncio, diante do nosso Criador! ELE é o mais elevado. ELE aspira também ao mais elevado na vida das criaturas. Com o tempo, todos os homens aprenderão a superar o caráter material e a crescer na força do Espírito. Paz, saúde, bênção e amor eterno!

Sanctus.

28 — 0 Recomeço

Amados seres humanos, eu, Kamakura, estou doando a luz do meu amor para as almas de vocês! O homem que realmente ama vive com todas as qualidades de sua personalidade no divino, na consciência do seu Eu Superior. Em todo homem mora uma alma que aspira à luz. Sigam essa luz, que flameja diariamente em sua alma, e obedeçam à voz de sua consciência!

Certa manhã, ao despertar, vagas de luz inundavam todo o seu ser e Ciria chorou lágrimas de profunda comoção. Ela não compreendia humanamente o imensurável acontecimento de haver encontrado sua alma gêmea. Seu entendimento amoroso sofria com suas próprias limitações. Com o tempo, a razão ensinou-lhe que unir-se à sua alma gêmea na matéria densa da Terra era impossível. Seu raciocínio, obstinadamente, manteve-se na crença de que fora vítima de uma tentação paradisíaca. Ela quase não suportava mais sua existência terrena e suas forças vitais declinavam assustadoramente. Ela temia a missão de personificar a união das almas gêmeas e sentia um desejo incrível de morrer. Esse persistente desejo pela unidade eterna não lhe trouxera alegria; ao contrário, refulgiu como uma dolorosa recordação da vida espiritual perdida. Contudo, cada encontro sucessivo com sua alma gêmea a ajudou a se acalmar; com isso, devagar, ela novamente voltou a confiar na sua existência. Muitas vezes, Felicia e Ciria ficavam sentadas em silêncio, uma ao lado da outra, sentindo por instantes o exterior e o interior, perfeitamente identificadas.

Diante da visão psíquica de Ciria, o silêncio manifestou-se como um raio rosado, que se perdeu na imensurável distância nas cores do arco-íris. Certa vez, ela viu como a luz ardente das almas gêmeas perpassou seus corpos tênues, unindo-se, em seguida, com as correntes da vida universal. Há muito, em silenciosa contemplação, elas já tinham percebido essas correntes em partes de sua alma como um Espírito de Paz, como Pace. Numa outra ocasião, Ciria viu como Pace formou um raio luminoso que, lançado no universo na direção de sua alma gêmea, facilitou sua comunicação com ele. Ciria tinha a impressão de que Felicia encontrava menos dificuldade em aceitar e viver, com absoluta confiança, a encarnação das almas gêmeas. As várias conversas levadas a cabo com amor e paciência, despertaram devagar a compreensão também em Ciria, de que a força espiritual de Pace almejava entrelaçar o amor universal, impessoal, na sua existência. Felicia confortou-a, dizendo: "Na verdade, é sempre a única corrente de amor espiritual que flui em todas as almas, enquanto elas o permitem." Ao longo dos anos, Felicia, aos poucos, atuando de modo paciente, convenceu sua metade de alma que a superação das peculiaridades pessoais da unidade se tomariam uma realidade. Com a seguinte frase, terminou uma longa carta: "Trata-se, querida Ciria, de servirmos humildemente nosso espírito e de possibilitarmos o despertar da harmonia cósmica na nossa alma gêmea."

Fogo depois do primeiro encontro, Pace havia pedido a Felicia e Ciria que sempre juntas praticassem meditação de acordo com suas instruções. Desta forma, elas ficaram encostadas, uma na outra, conforme as exigências feitas por Pace, para direcionar os pensamentos que despontavam aleatoriamente, orientando a intensidade dos sentimentos para o ponto mais baixo da coluna. Pace lhe deu o nome de "meditação do chakra da raiz". Logo na primeira vez, elas sentiram um repentino lampejo de energias desconhecidas na coluna. Pace elevou a freqüência de seus chakras fazendo uso de exercícios sucessivos; ao que, algumas vezes, o corpo reagia com mal-estar. Porém, essas meditações enfraqueceram Ciria cada vez mais, de modo que ela se negou a lhes dar continui Ela não conseguia mais colocar uma letra no papel e ficou profundamente deprimida. Mas, como já acontecera outras vezes em sua vida, o amor libertador de seu auxiliar espiritual, Nikolaus, pôs um fim à sua resistência. Em sonhos, ele guiou seu corpo astral ao templo etérico da Sabedoria, onde um Anjo da Renovação disse:

Querida Ciria, a característica de um alma gêmea consiste na capacidade de fundir seus dois corpos etéricos. Todo corpo na Terra contém um corpo etérico. Ele se parece com um casulo protetor eletromagnético, cinza-azulado, que protege o corpo das influências energéticas danosas. Normalmente, as energias do corpo etérico ligam-se, após a morte do corpo físico, aos quatro elementos: Fogo, Ar, Água e Terra. Mas o processo do corpo etérico das almas gêmeas é completamente diferente. No decorrer de sua evolução, todos os corpos sutis se fecham - assim também os corpos etéricos -tornando-se juntos um único corpo de luz que vibra em altafre-qüência. Querida Ciria, para você e Felicia as meditações do cha-kra da raiz são inicialmente o trabalho básico mais importante para a equalização dafreqiiência de seus corpos etéricos. Assim que seus corpos físicos puderem absorver sem dor as energias de Pace, e seus sentimentos vibrarem em uníssono, o processo de fundir-se energeticamente será acelerado.

Farei surgir diante de sua visão psíquica a imagem de uma alma gêmea num corpo humano. Agora você vê dois corpos físicos, envoltos por um único corpo astral, de formato oval, cintilando em tons cinza-azulados, cuja irradiação alcança as dimensões espirituais. Nele vibram todos os outros corpos etéricos - o astral, o mental e o causai. Há uma troca de energia entre eles, que se interpenetram e aumentam afreqüência por tanto tempo até que o novo corpo astral esteja completamente formado. Simultaneamente, você vê que dos dois chakras, o da coroa eoda raiz, se fez um, ligando todos os corpos. A circulação dos outros chakras não é mais influenciada pelos sentimentos humanos, geradores de energia. Eles estão em ligação direta com o chakra da coroa e da raiz. E é para lá, justamente, que Pace, que é a força renovadora do Espírito, pretende guiar suas almas gêmeas com o seu amor. E assim que ele faz crescer a pessoa do novo milênio, por exemplo. Quando nós, seres espirituais, falarmos futuramente de um corpo, vocês saberão o seu significado.

Foi graças à vontade do seu Eu Superior que o encontro com sua alma gêmea aconteceu na época de Pentecostes. Suas almas gêmeas terrestres, que deverão evoluir para uma alma mestra, foram tocadas pela alma ativadora especial do Espírito Cósmico, que durante Pentecostes lança de maneira fortalecida sua luz criadora sobre a Terra. Suas meditações conjuntas desencadearão o fogo divino, também chamado Kundalini, no chakra da raiz. A força divina ativada se manifestará em seus corpos sutis e, dentro de certo tempo, também nos corpos físicos. Frequentemente, vocês se sentem sonolentas efracas, porque a corrente da Kundalini começa a fluir em comum pelos seus seres numa frequência elevada. Nós vigiaremos todo o processo e ajudaremos você e Felicia nesse parto divino. EU SOU a luz no seu coração! EU SOU o amor criativo na alma gêmea! EU SOU o poder da renovação! EU SOU a ressurreição! EU SOU o Anjo da Renovação!

Deus a saiida!

Ébria de felicidade, o corpo astral de Ciria deixou-se reconduzir pelo seu Anjo da Guarda ao seu corpo adormecido. Suas perguntas e dúvidas haviam sido dissolvidas pela entrega à lei espiritual. Amoroso, o Anjo sussurrou-lhe no sonho: "EU SOU o berço da alma gêmea terrena, no qual a criança espiritual, que EU SOU, dorme sorrindo. A chuva de bênçãos está com você. Deus a saúda!" Em seguida, Pace solicitou a Felicia e a Ciria que, na medida do possível, eliminassem todas as marcas humanas em suas vibrações amorosas, principalmente as do passado. Ele alertou que o caminho do mestre é íngreme e que dos olhos do ego moribundo ainda haveriam de rolar muitas lágrimas pelos sentimentos de perda.

Kamakura envia-lhes amor e bênçãos estelares! Deus as saúda/

29 — Chuva de Bênçãos

Felicia vendeu sua pequena casa e mudou-se com Ciria para a clausura. Estava reservada às duas um novo começo de vida. Felizmente, o marido de Ciria mostrou grande compreensão durante a difícil fase de estruturação das almas gêmeas terrenas. Ele a apoiou, sempre que era possível. Também Noel superou suas dificuldades iniciais em relação ao processo, que lhe era completamente estranho. Sua alma reconheceu Alecta, aceitando a revelação das almas gêmeas. Assim também Noel tornou-se um apoio carinhoso para as duas. Da mesma forma, a pequena e amada família de Felicia aprendeu a reconstruir uma nova qualidade de amor sobre as dores da separação. Em sagrada veneração e em obediência espiritual, Felicia e Ciria receberam as graças do Espírito de Pace, que as encarregou de importantes tarefas. Elas deixaram o antigo mundo e as pessoas que amavam, não sem luto e dor. Uma vida nova e feliz, acompanhada de difíceis desenvolvimentos, prepararam a alma gêmea terrena que evoluía. Mensagens dos poderes superiores eram para Felicia e Ciria como o pão de cada dia. Especialmente animadora foi uma mensagem transmitida pelo seu Anjo da Guarda, Nikolaus:

Querido Ser Meu, você, a vibração de amor no Meu Ser, a chuva de bênçãos está com você. Deus a saúda! Eu, Nikolaus, envolvo você em luz. A chuva eterna de bênçãos flua através de você e do Ser Eterno. Devagar eu levo o seu raciocínio para uma calma profunda, para que os planos vibratórios de todos os seus corpos sejam equilibrados e a minha mensagem fique gravada na sua alma. Você sente a minha proximidade e o meu amor no seu coração? Do verbo flamejante do meu espírito ressoa na sua porção de alma o chamado cósmico pela unidade. Eu mergulho a sua consciência na luz universal da vida e transmuto, assim, o reino das sombras do seu Eu exterior. Incontáveis são as hostes de seres de luz que a envolvem com fios de amor. Continue em amorosa humildade e em silenciosa obediência diante dos mistérios de nosso espírito Criador! EU SOU aquele que conforta as almas esclarecidas!

Todo início leva ao fim e todo fim reabre um novo começo. Eu abrigo o seu ser humano. Seja um colo universal do amor eterno! Amada alma gêmea terrena FeliCiria, você é permeada pelos poderes amorosos do universo. Afaste-se sempre da desarmonia e aprenda, assim, a sentir a onipresença da divindade em sua alma! Da eterna fonte da unidade, o Espírito Criador irradia sua luz para o cosmo. Ele é a força de vontade manifestada do Eterno Um, que aspira à infinita criação. Quando algum dia o amor, a doçura, a paciência e a disciplina forem os regentes de sua vida, seus corpos tênues se fundirão num ponto de luz, que representará, simbolicamente, o templo divino da sua consciência de Deus. EU SOU o reconforto das almas esclarecidas!

Você sabia que as pessoas sensitivas estão expostas de modo especial às influências da Eua? Principalmente cinco dias antes e três dias depois da Lua cheia, as forças desse luminar ilusório atuam no subconsciente de muitos habitantes da Terra. Durante essa época, os planetas incidem, do mesmo modo, mais fortemente sobre o cha-kra das pessoas; e os ajudantes etéricos universais do amor, aproveitam esse fato e elevam amiúâe suas freqüências. Do mesmo modo, os trabalhadores cósmicos da luz ativam também a glândula pineal e a hipófise. Essas são as glândulas que possibilitam a conexão com as nossas dimensões. Quanto mais alta afreqüência da sua vibração, mais intensivamente a psique dos homens estabelece contato com o nosso conhecimento. Ciria, a força do meu amor muitas vezes perpassa o seu corpo dolorido, envolvendo sua natureza como um bálsamo. O resultado de vibrações desarmônicas no
seu perispírito são freqüentemente anunciadas por um mal-estar. Também a inversão de polaridade condicionada à evolução de sua psique pode se manifestar como dores no corpo e tristeza. EU SOU o conforto das almas esclarecidas! Eu sou comparável a uma orquestra sinfônica. Da mesma maneira que a afinação de todos os instrumentos é condição para o som perfeito de uma grande sinfonia, faz-se necessária a afinação harmônica entre todos os corpos, planos e consciências para que possa surgir a divindade unida. Ee-UCiria, a beleza do meu lar universal se refletirá sempre mais na sua alma e você poderá aprender a inundar com a luz do Espírito Criador os acontecimentos terrenos. Em breve, também o seu subconsciente perceberá a iluminação divina. Então a sua união será comparável àquela dos mestres ascensionados, porque você também, como ser humano, terá passado pelas experiências de uma alma gêmea encarnada, mantendo-se, dali por diante, unida ao seu Eu Superior. Nem mesmo um grão de areia poderá infiltrar-se na sua aura, pois você não conhecerá mais sentimentos de separação. EU SOU o conforto das almas esclarecidas!

Sua alma gêmea perceberá sempre com mais clareza a consciência da Alma do Mundo e terá consciência das dimensões etéricas. Também o seu ego e servidor, o raciocínio, aprenderá a desfrutar da realização da união. Sua divindade está desperta e você viverá, como ser humano, a identidade espiritual com a mesma. O infinito oceano do amor revela a sua consciência divina na sua aparência, Felicia e na sua, Ciria. Onde se vive a unidade, a criação se expande e toda vida passa por um maravilhoso enriquecimento. Amada, eterna unidade, incansavelmente seu Eu Superior exige a atenção para todos os acontecimentos, não permitindo nenhuma ligação emocional. A unidade é como se fosse um jardim celestial inundado de sol, o seu lar verdadeiro e espiritual. EU SOU o conforto de todas as almas esclarecidas!

Ciria venha, sinta a alma universal e deixe que Eu a transpas-se com o meu calor e com meu poder de cura! EU SOU a fusão entre o Céu e a Terra! EU SOU a unidade! Quando alguma vez você estiver se sentindo cheia de harmonia, como ser humano você será o instrumento do seu Eu Superior. Eu, Nikolaus, ancoro a minha visão espiritual na sua visão espiritual, para que você aprenda a contemplar o fluxo da vida através dos meus olhos. Tudo de que você precisar para expandir a vida, será atraído pela minha força magnética, contida em você. Aceite o conhecimento de que assim é! Mais você não terá de fazer. As graças da diversidade criadora são ilimitadas. EU SOU a fusão entre o Céu e a Terra! EU SOU o poder efetivo no seu espírito! EU SOU o QUE SOU! EU SOU o conforto das almas esclarecidas! A chuva de bênçãos permeia todos os seres da Criação.

Deus a saúda! Nikolaus.

30 — As Cartas

Amados seres humanos, eu, Kamakura, ancoro a chama do meu coração etérico em seus corações! Despertem e preparem-se para aceitar, sem questionar, a vontade do Eu Superior! Não temam! O mais elevado poder de amor arde como luz na alma de vocês, e toda escuridão vai clarear, quando vocês contemplarem confiantes a claridade da eternidade. A fraternidade da luz cósmica está sempre por perto, distribuindo as graças da amizade espiritual e do amor. Um dia Ciria recebeu uma carta de Felicia, na qual estava escrito: "Querida, aqui vai o meu agradecimento pela última mensagem de Pace":

O amor é a jóia do pensamento.

O amor supera todos os entraves.

O amor é o foco luminoso da vida.

O amor é a forma ancestral da doação.

O amor faz a conversão humana.

O amor traz a veneração divina.

O amor é o eterno grande amém.

O amor apaga o sofrimento.

O amor alimenta alegrias.

O amor age silenciosamente.

O amor ilumina sabiamente.

O amor é o caminho para a verdade.

O amor é o atalho para a clareza.

O amor elimina as fraquezas.

O amor sempre sobe a montanha.

O amor não teme nenhuma pedra.

O amor é o fluxo contínuo do Ser.

O amor é a criança do Uno,

O amor é a sua fiança.

O amor vem da sua mão.

O amor chega com brandura.

Deixe-nos ser o seu reflexo!

Pouco tempo depois, Felicia comemorava seu aniversário e Ciria escreveu-lhe:

Querida Felicia, amada Alecta por toda a eternidade,

Há quase dez vezes sete ciclos terrestres você viajou em forma etérica. Sua alma levitou por dimensões imensuráveis. Felicia, eu vi o seu colo celeste arder como um sol central e vi como você, Alecta, redimiu as almas sofredoras no seu caminho para a Terra. De longínqua distância observei, como Alectus, sua viagem. Hoje essa recordação está novamente viva em mim, ela veio de novo à tona. Ainda ressoa na minha porção de alma o chamado de Pace, quando você, em forma etérica, desceu à Terra: "Alecta, você vai reconhecer e saber, ao mesmo tempo que, na verdade, você não nasceu!" Sim, querida Felicia, as palavras de Pace me deixaram uma impressão indizível, pois significaram o chamado decisivo para eu concordar com a minha encarnação que deve se dar em seguida. Enquanto a minha porção de alma ainda estiver no lar sem fim, as energias de Pace ativarão a minha consciência de amor pelo mundo, sendo que as freqüências do meu chakra do coração se elevarão repentinamente. Também agora, que sou humana, as vibrações desse chamado me alegram, conquanto permaneçam um mistério.

Nas noites passadas, a luz de Pace atuou em nossos quatro centros energéticos superiores - os chakras - da coroa, da testa, da garganta e do coração. Nosso corpo astral esteve apenas levemente ligado ao nosso corpo físico. Esses quatro chakras giravam inacreditavelmente velozes e resplandeciam em sua total beleza. A vontade espiritual de nossa divindade animou nossa consciência psíquica, pelo que ela teve condições de se manifestar em muitos planos sutis. Pace ativou especialmente o chakra da testa e a nossa alma unida contemplou as dimensões recém-abertas. A energia vital da divindade fez pulsar o nosso chakra do coração e o nosso perispírito pôde entrar em contato com os mundos celestiais inimaginados de Pace. Meu ser percebeu os seus pensamentos psíquicos e eu os vi como um rio nos planos mentais. Então fui tomada de um súbito êxtase. Ó minha amada, sinto que também você almeja a nossa eterna fusão no agora! Uma embriaguez divina, só assim posso chamá-la, atravessa o meu ser! Nós nos tornaremos cada vez mais conscientes de que nosso espírito se forma; o pólo de que precisamos para a realização da lei psíquica em breve não nos causará mais dor. Alegremo-nos novamente pela noite que se aproxima. Nossa alma será guiada pelo túnel de luz das esferas sempi-temas de Pace. Encontraremos proteção no infinito da nossa existência. A luz espiritual de Pace, que arde em nossa alma gêmea, iluminará claramente o nosso caminho para casa. Mas, enquanto ainda somos cidadãs terrestres, vamos nos esforçar para irradiar a sua luz para todos os corações e céus.

Querida Felicia, durante o último encontro eu lhe contei o sonho que tive no dia 20 de agosto. Você me pediu para que eu anotasse minhas recordações. Pace me esclareceu sobre a constituição das nossas mãos. Ele disse que elas são valiosas antenas cósmicas. Em seguida, enviou-me um raio de conforto, para que eu não cerre minhas mãos com tanta fre-qüência, dizendo: Punhos cerrados inibem o fluxo universal de energia, que aflui dos dedos para todo o corpo. Ciria, quando sua alma teve de imprimir a estrutura de suas mãos na matriz astral, usando a força espiritual, você solicitou a

Querida Felicia, como Alectus, concordei com essa mão, por dispor de suficiente força de determinação e de um ra-f ciocínio saudável na Terra. Eu sabia que havia me engajado irremediavelmente no serviço ao Espírito e que meu destino na Terra seria mais fácil de administrar com as mãos cônicas. Conscientemente, abri mão da beleza. Como você, Felicia, tinha outras habilidades terrestres, não precisou chamar um mestre do karma. Sua força psíquica gerou para você uma mão pequena e homogênea, quase gótica. Pace disse que os dedos da mão têm estreita relação com determinados planetas. Eles são antenas para a provisão de energias para os órgãos do corpo. A mão cônica e a gótica se completam e formam, do ponto de vista espiritual, a mão da unidade. Pace continuou esclarecendo: "As raízes e os punhos das suas mãos são extraordinariamente finas, o que indica que as forças terrestres são assimiladas de forma aprimorada pelas mesmas. Isso atesta a superação dos impulsos naturais elementares. As forças primitivas são expressadas pelos punhos grossos, que podem levar algumas pessoas a sofrer de depressão ou a manifestar determinadas taras. Se bem que dedos longos sejam considerados bonitos, nem sempre levam vantagem. Apenas quando a pessoa alcança certa maturidade psíquica humana eles denotam um princípio espiritual que, a partir daí, pode ser vivido na Terra. Infelizmente, muitas vezes essas pessoas têm primeiro de experimentar se a sua inclinação é intelectual ou espiritual. Esse processo pode exigir muitas vidas. Se a consciência de uma pessoa com uma mão bonita de dedos longos não for idêntica a determinada qualidade psíquica, possivelmente ela oscilará entre seu conhecimento material e espiritual. Ela se sentirá fortemente atraída pelas esferas espirituais; contudo, ela ainda não conseguirá direcionar a sua vida com segurança nessa direção. Ela acha as esferas espirituais estranhas, pois o seu sentimento espiritual ainda não obteve retorno. Somente quando essa pessoa aprender a se entregar consciente e amorosamente no serviço terreno, o espírito e a matéria poderão se unir. E recomendável esticar freqüen-te e conscientemente os dedos, para que as forças cósmicas possam fluir por eles." Pace disse, inclusive, que a aura de nossa mão irradia uma luz maravilhosa na sua dimensão.

Querida FeliciAlecta, agora tenho de terminar a minha carta. Neste seu aniversário terrestre você deixará muitos amigos felizes, que, após prolongada separação, poderão novamente sentir o calor do seu coração. Você sentirá a minha presença etérica e nós seremos felizes, mesmo como pessoas separadas. Eu lhe desejo dias alegres e festivos. Minha alegria em revê-la é indescritivelmente grande. Durante todo esse tempo, estaremos em comunhão através do calor dos Anjos Solares e visualizaremos a ardente estrela de Pace no cosmo infinito.

31 - Jardines

Eu, Kamakura, não quero perder a oportunidade de fazer chegar aos ouvidos do leitor uma voz etérica do reino da natureza. Certo dia, um ser muito querido anunciou-se à Ciria, revelando coisas significativas que podem servir de alimento para muitas almas. Nós, mestres em ascensão, temos um amor muito especial pela sabedoria secreta deles e pelas atividades maravilhosas dos incontáveis espíritos da natureza. Ouçam Jardines!

Queridas almas gêmeas da Terra, sejam alegremente saudadas pela sílfide das flores, Jardines, que as ama fervorosamente. Há pouco tempo, eu me instalei no seu bem cuidado jardim cidade de luz. Você já conhece o meu querido irmão Hércules, que, como um duende, alegra muitos corações tristes com seu bom humor. Sim, literalmente: alegra! Meu irmão é um duende muito especial, abençoado com capacidades extraordinárias. Em suas graciosas mãos arde um sagrado fogo divino com o qual ele cura as feridas da alma e o ânimo das pessoas. Algumas vezes, os Anjos do Amor o incumbem de harmonizar áreas de vibrações confusas com a força espiritual que flui das suas mãos. Então ele fica ocupado por muito tempo, até que uma nova corrente de esperança e um despontar de alegria flua através do ânimo do seu paciente terrestre ou etérico, como Hércules os chama. Pacientes etéricos se desenvolvem em planos diferentes. Eles estão à procura da luz e precisam de ajuda espiritual, como uma pessoa da Terra.

Agora você sabe, querida FeliCiria, que entre nós também há curadores espirituais. Aliás, o seu grupo é pequeno, quando penso que o povo dos Espíritos da Natureza conta com miríades de seres. Hércules também tem uma inteligência extraordinária. Imagine só e se admire! Ele compreende que a luz revela o mundo físico e que o fogo fornece luz para toda a vida, gerando, assim, a energia vital. Hércules vai ensinar também a mim, sua irmã mais nova, como poderei usar o som do silêncio no meu trabalho. Quando você quiser, querida Ciria, você poderá entrar em contato com o meu querido irmão Hércules e ligar-se ao seu bom humor. Ele é um mestre da alegria e da leveza. Mas agora vou dirigir-me novamente ao seu irradiante jardim cidade de luz. Viver é a maior alegria e um sentimento divino de amor que se sente dentro do coração!

Toda manhã, às sete horas, nós, Espíritos da Natureza, armamos um arco-íris etérico sobre o seu jardim, que é um paraíso para nós. Nós manifestamos raios com as cores do arco-íris no leste e os fixamos no oeste, fazendo com que todo o lugar fique sob a proteção de uma tenda etérica. Seu jardim não é apenas um oásis de luz para muitos seres angelicais, mas ele propicia também a evolução de milhares de elfos, fadas e outros seres da Natureza. Finalmente, o meu longo anseio por trabalho ativo em favor da Terra se realizou. Minha alegre mensagem diz: "Jardines alcançou a plenitude! Como sílfide manifestada ela agora está a serviço da Natureza." Viver é a maior alegria e um sentimento divino de amor que se sente dentro do coração.

Assim que eu tiver terminado o meu aprendizado como jardineira etérica, a centelha divina de amor vai me conceder também a capacidade de mudar o tamanho do meu corpo, de acordo com a minha vontade. Então eu não serei diferente dos meus amigos adultos. As energias do serviço voluntário e o incansável zelo amoroso já me familiarizaram com a materialização e a dissolução do meu ser. Amada FeliCiria, posso chamá-la de "Som Irradiante"? Para mim, você é maravilhosa e linda, amada Som Irradiante! O meu riso flui como um lépido riachinho de energia no seu coração humano, e dá jovialidade e harmonia ao seu ânimo e ao seu corpo. Minhas pequenas, finas e transparentes asas esvoaçam fortemente pela alegre excitação de ter um contato com você, pois apenas com a maior disciplina os minissapatinhos brilhantes amarelo-claro de Jardines conseguem ficar quietos no lugar. Ajovialidade divina e um riso alegre da alma fazem-me saltar, dançar e cantar continuamente. "Você ainda é muito, muito jovem", disse-me Hércules sorrindo, inflando amorosamente o peito magro.

Amada Som Irradiante, sinta e saiba qual é a sua responsabilidade para comigo! Os seus claros pensamentos de amor são forças que promovem a minha consciência e o meu crescimento. Muitas das suas claras energias psíquicas transpassam como um raio a densa substância terrestre para se unir às vibrações das dimensões etéricas. Suas claras energias do pensamento ajudam a tecer a trama de cada plano sutil, no qual o pequeno povo amoroso, os Espíritos da Natureza, executa seu serviço divino. Em todo o mundo, miríades de espíritos da Terra, da Água, do Ar e do Fogo se empenham na conservação dos reinos da Natureza e do reino mineral. Eles são aspectos da vontade criadora manifestada e estão incansavelmente ao seu serviço. Viver é a maior alegria e um sentimento divino que se percebe dentro do coração!

Eu, Jardines, quero pedir de você, querida Som Irradiante, dedicação espiritual e energias de pensamento claras, forças de desenvolvimento que impulsionam a minha consciência amorosa. Em seguida, desejo que haja harmonia entre Ciria e Felicia, pois elas são um elevado potencial de energia do qual nós, Espíritos da Natureza, podemos captar forças de evolução. Nós, Espíritos da Natureza, bebemos a preciosidade da sua unidade como ouro líquido. Quando você, muito querida Som Irradiante, passear por um jardim exuberante e me chamar pelo nome, muitas linhas de ligação para nossos planos serão estabelecidas pela sua consciência psíquica, que nós aprenderemos a utilizar para nos comunicarmos com você. Com o tempo, você será capaz de perceber, instintivamente, minhas energias de amor, minhas forças da Natureza. Você também assimilará naturalmente a minha língua. De repente você poderá se lembrar de histórias alegres ou melodias vivazes poderão incitá-la a cantar, assobiar ou dançar. Nesses momentos, eu estarei em determinado plano de vibração de seu corpo astral para lhe conceder jovialidade e harmonia. Viver é a maior alegria e um sentimento divino que se percebe dentro do coração!

FeliCiria, você sabia que entre o pequeno povo espiritual também existem seres etéricos, que se casam e constituem uma vida familiar como os seres humanos? Todo Espírito da Natureza conhece a sua união com a alma grupai, assim como você, como ser humano, conhece o seu físico. Contudo, ao contrário de vocês, nós vivemos milhares de anos antes que o galgar de um degrau sucessivo na escala de nossa evolução se torne possível. Os seres prediletos de Jardines são os gnomos. Eles vivem em colônias, têm hierarquias às quais se submetem com gosto e moram em maravilhosos castelos e palácios etéricos. Os gnomos têm uma aparência muito semelhante à dos seres humanos. A maioria deles é capaz de alterar, pela sua vontade, o tamanho do próprio corpo, o que significa que eles podem executar qualquer trabalho sem esforço, como gigantes ou como minúsculos anões. Como todos os Seres da Natureza, alimentam-se de sua respectiva substância etérica. Suas límpidas energias de amor permeiam seus corpos tão fortemente que eles se assemelham ao brilho das luzes do Norte. Naturalmente, existem também Espíritos da Natureza com uma irradiação mínima. Mas acerca deles, Jardines não quer falar hoje. A vida é a maior alegria e um sentimento divino que se percebe dentro do coração!

Ciria, por que você abriu completamente mão da comunicação conosco, Espíritos da Natureza? Nós somos os que lhe salvaram a vida até o seu décimo segundo ano de vida. Durante as brincadeiras infantis, nós provemos seu fraco corpo físico com a energia vital necessária. Você ainda se lembra de nossas maravilhosas brincadeiras e da silfidizinha Rigala? Nossas energias luminosas se irradiavam naquela época do seu rosto pálido e fino. Esse foi um dos motivos por que você era tida como uma estranha no mundo. Ciria, qual é o motivo repentino do seu afastamento? Você já refletiu sobre isso ou conversou sobre isso com Fe-licia? Seu silêncio incompreensível e sua atitude deixam Jardines triste. Meu querido bom irmão Hércules me anima com as energias da esperança e me promete que em breve uma profunda ligação há de se estabelecer novamente entre nós. Ciria, por favor, não nos abandone! Abra-se sempre totalmente às nossas freqüên-cias de amor! Viver é a maior alegria e um sentimento divino que se percebe dentro do coração!

O mundo dos gnomos é o que mais impressionou Jardines até hoje. Eu gosto do seu zelo e da sua lealdade, do seu amor e da sua laboriosidade. Eles são aspectos espirituais do reino mineral e responsáveis pela conservação desses elementos. Som Irradiante, veja a minha alegria! Há muito tempo, visitei uma indizi-velmente alegre e laboriosa família de gnomos e os acompanhei por um dia inteiro na sua faina. Essa foi uma indescritível e bonita aventura. Naturalmente, também os espíritos da água, as on-dinas, os espíritos do ar e os silfos são muito amados por mim, mas a minha fascinação recai especialmente sobres os gnomos. As pequenas ondinas aladas, comparáveis às delicadas teias de aranha, também estão muito próximas do meu coração. Três desses seres queridos estão perto do seu poço. Predominantemente, eles vivem nos pântanos, nas charnecas e nas florestas tropicais. Em amor fraterno, fazemos o intercâmbio de nossa jovialidade e ensinamos uns aos outros como funcionam as leis elementares, para que possamos compreendê-las ainda melhor e servi-las cada vez mais conscientemente. Viver é a maior alegria e um sentimento divino que se sente dentro do coração!

Amada Som Irradiante, eu lhe agradeço profundamente pelos delicados sentimentos que você me há de inspirar. As energias do crescimento, as forças psíquicas e amorosas, me tornam forte e clara. Seus verdadeiros sentimentos de amor também representam finas e efervescentes fontes de energia no nosso grupo psíquico, no qual tantos dos meus amigos e pequeninos seres angelicais se reanimam. Sinta como todas as formas de vida estão intrinsecamente ligadas! Não apenas o mundo dos seres humanos é vigiado por amorosas hostes angelicais; nosso pequeno povo também recebe, através deles, proteção e bênçãos. As forças de amor dos anjos interpenetram os planos etéricos e as vidas tornadas densas. Assim, o grande Espírito tece continuamente o infindável tapete da infinita Criação. Da alma de Jardines caem claras gotas de amor sobre cada botão de flor e sobre cada folha do seu jardim, cidade de luz. Ela abençoa as raízes, para que sempre haja uma nova magia de flores, para que seu coração bata feliz, mais acelerado pela beleza. Maravilhosa, indescritivelmente delicada é a estreita comunhão entre nós e toda a Criação. Amada Som Irradiante: eu amo, eu amo você e serei por longo tempo sua delicada sílfide, a sua Jardines. Meu coração se eleva aos raios dourados de minha muito amada Mãe Natureza. Viver é a maior alegria e um sentimento divino que se percebe dentro do coração. Com indizível agradecimento, sou sua Jardines.
O teste de linguagem de Jardines

Jardines saúda FeliCiria com imensa alegria. Eu já fiquei bastante grande. Espero ser aprovada no teste de linguagem para adultos que Hércules, meu severo professor, exigiu de mim. Cem vezes tive de repetir a sua frase preferida, até que ele se deu por satisfeito com a pronúncia. É assim: "A chama do sol de diamante é todo o prazer de Hércules." Eu sou a alegria, a gratidão e sou muito previdente.

Delicadamente, a consciência do vento balançou o véu cintilante da branca Lua. Na cratera azul do mar lunar oriental, o Pai Sol acendeu as árvores de velas na Floresta dos Anjos, com a intenção de acordar suavemente seus filhos solares adormecidos. Centenas de frágeis corpinhos, tecidos de seda cósmica, espre-guiçaram-se prazerosamente, e grandes olhos de um amarelo profundo pestanejavam amorosamente para o cálido pai. Então ele se virou para a Lua, já anciã, e inclinou seu rosto ardente sobre a mesma, como se quisesse reanimá-la. De repente, ele enrolou seus dourados raios num carretei prateado e os lançou, inesperadamente, ao coração branco da Lua, que batia devagar. Espontaneamente, ela se abriu ao presente do Sol, e seu coração recomeçou a bater com renovado ânimo. Novas forças vitais estavam sendo insufladas na serva anciã das estrelas.

Subitamente, os filhos do Sol fitaram a barca azul cintilante que, descuidada, havia se soltado das margens do mar lunar. Ela trazia para perto Oriman, o poderoso Espírito do Fogo. De seu corpo delgado como um bastão, levantaram-se labaredas no crepúsculo matinal. Enquanto ele deixava o barco, sua voz crepitan-te começou a cantar alto: "Eu sou um Espírito do Fogo! Eu sou Oriman! Com prazer, chamo o meu amigo, o Espírito do Ar Apiliki!" Então, um forte rumorejar agitou a Floresta dos Anjos, e as árvores de velas inclinaram seus galhos refulgentes, até atingir o chão. Deles fluiu prata líquida e, do oriente ao ocidente, formou-se uma esteira de luz resplandecente. Como num passe de mágica feito por uma mão espiritual, dela subiu uma entidade etérica branca. "Eu sou Apiliki! Ouvi seu chamado de amor e vim com prazer ao mundo lunar do Sol!" Suas palavras nem bem haviam soado quando uma nuvem incolor desprendeu-se do coração do Espírito do Ar, Apiliki. Em silêncio, ela deslizou pelas profundas crateras, até cair na água límpida do mar da Lua. Admirados, os filhos do Sol fitavam a nuvem cintilante da qual, aos poucos, surgiu uma figura feminina com a beleza de um sonho. De seu vestido pingavam centenas de pérolas rutilantes que, cuidadosamente, mergulhavam nas ondas suaves do mar da Lua. Estas começavam a reluzir subitamente, transformando-se em diamantes refulgentes. Era Amue, a senhora das águas. Como uma fênix, ela emergiu do mar lunar, olhando admirada ao seu redor. Depois, ficou em tímido silêncio. Apiliki levitou em sua direção e, com delicada força, soprou sorrindo sobre seu rosto encantador, um tanto infantil. De repente, um sorriso cheio de graça fez seu traços levemente frios parecerem mais cálidos. Ao mesmo tempo, o riso de Oriman desencadeou um círculo de fogo, que cercou os Espíritos do Ar e da Água. Quando a timidez de Amue se desvaneceu e ela finalmente pôde cumprimentar os amigos, o som de suas palavras soaram semelhantes a vagas que bradavam nas margens do mar da Lua. As crianças solares, agitadas, alegraram-se imensamente com sons extraordinariamente agudos e começaram a pular de contentamento. Todos os três flutuaram, então, em direção ao pai Sol, e Amue disse: "Bênção sagrada, repousa em nossas vidas! Fogo, Ar, Água e Vento, dirijam-se à Terra, rapidamente!" Discreta, ela abaixou as pálpebras azul-água muito abertas e ficou novamente em silêncio.

Nesse momento, nuvens com as cores do arco-íris sobrepunham-se com altos brados no horizonte da Floresta dos Anjos. Os comandantes da eclítica aproximavam-se bramindo como trovões, trezentos e sessenta ao todo. As crateras lunares começaram a tremer. Assustados, os filhos do Sol correram para a Floresta dos Anjos, que estava próxima. Apressadamente, suas perninhas finas e reluzentes subiram pelos galhos que chegavam até o chão. Movidos pela grande festividade, as árvores estenderam seus galhos brilhantes e tornaram a erguê-los. Os filhos do Sol bateram suas palmas translúcidas e seus corpos sedosos refulgiram em cima dos galhos como velas numa árvore de Natal.

O Espírito do Fogo, Oriman, o Espírito do Ar, Apiliki e o Espírito feminino da Água, Amue, deslocaram-se, levitando, um pouco para trás, a fim de ceder lugar ao esquadrão etérico. Os três vultos cintilantes inclinaram-se em veneração, enquanto suas gargantas, em formato de coração, disseram a uma só voz: "Salve, guias das correntes cósmicas! Sejam saudados com amor, irmãs e filhos da eclítica!" Então Oriman, Apiliki e Amue voltaram a seus lugares fazendo uma profunda reverência. As entidades com mais de três metros de altura, por sua vez, se inclinaram profundamente, respondendo com expressão séria a saudação. Imediatamente depois, Morech adiantou-se, dizendo: "Incontáveis são as hostes das inteligências cheias da luz do universo! Nós percebemos o apelo do Sol cósmico e viemos depressa ao mundo lunar! Nós realizamos a vontade do Espírito Criador e elevamos a freqüência da Terra! Nós, as inteligências primevas do Universo, salvaremos a Terra da morte lenta por asfixia e faremos a inversão da polaridade das correntes dos pensamentos negros do Senhor dos Egos!" Concário, o grande mestre da magia lunar, pos-tou-se, então, ao lado de Morech e disse: "Agradeço pela honra desta visita extraordinariamente importante. Raramente fui tão honrado por tão ilustres anfitriões, eu e os meus planetas. Todas as vinte e oito estações lunares estão à disposição para proceder à elevação da freqüência terrestre. Igualmente, também as esferas astrais e mentais. Morech e Concário voltaram a seus lugares e um silêncio audível tomou conta de todos os presentes.

Os olhares dos ajudantes terrestres voltaram-se agora para o Pai Sol. Então soltou-se o carretei dourado-prateado do coração da Lua branca. Ela levitou ao seu redor três vezes, envolvendo-o com um brilhante círculo de estrelas. Em seguida, o carretei voou devagar na direção do Pai Sol, mergulhando em seu seio. O ouro e a prata do carretei fundiram-se num raio branco. No mesmo momento, este perfurou o éter, ancorando sua ponta incandescente no centro da Terra. Assim gerou um condutor de energia do céu para a Terra, sobre a qual, algum dia, o sinal da inversão da polaridade haverá de ecoar. Simultaneamente, vindo de todas as direções, flutuavam os Espíritos do Fogo, do Ar, da Água e da Terra em direção ao Pai Sol e, das crateras lunares azuis, evaporavam colunas de luz prateada. Os senhores dos elementos e seus auxiliares dirigiram-se para lá e as crateras brilhavam com beleza mul-ticolorida. O zumbido baixo das crianças solares, que cresceu gradativamente em intensidade, quebrou o silêncio absoluto. Suas vozes adoráveis honravam a hora de bênção sagrada.

O Pai Sol enrolou repentinamente a bobina que se tornara branca, e os milhares e brancos fios solares ligaram-se formando uma rede, enquanto ele dirigia sua força luminosa na direção da bênção do Eterno Criador. O tempo da renovação se aproximava, sendo sentido pelo espírito dos seres resplandecentes. Subitamente, a luz do Sol esmaeceu. O reino da Terra e todos os planos, até a esfera mental, se encontraram numa imensa queda de vibração, que, conseqüentemente, causou o escurecimento dos planetas e das dimensões de substâncias sutis. Os Mestres Ascensiona-dos, as Inteligências Ancestrais da eclítica, os ajudantes cósmicos e todos os Espíritos da Natureza que serviam aos quatro elementos adaptaram-se à próxima mudança de estrutura. As lutas entre os etéricos luminosos e as forças antagônicas da escuridão já tinham sido deflagradas. Morech adiantou-se novamente, saindo do grupo, e disse: "A luz vencerá! O Verbo que era a Princípio se tornará audível para todos os homens e para todas as almas! Assim que terminar a contenda entre os luminosos cósmicos e os escravos da escuridão, os sinos da inversão da polaridade soarão através de determinados planos, modificando completamente suas estruturas. Durante esse processo de inversão da polaridade, os auxiliares cósmicos envolverão a aura da Terra com a rede de milhares de fios brancos do Sol para salvar o planeta. A fraternidade universal de luz está em constante ligação com Pace, o Senhor da Unidade! Quase imperceptivelmente, Morech desapareceu de novo no seu grupo, e os auxiliares sutis do universo esperavam o comando de Pace para começar.

Muitas inteligências de outros planetas colonizarão a nova Terra. Cheia de contentamento, eu, Jardines, posso comunicar-lhe que sua alma gêmea terrena unida deverá estabelecer contato eté-rico com Jophaniel, uma inteligência marciana. Seu Espírito corresponde ao princípio primevo da evolução. Ele a realiza em todos os planetas, sempre renovadamente. O gênio Jophaniel incentiva toda ascensão e promove o amadurecimento das almas. Amada FeliCiria, não há fim na minha lenda verdadeira, pois todo momento é um recomeço. Há pouco tempo, Hércules presen-teou-me com cinco cabelos de estrelas. No Natal, um deles vai cair nos seus queridos e cálidos corações. Jardines e Hércules desejam a vocês uma festa feliz e cheia de bênçãos. Muitas almas sem lar em breve encontrarão uma nova morada e, junto com os Mestres Ascensionados da Luz, irradiaremos nossas forças da natureza também para aqueles que estão perambulando. Na esfera dos sonhos, nós nos tomaremos a ver em breve. Meu amor flamejante pelo Espírito transpassará vocês no sagrado acontecimento da noite de Natal. Eu sou um aspecto cintilante de amor em suas almas! Eu sou um coração solar! Som Irradiante, FeliCiria, eu sou Jardines que alegra você! Felizes dias de festas e bênçãos em cada inspiração!

32 - As Almas Gêmeas

Eu, Kamakura, jorro a luz do meu ser na alma do mundo, torno-a incandescente com a flama da paz e abençoo a humanidade com o amor do Espírito Eterno. Ele desenvolve sentimentos de alegria em todas as almas que recebem a luz. Suas energias universais aceleram em todas as esferas do universo o turbilhão de força dos chakras, elevando, assim, a freqüência da Alma do Mundo. Seu potencial de energia assim fortalecido jorra para a Natureza, e a Mãe Natureza recebe, cheia de gratidão, a cura cósmica. Ciria recebeu as seguintes mensagens num sonho por meio de um Mestre Ascensionado, do mundo etérico.

Ciria dormia profundamente. Suavemente, seu corpo astral havia se desprendido do seu corpo físico. Ele estava preso pelo cordão de prata e flutuava debaixo do teto do quarto. Ela contemplava seu corpo físico, que lhe pareceu rígido, descansando na cama. Subitamente, uma luz incrivelmente clara refulgiu no seu chakra da coroa. Ciria viu brilhar dois raios brancos incandescentes que se fundiam. Seu corpo astral reconheceu a união das silhuetas de luz de Pace e Gautama. Eles deixavam que suas substâncias espirituais fluíssem e se interpenetrassem, formando assim uma nova unidade cósmica. Dela jorrava um raio de luz branca liquefeita. O raio invadia o corpo astral de Ciria, elevando sua freqüência. Seu corpo estremeceu como se tivesse sido atingido por uma descarga elétrica. A Ciria etérica irradiava luz para o seu corpo, a fim de que se acalmasse. Em seguida, seu corpo astral atravessou flutuando a parede, indo para o quarto de Felicia, que também dormia. As energias de Pace-Gautama também passaram pelo seu chakra da coroa e seu corpo astral estremeceu igualmente até que se tornou rígido como o corpo terrestre abandonado de Ciria. Todo esse acontecimento durou o tempo de uma inspiração. Então Alectus falou para sua alma gêmea:

- Alecta, minha querida alma gêmea! Alectus a saúda fervorosamente! Venha, deixe-nos viajar pela noite do tempo e respirar na eternidade! Os grandes Mestres esperam no jardim celestial de Pace-Gautama! - Então, o chakra da coroa de Alecta brilhou como um Sol. De seu centro claro e irradiante milhares de pétalas brancas desabrocharam. De cada uma delas jorrava um pequeno esguicho branco. Como num parto, o chakra da coroa se dilatou amplamente e o corpo físico de Felicia deixou o ser espiritual, Alecta, que habitava nele. Seu físico estava seguro, como o de Ciria, pelo cordão de prata, que é a garantia da vida terrestre. O cordão de prata pode se expandir infinitamente permitindo que o corpo astral percorra qualquer distância. Alecta e Alectus fundiram-se numa única silhueta de luz. Seguindo o chamado dos Mestres, as almas gêmeas flutuaram na corrente de música das esferas em direção a Shambala.

Com alegre admiração, AlectAlectus contemplaram as incontáveis almas gêmeas que, subitamente, vinham de todas as direções para habitar no paraíso de GautamaPace. Suas silhuetas igualmente incandescentes cobriram o céu como estrelas fulgurantes. Todo o universo flamejou com o fogo do amor. Todos formaram um grande círculo. No seu centro, arderam labaredas cor-de-rosa. Depois de permanecer em silêncio por algum tempo, as almas gêmeas começaram a cantarolar baixinho e a sinfonia de suas melodias vibrou, acompanhando a corrente do som cósmico. Por segundos, o universo vibrou num forte e crescente OM. Então, como que do nada, os Mestres feitos de substância sutil apareceram. Eles colocaram seus corpos de luz no centro do círculo. Então as palavras de GautamaPace soaram na sua alma unida: "Nossa união traz ao mundo uma nova mensagem de amor!" No meio do círculo formou-se uma grande pirâmide de luz branca incandescente. De sua ponta, evolou-se um raio róseo que se dividiu novamente, lançando-se no infinito do éter. Os olhares das almas gêmeas seguiram enlevados os magníficos espetáculos cósmicos do repuxo colorido, milhares de correntes de cores! O som OM cresceu gradativamente, derramando-se na Alma do Mundo. Ali as vibrações sonoras se transformaram em cascatas de luz, lançando-se para o planeta Terra. A voz de Gauta-maPace ressoou e a alma unida disse: "Nossa unidade doa o amor universal ao mundo!" Depois, as cascatas de luz diminuíram e caíram como pequenas pérolas brancas sobre as almas gêmeas. Devagar, as palavras dos mestres GautamaPace se perderam no éter. As almas gêmeas receberam a graça do amor criador universal, antes que eles dissolvessem festivamente o círculo.

Quando eles se separaram, caminhando em todas as direções, eles arderam como cometas no espaço infinito do Universo. Então AlectAlectus fundiram-se num imenso Sol. Sua luz cam-biante gerou um átomo ancestral, cujo núcleo se fissurou ininterruptamente. O colo de Deus-Pai-Mãe deu à luz novos aspectos de almas gêmeas - crianças atômicas universais. Elas se juntaram aos sete raios ancestrais do cosmo, através dos quais geraram novas combinações de imagens. O espetáculo espiritual não podería ser mais impressionante! AlectAlectus haviam se tornado uma única corrente atômica como se fossem a que vagava pelo cosmo depois do segundo big-bang.

GautamaPace dissolveu-se então num magnífico raio róseo. Enlevados pelo venerável silêncio da unidade, as almas gêmeas ainda presentes inclinaram-se em profundo agradecimento. Elas se sentiam regiamente agraciadas. Acompanhadas de seu Anjo da Guarda NikolauSilia, as almas gêmeas AlectAlectus levitaram novamente para o mundo das coisas finitas. A porção de alma de Alecta voltou para o corpo de Felicia, enquanto que Alectus entrou igualmente em seu envoltório terrestre. Nem bem isso acabou de acontecer, Ciria e Felicia despertaram, cada qual em seu lugar, cheias de contentamento. Agora elas sabiam, por todo o tempo, de sua eterna unidade; e a certeza de que algum dia as almas gêmeas haveriam de expandir a vida e ser idênticas ao amor de Deus-Pai-Mãe lhes dava força suficiente. Elas sentiram profundamente em seu ser que o novo raio da unidade realizaria a união do princípio masculino com o feminino, e que as formas de pensamento do passado seriam completamente dissolvidas.

Elas souberam que a Luz ha veria de vencer.

FIM

Os céus se abriram

E nova dádiva à nossa Terra desceu.

Prenhe do conhecimento sagrado O mundo dos homens assim escolheu.

Ouviu-se o chamado do Mestre,

O hino em louvor do amor foi cantado.

Almas gêmeas viverão na Terra, Transmutando a negra necessidade em luz.

Não procurem! Vocês acharão.

Pace entrelaçará as almas.

Sua paz vela sobre o mundo,

ELE pensou o caminho até o fim.

Somente o amor ameniza a miséria, Consciente, a serviço dos Espíritos Superiores. Venham, ouçam e sigam a Luz!

Um novo dia da Criação se inicia.

Era uma vez, há incontáveis eões,

E, novamente, assim será:

A unidade cura o vale das sombras,

As almas gêmeas se integram no TODO-UNO!