ALEF - A VERDADE ORIGINAL

Capítulo 1

O vento, em geral árido e quente, agitava as palmeiras com frenesi. O atrito das folhas ao ar em movimento parecia orquestra harmônica regida por maestro intangível. A paisagem, embora bela, era quase monocromática: tudo em tons de amarelo, inclusive as folhas das árvores que resistiam bravamente à seca prolongada. Quilômetros e quilômetros de deserto eram banhados pela benevolência de um rio cujas margens exibiam luxuriante verde. Havia uma infinidade de choças, culturas de irrigação, árvores generosas e canteiros de plantas medicinais. E homens, muitos homens, mulheres e crianças, escravos ou não, de pele curtida pelo sol poderoso e inclemente, tratavam a terra com desvelo, qual par-turiente a trazer gracioso rebento, frágil e precioso.

O horizonte ruivo pintava de púrpura as águas plácidas do histórico celeiro, meio místico, meio mítico, de um dos berços da civilização.

Tempo: 392 a.C. Espaço: Egito.

Em 399 a vigésima nona dinastia já ensaiava os primeiros passos. Neferites I, após derrotar Armiteus em batalha aberta, condenou-o à morte e usurpou-lhe o trono. Em 392, entretanto, o primeiro faraó daquela dinastia veio a deixar o corpo de modo misterioso e precoce. Novamente a disputa pela Joia do Nilo se acirrou: de um lado o filho de Neferites I, de outro um usurpador de nome Psamutis. Não obstante se tenha apoderado do trono, Psamutis não conseguiu reinar por mais de ano; foi derrubado por Hakor, que tomou o poder por ser neto de Neferites I.

Hakor foi soberano do Egito entre 393 e 380 a.C. e tinha como braço direito - para não dizer os dois braços - Haemon, conselheiro teniense que fora seu preceptor desde que decidira que subiria ao trono. Dotado de inteligência privilegiada, Haemon era médico, cientista, físico, astrônomo, pintor, escultor... Não bastassem tantos predicados, era dono de um coração ímpar. O soberano o amava realmente. Tinha-o como amigo e não como funcionário do palácio que, apesar dos inúmeros convites recebidos, nunca quisera habitar. Nenhuma decisão era adotada sem a opinião do sábio que estava sempre ao lado do soberano adorador e representante de Ra - isto quando não assumia a identidade da divindade. Contudo, Haemon possuía mente tão elevada que, a despeito de o estimar e nele confiar de maneira incondicional, Hakor muitas vezes carecia do entendimento necessário para aceitar suas idéias revolucionárias.

Era justamente isso que estava perto de ocorrer naquela manhã clara em que pela sacada observava uma esfinge prestes a se afogar na areia do deserto. A guardiã dos sagrados sepulcros de incontáveis faraós pedia socorro em meio às areias que a queriam varrer da história, como aconteceria com tantas de suas irmãs. Hakor cismava enquanto contemplava orgulhoso as intocáveis câmaras onde os nobres aguardavam o resgate para um mundo de delícias e felicidade supremas; para um local onde o pão não é resultado do suor do rosto, onde os ataques e invasões não existem, onde se respeita o espaço individual e coletivo. Não temia a morte, queria voltar para casa... Muitos egípcios nutriam esse desejo. Jamais, em tempo algum, houve uma civilização que cultuasse tanto a morte física...

Sem olhar para trás ou mesmo ouvir qualquer som de passos, dado que Haemon usava sandálias de silenciosas solas vegetais, Hakor sabia da chegada do amigo.1 Acessório de vestimenta egípcia utilizado pelos faraós e sua corte. Assemelhava-se a um cinto de forma triangular feito de linho adornado com pedras preciosas.

O faraó vestia uma túnica branca curta e transparente, o kalasyris, todo adornado de pedras preciosas, jungido à cintura por um neket1 também incrustado de pedras, e para complementar jogara aos ombros o hosch2. Trazia tantas joias que Haemon se perguntava se não era difícil caminhar com tal peso. A cabeça raspada (para evitar o tormento da época, os piolhos) era coberta por peruca negra encimada pelo tradicional nemes3 listrado em ouro e azul.

- Pensando no paraíso perdido, adorado Ra?

- Sabia que estava a caminho. Senti sua aproximação, sinto quando entra em meus pensamentos. Tive um sonho estranho esta noite. Pareceu-me visitar esse paraíso ao qual se referem os judeus, mas não era exatamente um jardim; era um local repleto de construções impossíveis de edificar, como bem sabe. Tudo tão familiar... Ao acordar e olhar para as tumbas sinto-me quase despeitado de tantos que já se foram, pois acredito que a única maneira de voltar para lá é morrendo. Estou a divagar, amigo?

- Não.

- Morrendo e mantendo nosso corpo em bom estado podemos ressurgir nesse paraíso perdido?

- Aí divergimos. Não creio que precisemos mumificar nossos corpos para usá-los nesse paraíso; penso que a coisa é mais da alma.

- Agora você está divagando. Eu visitei o paraíso, e com meu corpo; lembro-me de portar inclusive meu hega, meu chicote e o olho de Ra, objetos de que lá precisarei, com certeza.

- Isso é uma afirmação ou quer minha opinião?

- Quero sua opinião.

2 Uma espécie de pequena capa que se usava sobre os ombros e o peito.
3 Nemes era um toucado usado pelos reis do Antigo Egito desde o Império Antigo até à época ptolemaica. Era feito com linho ou em alguns casos com couro. Cobria a cabeça do rei, possuindo abas simétricas que caíam sobre os ombros. Na parte posterior o tecido era amarrado com recurso a uma espécie de trança. As cores mais comuns eram o amarelo-ouro e o lápis-lazúli, apesar dos Textos das Pirâmides aludirem à sua cor branca, associada à deusa Nekhbet, padroeira do Alto Egito. A parte da testa era decorada com o uraeus, uma serpente que representava Uadjit, deusa tutelar do Baixo Egito; acreditava-se que o uraeus era capaz de proteger o rei dos seus inimigos.
Seu sonho lhe mostra o que é necessário para regressar ao paraíso perdido, porém não exatamente com os objetos e sim pelo que eles representam. O hega é o instrumento que o pastor usa para resgatar uma ovelha perdida; logo, a simbologia nos sugere que existe algo a ser resgatado em cada um de nós, exilados de casa, as ovelhas que devemos salvar talvez porque as colocamos a perder; o hega significa resgatar, perdoar e pedir perdão. O chicote representa punição, culpa e raiva de si mesmo por saber-se o único culpado pela perda do paraíso. E o olho de Ra é a cobrança diante de si próprio em relação ao resgate que o fará merecer a volta. Em resumo: sabe que precisa se encontrar, tem raiva por estar longe de casa e se cobra esse regresso.

- Faz sentido. No entanto, como resgatar esses carneiros? Quem são eles?

- Você é um faraó, o soberano do Egito, o divino Amon-Ra na Terra. O cetro em sua mão mostra que todos os egípcios, seus súditos, são suas ovelhas.

- Meu bom amigo, sabemos que eu não sou Ra; talvez um enviado dele...

- Faça o bem para seus súditos, realize um governo justo, ajude aos que nada têm além do sofrimento: esta é a garantia de voltar para o paraíso.

- Eu preciso fazer isso, pois sei que com tamanha bondade e sapiência você irá em um minuto do sarcófago para o paraíso de Ra; e eu não poderei ficar aqui sem meu melhor amigo.

- Esteja em paz! Já me afeiçoo à Terra e suas dores, não irei para o paraíso sem todos os queridos de meu coração que vieram de lá comigo. E se demorarmos muito a retornar, façamos daqui o nosso paraíso.

- Obrigado, meu venerando amigo. Todavia, deixemos o paraíso para depois da morte ou acabaremos como os hebreus, vivendo em um futuro de júbilo, ou como os seus compatriotas, no passado glorioso. Vivamos o presente. O que me trouxe hoje?

Desenrolando os papiros dos cones de marfim, seus olhos brilharam.

- Do que se trata?
Mapas.

- Mapas?

- Sim, do espaço.

- Você está brincando?

- De forma alguma. Posso até dizer onde se encontra o paraíso perdido. É um catálogo estelar, com mais de quinhentas estrelas.

- E o que faremos com isso?

- Poderemos estudar os diferentes mundos, prever variações climáticas, eclipses e orientar plantações, bem como navegações. Isto tem muita utilidade.

- Como se pode saber a posição dessas estrelas com tanta precisão?

- Usando isto.

Mostrou ao soberano um instrumento arredondado com ponteiros móveis, os quais ele situava no horizonte e no zênite para determinar posição de astros, altura de construções e para fazer uma infinidade de cálculos. Era sem dúvida o ancestral do astrolábio4 que ele mesmo voltaria para reinventar anos depois, em Alexandria, quando os homens já estariam prontos para se iniciar na astronomia.

- Deixe isso aí, que mais tarde vou examinar, embora sinceramente não creia que possa ser uma boa ideia. Sabe muito bem que o considero o mais inteligente de todos os homens que conheci, mas isto tudo me parece muito fantástico.

- Acredite, soberano! Posso inclusive calcular, através destes mapas, a chegada do tal Messias que os judeus esperam.

- Por favor, amigo, já é demais!

- Se acredita no paraíso perdido, por que duvida do Messias prometido?

- Não acredito no paraíso deles e sim no meu, que vejo, sinto e de que quase posso dizer que me lembro; não tem nenhuma semelhança com um jardim monótono ocupado por uma população de duas pessoas.
4 O astrolábio é um instrumento naval antigo, usado para medir a altura dos astros acima do horizonte.
- São formas de linguagem, magnânimo! Nada pode ser levado ao pé da letra, bem o sabe.

- Sim, eu sei! Só que estes mapas são demais para mim, desculpe--me. E o que dizer dos soldados, escravos e camponeses?

- Tem razão, devo estar me precipitando. Não há problema, meus projetos serão adiados.

- Sinto muito, querido amigo. Agora me diga: acha que devemos salvar a nossa esfinge, que parece perder-se na areia?

- Com toda a certeza. Se o mundo atual tem medo do que é moderno, o mundo moderno se encantará com o que é antigo... Salve-a, grande Hakor. Dê esse presente à humanidade que virá.

- Amigo Haemon, como andam os serviços para minha câmara mortuária?

- Kenefer está fazendo excelente trabalho. É verdadeiramente o melhor escriba de todo o Egito, mesmo que prefira trabalhar como artesão. Domina as escritas hieroglífica, hierática e demótica de maneira que eu nunca vi antes.

- Claro que está usando a primeira nas paredes de minha tumba.

- Seguramente. Jamais permitiría que usasse uma escrita simplificada em sua tumba, amigo Hakor. Tenho clara noção do quanto a morte lhe é importante, ainda que deseje viver por muitos anos no comando do Egito.

- A morte me fascina, daí por que desejo ser colocado em um palácio depois de morto.

- Esteja em paz. Kenefer é, além do mais, meu amigo.

- Sei como é capaz de escolher bem um profissional, por isso o chamei hoje. Akhentaten, meu melhor olheiro, acaba de chegar e trouxe-me notícias nada animadoras. Os persas planejam atacar-nos, derrubar a vigésima nona dinastia de herdeiros legítimos do trono egípcio e voltar a dominar estas paragens.

- Qual o grau de confiabilidade de Akhentaten e sua informação?

-Total. Preciso de sua ajuda. Meu exército não está em sua melhor fase. O que pode sugerir-me?

O sábio mordeu o lábio inferior e rugas apareceram entre seus olhos de um negro inimaginável.
Não quero a sugestão agora. Conheço-o há muitos anos e sei da sua capacidade estratégica quando no silêncio de seu lar. Conversaremos amanhã neste mesmo horário, entre o surgimento de Khepri (nome dado a Ra no nascente) e seu apogeu (por volta de meio-dia) que não demora.

- Como quiser, ilustre amigo. Permita então que me retire.

- Vá! Até mais.

Haemon curvou-se e saiu de costas da presença do soberano, até virar em um dos muitos corredores do labiríntico palácio faraônico repleto de estátuas e colunas pintadas e adornadas de escaravelhos, cobras e gatos.

Atravessou numerosas portas, até se ver fora da gigantesca construção, e caminhou lentamente para casa. Sua casa na verdade era sua oficina; ali estavam seus ajudantes, aprendizes e discípulos, sempre às dúzias. Alguns o chamavam de mestre, outros de senhor e os mais jovens de pai, ao que ele costumava protestar... Em vão.

Em seu grupo de artesãos a serviço do faraó elegera um chefe: Kenefer, por quem tinha genuína estima e a sensação de ser seu antigo conhecido; um homem de trato cortês e voz pausada, meigo e atencioso, totalmente dedicado ao trabalho e à família composta de duas esposas e três filhas. Kenefer escrevia em grandes blocos de pedra e traçava desenhos que chamaram a atenção do líder.

- O que significa isso?

- Estou tentando fazer que esta pedra pareça o umbral entre a tumba e o paraíso perdido de Amon-Ra.

- Percebi e está muito belo, porém me admira um artesão que saiba pintar tão divinamente.

- Foi com o senhor que aprendi.

- Não, amigo. Eu apenas fiz aflorar um dom que já possuía. Nada posso ensinar a alguém sem a predisposição para as artes. Trouxe essa bagagem ao nascer. É sua.

- Obrigado, mestre!

- Conte-me, Kenefer, de onde conhece estas construções. Acaso se entrevistou com o faraó sobre suas supostas viagens a um paraíso perdido?
- Não seria tão ousado, mestre. Estas construções refletem imagens que me vêm às vezes.

Haemon olhou fixamente os desenhos bem traçados, que mostravam uma cidade futurista até para quem a visse hoje. Era algo de que Hakor se lembrava e ele também, um paraíso perdido para o qual apenas a morte poderia devolvê-los. Nesse momento, como o faraó, desejou morrer.

- Acredita que esse lugar existe?

- Não sei responder a essa pergunta, mestre. Minha primeira esposa, Afia, acredita em paraíso perdido pelo pecado de Eva e todas essas coisas que Moisés escreveu.

-Já leu a Torá?

- Algumas vezes, Afia faz questão. Imagino que nada dirá ao faraó; ele me puniria seriamente por estudar algo que não diz respeito a Amon-Ra.

- De fato o faria, unicamente por obrigação e tradição, pois sei que ele próprio já se interessou pelos textos sagrados dos israelitas. Se não o leu foi por causa de sua ociosidade inata; porém obrigou a isso a pobre Chaya, dando-lhe muito trabalho para responder a inumeráveis perguntas.

- Ele se interessou mesmo?

- Sim. Até declarou que, se convencido, passaria a impor o culto do Deus único em todas as terras egípcias. E quase se convencera, até o ponto em que Chaya afirmou que o paraíso era um enorme jardim, enquanto ele o concebia tal qual o retrata agora.

- Mas é só uma analogia. Eu e Afra entramos em acordo quanto a isso, e nos entendemos perfeitamente.

- O faraó perdeu o interesse pelo assunto... E sei bem o quanto se entende com Afra; tanto que nem imaginava que tomaria uma segunda esposa. E que esposa! -seu tom se tornara jocoso.

- Kyia é apenas uma criança grande.

Como de hábito, Kenefer defendia a temperamental segunda esposa. Sentia um misto de amor e compaixão pela nefasta moçoila dona de coração egocêntrico e ardiloso. Para ela os fins sempre justificavam os meios e invariavelmente obtinha o que queria, tendo por principal arma a generosidade do marido e da primeira consorte. Haemon se limitou a sorrir; sabedor de quanto o amigo amava a família inteira, absteve-se de opinar. Seu desejo mais íntimo era dizer ao bondoso artesão que se divorciasse daquela infame o mais rápido possível e recuperasse a paz que reinava em sua casa antes do trágico acontecimento.

As lembranças assomaram-lhe à mente tão vivas como cinco anos atrás, quando Kenefer chegou chorando para o trabalho. Dizia estar com o coração em frangalhos por ter ferido irreversivelmente uma bela jovem de pele de brancura ímpar e cabelos negros como a noite, vinda de Mênfis.

- Acaso é uma nobre? - indagou Haemon.

Diante do gesto negativo do amigo, outra pergunta:

- Como então tem pele alva, se somente as mulheres nobres podem se dar ao luxo de se proteger do sol?

- É uma pobre aleijada que acabei de cegar. Preparei-lhe um banho de diversas plantas medicinais, no intuito de lhe destravar as pernas, e ao banhar o rosto a coitadinha berrou de dor e não mais conseguiu enxergar.

- Como procedeu à fabricação do banho? Acaso estava fazendo testes?

- Não, era o mesmo banho que vimos receitando sempre.

- Quero ver a moça.

- E precisamente o que venho lhe pedir, mestre.

Haemon tomou pequena vareta e, afastando as pálpebras da moça, ameaçou ferir-lhe o globo ocular. A rapariga nem se mexeu. Com um pedaço de metal ele refletiu a luz do sol diretamente para o olho, que só lacrimejou, sem apresentar alteração.

- É algo a se estudar. Pode ter havido uma reação alérgica a algum dos componentes medicinais. Leve a garota depois até minha casa e descobriremos qual, e se existe antídoto.

Qual não foi a surpresa de Haemon ao ouvir, no outro dia, o amigo pedir permissão ao sacerdote Nekhtamun para se casar com a enferma! Aconselhou, sem sucesso:
Você não conhece essa pessoa, não sabe a que família pertence. Deve tratá-la, mas não desposá-la.

Nenhum argumento demoveu o artesão da ideia e assim, em poucos dias, sob as bênçãos do sacerdote e do faraó, Kenefer tomava por segunda esposa Kyia, seu maior desafio naquela existência.

CAPÍTULO 2

Às reservas de Haemon em relação à segunda esposa de Kenefer começaram em certa madrugada fria na qual trabalhou em seu projeto astronômico até muito tarde, em companhia do artesão, e ao retornar nara casa os dois depararam com a moça correndo pelas passagens labi-rínticas das construções típicas egípcias.

- Kyia! É você?

Kenefer parecia duvidar do que via: a bela jovem de pele alvíssima andando no meio da noite com as próprias pernas e sem um guia.

- Amado Kenefer! Vim ao seu encontro logo que acordei notando que minha visão havia voltado. E mais surpresa fiquei ao descobrir que minhas pernas estão curadas. Vim para agradecer e dizer que serei eternamente não apenas sua esposa, como sua serva fiel.

O amor era quase tangível nos olhos do artesão. Enlaçou ternamente a dissimulada consorte e, agradecendo ao mestre pela ajuda no processo de cura da amada, conduziu-a para casa envolta em carinhoso abraço.

“Como uma pessoa acorda no meio da noite escura e percebe que não é mais cega?”- Haemon não conteve a reflexão irônica. - “Soberano Ra, tenha misericórdia e ilumine esse pobre homem.”

Ciente de que qualquer insinuação que desabonasse Kyia era repelida pelo cego marido, e temendo perder a amizade de um quase irmão, como o considerava, o grego se propôs não mais intervir. Descobriría mais tarde que na noite da “cura” Kyia se encontrara às escondidas com Haremakhet, jovem artesão a seu serviço que aparecera morto inexplicavelmente na manhã seguinte ao “milagre”.
Quando chamou o amigo para colocá-lo a par dos fatos, este o atalhou eufórico com a notícia de que Kyia ia ter um bebê, e que desta vez teria de ser um menino. Totalmente desarmado, o sábio se calou, porém não se revoltou. Acreditava que a vida é regida por uma força superior e que ser bom gera boas consequências; logo, a presença macabra de Kyia na vida de um homem bom devia ter um propósito maior - mesmo porque, sempre que estava com todos os argumentos para desmascarar a falsa vítima, algo incontrolável acontecia desarmando-o. Torceu para a gravidez ser mais uma das inúmeras mentiras da ardilosa moça. Todavia, para calá-lo de vez, certa manhã em que Ra parecia furioso e implacável Nany e Neith, as filhas de Kenefer, ganharam uma linda irmãzinha. Nyla chegava ao mundo através de Kyia e Kenefer.

- Mestre Haemon! - alertou um auxiliar. - Está quase na hora da segunda fase do culto a Ra. Está atrasado; corra ou será castigado pelo grande deus.

Realmente o sol estava a pino; era hora do segundo culto a Amon-Ra.

O Deus-Sol era cultuado em quatro fases: a primeira ao nascer do sol, recebendo o nome de Khepri (ou Kopri); a segunda ao meio-dia, no seu apogeu, sendo adorado na figura de um pássaro ou um barco a navegar; a terceira ao pôr do sol, como um homem velho que descia ao mundo dos mortos; a quarta durante a noite, como um barco que navegava a leste preparando-se para a aurora do dia seguinte, onde tinha de lutar com Apep ou Apópis, a grande serpente do mundo inferior que tentava devorá-lo, para impedir que na manhã seguinte trouxesse sua luz para os mortais.

Haemon correu para o palácio do faraó. No meio da gigantesca construção havia um pátio descoberto, cercado por sacadas nos quatro lados. Bem ao centro dele fora fixada uma haste dourada com um círculo na extremidade, de forma que ao meio-dia os raios do sol se refletiam através do círculo, num espetáculo de luz e beleza que era atribuído a uma manifestação do Deus-Sol.

Nesse momento todos os habitantes do palácio, reunidos no pátio, se ajoelhavam voltando os rostos para o chão. Os altos funcionários, o :araó e suas famílias ocupavam as sacadas e, exceto Hakor, mantinham a mesma posição de submissão. O faraó dialogava com Ra, adorava-o e em seguida fazia oferendas e pedidos individuais selecionados previamente; apenas os pedidos dos nobres eram escolhidos. Quando o movimento da Terra, que eles acreditavam ser do sol, desfazia o efeito luminoso o culto era encerrado e o soberano autorizava a todos ficarem de pé e voltarem aos seus afazeres.

A caminho de casa Haemon viu-se frente a frente com Kyia, chegando quase a se chocar com ela.

- Pode-se dizer que nosso encontro foi ao acaso, ou você o plane-i ou para tirar dele algum proveito?

- Faz muito mau juízo de mim, mestre! Não vive a repetir que não existe acaso? Talvez seja um encontro intencional, mas provocado por você.

- Não está doente hoje? E um fato inusitado.

- Ainda estou convalescente.

- E tão logo a brancura de sua pele e a negrura de seus cabelos se vejam ameaçadas pelo sol, estará de cama novamente.

- Você é injusto.

- Injusto é o que faz ao meu bondoso amigo.

- Ele me adoeceu; é, portanto, coerente que me sustente agora.

- Você nunca trabalhou na vida, menina maldosa! Basta olhar suas mãos, seus cabelos e sua pele. Consegue ser a pessoa mais falsa que já conheci. Nunca esteve cega, ou não percebería que deixara de ser durante uma escura madrugada. Estava às voltas com Haremakhet, pobre rapaz que assassinou sem pesar.

- Como nega minha cegueira, se você próprio a verificou com varetas e metais voltados para Ra?

O rosto de Kyia era a expressão mais fiel de sarcasmo e desrespeito, quando implicitamente confessava ter visto a realização do exame.

- Deveria saber reconhecer um olho ferido, grande mestre e mago! E deixe de ter pena de Kenefer: ele me ama com loucura e é feliz comigo. Afra é uma mulher velha e acabada pelo sol.
Eu realmente tenho muito mais pena de você, pois quem faz o mal sempre o faz a si próprio. E o mesmo vale para o bem. Um dia, inapelavelmente, os dois colherão o resultado de seus atos: é uma lei irrevogável da força maior que rege o mundo inteiro.

- Para mim, a força que rege o mundo agora se chama Neferites II; é até ele, o filho do faraó, que pretendo chegar. E se você desfizer o elo entre o herdeiro e eu, juro fazer Kenefer acreditar que abusou de mim e tentou matar-me, mesmo que para convencê-lo precise me ralar inteira jogando-me de certa altura da esfinge.

- Nada pretendo fazer contra você, menina tola. Se foi colocada ao lado de meu amigo deve haver um propósito para tal; admito isso especialmente por não crer em coincidências. Nyla chegou exatamente quando eu estava pronto para tirar meu bom amigo de seu ardil. Uma força maior agiu nesse momento para que você permanecesse ao lado de pessoas tão nobres. Quem sou eu para atravessar esses desígnios? E mais: a força à qual me refiro é aquela que rege o universo infinito, em todas as suas dimensões; não falo de um poder temporal e mensurável do tamanho do Nilo.

- Fala do poderoso Ra?

- Chame como quiser, nomes são o que menos importa.

- O mesmo deus de Afra?

- Também.

- Não acredito nesse poder. Olhe para a história do povo hebreu. E ainda se julgam eleitos desse deus único... Se com seus eleitos ele é tão negligente, imagine comigo!

Soltando histriônica gargalhada, Kyia saiu de perto do sábio com quem não tinha a menor condição de argumentar.

Ao entrar em casa encontrou apenas Nany, a mais velha, a cuidar de Nyla, com pouco mais de um ano e totalmente negligenciada pela mãe. Afra e Neith se dedicavam ao trato da cevada e do trigo, visto que terminava a akhet (inundação) e iniciava-se a fase peret (do plantio). Tudo era cronometrado de acordo com as cheias do Nilo, que depositavam em suas margens um lodo rico em minerais, propiciando o cultivo; este ia de novembro a fevereiro. Apenas
obedecendo ao ciclo do abençoado rio se garantia uma shemu (colheita) farta.

Kyia nunca se preocupou com as manhas do rio Nilo. Afinal, não era dada ao trabalho e levianamente vivia graças ao esforço da primeira esposa e suas filhas, as quais explorava sem remorsos. E para completar as tachava de patéticas! Em relação a Kenefer, sentia um pequeno desconforto ao trair e ludibriar; às vezes tinha vontade de agradá-lo de alguma forma. Despontavam na insensível moça os primeiros rudimentos do sentimento nobre do amor.

Afra chegava em casa acompanhada da filha, ambas exaustas.

- Kyia, está melhor?

- Ainda um pouco fraca, amiga Afra!

- O Senhor Deus, bendito seja o seu nome, há de restaurar-lhe a saúde.

-Torce por me ver curada para livrar nosso marido da responsabilidade para comigo e fazê-lo pedir o divórcio, não é?

- Nunca exigiria tal coisa de Kenefer. É um homem de bondade excepcional. Sou-lhe eternamente grata por minhas filhas viverem; tanto o povo egípcio quanto o hebreu o desobrigam delas, e não obstante ele as criou e as ama com genuíno amor de pai.

- Se todos usufruíssem esse direito, dentro em pouco teríamos um Egito masculino. Quero ver quem daria à luz! Essa lei vinda de Ra eu até compreendo; entretanto, é incompreensível esse seu Deus, que dizem amá-los, permitir a alguém desfazer-se de uma criança como se fosse um objeto que não lhe serve.

- O Senhor, bendito seja o seu nome, é perfeito e inquestionável. Você blasfema ao pronunciar essas palavras. Ele nos deu um bom marido e nossas filhas estão vivas. Louvado seja!

- Eu sempre agradeço por Kenefer... É que as leis de seu povo são duras e incompatíveis com esse tal amor de Deus.

- Basta de blasfêmia, menina! Nada entende das escrituras, nada entende da lei.

- Também não quero entender, nem sou parte desse povo eleito e escravizado pelo mundo - riu ironicamente.
No momento correto o Senhor, bendito seja seu nome, nos enviará o libertador, o Messias que salvará Israel do jugo estrangeiro e reunirá todos os seus filhos no solo sagrado de sua pátria.

- Um homem? Um único homem que lutará contra romanos, gregos, egípcios, macedônios e persas? Isso porque não há um só povo que não tenha um hebreu por escravo.

- O filho da Promessa Divina há de vir e entrará triunfante em Jerusalém; está nas escrituras. Acha que sou apenas uma hebreia inculta? Pois bem, pergunte a Kenefer e Haemon se, estudando as estrelas, não descobriram que falo a verdade. Ele virá quando algo suceder no céu fazendo uma estrela brilhante apontar o local de seu nascimento.

- Aguardam um general e um exército maior que o persa... Espere, ele já veio! Era Ciro da Pérsia, que andou libertando alguns judeus da Babilônia.

- Não, ainda não veio, porque depois de sua vinda não haverá mais escravidão. Ele é o libertador.

- Amiga Afra, esta conversa me deu fome. Tem algo para se comer?

- Não cozinhou nada?

- Estava acamada e Nany também passou o dia todo em casa.

- Nany cuidava de sua filha - diga-se de passagem, sua obrigação.

- Mãe e filhas se dirigiram à cozinha para arrumar a ceia. Enquanto preparavam os grãos, entoavam cânticos a Deus.

Kenefer entrou em casa e sorriu para Kyia. Beijou-lhe a mão suave e lisa e falou:

- Excelente cantora é Afra, não acha?

- Tem belíssima voz, sim.

- Seu Deus deve estar feliz com o cântico.

- Não sei se chega a ser sensível como você, meu bom Kenefer.

Ele riu espontaneamente e a jovem prosseguiu:

- É radical, caprichoso e vingativo como nosso Ra. Ou o Zeus de seu amigo Haemon.

- Deixe-me dizer uma coisa que Afra não precisa ouvir. As leis judaicas, com exceção do decálogo, não são de Deus e sim de Moisés, que foi um grande legislador hebreu. Por esse motivo só os dez mandamentos não necessitam de atualização, pois Deus é imutável; já as leis feitas por homens precisam ser adaptadas ao tempo e ao espaço. O povo de Afra ainda perceberá o que afirmo. Tudo a seu tempo.

- Passe esta noite comigo, Kenefer!

- Esta noite eu faço companhia a Afra.

Ele foi lavar as mãos para a ceia e Kyia correu até a cozinha.

- Afra! - falou maldosamente. - Kenefer disse que as Escrituras Sagradas de seu povo são falsificadas por um tal Moisés; não são leis de Deus.

A intriga atingiu o coração sensível da judia como um punhal. Ele ha com ela a Torá, dizia admirar Moisés e os profetas, lavava as mãos antes das refeições, celebrava a páscoa e até guardava o Sabbath. Então era tudo fingimento?

Após a ceia, Kyia se preparava para dormir quando Kenefer entrou em seus aposentos.

- Posso dormir com você?

- Que adorável surpresa, amado marido! Aconteceu algo a Afra?

- Não quis dirigir-me a palavra a não ser para pedir que a deixasse só. Parece triste e magoada. Acaso lhe contou algo?

- Não. Estava bem estranha quando a vi depois da ceia a organizar a cozinha. Talvez esteja cansada da lavoura ou... de você. Chegou uma caravana de hebreus que se alojaram na propriedade ao lado. Sabe como essa raça é tradicional. Quem sabe não foi algum jovem hebreu que entristeceu seu coração...

- Não acredito! Ela me ama com adoração.

- Não pensemos nisso agora, querido. A recusa de Afra apenas me beneficiou.

Naquela noite Kenefer não conseguiu conciliar o sono. Maldosamente, Kyia plantara em seu peito a dúvida e a insegurança.

CAPÍTULO 3

No dia seguinte, encerrado o culto a Amon-Ra, Haemon procurou por Hakor e declarou já ter a solução para o problema das fracas defesas do Egito: um exército de mercenários atenienses, experientes soldados desempregados, remanescentes da guerra do Peloponeso5.

- Mas esses soldados perderam a guerra para Esparta.

- Os espartanos não venceram lealmente. Eles se venderam aos persas e compraram os aliados atenienses, especula-se até que com apoio romano. Foi uma vitória desleal - fato que inclusive faz os atenienses sentirem mais rancor pelos persas. Acho que o Egito estaria em boas mãos com a proteção desses homens.

- E onde eu posso encontrar essas máquinas de matar persas?

- Esqueceu-se de minha origem, nobre Ra?

- Conhece alguém desse exército?

- Muito. O maior e mais poderoso grupo de mercenários gregos foi formado e é liderado por Proteu, meu irmão caçula. Faz jus ao nome: jamais perdeu uma única batalha no mar. Foi para a guerra nos últimos dois anos do terceiro período e ficou até o fim; nesses anos de luta, nunca sofreu um só arranhão. Seus comandados já o creem um semideus; além de imortal, um profeta adivinho, pois sempre antecipa as manobras inimigas.

- E ele é tudo isso?
5 A guerra do Peloponeso foi um conflito armado entre Atenas (centro político e civilizacional do mundo ocidental no século V a.C.) e Esparta (cidade-Estado de tradição militarista e costumes austeros), de 431 a 404 a.C.
Claro que não. Apenas um experiente guerreiro com um ego monstruosamente inflado.

- Mande buscar esse filho de Poseidon. Que ele cobre o preço do tamanho de seu ego, ou mesmo do mar do qual é herdeiro. Eu pago para que nenhum persa pise novamente o solo sagrado do meu reino. Seu séquito de guerreiros seguirá a comitiva do faraó; estará sediado na cidade onde eu estiver.

- Será uma tropa itinerante, visto que não se decide exatamente onde fixa morada, grande Ra.

- Amo Sais, Mênfis, Giza e Mendes, e cada palácio construído no delta. Contudo, estarei esperando minha ressurreição para o paraíso aqui onde minha tumba se ergue, mais majestosa que todos os palácios que possuo. Não se preocupe, irmão; por mais que andemos, estaremos juntos para sempre.

Haemon estremeceu. Sabia o que as palavras do “deus” de carne e osso significavam: assim que morresse todos os mais chegados a ele seriam encerrados junto ao cadáver na gigantesca tumba. Esposa, filhos, escravos domésticos, dançarinos, artistas, médicos, conselheiros, artesãos, militares e até as prostitutas que lhe prestavam serviços extracon-jugais a domicílio. A lista era interminável.

Curvando-se respeitoso, ia sair quando o soberano fez ainda uma pergunta.

- E quanto a minha tumba?

- Perfeita! Kenefer parece viajar dentro de suas memórias e desenhar o paraíso perdido.

- Estimo esse artesão. Parece que somos todos degredados de algum lugar, para o qual só voltaremos depois da morte, juntos.

- Quem sabe?

- Eu sei!

Haemon deixou o palácio e com a ajuda de Kenefer despachou mensagem para o irmão em Atenas.

O mensageiro de confiança, Amenófis, usou um cavalo até chegar ao lugar em que alguns anos mais tarde Alexandre, o Grande, depois de vencer o rei persa Dario III, fundaria uma cidade com seu nome, a famosa Alexandria. Um navio especial já o esperava para seguir até Atenas; afinal, levava uma mensagem do próprio Amon Ra na terra.

Amenófis fez todo o percurso segurando a mensagem nas mãos. Comia e dormia sem largar a preciosidade; não se banhou uma vez sequer para não ter de se separar do papiro sagrado de Ra. E foi assim que cruzou o Mediterrâneo: apertando o comunicado faraônico para certo Proteu de Mileto, localizado sabe-se lá onde.

A embarcação seguia célere. Mirando o mar pela proa, o mensageiro cismava com essa dificuldade quando um roedor agonizou a seus pés, vítima do lançamento preciso de um punhal prateado. Seus olhos procuraram pelo autor da façanha e avistaram um homem grande e forte. O perfil agigantado, aliado à pontaria perfeita, era uma ameaça mortífera que deixou o egípcio apreensivo, fazendo-o apertar o papiro com mais força. O gigante aproximou-se com sorriso perverso de predador.

- Que bela a lua! Possibilita-nos acertar um pequeno roedor a distância considerável mesmo à noite.

Amenófis se limitou a sorrir sem graça, o sorriso mais falso que já dera em sua vida.

- Meu nome é Péricles de Mileto!

- Eu sou Amenófis de Tebas!

- E o que traz um tebano para estes lados do Mediterrâneo? Acaso não conhece a periculosidade destas bandas? Aqui ainda se morre pela liga de Delos ou Peloponeso.

- Mas essa guerra não está acabada há anos?

- Rixas entre civis, meu amigo. Estas sobrevivem muitos anos após as guerras. E talvez matem mais que elas.

- E o amigo é adepto de tais rixas remanescentes de guerra?

- Não, não; procuro viver em paz comigo e com alguns sonhos...

- Sonhos! Isso é o que move o mundo.

- Bom, o que faz um tebano por estas paragens, afinal?

- Estou em importante missão e, pelo seu nome, creio que poderá ajudar-me. Trago mensagem do faraó para um compatriota seu. Proteu de Mileto.
Os olhos gateados do grego brilharam diante do nome do general do exército alternativo.

- Disse bem: meu compatriota e companheiro de armas. No que rvsso ajudá-lo?

- Nada muito trabalhoso, apenas me diga onde posso encontrar esse general e seu séquito de guerreiros.

- Que sorte a sua amigo! Estou indo justamente ao encontro do reneral; pode me seguir e entregará a mensagem de seu soberano. Fácil ; mo beber cerveja!

- O amigo não se opõe a que eu o acompanhe?

- Claro que não. Eu o levarei até Proteu de Mileto, que atualmente se acha em Atenas.

Durante a travessia pelo mar, Péricles não afastou os olhos do mensageiro. Não havia percebido que levava a mensagem na mão, o cue o impediu de roubá-la, por mais que procurasse na bagagem do egípcio. Porém, assim que pisaram solo ateniense hospedou-o em sua casa e, como cortesia, ofereceu-lhe a própria esposa. Amenófis estranhou, mas, acreditando ser um costume grego de demonstração de hospitalidade, aceitou os agrados da bela moça de nome Dimitrula, carinhosamente chamada Tula pelos mais íntimos. E foi com essa noite de amor que ele mesmo assinou sua sentença. De ?osse do conteúdo da tão preciosa mensagem, o ardiloso cáften da própria companheira assassinou friamente o mensageiro e tomou seu lugar na incumbência.

- Tula, nossos desejos acabam de se realizar. Olhe só o que temos, minha flor; duvido que agora não consiga chegar até Proteu.

Sorrindo maliciosa, ela abraçou o marido. Chegar até Proteu significava mudar radicalmente a vida. O dinheiro ia chover. Sabia que os mercenários ganhavam fortunas em suas missões assassinas e suicidas, e que as viúvas recebiam em caráter vitalício a parte do marido morto. E quanto aos soldados? Eram todos clientes em potencial... Tula nem se importou com o cadáver em sua cama; cantou e dançou com o marido, seu cúmplice de tantos crimes.
Já a altas horas Péricles jogou o corpo de Amenófis nos ombros, caminhou até a praia muito próxima e o atirou ao mar. Em seguida, sentado na areia, pensou no futuro que se anunciava.

Há quantos anos sonhava com isso? Dez, talvez quinze. Admirava de maneira doentia e invejosa o colega da escola de Mileto. Ambos eram alunos brilhantes, o que os levara a ser apresentados para o exército aos oito anos. O treinamento dos dois se iniciara numa gélida manhã no relevo montanhoso da Grécia. No entanto, o sarampo anulara impiedosamente os sonhos de Péricles, que voltara revoltado para casa. Ficar de repouso, por mais rápido que convalescesse, implicava um atraso irrecuperável para as noções exageradamente rígidas do exército da cidade-estado. O garoto decidiu treinar à exaustão, no intuito de recuperar o tempo perdido e alcançar os colegas; todavia, Atenas não considerou essa boa vontade.

O treinamento duro, a revolta e a força física desencadearam uma violência inimaginável no renegado, como era tratado pelo próprio genitor, veterano mutilado de guerra. Inimaginável também era a obsessão que sentia pelo antigo companheiro, cuja carreira militar observava com afinco. Cada condecoração, cada vitória causava-lhe um misto de alegria e raiva, admiração e inveja que ele não podia explicar - pelo menos, não naquele momento. Perdera a conta das vezes que tentou, sem resultado, se aproximar do ex-colega; a fama de soldado imortal, profeta, semideus o afastava cada vez mais de suas origens.

Ao fim da guerra do Peloponeso as esperanças do obstinado Péricles se renovaram. Se não conseguia entrar para o exército convencional, um outro, formado por mercenários, seria então a recompensa por seus anos de treinamento. Mas como chegar até Proteu? Foi aí que Zeus o presenteou com aquela mensagem.

“Tenho algo para você, Proteu de Mileto. Vai ganhar mais dinheiro do que suas viúvas poderão gastar, porém só saberá depois que me incluir em suas tropas.” Antegozava a entrevista com o general, visualizava o sorriso de boas-vindas do ex-companheiro e a colocação posterior como braço direito do famoso guerreiro. Fantasiou batalhas sangrentas contra os persas, das quais regressavam vencedores para o palácio do araó, onde belas dançarinas os esperavam com perfumes, cervejas, lentilhas, aves, peixes e muito amor. “Nada melhor que o Egito; precisamos sair desta Atenas miserável do pós-guerra. Sei que Proteu vai levando seus homens e eu vou junto com Tula, minha flor”.

O resto da noite Péricles passou olhando o mar. Não tentou, pois sabia que seria impossível conciliar o sono, tamanha a ansiedade pelo dia seguinte. Por isso a aurora maravilhosamente colorida o apanhou na praia, de onde seguiu para seu destino.

O campo de treinamento, montanhoso como a Grécia inteira, compreendia ao todo cerca de 90 estádios e na verdade semelhava uma grande olimpíada. Centenas de homens extremamente fortes, bronzeados e de peito nu, treinavam arremessos de discos, dardos e vários artefatos pesados; alguns praticavam em barras e pistas de corridas; em amplos lagos havia nadadores e lutadores, e as lutas com espadas, lanças e escudos faziam um barulho infernal.

O coração de Péricles batia descompassado. Tremia como se estivesse frio ao dizer ao vigia que tinha uma mensagem do faraó Hakor para Proteu de Mileto. Enquanto a sentinela conferia a marca do soberano ele quase teve um ataque. Agora que se encontrava dentro do famoso campo de Proteu, era como um sonho. Pensou estar dopado por alguma erva, quase não sentia as pernas e o estômago sofria a sua ansiedade em todas as nuances.

- Proteu de Mileto!

Ele parou em frente a um abobalhado Péricles. Trajava túnica branca curta, cingida à cintura por uma espécie de cordão, que deixava à mostra uma compleição física invejável. O rosto, em contraste com o corpo, era suave. Os penetrantes olhos pretos e os cabelos castanhos queimados pelo sol, até os ombros, reforçavam-lhe o aspecto lendário de semideus.

- Sim, e você?

- Péricles de Mileto.

- Tem uma mensagem do faraó do Egito para mim?

- Sim, general, algo realmente enriquecedor, uma mina de ouro. A única exigência que faço antes de entregá-la em suas mãos é que me aceite em seu exército. Sou um soldado treinado com o máximo rigor, posso lhe ser útil.

- Não duvido de sua capacidade, porém não tem o direito de me cobrar nada em troca de uma mensagem que é minha.

- É uma troca muito justa.

- Nada há de justo em chantagem, Conheço o teor da mensagem. Também sei que a surrupiou de outro a preço de sua vida.

Péricles perdeu a cor; o medo percorreu suas veias em velocidade vertiginosa. Imaginava-se morto por um sonho que acalentara durante toda a vida.

- Como sabe disso?

- Meu irmão, braço direito de Hakor, nunca envia um único mensageiro quando o assunto é de suma importância; eles vêm em trincas, separados por duas horas, como desconhecidos, e se um não chega ao destino outro com certeza o fará e ainda contará a história do primeiro. Assim, enquanto você sumia com um cadáver eu recebi esta mensagem por duas vezes.

- O que fará de mim?

- Você encontrou, seguiu, ludibriou, roubou e matou um homem por um objetivo. Agiu exatamente como se espera de um mercenário. E é por isso que de livre e espontânea vontade, jamais chantageado, eu o contrato para partir comigo para o Egito.

Péricles curvou-se reverente e beijou as mãos do idolatrado militar. Este imediatamente pôs à prova a resistência física e a habilidade bélica do novo companheiro, que lhe agradou plenamente.

No decorrer dos treinamentos para a empreitada contra os persas Péricles esteve muito perto de Proteu, descobrindo que além de exímio guerreiro, imbatível e implacável, o general era temperamental e arrogante, frio e violento, incapaz de qualquer reação de culpa diante de atrocidades diversas. Dono de um cérebro quente e um coração gélido, sempre levaria vantagem em qualquer transação. O novato procurou seguir à risca não só o treinamento, como o estilo de vida do líder déspota e corruptível. Era precisamente por esses predicativos que o aprendiz admirava o general.
Numa cálida madrugada de verão, a comitiva partiu em esquadra numerosa pelo Mediterrâneo. Vencidas várias escaramuças marítimas com algumas perdas, eles pisaram as margens do delta do Nilo, onde um pequeno exército os aguardava. Haemon apressou-se em desmontar para abraçar o irmão caçula, que aparentava ter o dobro de seu tamanho, e juntos foram para Tebas.

Hakor já havia preparado alojamento para a legião, exigindo apenas ver o general e seu grupo de confiança. Proteu requisitou para seu lado um soldado de nome Lucca e outro chamado Zarek; depois lançou um olhar para Péricles, que o mirava contemplativo.

- Péricles, venha comigo você também.

A caminho do palácio os gregos foram conhecendo um pouco da cidade dos faraós. Os templos e tumbas mais belos construídos na época estavam diante deles. Nem o maravilhoso templo da deusa Atenas nem toda a acrópole da capital grega possuíam a deslumbrante arquitetura egípcia.

De repente Haemon, que liderava a pequena comitiva, parou bruscamente o animal que montava, fazendo os demais o imitarem. Um impressionante número de pombos atravessava a viela em completa algazarra, ensaiando voos curtos em todas as direções, e uma desorientada mulher tentava a proeza de recuperar as aves que se espalhavam feito pó.

- Francamente, Kyia! Como é capaz de fazer tudo errado? Deve ser até difícil errar tanto... Acho que nem de propósito alguém conseguiría. Você quase nunca trabalha, e quando o faz é com essa balbúrdia!

- Acha que eu quis soltar essas malditas aves? Poupe-me, mestre! Estou suando em bicas e não recuperei sequer a metade dessa praga.

Ao erguer o olhar, este se cruzou com os olhos negros e brilhantes de Proteu, que a miravam fixamente.

Então estava ali o general grego que vinha a mando do próprio Ra? Quem sabe faria o que seu irmão e o marido dela negavam com veemência? Poderia Proteu de Mileto aproximá-la do palácio do faraó?

Ele, por sua vez, admirou-se com o lindo cabelo natural, o primeiro que havia visto desde que pisara o solo egípcio. Pareceu-lhe uma criatura desorientada e frágil, ao mesmo tempo em que uma sensação de misterioso perigo rondava seus olhos frios. Desejou distância da mulher

que se lhe afigurava qual águia: imponente e bela, envolvente e admirável, porém apenas mais uma ave de rapina. A despeito disso, meteu a mão em seu bornal e atirou um punhado de grãos de trigo, o que fez as aves se juntarem, facilitando a captura.

Kyia pensou em agradecer ao estrangeiro, que não lhe deu a oportunidade; colocou o animal em marcha, dando-lhe as costas. Ela continuou a observar o pequeno séquito até se perder de vista.

Capítulo 4

A recepção do todo-poderoso nada deixou a desejar às fantasias do novo soldado mercenário: perfumes, cervejas, comidas e belíssimas dançarinas.

Proteu se curvou reverente.

- Soberano Ra, aqui estou com meus soldados para servi-lo. Sinto-me muito honrado pelo seu convite tão amável.

Hakor torceu o lábio em uma demonstração de enfado. Sabia o cuanto mentia o ex-militar de Atenas. Conhecia a vileza de Proteu através dos olhos de Haemon, criatura verdadeira até a indiscrição.

- Não preciso de reverência, já que nem é meu súdito. Quero apenas que defenda o Egito do ataque iminente dos persas. Pode tranquilizar-me quanto a isso, ainda que a peso de ouro?

- Nem um único persa pisará em solo egípcio enquanto me mantiver por aqui, com os meus soldados, a este preço.

- Onde estão os superiores? Só me apresentou três soldados.

- Meu exército é formado por um general - eu - e milhares de soldados. Dividir o poder desperta a ganância.

- Bem pensado! Por isso sou absoluto em todo o Egito. Agora me ouça, Proteu de Mileto: como seu nome é demasiadamente grego para quem defenderá o Egito, acho que deveria por este tempo adotar um nome mais patriota.

- Meu nome refere-se à minha qualidade de semideus, implacável, inexorável, invulnerável, e é algo que meus comandados veneram.

- Posso concordar em conservar seu prenome, usando o de procedência de uma cidade egípcia.
- Desde que seja uma cidade com inicial M, pois tenho as letras P e M talhadas em todo o meu arsenal.

- Vejamos... Proteu de Mênfis? Que tal?

- Hmm... Mênfis! Eu gosto. Enquanto estiver aqui, serei Proteu de Mênfis.

O soberano bateu palmas e as dançarinas começaram seu número luxuriante para os convidados, que se sentaram no chão, defronte ao trono.

A princípio as dançarinas ficaram amontoadas, como a esconder uma surpresa majestosa, e sincronizadas se afastaram para destacar ao centro uma mulher de rosto velado, cabeleira negra até a cintura -quando os egípcios em geral raspavam os cabelos devido aos piolhos abundantes no local - e dona de plástica perfeita que deixou boquiaberta a platéia de gregos.

Ao som de harpas, tamborins, címbalos e sinos, Nefertari dançava e produzia movimentos impraticáveis para a maioria dos vertebrados. Finda a dança, jogou-se de costas, passando a metade superior do corpo sob as próprias pernas, e encarou o público atônito. Apoiou o rosto nas palmas das mãos, pintadas com henna, e os cotovelos no chão. Os pés, igualmente tingidos com henna, ao ritmo da música batiam na testa, tocavam a ponta do nariz, e pararam ao lado dos cotovelos que sustentavam o corpo esguio. Encarando o general, ela piscou os olhos muito maquiados.

Proteu sentiu a raiva crescer no íntimo. Aquela dançarina não deveria estar ali a serviço de Hakor. Sentiu-se roubado, usurpado de um bem que possuía; podia jurar que Nefertari era de sua propriedade. Embora não se lembrasse do dia exato em que a comprara, ela era sua, disso tinha certeza. Talvez houvesse fugido do campo, ou sido vendida à sua revelia. Talvez, talvez... Não gostava dessa palavra; ia tirar o caso a limpo.

Sob aplausos, as dançarinas se retiraram e sumiram em meio ao labirinto de corredores estreitos e colunas gigantescas do palácio de Hakor, para em seguida entrarem os escravos com tabuleiros enormes repletos de iguarias. Todos se entretiveram com a comida saborosa e
:trta e nem perceberam quando uma mulher em túnica branca e jus-m até os pés surgiu no corredor e desapareceu de imediato pela porta frente. Com exceção de Proteu, que não tirou os olhos do ponto onde saíra sua “propriedade”. Levantou-se sem ser notado e tomou acuela direção. A moça aparecia pela construção desconhecida e confusa para ele; dava a impressão de fazer de propósito um jogo enigmático de esconde-esconde.

O grego não desistia, e cada aparição relâmpago da dançarina reforçava sua suspeita: “deve ter sido roubada, a pobrezinha!”. Do contrario aquilo não teria razão de ser. Em cada câmara que adentrava era como se ela se dissipasse feito gás quando estava prestes a alcançá-la. fada aparição da jovem era repleta de mistério e sedução: ora olhava rara seu seguidor e desaparecia como num passe de mágica; ora apenas uma ponta de suas vestes alvas era visível entre uma porta e outra; às vezes a longa cabeleira parecia flutuar em seu encalço. Proteu estava completamente aturdido, naquele entra-e-sai de câmaras úmidas e sinistras, onde hieróglifos desbotados passavam mensagens ininteligíveis. Entrou em mais de cinquenta repartições, até que em uma delas ouviu um choro silencioso.

- Quem é você? - perguntou a voz sufocada de uma mulher.

- Desculpe-me a intromissão. Sou Proteu de Mênfis, novo general do faraó. Estou perdido por aqui, parece o labirinto de Dédalo; não me assustaria se encontrasse um minotauro.

- É bem possível que encontre. Não estava seguindo minha irmã Nefertari? Acredite, ela é um monstro tal qual.

- Não temo aberrações. Acaso não sabe que Astérion, o minotauro, morre pelas mãos de Teseu, um herói ateniense?

- Não se iluda, ateniense, não pode vencer este monstro.

- Por que faz tão mau juízo de sua irmã?

- É uma criatura vil, desprezível, abjeta, ladra, vergonhosamente corruptível, autora de vários assassinatos... Passaria o resto de minha vida falando de suas más tendências.

- É irmã dela?

- Gêmea. Meu nome é Netikerty.
Proteu fitou o rosto da mulher e notou expressiva semelhança. Contudo, Netikerty era bem menos bela, não usava maquiagem, tinha marcas no rosto, não se achava em plena forma física como a esguia irmã.

Ele estendeu a mão, que a moça não segurou.

- Por que chorava?

- Eu não suporto mais ser humilhada. Nefertari vai me levar à loucura. Nunca houve um só pretendente que não tirasse de mim e com quem se casasse por um tempo curto. Já teve mais de dez maridos e se divorcia sempre para se casar com meu noivo. Da herança de nossos pais nem uma moeda me foi legada; ela negocia tudo e ainda diz que me sustenta por caridade.

- O Egito não devia dar tanta autonomia às mulheres.

- Chego a concordar com sua opinião. Se Nefertari fosse contida por uma sociedade machista, talvez não me perseguisse tanto.

- Eu lamento de verdade a sua situação, Netikerty. Se houver algo que possa fazer para ajudar...

- Quem sabe, Teseu, um dia você mate o minotauro?

- Se você segurar o barbante para que eu não me perca no labirinto...

- Eu o segurarei com muito gosto. Ganhe a batalha contra os persas e poderá pedir o que quiser ao faraó.

- E sugere que eu peça sua liberdade? Seria assim a morte do minotauro?

- Não, nada tenho a fazer com uma liberdade tão tardia. Tudo que quero é ficar livre de minha irmã. Olhe estas marcas em meu rosto! - apontou para fundas cicatrizes provocadas possivelmente por objeto cortante. - Foram feitas por Nefertari, numa época em que eu era mais bonita que ela, coisa que não suportou. Cada vez que vejo o reflexo de meu rosto, lembro-me dela e a odeio com força titânica.

- Então o que gostaria que eu pedisse ao faraó?

- Nefertari. Leve-a para o deserto e mate-a, ou a deixe morrer por lá.

- Vocês sempre estiveram em Tebas?

- Desde nosso nascimento.

- Nunca foram apartadas?

— Infelizmente, não.
- Não existe alguma chance de Nefertari ter morado na Grécia?

- Nem a menor chance.

- É que imaginei ser ela uma de minhas servas.

- Faz-me rir... Mais fácil você servir a ela. E indomável, apenas se curva para Ra, e Hakor, seu legítimo representante.

- Vou provar a você que venço o minotauro. Se eu ganhar a batalha ; ntra os persas e Hakor me conceder um desejo, pedirei sua irmã e ela será minha escrava por toda a vida.

- Estarei aqui para segurar o barbante para você. Conte comigo, Proteu de Mênfis.

- Gostei de você, Netikerty.

“E mais ainda da sua irmã monstro”, completou em pensamento.

- Também gostei de você. Acho que nos veremos outra vez.

- Eu não tenho dúvida.

Proteu voltou para o salão do trono e se uniu aos demais nas festan-cas do soberano até que chegou a quarta fase, da adoração de Ra. O gene-ral prestou culto ao deus do seu empregador e seguiu Haemon para casa.

Sentados no terraço, os irmãos que não se viam há mais de dez anos conversavam.

- Conte-me, irmão, o que tem feito por todos estes anos, além de rrigar com espartanos.

- Pois bem. Briguei com eles, perdi a briga e fiquei desempregado; : governo de Atenas está falido e não pode manter um exército. Foi cuando tive a ideia de montar o meu próprio contingente e prestar serviços a quem pode me pagar.

- Existem rumores de que você paga os salários de mercenários mortos às suas viúvas. Isso procede?

- Sim, pago mesmo.

- É uma conduta admirável. Tenho certeza de que está sendo pioneiro em um procedimento que se expandirá pelo mundo. É simplesmente futurista. Estou orgulhoso, parece que algo de muito bom desponta em você.

- Não quero decepcioná-lo, irmão, mas não tome minha atitude por benevolência. Essas viúvas me prestam muitos favores em troca.
Lavam a roupa de alguns milhares de homens e cozinham para eles, o que eu não teria outro jeito de fazer; cuidam da limpeza do campo de treinamento, das aves... E, além de tudo, nenhum homem de minha corporação se perde em brigas nos prostíbulos, se é que me entende.

- Oh, eu entendo! Dá algum dinheiro a essas mulheres, que são servas mal pagas e escravas sexuais de toda a corporação.

- Tirando essa ponta de ironia e censura barata, é isso mesmo.

- Meu irmão, quando aprenderá?

- Antes que comece a falar sobre paraíso perdido, em que não creio, diga uma coisa: conhece Netikerty, irmã da dançarina principal de Hakor?

- Fique longe dela! Por tudo que pode ser importante para você, mantenha distância.

- Por quê? Pareceu-me uma pobre mulher vítima da irmã arrogan-te e perversa.

- Eu sei o que falo. Estou tratando dela há anos, conheço muito bem sua natureza complexa. Garanto que só lhe trará aborrecimentos.

- Nem esperou eu dizer nada... Somente perguntei se a conhece.

- Normalmente essa pergunta vem ligada a algum interesse.

- E quanto à irmã, Nefertari?

- Proteu, por todos os deuses do Olimpo, mantenha distância das duas.

- Apenas responda: aquelas marcas no rosto de Netikerty foram feitas por Nefertari?

- Existe um sigilo entre médico e paciente que nem para os irmãos é revelado.Tudo que as duas me dizem são o mais absoluto segredo; não me pergunte nada a respeito.

- Está bem! Só quero que saiba que me interessei por Nefertari bem mais que por Netikerty. Afinal, tenho bom gosto... - gargalhou enquanto Haemon continuou sério.

- Um fenômeno comum no deserto é o que se chama de miragem. Isso se dá quando duas camadas de ar são aquecidas diversamente e se encontram sobre a mesma superfície. A reflexão da luz solar causa uma ilusão, a visão de uma imagem em posição invertida. Se essa superfície
estiver em posição da linha do horizonte e acima do nível dos olhos, roder-se-á jurar que se vê um lindo lago com objetos refletidos nas águas límpidas e frias. Ao se jogar no lago, entretanto, o viajante cai de cabeça em uma infinidade de areia escaldante.

- Que quer dizer exatamente?

- Nem tudo o que vemos é o que pensamos ver.

- Vamos dormir, irmão, estou quase a cair de cansaço.

Capítulo 5

Em prazo de poucos dias o exército de mercenários se dedicou ao treinamento. As medonhamente numerosas tropas persas eram uma ameaça cada vez mais próxima. Proteu adquirira confiança incondicional em seu novo aliado Péricles, que mandara como espião pelo Golfo Pérsico. As suspeitas do astuto general foram confirmadas com o regresso de seu enviado. Descobrira Péricles que o exército persa não chegaria pelo delta, como era de se esperar; ao invés disso, infiltraria poucos homens na região. Assim que atraíssem as defesas para o litoral do Mediterrâneo, o fabuloso exército entraria pelo sul, através do mar Vermelho, dominando o alto Egito e destruindo os templos de Ramsés. Quais lobos do deserto os mercenários gregos receberam os persas. O ataque parecia vir do nada, já que uma das especialidades deles era emergir de esconderijos insuspeitáveis e dizimar o adversário sem serem vistos. Daí a lenda em torno do general.

Foram cento e vinte dias de lutas ferrenhas, ao fim dos quais os persas se evadiram pelo mar Vermelho prometendo voltar para a desforra. O exército grego do faraó retornava a Tebas vitorioso, tendo sofrido poucas baixas humanas e de arsenal bélico.

Uma noite antes de entrarem os mercenários em Tebas, outra figura grega o faria. Kyia, que andava pelas ruelas apressada envolta em manto, tornou-se apreensiva ao ver o homem que permanecia parado, aparentemente sem objetivo, no local exato em que deveria passar para chegar a seu destino: o encontro com um sacerdote que jurava ser um oráculo sagrado, inclusive com margem de erro aceitável para a aventureira jovem.

Já armada de grande osso de camelo sob o manto, não esperou ser itacada; ao passar perto da figura misteriosa, deitou-lhe uma ossada na altura da clavícula. Um grito feminino encheu a noite de Tebas, em choro de dor.

- Quem é você que se veste como os homens para assustar mu-Lheres na rua? - tinha o osso suspenso acima da cabeça, pronto para desferir outro golpe.

Ainda com caretas de dor, a estranha respondeu pausadamente:

- Não é essa minha intenção; ao contrário, vesti-me deste jeito para me proteger deles. Sou Dimitrula de Atenas. Vim no encalço de meu marido que luta pelo Egito ao lado de Proteu de Mileto. Ajude-me a encontrá-lo!

Kyia estava atônita diante da mulher caída ao chão. Mais alguém rara levá-la ao palácio de Hakor! Era lá que queria morar, era lá que moraria; as possibilidades choviam: Kenefer, Sobeknefru, e agora Proteu. O oráculo havia afirmado que seria a rainha do Egito; era seu destino, ele garantira.

- O exército de Proteu está em luta no sul; segundo mensageiros, leva vantagem. No momento não poderá encontrar-se com seu marido.

- Por Afrodite! O que farei até que ele volte?

- Estou indo ver Sobeknefru, o grande oráculo e sacerdote. Talvez ele possa abrigá-la no templo por uns dias. Venha comigo!

Tula sentiu dores no ombro ao se levantar. Kyia, desculpando-se, ofereceu-lhe a mão. Seguiram através da noite quase fechada para o palacete transformado em templo de Sobeknefru. Na entrada o desenho do sol, artifício para enganar o faraó, que havia proibido culto a qualquer deus que não Ra.

Com o mesmo osso que usara em Tula, ela bateu na porta pesada antes de empurrá-la e penetrar num corredor totalmente às escuras.

- Está certa de que isto é um templo? - perguntou à grega, segurando o manto da outra para se orientar na escuridão.

- Claro! Não se perca de mim. Venho aqui sempre; sou chegada ao sacerdote, que por sua vez tem razoável prestígio com o faraó. E será o sacerdote do palácio quando achar o que procura: o elixir da eterna
uventude. Está quase conseguindo, é questão de pouco tempo. Aí o faraó se curvará ante a possibilidade de ser belo e jovem para sempre; fará Sobeknefru seu primeiro homem, e eu estarei lá com ele.

- Crê realmente que alguém pode obter isso?

- Sobeknefru pode. Acredite, ele fez um composto de henna que devolveu o viço aos meus cabelos; pode muito bem fazer o mesmo com a pele, os ossos e tudo o mais.

- É, faz sentido. Será que salva meus cabelos também? Olhe só como estão depois desta viagem maluca!

- Pediremos a ele.

O mago se movia em meio a mil recipientes quando as duas mulheres entraram. Sorriu para Kyia, que lhe apresentou Tula e mencionou seu problema capilar, que por alguns gramas de ouro (a que denominavam kite) ele cuidou de resolver. Tula percebeu entre os dois uma intimidade que parecia antiga.

- Vocês se conhecem há muito?

- Há alguns anos, desde que cheguei de Mênfis. Sobeknefru foi meu primeiro amigo... Não foi?

- Isso mesmo. Agora, se me dão licença, preciso me trocar. Podem aguardar no altar.

O templo era uma colunata perfeita. O altar, com a imagem do disco solar, girava ao toque do sacerdote e aparecia a estátua de Sechat, a deusa da astronomia, ciência e escrita. Sobeknefru entrou junto com o novo padroeiro do templo, em um efeito cinematográfico que simplesmente encantava as pessoas da época. A túnica tinha mangas tão amplas que ao elevar os braços em adoração ao deus de sua preferência tocavam o chão. Depois de falar em dialeto desconhecido inclusive para ele próprio, o sacerdote tinha até os traços físicos alterados; o rosto parecia de outra pessoa.

- Mortais, o que esperam de mim? - berrou com voz cavernosa o espírito que ele incorporava e se intitulava Sechat.

Tratava-se na verdade de um espírito zombeteiro e malicioso, pseudo-sábio que se divertia brincando com gente crédula, ainda ignorante de que espíritos evoluídos não se prestam ao papel de adivinho para perguntas friteis ou mesmo de cunho pessoal.
Diga-nos, magnífica Sechat: o que nos aguarda pelos próximos dias?

- Por que se preocupa com o futuro, tola moçoila? Então já não lhe disse que o trono do Egito pertencerá a você?

- Sim, grande deusa, porém acrescentou que há de vir aquele que ~e erguerá até ele, e ainda não me apareceu ninguém com essa pos-sibilidade. Pensei se tratar de Kenefer, mas meu pobre marido nem a

mesmo eleva. Haemon tem desprezo por mim... Não conheço mais ninguém com relações no palácio.

Nesse instante o espírito malévolo leu as formas-pensamento no .; rpo espiritual de Kyia, e falou:

- Vejo pombos, muitos pombos.

- Sim?

Observando ainda mais, viu a figura de Haemon.

- Haemon de Mileto! Eu o vejo com nitidez.

O episódio da fuga das pombas voltou à memória da desavisada mulher, que não sabia estar fornecendo material para ser enganada.

- Proteu de Mileto! É esse o nome? Pareço me confundir.

- Sim, maravilhosa! Um mercenário grego com esse nome acaba de chegar a Tebas.

- Sim, veio para lutar pelo faraó. E a elevará até ele. Estava escrito, ; )mo lhe disse.

- Tem certeza?

- Sim, vencerá a batalha contra os persas - era apenas um palpite com boa margem de acerto- e o faraó lhe concederá um desejo. Aja de modo a que ele a beneficie com esse pedido. Aí está seu caminho para : trono: aproxime-se de Proteu.

- E quanto a mim, grande deusa? - indagou Tula. - Serei vencedora em meu intento?

Usando do mesmo artificio anterior, disse à moça:

- Veio em busca de Péricles de Mileto, de enriquecimento rápido : u de prazeres do mundo?

- Como sabe de tanta coisa?
-Tolos mortais! Acha que pode esconder algo de um deus? Digo-lhe que sim, terá êxito em seu intuito... De maneira diferente, mas terá.

Esse era seu chute certeiro. Em qualquer coisa que acontecesse se encontraria um lado bom para ser o êxito.

Tão logo voltou do transe, Sobeknefru recebeu seu pagamento pelas consultas e declarou estar muito cansado. Por mais alguns chats6 aceitou hospedar Tula, desde que Kyia se comprometesse com a alimentação da grega. Ela aceitou e, assim, Tula aguardou os guerreiros com a promessa de pagar aos “benfeitores” conforme exigiam: para ele, prata e ouro e a condição de cobaia em alguns experimentos enquanto se hospedasse por lá; Kyia exigiu ser levada até Proteu através do marido de Tula. Negócios fechados, todos foram descansar.

Os dias seguiram céleres. Os guerreiros chegaram a Tebas com a notícia de que aquilo era somente uma trégua, visto que os persas haviam prometido retaliação. Dessa maneira, os mercenários entraram em fase de treinamentos intensos e diuturnos, o que complicava o pagamento da dívida de Tula com Kyia, deixando desgostosa a desorientada mulher. Kenefer tudo fazia para agradar a jovem e ingrata esposa, que nem da filha tomava conhecimento.

Afra, com sua meiguice natural, tentava acalmar e distrair Kyia. Certa noite contou-lhe a história de José do Egito7, mostrando a ela como Deus opera em todos os acontecimentos, mesmo que nos pareçam escabrosos e injustos.

- Não tenho a paciência de seu povo, Afra, a sua paciência! É uma pessoa boa, e eu gosto de você, acredite! Só não posso crer nesse deus moroso.

- Tudo tem seu tempo e seu propósito. Procure aceitar o que não se pode mudar. Os reis e rainhas pertencem a dinastias; ninguém se torna rei sem mais nem menos.

6 Um deben equivalia a mais ou menos 91 gramas, que podiam ser de ouro ou prata; o kite correspondia a 1/10 do deben e o chats a 1/12.
7 Antigo Testamento, livro de Genesis, cap. 37 a 50.
- Apesar de os tronos serem herdados na maioria das vezes, exis-aqueles que são tomados por golpes planejados pelos exércitos.

- Acredita mesmo que esse tal Proteu de Mileto, que agora se cha-- i de Mênfis, vai usurpar o trono do Egito em seu favor?

- Foi o que me disse o oráculo.

- Sobeknefru é um charlatão, um pobre diabo enganador de pes-soas ingênuas.

- Ele diz coisas que não tem como saber; deve consultar o Livro sos Mortos.

- Isso não pode ser. Moisés proibiu evocar os mortos.

- Se proibiu é porque eles podem se comunicar.

- Menina estúpida, é claro que eles podem; caso contrário a proi-: ição não teria razão de ser. É que ainda não temos discernimento para -iber o que evocar e podemos nos envolver com os maus; foi isso que Moisés quis evitar. É exatamente o que acontece com você e a desavinda grega a que se associou; estão sendo joguete de espíritos das trevas e não percebem.

- Afra, você não entende. Eu sei o que sinto.

- Que Deus a proteja Kyia; vai precisar muito.

Enquanto Kyia aguardava uma brecha na agenda dos ocupados s ddados, Nerfertari recebia a visita do objeto de suas ambições.

- Posso saber a que devo sua visita?

- Vim porque tenho a nítida impressão de que é minha.

Ela soltou sonora gargalhada.

- Quantos homens acha que pensam de igual forma, Proteu de Mênfis?

- Eu disse que a considero minha propriedade, e não como entendeu.

Outra gargalhada, mais longa.

- Nunca pertenci a ninguém além do próprio Ra. Nasci em Tebas e fui criada dentro do palácio. Como pode um grego ter sido meu dono? Você é pretensioso e repulsivo.
Pelo menos tenho o apreço de meu irmão. E quanto a você, que nem seu próprio sangue lhe quer bem?

- Eu não acredito! - falou mais para si que para ele. - Mal chegou aqui e já vem com essa história. Fique claro de uma vez: eu não tenho nenhuma irmã. Nem gêmea, nem mais velha, nem caçula. Pela graça de Ra sou filha única.

- Pode até fingir que Netikerty não existe, pode sentir como se assim fosse, mas isso não a faz deixar de existir e ser sua vítima em potencial.

- Pobrezinha! O que ela reclamou a você, guerreiro? O que tirei dela desta vez?

- Sei lá quantos maridos, a herança de seus pais, acho.

- E quanto à beleza, estraguei também?

- Sim, cortou seu rosto. Diabos! Você sabe o que fez.

- Escute, guerreiro grego: nada tenho a explicar a você. Vá até o grande Hakor e fale de suas impressões a meu respeito.

- Não agora. Apenas quando vencer a guerra contra os persas.

- O que pensa fazer então?

- Nada tenho a explicar a você. Vou até o grande Hakor como me aconselhou.8 Quelônios ou testudines são nomes que agrupam todas as formas de tartarugas identificadas no mundo.

Saindo do palácio, o general subiu por um amontoado de blocos de pedra das obras da tumba do faraó e observava as águias em decolagens perfeitas, levando sua presa nas afiadas garras curvas e fortes. Se seu exército pudesse voar - pensava Proteu - não haveria adversário para ele. “Um exército com asas seria mais do que ícaro imaginaria. Visualizar e atacar o inimigo do alto! O primeiro exército que voar conquistará o mundo.”

Nesse momento uma águia descuidada deixou cair seu jantar, um indefeso quelônio8, cuja carapaça atingiu-lhe a cabeça tal qual projétil atirado pelos deuses enfurecidos. Sem sentidos, o grego precipitou-se pelos blocos de pedra, sofrendo escoriações por todo o corpo, algumas

fraturas leves nas costelas e um inchaço enorme na cabeça; pela parte externa era apenas um espantoso galo, mas internamente pressionava suas córneas, o que lhe causaria cegueira temporária.

Proteu se sentia caindo em um vácuo infinito, até se perder de si próprio e se tornar um vácuo também. Ao chegar ao chão sangrava por todos os poros e sua aparência era de gravidade bem maior que a real. Entretanto, se não fosse socorrido deixaria ali mesmo o corpo físico.

Acontece que uma alma bondosa quase sempre se manifesta nos oiores momentos. É a ação material de Deus sobre nós.

Afra, tomada de imensurável compaixão, abaixou-se até o rapaz acidentado e o tocou. Certificando-se de que estava com vida, usou a água fresca do seu cântaro para limpar-lhe as feridas e molhar-lhe os lábios. O soldado continuava inconsciente. Afra chamou Nany, que a auxiliava no campo, e mandou-a buscar Kenefer. Ao olhar para o general ferido, desconcertado, cientificou à esposa e à filha tratar-se de Proteu de Mênfis, : general mercenário vindo de terras gregas para defender o Egito - que para pagá-lo pelo serviço prestado faria algo inédito: cunharia as primeiras moedas com o rosto do faraó em uma face e o do deus Proteu na outra.

- É o irmão consanguíneo de meu mestre e patrão Haemon. Vamos levá-lo até ele que, pelo adiantado da tarde, já deve estar pensando onde estará o irmão.

- Não! Por todos os deuses, não me levem até Haemon, não me levem para perto de meus soldados.

- Senhor, o que está a pedir-nos?

- Que me deixem longe de toda a minha tropa, de meu irmão e do taraó. Que me deixem morrer aqui, eu imploro.

- Que pedido mais disparatado nos faz! Por que age assim? Atentou contra a própria vida?

- Meus homens me adoram, servem, respeitam e obedecem cegamente, incondicionalmente. E isso se dá porque acreditam na minha invulnerabilidade, na minha condição de semideus. Eles não podem ver-me assim ferido e... - parou de repente, para recomeçar em desespero. - Eu estou cego! Isto é um pesadelo, só pode ser um sonho mau. Estou cego, completamente cego! Não!
- Acalme-se! Já tratei dessas cegueiras decorrentes de um trauma na cabeça, e na maioria são reversíveis.

- Ajude-me!

- Eu o farei, com a condição de que avise seu irmão de sua situação. Haemon é rígido, mas de coração amoroso. Sua falta vai causar--lhe aflição.

- Escreva uma mensagem a ele, informando que estarei fora por alguns dias, e lacre com meu anel. Diga também a Péricles que leve os homens a se exercitar todos os dias e que, na iminência de um ataque persa, lute como se eu estivesse presente. Depois me conduza para sua casa e cure meus olhos e ferimentos. Será regiamente recompensado.

- Assim está melhor, faremos isso.

- Juram pelo seu deus que não me delatarão?

- Nunca juramos - interveio Afra. - O senhor nosso Deus, bendito seja o seu nome, é o deus da verdade. Não é não e sim é sim. Não tomamos seu santo nome em vãs situações. Se dissemos que o ajudaremos é porque o faremos em todas as suas necessidades. E a sua necessidade agora, ainda mais urgente que o tratamento de suas feridas, é a de manter viva em torno de sua pessoa a lenda de homem deificado, invulnerável, inatacável e invencível.

- Esteja tranquilo, Proteu de Mênfis - aduziu Kenefer. - Nada procederá de minha boca ou de minhas esposas e filhas.

- Eu lhe pagarei muito bem; será o primeiro egípcio a possuir moedas.

- Estou fazendo o que manda minha consciência, não me preocupo com suas moedas. Vivi sem elas até aqui.

O grego foi instalado em pequeno cubículo nos fundos da casa, que usavam como despensa. Uma esteira, à guisa de cama, ocupava todo o comprimento do diminuto aposento, e às margens do leito poucos centímetros sobravam para serem depositadas uma refeição e uma caneca com água.

Na hora da ceia Kenefer reuniu a família para as explicações dos procedimentos futuros, no período que o hóspede permanecesse em sua casa. Kyia, que passara a tarde toda às voltas com Tula.

nova comparsa, e Sobeknefru com suas mirabolantes “profecias” Aspendiosas, estava alheia a tudo e ficava estupefata a cada palavra co marido. Mais pasmada se mostrara a moça ao ouvir que caberia i ela - já que não trabalhava nas plantações ou em qualquer outro local - oferecer ao grego as refeições, auxiliá-lo enquanto cego nas necessidades básicas, e tratar seus ferimentos com as pomadas e medicamentos prescritos minuciosamente pelo marido. A ordem estendia-se à proibição de se associar a Sobeknefru, bem como acreditar em suas predições a respeito do trono do Egito e principalmente acerca do hóspede.

- Kenefer! Eu não posso acreditar no que me diz. Proteu de Mileto aqui? - apontou para a porta tosca.

- Espero não ter de me indispor com você por este motivo. Obedeça-me à risca ou juro que voltará para Mênfis sem Nyla e sem um deben de areia sequer.

- Eu prometo que me comportarei, esteja em paz.

- E que sua nova amiga nem em sonho desconfie de que Proteu se encontra aqui, já que é esposa de seu braço direito.

- Nada direi a Tula, a não ser que me proibiu de sair por um tempo.

- Durmamos em paz. Estamos exaustos e amanhã começamos antes de Ra chegar.

Kyia demorou a conciliar o sono. Tinha plena certeza de que iria burlar as ordens do marido e negociar com o guerreiro. Ele queria ser deus? Que fosse! Ela queria ser apenas rainha. Seria uma troca muito :usta. Assim que a guerra contra os persas fosse ganha, Proteu pediria ao faraó o que quisesse, o que ela quisesse.

“Eu quero me casar com Neferites II; depois é só esperar que ele morra calma e precocemente. E Kenefer ainda não acredita em seu amigo Sobeknefru!”

A madrugada ia alta e ela, insone, viu quando um vulto entrou em seu quarto. Sentiu o corpo gelar de pavor. O homem, alto e forte, sem cuidado sentou-se em seu leito. Não ouviu barulho, nem notou movimento da cama; o grande homem parecia desprovido de peso.

- Quem é você?
Desconhece-me agora? Esqueceu-se de quantos prejuízos me deu em uma sociedade onde só você saía ganhando? Mentirosa!

- Não sei do que fala, Proteu de Mileto, porém mais mente você ao se fingir de cego para enganar minha família. O que pretende aqui?

- Não venho para brigar com você, visto que já desisti de cobrar o que me deve. Tenho muito mais que você. Realmente, estou cego e precisando da caridade alheia para me manter incógnito.

- Vou ajudá-lo, já foi designada a mim esta parte. Mas percebo que não está ferido ou cego; faz exatamente como fiz para entrar na vida de Kenefer. Embora não possa censurá-lo, já que agi igual, aposto que não pretende se casar com meu marido... O que quer, afinal?

- Na verdade eu não sei, mas acho que está funcionando.

- O que está funcionando?

- Eu estou aqui.

- E eu tenho uma proposta para você.

- Suas propostas são sempre desastrosas; não sei se quero ouvir.

Nesse momento Haemon entrou no quarto e envolveu o irmão

com o braço direito. Fitou Kyia e disse aos dois com brandura:

- Mais uma vez forças superiores se unem em prol da redenção de almas em desatino, de corações confundidos e iludidos com situações transitórias. Aproveitem a bênção da dor neste crisol escaldante do planeta, onde altas temperaturas elevarão os sentimentos em direção à sublima-ção. Não percam esta nova oportunidade de regeneração, soerguendo-se das quedas seculares rumo a um futuro promissor, para que quando os exércitos puderem voar estejam vocês pregando a paz no mundo.

Tocando a fronte de Kyia, Haemon a fez dormir profundamente.

Capítulo 6

Bateu levemente com os nós dos dedos na porta do aposento improvisado e abriu-a. Quase caiu de susto. O jovem sobre o leito nem de longe lembrava aquele arrogante que estivera em seu quarto na noite interior. O rosto inteiramente deformado por coágulos, hematomas e arranhões profundos não era sequer uma pálida expressão da beleza prega que visualizara enquanto apanhava os pombos. Os cabelos ensopados de sangue ressecado exalavam odor insuportável e pareciam hirtos como gravetos. O lábio inferior quase alcançava o nariz inchado e sangrento. A testa tomada pela protuberância gigantesca, de tão disforme, parecia pertencer a uma espécie imprópria ao planeta.

Silenciosa, a moça fechou a porta e correu ao encontro do marido. Precisava saber o que acontecera no seu quarto. Tinha certeza absoluta de sue não dormia quando viu entrar o guerreiro, e pouco depois o irmão, a dar conselhos sem sentido aos dois desconhecidos. Ele não tinha aquelas lacerações enormes, não tinha uma única ferida. Como era possível?

Kenefer, que trabalhava com afinco na tumba de Hakor, foi receber a esposa desgostoso pela interrupção.

- Diga, por Ra, quando achou ferido o...

Nesse momento a mão dele segurou a boca da esposa com força.

- Não pronuncie esse nome em voz alta nem em seu sonho mais íntimo.
Desculpe, vou me controlar. Quando foi?

- Antes do terceiro culto a Ra.

- Dá-me sua palavra de que quando eu fui para a cama ele já se encontrava ferido?

- Claro, Kyia. Por qual outro motivo ele estaria lá?

- Sim, tem lógica. Então, como pode?

- Por favor, minha querida, estou trabalhando; não posso parar para dar atenção a perguntas tão sem sentido. Procure entender e volte para a missão que lhe destinei.

- Não se trata de coisas bobas, querido. Eu vi Proteu de Mênfis em meu quarto, sem nenhuma chaga e enxergando perfeitamente, acompanhado de Haemon. E antes que diga o contrário, eu estava acordada, muito acordada. Juro por todos os deuses egípcios, gregos, romanos e persas, e até pelo autoritário deus do povo de Afra. Eu estava em vigília.

- Conte-me em minúcias o que sucedeu.

A jovem detalhou sua experiência ao marido atento.

- Ele está vivo? - Kenefer cochichou.

— Sim.

- Está certa disso?

- Ainda há pouco estive olhando para ele e vi seu ventre subir e baixar com a respiração.

- Por todos esses deuses a que se referiu, eu não posso explicar, mas procurarei por Haemon. Ele saberá dizer se isso é possível ou se você sonhou, apesar de crer que estava acordada.

- Vou com você.

— Não se esqueça de omitir o nome da pessoa em questão.

— Tomarei esse cuidado.

Kenefer entrou na casa simples e confortável do sábio, deixando-a a espera do lado de fora. Depois de explicar o que se passara com Kyia, reapareceu na soleira e fez sinal para que a segunda esposa entrasse e despediu-se dela, retornando ao trabalho na tumba.

Desconfiada, a moça pisava de leve no chão de pedra dourada.

- Bom dia, Haemon! Obrigada por me receber.

- Onde está meu irmão?
De quem está falando?

- De Proteu, meu irmão. Onde está ele? Está realmente ferido?

Kvia ficou olhando para o mestre sem saber o que dizer.

- Escute aqui, mocinha: Kenefer me contou que você jura ter visto

- ? mem em seu quarto, à noite, e falado com ele; e que eu estava junto.

- Sim.

- Disse que o homem em questão tinha aspecto normal, quando : -manhã o encontrara gravemente acidentado. E ainda me garantiu ;- _ ; : acidente ocorrera antes de você se avistar com essa pessoa.

— Sim.

- Então! Onde está meu irmão acidentado?

Ao silêncio da jovem, ele continuou:

- Lembro-me perfeitamente que estive em seu quarto no afã de .. nselhá-la, bem como a Proteu, e também guardo dele a imagem sem ma.m.as. Uma vez que Kenefer me informa sobre esse acidente, sinto-- -c preocupado.

- Estou cada vez mais confusa. Conte-me o que aconteceu comigo : : j o levo até seu irmão.

- Pois bem. As forças do destino não juntam pessoas ao acaso, f ti: que posso perceber, nós nos conhecemos de outras eras e juntos já

_mos muito. Essa mesma força levou Proteu ao seu quarto enquanto usava, e isso vale igualmente para mim.

- Como um fantasma sem corpo?

- Exatamente. Já viu um fantasma?

- Sim, muitos.

- E o que lhe pareceu?

- Eram como antes de morrer.

- Possuímos um corpo semelhante a este - tocou o peito - que orevive a ele.

- Que usamos para viver no paraíso?

— De certa forma. Esse outro corpo se separa deste não apenas com i morte, embora nessa ocasião a separação seja definitiva. Ele também sc solta em estados de torpor causados por sono, dor, certas ervas e be-: idas em excesso; em tais estados possui certa liberdade de ação. Proteu,

ao se serenar no sono ou mesmo na dor, viu-se liberto e andando pela sua casa a encontrou. Sem o corpo que amortece as lembranças do espírito, reconheceu-a de outras eras. E o resto você já sabe.

- Esse segundo corpo é invulnerável, posto que se achava intacto de escoriações?

- Oh, não! Ele é bem impressionável e comumente recebe todas as ações praticadas no corpo grosseiro. No caso, será questão de tempo. O fato de meu irmão se acreditar inatingível mantém a aparência saudável do corpo sutil; entretanto, dia após dia de sofrimentos, até a convalescença, inapelavelmente terminará por igualar seus corpos.

- Como saber o que fizemos antes?

— Não há como saber com precisão. Contudo, observando o nosso comportamento atual, não é tão difícil avaliar o que já fizemos.

- Olhe, Haemon, eu tenho muito que fazer para me preocupar com o que já fiz. Se já fiz, isso é irremediável.

- Nunca pensei que ouviría algo sábio vindo de você.

- Foi um elogio ou uma ofensa?

- Tome como quiser. Leve-me ao meu irmão.

- Ele ficará bravo com Kenefer, que prometeu não revelar a ninguém sua situação degradante. Ele está cego.

- Tanto melhor. Assim não saberá que estou por perto.

- Está bem. Vamos até minha casa.

A casa, com exceção da presença de Proteu, estava vazia. Kyia entrou devagar e apontou a porta rústica atrás da qual se encontrava o deus ferido. Silenciosamente o irmão entrou. O quadro era desolador. Sobre a esteira pobre e desconfortável estava o gigante tombado: a força reduzida à dependência, a arrogância à carência, o sarcasmo à dor.

- Proteu, irmão! Volte à condição de homem, mortal, vulnerável e filho da grande força criadora do universo.

- Haemon, não queria que me visse deste jeito, derrotado, humilhado e vencido por uma ave estúpida. Vou matar Kenefer.

- Acredita que por isso deixará de ter um irmão? Logo na hora em que mais necessita dele? Deuses não necessitam de amparo, isso é para humanos. Vim cuidar de você. Não foi Kenefer quem me revelou seu ? iradeiro; foi o amor fraterno que nos une.

- Meus soldados...

- Eles nada saberão, se esse é o seu desejo. Permanecerá aqui t instruirei a esposa de Kenefer quanto ao modo de cuidar de você. Anroveite este tempo para elevar-se verdadeiramente como imortal que e assim somos todos, em nossa condição de temporariamente mortais.

- Haemon, não suporto estar cego. Cure meus olhos.

- Farei tudo o que estiver ao meu alcance. Enquanto isso, aproveite : ara enxergar dentro de si mesmo. Conhecer-se é a maior batalha que ar demos travar e ganhar contra nosso maior inimigo.

- Obrigado, irmão. E eu que pensei em me esconder de você... Achei que me admiraria menos se me visse tão fragilizado.

- Aprenda uma coisa para sempre, Proteu: quando alguém o ama de verdade e o vê em situação degradante, o amor é multiplicado, pois se alia à compaixão e ao desejo de reverter o quadro. Ninguém precisa ser o que não é para ser amado; o que precisamos é justamente ser amados de maneira como somos.

Sem saber exatamente onde estava o irmão, Proteu o procurou tateando na direção de onde vinha a voz, e encontrou o primeiro abraço de sua vida. Não o primeiro gesto, mas o primeiro sentimento contido que recebia realmente.

Sentiu a energia que emanava do irmão a invadir seu próprio ser, : rChando uma sensação de bem-estar e segurança.

- Fique em paz, irmão! Virei vê-lo sempre que possível. O dono 21 casa é meu discípulo querido e sábio; ainda assim, deixarei tudo por t-scrito. Fique bom depressa, os persas não desistiram do Egito.

- Eu os expulsarei daqui pessoalmente, pode escrever nas paredes i- nimba de Hakor.

Logo que Haemon deixou a casa, com uma série de recomenda-cõcs, Kyia entrou no pequeno aposento.

Proteu dormia, visivelmente serenado pelas energias repassais pelo irmão. A jovem esposa de Kenefer aproximou-se silenciosa e entou-se de pernas dobradas no pequeno espaço que sobrava ao ladc da esteira.

Sentiu profunda compaixão pelo esfacelado rapaz. Seu rosto todc ferido escondia a beleza e a imponência antes evidentes; o cheiro nauseabundo vindo dos cabelos sujos de sangue era deprimente. Foi até a cozinha, tomou um cântaro com água e delicadamente começou a limpar as feridas medonhas do rosto do grego. Ele acordou, porém manteve < olhos fechados. Da forma que as condições da época e o local permitiam, Kyia lavou-lhe os cabelos e penteou-os com um pente feito de osso. Lavou-lhe o corpo e aplicou os unguentos deixados por Haemom Derramou água em sua boca e vestiu o hóspede com um chanti9 limp pertencente ao marido, deixando nu o tronco ralado.

- Quem é você que me trata com mãos de Asclépio10?

- Sou Kyia, segunda esposa de Kenefer, e procedo como mande seu irmão.

- Kyia! Tenho a impressão de que já nos conhecemos. Já ouvi ess nome.

- Provavelmente o ouviu dos lábios do seu irmão, na ocasião er que chegava à cidade e eu perturbava sua passagem com meus pombe

- Pombos... Agora me lembro. Tinha cabelos naturais e exagera damente negros.

- Tenho.

- Ao vê-la, nem em sonho podería imaginar que possuía mãos tã suaves e bondosas. Obrigado, Kyia, sinto muito alívio graças às suas mãe

- Sinto desapontá-lo, Proteu de Mileto. Posso ter mãos suave mas longe estão de ser bondosas. Cuido de você por ordem de meu marido, não por compaixão. E quero que saiba que tanto isto como meu silêncio a respeito de sua situação desvantajosa terão um preço. E se nã estiver disposto a pagá-lo não haverá uma só pessoa às margens do Nil que não saiba que o deus esteve à beira da morte.
Qual seu preço?

- Quero que, se vencer a guerra contra os persas, peça ao faraó que ~e aceite como esposa de seu filho Neferites II.

- Já me pediram essa intercessão junto ao faraó. Netikerty queria ; _e eu exigisse de Hakor me desse a dançarina Nefertari, a quem leva-ria para Atenas, livrando-a assim de uma irmã tirana e má.

- Por acaso Netikerty conhece sua situação?

- Não.

- Pense bem a quem atenderá, e o que terá a perder em ambos os casos.

- Não empenhei minha palavra a Netikerty. Ainda.

- Sorte a sua, pois dizem que você costuma cumprir a palavra dada... Pelo menos isso.

- Alguma virtude sempre se há de ter. Todavia, não é bem assim; mantenho minha palavra enquanto me é vantajoso.

- E como poderei confiar em você?

- Não poderá - riu com dificuldade devido aos ferimentos. - Agora está em visível vantagem contra mim. Este é o melhor, talvez único, momento de confiar em Proteu de Mileto ou Mênfis.

- Exigirá do faraó meu casamento com o herdeiro?

- E tenho escolha?

- Então fique tranquilo. Cuidarei de você como seu irmão sugeriu e meu marido mandou, e guardarei seu segredo comigo até a tumba. O

ráculo acertou novamente. Você, Proteu de Mileto, me elevará à posição de rainha do Egito. Mesmo sendo um grego.

Os dias subsequentes foram para Kyia de total dedicação ao hós-r ede ferido. Cumpria à risca as recomendações de Haemon e Kenefer, '.ão tendo sequer ido à procura de Sobeknefru. Este, sentindo falta das visitas da moça, enviou Tula com uma mensagem.

- Que bom vê-la, Tula! Desculpe-me a ausência aos nossos encontros com o oráculo; é que estou muito ocupada por estes dias.

- Sobeknefru quer vê-la; disse ter muitos recados dos mortos nara você.
— Eu também anseio por ver meu consultor e amigo, mas estou mesmo com um trabalho que me toma quase o dia inteiro e até um pedaço da noite. Não obstante, tratando-se de recados do outro mundo, vou ver o que posso fazer. Então me conte: encontrou seu marido após a guerra?

- Sim, porém continuo morando com Sobeknefru. Meu marido vive junto de muitos outros homens. Além do mais, o general desapareceu sem deixar sinal; apenas um recado: quer que Péricles se mantenha à frente do grupo como se fosse ele próprio. E sabe quem mais sumiu, o que está a causar desconfiança de Hakor contra Proteu, visto que o faraó associa os dois desaparecimentos?

- Quem?

— Nefertari, a dançarina favorita de Ra.

- É mesmo? E a outra?

- A gêmea? Não pode substituir a irmã; embora parecida; não possui nem de longe a graciosidade dela.

- Sim, de fato. Eu quero saber é se ela está feliz, já que a odeia.

- Se assim é, deve estar.

- Coisa estranha!

- Estranha e que desdoura Proteu. Não poderia esquivar-se dc trabalho e ainda roubar uma dançarina de Ra.

- Ele não fez isso.

- Como sabe?

- Sei que, apesar de tudo, é alguém que tem palavra e prometeu Netikerty levar a irmã, ao fim da guerra.

- Pois a mim prometeu que estaria sempre que eu precisasse... E que é feito dele?

- Precisasse como?

- É algo que talvez não entenda. Péricles vende-me a outros hc mens sempre que acha viável. Eu não gosto dessa situação, já que às vc zes são parceiros asquerosos. Quando me ofereceu ao general eu conti a ele, que de seu lado afirmou que não deixaria nenhum cliente, excet dele, me tocar. Que quando Péricles exigisse essa conduta pagaria o dc -bro por meus serviços. Entretanto, já faz mais de trinta dias que sumiu
Se isso lhe desagrada, por que se sujeita? Por que veio no encalço jí-sse homem que a explora assim? Divorcie-se dele!

- Eu gosto dele e nem sempre é desagradável.

- Fala de Proteu?

- Também. Voltando ao assunto, acho que ele roubou a dançarina. Z _m canalha infame. Todos os homens o são.

- Não roubou, eu sei... Quer dizer, eu sinto.

- Pare com isso! O oráculo ainda é Sobeknefru. Ou não?

- Por falar nele, preciso ir vê-lo. Só esperarei Afra chegar da lida e m até lá.

- Eu direi ao oráculo. Adeus, Kyia.

- Até mais tarde, Tula.

A grega já havia dado alguns passos quando a outra chamou.

- Não é verdade que todos os homens são canalhas infames. Kenefer é um marido meigo e de coração bondoso. Seria incapaz de ; _alquer ato que machucasse a mim ou Afra. Ele é talvez a única pes-< i neste mundo para com quem eu teria alguma consideração. A única ressoa por quem sinto algo pacificador...

- Sorte a de vocês. Cuide para que não apareça uma terceira esposa.

- Não aparecerá. Nem uma segunda existiría se não fosse por um sentimento de caridade plena. Tem-me na conta de animal desgarrado ; je deseja encaminhar.

- Está estranha! Cheia de nobreza de sentimentos conjugais; não : irece aquela que conheci. Ora, amiga, sei bem que trai esse santo ma-

do, e por vontade própria.

- Verdade. Não sei o que acontece comigo. Vá e diga ao oráculo ;ue irei antes do terceiro culto a Amon-Ra.

Kyia voltou ao quarto de Proteu. Trinta dias e os cuidados haviam :eito maravilhas com os ferimentos. O grego dormia agora sobre um ; olchão de penas forrado com linho branco, que um dia ela providen-r.ara, movida pela piedade ante os males sofridos pelo doente. Também irranjara um travesseiro e peles de camelo para agasalho durante as noites sempre frias.

- Kyia!
- Sim...

- Diga a meu irmão que começo a distinguir o dia e a noite. Minha visão volta lentamente.

- Ainda sente muitas dores? - perguntou enquanto iniciava a troca das bandagens.

- Não, já são bem menores. Seus dias de serva estão contados. Os subsequentes serão de rainha.

- E quanto à promessa que fez a Netikerty?

- Nada prometi a ela.

- E Dimitrula?

- Por todos os deuses! Pobrezinha, deve ter sofrido muito a minha ausência.

- Sabe que o faraó pensa que você roubou Nefertari?

- Quanta maledicência! Quem, afinal, roubou a beldade?

- Eu não sei.

- E como sabe todo o resto?

- Isso não vem ao caso. Sente-se incomodado?

- De certa forma, já que tive a chance real de ter uma bela dançarina egípcia como propriedade legítima.

- Não a quer por esposa?

Ele riu.

- Jamais me casaria com uma egípcia ou qualquer outra estrangeira. Minha esposa, se assim eu algum dia chamar alguém, deverá ser de Atenas e de origem grega até a mais remota ascendência, além de...

A fala de Proteu foi cortada por um grito de dor. A esponja envolvida em água, usada para limpar os ferimentos quase sãos, fora pressionada com força contra uma ferida ainda sensível, maldosa e propositalmente, a fim de causar dor atroz e fazê-lo parar.

- Cale-se!

- Você me machucou.

— Sou por acaso uma águia do deserto?

- Não por acaso, é exatamente o que você é.

- Ingrato!
A que deveria estar agradecido? Cuida de mim com interesse próprio de uma mercenária. Somos iguais, Kyia. É, assim como eu, alguém incapaz de sentir amor e compaixão verdadeiros. Nunca será como Afra, pessoa a quem aprendi a admirar. A ela, sim, eu serei grato eternamente e sempre estarei disponível para qualquer favor que venha a precisar de mim. Quanto a você... Nada lhe deverei ao sair daqui.

- Você me deve o trono do Egito.

- E o terá. A menos que os persas ganhem a guerra; nesse caso o trono será deles e eu nem mais viverei para ver.

Calada ela deixou o aposento levando as bandagens para lavar. Estava imóvel à beira do poço quando Afra chegava com as filhas.

- Está tudo bem, Kyia?

- Sim. Por quê?

- Parece apreensiva. Distante. Como está Proteu?

- Bem. Acredita que a visão está voltando.

- E não é motivo para estar feliz? Afinal, reclamou muito ao receber a incumbência.

- Acha que os persas podem vencer a guerra?

- Não sei. Por que muda de assunto tão de repente?

- Por mais estranho que possa parecer, não mudei de assunto. Agora vou mudar; deixe-me fazer uma pergunta: você ama Kenefer de toda a sua alma e todo o seu coração?

- Assim só amo a Deus. Mas amo Kenefer como marido, companheiro de lutas e pai amoroso de minhas filhas.

- Seria capaz de fazer-lhe algum mal?

- Isso seria ferir minha própria carne.

- Quer que eu me divorcie dele?

- Não, pois isso o faria sofrer. Sei que sente por você um misto de compaixão e responsabilidade.

- Não acredita que ele me ama?

- Ama, com certeza.

- Não se sente incomodada em dividir seu marido comigo?
Eu o divido com você, assim como com nossas filhas, Haemon o faraó e tantos outros. Assim deve ser; ninguém pertence a ninguém.

- O que é amor, Afra?

- É um sentimento que nos predispõe a querer o bem, a segurança e a felicidade de outrem. Uma dedicação absoluta por outra pessoa, idêntica à que temos por nós mesmos.

- Acha que eu posso sentir amor?

- Todo filho do Altíssimo tem essa capacidade. Sei que deve haver alguém por quem você tenha um bom sentimento. Sua filha, talvez Kenefer.

- Sinto algo bom por eles. Por você também, Afra. Contudo, não me dedico à primeira, exploro o segundo e usurpo o seu lugar.

- O meu lugar é meu, você não pode tomá-lo. E quanto aos bons sentimentos que ensaia, são ainda pequenos brotos que, se cuidados a contento, se transformarão em frondosa árvore.

- Então posso ser como você?

- Claro.

- E qual a vantagem de ser como você? Está sempre na desvantagem...

- Nossos conceitos sobre desvantagens são bem diferentes. Sei que se sente angustiada com a melhora de Proteu. Teme sua ausência, sua falta. Tem bom sentimento por ele também.

- Não sei de onde tirou informação tão despropositada.

- Por que não se permite ser humana? Os humanos se afeiçoam uns aos outros. Este é o propósito de Deus, bendito seja seu nome!

- Meu propósito ao vir para Tebas é ser rainha.

- Menina tola, não busque no exterior algo para preencher seu vazio interior. Ele só pode ser ocupado por você mesma.

- Nunca serei como você, desista!

- Eu poderia até desistir, você é que não pode!

- Pode cuidar do grego agora? Vou ver Tula.

- Não desobedeça Kenefer para se encontrar com Sobeknefru. Ele é homem bondoso, porém não tolera desobediência.
Vou ver minha amiga.

- Que mora com o sacerdote mencionado.

- Quanto a isso, não posso mudar, a menos que Tula venha morar conosco.

- Sabe que Kenefer não o permite, e não é por maldade ou avareza.

- Esteja em paz; não vou consultar o oráculo.

Capítulo 7

Kyia entrou no templo de Sechat, camuflado como se fosse de Amon-Ra, dada a proibição do culto a qualquer outro deus, e arqueou-se voltando o rosto para o chão diante da grande estátua da deusa. Sentindo a frieza áspera da pedra, pediu à deusa proibida ajuda para seus intentos.

Sobeknefru chegou silenciosamente e observava a moça, quando esta notou sua chegada.

— Grande oráculo de Sechat! Auxilie-me neste momento de grande aflição.

- O que a aflige, filha?

- Cada dia sinto mais perto e mais longe o trono que garantiu ser meu. Proteu de Mileto vai pedir ao faraó meu casamento com o filho dele?

- Proteu de Mileto roubou a dançarina de Ra. Não sei se com isso compromete seu intento de chegar ao faraó por seu intermédio.

- Ele não roubou Nefertari.

- Não teime com um mensageiro do além. Vejo os dois juntos em um local verde, Atenas talvez.

- Questione os espíritos novamente. Sinto que está enganado, pois sei onde está um desses dois e garanto que o outro não está junto.

Um espírito leviano que acompanhava o desavisado médium soprou-lhe:

“Não tente fazer previsões sem mim, charlatão! Ela está certa, Proteu não roubou a meretriz.”

“Como saio desta enrascada?”

“Muita cerveja!”
“Quantos jarros quiser.”

“Diga à incauta rapariga que realmente isso não procede no presente, mas que é uma visão do futuro.”

- Realmente, amiga, Proteu não se encontra com a dançarina agora. Garanto-lhe, entretanto, como oráculo infalível, que em futuro não muito distante isso se dará. Ele ainda estará com Nefertari.

- Então se pode entender que pedirá ao faraó a posse dela e não meu casamento com Neferites II, conforme é meu plano e confirmam suas previsões? Sua informação está errada? Você falhou?

Apavorado, Sobeknefru tornou a pedir ajuda do zombeteiro irmão que o assessorava, passando este a falar através do sacerdote.

- Amiga Kyia, um oráculo nunca erra. Coloca sua integridade física em risco com tal insinuação; por muito menos já enviei raios e serpentes. No dia em que lhe disse que Proteu a elevaria a rainha era essa a possibilidade, Não teria como - nem eu nem deus algum - adivinhar que ele se apaixonaria pela dançarina, se o próprio Proteu não sabia disso.

- Perdoe-me, grande deusa, não quis ofendê-la. Ê que estou angustiada demais.

Investigando novamente as formas-pensamento da moça ele afirmou:

- Está com ciúme do guerreiro? Espere! Posso ver claramente que não mais deseja ser rainha do Egito.

- Mais uma vez está enganado. São esses os recados dos mortos para mim?

- Não, quem está enganada é você. Pelo menos no que diz respeito ao trono que deseja ocupar.

- Sobeknefru, por amor de Ra, pare!

-Tem o guerreiro sob seu poder. Ele está em suas mãos. Pode mudar o futuro e ser você a partir com Proteu para Atenas.

- Não quero partir, quero reinar aqui até a morte. Você tem de me ajudar. Precisamos fazer um encanto para essa dançarina desaparecer.

- Faça a reversão de novo a seu favor, apodere-se do pedido de Proteu ao faraó. O recado mais importante é que está a fraquejar; perderá sua chance de se elevar ao poder em troca da liberdade da dançarina.

Isso nunca! Não permitirei.

Tula entrava no templo acompanhada de Péricles, que perguntou afoito:

- Grande oráculo, a dançarina voltou. Pode me dizer onde está Proteu de Mileto? Tenho notícia de que os persas se organizam contra nós; precisamos nos preparar para o inevitável confronto.

Utilizando as informações do corpo espiritual de Kyia de que o general estava convalescente, respondeu ao soldado:

- Ele está voltando. Fique em paz. Proteu está chegando.

Encantado com as ofertas generosas do mercenário, Sobeknefru

nem percebeu quando Kyia deixou o templo. Andou em círculos nas proximidades do palácio e sonhou com o dia em que transporia as muralhas que a separavam da glória exuberante.

- Sobeknefru manda buscá-la de volta. Diz não ter ainda terminado a consulta... E você não pagou por ela.

- Como ele disse, não terminou a consulta; portanto, não pagarei por ela. E hoje estava por demais falho.

- Ousará sonegar a consulta de Sechat?

- A bem da verdade, acho que ela nem estava presente. Diga a Sobeknefru que retornarei amanhã ao templo para tratarmos de meu problema; se ele não tiver uma solução imediata, desistirei de seus serviços e usarei meus próprios métodos. Não deixarei que Proteu peça Nefertari como prêmio. Ele terá de ceder esse desejo a mim. Ou nunca mais poderá ser Proteu filho de Poseidon, como diz ser.

- O que fará a ele?

- Nada. Esqueça, estou muito tensa. Creio que Sobeknefru anda me enganando, que é na realidade um grande charlatão.

- Acha que ele é um falsário?

- Até mais, Tula!

Soltou o ar sonoramente, revelando que estava no limite da paciência. A grega segurou seu braço com firmeza e falou pausadamente, para evitar o risco de não ser entendida:

- Até mais coisa nenhuma! Você conhece esse tal oráculo melhor do que eu e precisa me falar se ele é ou não um pilantra, porque disso pode depender minha vida.
- Como assim, depender sua vida? Não acha que vou difamar um elho amigo para alguém que mal chegou da Grécia, vai?

- Sabe que podemos igualmente ser velhas amigas. Acaso não rcredita na reencarnação, que pregam os seus sacerdotes? Não sabe que desde eras muito remotas vimos pulando de corpo em corpo?

- Eu sei. E penso inclusive que Sobeknefru voltará no corpo de um felino, pois é esperto como tal.

- Acha que posso confiar nele?

- Em suas previsões? Até ontem eu diría que confiasse cegamente; hoje já estou em dúvida.

- Não me importo com previsões. Falo de suas poções. A egrégia poção da vida longa e eterna juventude. Disse que está perto de conseguir.

- Talvez consiga.

- Ele já tentou outras vezes, não é? O que o fez ver que não havia acertado?

- Eu podería não responder, visto que não cumpriu a promessa de me levar até Proteu através de seu marido.

- Não tive oportunidade. Logo depois da primeira batalha Proteu sumiu, e agora confesso que não sei se podería cumpri-la. Péricles mal chegou ao exército dele, não tenho essa ascendência em seu meio.

- Sei bem onde está sua ascendência com o general.

- Kyia! Por favor, responda!

- As cobaias morrem. Só isso.

- Aquele desgraçado quer me matar? E você sabia?

- Vai ser cobaia no projeto Egrégia? Pensei que faria parte dos experimentos dos produtos de beleza. Não se preste a isso, pode morrer de maneira fulminante.

- Vou matar aquele oráculo fajuto.

- Deixe de ser cretina! Qualquer sacerdote, mesmo que fajuto, tem proteção de Ra. Não podemos fazer nada contra ele ou vamos ser condenadas à morte. Arranje alguém bem estúpido e bronco para fazer o teste em seu lugar. E tem mais: você precisa dele para morar e eu ainda não desisti de sua assistência espiritual. Conhece alguém imbecil o bastante para isso?
A grega pensou por alguns segundos.

- Sim, existe alguém. Apepe. Desde que comprou meus serviços se arrasta por mim. É dono de alguns escravos que o servem na agricultura de cevada e, tão logo vende os grãos, adivinhe como gasta seu dinheiro? Assim mesmo. Afirmou certa vez que por mim carregaria toda a areia daqui para a Pérsia.

- Em jarros? - a outra perguntou, sarcástica.

- Nas mãos - soltou uma gargalhada.

- Você mal chegou aqui e arranjou um devotado cliente!

- Escravo, querida, escravo. Faz tudo que eu mandar.

- Pobrezinho! Vai tomar o elixir.

- Calma, parceira! Ele tem a chance de viver muito, e sem envelhecer.

- Você acredita nisso?

- Claro que não, ou jamais faria aquele traste tomá-lo. Quero que morra rápido, e ainda me deixe seus escravos e plantações como herança.

- Golpe de mestre. E quanto a mim?

- Eu a levo até Proteu. Juro desta vez.

- Para o inferno suas promessas! Eu me levo até ele. Quero alguma coisa do tal Apepe.

- Tudo bem, acho que já lhe devo muito. Dar-lhe-ei algo dele.

Na manhã seguinte Tula se encaminhou para a casa de Apepe.

Tratava-se de um homem de compleição agigantada, traços fortes e pele muito morena. Sua personalidade, ao contrário, era frágil e débil. Respondia às ironias de forma séria, tinha dificuldade em se comportar de acordo com o convencional e quase nunca percebia que as pessoas estavam cansadas de sua presença. Era sincero até a total indiscrição e jamais agia como os outros esperavam. Possuía uma inocência quase patética, contrastando com uma infinidade de músculos. Espírito tomado de sofrimento íntimo intenso, nunca conseguira incluir-se em nenhum segmento, não fizera amigos, não despertara a paixão de nenhuma mulher. Era uma criança crescida e deprimida, vivendo à margem da sociedade que ocupava as margens do Nilo.
Apepe era excluído por possuir diferenças ainda não compreen-zidas. Carregava a dor da alma que só teria seus primeiros momentos ze atenção no século vinte, quando, com a permissão do Alto, Hans Asperger11 abraçaria a carne trazendo a missão de pesquisar, entender e rudar esses espíritos sofredores.

Quando ouviu a voz de sua amada Tula, ele se virou sorrindo. Correu ao encontro dela e beijou-lhe a mão repetidas vezes. Parou z; r instantes a olhar seu rosto de um jeito indecifrável, uma espécie de adoração.

- Está bem, Apepe?

- Estou.

- Dormiu bem? Teve bons sonhos?

- Sim.

- O que vai fazer hoje? Trabalhar na plantação ou mandar seus escravos para poder descansar ao meu lado, neste belo dia de sol?

Ele fez esforço titânico para assimilar tão longa frase.

- Está bem.

- Você me ama?

- Amo.

- O que faria por mim?

- Tudo.

- Poderia dar-me tudo que possui?

- Posso.

- Então vamos até um sacerdote, o qual será testemunha de que você me dá todos os seus bens, e se casa comigo.

- Humm! Pode ser.

- Você se casa comigo?

- Sim.
Hans Asperger (18 de fevereiro de 1906 - 21 de outubro de 1980) foi um pediatra austríaco, teórico, médico e professor de medicina. Ele é mais conhecido por seus primeiros estudos sobre transtornos mentais, especialmente em crianças. Foi o primeiro a descrever a síndrome comportamental do autismo que anos depois de sua morte, levaria seu nome, sendo denominada como síndrome de Asperg Travar uma conversação era verdadeiro problema para Apepe, que sempre respondia às perguntas de maneira direta e definitiva; na maioria das vezes com monossílabos.

- Então vamos, querido.

- Tá bom!

Enquanto andava ao lado de seu algoz, o inocente gigante tomou uma mecha de seus cabelos e aspirava com enlevo absoluto o aroma de henna que vinha da única mulher que o notara e encantara, e que agora o levava para a morte.

O que Tula não podia perceber era que ali, ao lado de Apepe, o espírito daquela que fora sua genitora, Azeneth, velava por ele de modo caótico e sem preparo. A pobre mãe, desconhecendo o tamanho ilimitado da misericórdia divina, não confiou a ela seu tão especial rebento e se negou terminantemente a seguir para o plano do espírito. Acreditava que assim o estaria protegendo dos escarnecedores e maldosos compatriotas e familiares. À sua maneira o protegia causando pânico, dores e medos em quem tentava fazer qualquer mal ao filho.

Sabedora de seu sonho em ter bela esposa, a pobre mãe também se encantou com a atenção da “nora” que fazia Apepe tão feliz. Acreditou tanto quanto ele que era amado, teria filhinhos e seria feliz até a morte, quando enfim o envolvería novamente em seus braços amorosos. E foi convicta de que ia assistir ao casamento do amado filho que Azeneth seguiu o divergente casal para o templo de Sechat, onde supunha seria o filho encaminhado para a vida a dois. Encontrara alguém para cuidar de Apepe e agora poderia descansar em sua modesta tumba, da qual sem dúvida iria para um paraíso perfeito esperar por ele.

Em momento algum Azeneth se imaginava encarnada. Sabia de sua real situação, mas negava-se terminantemente a partir com os trabalhadores do plano do espírito que vinham em seu auxílio. Só deixaria o filho aos cuidados de abnegada esposa, era categórica: “nunca deixarei sozinho meu menino por nada, nem mesmo para ir ao paraíso”.

Segurando o braço de seu menino grande, Azeneth adentrou o templo. Dali em diante poderia repousar. Sentia fadiga monstruosa, dores musculares e escassez total de energia. Sonhava com o silêncio de sua tumba; correría para lá logo após a cerimônia e dormiría por anos...

Os pensamentos da mãe foram interrompidos pela chegada do sacerdote de Sechat. Sobeknefru não estava devidamente paramentado para a ocasião; trajava suas vestes cotidianas, o que não agradou à mãe do “noivo”. Trazia em uma das mãos recipiente transparente onde um liquido azulado borbulhava como se estivesse em temperatura elevada.

- Seja bem-vindo, Apepe! Hoje é um dia muito especial para você.

- Eu sei.

- Pode mudar toda a sua vida exatamente agora.

-É.

- Se algo acontecer com você, perante Ra eu lhe pergunto: para quem ficam seus bens?

Ele permaneceu mudo. Não compreendia a pergunta do sacerdote e olhou para Tula, que bateu no peito com o indicador.

- Para ela.

- Tem certeza?

- Tenho.

Azeneth aproximou-se de Sobeknefru e inquiriu desaforada:

- Que diabo de ritual é este? Que roupa mais imprópria usa, sacerdote obsceno?

Sobeknefru ouviu e ignorou. Dono de mediunidade exacerbada e deseducada, ouvia os ditos mortos diuturnamente. Suas vozes se misturavam às dos vivos e não raro era impedido de dormir, tamanho o vozerio que lhe chegava aos “ouvidos” durante a noite. Sentia-se dentro de animada festa com centenas de convivas a falar a um só tempo.

- Pois bem, amigo Apepe, tome este líquido vagarosamente; sinta o gosto e deixe que ele ocupe todo o seu corpo, levando para ele a juventude eterna e a longa vida.

Azeneth captou os pensamentos do alquimista e buscou ajuda para o filho na futura nora. Entrou em desesperação ao constatar que as intenções dela eram ainda piores que as do primeiro. Em pranto escandaloso, a pobre mãe gritava para o filho não ingerir o que poderia ser veneno letal. Com aflição absoluta tentava tirar o recipiente das grandes mãos do protegido e, impotente, via seus golpes atravessarem o perigoso frasco sem movê-lo ao menos um milímetro. No auge da fãiria, dor e tristeza, assistiu a seu filho tomar a combinação terrível de Sobeknefru e estática aguardava sua reação.

Apepe teve tempo de dizer apenas uma palavra:

- Ruim.

Levou as duas mãos à garganta e soltou um grunhido triste e apavorante. Diante dos comparsas apreensivos, o gigante tombou sangrando pela boca. Com dificuldade o arrastaram para um leito e ficaram à espera de sua morte rápida ou da mudança instantânea de sua aparência para a de dez anos atrás. Nem uma das alternativas se confirmaria: a agonia de Apepe seria dolorosa e lenta.

Azeneth aproximou-se de Tula e envolveu-a em seus pensamentos, dizendo-lhe que a responsabilidade de cuidar do agonizante era dela. Devido à participação no ato insano e animalizado, a jovem grega tornou-se inteiramente vulnerável às sugestões da nova inimiga, não se entregando sequer ao repouso do corpo nem se preocupando com alimentação. Passava dia e noite à cabeceira de sua vítima, sob o ataque ferrenho de Azeneth.

Capítulo 8


Enquanto Tula aguardava o desfecho da malfadada história de Apepe, do outro lado da cidade Kyia, em situação similar, ansiava pela recupe-
ração de Proteu.

Alguns dias transcorreram desde o acontecido no templo. Proteu melhorava, ao passo que Apepe se aproximava da morte sofrida e demorada.

Kyia regressava do culto, ao sol nascente, quando encontrou um cadáver à margem da ruela. Sem susto (aquilo era corriqueiro na época e no local), acercou-se do corpo ao lado do qual um cesto de vime tampado aparentava conter algo vivo. Ao destampá-lo, um par de olhos verdes brilhou e um gato em salto perfeito pulou no colo da moça, que entre espantada e enternecida alisou o pelo do animal amedrontado e faminto.

Alguns séculos atrás aquele animal era adorado, em virtude da sua associação com a deusa da lua, Pasht. Em 1368 a.C., com a ordem de Akhenaton no sentido de que se cultuasse um único deus - Ra, representado pelo disco solar -, os felinos perderam as regalias, mas não a simpatia dos egípcios. Kyia olhou para o morto e em pensamento lhe disse que viajasse em paz, pois adotaria seu amigo.

Com o felino nos ombros ela chegou na casa vazia. Afra e as filhas, inclusive a pequena Nyla, estavam às margens do rio abençoado garantindo os grãos para a família. Kenefer já se encontrava a serviço de Haemon. Pegando os tônicos, entrou no pequeno aposento do hóspede, que dormia serenamente. Durante alguns minutos ela contemplou seu paciente; quase não reconhecia aquele desfigurado soldado que lhe aparecera algum tempo atrás.
- Kyia!

- Sou eu.

- Sei que é você, posso vê-la.

- Totalmente?

- Sim. Quero ir para casa. Pode chamar Haemon?

- Claro.

— Aconteceu algo? Parece apreensiva, cismática.

- Sua dançarina voltou faz uns dois ou três dias. É o que todos comentam.

- E por que isso a incomoda?

- Não é isso que me incomoda e sim o ataque persa, que também dizem ser iminente. Estamos indefesos.

- Não estão. Proteu de Mênfis está de volta. Vamos mandar esses persas para o mundo de Hades antes que pisem solo egípcio. Depois você terá o que prometi, e eu voltarei para Atenas com meus homens e minhas moedas. Esteja em paz.

— Vai pedir ao faraó que me case com seu filho?

- Vou. Não é o que quer?

- Sim, exatamente. E é o que você quer?

- Não. Eu preferiría pedir Nefertari.

- Sinto muito - seu tom de voz era cínico.

- Não se preocupe. Caso-a com o herdeiro e durante as festividades roubo a dançarina e a levo para Atenas, se assim me aprouver.

Ela recordou as palavras do oráculo e sentiu-se mal por ter duvidado do sacerdote e amigo.

- Que belíssimo animal! - disse o grego, reparando no felino assustado no ombro dela. - Qual o nome dele?

- Ainda não lhe dei um nome, acabei de resgatá-lo no cesto de um morto.

Ele tomou o animal, mirou seus olhos e falou ternamente:

- Posso chamá-lo de Oliva?

- Por que Oliva?

- Seus olhos sugerem esses frutos. Frutos que foram presenteados por uma deusa, Palas Atenas. Azeite para iluminar as noites, suavizar as dores dos guerreiros feridos e ainda trazer sabor e energia. Posso ficar com ele?

- Espero que ele ilumine suas noites e suavize suas dores; que lhe dê prazer e energia abundantes. Realmente, seus olhos parecem duas olivas a fitar nossa alma.

- Obrigado pelo presente, vai me acompanhar sempre.

- Não foi bem trazido por um deus, mas lhe será muito benéfico.

- Não se menospreze. A analogia que fiz inclui a pessoa que oferta o presente.

- Eu vou chamar seu irmão. Boa sorte, Proteu de Mênfis!

- Obrigado.

Kyia saiu sem olhar para trás. Se o fizesse, por certo veria uma sombra de angústia nos olhos frios de Proteu.

Nos trabalhos da gigantesca tumba, a jovem esposa de Kenefer recebeu deste um terno beijo sobre os cabelos e narrou o pedido do paciente restabelecido. Ouviu do marido que Haemon se ausentara da obra; recebera um mensageiro e seguira para casa. Na ampla residência, um servo de confiança e aprendiz de astronomia informou que o mestre se dirigira ao palácio do faraó.

- Desculpe-me por incomodar. É que se trata de assunto urgente e pessoal.

- Com quem eu falo?

- Meu nome é Kyia, segunda esposa de Kenefer. Haemon me confiou uma missão que está cumprida e reivindicando sua presença.

- Proteu já está bem?

— Acredito que sim; mandou-me buscar o irmão.

- Dar-lhe-ei uma mensagem, um salvo-conduto que facilitará seu ingresso no palácio para ter com ele.

Sem problemas ela passou pelos guardas, mostrando o papel com a marca de Haemon. Narrou ao mestre o ocorrido e este, agradecendo e prometendo recompensa, disse que logo estaria a caminho da casa de Kenefer. Como sempre que tinha oportunidade de entrar na sede do poder, a moça estava deslumbrada com o palácio. Aproveitou para andar pelo suntuoso local em que planejava residir brevemente. Mal ntrou em grande jardim fechado, notou uma figura cabisbaixa e depressiva. Netikerty, sentada a um canto, mirava o infinito azul sem nuvens do céu do Egito.

- É verdade que sua irmã reapareceu?

- Infelizmente sim. Cheguei a pensar que Proteu a tinha levado e que ficaria livre de sua tirania. Contudo, a malvada voltou; está novamente aqui.

- Por que pediu a Proteu para levar sua irmã? Se o que quer é estar distante dela, muito mais simples será você deixar o palácio, não acha?

- Não seria fácil convencer Proteu a tirar-me daqui; não sou graciosa e bela como minha irmã. Se o fizer, ele me abandonará à própria sorte; quanto a ela, sei que a manterá consigo.

- Sabe que com isso atrapalha meus planos?

- Sei, sim, já que consultamos o mesmo oráculo. Mas não é minha intenção; não a conheço e nada tenho contra você. Apenas não aguento mais minha vida.

- E posso saber por que teme tanto a sua irmã? Por que diabos não a enfrenta?

- Foi o que fiz, há alguns anos. Não gosto nem de lembrar, Nefertari e eu nos engalfinhamos por longo tempo, ao fim do qual estávamos as duas raladas e repletas de hematomas, ela bem mais que eu. Então berrei:

Nunca mais humilhe, machuque ou prejudique de qualquer maneira minha pessoa, pois da próxima vez a matarei lentamente”.

- Chorando com falsidade, minha irmã prometeu nada mais fazer contra mim, e nos retiramos para nossos quartos. Pouco depois ela retornou com o faraó e dois soldados e entraram abruptamente em minha alcova. Ainda posso ouvir a voz de Hakor.

Tem noção, criatura desprezível, do que fez com a pele, as unhas e os cabelos da minha dançarina favorita”?

- Ela igualmente feriu-me, grande Ra.

- Isso nada me importa; nada há para se estragar em mostrenga tão hedionda. Adianto-lhe, porém, coisa medonha, que se uma só cicatriz permanecer na pele de Nefertari mandarei escalpelar você dos pés à cabeça. Eu a mumificarei viva, pessoalmente.”
Naquela tarde os dois soldados se revezaram no trabalho de me espancar e violentar sistematicamente. Ainda não sei como sobrevivi a tudo aquilo. Depois tornei-me escrava de minha irmã, que me fez inclusive lamber-lhe as feridas, dizendo que isso ajudaria a cicatrização. Quando me neguei, ela contou ao soberano, que além de me forçar a tal me submeteu a várias humilhações e torturas. E até hoje a coisa é bem isto: por qualquer motivo ela ameaça se ferir e dizer ao faraó que eu a machuquei...

A essa alturas da narrativa Netikerty chorava convulsivamente,

- E por que permanece aqui? Fuja deste palácio!

- Para onde vai uma mulher feia, sem marido ou bens e que nem para escrava serve, pois que além de tudo ainda coxeia? Sem contar que sou propriedade do faraó; ele mandaria me pegarem, mesmo que para matar-me.

- Sua situação não é a das melhores, mas sinto muito dizer que, no que depender de mim, Proteu não levará Nefertari daqui.

A gêmea chorou tristemente.

- Quer ver-se livre de sua irmã? Fique em paz; quando eu for a rainha sumirei com ela deste palácio, prometo!

- Isso, se for verdade, vai demorar muito.

- É o máximo que posso fazer por você.

- Há algo mais que você pode fazer. Entregue uma mensagem minha a um ajudante de seu marido nas tumbas, um aprendiz de artesão chamado Rudamon. Ele gosta de mim, apesar de tudo, e se Nefertari não ficar sabendo para atrapalhar poderei casar-me e ter paz. Assim não precisarei interferir em seus projetos com Proteu.

- Sem problema. Dê-me a mensagem!

- Vou buscar. Se começar a me demorar será porque minha irmã me surpreendeu e, portanto, não poderei voltar aqui; seja como for, agradeço sua boa vontade.

Com dificuldade para sustentar o corpo pesado sobre uma perna manca, Netikerty se virou e saiu andando devagar. Kyia não ousava admitir nem para si mesma que sentia grande piedade pela moça.

Sentou-se no banco de pedra e esperou. Esperou por tanto tempo que perdeu a paciência. Decidiu seguir Netikerty. Se estivesse sendo maltratada pela irmã, nem se lembraria do faraó e daria um corretivo na dançarina; afinal, ela já estava cruzando seu caminho de maneira assaz perigosa... Não, Nefertari não iria para Atenas com Proteu. Impediría isso a qualquer custo. Nem que para impedir tivesse de matar a preferida de Ra.

O palácio era realmente um labirinto. Kyia, entretanto, já o conhecia razoavelmente devido à sua ligação com Kenefer e à deste com Haemon. Não obstante, teve muita dificuldade para se localizar entre tantas colunas e entradas, passagens estreitas, salas e antessalas; as paredes de pedra amareladas eram tão iguais que, acreditava, confundiríam o próprio faraó.

- Procura algo ou alguém?

A voz arrogante vinda de uma câmara quase secreta despertou-a dos pensamentos acerca da residência. Em um divã ladeado por tochas incandescentes, que quebravam a escuridão praticamente total devido à falta de janelas, usando trajes sumários repousava o corpo perfeito de Nefertari. A semelhança com a irmã desafortunada era nítida do pescoço para cima; com exceção da cor dos cabelos e das cicatrizes pro-tuberantes, eram iguais. Kyia nunca vira de perto a dançarina famosa tratada por Pérola do Nilo; estivera em uma apresentação sua, numa das raras vezes em que Kenefer aceitara o convite do faraó para festividades no palácio.

Lembrava-se perfeitamente da leveza e habilidade da favorita de Ra. Lembrava-se também de não haver simpatizado com ela; ao contrário, sentira repugnância instantânea pela bela dançarina. Olhava agora para a mulher exuberante, a poucos metros, e sentia-se intimidada diante de tanta beleza. O tempo parecia não haver passado para Nerfertari; era exatamente como anos atrás a tinha visto. Teria ingerido a tal poção egrégia? Ou teria sido a maternidade que a deixara em situação tão díspar da outra? De qualquer modo, não fora por pouca coisa que Proteu se encantara; a jovem era tal qual sua pátria, bela como o rio e mortífera feito o deserto.

- O que há com você? - inquiriu a moça. - Parece aquelas mulheres masculinas. Por que me olha assim?
Não se trata disso. Sou feminina e bem casada, que Ra me proteja disso.

-Já recebeu um beijo de lábios femininos, moça? Sabe como pode ser suave o amor vindo de uma mulher, nada parecido com a violência masculina? Venha aqui e eu mostrarei a você um universo desconhecido do amor.

Envolta nas vibrações dos espíritos que atraíra devido a seu comportamento obsceno, Nefertari exibia expressões e gestos lascivos para a assustada estranha.

- Não chegue perto de mim, pervertida dos infernos!

Abruptamente ela parou a encenação e olhou para Kyia, séria e raivosa. Seus companheiros desencarnados ficaram amuados em um canto, cabisbaixos ante a decepção de não poderem compartilhar as energias sexuais da companheira na carne.

- O que quer aqui, afinal? Não veio à minha procura?

- Não, nem imaginava encontrá-la. Procuro por Netikerty, que adentrou este labirinto e me deixou esperando.

- E decerto lhe disse que se não voltasse seria por ter sido presa por mim em alguma masmorra deste palácio enorme.

- Isso mesmo. Por que prendeu sua irmã?

- Deite-se aqui ao meu lado e eu lhe conto tudo sobre Netikerty.

Os espíritos maltrapilhos vibraram, com pulos e gritos ensurdecedores.

- Está louca? Não! Nem que por isso eu me tornasse a rainha do Egito.

- Serva arrogante, nunca será rainha de nada. Proteu não fará o que prometeu a você. Eu impedirei, custe o que custar...

Após ligeira pausa, declarou cinicamente para a estupefata Kyia:

- Consultamos o mesmo oráculo, querida.

Mais uma vez os companheiros de Nefertari se acabrunharam.

- Sobeknefru, desgraçado! Anda contando sobre mim para todo mundo.

- Para mim. Não sou todo mundo.

- Para você, para a feiosa da sua irmã... E por falar nela, onde está?
- Eu não vou perder meu tempo com você. Não tenho irmã e não preciso provar isso.

- Tem, sim; eu a vi e conversei com ela. Você, além de promíscua e malvada, é violenta, mentirosa e dissimulada. Aproveita-se da condição de favorita do faraó e de sua esposa para fazer o que quer com ela.

- Saia do meu aposento!

- Pode fazer o que quiser com sua irmã, ela permite. Mas não pense que todos são passivos como Netikerty. Adianto-lhe que se atravessar o meu caminho eu a matarei. Ainda que se esconda sob o kalasyris do faraó, meto minha mão lá e a pego pelo pescoço.

- Não seja idiota, moça. O que falo é a mais pura verdade: sou filha única. Está a variar.

- Não sou só eu a variar. Outras pessoas já viram e ouviram Netikerty, e em uma coisa todas concordam: você é a carrasca de sua gêmea. Não que isso me incomode; por mim pode matá-la e comê-la, pouco se me dá. O que realmente me molesta é que ela, querendo se ver livre de sua tirania, espera que Proteu peça você como prêmio, se vier a ganhar a guerra, quando meu trato com ele é que esse prêmio seja meu.

- Então minha irmã imaginária tem um trato com o mercenário grego? Interessante... E se a vitória se der eu deverei seguir Proteu para Atenas? Não é de todo mau. Eu topo.

- Não conte com isso. O prêmio será meu.

- O que você quer como prêmio? O belo grego?

- Claro que não. Quero Neferites II.

- Assim fica simples. Façamos nós um trato. Proteu pede ao faraó seu casamento com o herdeiro e logo você dá um jeito de sumir com pai e filho, torna-se a rainha e presenteia Proteu com sua melhor dançarina: eu. E todos os desejos serão realizados.

- Não prefere uma bela grega?

- Talvez quando já estiver em Atenas eu a encontre.

- É repugnante. Não faço trato com você.

- Está com ciúme... Resta saber se de Proteu ou de mim. Não se amofine, podemos viver os três um grande amor.

- Abomino-a!
E eu igualmente a você.

- Volto a perguntar: onde está Netikerty?

- Quero que você e ela morram dolorida e lentamente. Saia agora ou chamo os guardas.

Kyia saiu em silêncio, ciente de que estaria em maus lençóis se Nefertari cumprisse a ameaça. E até que Kenefer fizesse algo, sabe-se lá que sorte de violências sofreria. Caminhou para casa como um autômato. A dançarina a havia surpreendido de maneira chocante; por outro lado, conversar com Netikerty a deixara estupefata. E a soma das duas era um mistério quase imponderável.

Por que duas irmãs idênticas - pois suas diferenças físicas eram devidas a fatores externos - se odiavam a ponto de uma delas negar a existência da outra? Seriam verdadeiras todas as atrocidades relatadas por Netikerty? Estaria alguma delas interessada em Proteu de Mileto ou Mênfis (como desejava o faraó)? Ou as duas? Onde Nefertari havia escondido a irmã? E onde ela própria se metera nos últimos dias?

Quem poderia responder a tantas perguntas que pairavam sobre sua cabeça, a respeito das enigmáticas irmãs? O namorado que Netikerty encontrara nas obras da tumba! Sim, ele poderia ajudá-la a elucidar um monte de questões estranhas. Seus dias agora seriam mais tranquilos, Haemon levaria o irmão e ela teria tempo para vigiar as gêmeas de perto. Descobriría seus mistérios, ao mesmo tempo em que protegeria seu prêmio de fim de guerra ganha. Aliás, tão logo Haemon levasse Proteu, iria até as tumbas visitar esse namorado sem gosto de Netikerty.

Ao entrar no aposento improvisado do doente Kyia visualizou, ao invés do leito onde sempre encontrava o guerreiro, um amontoado de lenha e um pedaço de papiro enrolado. Dirigia-se a ela.
Rainha do Nilo

Obrigado pelo cuidado e pelo Oliva. Coloquei o "dono" do aposento em seu lugar de direito. Espero quefique um tempo sem cortar madeira e assim descanse do trabalho que lhe dei. Até a voltai

Proteu de Mênfis.

Uma sensação de perda tomou o coração da jovem. Algo inde-finível oprimia seu peito, parecendo rasgá-lo em dois, e uma saudade antecipada da sua fase de aprendiz de Imhotep12 levou a moça a fazer o que não tinha mais lembrança de ter feito um dia: encostada na pilha de madeira cuidadosamente empilhada, Kyia chorou. A mudança da aparência do quarto disparava um alarme interior que dizia que alguma coisa mudava dentro da desajuizada segunda esposa de Kenefer. Esperava ver o guerreiro na volta e se despedir dele, era o ensejo único de envolver Proteu em grande abraço. Teria passado tanto tempo assim no palácio com as duas malucas? Nunca mais teria a chance de dar--lhe o abraço que desejara por tantas vezes, enquanto velava seu sono turbulento.

Perdera a oportunidade. Agora, fazer o quê? Esperar que outra águia o trouxesse de novo? Ou quem sabe em outra vida nascer na Grécia?... O oráculo advertira que se não moderasse seu temperamento impetuoso podería retornar em corpo de leoa. “Acho que Proteu deve vir como um monstro marinho, Nefertari com certeza uma víbora e Netikerty uma camela manca.”13
12 Imhotep foi o homem responsável pela construção da primeira pirâmide do Egito, a pirâmide de degraus de Djoser. Foi um arquiteto genial, além de médico, sacerdote, mágico, escritor e primeiro ministro daquele faraó.

13 A essa época os egípcios acreditavam em reencarnação, porém de forma deturpada. A metempsicose dizia que um espírito voltava a animar corpos diferentes, mesmo que de outras espécies inferiores ou até de vegetais. Era uma ideia equivocada, pois através da doutrina espírita sabemos que o espírito jamais retrocede em sua evolução. Contudo, teve sua utilidade na tarefa de ajudar-nos a domar nossos instintos animalizados, pelo temor de voltar a habitar um corpo de animal em que tais instintos são naturais. Era desse modo que Kenefer tentava fazer aflorar na esposa alguma docilidade.

Capítulo 9

Enquanto Kyia viajava no emaranhado indecifrável de seus sentimentos, Apepe, depois de dias de extrema agonia e dores extenuantes, deixava o corpo sem vida no templo de Sechat. Azeneth, que tudo acompanhara, olhou para o filho fora do corpo e ordenou que se sentasse e não saísse dali por nada. Como o menino que era, ele obedeceu e não deixou o quarto. Em seguida a mãe, padecendo a dor dos -ofrimentos e da morte do físico como se ainda estivesse encarnada, avançou sobre Tula como fera indomada e agarrou com as duas mãos o pescoço da grega, que asfixiada perdeu os sentidos. Com os laços que prendem corpo e espírito afrouxados pelo desmaio, as adversárias ficaram frente a frente.

Tula olhou ao redor e sentiu-se confusa: via-se duplamente, como uma que dormia no chão e outra que estava de pé; um Apepe jazia ob-viamente morto sobre a cama e outro estava sentado aos pés do próprio leito, embora também tivesse o aspecto de morto - olhos encovados envoltos por círculos azulados, queixo caído e pele excessivamente pálida. E à sua frente, agarrada em seu pescoço, Azeneth traduzia nas expressões faciais o retrato da fúria animalesca sem limites.

- Quem é você?

- O seu maior pesadelo.

- Não pode fazer mal para alguém que nem conhece. Ou a conheço?

- Conhece-me o suficiente para roubar e matar meu filhinho, que tal como eu depositou em você todos os seus sonhos mais puros.

- E a mãe de Apepe?

Soltando gargalhada escandalosa, ela respondeu:
Achou! Muito prazer, meretriz homicida, mercenária dos infernos. Meu filho era puro como a flor da oliveira. Você o enredou em uma trama desumana e covarde, ludibriou seus sentimentos nobres e sinceros e, como um carrasco hediondo, levou-o pessoalmente para a morte lenta e violenta. Roubou-lhe também todos os bens que eu e seu pai lutamos para deixar-lhe. E ousa pensar que vou admitir que gaste esse dinheiro com outro homem? Nunca! Estarei por perto, sobre você e dentro de seus pensamentos até que, extenuada pela ferrenha perseguição, venha em definitivo para o lado de cá, onde eu acabarei com você de uma vez por todas.

- Está louca! Já está morta, vá para o mundo dos mortos e deixe--me em paz!

- De jeito nenhum! Só vou levando você.

Tula acordou com um grito nos braços de Haemon, que lhe chegava ao nariz um líquido forte que a trouxe de volta. Sobeknefru, sem saber o que fazer com a hóspede a quem não conseguia devolver a consciência, chamara pelo sábio.

- Está melhor, Dimitrula?

- Sim, apenas assustada com um terrível pesadelo.

- Fique atenta a seus sonhos. Eles são o medidor de nosso estado de espírito. Se passeia por belos oásis durante o sono, é sinal de que está em paz, e o contrário se dá com lugares tenebrosos. O sonho é a representação exata de como seria se tivéssemos morrido naquele momento, com uma única diferença: do sonho retornamos bem rápido, ao passo que no estado de morte podemos estar dentro desse pesadelo por tempo indeterminado. Aproveite enquanto ainda pode voltar e mude sua faixa de sintonia.

- Assim me assusta...

- Quem a assusta é você mesma, seu eu interior que visualizou durante o sono. Sua própria verdade.

- Quer dizer que se eu morrer agora continuarei por anos dentro desse pesadelo?

- Talvez séculos.

- Ajude-me, mestre!
- Eu já o fiz. Agora ajude-se! Faça algo de bom para se redimir de tantos erros. - Pegue a herança de seu suposto marido e ajude os escravos e servos miseráveis desta cidade.

- E sta louco? Sabe como obtive tudo isso?

-Sei. e é exatamente por saber que sugiro: desfaça-se desses bens o mais depressa possível em favor dos sofredores. E a única maneira de ter de ser livrar da maldição que os acompanha.

- Maldição para mim é viver sem dinheiro para o essencial, é ter de ser vendida a qualquer soldado grego, troiano, espartano, egípcio

- Se de fato se importa com isso, bem sabe que agora está no Egito, cujas ieis garantem à mulher o direito ao divórcio, que em seu caso teria o respaldo do próprio faraó. Portanto, se continua assim é porque não lhe e tão desagradável. A quem pensa que engana, Dimitrula?

A moça abaixou a cabeça e, sem fitar os olhos do sábio, pediu em tom de súplica:

- Afaste esses demônios de mim.

- Poderia fazê-lo, mas de nada adiantará expulsar os ladrões se porta não for selada; eles voltarão, em número ainda maior, e enquanto houver algo a ser saqueado permanecerão. Quanto a você, Sobeknefru, comece a levar a sério a sua função de sacerdote de Ra e pare de se associar com gênios maliciosos e levianos, mundanos e atrapalhados, ceio jeito não têm conhecimento nem autoridade para resolver os imprevistos causados por eles.

- Isto não tem a ver com meus assessores. Minha hóspede desmaiou e nada a fazia acordar, pensei que pudesse ajudar...

Sua voz denotava inveja pela sabedoria de Haemon, que, apesar de ignorar o pormenor, era tido como rival.

- Asseguro-lhe que tem a ver com eles, sim; e pensou certo, tanto sua hóspede está acordada.

Sobeknefru engoliu em seco e fez cara de escárnio para as costas de Haemon, que saía de sua residência-templo.

Aproveitando a ausência do sacerdote íntegro, dono da autoridade de quem faz o que prega, Azeneth regressou para o lado de Tula.

Procurando pelo filho no local onde havia mandado que se sentasse, mas não o encontrou. Cordato e influenciável, Apepe aceitara o conselho de Haemon e seguira um trabalhador do plano espiritual que viera em seu auxílio, conduzindo-o para posto de socorro a fim de tratar dos efeitos do veneno que ainda sentia no corpo espiritual.

- Onde está meu filho?

Tula não a ouviu. Entretanto, pôs-se a olhar para o corpo sem vida sobre o leito e sentiu profunda tristeza. A dor do coração de mãe separada do rebento era captada pela suposta nora, que a registrava como remorso gigantesco, já que pesar ou amor pelo finado estava longe de sentir. A jovem grega deitou o rosto no peito do morto em pranto descontrolado. A sensação que tinha era de que uma parte de si mesma estava morta, aniquilada naquele catre. Era dor desesperadora quase física, rasgando-lhe o peito. Sobeknefru aproximou-se da comparsa sem entender aquele arroubo.

- Por que chora assim? Se queria realmente se casar com o retardado, por que não o fez ao invés de matá-lo?

- Eu não queria me casar com ele, até porque já sou casada. Não me arrependo de tê-lo sugerido para a experiência. Não obstante, olhando para ele aqui, morto, de expressão desfigurada pela agonia, não pode ter a noção exata da dor que sinto. Parece que Apepe foi a pessoa que mais amei em toda a minha desgraçada vida. Sinto meu mundo ruir em torno deste cadáver.

- Não a compreendo!

- Nem eu, amigo, nem eu.

- Vamos tomar as providências com o corpo?

Em um gesto brusco e preciso Tula se agarrou ao cadáver, berrando feito louca.

- Não! Nunca deixarei que tranque meu querido Apepe em uma tumba minúscula e sombria, para apodrecer a estas temperaturas infernais do deserto.

- E o que sugere, viuvinha?

- Quero que seja embalsamado e continue em sua casa.

- Acha que poderá mumificar um pobretão?
Tenho certeza quanto a isso, pois bem sei que você é excelente mumificador.

- Primeiro, não sou tão bom nisso; é propaganda enganosa que eu, claro, fiz de mim mesmo. Segundo, acha que faço isso de graça?

- Terceiro, acha que não tenho como lhe pagar? Acredita que sou uma pobretona da Grécia?

- Moeda grega de nada me vale.

-Tenho ouro e prata,joias e as terras de meu falecido marido.

-Terras.... Agora começa a falar meu idioma. Vamos então mumi-ficar o rei Apepe.

- Depois das exéquias. Mande alguém buscar Kyia. É a única pessoa que conheço neste reino, e preciso de ajuda.

Kyia sentou-se sob uma palmeira, em um dos raros locais em que havia vegetação densa, e recostando o corpo em seu caule fechou os olhos, na vã tentativa de esquecer o tumultuado dia que caminhava para o meio. Não prestaria o segundo culto, estava furiosa com Ra. Como pudera permitir que Proteu saísse de sua casa sem se despedir dela? Talvez nunca mais estivesse com o guerreiro, talvez nunca mais o visse. Por que não o abraçara enquanto estava perto? Por que não o fizera quando o grego dormia? Não. Definitivamente não prestaria culto, Ra falhara com ela. E agora quem a soltaria de tão estranhos elos? Trocaria tudo que tinha e em que acreditava pelo tão falado libertador que, afirmava Afra, viria para livrar o povo de Israel da opressão ao redor do mundo todo. Se esse guerreiro hebreu a incluísse em seus planos de libertação, a despeito de ser egípcia...

Ouviu passos na vegetação rasteira, pareciam pés desprovidos de sapatos. Em um átimo pediu mil perdões a Ra: em sua frente estava Proteu de Mileto. Seu rosto era invisível por estar contra o disco solar do quase meio-dia, mas a esposa de Kenefer, conhecia a compleição da qual cuidara por tantos dias. A figura também não usava o chanti e sim uma curta túnica grega, branca, cingida na cintura. Os cabelos, naturais, estavam amarrados num rabo de cavalo e em um dos braços Oliva repousava como se ali houvesse nascido.

Que maravilha a tranquilidade de nada ter a fazer! Cansada? Vejo que se entrega totalmente aos braços de Morfeu14.

- Na falta de outro deus! Nem todos têm a sorte de Menelau15.

- Crê que ele foi mais feliz descobrindo o futuro que se entregando a um sono reconfortante?

- Não exatamente. Acho que se é mais feliz entregue aos braços de Proteu.

- E o que quer saber para desejar abraçar-se a Proteu? Menelau teve de apertá-lo muito, e precisou do auxílio de dois soldados, a fim de convencê-lo a contar como voltaria para Esparta.

- Garanto que não preciso de ajuda para abraçar o semideus, visto que não pretendo impedir que ele se metamorfoseie no que bem quiser.

Sem dizer uma só palavra, Proteu soltou Oliva e abriu os braços para Kyia, que também calada se jogou no abraço do mercenário grego, ali ficando por longo tempo inteiramente entregue. Parecia ter saltado a outra dimensão quando ouviu seu cochicho.

- Acho que me estou transformando em menino.

- Disseram-me que Proteu sempre se transforma em coisas medonhas e assustadoras.

- Isso depende de quem o abraça.

- Aonde vai, Proteu de Mileto?

- Vim vê-la.

- E como sabia que eu estava aqui?

- Esqueceu que tenho conhecimento do passado, do futuro e do presente?

- Como esquecer que estou diante do filho de Poseidon?

- Gracejos à parte, venho agradecer-lhe pela dedicação e dizer adeus, porque partiremos em alguns dias. Tornarei a procurá-la assim
14 Morfeu é o deus grego dos sonhos.

15 Menelau, na mitologia grega, foi um rei lendário da Lacedemónia (Esparta), irmão mais novo de Agamémnon e filho de Atreu. O rapto da sua mulher (Helena) por Páris (também conhecido como Alexandre), deu origem à Guerra de Troia. Depois da queda de Troia, recuperou sua esposa.
que voltar com a cabeça do general persa para o faraó, ocasião em que direi a ele que a case com seu filho.

- Quero que saiba que não mais exijo isso de você em troca de meu silêncio. Nada direi do ocorrido, e não quero pagamento pelo cuidado que lhe dispensei. Acredite, fiz porque quis, e me senti bem cuidando de você.

- Eu acredito se me diz, mas faço questão de manter minha promessa.

- É isso que quer mesmo?

- Não, na verdade preferiria pedir Nefertari como prêmio. E quanto a você, é isto mesmo que quer? Isentar-me da promessa?

- Não, quero que peça ao faraó que me una ao herdeiro.

- Assim será.

- Bom, então adeus, Proteu de Mileto.

- Adeus, Kyia.

Ela havia trocado alguns passos quando ouviu o grego chamá-la.

- Kyia, esqueci realmente a que vim. Desculpe-me! Tula pede sua presença no templo de Sobeknefru; disse que alguém morreu.

- Obrigada, vou para lá.

Respondeu ainda de costas, sem fitá-lo. Não gostaria que ele visse sua tristeza ao descobrir que desejava a propriedade da dançarina. E, o pior, viera para trazer um recado e não por querer vê-la como havia dito antes.

Proteu também não queria olhar em seu rosto; temia que ela percebesse sua desolação. Dissera querer abraçá-lo sem ajuda, porém pretendia casar-se com Neferites II.

Dali Kyia seguiu ao encontro de Tula. Ao adentrar o aposento não conseguiu crer no que viu. A grega, sentada no chão, com a cabeça recostada no peito do morto, tinha o corpo sacudido por violentos soluços, os cabelos em completo desalinho e o nariz totalmente obstruído. Como podia a amiga estar sofrendo tanto, se acontecera precisamente como planejado?

O que Kyia não tinha olhos de ver era Azeneth sentada do lado oposto, transmitindo a Tula a imensidão da dor e da mágoa causadas pela “perda” do filho tão carente de proteção. A pobre mãe imaginava-o passando por todo tipo de escárnio, privação e violência, e seu estado de desespero era superlativo, atingindo as raias do inimaginável; e Tula sentia-se do mesmo jeito devido ao intercâmbio medi-único que se instalara entre as duas, caminhando para um doloroso processo obsessivo.

- Tula!

- Kyia, Apepe está morto.

- É isso o esperado de quem toma a tal poção.

- De fato, porém não sei o que se passa comigo. Nunca imagine: que o amasse tanto, que sua morte me trouxesse este desalento. Não posso explicar, mas sinto que vou morrer de dor.

- Que loucura! Por que então não se casou com ele ao invés de matá-lo?

Em choro gritado, ela deitou-se novamente sobre o cadáver.

- Ajude-nos a mumificar Apepe!

- Mumificá-lo? Ele nem é nobre.

- Para mim é — seu tom de voz era agressivo.

Graças à sua insistência, assim foi feito. O corpo de Apepe foi levado pelo sacerdote e as duas companheiras para o início do ritual da mumificação. Primeiro o cadáver foi colocado em uma câmara chamada ibu, o local de purificação, fora das dependências da casa-templo. Sobeknefru foi em busca de Tefnut, sacerdotisa competente na arte do culto aos mortos e da fabricação dos jarros para acomodação dos órgãos internos que deveríam ser entregues aos cuidados de deuses específicos. Tula e Kyia lavaram o corpo com essências aromáticas e água do Nilo.

Logo que chegou, Sobeknefru principiou os procedimentos da mumificação, que levariam para se completar, cerca de quarenta dias. Depois que o sacerdote terminou os procedimentos de preparação dc cadáver, Tefnut fez seus cantos, rezas e rituais, tão ao gosto da época e de um povo que cultuava mais a morte do que a própria vida, crendo erroneamente que todos esses costumes garantiríam a entrada num paraíso perfeito. Independentemente de como viviam, o importante era como morriam.
O sarcófago destinado à múmia, apesar das advertências dos dois sacerdotes, foi levado para o quarto de Tula.

Os companheiros se entreolharam, preocupados.

- Não quero um sarcófago em minha casa.

- O quarto é meu. Pago por ele bem mais do que vale, guardo ali ? que quiser.

- Posso pedir que o desocupe.

- Quanto a mim, posso abrir a boca sobre a deusa cultuada aqui, e sua homônima Tefnut, sabendo ambos que em todo o Egito só se cultua Amon-Ra.

Sobeknefru engoliu em seco. A sacerdotisa disse que não tinha nada a ver com isso, não era dona do quarto que a outra queria fazer de tumba.

Ameaçado em sua integridade profissional e provavelmente física, Sobeknefru, ainda que sentindo certo temor, concordou em guardar em casa o inusitado e macabro esquife.

Capítulo 10

Na hora da ceia em casa de Kenefer, após lavarem as mãos como Afra fazia questão, todos comiam o pão de centeio em silêncio respeitoso ao Deus único que a dona da casa acreditava estar à mesa. Foi quando a voz estridente da segunda esposa quebrou o estado de beatitude do restante da família.

- Kenefer, conhece um trabalhador da tumba, um aprendiz que atende por Rudamon?

- Sim. É um bom rapaz, nascido e criado em Tebas e com grande aptidão para as artes; tem futuro inclusive como escriba.

- Espero que tenha mesmo e não saia como o seu mestre, o único escriba que virou artesão pobre do Egito. Já reparou nisso, Afra? Nosso marido é o único escriba pobre que existe por estas paragens.

- Qual é o problema em ser pobre? Kenefer faz aquilo de que gosta.

-As esposas de outros escribas nem sabem onde fica uma plantação.

- E qual o problema de trabalhar?

- Nenhum, desde que em sua profissão. Escribas são escribas, artesãos são artesãos. Francamente, Afra, se não vê problema em ser pobre e ter de cultivar o centeio para comer esta droga de pão, não tem a mínima percepção do que é felicidade.

- Felicidade não é ter posses.

- E o que é, então? Não venha com esse seu deus a dizer que isso é para depois da morte; falo de enquanto estamos vivas.

— Tudo bem, e que tal ter saúde? De que adianta ter posses e ser doente, sofrer tantas dores que nos impedem de aproveitar essas coisas?

Quando se tem ouro e prata, paga-se aos melhores médicos e sacerdotes.

- E caso se trate de doença incurável? O que mais lhe valerá: segu--ir na hora extrema uma barra de ouro ou a mão de alguém que a ama?

- Se estiver morrendo de nada me valerá o ouro, tampouco a mão de quem quer que seja. Nem mesmo do tal deus único.

— Blasfema!

- Simplória!

- Parem as duas! - Kenefer falou severo. - Estamos à mesa e este momento é sagrado, seja qual for o deus cultuado.

O silêncio reinou novamente.

- Afinal, Kyia, por que perguntou sobre Rudamon?

- Gostaria de falar com ele, se o senhor permitir.

- O que deseja dele?

- Oh! Eu, nada. É que estive hoje no palácio à procura de Haemon e encontrei Netikerty, que disse ter uma mensagem para ele e pediu-me que a entregasse.

- E onde está a mensagem?

- Não pude pegar. Nefertari impediu a irmã de sair ao meu encontro.

- E o que quer dele, se não tem a mensagem?

- Fazer algumas perguntas.

- Kyia, fique longe desse triângulo obsceno. Aliás, fique longe daquelas irmãs, que onde se metem deixam um rastro de destruição. Sei que esse rapaz andou às voltas com a dançarina. Agora você diz que a outra tem uma mensagem para ele...

- Por Ra, esposo! Só desta vez. Vou me corroer de curiosidade; deixe-me falar com o rapaz!

- Não, nada disso lhe diz respeito. Pare com tantos escândalos ou desonrará minha pessoa. Imagine se permitirei que vá falar com um meu subordinado acerca de fornicações entre ele e duas gêmeas! Pare com esse assunto! Não, e não se fala mais nisso.

- Mas, Kenefer...

- Acabou, Kyia!
- Está bem. Sabe quando partem os mercenários para o enfrenta-mento com os persas?

- Não a data precisa. Breve, é o que comentam.

- Não acha que se preocupa com coisas que não lhe dizem respeito? - Nany perguntou desafiadora. - Por que não pensa em sua filha ou em fazer algo pela casa?

- Porque eu não desejo estragar as mãos, a pele ou os cabelos com serviço braçal. Não foi para isso que me casei com um escriba. Não é minha culpa se ele não integra a cúpula à qual pertence por direito.

- O que há com você hoje, Kyia? Já conseguiu se indispor com Afra e agora com Nany em uma só refeição. Goste ou não, aceite ou não, eu não pretendo fazer parte dessa cúpula de pobres poderes.

- Se me dão licença, não tenho mais fome.

- Acontece sempre depois que você come, não é? - Nany foi sarcástica.

- Nany! - ralhou o patriarca já no limite. - Pode ir descansar, Kyia; teve um dia complicado.

Quando se recolheu ao quarto da segunda esposa, ele não a encontrou dormindo como imaginava. Assustado, correu todos os aposentos da casa para achá-la em sono profundo no pequeno compartimento usado para armazenar lenha. Seu corpo tremia, ora pelo frio do deserto, ora pelos soluços de quem chorou convulsivamente.

Pleno de ternura, jogou a própria capa sobre o corpo da esposa. Pegando-a no colo, levou-a para o aposento aquecido e ainda sem acordá-la se abraçou a ela e adormeceu também.

Quem não dormiria naquela noite seria Sobeknefru. O fato de saber estar com um sarcófago ao lado de seu quarto era para o sacerdote tão desesperador quanto disparatado. “Onde já se viu um sacerdote mumificador ter medo de urnas mortuárias?”, perguntava--se no auge do pânico. A verdade era que o medo parecia maior que a razão. Sobeknefru suava frio. Levantou-se e pé ante pé, com esforço hercúleo, chegou aos aposentos de Tula. Esta, com a tampa do sarcófago afastada, conversava como se Apepe ou pelo menos o cadáver estivesse ali.
Querido, sou sua esposa, serei para sempre. Pedirei o divórcio a Péricles e viveremos em paz aqui, às margens do rio sagrado do faraó. Venha, vamos dormir, meu bem!

E simulando um abraço, exausta caiu no sono.

Sobeknefru não conseguia cerrar os olhos. Na câmara de purificação o barulho era infernal, a ponto de o sacerdote imaginar que Apepe continuava vivo, a despeito de estar sem os órgãos e coberto de sais. Afinal, o coração ficara intacto e, conforme supunham na época, era ele o responsável absoluto pela vida e pela inteligência. Precisava conferir. Segurando uma tocha bruxuleante, saiu para os fundos onde ficava a ibu. À porta da câmara chamou por Sechat. Depois pensou melhor e considerou se Hakor não estaria certo ao afirmar que todos os outros deuses eram mitos criados pela fantasia exacerbada dos ancestrais. Resolveu pedir ajuda a Ra. E ainda havia o deus dos hebreus, o deus dos jardins, uma projeção aceitável para quem vive em desertos... “Que todos me ajudem agora!”

O barulho de passos e objetos metálicos era claro, e por certo, Apepe estaria remexendo seus instrumentos cirúrgicos - pensava apavorado o sacerdote. Respirando fundo, com lágrimas a escorrer e se misturar ao suor, ele descerrou a porta e o silêncio se fez. O corpo permanecia no exato local em que o haviam colocado; sobre a maca via-se perfeitamente o amontoado de sal que o sacerdote fez questão de remexer, para conferir se ele estava ah. Tocou na altura da coxa e ao certificar-se cobriu-o rápido. Girou nos calcanhares e saiu; porém, mal fechou a porta atrás de si, a ba-rulheira recomeçou. Desorientado levou as mãos aos ouvidos.

- Deus do Egito, do Olimpo ou do Éden, não suportarei tamanha tortura! Meu corpo reclama por repouso; faça essa futura múmia parar.

- Sobeknefru, sacerdote que teme os espíritos, mumificador que teme corpos! Você é um fiasco!

- Sechat! Grande deusa! Ajude-me!

- É tudo que venho fazendo ao longo de tanto tempo. Por acaso não sou eu quem percebe o que querem seus clientes e sopro aos seus ouvidos? Não seja ingrato; não teria tanto ouro e prata se não fosse por mim, a maior sacerdotisa que já existiu em toda a terra do Nilo

- Eu sei, grande deusa. Por isso peço que me ajude a conter o mumificado.

- Acredita mesmo que aquela carcaça envenenada e oca está a fazer tanto barulho?

- Ao que parece...

- Aquele que a animava já não está presente, se bem que do jeitc que a outra o chama logo virá. Não é ele quem faz esse estardalhaço.

- Quem é, então? Faça alguma coisa. Sechat! - gritou para a entidade que ia sumindo a seus olhos. - Volte! Por favor, ajude-me!

Por um momento o barulho terminou e Sobeknefru, esgotado, correu para casa. Tula dormia tranquila e ele se jogou em seus aposentos. Deixou a tocha acesa para alguma eventualidade, e esta chegou na alta madrugada. Uma figura com os cabelos tampando todo o rosto e com o corpo envolto em faixas chorava baixinho, sentada a um cante de seu quarto. O pobre médium sentiu que ia desfalecer frente à visão apavorante. Fechou os olhos com força, mas a visão permanecia nítida. Os cabelos, bem como as faixas, estavam sujos e malcheirosos, e as mãos que sobressaíam das bandagens encardidas tinham aspecto ressequid:, como se apenas uma camada fina de pele fosse esticada sobre os ossos, num processo de mumificação.

A figura levantou-se e andou pelo cômodo, dando a impressão dc flutuar sobre fumaça esbranquiçada que lhe escondia os pés. Ao ver a. múmia sair de seu quarto, o sacerdote nem quis saber para onde fora; o que importava era que não estava mais ali. Todavia, o medo paralisader não lhe permitiría adormecer.

Tula dormia serena, estando o corpo espiritual elevado alguns centímetros sobre o próprio corpo. Temia afastar-se de seu refugio de carne, temia encontrar Azeneth outra vez. Sentira no início da noite uma. tranquilidade que atribuira à ausência da sogra, o que de fato procedia. Confusa, a mãe voltara à tumba da família no afã de esperar o filh: amado para, de acordo com a crença egípcia, viajarem juntos para ; paraíso perdido. Como o corpo dele não chegava, ela se pôs a procurar dentro da câmara mortuária, que, embora minúscula em comparação às dos faraós, seria enorme se confrontada com as da atualidade.
Na situação de espírito desencarnado podia visualizar corpos en--rrrados sob a areia, e não viu seu filho. Já se desesperava quando divisou - próprios despojos e soltou grito aterrorizante; estava horrível, parecia - imificada. Contudo, como seria possível se pessoas comuns, na qua--í totalidade, não passavam por esse processo? O que poucos egípcios ; ibiam na época era que as condições do deserto quente e seco mumi-ttcavam os corpos de forma natural, e praticamente tão bem quanto o método dos sacerdotes. A visão de seu corpo ressecado a fez sentir tal tual se plasmasse o seu perispírito à imagem de um cadáver mumifica-do. Voltou ao templo de Sechat. Se fora mumificada, o filho devia estar * endo também. Era ela que, na tentativa de afastar o natro para ver o rosto de Apepe, usando o fluido animalizado16 de Sobeknefru, fazia

rodo o estardalhaço, sem, no entanto, alcançar seu intento.

Ao nascer do sol Tula abriu os olhos devagar. Sentia-se ótima, havia dormido feito um bebê. Esticou-se como um felino e sorriu, rinalmente recobrara a normalidade. A visão do sarcófago lhe causou mal-estar e decidiu livrar-se dele, levá-lo para a ibu. Do que viu ao lado dele, porém, não seria fácil se livrar: Azeneth, com aspecto medonho de múmia, de costas para a parede, parecia incrustada nela; os cabelos se misturavam às pinturas rupestres que adornavam o quarto. Em uma visão aterradora, Azeneth se movimentava lentamente, como se a parede tosse líquida, dando um caráter ainda mais macabro à aparição.

O grito interminável da grega atraiu o insone sacerdote.

- Uma múmia horrível está em meu quarto! Faça alguma coisa. Não é um sacerdote?

- Eu também a vi em meu quarto. Não precisa entrar em pânico, é só uma múmia chorosa. Expulsei-a com apenas um gesto de mão -mentiu descaradamente.

- E mandou para o meu? Maldito! Agora expulse-a daqui.

- Onde está?

- Sumiu.
Neste caso nada há para fazer. Ela deve ter percebido minha presença e corrido de medo.

- Sobeknefru, consulte Sechat para saber se pode me casar com Apepe, estando ele no mundo dos mortos - Tula recebia forte influência de Azeneth.

- Pretende casar-se com uma múmia?

- Sim.

- Está maluca? Já não é casada?

- Pelas leis locais posso me divorciar. Principalmente sendo obrigada ao meretrício, como bem sabe.

- Sim; só que para se casar com um morto não é necessário o divórcio. Um morto é um morto. Eu acho.

- Consulte a deusa!

- O assunto não tem relação com deuses. Mas já que insiste voa fazer isso, e dou-lhe a resposta antes da quarentena do corpo.

- Obrigada, oráculo de Sechat!

Esse título massageava seu monstruoso ego e ficava bem mais fácil obter dele qualquer coisa. Azeneth, que já identificara a vaidade como seu ponto fraco, pela voz de Tula inflava sua vangloria para chegar onde queria. Casaria Apepe mesmo depois de morto. Invisível ao escândalo dos moradores do templo, ela começava a controlar as ações da dupla de assassinos do filho. Vingaria a covardia para com seu menino, isso não passaria em brancas nuvens.

Capítulo 11

O dia nas obras da necrópole de Hakor começava cedo. Mal o sol despon--ava, todos prestavam culto ao grande Ra e encetavam os serviços. Vestindo jm chanti masculino de cor branca, Kyia amarrou uma atadura sobre os •<ios e espalhou por cima um cosmético da cor da pele; cobriu os cabelos . m um adereço masculino e entrou no meio dos trabalhadores da tumba. Fingiu trabalhar ao lado de vários rapazes, até ouvir o nome de Rudamon.

- Você é Rudamon? - sussurrou.

- Sim; e você é uma mulher? - retrucou também num sussurro. -_• que fez com seus seios? Devem estar doendo muito!

- Isso não vem ao caso. Não olhe para mim, continue seu trabalho. C: nversaremos olhando para as paredes, certo?

- Quem é você?

- Não faça perguntas desnecessárias. Tenho algo urgente para tra-nsr com você. É sobre sua amada Netikerty.

- Nefertari?

- Espere... Você também trocou Netikerty pela irmã? Saiba que ela . aer apenas tumultuar a vida da gêmea; não gosta de você e tão logo o ica romper com ela sumirá de vez.

- Nada tenho com Netikerty, essa mulher é maluca completa. Disse-lhe que gosto da irmã e ela ameaçou contar ao faraó que venho —.e encontrando com sua favorita. Só não o fará se tivermos um relacionamento ou mesmo se eu não revelar a Nefertari sua investida.

- E o que você disse? Prometeu algo a ela?

- Não pude simplesmente dispensá-la. Se denunciar para o faraó, estarei morto.

Tem certeza do que me expôs? Não está confundindo as irmãs?

- Como confundir minha linda dançarina com aquele monstro apavorante chamado Netikerty?

- Somente para confirmar: você tem um romance com a bela dançarina do faraó e está sendo ameaçado pela sua irmã desajeitada?

- Exatamente!

- Mas ela me disse que...

- Tudo o mais é invenção de uma mente perigosa e invejosa.

- Está certo! Desculpe-me, Rudamon, e passe bem.

Kyia se achava no ápice da confusão. Afinal, quem era a vítima e quem era o algoz nesse mistério geminado? Se pelo menos encontrasse Haemon, ele talvez tivesse a explicação. Caminhou em busca de sombra, sentia-se derreter.

No meio da via pública, uma ruela forrada de areia, como todo o resto ao redor, havia pequeno jardim artificialmente conservado que enchia as vistas. Tratava-se da menina dos olhos de Hakor; segundo ele, seu poder trouxera um oásis para o coração do deserto. A terra usada para a plantação de flores e frutos fora transportada de longe por escravos e servos hebreus; a água vinha do Nilo em cântaros nas costas de servos do poder, aos quais chamaríamos hoje funcionários públicos.

Um espelho de água bem ao centro molhava a base da estátua de um peixe enorme e sujo de lodo. Árvores frutíferas balançavam ao som do vento e folhas e frutas caíam em compasso com o canto da brisa vinda de tantos mares que, afastando-se lentamente, haviam deixado suas areias como marca de uma estadia milenar... A sombra era quase total no jardim artificial, um convite ao descanso de corpos fatigados pelo calor intenso.

Sem lembrar que estava vestida como homem, com o tronco descoberto, a moça sentou-se sob uma romãzeira e com os dedos abriu uma fruta caída.

Um menino completamente nu, como era o costume e exigia o calor, pediu-lhe a fruta cheirosa e bela.

- Dou-lhe a fruta se me atender um mandado. Vá até os portões da casa do sábio Haemon e diga a ele que Kyia se encontra aqui e precisa muito de seu conselho.

Diante da aquiescência ela entregou a fruta, que arrancou um sorriso do pequeno de cabeça raspada.

Aguardou por alguns minutos que pareciam séculos. Os cabelos puxados para dentro do adereço em forma de cone começaram a fazer irder o couro cabeludo, e ela os soltou com alívio. Não ouviu passos, mas sim uma voz.

- Um servo deste gênero eu não deixaria trabalhar pesado. Por cue se veste feito homem, rainha do Egito? E o que a desespera e a faz chamar pelo meu irmão?

- Proteu! Não deveria estar treinando suas tropas?

- Elas estão a treinar e eu não preciso mais disso.

- Necessito da ajuda de Haemon, para desvendar o mistério das gêmeas.

- Por que elas lhe interessam tanto?

- Eu não sei. Que recado tem de seu irmão para mim?

- Não tenho recado algum. Vim correndo para chegar antes dele. Proteu de Mileto não é garoto de recados.

- Não foi o que me pareceu da última vez que o vi.

- Acreditou que fui para levar-lhe um recado de Tula? Quanta ingenuidade! Aceitei a incumbência por querer vê-la, a fim de agradecer pela temporada em que cuidou de mim. Pensei que houvesse dito. Admito que não falo tão bem o idioma local, mas supus que me fizera entender.

-Já havia agradecido em minha casa, isso não justifica.

- E o que espera que eu diga?

- Qual foi o motivo real que o trouxe até mim duas vezes seguidas.

- Queria ver você, Kyia. Apenas isto: queria vê-la. Sentia uma vontade incontrolável de ver seu rosto uma última vez.

- Por quê?

- Eu não sei.

- E mesmo com essa vontade de me ver ainda deseja a dançarina como prêmio?

- Quanto mais desejo ver você, mais desejo pedir a posse dela.

- Desejos incompatíveis os seus!
Não são, pois pedir Nefertari como prêmio é a única maneira de não casar você com o filho do faraó. Não pode avaliar a furia que se apossa de mim ao imaginar aquele ser pelado e abjeto desposá-la.

- Não me tome por falsa, mas, ultimamente, o casamento com Neferites II é a maior meta de minha vida. Não mais por ambicionar ser rainha e sim como ato de extremo desespero para impedir você de tomar Nefertari e levá-la para Atenas consigo.

- Por quê?

- Eu não sei também.

Proteu pensou por um segundo em tocar a esposa do artesão que o acolhera, desatar as faixas que a assemelhavam a um garoto imberbe e ter nos braços a mulher exuberante que sabia estar à sua frente. Percebia nos olhos pintados de Kyia que ela pensava a mesma coisa e que nem se importava de trair Kenefer.

Nesse instante, a voz de Haemon os devolveu à realidade.

- Kyia, o que aprontando desta vez? Veste-se feito um rapaz aprendiz de artesão. Que escândalo, uma mulher com o tronco desnudo! Pobre Kenefer. Deve ter errado muito no passado para merecer você como esposa! Proteu, o que faz aqui? Achei que estivesse em sono profundo.

- Acordei cedo, irmão; estou me habituando como os egípcios.

- Faz muito bem. Levantar antes do sol é uma verdadeira poção de vida longa. Agora, se me dá licença, preciso falar com a esposa de meu amigo - deu ênfase às palavras esposa, meu e amigo.

O guerreiro saiu em seguida.

- Então, Kyia, precisa de mim para quê?

- Sei o tamanho de minha pretensão ao pedir conselho ao conselheiro do grande Ra. No entanto, não foi a este que chamei. Cham : pelo amigo de Kenefer que pretendo seja igualmente meu.

- Embora não acredite, sempre fui seu amigo. Até quando parecíí querer prejudicá-la, era em seu crescimento individual que eu pensava E certo que a princípio tive vontade de matá-la para libertar meu pobre amigo de seu jugo, mas foi com o próprio Kenefer que mais tarãí aprendi a reconhecer o quanto você precisa dele. Não só dele e de s sabedoria, como da docilidade do coração de Afra e da meiguice dc via. Tirar-lhe essa convivência seria deixar perder-se uma alma incauta, sofredora e ignorante ao extremo.

- Ignorante, eu? Não sou ignorante. Sei exatamente quais as pro-rorções de meus atos e meus planos que, apesar de mirabolantes, têm ;abimento. Não sou ignorante, não.

- De tão ignorante, é capaz de ignorar os próprios sentimentos. Do contrário, não respondería “eu não sei” à pergunta de Proteu.

- Eu não sei mesmo.

- Acredito. É a maneira que você tem de negar um bom sentimento. Aliás, que os dois têm de negar que sentem coisas boas. Acham que se sentirem algo bom se tornarão fracos em sua função de conseguir o tue querem a qualquer preço.

- Haemon, estou angustiada. Não sei se o que diz é verdade, mas seu irmão me perturba; estou em desespero por imaginar que ao fim da guerra ele vai voltar para Atenas e, o pior, levando a dançarina. Não sei ? que é isto.

- Tem certeza de que não sabe?

- Não. O que faço com esta inquietação?

- Em primeiro lugar acalme o seu coração. Ao que me parece, Proteu compartilha essa “inquietação”. Espere. Quando duas almas se inquietam juntas, tendem a se aquietar unidas. Isso se não meterem os oés pelas mãos. Prometa-me tomar juízo que eu resolverei esse impasse. Kenefer não hesitará em dar-lhe o divórcio, se souber que será feliz ao Lado de alguém a quem ama e que a ama também.

- Acontece que Proteu me disse certa vez que só se casaria com uma grega.

- Não se preocupe, meu irmão faz apenas o que seu coração manda. E se isso era o que ele mandava naquele momento, já não garanto que é o que diz agora. Espere e confie, tudo sairá a contento. Mas não foi por isso que me chamou, visto que nem queria tomar conhecimento do que sente.

- Na verdade não era mesmo o que eu queria falar com você, ainda que fosse o que mais precisava esclarecer. Tinha, sim, outro assunto: Nefertari e Netikerty.
O rosto do sábio mostrou sobressalto. Os olhos se arregalaram e a boca permaneceu aberta.

- O que há com elas?

- Um mistério impressionante as envolve, não sei bem o quê. Além, é claro, do pedido que uma delas fez a Proteu.

- Por todos os deuses nos quais acredita, Kyia, fique longe delas. É a única garantia de eu poder ajudá-la; a convivência dessas moças deixa um rastro de destruição. Digo isso porque as conheço bem; muito embora não possa dar-lhe detalhes de quão perniciosa é a proximidade delas. Mas asseguro-lhe que a melhor coisa a se fazer é manter distância. O mesmo aconselhei a meu irmão, e espero que me ouça, ou haverá uma tragédia sem precedentes.

- Que coisa, Haemon! Conseguiu foi aguçar meu desejo de investigar esse enigma.

- Não queira chorar depois, alegando inocência. A advertência é séria: afaste-se delas.

- Dê-me apenas um motivo concreto e me afasto.

- Eu não tenho de negociar com você sua própria felicidade e segurança, menina insensata! Afaste-se ou perca-se, a decisão é sua. Você gosta de brincar de ser cruel, eu sei; talvez sua sorte seja lhe faltar inteligência para tal. Se você se acha a encarnação da esperteza e do mal, creia: as gêmeas são inteligentes e verdadeiras predadoras sociais; são capazes de enredá-la em uma teia de onde nunca mais sairá, e ainda tirarão muitas vantagens em cima disso.

- Qual delas é a perversa inescrupulosa?

- As duas.

Após a conversa com Haemon, a jovem procurou domar seu comportamento intempestivo e aventureiro. Esteve com as gêmeas e não tocou no assunto de Rudamon. Sabia que a dançarina alegaria não existir a irmã e esta, por sua vez, teria uma explicação convincente para manter-se na posição de vítima e colocar a outra na de algoz. Por isso declarou sem rodeios que nada tinha para falar com as duas e que não levaria uma mensagem para alguém que trabalhava junto a Kenefer, pois ele a repreendería rigidamente.
- Tem certeza do que me expôs? Não está confundindo as irmãs?

- Como confundir minha linda dançarina com aquele monstro apavorante chamado Netikerty?

- Somente para confirmar: você tem um romance com a bela dançarina do faraó e está sendo ameaçado pela sua irmã desajeitada?

- Exatamente!

- Mas ela me disse que...

- Tudo o mais é invenção de uma mente perigosa e invejosa.

- Está certo! Desculpe-me, Rudamon, e passe bem.

Kyia se achava no ápice da confusão. Afinal, quem era a vítima e quem era o algoz nesse mistério geminado? Se pelo menos encontrasse Haemon, ele talvez tivesse a explicação. Caminhou em busca de sombra, sentia-se derreter.

No meio da via pública, uma ruela forrada de areia, como todo o resto ao redor, havia pequeno jardim artificialmente conservado que enchia as vistas. Tratava-se da menina dos olhos de Hakor; segundo ele, seu poder trouxera um oásis para o coração do deserto. A terra usada para a plantação de flores e frutos fora transportada de longe por escravos e servos hebreus; a água vinha do Nilo em cântaros nas costas de servos do poder, aos quais chamaríamos hoje funcionários públicos.

Um espelho de água bem ao centro molhava a base da estátua de um peixe enorme e sujo de lodo. Árvores frutíferas balançavam ao som do vento e folhas e frutas caíam em compasso com o canto da brisa vinda de tantos mares que, afastando-se lentamente, haviam deixado suas areias como marca de uma estadia milenar... A sombra era quase total no jardim artificial, um convite ao descanso de corpos fatigados pelo calor intenso.

Sem lembrar que estava vestida como homem, com o tronco descoberto, a moça sentou-se sob uma romãzeira e com os dedos abriu uma fruta caída.

Um menino completamente nu, como era o costume e exigia o calor, pediu-lhe a fruta cheirosa e bela.

- Dou-lhe a fruta se me atender um mandado. Vá até os portões da casa do sábio Haemon e diga a ele que Kyia se encontra aqui e precisa muito de seu conselho.
Os persas investiram novamente contra o Egito. Proteu partiu levando Oliva dentro de um bornal que pendurou no pescoço, e não a tiracolo, para que o felino ficasse ao alcance de sua visão. Kyia assistiu à partida de longe. O pôr do sol já se consumara e o brilho dos olhos do felino assemelhava-se ao de dois faróis esverdeados. Não podendo dizer adeus, Proteu limitou-se a elevar a destra antes de se perder sob as proteções de guerreiro grego.

O numeroso exército persa chegou pelo delta e, para grande desolação dos judeus, marchava a caminho do Sinai. A costa norte do mar Vermelho também sofreu sua invasão e assim o baixo Egito parecia receber as visitas persas.

O exército egípcio, embora desajeitado, era também numeroso e com o reforço e a instrução dos mercenários gregos as batalhas seguiam equilibradas. Os pares de Proteu tinham por meta essencial não deixar os invasores ganharem terra para o lado das cidades do faraó. Portanto, empurravam-nos para as águas dos mares Mediterrâneo e Vermelho, que a essa altura fazia jus ao nome.

Os dias passavam morosos. A quarentena do cadáver de Apepe chegara ao fim quando Tula procurou por Kyia. Atônita, a amiga ouviu as pretensões da outra. Notava-se claramente que o processo obsessivo da grega estava em nível assustador; na maior parte do tempo as decisões eram tomadas pela desencarnada. Se havia mais de quarenta dias que o processo se instalara, eram cerca de mil horas de perseguição ininterrupta e implacável, que minava as energias de Tula.

Azeneth queria que a moça cumprisse a promessa do engodo cruel que atraíra o filho ingênuo para a morte, além de vingar-se da assassina dele. À ação inescrupulosa de Dimitrula aliavam-se o sentimento de culpa e o remorso latentes, abrindo os canais da obsessão sem trégua. E o resultado foram duas mentes que se uniram para evocar a criatura morta cruelmente no templo de Sechat.

- Casar-se com uma múmia? Está totalmente louca, Tula?

- Não, eu disse que me casaria com ele. Era seu maior sonho. Não posso negar isso a Apepe.

- Como? Ele está morto.
- E uma parcela desta culpa é sua, desgraçada!

- O que é isso, Tula?

- Foi você quem me sugeriu colocar Apepe em meu lugar.

- E precisa me ofender?

- Não... Não sei o que se passa. Às vezes digo o que não quero, falo o que não sinto. Estou muito nervosa com tantas ocorrências: a partida de Péricles, a morte de Apepe, a múmia... Oh, quase me esqueço! A mumificação de Apepe, precisamos terminar hoje.

- E de que múmia estava falando, se não a dele?

- Claro, ainda não contei, pois você desapareceu. Há uma múmia horrível e fétida a perambular pelo templo, dia e noite; a coisa nojenta não dorme e não descansa. Há dias em que a vejo do nascente ao poente e ao nascente de novo; às vezes fico vários dias sem vê-la. O mesmo sucede a Sobeknefru. No começo eu chegava a me urinar de medo; agora já me acostumei.

- Mas isso não pode acontecer. Acostumar-se com uma múmia pela casa! Peça ajuda de Haemon.

- Quero aquele demônio longe de mim, de meu marido e de minha casa! Se ele aparecer por perto sou capaz de matá-lo também. Nada conte a ele. Quer que eu fique sem nada do que é meu, acha que devo doar meus bens aos escravos e servos miseráveis. Faça-me o favor! Vamos, precisamos tratar o corpo de Apepe.

As duas caminharam em silêncio. Kyia estava apreensiva a respeito da amiga. Pouco mais de um mês não era tempo suficiente para mudar tanto o comportamento de uma pessoa. Pensava na própria experiência. Prometera a Haemon lapidar seus maus costumes, mas muito pouco progresso se via. Patinava em seus hábitos arraigados sabe-se desde quando... Como podia Tula estar tão diferente?

A jovem egípcia começava a arrepender-se do compromisso assumido de ajudar nesse processo tão tétrico, ainda que a parte realmente deplorável fosse a dos sacerdotes; lavar defuntos a estava impressionando negativamente. Pelo menos faltava pouco... Nunca mais faria isso.

As amigas retiraram todo o sal e descobriram o corpo. Lavaram-no com água do Nilo e o ungiram com óleos aromáticos para devolver um pouco de vitalidade e elasticidade à pele ressecada e morta. Enrolaram em linho os órgãos internos e os deixaram ao lado do corpo para esperar pelos sacerdotes, que os guardariam e procederíam ao enrolamento da múmia.

Tefnut proferia seus encantamentos à cabeceira do morto, crente de que isso o livraria dos maus espíritos, enquanto Sobeknefru, com a ajuda das duas moças, iniciava o paciente serviço. Primeiro a cabeça e o pescoço, depois cada dedo separadamente; amarrou os braços e pernas juntos, enquanto envolvia o corpo. Amuletos iam sendo postos entre as faixas embebidas em cola para mantê-las úmidas, e nas mãos ele colocou um rolo de papiro contendo as escritas do Livro dos Mortos. A seguir vestiu a múmia com uma túnica de linho sobre a qual estava pintada a figura de Sechat; por cima outra túnica e de novo faixas de Unho da cabeça aos pés, cruzando sobre o peito. Então, com a ajuda das amigas, ajeitou a múmia dentro de uma proteção de madeira e finalmente no sarcófago que lhe tirara o sono por quarenta noites.

- Agora - disse o sacerdote - podemos fazer os funerais e o sepul-tamento como manda a tradição. Tula, separe algumas joias, roupas e objetos pessoais, além de comida, para levar até a tumba com a múmia.

- Acaso não lhe disse que me casarei com Apepe? Como pretende que eu o meta em tumba de pedra e o cubra com areia escaldante? Quero meu marido em meus aposentos sem demora!

- Enlouqueceu, grega? Guardar uma múmia em casa é o maior atrativo para maus presságios; uma maldição sem limites se abaterá sobre esta casa.

— Bobagens... Não me contrariem. Sabem muito bem que posso fazê-los virar múmias rapidinho, se Hakor souber que vocês desobedecem a seu decreto do deus único.

- Faça como quiser, sua tola! Adianto-lhe que faraós vêm e vão; cada um decreta um deus ou vários em seu reinado. Quando Hakor deixar o trono, sabe-se lá quem será o deus ou serão os deuses do Egito!... Vem sendo assim desde milênios, desde a primeira dinastia de Narmer Hetepsekhemwy. Os deuses variam, os faraós e suas capitais também. Entretanto, uma maldição pode sobreviver a faraós e seus deuses favoritos, pode sobreviver inclusive ao amaldiçoado.
Tudo bem, eu arrisco.

Diante de uma Kyia estupefata e dois sacerdotes apreensivos e impotentes, o sarcófago com forma humana foi levado para o quarto de Tula e depositado ao lado de sua cama. Os funerais, bem como o sepul-tamento, foram desprezados.

Durante os primeiros dias seguintes todos tentaram demover a grega da estapafúrdia ideia de manter um corpo embalsamado no próprio aposento, e ainda se casar legalmente com ele.

Afra, em sua docilidade extrema, nada conseguiu da obstinada noiva; Haemon ela sequer recebeu; com Kyia ameaçou cortar relações; e aos sacerdotes acenou com delação para o faraó. Dessa maneira, alguns dias depois Sobeknefru e Tefnut presidiam a funesta cerimônia. Kyia, sob protestos da amiga, veemente se negara a assistir à medonha solenidade; e na falta de qualquer outro conviva da noiva o casamento foi celebrado sem assistência - com exceção da mãe do noivo, que seguia influenciando Tula.

O casal de sacerdotes recitava seus rituais que tratavam da unificação de corpos e almas. Não que algum ritual tenha tal força. E que as mentes da dupla, acreditando fielmente nesse poder, aliadas à força do pensamento de ter o filho de volta, que emanava de Azeneth, e ao desejo ativo que Tula sentia pela presença do noivo, criaram corrente vibratória intensa endereçada ao já desassossegado Apepe. Este, embora aceitasse o socorro, não se desligara das mulheres que amava e não resistiu aos chamados da mãe e da noiva que lhe prometia fidelidade eterna. Apesar de tudo ser feito para convencê-lo do contrário, deixou a colônia espiritual onde fora abrigado e voltou para onde deixara o corpo.

Por mais que ele tentasse interagir com a mãe e a esposa, as duas, vibrando em níveis diversos, não o percebiam em espírito, transferindo assim a atenção e o afeto para seus restos mumificados. Isso confundia o pobre noivo, que chegou na hora exata do casamento, bem a tempo de responder às perguntas feitas simbolicamente à múmia.

- Apepe, recebe Dimitrula como sua esposa, companheira de quem nada o separará, a quem amará e protegerá, manterá em todas as necessidades, será dono e senhor, amado e amante, amigo e sócio para todo o sempre do sempre e sempre?

- Recebo - a audição do sacerdote captou a resposta que ele julgou ser obra de sua imaginação.

- Dimitrula, recebe Apepe como seu esposo, companheiro de quem nada a separará, a quem amará e protegerá, será fiel, sua legítima propriedade, amada e amante, amiga e sócia para todo o sempre do sempre e sempre?

- Recebo.

- Por todo o poder de que fui investido pelo faraó e pela deusa Sechat, patrona deste templo, eu, o sacerdote Sobeknefru, juntamente com a sacerdotisa Tefnut, declaro a união desta mulher e desta mum..., quer dizer, deste homem legítima em todos os seus aspectos.

Sabendo serem os nubentes uma grega que nada entendia de cerimonial egípcio e uma múmia, poupou-se de trabalho e deu por encerrado o ritual. Correu para o quarto e fez sério apelo a Sechat no sentido de que trouxesse de volta os guerreiros gregos para que, dotado dos poderes de marido, Péricles chamasse a esposa à razão e, o melhor, a levasse para a Grécia. Aí, sim, procuraria esquecer essa loucura na qual Kyia transformara sua vida ao conduzir até ele aquela grega doente dos miolos.

A partir daquele momento a vida de Sobeknefru realmente fora tomada por loucura completa. Uma múmia que andava flutuando, uma que permanecia estática, uma grega que falava, comia e dormia com ela, falava, chorava e berrava durante o sono e não poucas vezes espancava paredes e móveis como se batesse em alguém odiado ao extremo. Tendo as energias sugadas pelos desencarnados,Tula definhava velozmente; os dias sucediam as noites e seu estado piorava.

Capítulo 12

Naquele período de conflitos chegara de Atenas para o alojamento vazio mensagem destinada aos mercenários. Esta caiu nas mãos de Tula, que se apressou a mandar chamar por Kyia. O conteúdo da mensagem advertia os guerreiros, ameaçando-os de expatriação e até de pena de morte caso não retornassem rapidamente à cidade-estado. O envolvimento de atenienses naquela guerra poderia indispor o numeroso exército persa com uma já tão maltratada Atenas que, a bem da verdade, tinha uma aliança com a Pérsia.

O general persa Farnabazo fez questão de lembrar tal fato à alta cúpula de guerra da cidade, em sua ameaça velada em forma de protesto contra o massacre de suas tropas, que acontecia às margens do mar Vermellho. Atenas avisou ainda que enviaria, como prova de que os mercenários agiam por conta própria, o bravo general Ifícrates com uma divisão de soldados atenienses para se aliar aos persas.

- Tula, como pode ler essas mensagens e nem se importar? É seu marido que está lá.

- Meu marido se encontra em nossos aposentos, de onde aliás nunca sai.

- Você só pode estar maluca. Deixará que uma emboscada de Atenas mate Péricles para mumificá-lo e guardá-lo em seu quarto?

- Prometi fidelidade absoluta a Apepe.

- Os mercenários gregos que lutam pelo Egito podem tomar Ifícrates como aliado e cair numa cilada de morte generalizada.

Ela manteve silêncio e a outra aduziu:
- Os persas entrarão e dominarão o Egito de alto a baixo. Perderemos nossa soberania, nossas casas e plantações, nossas vidas, enfim.

- Não é isso que teme, Kyia. Sei que pensa em Proteu de Mileto.

- E se for? Pelo menos penso em fazer algo por alguém vivo.

- Você não se importa com seu reino, nem à sua filha dá importância. Só está preocupada com Proteu. Fique em paz, ele é invulnerável.

- Ele não é um deus; é um homem de carne e osso que corre grave perigo.

- Mesmo que seja, o que eu posso fazer de concreto?

— Nem sei por que o mensageiro lhe entregou essa carta.

- Não seria por ser eu a única grega e ter relações com os mercenários?

- E o que me diz de Haemon?

- É alguém que saiu da Grécia há muitos anos e de quem um jovem mensageiro não tinha conhecimento. E se assim não fosse, ele é quase um faraó. Não é tão acessível... Você só tem esse acesso por Kenefer.

- Dê-me a mensagem e a levarei para ele.

Haemon se achava em uma das muitas obras em andamento do grande Hakor. Tratava-se de uma sala hipostila, uma verdadeira obra de arte composta de mais de cem colunas gigantes, destinada a ser um templo de Ra ligado ao faraó da XXIX dinastia para enaltecê-lo na posterioridade. Kyia entrou correndo; seus pés descalços sentiram o impacto do calor do sol nas pedras que calçavam o enorme templo.

- Mestre! - gritou ao ver o grego. - Tenho algo importante para tratar com o senhor.

- Quanta afoiteza! Parece que morreu alguém.

- É bem provável que aconteça, se uma providência não for tomada para ajudar seus compatriotas no mar Vermelho. Olhe para isto! - estendeu-lhe o couro onde estava a mensagem em grego.

- É realmente gravíssimo! Você foi muito útil ao faraó e ao Egito. Digo isso como profissional e como irmão; agradeço imensamente o favor que fez a Proteu.

- Cumpri minha obrigação como cidadã do Egito e meu desejo enquanto mulher. Faça algo, não deixe que ele sucumba nessa empreitada. Eu gastaria mil vidas para ter um sentimento bom novamente.
- Não creio que ficaria mil vidas sem encontrar Proteu. Esteja B tranquila, enviarei uma trinca de mensageiros a Proteu; dou-lhe notí- ^B

cias assim que as tiver. Faça orações para que tudo termine bem. ^B muit<

- Eu o farei, contanto que me diga do alto de sua sabedoria a quem ^B. endereçarei minhas orações. Qual é o deus mais poderoso? É certo que

o libertador dos judeus virá? E quando virá?

- Kyia, não existem vários deuses. Todas as crenças são monoteís-

tas na essência. ^^^B

- E o que me diz de seus compatriotas? Nunca vi tantos deuses ^^B'

etéreos e até de carne e osso em uma só doutrina. assin

- Contudo, sabe-se que Zeus é o maior e mais poderoso; os outros seriam ajudantes dele para cuidar do mundo. Que acha?

- Explique melhor. B

- Zeus seria então o nome dado ao deus único na Grécia.

Poseidon cuida do mar enquanto ele não decide o contrário, pois é ^^B znro o todo-poderoso e pode destituí-lo dessa função. Logo, ele ajuda ao deus único cuidando do mar. Assim se dá com Atenas, que colabora B na evolução cultural e científica da humanidade; com Asclépio que cuida das curas; com Hefesto que protege as artes... É o que igualmente ocorre com todos os ditos deuses, que são na verdade ajudantes do grande Zeus. E, tal como existem os bons ajudantes, há aqueles que ainda não se aliaram à boa causa de Zeus; são os gênios como Hades, que habita as zonas inferiores, os que se prendem às coisas mundanas como o sexo e o álcool - no caso, Eros e Dionísio - e até os brincalhões como Pan. Em resumo, existe somente um deus, que muda de nome de acordo com o local e seus adoradores, e suas criaturas em maior ou menor evolução.

- Isso significa que Ra, Zeus, Júpiter e mesmo Javé são uma só divindade?

- Digamos que sim. Tirando de alguns deles as características puramente humanas atribuídas por seus adoradores, são o Deus todo--poderoso, criador de todas as coisas e único em seus atributos.

- E nos ama?

- Incondicionalmente.
Conte isso aos gregos.

- Eles descobrirão depois da vinda da Estrela Maior; agora seria muito precoce.

- Ele vem?

- Sim, ele vem.

- Apenas para os judeus?

- Para a humanidade.

- Quando será?

- Quando alguns planetas alinharem suas órbitas, desprendendo assim energia suficiente para que a Terra suporte tamanha luz.

- Eu o verei?

- Talvez, se for merecedora e se fizer necessário à sua vivência.

- Então está quase chegando.

- Depende do ponto de vista. De acordo com meus estudos dos astros, será dentro de mais ou menos quatro séculos, com margem de erro de meio para mais ou para menos.

- Portanto, não vou vê-lo.

- Não nesse corpo.

- Mas o que fazer se preciso dele já?

- O fato de ele não estar em carne e osso não quer dizer que não esteja aqui. Ele está, sempre esteve; vive aqui, mesmo sem ser daqui.

- Como sabe disso tudo?

- Eu não sei efetivamente de onde vem este conhecimento sobre o libertador. Minha impressão é de que talvez tenha me informado a respeito de meu anfitrião antes de vir para esta casa.

- Haemon, você me confunde. Como me dirijo a esse deus?

- Ele não o é. Tanto quanto nós, foi criado por Deus; logo, é nosso irmão.

- Irmão? Que coisa complicada! Libertador, profeta, irmão...

- Desculpe-me se a sobrecarreguei com informações tão distantes de sua realidade. Ore em direção a quem quiser, você pode acreditar em Deus a seu modo. Viva os bons sentimentos em sua plenitude, deixe o amor aflorar em seu coração. Ame Proteu, ame as outras pessoas, os bichos e as plantas, ame o Egito, a Grécia, a Pérsia e Roma. Ame tudo que existe e será plena de seu próprio amor. Ninguém, além de nós mesmos, está tão pronto para nos amar de maneira irrestrita.

- Eu sei, Haemon, que o sentimento que nutro por seu irmão pode se estender a outras pessoas, desde que eu o cultive. E algo nobre e bom, faz que me preocupe com sua segurança e seu bem-estar, tenho vontade de abraçá-lo e parar o tempo. Envie o mensageiro com urgência, eu não aceito que ele morra.

- Durma em paz! Temos prazo razoavelmente superior a Atenas. Eles esperarão a resposta de Proteu antes de enviar os soldados; portanto, temos o tempo de volta do mensageiro até Atenas e o tempo de viagem dos gregos até o Sinai, de onde estamos muito mais perto. Ele voltará para Tebas e pelo jeito para ficar.

- Essa expatriação veio a calhar. Assim a profecia de Sobeknefru se perde como tudo que ele faz.

O sábio riu ternamente.

- Obrigado, Kyia. Espero que a Grande Estrela brilhe em seu coração, antes até de brilhar nos céus da Palestina.

Alguns dias depois Haemon procurou por Kyia, findo o terceiro culto a Ra.

-Tenho algo terrível para contar-lhe. Enviei três mensageiros, dos quais o último voltou dizendo terem sido os dois primeiros assassinados por soldados persas. A mensagem não havia sido entregue. Então enviei mais três e o mesmo aconteceu.

- Por que os terceiros não tentaram entregar a mensagem a Proteu?

- E no caso de serem mortos, como saberiamos que ela não chegara ao destino? E isso não é o pior. Procurei por Hakor e ao narrar toda a situação descobri que ele firmou uma aliança militar com o rei Evágoras, de Chipre. Com a rendição deste aos persas, Hakor se aliou ao comandante da frota persa, um homem chamado Glõs. Ou seja, para o faraó qualquer resultado dessa contenda está bom. Se os soldados de Proteu ganharem a guerra, ele pagará o que prometeu; se não, como existe o acordo com Glõs, manterá suas posições e não ajudará os mercenários gregos que lutam por ele.
E quanto aos persas pelo caminho dos mensageiros, como entraram?

- Ao sul, e Hakor sabe disso.

- Quem mais sabe?

- Além de Hakor, eu, Glõs e agora você. São assuntos do alto escalão que espero saiba guardar. Sinto muito, Kyia. O que nos resta é rezar por Proteu.

- Eu vou avisá-lo.

- Perdeu o juízo como sua amiga Tula? Sabe que pode ser morta ou levada como escrava para a Pérsia! É uma empreitada de altíssimo risco.

- Eu vou. Não posso deixar que matem Proteu. Sabe que sou procedente do norte e tenho documentos que provam ser das bandas do delta; é o que precisamos para transpor a barreira persa pelo caminho do Sinai. Serei alguém no rumo de casa; se persas se aliaram a Hakor, não matarão seus súditos só porque estão indo para casa.

- Quem irá acompanhá-la? O que dirá a seu marido?

- Pensei que me ajudaria nessa parte.

- Não podemos revelar os assuntos do faraó. Nada poderá ser dito.

- Eu vou sozinha. E quanto a Kenefer, peço o divórcio.

- Kyia, você pode morrer.

- Não me importa viver se Proteu for morto.

- Não está sendo passional em exagero? Mal conhece meu irmão.

- Você não sabe o que significa viver toda a vida a enganar, mentir e tirar proveito das pessoas. Não tem a mais remota ideia do que é não saber amar, cuidar e desejar o bem do outro. Eu levei vinte anos para querer o bem de alguém, esperando apenas a presença e o amor dessa pessoa em troca de sentimento tão arrebatador. Não, eu não vou abrir mão disso. Abro mão de viver esta vida de falcatruas e maldades, assassinatos e vantagens sobre os outros. Vejo em seu irmão alguém que pode mudar a natureza do que sinto; não o deixarei morrer. Não sei se isto chega a ser o amor que Afra diz sentir, mas sei que é algo novo e muito especial.

- É, sim, embora de forma rudimentar, pois o amor, quando em sua real essência, nada pede em troca, nem mesmo a presença e o amor do ser amado. Todavia, é um bom começo. Você é jovem e tem muita vida pela frente para aprender a amar.

-Já tenho vinte anos, Haemon, não sou mais tão jovem.

- Não falo da idade do corpo e sim do espírito. Parece uma cria deste mundo.

- E não somos todos?

- Ah, se todos pudessem ter a noção exata dos diferentes locais que existem na imensidão do cosmo! Verdadeiros paraísos nas estrelas.

- Como os jardins dos judeus?

- E as cidades maravilhosas e perfeitas dos gregos, ou os campos férteis dos romanos.

- E como conquistar esses locais?

- Mire-se nos exemplos que Deus lhe deu. Afra, de benignidade, e Kenefer, de retidão.

Ao notificar à família que se ausentaria por um tempo a fim de cumprir missão relevante e secreta, Kyia ouviu do marido:

- Que missão é essa?

- É secreta, querido Kenefer; nada posso adiantar.

- Não a autorizo a ausentar-se de casa sozinha, especialmente em tempos de guerra.

- Nesta circunstância, serei então obrigada a pedir o divórcio.

- Kyia!

- Afra, estou fazendo justamente o que me ensinou desde que aqui cheguei: abrindo mão de mim mesma para ajudar alguém.

- Deixe que ela se vá, papai! É a sua vontade e se a impedir pode até matá-lo.

- Nany, não seja cruel com Kyia.

Tomando a esposa pelo braço, levou-a ao seu aposento.

- Kyia, sabe que a amo de maneira sublime e que nada me interessa mais que sua felicidade e segurança. Se essa viagem a faz feliz en permito; contudo, a sua segurança entra em jogo. Pode avaliar com : me sinto?

- Sim, porém lhe pergunto: sua preocupação é maior com minha segurança ou com minha felicidade?
Com sua felicidade, minha querida. De que adianta viver seguro e infeliz? Mais vale ser feliz com alguns riscos.

- Então deixe-me ir, pois se minha missão não se cumprir nunca mais serei feliz.

- Vou arranjar provisões e companhia para você; ordenarei que Rudamon e Amunhotep a sigam armados. E que Ra não me faça arrepender desta loucura.

- Eu o amo, Kenefer. Mesmo que suas filhas duvidem, eu o amo muito. Preocupo-me com sua segurança e felicidade, não necessariamente nessa ordem.

- Eu acredito em você. Sei que me ama verdadeiramente.

Lágrimas escorreram pelo rosto alvo, lavando a maquiagem carregada dos egípcios da época.

- Se depender de mim nenhum mal sucederá a você, bom Kenefer - disse beijando-lhe as faces. - Não se inquiete, eu voltarei.

- Estarei à espera para dar-lhe o divórcio. Quanto a Nyla...

- Você é mais do que qualquer um espera de uma pessoa de bem. Nyla será muito mais feliz com você. Eu nada tenho ainda para ensinar--lhe; pode ficar com ela.

Com um beijo na testa ele se despediu da esposa, a quem devotava nobre e elevado amor. Temia não tornar a vê-la, mas privá-la de ir em auxílio de Proteu seria quase desumano. Saiu em busca dos dois jovens que escoltariam sua esposa até a costa do mar Vermelho, onde estavam o grego e seus comandados.

Capítulo 13

A pequena comitiva atravessou para a margem leste do Nilo, onde deixou todo o verde das plantações e seguiu ao norte, por uma paisagem imutável: areia, areia e areia. Às vezes Kyia pensava em como era difícil chegar a determinado lugar; a única diferença estava entre o nascente e o poente, fenômenos pelos quais se orientaram até alcançar o antigo templo de Hathor, agora convertido em templo a Amon-Ra. Ali descansaram, comeram e conheceram Amonet, sacerdotisa de rara beleza que foi hospitaleira e servil.

Os viajantes dormiram tranquilos por mais de doze horas e retomaram a direção norte. Nenhum persa os abordou até Urchada, pequeno vilarejo à beira-mar que parecia incrustado na rocha. Não mais de três palmeiras constituíam toda a vegetação. Havia um poço no centro do vilarejo onde se pagava para obter água, e ainda assim se formava longa fila de mulheres com cântaros equilibrados na cabeça. As construções tinham aberturas redondas sem fechamento, para fins de portas e janelas, e os vendedores ambulantes se encarregavam da poluição sonora e visual, esparramando lixo e dependurando as mais diversas mercadorias.

Eles se instalaram na única hospedaria do local, de onde podiam sentir a brisa vinda do mar tão cheio de histórias. A pousada era composta de dois pavimentos e tantas pequenas janelas que à distância, suas paredes brancas lembravam um queijo suíço. Amunhotep saiu à cata de informações e descobriu, através de um negociante ambulante que estava na mesma estalagem, que a zona de conflito ficava a bem poucos estádios17 e que em praia quase deserta localizava --se uma caverna que podería ser uma espécie de quartel-general dos mercenários gregos. Em seguida, com um objeto perfurocortante, golpeou o árabe no pescoço e, tendo-o despojado de seus pertences de valor, jogou-o ao mar.

- Por que matou o ambulante? - indagou o parceiro.

- Para não correr o risco de que diga por ai que alguém de Tebas procurou pelos gregos.

- Faz sentido. Que Anuket, a deusa das águas, o recolha. Amanhã vou até essa caverna e conforme for poderemos iniciar nossa volta a Tebas. Está bem mais simples do que imaginei. Descansemos, companheiros.

Kyia não conseguiu conciliar o sono. A imagem de Proteu parecia encravada nas paredes da estalagem; sentia saudade do mercenário e ânsia pelo reencontro. A noite escoava-se lenta, e o sol a surpreendeu da mesma forma que a havia deixado: desperta e cheia de ansiedade. Afastou o pedaço de couro animal que velava a abertura da janela e seus olhos arderam.

O estalajadeiro a chamou para o desjejum em uma área de higiene precária, na qual seus acompanhantes já devoravam um naco de carne seca com pão e cerveja. Uma joia em forma do laço de ísis, pendurada em cordão de couro, chamou a atenção da mensageira única de Haemon. Dizendo ter sido tirada do árabe morto, Amunhotep a ofereceu à moça como presente. Com severas reservas ao desjejum de péssimo aspecto, ela saiu sem comer.

A praia de que o árabe dera notícia era bela, mas nenhuma vegetação por perto se harmonizava com a cor amarelada de areia a perder-se de vista. Kyia contemplou as águas e, erguendo o braço em sua direção, ficou a pensar em Moisés e sua proeza, conforme Afra lhe narrara. Andou pela areia escaldante por mais de duas horas (o que tornou
O estádio (em latim: stadium) era uma unidade de medida de comprimento usada na Grécia Clássica. O padrão desta medida era a pista de corrida de Olímpia, onde era disputada a prova do stadium.
mprestáveis suas sandálias de papiro), até avistar a caverna incrustada em montanhas de pedra cobertas de areia. Um grego forte com fisionomia embrutecida a abordou antes da entrada.

Ante a dificuldade imposta pela barreira do idioma, Kyia, usando o pouco que aprendera do grego com o marido, declarou à sentinela que vinha de Tebas com mensagem importantíssima para o general. Era caso de vida ou morte; uma emboscada unilateral se armava contra os mercenários. Aristarco - era esse o nome do guarda da entrada da caverna - a fez entrar e, em canto bem afastado da caverna labiríntica, bateu em seu rosto, amarrou-a e amordaçou-a, dizendo:

- Vou buscar o general. Se o que diz não proceder, vai implorar para ser morta.

Proteu não tardou a chegar. Antes do apogeu de Ra no céu, o grego entrou na caverna escura e comovido mirou a cena. Nada disse. Retirou a mordaça e sua expressão mudou ao ver as marcas da violência de Aristarco. Com ternura correu os dedos sobre os hematoma? nas faces de Kyia, depois beijou cada ferimento e, tomando seu rosto entre as duas mãos, beijou-lhe os lábios e a fez esquecer tudo que vivera até ali.

As lágrimas banhavam o rosto do grego, sem que ele soubesse se eram de emoção, compaixão, gratidão ou alegria por rever a amada egípcia e tê-la nos braços.

- Você é boba, Kyia! - falou chorando. - Por que veio? E tão perigoso! Olhe o seu rosto. Eu a amo tanto!

- Eu o amo, Proteu de Mileto! Vim para contar-lhe...

Ele colocou os dedos sobre seus lábios.

- Esperei tanto para ouvir isso... Não sabe o quanto desejei nunca sarar para não perder o contato de suas mãos. As dores físicas nada importavam, conquanto me mantivessem ao seu lado.

- Houve dias em que desejei tomá-las para mim. E quando você dormia não me cansava de olhar e tocar seu rosto.

- Certas vezes eu estava acordado.

- Proteu!

- Eram os únicos momentos em que me sentia plenamente feliz.
- Eu também. Solte minhas mãos, Proteu; deixe-me abraçá-lo antes que se torne algo que escape de mim.

- Oh, desculpe-me, querida! Mas não se preocupe quanto a isso. Tudo em que me transformaria agora seria em seu companheiro, infini-ramente. Uma metamorfose sem volta: seu, apenas seu, para sempre. É bela e forte, faço qualquer coisa para estar com você.

- Eu também, meu deus grego. Seria capaz de cruzar o Egito de ilto a baixo para estar com você e dizer que o amo do modo mais intenso e arrebatador, desconhecido para mim até você chegar. Não obstante, vim com uma mensagem dramática.

- Aristarco me contou. Fui traído pela minha cidade e pelo faraó que me contratou.

- E o que pretende fazer?

- Sobreviver. Minha rainha do Nilo, permaneça abraçada a mim ou posso transformar-me em um louco.

- Vamos embora, deixe esta guerra desleal.

- Não, minha Kyia. Já cônscio do que se trata, tenho um plano. Um general romano e sua legião têm um acordo comigo; enviarei mensageiro com o pedido de que cerquem os atenienses no mar Vermelho e os aniquilem. E quanto aos persas, continuaremos nós mesmos a massacrar. Seus compatriotas estão se saindo melhor do que o que eu esperava; Péricles fez um bom trabalho enquanto eu estive machucado. Assim que vencer esta guerra, voltarei triunfante a Tebas e exigirei do faraó meu prêmio.

- Nefertari?

- Claro que não. E muito menos seu casamento com Neferites II. Aquela águia chamada Hakor vai ter uma surpresa bem desagradável. Por ora não quero pensar em nada que se relacione com a guerra. Não regresse a Tebas por hoje, minha rainha; deixe-me dormir em seus braços, pois se esta guerra maldita me levar antes de amá-la não valerá a pena ter nascido.

- E eu prometo: se você for sem mim, nenhum homem me tocará até o dia em que o reencontrar, seja no paraíso, nos infernos ou mais uma vez neste mundo em outras carcaças semelhantes.
- Como não pudemos perceber antes?

- Nós percebíamos, mas temíamos este gigante; por isso o mantínhamos adormecido.

Kyia e Proteu estiveram juntos durante a tarde e a noite seguinte. Sentados na areia com uma fogueira a crepitar, assistiram à chegada do sol.

- Não vai prestar culto a Ra?

- Seu irmão me falou sobre uma entidade que ele chama de Grande Estrela, de forma que perdi o interesse por certos ritos. Se Ra é realmente o deus todo-poderoso, por que se volta para debaixo da terra, abandonando-nos na escuridão e no frio, por medo de uma serpente que pretende devorá-lo?

- Bem covarde! Pelo menos o todo-poderoso da Grécia fica sobre um monte a atirar raios nos mortais.

- Covarde também.

Ele riu por alguns segundos e repentinamente ficou sério.

- Case-se comigo!

- Assim que me divorciar, mas não admito que tome uma segunda esposa.

- Gregos não têm esse costume.

- Ainda bem! - falou soltando o ar sonoramente. - E quanto a Neferites II, espero que se case com Nefertari e tenham um longo reinado.

- Não seria de todo ruim.

- Proteu, é com o coração partido que lhe digo que preciso ir. Rudamon e Amunhotep devem estar preocupados. Eu gostaria de ficar com você, porém Haemon aguarda notícias suas ansiosamente.

- Eu quero sua presença como o próprio ar, mas não aqui; na guerra eu não gostaria que ficasse. Vá e espere por mim; tome todo o cuidado!

- Eu estarei esperando por você. Acabe logo com esses persas!

- Muito antes do que você imagina estarei de volta. E levando um monte de gatinhos comigo. Imagine você que o Oliva é uma menina?

O gracejo foi incapaz de dissipar a angústia da separação daqueles corações que se buscavam há muito tempo. Abraçando forte a mulher amada, o guerreiro disse adeus e correu para dentro da caverna.

No instante em que o viu, Aristarco correu ao encontro do líder, indagando se a tebana mentira ou se algo de verdade existia em tão mirabolante narrativa. Em resposta o general desferiu violento golpe no rosto do soldado, que sangrando foi ao chão.

- Da próxima vez bata em alguém do seu tamanho!

Devido à localização da pousada em relação à caverna dos mercenários, Kyia chegou pelos fundos e não foi vista por ninguém. Ao adentrar o local, antes de sua presença ser notada, deparou com cena aterradora: quatro homens carregavam escada abaixo Rudamon e Amunhotep, obviamente mortos. A coloração azulada da pele de ambos deixava patente a causa das mortes. A jovem sentiu-se aliviada por não ter provado nada daquele local de higiene ainda mais duvidosa que o usual da época. Era claro que os companheiros haviam sido envenenados. Com o coração aos saltos ela se escondeu sob um monte de roupas sujas e malcheirosas que estava a um canto da recepção, e ouviu aterrorizada a conversas dos carregadores de corpos.

Falavam em esperar pela rapariga e dar-lhe um fim rápido, tão logo recuperassem a chave. Sentiu o estômago gelar. De que chave falavam? Teriam matado Rudamon e Amunhotep por causa de uma chave que, não achando em seus pertences, presumiam estar com ela? Kyia imaginou as torturas a que seria submetida para contar algo que desconhecia. Precisava sair dali imediatamente. No entanto, paralisada de medo assistiu a cena hedionda, em meio ao monturo. Sorrindo e conversando animadamente, como se não carregassem cadáveres e sim sacos de trastes, os homens balançaram os corpos uma, duas, três vezes, e então os lançaram com força nas águas do mar Vermelho.

Lágrimas mornas rolavam pelo rosto da apavorada moça. Não podia mexer um só músculo ou seria descoberta; não podia sair dali correndo ou daria de frente com os assassinos. Quando entraram na cozinha, Kyia correu para a praia. Precisava sair dali o mais depressa possível ou faria companhia aos colegas de viagem no fundo do mar de Moisés. Mas como partir para um deserto sem a bagagem, sem os papéis que atestavam sua procedência? Seria suicídio. Precisava apanhar suas coisas.
Vagarosamente subiu a velha escada de madeira, que estalava a cada toque de seus pés; entrou no aposento que haviam ocupado. A porta rangeu denunciadora e ela mordeu o lábio, apreensiva. As camas dos colegas ainda estavam desfeitas, com a marca da pressão de seus corpos no colchão precário. Súbito mal-estar dominou a moça. Onde estariam eles agora? Um saco de couro de camelo com rolha de madeira estava cheio de água; ela o pegou e em seguida devolveu ao lugar. Nada poderia levar para comer ou beber; não sabia onde estava o veneno que matara os dois.

Carregou apenas um samburá pequeno que continha seus documentos, um pedaço de papiro em que constava o local de nascimento

- raramente continha data, pois quando os censos se realizavam as crianças já eram crescidas (às vezes adultas) e não tinham essa informação

- e alguns kites de ouro e prata. Olhando para os pertences dos mortos, lembrou-se de Tula e achou ótima ideia se vestir feito homem. Assim o fez; vestiu longa túnica para proteger-se do sol e camuflou os cabelos com um lenço à moda árabe, deixando os olhos de fora. Amarrou um punhal em cada coxa e ia saindo do quarto quando ouviu vozes.

Em um átimo meteu-se embaixo do estrado que servia de leito e ficou imóvel como uma múmia. Observando o saco de água em local diferente e o sumiço do samburá, bem como o quarto com evidências de ter sido “visitado”, o estalajadeiro soltou uma risada ameaçadora.

- Olá, mocinha forasteira! Sei que está aqui, a menos que tenha voado pela janela. Vamos fazer um trato: você sai de seu esconderijo, me dá o que eu quero e que seu amigo disse estar em seu poder - por isso não me canso de procurá-la - e você se livra dessa tensão crescente que eu sei que assola todos de frente para a morte certa. Saia de onde estiver e acabemos com isto o mais rápido possível.

Esperou alguns segundos.

- Não tem outra escolha. Ou vem até mim ou vou até você. Pare de sofrer, acabe com isto! Dê-me a chave!

A túnica longa de Kyia colava-se em seu corpo, os cabelos enrolados sob o lenço grudavam numa hidrorragia provocada pelo medo, que instintivamente fazia o corpo ficar mais leve para a possível fuga.
- Mocinha de Mênfis, estou sentindo o seu cheiro. Vamos, saia daí!

Sem obter resposta, o homem perdeu a falsa paciência.

- Se não quer que seja por bem, será por mal. Vou olhar em cada canto deste quarto. Eu quero a chave!

Devagar, ela colocou a mão direita sob a túnica e segurou firme o punhal. O espaço era diminuto e quase não lhe permitia desferir um golpe, mas ela o agarrou como única chance de sobrevivência.

- Estou indo olhar embaixo das camas; não vejo onde mais você poderia se esconder.

Kyia não conseguiu conter um gemido. Viu os pés calçados de sandálias se aproximarem, em seguida um joelho dobrado, e outro. A barra bordada do curto chanti de linho do homem entrou em seu campo de visão. Pensou em desferir um golpe, porém esperou angustiada por um ponto mais vital; preparou-se ao notar que as mãos de seu agressor firmavam-se no chão para arquear o corpo e olhar embaixo da cama onde ela estava. O rosto do predador apareceu como um anúncio de morte. Ele sorriu e gracejou:

- Achei!

Seu erro fora subestimar a presa, tomá-la por mocinha indefesa e frágil. Com um grito em que exteriorizava medo, susto, instinto de sobrevivência e ira, Kyia golpeou-o no ouvido esquerdo; a arma penetrara tão profundamente que Kyia não pôde tirá-la de volta.

- Montuhotep!

Foi o grito de outro homem no aposento, ao ver o colega cair com um punhal cravado na cabeça. Correu para o corpo inerte e olhando sob o leito viu a assassina do amigo encurralada.

- Desgraçada! Venha cá!

Puxou-a pelos pés até vê-la fora do esconderijo, depois socou o já machucado rosto da forasteira e falou entre os dentes, com ódio inenarrável:

- Eu vou pedir só uma vez, meretriz dos infernos. Onde está a chave do enigma perdido?

Em resposta, uma cusparada sangrenta no rosto do adversário. Este, limpando-se com as costas da mão, bateu nela com a outra.
Eu disse: uma única vez.

Engolindo o sangue que lhe enchia a boca, Kyia levantou a mão aberta pedindo a ele que parasse.

- Está bem! Vou lhe dar a chave.

Enfiou a mão sob a túnica e segurou com muita força o outro punhal que prendera na coxa. Em um gesto brusco, indefensável, golpeou o segundo adversário na altura da traqueia, o que nem lhe deu oportunidade de gritar. Os dois mortos no chão enchiam a atmosfera de densidade espantosa e, ao lembrar que eram quatro que carregavam os colegas para o mar, ela viu que precisava partir tão rápido quanto possível.

- Montuhotep! - ouviu-se um grito vindo da base da escada. - O que faz aí em cima?

Apavorada dirigiu-se à janela. Como estava no segundo piso, pular era inviável, pois de pernas quebradas seria uma presa fácil. Passou para o lado de fora e firmou-se no parapeito, deixando o corpo balançar; as pequenas janelas eram muito próximas umas das outras, o que possibilitou à fugitiva atingir a fachada lateral segurando em umas e pisando em outras. Uma vez tocado o chão, respirou aliviada. O samburá com os documentos estava em seu poder, enquanto os punhais haviam ficado cravados em suas vítimas.

Correu sem descanso pelo deserto. Desarmada, sem comida água, precisava alcançar o antigo templo Hathor, onde a sacerdotisa Amonet decerto a ajudaria. No entanto, uma coisa a deixava desolada o templo situava-se na metade do caminho; sobrevivería tão longo per curso desprovida de tudo?

Uma família de mercadores vinha em direção oposta, trazendo ág mantimentos e uma série de quinquilharias para negociar. Kyia n; possuía; toda a sua bagagem ficara na estalagem. Pelo laço de ísis < Amunhotep roubara do árabe ela conseguiu um pouco de água, um daço de pão e um naco de carne seca que devorou. Assim imaginou eí pronta para chegar ao templo. Enganava-se; poucos quilômetros dep estava exaurida e a custo trocava os passos. Teimosa, insistia em avançar

Enquanto teve forças a mensageira de Haemon caminh Nenhum oásis entre o mar Vermelho e o abençoado Nilo pelo lado oriental. Certamente morrería, mas não nas mãos daqueles homens; preferia ser cozida por Ra. Pensava dessa forma quando lago de águas cristalinas e cintilantes à luz solar surgiu à sua frente. Reuniu as forças escassas e correu para o mergulho de boca aberta, no intuito de sorver litros do precioso líquido. Kyia chorou sem lágrimas ao ter a boca cheia de areia escaldante; o lindo lago desaparecera como por encanto.

A viajante olhou para o céu: nem uma nuvem, em torno sequer um arbusto para oferecer sombra amiga. Tudo era amarelado e igual; perdera a direção do templo, de Tebas, não tinha mais noção de onde estava. Lembrou-se das palmeiras e romãzeiras de Tebas, da sombra onde descansava, onde um dia Proteu lhe dera o recado de Tula. Proteu... Ainda o veria nesta vida? Tula, Afra, Kenefer... “meu bom Kenefer”. Olhou para o sol inclemente e gritou:

- Você é mau e covarde com suas criaturas. Durante o dia nos castiga e mata desta maneira impiedosa, e à noite nos abandona nas trevas e no frio cortante. Nem eu faria isto a alguém sem motivo. Por que é tão quente, desgraçado?

Entregue à própria falência física, Kyia sentiu que era tragada para dentro da terra; pareceu-lhe cair em um túnel vertical, incandescente e infinito. Sem alternativa, capitulou e perdeu os sentidos.

Alguém ria sarcasticamente do sofrimento da segunda esposa de Kenefer. Montuhotep, sem saber de seu real estado, saíra no encalço da fugitiva. A visão de sua vítima de pé diante dela, com o punhal cravado na lateral esquerda da cabeça, fez a moça voltar para o abrigo físico e agarrar-se com avidez ao corpo queimado. E assim permaneceu, fugindo da visão que mais assombra o ser humano em todos os tempos: a visão dos próprios erros.

Capítulo 14

Em Tebas, Haemon e Kenefer estavam apreensivos; já haviam passado muitas luas da data prevista para o regresso dos três enviados. Contudo, negavam-se a mandar outros em seu encalço pelo receio de estes também não voltarem. Um dado, porém, os tranquilizava: a notícia de que uma legião romana aniquilara um exército ateniense no Mediterrâneo era sinal de que Proteu recebera o aviso. Haemon conhecia os contatos romanos do irmão e sabia que a batalha no mar fora encomendada por ele. E isso levantava a hipótese de que a impetuosa Kyia podería ter ficado ao lado do guerreiro e não perecido com os outros, como pressupunham.

Ou seja, havia uma chance para Kyia, porém tão remota que Kenefer não se sentia consolado por ela; e em contrapartida aguardava o retorno de Proteu para perder as esperanças. Todos os dias, religiosamente, ao parar os trabalhos na tumba, dirigia-se ao chefe em busca de notícias das batalhas no Sinai e das costas dos mares Vermelho e Mediterrâneo. Elas não variavam muito. “Estamos caminhando para o final”... “Está acabando e nossos exércitos levam tremenda vantagem”... “Breve teremos nossos guerreiros de volta a Tebas.”

Certa tarde, a caminho de casa, encontrou Tula e assustou-se com a aparência insana da amiga da esposa. Os cabelos não eram cuidados havia tempos e o aroma de henna fora substituído por piolhos e pulgas; olheiras profundas circundavam os olhos sem brilho. E ao lado da moça Azeneth, na forma de múmia, agarrava-se aos seus cabelos, que puxava ora para obrigá-la a andar, ora para forçá-la a parar.

- Dimitrula! O que se passa com você?
Como assim? Estou normal.

- Não sente mal-estar algum?

- Estou com dor de cabeça. Tem um remédio para mim, Kenefer?

-Tenho em casa. Vamos até lá, cuidaremos de você!

- Kyia voltou?

- Ainda não. Mas Afra terá prazer em auxiliar uma amiga dela.

Antes da resposta afirmativa da grega, Azeneth puxou seus cabelos

para o lado oposto e gritou-lhe ao ouvido:

- Nada disso! É uma mulher casada e deixou em casa seu marido, dizendo ir à procura de ervas para aquele idiota. Como ousa extraviar--se para a casa desse aí sem a permissão de Apepe?

- Pensando bem, vamos deixar para outro dia. Não avisei a Apepe sobre essa visita; farei isso e irei ao seu encontro amanhã.

- Quer que eu vá com você até a casa do sacerdote para pedir a ele?

Mais uma vez ouvindo sob a influência de Azeneth, ela recusou:

- Não, obrigada. Não é conveniente uma mulher casada andar em companhia de outro homem pelas ruas.

- Tudo bem. Mas prometa-me que pedirá a ele e me procurará.

- Sim, qualquer dia. E me conte se Kyia aparecer.

- Chega de papo! - berrou Azeneth. - Já esteve por muito tempo dando confiança a outro homem pela rua. Vamos para casa, desavergonhada!

Tomando por suas as palavras do espírito, achou melhor ir andando.

- Até mais, Kenefer.

E saiu a correr pelas ruelas, com as mãos nas têmporas. Quem tivesse olhos de ver presenciaria aterrorizado a cena de uma mulher puxando a outra pelos cabelos em velocidade incrível.

Kenefer, que já era esperado em casa pela esposa e filhas, antes de comer contou a Afra o que vira.

- Reconheceu o gênio que a atormenta?

- Acredite, minha querida, é uma múmia. Seu rosto está totalmente ressecado; impossível reconhecer, mesmo que tivesse sido minha mãe.

- Seria esse tal marido morto que ela mantém em seu aposento?

- Penso que não; parece ter sido uma mulher.
- Meu Deus, bendito seja seu nome! O que pode ser feito? Acha que tirar-lhe os cabelos é uma boa ideia?

- Acho que precisamos separar as duas, sendo que para isso é necessário saber qual o vínculo que as une e quebrá-lo.

- Peça ajuda a Haemon. Nada posso dizer ao sacerdote de minha tribo, pois seria severamente repreendida.

- Vou conversar com ele. Aliás, vou convidá-lo para uma visita ao templo de Sobeknefru.

- Quando o gênio do mal for levado, sei que a grega estará muito fragilizada. Traga-a para cá, Kenefer; eu e as meninas cuidaremos dela.

- Assim será, Afra. Só não chame a pobre múmia de gênio do mal. Tal qualTula, sofre horrivelmente. Não consegue paz, repouso nem tratamento para sua forma horrenda mumificada. E, o pior, não consegue encontrar o filho; transfere para um corpo sem vida todo o seu afeto e zelo de mãe.

- É realmente desolador; não havia parado para pensar nisso. Nunca pensamos no sofrimento do espírito, apenas no do influenciado.

- E em geral ele é a maior vítima. Vítima do influenciado e de si próprio, com a falta de perdão. Essa múmia não está supliciando Tula por nada; embora o correto seja o perdão das ofensas, um motivo ela tem. E se quisermos ajudar a ambas é preciso descobrir qual o motivo dessa associação. Tula não chegou da Grécia com uma múmia, lá nerr. existem múmias; foi aqui que se encontraram. Precisamos saber qual ato dela desencadeou a perseguição. Se pelo menos Kyia estivesse aqui... Com certeza possui essa informação.

- Acredita que ela voltará?

- Talvez ao fim da guerra venha com Proteu. Espero. Ou isso ou não voltará mais.

- Puxa, pai! Fala de sua esposa em companhia de outro homem como se fosse normal; nem mesmo um traço de indignação noto em su» voz! Por que, se quando lhe peço para mandá-la embora diz que a ama?

- Nany, é ainda uma criança e nada entende de amor. É por muito amá-la que desejo esteja segura e feliz. E se sua felicidade é ao lado do grego, é ao lado dele que a desejo.
E se fosse minha mãe?

- Agiria de modo exatamente igual.

- Mas está sendo traído...

- Isso me desobriga de cuidar de Kyia e mantê-la ao meu lado, não de amá-la.

- É demais para mim!

— Vamos comer em paz, filhas.

Na manhã seguinte, quando se dirigia ao trabalho, Kenefer procurou pelo sábio amigo. Narrou em detalhes a cena desoladora do dia anterior.

- Acho que posso entender o que sucede. Mas em primeiro lugar devemos conversar com a tal múmia. Estive com Tula na ocasião da morte de Apepe e parecia atormentada pela presença da mãe dele, que então não parecia uma múmia.

- Poderiamos ir até lá agora?

- Hakor espera por mim. Está desorientado com o andamento da guerra, não posso deixar de ir. Sei, porém, que pode resolver isso sem mim. Eu o libero do serviço nas tumbas para essa tarefa.

- Se diz que posso, eu acredito, porque sabe de meus conhecimentos, visto que vêm de você. Ainda assim, peço uma orientação para falar com as duas.

- Tente falar mais com a múmia; por ora é ela quem tem o mando da situação.

- E quanto à grega?

- Só falará o que a outra autorizar. Não notou o curto diálogo que teve com ela?

- Sim, é verdade. E como devo agir com a múmia: com ternura ou energicamente?

- Com o equilíbrio entre as duas posições. Uma maneira infalível de dialogar com os mortos é fazê-lo como se falássemos a um vivo, e com o amor que dedicaríamos a um filho de nossa carne e amigo de nossa alma.

- E se ela não me receber?
É provável que não queira. Pense que a conversa é com Nanv. Não tenho dúvida de que poderá ajudar. Tenha calma e paciência, não será na primeira tentativa.

- Eu estaria mais seguro se estivesse comigo.

- Imagino. Todavia, não estou aqui para isso. Minha função é prepará-los para seguir sem mim. Quando eu morrer, amigo, se Deus me permitir reencontrar o paraíso perdido, dificilmente voltarei aqui em carne e osso - a menos que seja junto dele, se me der o privilégio de ser o menor de seus aliados.

- Fala do Libertador?

- Sim. O Redentor, como dizem os judeus.

- Está certo, sei que pode ajudar-me inclusive à distância. Vou até o templo e mais tarde nos veremos para trocar impressões.

- Combinado. Boa sorte, amigo!

O caminho para o templo de Sechat era tão estreito que o transeunte podia tocar as construções de ambos os lados ao mesmo tempo. Se alguém assomava à janela ou à porta, quase sempre trombava no passante. Em algumas etapas era forçoso andar de lado para passar no pequeno espaço entre as casas amontoadas sem o menor planejamento. Se duas pessoas viessem em sentidos opostos, teriam de contar com a boa vontade do dono da casa para deixar que uma entrasse e aguardasse até o trecho ficar livre. Caso isso lhes fosse negado, os passantes teriam de tirar na sorte quem recuaria até onde o caminho se alargava um pouco, permitindo a passagem dos dois, A decisão ocorria de acordo com a urgência e distância do destino de cada um, ou simplesmente com o espancamento ou morte do dono da casa em frente ao local do encontro não marcado.

Felizmente Kenefer não cruzou com ninguém por ali até seu destino. Bateu de leve na porta e esperou. Sobeknefru apareceu na soleiri com fisionomia de quem não dormira.

- Bom dia! - disse a bocejar. - O que posso fazer por você?

- Poderia falar com sua hóspede grega?

- Tula? Pode falar, levá-la para você, matá-la e o que mais lhe aprouver! Não suporto mais essa mulher. Desde que sua esposa a trouxe aqui minha vida se tornou uma tormenta, nem dormir mais eu posso.

Ela fala a noite toda, berra, chora e anda pela casa ruidosamente. Atraiu para mim fantasmas e múmias. Estou sofrendo muito, Kenefer, você precisa me ajudar. Aliás, foi sua esposa quem me atirou nesta aflição e sumiu. Siga-me, vou levá-lo até ela.

- Dimitrula! - o visitante chamou à porta do aposento. - Posso entrar?

- Não.

- Prometeu que iria me ver, mas achei mais viável eu vir até aqui, para não se expor, como mulher casada que é.

- Vá embora, Kenefer!

- Tula, posso ajudar você a reencontrar o seu caminho.

- Você nada pode fazer por mim. Vá e me deixe sozinha. Tenho dores insuportáveis na cabeça. Não consigo ver a luz solar, pois a dor triplica de intensidade no claro.

- E quanto à múmia?

- O que tem ela? - sua voz se tornou agressiva.

- Está aí?

- Volte ao seu labor artesão, não preciso de você.

“O que eu faria se fosse uma de minhas filhas?”, pensou ele. Movido por esse pensamento, pediu ao dono da casa para entrar no aposento à revelia da doente. Teve não só a permissão, como a colaboração física para pôr a porta abaixo. A cena que se desenhou perante sua visão era de causar compaixão. A encarnada, deitada de costas, com olheiras profundas e cabelos em desalinho, tinha o olhar perdido no teto; ao seu lado o corpo embalsamado de Apepe jazia imóvel e enfaixado. Aos pés do leito, o espírito Apepe, sentado com rosto carrancudo e expressão vazia, sentia-se confuso e em visível perturbação mental. E no centro do aposento Azeneth, com aspecto ressequido de múmia, permanecia de pé sem tocar o chão; o corpo e os cabelos vibravam em movimentos ondeantes como se estivesse embaixo d’água.

Ao mirar o quadro medonho, Sobeknefru gritou e saiu espavorido para se refugiar no altar de Sechat, trêmulo, a cobrar a soberania do templo e pedir proteção. O espírito leviano que o assistia defendeu-se como podia.
Manda chamar Haemon como se ele fosse superior a mim e agora quer minha ajuda? Estou magoada e resolvi me vingar entregando sua casa para todo gênio do mal que aparecer. Não culpe a grega, fui eu que proferi a maldição contra este templo.

- Retire-a, grande deusa! Eu imploro!

- Talvez mais tarde. Por ora deixe-me em paz e não me chame enquanto confiar mais em um mortal.

Kenefer, dotado de ternura e compaixão, entrou no aposento e segurou a mão de Tula.

- Filha, vamos fazer uma oração ao Deus maior.

Impulsionada pelo espírito do bem a quem fora confiada, ela pediu

num fio de voz:

- Socorro!

Senhor Deus do universo, chefe supremo das potências do bem. líder amoroso de todas as deidades, vem em auxílio destas pobres criaturas que sofrem e carecem de teu amparo infinito e cheio de misericórdia; vem em meu auxílio, Pai sem o qual nada poderei fazer para aplacar tantas dores. Toda a graça procede de ti, toda a força procede de ti, todo o poder emana de ti. Dá-me o dom da palavra a fim de que dialogue abertamente, o dom da cura para que atenue as dores e, o mais importante, o dom da libertação para que as amarras que mantêm estes irmãos em situação tão degradante sejam quebradas pelo teu amor infinito. Permite-me, Deus do universo, ser o portador de tua graça em tão desgraçado quadro. Entrego-me agora como instrumento de tua ação no afã de ajudar a estes irmãos. Que estejas em mim que busco estar era ti. Assim seja!”

- Minha cabeça vai arrebentar.

Kenefer tocou a fronte de Tula e pensou somente em Deus. L ra espírito radiante aproximou-se e bloqueou os fluidos deletérios vincos de Azeneth, enviando fluidos benéficos através da mão do médium. O abvio imediato da violenta dor fez a doente chorar de emoção. Nãc sej lembrava mais do último dia em que não tivera aquela dor de cabeça infernal. Extenuada, permaneceu na cama, sem que os benfeitc rs lhe permitissem o sono para preservá-la dentro do vaso físico, que protegeria dos ataques de Azeneth. Recordando as instruções do sábio amigo, Kenefer dirigiu-se a ela.

- Era a mãe de Apepe?

- Sou.

— Era, visto que parentescos são válidos enquanto estamos no mundo. Agora pode ser apenas irmã dele, minha e de todos.

— Ora, ora, mais um sacerdote com essa patacoada! Eu não preciso escutar essas afirmações ridículas. Sou a mãe dele e serei para sempre. Nunca abandonarei meu menino. Ele só tem tamanho, é um menino e não pode viver só.

— Ninguém se encontra só; estamos todos sob a proteção de Deus.

- E foi o próprio Ra quem me confiou Apepe.

-Também foi Ra que a tirou de perto dele. Não acha que ele sabe o que faz? Você já fez por Apepe tudo o que podia. Você o trouxe à vida, alimentou, cuidou e criou. Hoje não mais lhe diz respeito; quem o confiou a você, tirou você dele.

- Ele não pode viver sem mim.

— Foi justamente por isto que lhe foi tirada: para que ele vivesse sem você.

- Pois é, mas ele sem mim corre perigo.

— Nada pode fazer para defendê-lo daquilo por que ele precisa passar.

- Está enganado, eu o protejo dos perigos.

- Qual o perigo que ele corre sem você, Azeneth?

- Pode ser escarnecido, enganado, roubado e até assassinado.

- E não foi nessa mesma ordem que tudo aconteceu a ele, com você do lado? Acredite, amiga, não pode mais proteger Apepe.

Ela começou a chorar baixinho; depois gritava e se jogava contra Tula, que recebia o impacto no já sofrido corpo físico.

— Azeneth! - Kenefer falou firme e em bom tom. - Pare imediatamente com isso. Está vivendo de ilusões absurdas. Primeiro achou que poderia proteger seu filho e viu que foi incapaz; depois passou a agir como se pudesse matar Dimitrula. Você não pode dispor da vida de um filho de Ra. Quer chorar sua dor? Eu permito e espero; o que não admito é que maltrate esta pobre mulher.

- Esta pobre mulher matou meu inocente filho. Como diz que não se pode dispor da vida de ninguém? Ela dispôs da vida dele.

- Apepe passou pelo que lhe era necessário, e Tula parece estar pagando pelo que fez. É isto que quer? Prefere angariar mais sofrimentos ou ir tranquila para um local de repouso?

- Sabe tão bem quanto eu que desejo ardentemente ir para o paraíso. Estava apenas à espera de entregar Apepe nas mãos de uma boa mulher para seguir, e aí deu no que deu: ela matou meu filhinho.

- Se confiasse em Deus não sofreria tanto; entregaria Apepe aos cuidados dele e já estaria no paraíso.

- E meu menino assassinado?

- Você não está no paraíso e ele está assassinado do mesmo jeito. O que eu quero que entenda, filha, é que os acontecimentos na vida dos outros não estão sob seu comando. Temos hoje dois problemas: você e Apepe. Se tivesse seguido seu rumo teríamos apenas um, e quem sabe você não podería ajudá-lo efetivamente?

- Quer que eu o deixe sozinho de novo?

- Não entendi.

- Se eu seguir meu rumo, como diz, ele ficará aqui sozinho?

- Ele não está junto de você.

- Olhe para ele, bem aqui.

- São apenas despojos sem vida. Isso não é mais que uma múmia: não fala, não anda e nada guarda da personalidade de Apepe. A individualidade que conheceu como filho está em outro local. Tente conversar com esse corpo morto e ele nada responderá. É um pouco de carne que os métodos modernos de embalsamamento conservam a duras penas Se ama aquele que foi seu filho, caminhe ao seu encontro, caminhe para frente, abandonando esse desejo mórbido de vingança que maltrata você mais que qualquer outra pessoa.

- Onde está Apepe?

- Acreditaria se eu dissesse que está o tempo todo ao seu lado e que você, presa à maldade, não o vê?
Aqui? Neste quarto?

- Sim. Está perdido, o pobrezinho; confuso com sua situação. Não entende como podem a mãe e a esposa transferir a um cadáver a atenção e a afetividade que deveriam ser para ele. Não sabe que morreu na carne e chora por horas a fio o desprezo que, segundo parece, dispensam a ele.

- Mentiroso, desgraçado! Quer me afastar para deixar meu pobre Apepe à mercê dessa aí. Nunca! Daqui eu não saio; enquanto meu filho ficar, eu vou protegê-lo.

Veloz como um raio ela sumiu através das grossas paredes de pedra.

Com a ausência da obsessora, ainda que provisória, Tula sentiu-se melhor e abraçando Kenefer pediu que não a deixasse só. Mesmo que o mandasse embora, que por caridade permanecesse.

- Eu estarei ao seu lado nesta fase difícil que atravessa. Faça orações e pense no que lhe sugeriu Haemon acerca dos bens de Apepe. Terá mais paz nas próximas horas e talvez durante a noite.

Tula guardou silêncio. Aquele assunto era por demais doloroso. Padecer tudo aquilo por nada? Precisava sair ganhando algo no final.

Capítulo 15

A partir daquela data, todos os dias Kenefer visitava Tula e Azeneth. Esta última, arredia, de comportamento tosco e inóspito, em algumas ocasiões nem falava com o nobre artesão. Entretanto, um fato era invariável: logo após as visitas ela saía da casa por um tempo e dava à paciente alívio relativo; isso porque sempre retornava. E Kenefer concluiu que, frustrando todos os esforços da espiritualidade para resgatar a pobre mãe, havia algo que a trazia de volta. Em conversa com Haemon, ambos admitiram que o ponto fraco de Azeneth era Apepe, que em sua concepção se reduzia à múmia no quarto de Tula. Portanto, já que ali não conseguia visualizar o espírito Apepe, de certa forma o que a prendia àquele lugar nem era de todo o desejo de vingança; era a múmia.

- Meu Deus, Haemon! Vamos fazer os funerais de Apepe. Por que não percebemos isso antes?

- Tudo tem sua hora, amigo. Azeneth e Tula precisavam passar por isso. Amanhã, logo após o primeiro culto a Ra, iremos até lá. Falaremos com Azeneth e quando ela sair desaforada pela parede, como sempre, retiraremos a múmia e sem muita delonga a sepultaremos. Também afastaremos Tula e ficaremos esperando por ela. Ao se ver sem objetivo, é bem provável que aceite ajuda.

- Ótimo! Assim faremos.

Na hora combinada os dois amigos foram à casa de Sobeknefru. Tula se mantinha na cama, da qual quase nunca saía. Sentia dores intensas e interminável tristeza. Às vezes desejava ardentemente a morte, mas sem depois como ensinavam os sacerdotes; queria fechar os olhos e não mais existir. Outras vezes ansiava por estar em Atenas:

acreditava que jamais deveria ter saído de lá e que se voltasse deixaria todos os problemas.

- Bom dia,Tula!

- Gostaria que fosse, Kenefer; já não tenho lembrança de um dia bom.

- Eles voltarão, desde que você colabore consigo mesma.

- Eu faria qualquer coisa para ter minha vida de volta. Nem sei em que ponto a perdi. Sinto saudade de quando tinha ânimo para sair da cama, de casa, enfim.

- Pois bem, terá de sair e nos autorizar a fazer o funeral de Apepe.

- Sepultar meu marido?

- Sabe que não se trata de seu marido - Haemon respondeu. - É culta o bastante para distinguir corpo e alma, qualquer grego é. Esqueceu-se em que ponto perdeu sua vida, eu refrescarei sua memória. Você adquiriu essa doença quando planejou matar Apepe, e a agravou quando decidiu conservar seus despojos. Isso não tem o menor cabimento. Dê para Apepe a sepultura e o sossego de viver sua nova vida, desligue-se dele! Se por um lado vemos Azeneth ligada a você de forma doentia, com Apepe a coisa se dá ao contrário: é você que se liga a ele movida pela influência da mãe e por sua culpa pelo mal que lhe fez. Liberte Apepe de seu jugo para libertarmos você de Azeneth.

A grega se pôs a chorar sentida, ao passo que Azeneth gritava ao seu ouvido para impedir que levassem seu menino para longe. O que fariam as duas sem ele?

Haemon, que via tudo e por sua mediunidade, tinha acesso aos arquivos de memória dela, de uma de suas vidas passadas, dirigiu-se em pensamento à desencarnada.

“Azeneth, precisa igualmente quebrar esse vínculo nefasto que se instalou entre vocês. Todos estão cansados e doentes com esta situação deplorável, que já dura tantas luas. Se Tula errou ao enganar Apepe, longe está ele de ser um pobre e inocente garoto. Por suas mãos pereceram envenenadas quase duas mil pessoas. Quando químico na corte de Amenhotep IV, desenvolveu os mais variados tipos de tóxicos para esse uso escabroso. Sob a pedra do anel ele sempre tinha um pouco o produto letal que sem dar a perceber despejava ao manusear a taç» de sua vítima.

“Certa vez envenenou uma comitiva de babilônios que Amenhorer IV recebera para uma festa ao fim da qual tudo que se via eram corpos jogados pelos corredores”. Dois dias depois, quando o cheiro dos cadáveres espalhados nauseava a todos, alguns dos convivas ainda se debatiam em agonia pelo chão de pedra. Os trabalhos de remoção de corpos duraram mais de uma semana. Mais de uma semana de verdadeiro terror. As vítimas do veneno corrosivo morriam em lugares inimagináveis e de acesso complicado. Apepe, nessa ocasião, acabou por perder a razão diante de tanta barbárie que causara e se jogou do áhn do terraço do palácio, para somar mais um aos corpos espalhados peA luxuosa construção.

“Apepe adentrou o plano do espírito em situação muito complicada^. Seu corpo etéreo ressentiu-se da queda tal qual o grosseiro; foram necessários muitos anos de tratamento para atenuar os efeitos da brutalidade.

“Você, Azeneth, como assistente do químico e por consequêr.aa coautora do genocídio, cheia de culpa ofereceu-se para ajudar nesse processo doloroso e lento de reconstrução”. Foi por dezenas de ves mãe biológica do antigo mestre, sendo que em várias delas a gestaçã não passava de três meses. E de ensaio em ensaio Apepe conseguiu un compleição perfeita; trouxe, contudo, a sabedoria adormecida em ~~ mentalidade quase infantil, no afã de não usar novamente para o mal conhecimento adquirido.

“Esses muitos anos nas posições de mãe e filho criaram entre v cês um vínculo profundo, e a condição de dependência dele a fez d senvolver a tendência a protegê-lo. Ter acompanhado a trajetória Apepe nas vestes físicas em situação deplorável lhe deu a certeza de c ele é totalmente dependente e não consegue sobreviver sem você. ? realidade isso não procede. A situação mental dele já poderia ter sã normalizada se você não suprimisse sua capacidade de ser pensante. S empenho em protegê-lo o impede de pensar por si só e o mantém dependência. Liberte Apepe, Azeneth! Deixe-o seguir para se curar > mal que ambos impõem a ele.”
Não posso! - soluçava ante as lembranças acordadas em sua memória espiritual. - E maior do que eu. Preciso cuidar dele ou nada mais tenho a fazer. Se me tirarem meu filho posso morrer de verdade. Nada mais tenho a fazer.

- Não pode condicionar sua vida à vida de outra pessoa; isso é um passo certeiro rumo à infelicidade. Hoje, você querendo ou não, vamos levar os despojos de Apepe para a tumba. Não é correto esse culto a uma múmia.

- Não! - o grito foi em coro das duas mulheres. - Sobeknefru não permitirá que façam isso; prometi contar seus segredos de desobediência ao faraó.

- Em quem você acha que Hakor confia mais? Nada poderá fazer contra Sobeknefru se eu estiver do lado dele. Vamos retirar a múmia e está acabado.

Azeneth saiu pela parede em pranto escandaloso e Tula ficou a chorar baixinho, enquanto a múmia era colocada em um sarcófago com formas humanas e a seguir em um quadrado. Tendo sido chamados alguns servos para ajudar, o corpo foi conduzido para a tumba da família. Também para lá seguiu Azeneth, depois de não achar o “filho” no quarto de Tula, encontrando Haemon sentado calmamente em uma pedra em formato de cubo.

- Onde está a perversa assassina?

- Na casa de Kenefer.

- Você a levou para lá por saber que é um lugar onde não posso entrar, não é? Em vão tentei pegar a cúmplice da morte de meu Apepe.

- A casa de meu amigo é protegida pelos gênios do bem, que ele atrai com bons atos e pensamentos elevados. Nunca entrará lá munida de más intenções.

- O que fez com meu filho que não consigo encontrar?

- Você não tem filho, somos todos filhos de Deus. Se fala da múmia, olhe para trás e a verá.

Olhando através da pedra que lacrava a sepultura, ela pôde vislumbrar o corpo embalsamado do filho.

- Colocou comida e bebida para ele?

- Sim.
Algum ouro?

- O bastante.

- Então acho que posso juntar-me a ele e esperar pelo condutor da vida eterna.

- Eu concordo, é o melhor que tem a fazer. Deite-se e descanse até ele chegar; está muito desgastada. Não é assim que quer viver a vida eterna, é?

- Muito desgastada? Feia?

- Nada que um bom sono não resolva.

Ela bocejou.

- Tem razão. Estou mesmo cansada.

Deitou-se junto ao corpo daquele que fora seu filho por tantas vezes. Num gesto de solicitude enlaçou o cadáver com o braço direito, e exausta adormeceu.

Uma luz intensa e bela adentrou a tumba quente e seca, tornando o ar respirável e doce. Azeneth, envolvida por essa luminosidade, elevou-se até o teto e por ele passou, deixando o local com a sensação de umidade e frescor em pleno deserto. Haemon respirou fundo, agradecendo a Deus pela chance de ajudar tão desesperados irmãos. Afastou-se da tumba em estado de graça. A noite chegava mansa, lavando tudo com um luar excepcionalmente cálido e radiante. Ele atravessara quase todo o dia nesse labor, mas estava valendo a pena. Caminhou para a casa de Sobeknefru, onde, ainda sem entender absolutamente nada do que ocorria, Apepe se encontrava.

- Olá, Apepe!

-Oi!

- O que faz por aqui? Não está cansado?

- Um pouco.

- Quer descansar, tratar suas dores?

- E Tula?

- Ela se foi também. Vamos repousar, Apepe; está abatido e triste.

- Está bem.

Uma mulher com traços delicados apareceu e tomou a mão do grande menino. Dirigindo a Haemon belo sorriso, deixou o local. O dono da casa entrou esbaforido.
Haemon, viu essa linda mulher que acabou de sair?

- Sim.

- E Sechat, minha protetora que chamei para auxiliá-lo. Pelo que vejo as múmias sumiram. Que bom! Conseguimos acabar com esse pesadelo, graças a mim que evoquei a deusa sem a qual você e Kenefer nada poderiam ter feito e...

Haemon cortou a avalanche de palavras.

- Obrigado, Sobeknefru! Realmente você foi fundamental. Fique em paz e de olhos bem abertos.

- Claro, estarei atento. E se precisar de minha ajuda pode me chamar.

- Obrigado.

Haemon andou devagar pela noite. O Egito estava lindo, saturado pelo próprio mistério, o mistério que existe no âmago da beleza. No ar frio e suave, a imponente pirâmide de Hakor parecia mais visível que a luz do sol. O grande sábio sentia pleno bem-estar físico e o espírito em paz. Caminhou rumo ao Nilo. A área cultivada perdia-se de vista, uma verdura que contrastava com a secura local. Pequeninos filhotes do rio invadiam a terra sulcada, enchendo reservatórios e irrigando discipli-nadamente os campos; uma verdadeira obra de engenharia hidráulica importada de outros orbes, com certeza.

Durante várias horas ele observou as estrelas, embevecido em encantamento impar. Desejou voar até elas e dar um nome para cada ponto luminoso do céu. Encontrar o paraíso perdido e a data da descida da Estrela Magna. Seria possível ter saudade de alguém que ainda não se viu? Ele sabia que sim... Sentiu falta de Proteu e angústia em relação à jovem Kyia.

- Esteja em paz, Haemon. Kyia vive e aprende através da experiência. Aquiete seu coração, o grande guerreiro está voltando - a voz lhe chegou não pelos ouvidos, e sim pelo coração.

- Onde está a moça?

- Exatamente onde precisa estar. Não é conveniente que saiba, pois pode querer intervir.

- Se assim diz, eu acredito. Aceito e me desculpo pela insolência.
- Esteja em paz, Haemon.
Principiava o período peret (plantio) e a família de Kenefer estava atarefada. Era o segundo akhet (inundação) que terminava na ausência de Kyia.

O tempo passou célere. As notícias vindas do mar Vermelho eram animadoras. Os persas haviam recuado para a Arábia e as batalhas estavam em seus dias finais. Em Tebas os familiares de Kyia aguardavam sua vinda junto com os soldados gregos. E foi em uma madrugada de lua nova, muito escura, que um alarido ensurdecedor cortou a atmosfera seca do Egito. Os mercenários gregos voltavam sem a menor preocupação com o avanço das horas. Falavam aos gritos e a tralha amarrada na lombo dos animais tilintava de maneira aguda.

Um sem-número de cabeças surgiu nas aberturas das choças para se inteirar da origem da algazarra que despertava todos. Ac sc dar conta do que se tratava, a turba saltava para a rua, alguns pai> dar as boas-vindas aos gregos, outros apenas para entrar na farra. Á cada metro a multidão crescia espantosamente e por fim amontoe -se em frente ao palácio do faraó, que já acordado esperava o nascer do sol. O soberano apareceu junto ao seu séquito em uma espécie de terraço e mirou a turba, que em silêncio se curvou perante ® todo-poderoso.

- Bem-vindos, soldados vitoriosos de Ra! - sua voz denotava ut mistura de apreensão e cinismo. - Estejam todos convidados para • primeiro culto ao meu lado.

Proteu, após a reverência, falou com maciez exageradamente tafaa

- Obrigado, todo-poderoso, mas não estou em condição para evento. Venho viajando há horas e necessito de repouso. Ra haverá de compreender. Gostaria, no entanto, de ser recebido pelo magnârm» logo que possível, para tratarmos dos assuntos de guerra.

- Estarei feliz em recebê-lo antes do segundo culto, quando c cal versaremos, faremos nossas orações e comeremos juntos em compamii de belas dançarinas.

- Assim está combinado, grande Ra.
E curvando o corpo saiu andando de costas, para continuar de frente para o soberano, por um longo trajeto.

A multidão aguardou a chegada do sol defronte ao palácio, enquanto os soldados partiram para o descanso no agrupamento que Hakor lhes dera para treinamento e repouso.

Proteu seguiu para a casa de Haemon. Ansiava por ver o irmão e saber como fora a viagem de volta de Kyia. Precisava saber se o divórcio já havia sido concedido. Uma infinidade de perguntas a respeito da amada fervilhava em sua cabeça quando dois braços abertos o acolheram à entrada da residência da família.

- Proteu! Que bom ver você, meu irmão! Senti saudade infinda.

- Já estivemos separados por muito mais tempo - disse sorrindo, visivelmente feliz por estar de volta.

- Acostumei-me de novo com sua presença, caçula querido. Onde está Kyia?

O sorriso morreu lentamente no rosto do grego e as palavras pareciam desarticuladas em sua garganta. Limitou-se a um sinal negativo com a cabeça.

- Proteu, ela não estava com você?

- Não voltou para Tebas? Faz mais de dois anos que me despedi dela em Urchada; estava vindo para cá com dois acompanhantes.

- Ninguém voltou daquela missão. Nossa última esperança era que ela tivesse ficado com você.

- Eu não consenti que permanecesse em meio a uma guerra; temia por sua segurança. Acho que fui estúpido e louco ao permitir que ela viajasse de regresso. Deveria tê-la conservado ao meu lado. Mesmo na guerra, comigo estaria mais segura. Por que deixei que partisse? - o grego estava consternado ao extremo. - O que lhe terá acontecido?

- Acalme-se! Sei que ela vive.

- Como pode saber? Faz mais de dois anos que ninguém tem notícia de seu paradeiro.

- As vozes superiores me disseram que Kyia vive, e eu lhe garanto que elas nunca mentem.
- Mesmo que esteja viva, pode estar em qualquer lugar e nunca mais ser vista. Pode ter sido levada para o harém de algum árabe obsceno, pode ter sido vendida como escrava nos confins do mundo... Qual a diferença de estar morta?

- A diferença é que nessas condições poderemos comprá-la de volta, roubá-la ou sei lá mais o quê. E se tivesse sido morta teríamos de nos conformar com sua ausência.

- Você sabe o tamanho do mundo árabe? Ela pode estar em qualquer lugar, ou até em todos os lugares, prisioneira ou escrava dos nômades. Impossível.

A voz de Proteu quase não se ouvia devido à tristeza que a envolvia. Ele saiu de perto do irmão para interiorizar a informação que não queria aceitar. Sentou-se no chão e recostou a cabeça na parede. Era sua uma parcela dessa culpa; não devia ter deixado Kyia sozinha. De que adiantava ter defendido o vale do Nilo dos persas se não pudera proteger a única pessoa que lhe enternecia o coração? Antes tivesse abandonado a frente de batalha e partido com ela para longe do faraó, longe de Atenas.

- Por que insiste em não ser humano? Por que se esconde para sofrer? Sou seu irmão, Proteu, e entendo seu sentimento de homem. Os deuses gregos são muito medíocres para sentir tamanha força. Não queira ser invulnerável, irmão; é justamente esta vulnerabilidade que nos difere dos fracos. Amar é para os poderosos, sofrer é para os fortes. Não sufoque sua própria dor. Permita-se chorar e exteriorizar essa dor para que eu o ajude a suportá-la. Eu não o amaria menos por ter sensibilidade; muito ao contrário. E acho que Kyia também o amará tanto mais quanto mais sensível for.

Deixando que aflorassem por completo dor, pesar, cansaço, revolta, saudade, raiva e uma torrente de sentimentos puramente humanos, o semideus chorou abraçado ao irmão.

— Nunca mais verei Kyia outra vez. Se pelo menos ela tivesse desaparecido há pouco tempo as chances seriam maiores. Dois anos, irmão! É tempo mais que suficiente para perder alguém para sempre neste mundo imenso.
- Nada é impossível. Se as forças maiores do universo acharem por bem reunir Kyia a nós novamente, algo surgirá: uma pista aparentemente ao acaso chegará até nós, uma informação sem motivo claro de seu paradeiro virá. Por outro lado, se essas mesmas forças acharem que devemos ficar apartados, você pode mover toda a areia destes desertos que não a encontrará. Portanto, esteja em paz e chore sua dor até que ela se torne suportável.

Nos braços de Haemon, o caçula que tinha idade para ser seu filho, pensando no que teria acontecido a Kyia, dormiu com o corpo sacoleja-do pelos soluços. Só acordaria horas depois, no momento de ver o faraó.

Capítulo 16

Dois anos antes, quando perdera os sentidos nas areias quentes do deserto oriental, Kyia acordou com alguém lhe batendo levemente no rosto e jogando água em sua boca. O líquido descendo pela gaigantt ressequida a fez pensar que ainda dormia, mas foi trazida à realicaat por um par de olhos muitos pretos - a única parte visível do árabe cae usava um lenço sobre a cabeça e envolto no rosto -, a fitá-la de modi rude e incivil. Seu coração disparou e seu estômago vazio pareceu uj sido golpeado. Sem uma palavra, o viajante do deserto afastou o lenço revelando um rosto curtido pelo sol, emoldurado por negra barb* e marcado por cicatriz grosseira que começava na testa larga, cortr-1 o nariz numa linha diagonal e sinistra, para morrer dentro do espesa emaranhado de pelos na face esquerda.

- Onde está a chave?

- Eu não tenho essa chave, juro por todos os deuses que existem c que não existem.

- Seu amigo matou Karim e tirou dele a chave do enigma percúãn e pouco antes de morrer confessou que a dera a você. Portanto, pasae--me a chave!

-Trata-se por acaso de uma joia em forma de laço de Isis?

- Nada entendo de crendices egípcias. Como é esse tal laço?

Com o indicador Kyia riscou na areia quente o traço do laço da ísis e o rosto do árabe se iluminou. Abriu um sorriso mostrando dentes quebrados e apodrecidos, o que causou repugnância à moça acostumada à higiene bucal, muito incomum para a época mas praticada à base de algas na corte de Hakor.
casas pequenas eram cobertas por telhas em forma convexa, diferes? das lajeadas que ela via em Tebas. O local era verde, tão verde que confundia. Sem noção de espaço ou tempo, apenas tinha certeza de 2 estar mais no Egito.

Havia muitas árvores de tâmaras e parreiras carregadas de ui brancas, e as ruas tinham chão de terra e não de areia. As casas an dondadas eram todas brancas, com portas e janelas de madeira que abriam para observar a chegada da caravana. Kyia percebeu que toõ sem exceção, acenaram para Faisal com sorriso largo. Uma grande ha com os mais variados tipos de hortaliças lembrava-lhe a margem Nilo na época da shemu (colheita), e um templo de brilhante dom;, centro do vilarejo, a fez recordar Sobeknefru.

As casinhas ficaram para trás e Kyia, pensando em Tebas, ch amargamente. Nyla! Delegara tanto a filha para Afra e agora, nem quisesse poderia estar com ela. Jamais descobriria o mistério das gém nunca mais ouviria Haemon e seu doce Kenefer. E Proteu? Desperdiço tanto o tempo em que estivera com ele em sua casa, com discussões fundadas e infrutíferas... Seu peito ardia de saudade do mercenário e fazia seu coração pulsar como o de um roedor encurralado.

A caravana foi chegando a um lugar pantanoso onde milha de pessoas que transitavam ininterruptamente, carregando porções argila, lembravam um formigueiro diligente. O trabalho em série disciplinado. Uma equipe tirava a argila do fundo de crateras enor outra a carregava e despejava dentro de grandes tanques, onde 0 pisava até formar uma massa homogênea; então uma quarta equipe regava até a quinta que, usando as coxas como forma, moldava as te que a última equipe levava para secar e posteriormente queimar em proprios fornos. Um detalhe, porém, todos os operários tinham em com eram irreconhecíveis, cobertos de lama negra da cabeça aos pés, o realçava o branco dos olhos de maneira assustadora.

Uma espécie de feitor deu a Kyia uma túnica muito curta, de que as coxas ficavam livres para o “trabalho sujo”. Ela entrou no vestiário e ao sair chamava a atenção por ser a única pessoa limpa do local. O feitor fez um gracejo, acariciando sua perna, ao que a egípcia respondeu com pontapé na virilha, fazendo-o rolar no chão lamacento. Faisal chegou e advertiu ao feitor que em seus domínios não se abusava das mulheres; que os “favores” de uma mulher eram conquista e não assalto. E ordenou a outro trabalhador que açoitasse o primeiro nove vezes. Kyia sentiu um prazer mórbido com o castigo infligido a ele e, sem mais o que fazer, deixou-se levar para integrar a equipe que moldava nas coxas as telhas de Faisal.

A partir daquela data a vida de Kyia era feita de dias absolutamente iguais. Começava a trabalhar quando a luz do sol permitia e parava quando não mais se enxergava a argila. Lavava-se no riacho próximo e algumas vezes, de tão cansada, dormia sem nem mesmo fazer a última refeição. Não tinham sequer um dia de descanso, como os judeus; todos os dias eram idênticos, com exceção daquele em que vinham os compradores de terras distantes e adquiriam toda a produção. Era quando Faisal permitia que se parasse o trabalho mais cedo, sacrificava um cordeiro e abria um tonel de vinho para os operários.

Kyia descobriu que os vilões tinham muita afeição por Faisal. Este era a base econômica da vila; todos trabalhavam para ele e recebiam salários. Descobriu também que os escravos nunca fugiam, visto que seria uma missão suicida. Estavam longe de tudo e de todos, e os vilões os vigiavam como cães leais. Uma vez fora daqueles domínios, os perigos eram inimagináveis: assaltantes, animais peçonhentos, fome, calor e sede... Por isso todos os escravos viviam resignados com a própria sorte. Quanto a ela, não perdia a esperança de regressar a Tebas; de cada negociante procurava saber a procedência para entrar clandestinamente em sua caravana; nenhum vinha do Egito, nem mesmo das imediações; eram da Palestina e do Extremo-Oriente.

Entretanto, a maior descoberta de nossa amiga tebana foi o trabalho. Ela, que sempre o driblara, agora via nele um remédio para não enlouquecer de dor e fazer os dias serem menos lentos. Encontrou o verdadeiro sentido de ser útil e manter a cabeça livre das idéias de baixo padrão. E, por mais incrível que possa parecer, sentia-se antes dignificada que escravizada. Fez do trabalho um hábito e dizia de si para si que se retornasse a Tebas não abriria mão dessa terapia, ao lado de Afra e das meninas.
Outro hábito por ela adquirido foi o de todos os dias adormecer pensando em Nyla, Proteu e Kenefer, a fim de impedir que seus rostos se perdessem. Isso muitas vezes a fazia correr em espírito para o deserto, buscando a volta ao lar. Invariavelmente acordava sedenta e amedrontada, pelos perigos que o caminho oferecia, mas acima de tuc : em extrema aflição pelo desejo de voltar à sua cidade, à sua família. i sua vida. Em uma destas aventuras noturnas encontrou Proteu. Corria, pelo deserto quando avistou o grego, que parecia igualmente perdí c o em meio a tanta areia.

- Kyia! Onde estava, rainha do Egito? Cheguei do Mediterrâne: com um desejo desesperado de vê-la e constatei que desapareceu há dois anos! Não pode imaginar quanto pensei em estar com você, a cada di» desse tempo... E agora deparo com sua ausência! Por que fugiu de mim?

-Jamais fugiria de ser tão amado! Oh, Proteu! Estou a enlouquecer de tanta saudade.

- Volte para Tebas e me encontrará à sua espera. Não sabe com: meu coração está partido.

- Proteu de Mileto, abrace-me forte!

Ao abraçar a tebana ele chorou em desespero superlativo.

- Por dois longos anos eu pensei que minha chegada a Tebas; seria em seus braços. Era essa doce expectativa que não me deixava desistir nos piores momentos. Diga-me onde está e irei buscá-la, nem que para isto precise deflagrar outra guerra, como fez Menelau pai recuperar Helena.

- Eu não sei onde estou, meu amado Proteu. Não tenho a ma remota noção de onde fica este mundo de Faisal. Fique em silêncio continue abraçado a mim; nosso tempo é muito pequeno.

De repente o grego foi violentamente arrancado de seus braç Gritando seu nome ela o viu afastar-se como se tragado por to: inexpugnável. Ainda de braços estendidos, como se tentasse segui -la, a figura de Proteu se perdeu no deserto frio. Era o instante em c Haemon o chamava, em Tebas, para o compromisso com Hakor.

Naquela manhã a moça não compareceu ao trabalho e Faisal e trou no alojamento à sua procura.
Por que não foi trabalhar hoje?

- Não estou bem. Sonhei que reencontrava pessoa muito querida em meio ao deserto. Ao tomar-me em seus braços parecia que eu pairava entre estrelas múltiplas. Depois ele foi arrancado de mim como cue sugado por um vento imbatível, e despertei sentindo como se tivessem arrancado todas as minhas vísceras. Meu corpo inteiro dói, irde e queima de saudade indefinível e cruel de alguém que, creio eu, -.unca mais verei.

4

- Está sofrendo mal de amor! Pobre Kyia! Há dois anos vem tra-b alhando para Faisal e nunca faltou um dia; por isso vou deixá-la curtir sua dor de amor por hoje. Mas só por hoje, uma vez que essa dor quase nunca tem cura. Faisal mesmo sofre desse mal.

- Se sabe o que sinto, deixe-me ir embora!

- Sei o que sente, por isso digo que não vai morrer. E quanto a ir embora, pode ir; só duvido que chegue.

- Leve-me em caravana quando partir.

- Aí já é prejuízo para Faisal: ter de alimentar você até Tebas e linda perder a funcionária.

- Em Tebas pagarei por tudo.

- Faisal não é bobão. Lá chegando, além de não pagar ainda é tapaz de se vingar da escravização, através de seus maridos, matando Faisal.

- Não será assim. Eu juro!

- Faisal sente muito. Até gosta um pouco de Kyia, mas não pode irriscar tanto.

- Onde está sua mulher?

- Faisal não gosta de falar. Ela sumiu com nômades, não sei se por ontade ou porque foi roubada.

- E sabendo como é triste, rouba mulheres dos outros?

- Espere! Faisal não roubou Kyia. Você foi achada no meio do deserto. Achado não é roubado.

- Faisal! - a jovem estava indignada.

- Se Faisal não a pegasse a morte o faria, e seu marido estaria sem ocê de qualquer jeito.

Não vou teimar com você, estou angustiada demais até para iss; Obrigada pela folga; vou dormir o dia todo. Quem sabe sonho de r.; o um belo sonho...

- Bons sonhos, Kyia!

Ao contrário do que desejava, ela não sonhou com Proteu. Na verdade, nem dormiu.
Naquele momento Proteu entrava no palácio de Hakor. trazia na lembrança o encontro com Kyia e isso o deixava emotiv; irritável.

Entre duas colunas, uma trinca de dançarinas esperava por ele.. primeira borrifou suave perfume para o alto, fazendo-o passar por garoa cheirosa e refrescante; a segunda jogou pétalas de flores em caminho; e a última, Nefertari, tomou-o pelo braço e o conduziu sala do trono.

Hakor, sentado em sua cadeira no grande patamar sobre quatro graus, observou o mercenário. A contragosto ele se curvou para o no à sua frente, todo adornado de joias que pareciam triplicar-lhe o peso e a arrogância. Ostentava a coroa própria para cerimônias militares, coroa azul de guerra (kheprech), que indicava estar o reino em cor externo; embora seus antecessores a usassem para batalhas, ele o fazia para impressionar. Era mais um barrete, semelhante a um capacete saliências nas laterais, feito em tecido e enfeitado com discos dor

A sala em questão era alta e ampla, e cada coluna tinha naquele um adorno precioso, o que, tal como as belas dançarinas, não causou guerreiro qualquer abalo.

- Bem-vindo, filho de Poseidon! Haemon, seu irmão e meu mado conselheiro, está chegando para ser testemunha e mediador qualquer divergência que por acaso haja entre nós.

- Se o soberano cumprir com sua palavra, em nada poder divergir. Eu só quero o que é meu por direito.

- As moedas de ouro cunhadas com o rosto de Proteu.

- O meu peso em moedas dessa espécie. E o pedido que faculta aos vencedores.
E isso que me assusta, visto que as moedas foram cunhadas enquanto lutava, prova de minha confiança em seu desempenho.

- Não pedirei nada que não me possa dar.

- Fala de minha favorita?

- Não preciso de mais trabalho. Suponho que saiba que tenho sob minha responsabilidade todas as viúvas de meus guerreiros, às quais pago religiosamente os salários de seus maridos. É que no meu coração mora uma bela rainha desaparecida que ainda não desisti de encontrar; portanto, não quero nem mais uma fêmea sob minha tutela.

- Folgo em saber.

O faraó bateu palmas e quatro escravos fortes entraram carregando as primeiras moedas cunhadas no Egito. Proteu examinou uma delas e a levou aos dentes para testar sua autenticidade.

- Perfeita!

- Acompanhe-me em um bom vinho com carnes nobres enquanto aguardamos Haemon; nada faço longe dele.

Alguns cálices depois o sábio chegou, saudando aos dois comentais silenciosos.

- Grande Ra! Vejo que se entenderam quanto ao pagamento. Posso saber se já falaram a respeito do prêmio?

- Aguardávamos somente sua presença para discorrer sobre isso.

- Pois então vamos ao que interessa. O que meu irmão tem em mente?

- Diga, Proteu de Mênfis: o que deseja do faraó?

- Eu quero as pirâmides de Khufu e Chephren.

- Está louco? - Hakor estava à beira de um ataque. - Como pode pedir-me tudo o que temos de mais sagrado?

- Não exagere, grande Ra. Existem dezenas de pirâmides em Mênfis. Ainda fica com as de Menkaure, a esfinge de Chephren, as pirâmides das rainhas e dos vales; e isso só em Mênfis. Olhe pela janela: tem uma belíssima esfinge e uma coleção de tumbas; acho que é o bas-rante para a necrolatria egípcia.

- Haemon, isso procede?
Sinto informar-lhe que, apesar de estapafúrdio, o pedido não está fora do combinado.

- Grande Ra, quando parti com metade de chance de não voltar, prometeu que me daria qualquer coisa que não fosse o trono egípcio, sua rainha ou o herdeiro. Do restante, tudo eu teria se expulsasse os persas do mar Vermelho. Eu os mandei para casa humilhados e tendo assinado um tratado de paz por longo tempo. Mereço o que quiser, e eu quero as duas pirâmides.

- Aquilo é sagrado para meu povo. Uma tumba é o que temos de mais sagrado. Dou-lhe as pirâmides com a condição de não as violar jamais.

- Acha que quero as pirâmides por apreciar maravilhas arquitetônicas, grande Hakor? Prometo não perturbar o sono dos nobres e ser muito respeitoso com seus restos, porém é claro que pretendo entrar nas câmaras mortuárias.

- Pra quê? - a voz do faraó perdera a arrogância e se tornara quase um sussurro.

- Sou obrigado a responder a essa pergunta, Haemon?

- Pela lógica, não. Como tem o direito de pedir as pirâmides, o faraó deve dá-las e, se são suas, pode fazer delas o que entender. Todavia, o bom senso diria que sim.

- Eu não tenho nenhum bom senso.

Lágrimas escorreram pelo rosto de Hakor.

- Saiba que se tivesse um exército capaz de vencer o seu eu lhe declararia guerra.

- Sinto muito informar, nobre Hakor, que não tem um exércit;. Os seus homens sob meu comando sentem-se desobrigados desde qnq os traiu fazendo conchavo com Glõs - que, diga-se de passagem. e_ decapitei pessoalmente.

- Pode imaginar como o meu povo me julgará?

- Não posso, mas a bem da verdade isso não me incomoda.

- Haemon, faça alguma coisa! São seu irmão e seu soberano em um impasse cruel.

O sábio pensou nas forças maiores e rogou viessem em seu auxilio Proteu, qual a chance de desistir do pedido?

- Abro mão das pirâmides se ele abrir mão das suas restrições e me entregar o trono do Egito.

- Isso nunca!

- Então eu quero as pirâmides.

- Proteu, sei bem que não as quer e sei exatamente o que o atrai nas tumbas dos antigos faraós. Portanto, podemos chegar a um consenso. Hakor lhe dá a posse delas por dez anos, ao fim dos quais não deverão estar quebradas, depredadas nem profanadas. Para que a reputação do nobre faraó não se macule, manteremos a concessão no mais absoluto segredo. Por isso, durante esses dez anos você só poderá tirar das tumbas algo que não se perceba ter sido tirado, não deverá entrar nas câmaras em presença de testemunhas e não dirá a ninguém, salvo equipe seleta que o auxiliará no seu intento, que é o dono provisório do complexo. Se um de vocês morrer nesse período, o trato será desfeito imediatamente.

- Eu concordo.

O estado de ânimo de Hakor havia melhorado sensivelmente, mostrando que ele não se importava realmente com o patrimônio do Egito e sim com a própria reputação.

- Eu concordo, mas tenho uma dúvida: e quando quiserem saber o que pedi ao faraó? Todos vão perguntar.

- Dou-lhe alguma terra fértil, ou ouro ou prata.

- Ninguém acreditará que pedi isso depois de receber meu peso em moedas de ouro.

- O que sugere para seu silêncio?

- Nefertari. É o que todos esperam que eu peça.

O soberano esmurrou várias vezes o chão de pedra.

- Proteu, quem planta vento colhe um furacão. Seja razoável!

- Haemon, querido irmão, seu amigo soberano não foi razoável quando nos enganou e entregou para gregos e persas. Eu quero a dançarina.

- E de fato uma pena você ser irmão de meu amado amigo e eu lhe dever tanto por ter lutado por mim e porque o traí; do contrário não sairia vivo daqui. E saiba que se entrar em qualquer tumba que não seja objeto da concessão, ou mesmo numa daquelas após o prazo estipulad:, será um homem morto. Já que no momento nada posso fazer contra você e não pode mais voltar a Atenas, comande meu exército e tentemos conviver melhor pelos próximos dez anos.

Fazendo uma reverência, Proteu declarou aceitar a proposta e prc -teger o Egito como se fosse sua própria pátria, ao menos enquant: durasse o acordo. Haemon selou o compromisso entre ambos e respirou aliviado. Temia muito aquele encontro, mas graças às vozes superiores tudo saíra a contento e teria a companhia do irmão pelos dez anos seguintes. Apenas Nefertari o preocupava; sentia que nada bom se anunciava naquela exigência caprichosa.

Hakor olhou para a dançarina e disse em um fio de voz:

- Vá com ele!

A moça sorriu maliciosa e caminhou graciosamente, postando-se ao lado do guerreiro. Quando Proteu ganhou a rua segurando-a pek» braço, uma multidão aguardava para ver a saída do guerreiro e seú “prêmio”; aplaudidos aos berros os gregos seguiram para casa. Numa das estreitas ruelas cruzaram com Tula, que indignada fitou o general.

- Acaba de matar Kyia em seu coração volúvel e desamoroso.

- Isso não é verdade. Kyia viverá em meu coração enquanto ele bater.

- Por que fez isso? E se ela voltar?

- Ela voltará, e isso nada tem a ver com Nefertari; não estamos nos casando.

- Você é imoral. Não bastasse um harém cheio de viúvas alegres

- Você também não é tão moral, Tula, e garanto-lhe que as viúvas de meus soldados não são minhas amantes. Eu não tenho harém. E para finalizar - sorriu com cinismo -, acho é que está com ciúme e não preocupada com sua amiga.

Tula virou-se de lado para dar passagem ao trio. Quando Haemoat passou, ela tomou sua mão e a beijou.

- Abençoado seja, grande sábio! Estou completamente curada. Atêi hoje não consigo entender aquele casamento com a múmia. Graças aos deuses Péricles não regressou naquela fase.
- Por ora não precisa entender o que se passou. Adianto-lhe apenas que a maior parte da cura foi devida à distribuição dos bens de Apepe aos pobres. Sempre que se lembrar das múmias, emita um bom pensamento na direção delas.

- Eu o farei, com certeza!

Desde então Proteu passou a se dividir entre as atividades do exército e as excursões a Mênfis. Periodicamente o guerreiro e seu séquito de confiança, liderado por Péricles, viajavam até a necrópole onde, totalmente incógnitos, entravam nas câmaras mortuárias de Kbuíu e Chephren. Dali subtraíam as mais variadas riquezas que os súditos deixavam, com o propósito de assegurar aos faraós a passagem de ida para o paraíso e uma vida abastada por lá. Sempre que abriam uma câmara nova da enorme construção, o general tomava para si uma porção das mais belas peças, tendo o cuidado de preservar ainda uma fortuna, mesmo porque era humanamente impossível para a época e a situação tirar tudo de valor depositado dentro das gigantescas pirâmides. Nessa hora ele autorizava cada um de seus soldados a escolher e pegar uma peça. Depois lacravam a câmara e, abrindo um papiro que parecia a planta do local, ele marcava com um círculo o local explorado.

O tamanho do lugar e a quantidade de corredores, salas, antessalas, escadas e nichos indicavam que dez anos talvez não bastassem para explorar toda a obra. A tumba era realmente gigantesca, o cheiro de mofo sufocava e insetos peçonhentos os recebiam aos milhares a cada vez que, com panos amarrados tapando a boca e o nariz, eles removiam pesada pedra para ter acesso a um novo compartimento de ar sobrecarregado e desoxigenado, praticamente irrespirável.

Em um desses dias de expedição tumular, Proteu parou de súbito ao passar em frente a uma parede aparentemente sólida. Com delicadeza alisou a pedra, encostou o ouvido na parede e bateu com os nós dos dedos. Ficou por alguns minutos nessa busca. Os companheiros o chamavam para seguir e ele, com o indicador sobre os lábios, pedia silêncio, até que seu rosto iluminou-se em belo sorriso. Ordenou que os subalternos tomassem as ferramentas e abrissem uma passagem precisamente ali, naquele ponto que parecia uma pedra maciça. Um pouco relutantes eles obedeceram e, com os olhos quase a saltar das órbitas divisaram uma câmara secreta.

- Como sabia disto, general?

- Eu não sabia.

Nessa câmara em particular os soldados sentiram-se incomodac: s Era circular e maciça, com nichos cravados na pedra em toda a circunferência, nos quais múmias desprovidas de sarcófagos ou máscaras funerárias davam a impressão de vigiar os intrusos, para não serem roubadas em seus tesouros, tão abundantes que cobriam os pés e atingiam os tornozelos dos saqueadores gregos. Eram ao todo vinte cadávere; e em um deles algo chamou a atenção de Proteu. O grego avistou um belíssimo bracelete em um dos braços amarrados cruzados sobre o peita. Na joia aparecia uma águia em baixo relevo, na qual os olhos e as per.ií das asas eram incrustados de pedras preciosas. Ele tomou a joia com as duas mãos, pensando que algum dia a colocaria no braço de Kyia.

Ao olhar para os hieróglifos e ler os nomes dos mortos, estremeceu. Lágrimas mornas rolavam pelo rosto queimado, causando desagradável ardência. A câmara parecia girar com rapidez vertiginosa, que lhe deixou o estômago nauseado. Por um momento o mercenário sentou-se no chão e se sentiu viajando para outro mundo, outro tempo. Em seguida determinou a seus homens que não tocassem naquelas riquezas selando a câmara, acrescentou-a e circundou-a em seu mapa. Os companheiros não se incomodaram com o incidente. Havia mais riquezas ali do que poderiam gastar em uma vida inteira e na outra também. Selada a grande pedra, partiram para outro compartimento entre > infindáveis que ali existiam.

Pelo resto da expedição e no caminho de volta o general mostrou-se taciturno. Aquela sala o havia perturbado ao extremo, todo» sabiam. Não obstante, as perguntas eram respondidas pela reafirmação de que não conhecia aquele local nem sabia o que existia ali que o deixara tão lúgubre. Apenas assentia ao ouvir que fora naquela câmanJ que se entristecera.

- Acho que é a maldição dos faraós mortos. Não deveriamos tem profanado sua tumba. Já ouvi falar dessa maldição, dizem até que mata - Não fale besteira, Péricles! Não acredito em maldição de faraós ou nada parecido. E aviso a cada um de vocês: quem quiser deixar o grupo terá infelizmente de vir morar em Chephren, pois este segredo deve ficar somente entre os associados das expedições.

Todos os soldados afirmaram não crer em maldições de fantasmas milenares e seguiram Nilo acima, rumo a Tebas. No decorrer da viagem Proteu parou várias vezes por sentir-se mal, o que não era habitual suceder ao guerreiro. Teve crises de vômitos e diarréia dolorosa que o fizeram chegar a Tebas totalmente desidratado e febril.

Haemon se desdobrou em cuidados com o irmão delirante, que por sete dias e oito noites sofreu febres e delírios. Em meio a estes via Kyia usando o bracelete de águia, via as múmias da câmara secreta se moverem em sua direção a passos lentos e arrastados, sentia-se preso em um sarcófago e as dores abdominais o faziam entender que estava sendo estripado e mumificado. No oitavo dia amanheceu melhor; a febre, os vômitos e a diarréia cederam, deixando uma dor cruciante no estômago. E a sensação de tristeza injustificada também permanecia.

Proteu retomou suas atividades no exército e por três vezes adiou a próxima viagem a Mênfis. Não se sentia inteiramente curado: o estômago doía com frequência e seu estado depressivo se acentuava de modo preocupante; os constantes pesadelos envolviam as múmias e o bracelete com a águia que sempre aparecia no braço de Kyia, morta entre outros cadáveres.
Não fale besteira, Péricles! Não acredito em maldição de faraós ou nada parecido. E aviso a cada um de vocês: quem quiser deixar o grupo terá infelizmente de vir morar em Chephren, pois este segredo deve ficar somente entre os associados das expedições.

Todos os soldados afirmaram não crer em maldições de fantasmas milenares e seguiram Nilo acima, rumo a Tebas. No decorrer da viagem Proteu parou várias vezes por sentir-se mal, o que não era habitual suceder ao guerreiro. Teve crises de vômitos e diarréia dolorosa que o fizeram chegar a Tebas totalmente desidratado e febril.

Haemon se desdobrou em cuidados com o irmão delirante, que por sete dias e oito noites sofreu febres e delírios. Em meio a estes via Kyia usando o bracelete de águia, via as múmias da câmara secreta se moverem em sua direção a passos lentos e arrastados, sentia-se preso em um sarcófago e as dores abdominais o faziam entender que estava sendo estripado e mumificado. No oitavo dia amanheceu melhor; a febre, os vômitos e a diarréia cederam, deixando uma dor cruciante no estômago. E a sensação de tristeza injustificada também permanecia.

Proteu retomou suas atividades no exército e por três vezes adiou a próxima viagem a Mênfis. Não se sentia inteiramente curado: o estômago doía com frequência e seu estado depressivo se acentuava de modo preocupante; os constantes pesadelos envolviam as múmias e o bracelete com a águia que sempre aparecia no braço de Kyia, morta entre outros cadáveres.

Capítulo 17

Devido aos cuidados de Haemon a adinamia18 de Proteu não registrava níveis alarmantes e críticos; em contrapartida, não cedia por complete. Vez por outra o irmão o surpreendia em um canto, contemplativo, a chorar em silêncio. Em outras ocasiões dirigia-se a ele pedindo algum tônico que lhe aliviasse o desconforto que começava na boca e descia por todo o abdome.

- Haemon, acha que eu peguei esta doença na pirâmide?

- Pode ser.

- Alguma múmia me contaminou?

- Talvez. É um tanto difícil definir exatamente o que se passa com você, visto que padece dores no corpo e na alma, tem pesadelos c enxaquecas...

- Acredita em maldição do faraó?

- Não como a entende. Um espírito que partiu há tanto tempa bem pode estar já de volta, entre nós. Talvez seja um de nós mesmos.

- Então é impossível que Quéfren esteja olhando sua tumba cc os olhos da esfinge e amaldiçoando quem a profana?

- Não é de todo impossível. Eu lhe contei o que houve com T. e a mãe de Apepe. Poderia estar acontecendo isso com você, embora não perceba ninguém do mundo dos mortos a seu lado.
18 Adinamia é um termo médico (do latim a, “negação” e dynamis, “força”) usado designar a redução da força muscular, debilitação muscular e fraqueza. Uma ii posição geral. As causas podem ser físicas ou psicológicas.

Pensa que o bracelete está atraindo Quéfren, como a múmia de Apepe fazia à mãe dele?

- Não acho que Quéfren se prendería assim a uma simples joia. Ele tinha tantas! Não, irmão, não sinto Quéfren ou nenhum outro gênio ao seu lado.

- E como explicar esta tristeza e estas doenças que me acometeram desde que violei a câmara secreta das múmias nuas?

- Estou buscando respostas. Por ora, tudo que posso fazer é vigiar para que o problema não se agrave, assegurar-lhe que você pode vencer essas dores, incentivá-lo a lutar contra isso e procurar um objetivo no propósito de não se entregar. Conrie em mim, pois eu confio nas vozes superiores que me ajudaram a descobrir o mistério que o envolveu naquela tumba.

- Obrigado, irmão, confio em você. Se conseguiu curar Tula, sei que o fará comigo que não estou em situação tão dramática.

Nesse instante Nefertari entrou no aposento e depositou uma bandeja com a refeição do amo.

- Se não estiver bem posso passar a noite aqui, cuidando de você, Proteu.

- Não me tente, Nefertari. Já disse que não quero viver maritalmente com você.

- Kyia não vive mais, senhor. Seu marido a deu como morta; foi o que Nany contou por aí.

- Nany e Kyia nunca se deram, isso não procede - Haemon alertou a dançarina. - Se Kenefer fosse dar a segunda esposa como morta me teria comunicado, e eu o desencorajaria, visto que sei que ela está viva.

- Está viva, disse bem, mas onde? E quando vai voltar, se é que vai? Ela pode estar viva em qualquer lugar e nunca mais aparecer em Tebas - o que, a bem da verdade, é o mesmo que estar morta. Esperará por quanto tempo? Está disposto a morrer só?

- Não tenho esse plano. Esperarei até perder todas as esperanças; isso não tem dia marcado para se dar.

A dançarina saiu enfurecida e Haemon convidou o irmão para um passeio ao longo da necrópole ou à margem do Nilo, sob o luar que não demoraria a despontar. Poderíam também visitar um dos muitos templos sem teto de onde se viam os últimos raios de sol a refletir a» estrelas, com um efeito tranquilizante e admirável. Sem grande ânin» o mercenário acompanhou o irmão até o templo, onde encontrara» Sobeknefru a confabular com um grupo de mercadores que traziam s mais variadas especiarias orientais. Ao ver Haemon, o sacerdote cha-mou-o para apresentar-lhe o mercador que sempre lhe trazia utilidades mil para seus trabalhos medicinais e cosméticos. Quem sabe encontraria algo de útil para fazer suas poções e algum remédio para o irmão?—

Polidamente o sábio se aproximou e, amável, cumprimentou • vendedor.

- De onde vem e como consegue tantas coisas interessantes, arr.i r A

- Existe apenas uma resposta a suas perguntas: venho de Bizâncm o maior mercado do mundo.

- Certamente. E é verídica a informação de que espartanos tonMW ram a cidade, depois de vencer Atenas no conflito do Peloponeso?

- Sim, os espartanos dominam, mas não atrapalham nosso comercio. O senhor quer alguma erva ou um tempero? Um tecido para a esposa? Uma joia?

- Não, obrigado.

- Um amuleto contra todos os maus espíritos? Aposto que co« este ficará protegido de qualquer maldição.

A última palavra do mascate chamara a atenção de Proteu. c~jeí ouviu do irmão:

- Um objeto não pode proteger de má influência dos mortos.

- Se objetos os atraem, podem bem os repelir.

- Isso também é falso.

- E a múmia de Apepe?

- O que a princípio atraiu Azeneth foram as más ações de TdÍn Vigie suas ações e estará protegido.

- Posso pelo menos ver o amuleto, Haemon?

- Claro! Nenhum mal lhe fará.

- Creia, eu obtive esta relíquia de uma sacerdotisa que morria *© deserto. Ela me passou o precioso amuleto e contou-me seus mistérios disse que nada se equipara a seu poder e que eu não deveria desfazer--me dele. Estou fazendo isso por séria necessidade e por se tratar de nobres como são.

- Está bem, eu vou comprá-lo.

Os olhos de Proteu se fixaram no objeto do forasteiro. Parecia estar sonhando. Pedira tanto aos deuses uma pista da amada... Já quase perdia a esperança, quando do dedo médio do bizantino um cordão de couro balançava poeticamente com um laço de ísis esverdeado na ponta. Não era algo comum, era uma joia única, vista por ele uma vez sobre o corpo nu de Kyia, enquanto se banhava nas ondas do mar de Moisés ou dormia serenamente ao seu lado.

De um salto, avançou sobre o mercador e o agarrou pelo pescoço, sob protestos do irmão e de Sobeknefru, que seguraram o guerreiro a custo, enquanto ele gritava para o assustado mercador:

- Não fale uma única mentira ou o mato como a um inseto. Como conseguiu esse artefato? Não venha com sacerdotisa poderosa, porque sei muito bem a quem pertenceu essa joia. Vou trucidar você, seu turco desgraçado!

- Calma, irmão! Eu lhe disse que Kyia está viva; isso pode ser a pista que esperávamos.

O mercenário serenou um pouco.

- Comece a falar.

- Pois bem - começou o outro, gaguejando. - Já faz mais de dois anos, ia para o delta quando vi uma figura feminina no ermo. Parecia à beira de falência múltipla. Disse-me que tentava alcançar o antigo templo de Hathor e posteriormente Tebas, e que precisava de algum recurso para tal. De imediato vi que ela não tinha nenhuma chance em seu intento, mas apiedei-me e lhe dei de comer e beber. Em agradecimento me deu esta joia, que - mentiu - segundo afirmou tem extraordinário poder para afastar os maus espíritos. Isso é tudo. Não fiz mal a ela, tenho minha família como testemunha. Segui para o lado do delta e ela continuou ao sul. Fique com a joia e não me deve nada.

Ele tomou o laço de ísis e o fechou na mão de encontro a testa como se ele pudesse dizer o paradeiro de sua dona.
- De acordo com sua experiência de ambulante, o que acha que aconteceu a essa mulher? - perguntou Haemon.

- Com certeza morreu e foi devorada pelos animais do deserto.

- E se eu disser que isso não ocorreu? O que mais poderia tem havido?

- De acordo com a localização em que a vi, se me garante que não está morta, pode ter sido encontrada por nômades e levada para ser vendida, em qualquer lugar, já que são nômades...

— Não existe por aquelas bandas algum vilarejo, oásis, qualquer local onde ela pudesse estar por todo esse tempo?

- O traço de civilização mais próximo do ponto em que a enconrrer é o antigo templo da sacerdotisa Amonet, uma paragem quase obrigs-tória aos caminhantes do deserto.

- O templo de Hathor!

- De Amon-Ra. Se disser isso, a sacerdotisa nem o recebe.

- Eu vou para o templo de Hathor amanhã, tão logo o sol comece a declinar.

- Não quero desanimá-lo, guerreiro grego, porém não acredito que essa mulher tenha conseguido alcançá-lo. Há uma distância consideravel de onde ela estava até o templo.

- Contudo, se o que diz é real, esse traço de civilização é no máximo um ponto de partida. Acho que vou consultar o oráculo de Sechic;

- Tenha paciência, irmão. Sobeknefru é um pobre joguete ma mãos de espíritos tão futeis como ele mesmo. Parta amanhã em husol de Kyia. Se não fosse para achá-la, por que essa pista viria parar nas suas mãos? A coisa mais simples do mundo seria tirar esse mercador dal nosso caminho, já que tínhamos tantas opções de passeio. Se as forcas superiores do universo nos trouxeram exatamente onde estava a joia. tai o plano delas que a descobríssemos; e, sabendo que isso decerto despedi taria o seu desejo de seguir tal indício, ir ao seu encalço é o plano makal Vá, Proteu, e traga Kyia de volta.

A noite toda Proteu passou insone. Com a joia nas mãos, recordai va o único encontro que tivera com Kyia e selara seu destino, naquelas! praias cálidas e iluminadas. Se Haemon o aconselhara a ir, sem dúvida era porque tinha chances; era sensato e prudente, jamais lançaria o irmão em uma viagem descabida. Já podia imaginar o momento em que ela surgiria vestindo uma túnica branca e vaporosa e com os brilhantes cabelos negros que iam até a cintura, cheirando a henna, soltos ao vento. Dois anos mais madura, dois anos mais mulher. A porta se abriu e Nefertari entrou.

- Soube que parte amanhã à procura de Kyia.

- E verdade, tenho grandes chances de localizá-la; uma pista chegou a minhas mãos.

- No caso de regressar sem ela, perderá as esperanças?

- Nefertari, eu vou em busca daquela que quero para esposa. Deixarei Péricles no comando do exército e avisarei ao faraó que não tenho data para a volta. Quando entrar novamente em Tebas quero tê--la ao meu lado. Se isso não acontecer, se não encontrar minha Kyia, deixarei de esperar por ela. Se algum dia ela aparecer serei grato aos deuses, mas viverei como se essa possibilidade não existisse.

- Em resumo, se não a encontrar desta vez, desistirá.

- Isso mesmo.

- E nesse caso fará o quê?

- Eu me casarei com você.

- Quer dizer que se retornar depois disso ela terá de ser a segunda esposa outra vez?

- Não. Pelo pouco que a conheço, nunca aceitará tal situação.

- E desistirá do casamento?

- Ela matará você; ou a mim, sei lá. Não quero pensar nisso agora. Sei que breve estarei de volta, e com ela.

Após deixar os guerreiros sob as ordens de Péricles e se entender com Hakor, Proteu partiu em direção ao templo de Hathor, acompanhado de uma divisão composta por soldados gregos e egípcios. Bem equipados, a viagem não foi sofrida nem desconfortável. Rapidamente atravessaram o Nilo, ganhando o deserto oriental, e chegaram ao grande templo em perfeita forma física - com exceção de Proteu, que teve suas crises gastrintestinais e melancólicas. À entrada do belo templo de pedras avermelhadas, sustentado por colunas gigantes, foram recebidos pelos ajudantes e aprendizes de Amonet, que os levaram a se banhar e descansar. As refeições eles dispensaram, por terem muita comida na bagagem e estarem todos saciados. Ao acordarem na manhã seguinte, o líder fora levado à presença da sacerdotisa.

- Sacerdotisa Amonet, sou muito grato por receber a mim e meus soldados.

- É minha função enquanto ministra de Ra.

- Belíssimo o seu templo.

- Belo e gigantesco.

- Acredita que Ra precisa de tanto espaço? - ele tentou ser crítico.

- Não. Por isso está aqui, com seus amigos, a desfrutar este espaço.

Proteu sentiu o sangue fluir todo para o rosto.

- Mil perdões!

- Bem, como você, sempre achei um desperdício haver templos enormes e luxuosos para seres etéreos, que nem ocupam lugar, enquanto muitos seres físicos se torram ao sol lá fora. É em razão disso que procuro ser um ponto de apoio para quem passa por aqui. Não posso fazer nada em relação aos outros, sequer me sinto no direito de questionar; o que posso é cumprir minha parte. Este é meu templo e com ele eu faço a minha parte; e isso faz a diferença para muitos andantes do deserto, inclusive para você.

- Fui muito infeliz em meu comentário. Tem todo o direito de ficar zangada e me expulsar daqui.

- Eu não estou zangada, não tem esse poder. E se eu expulsar d o meu templo viajantes tão necessitados, o que o diferirá dos outros que ostentam tanto luxo em face de tanta miséria?

- Acho que devo calar-me; a cada frase fico em pior situação.

Ela sorriu, meiga.

- Não se amofine, aproveite a nossa hospitalidade e descanse. Par» onde deve seguir?

- Eu não sei com precisão para onde vou. Estou em busca de um pessoa desaparecida há mais de dois anos por estas paragens; pode ser inclusive que esteja hospedada aqui.

- Se estivesse aqui por todo esse tempo, não seria mais uma hóspede.

Claro. Talvez tenha se hospedado aqui e dito algo que me ajude a encontrá-la.

- Muitas pessoas vêm e vão diariamente. De qualquer modo, se me lembrar certamente eu o ajudarei.

- Trata-se de linda tebana com belíssimos cabelos negros, escoltada por dois rapazes. Seu nome é Kyia.

- Kyia! Claro que me lembro. É quase impossível que ela passe despercebida e sem causar forte impressão, onde quer que esteja.

- Exatamente! - os olhos de Proteu brilharam.

- Só que não era tebana; lembro-me como se fosse agora: era de Mênfis.

- Sim, ela é de Mênfis e vive em Tebas.

- Corajosa, levava uma mensagem para um soldado em plena guerra. Dizia amá-lo como a um deus; parece até que tinha o nome de uma deidade grega. Prometeu, algo assim.

- Proteu - disse ele no apogeu da emoção. - Proteu de Mileto. Muito prazer, sacerdotisa.

- É você a quem ela buscava?

- Sim, e que hoje busca por ela desesperadamente.

- Ela esteve conosco por mais de um dia. Disse a que vinha e saiu declarando que passaria por aqui na volta. Isso nunca aconteceu. Dias depois surgiram alguns árabes à sua procura, e eu nada pude informar.

- Ou seja, ela desapareceu entre Urchada e este templo.

- É uma extensão um tanto grande, mas partindo do princípio de que os árabes, que conhecem este deserto como ninguém, vieram de lá e perguntaram por ela, eu lhe garanto que não se achava no espaço entre Urchada e este templo. A menos que tenha sido devorada por um predador ou coberta de areia... Não me lembro se houve tempestade de areia naquela ocasião.

- Não, tenho certeza de que está viva. E o que me foi me dito por um poderoso oráculo.

- Nesse caso, ela só pode ter mesmo desaparecido entre Urchada e este templo.

- Sim.
Vamos descobrir onde está essa moça. Não sabe como desejei que ela o encontrasse. Parecia algo tão sublime... Deve ter sido um encontro de deuses.

- Não, os deuses são muito invulneráveis para tal. Foi lindamente, genuinamente humano. Amonet, há alguns dias afirmei que se fracassasse nesta empreitada eu desistiria e retomaria a vida normal, porém reconheço agora que isso é impossível. Se nunca mais encontrar Kyia, viverei o resto de meus dias da lembrança desse encontro, ainda que único.

- E esteja feliz, posto que muitos passam a vida inteira sem experimentar tamanho arrebatamento. Isso é privilégio de poucos.

- Eu sei, mas ficarei mais feliz se a reencontrar e viver com ela até o fim de nossas vidas.

- Nossas vidas não têm fim. Faço votos de que vivam juntos para sempre.

- E se não for possível, o que farei com tanto amor, Amonet?

- Dê às pessoas que sofrem. Na verdade, vocês não estão separado;. O que liga dois seres são seus pensamentos voltados um para o outrc : logo, estão um tempo sem se ver, mas não se separaram, acredite.

- Como sacerdotisa acha que vou encontrá-la?

- Acho. E faço questão de celebrar essa ligação em meu templo, de acordo com as leis egípcias.

- Existe um problema. Kyia já é casada e, conforme essas leis, nenhuma mulher pode ter um segundo marido sem se divorciar do primeiro. Terá de esperar até irmos a Tebas para Kyia se divorciar; então voltamos ao seu templo.

- Eu não disse que vou casá-los. Isso só cabe a Ra, que por sinal já o fez. Eu falei em celebrar essa ligação e darmos bela festa.

- Está combinado. Mas voltemos ao nosso raciocínio. Se ela desapareceu entre Urchada e este templo e não está morta, tem ideia do que pode ter acontecido?

- Diga-me, Proteu: o que o trouxe até aqui?

- Um comerciante bizantino que tinha algo pertencente a ela deu--me esta localização e me falou do templo.
Ao ver o laço de ísis, a sacerdotisa arregalou os olhos.

- A chave do enigma perdido! Onde estava? Milhares de vidas já se perderam por isso.

- Estava no pescoço de Kyia quando a encontrei.

- Posso assegurar que não o portava ao passar por aqui; de alguma forma o obteve em sua ida até Urchada. Por isso os árabes estavam à sua procura; eles correm atrás dessa chave há séculos.

- E o que ela abre?

- O enigma perdido.

- O que é isso?

- Não sei, são mistérios árabes.

- Kyia não tinha noção do valor deste objeto, pois o deu ao bizantino por um pouco de água e comida.

- Você sabe o valor de um pouco de água e comida para quem está caminhando pelo deserto? Os valores das coisas são muito relativos, amigo Proteu. Ei, espere! Você disse bizantino?

- Sim.

- Lembro-me como se fosse agora: naqueles dias recebi alguns bizantinos que procuravam pela chave. Seu líder era um árabe muito rico, empresário do ramo das cerâmicas. Disseram que é dono de um império nas cercanias de Bizâncio.

- Onde está a conexão?

- A caravana partiu para o norte, de onde vinha Kyia, segundo sua informação. Ao que tudo indica, eles a encontraram.

- Crê que a levaram?

- Se não, podem ter alguma pista. Depois que saíram, comentaram os hóspedes que eles têm o hábito de capturar pessoas para trabalhar em suas manufaturas como escravas.

- Acho que já sei para onde seguir; vou para Bizâncio.

- Eu estarei torcendo e orando por você. Entretanto, todo cuidado é pouco. Não entre em Bizâncio; não é dentro da cidade que está o império de que falo. Ela está dominada por espartanos e, sendo você da liga de Delos, corre sério perigo nos limites das suas muralhas. Estou deveras apreensiva; na volta passe para dar-me notícias.
- Não retornarei a Tebas sem vê-la, Amonet. Devo-lhe muito; não só a hospitalidade, como a informação que poderá levar-íne à minha rainha. Esteja em paz, não cruzarei as muralhas de Bizâncio; buscarei fora delas os dados a respeito dessa manufatura de cerâmica.

Capítulo 18

A expedição adquiriu quatro pequenos barcos que durante vários dias singraram os mares Mediterrâneo, Egeu e de Mármara, atingindo assim o local indicado pelo oráculo de Delfos ao rei Bizas de Megara para fundar sua cidade “além da terra dos cegos”.

O vento no estreito de Bósforo era fresco, e ali eles pararam para descansar, olhando as muralhas da cidade de Bizas. Um barco atracou a poucos metros da praia e um grupo de homens veio molhando as barras das túnicas, mesmo suspensas até a cintura. Nenhuma roupa de baixo usavam os navegantes, o que provocou em Proteu e seus pares engraçada expressão de náusea. Os guerreiros se olharam e não seguraram uma sonora gargalhada em coro.

Os bizantinos nem pareciam notar os forasteiros. Pulavam repetidamente na areia tentando tirar o excesso de água do corpo, para só então soltar as túnicas, encerrando o quadro cômico.

- Salve, estranhos! O que trazem para Bizâncio, além das adoráveis presenças?

Proteu fez ar de incredulidade.

-Adoráveis presenças... Certo. Somos negociantes de cerâmica, e temos notícia de que existe por aqui uma manufatura de peças maravilhosas.

- Não sei se é assim que vocês consideram aquilo... O que existe é uma fábrica de telhas!

- Eu disse maravilhosas no sentido de serem de fácil comercialização e, por conseguinte, rendosas.

- Isso lá pode ser, pois Faisal está muito rico. Mas são coisas bem feias, por serem moldadas em coxas, cujo formato difere de uma pessoa para outra; portanto, elas quase nunca se encaixam - riu ao dizer isso. -Também, quem as compra pensa mais no sol, visto que as chuvas quase nunca chegam lá.

- E quem as compra?

- Os habitantes das terras secas orientais.

- Então é lá que vou vendê-las; não posso nem sonhar em ver essas beldades em local úmido.

- Faça isso e será linchado.

Os dois grupos riram.

- Siga em frente, por fora das muralhas de Bizâncio. Essa est nem tem bifurcações, vai direto ao povoado. Quando chegar ao ’ estará no mundo de Faisal.

- E esse senhor é alguém amistoso?

- Tratável. Se veio para negociar será muito bem recebido. Ele pensa em ganhar e ganhar sempre.

- Obrigado, e tenham uma boa viagem.

- Vocês também.

Os expedicionários seguiram a pé pelo caminho indicado; era tuoso e acidentado, mas único, sem o perigo de se perderem em de Andaram durante o dia todo e à noite acamparam em uma espécie platô bem elevado que ficava à margem da estrada de Faisal.

Proteu cerrou os olhos e se viu dentro da câmara secreta da i râmide de Chephren, onde Kyia, usando o bracelete de águia, ú morta com apavorantes feições arroxeadas. Sem entender como, guerreiro se via a correr pelo deserto escaldante, enquanto ela ava va em sua direção portando assustador objeto perfurocortante. Já interior da mórbida câmara, ele tirava a arma de suas mãos; e qr se preparava para desferir violento golpe em sua perseguidora, foi pertado pelo sol no rosto.

A impressão dos exaustos caminhantes foi de que a noite dt poucos instantes e de que mal haviam fechado os olhos quando o lho do sol os ofuscou. Proteu sentia-se péssimo ao acordar. Pa tão reais os pesadelos com a pirâmide... A bem da verdade, eram lembranças de um dia distante, muito distante. Sentou-se e abraçou forte o próprio corpo, na tentativa de atenuar as dores abdominais que o acometeram de súbito. Um dos companheiros lhe estendeu uma caneca com chá na qual ele bateu com violência, alarmando o soldado que a viu voar.

- O que aconteceu? Se não gosta desse chá, era só dizer.

- Não, não é nada disso. Desculpe-me, não sei o que houve. Foi um ato impensado e involuntário, não sei o que me levou a isso. Sinto muita dor, e quero um pouco do chá, sim. Por favor, Milcíades!

Sem entender, o outro voltou à pequena fogueira, serviu mais um pouco da bebida e a levou ao general. Após tomar o líquido quente, o guerreiro se pôs de pé e respirou sonoramente. Observando o relevo em frente, pouco abaixo do ponto onde estava o acampamento, entreviu a vila de Faisal. Animado, enviou um mensageiro em busca do líder da comunidade.

Decorridas algumas horas Proteu foi chamado de seu repouso doloroso. Três cavalos subiam em direção ao platô. Ao reconhecer em um deles o seu mensageiro, o grego sentiu-se tranquilo. O líder havia emprestado um cavalo e trazia apenas um amigo; logo, vinha em paz.

- Saudações, Proteu de Mênfis.

- Saudações, senhor...

- Faisal Wazir.

- Muito prazer! Aceita tomar um chá conosco?

- Claro que Faisal aceita. Chá sempre é muito bom.

Sentados perto das brasas, sorviam o chá com pão feito por eles mesmos quando o árabe iniciou o discurso.

- Seu amigo disse que veio negociar telhas. Pode falar de quantas precisa e Faisal arranja. Só não compreendo como vem comprar telha a pé; pretende carregar tudo até o estreito? Ou quer negociar o transporte? Faisal tem muitos cavalos e camelos.

- Eu imagino que tenha grandes tropas.

- Sim, e transporto suas telhas até seus barcos por um preço módico.

- Isso é bom. Conte-me, amigo Faisal, o que mais tem para negociar comigo, além de telhas.

- Qualquer coisa que quiser. Se não tem, Faisal arruma.
Escravos?

- Faisal não gosta de vender escravos; o trabalho vitalício de uma pessoa é muito difícil avaliar. Por isso prefiro que trabalhem para mim.

- E se eu disser que pago muito bem por uma escrava que me agradar.

- Isso Faisal não vende. É prejuízo. Um escravo trabalhador nada paga, e só tenho escravos trabalhadores; do contrário não os mantenhc

- Não diga isso, amigo; tudo tem seu preço.

- Digamos que Faisal concorde. Que escrava quereria?

- Eu teria de vê-las.

- Escute aqui, forasteiro: não pense que engana Faisal. Não tenho nada de bobão, ou não seria rico. Não vem pelas telhas, percebe-se claramente, pois ninguém vem sem tropas para isso; todos sabem o quantc o transporte é caro. Vem atrás de alguma escrava de Faisal, deve inclusive saber exatamente qual. Vamos parar com perda de tempo. Se não di valor ao seu, o tempo de Faisal é precioso.

- Venho em busca de uma mulher de Tebas, chamada Kyia, que pode estar entre seus escravos.

- E se estiver?

- Quero que saiba que vou levá-la.

- Faisal não gosta de ameaças. Se fosse o caso, não teria homens suficientes para lutar com os meus.

- Poderia ir a Tebas e trazer um exército para cá.

- Enquanto viajasse, eu poderia matar Kyia.

- Ela está com você ou não?

- Pode ser que sim, pode ser que não.

- Ela não é sua escrava, é minha mulher!

- Você é escriba ou mercenário grego?

Assustado, Faisal levou a mão à boca, como se quisesse premer tardiamente as palavras traiçoeiras que acabara de soltar.

- Onde ela está? - Proteu segurou o árabe pela gola, no me»-i mo instante em que outro soldado apontou grande espada para sol acompanhante.
- Se não se acalmar, nunca mais verá Kyia. Nem disse que ela está comigo. O fato de Faisal saber o que sabe quer dizer que a viu e falou com ela, não que a conservou.

Lembrando-se de como a amada era “adepta” do trabalho, ele soltou o árabe e abrandou a voz, que se tornou quase uma súplica.

- Diga se ela está com você e, se não, dê-me uma pista para

encontrá-la. *

- Kyia está com Faisal, mas não está à venda.

- Por favor, vamos resolver isto à maneira árabe: negociando.

- Acha que Kyia tem preço?

- Para mim não; já para você, eu juro que chego nele.

- Não sei... Faisal é muito zeloso com seus escravos.

- Eu tenho a chave do enigma perdido.

Os olhos de Faisal quase saltaram das órbitas.

- Façamos negócio, amigo grego.

- Devolva minha mulher e eu lhe dou a chave.

- Troca justa.

- Noto que para você essa chave vale mais que a escrava; do contrário não faria a troca.

- Esperto você, grego. Como pode ser esperto e trocar a chave por uma mulher?

- É a minha mulher!

- E a chave? Mostre para que Faisal possa acreditar.

Ele mostrou o artefato.

- Vamos ao vilarejo e mandarei buscar Kyia.

Todos desceram do platô rumo à vila. Faisal indagou se os visitantes estavam dispostos a pagar por um banquete árabe.

- Nós pagamos, Faisal avarento. Não é à toa que enriqueceu. Até para receber as pessoas são elas que devem pagar! Todavia, estou reliz demais por encontrar Kyia para me importar com esses detalhes. Faça o maior banquete que esta região já viu. Convide todos os vilões, escravos, famílias, cães e gatos. Quero músicos, dançarinas e malabaristas.

- Isso custa muito caro.
Acha que isto paga? - exibiu várias pedras preciosas tiradas de Chephren.

- Uau! Claro que sim!

Antes, porém, que o árabe tocasse as pedras Proteu fechou o pequeno saco de linho.

- Depois da festa. E nem ouse aprontar nada. Todos os meus soldados sabem onde eu estou e arrasarão seu pequeno império se algo me acontecer.

- Faisal gosta de levar vantagem, mas não é mentiroso, ladrão nem assassino. Vamos trazer sua mulher, fazer bela festa e você parte com ela deixando a chave e as pedras como pagamento. Esta é a palavra de homem, palavra de Faisal.

- Tudo bem. *

Kyia alisava a peça presa em sua coxa, revezando as mãos em vasilha de água e no acabamento carinhoso da telha. Estava com o peite opresso pela notícia da presença de negociantes na vila a tratar corr. Faisal. De onde seriam? A cada caravana de compradores, a esperançi de voltar a Tebas renascia em seu coração.

Toda vez que aprontava uma peça, levantava-se para colocá-la ao sol e mirava o lado da vila. Ninguém vinha ou ia. Até que, no começo da segunda metade do dia, Faisal apontou em seu puro sangue árabe. Ao desmontar aproximou-se dela.

- Olá, Kyia!

- Olá, Faisal! Atrasado hoje. Estava ocupado?

- Fazendo negócios. E acertando detalhes de grande festa hoje na vila; serão todos recebidos: escravos, servos, passantes. Será o maior banquete que já houve em terras de Faisal.

- Você dando uma festa para todos? Está doente dos miolos?

- Não será Faisal a pagar por isso; serão os forasteiros.

- Compraram toda a produção?

- Não compraram uma única peça. Mas levarão algo que Faisal estima muito. Levarão você, Kyia.

- Levarão a mim? Para onde? Como diz que me estima e me vende para forasteiros? Eu até gostava de você, Faisal. Como fez isso?

Estima-me e me negocia como se eu fosse uma telha? - as lágrimas lutavam contra um monte de argila para escorrer pelo rosto da moça.

- Calma. Faisal pediu algo em troca, pois sabia que eles estavam destinados a levá-la de qualquer jeito. Ou Faisal deixava e tirava uma vantagem, ou lutava, perdia, se machucava e eles ainda levavam Kyia.

— Trocando de lugar perderei a metade das chances de ser encontrada. Estou perdida.

- Não está perdida, está achada. Faisal vai sentir saudade de Kyia. E pode acreditar que se Faisal não ganhasse nada com essa negociação, mesmo assim deixaria Kyia ir, porque é a sua vontade.

- Não seja cruel. Sabe qual é minha vontade.

- Partir para Tebas e encontrar os maridos.

- Então...

- Faisal acaba de trocar você pela chave do enigma perdido - ela não captou absolutamente nada do que o árabe dizia. - Foi uma troca magnífica: a chave é muito importante para Faisal e Kyia muito importante para Proteu. Por isso teremos festa. Depois Faisal parte em busca do enigma e você parte junto de Proteu.

- O que diz? Proteu está aqui?

- Sim, na vila. Veio buscar Kyia. Por que chora? Não quer ir com Proteu?

Ela guardou silêncio. Não se lembrava de uma só palavra que pudesse dizer.

- Acorde, Kyia! Vá para a vila. Mas nem pense em usar um cavalo nesse estado lastimável.

Pelos pouco mais de quatro quilômetros que separavam a vila da olaria, Kyia correu. Não era capaz de reparar em nada às margens do caminho; se passasse por alguma coisa ou alguém, não teria como dar a menor notícia. Corria ao encontro de Proteu, rumo à liberdade. Era como se corresse de volta para Tebas, para casa, para sua vida roubada abruptamente havia mais de dois anos. Proteu viera buscá-la, ele a descobrira! Empreendera uma viagem de Tebas a Bizâncio à sua procura, cruzara o deserto e navegara por três mares em seu encalço. Isso queria dizer que era importante para ele, o grego tinha amor por ela.

“Como é gratificante o dom supremo, como dizia Amonet”, começou a refletir. “Se não fosse por amor ficaria o resto de meus dias a fazer telhas. Se não fosse amada ninguém se incomodaria em resgatar--me, em devolver-me a vida. Talvez fosse isto o que Haemon pregasse: o amor nos devolve a vida, mesmo depois da morte. Não seria este o tributo necessário para se alcançar o paraíso? Não seria levando muito amor para a tumba que poderiamos viver no paraíso perdido por falta dele? Acho que estão todos enganados ao levar tanta riqueza para o túmulo.«Nada disso tem valor, não é mais que chamariz para ladrões e saqueadores. Tudo que conta é o amor. De mais a mais, não gostaria de viver em um paraíso sem Proteu; não seria um paraíso se ele não estivesse lá.”

O que Kyia ainda não sabia era que descobrir o amor representava apenas o primeiro dos milhares de passos para aprender a amar sem limites, sem condições, tal qual a Grande Estrela ensinaria quatro séculos depois e com mais dois milênios de treino não teríamos aprendido...

A vila singela e calma se desenhou em frente à enlameada moça_ Proteu e alguns soldados e vilões construíam uma espécie de toldo nc centro das casinhas. Ela parou ofegante, temendo acordar em seu alojamento superlotado. Sua presença chamou a atenção dos demais, Prote_ parou o que fazia e olhou na direção do que os outros fitavam admirados.

- Uma fugitiva da olaria!

- Chamem Faisal!

- Peguem-na!

Olhando fixamente para o amado, ela se deu conta de estar cobem de lama, irreconhecível. Um lago pequeno e profundo existia não longe dali; girou nos calcanhares e correu para lá.

- Atrás dela!

- Parem! É Kyia!

- Kyia?!

- Sim, é ela - dizendo isso, correu em seu encalço.

-Tomara que depois de limpa ela faça jus a esta viagem tão longa!

Os outros riram e iniciaram uma série de comentários acerca de ; ..em ou o quê os convencería a fazer uma viagem daquele porte. De _m harém de belas odaliscas até os tesouros do rei Salomão, todos iam ; rntando por quais motivos iriam a Bizâncio. Em uma coisa todos con-;: rdavam: não seria por Kyia, mulher nem tão bonita assim, já casada jna vez e ainda mãe de uma filha.

- Há gosto para tudo! - exclamou por último um árabe da vila.

Kyia chegou correndo à borda do lago e nem uma pausa deu; mergulhou nas águas claras e profundas, deixando um rastro turvo. Quando ressurgiu à tona, viu contra o céu límpido a silhueta máscula do guer-reiro grego. Proteu tinha o rosto iluminado por um sorriso de puro arrebatamento.

- Que saudade de você!

- Oh, meu Deus! Proteu, eu não acredito, meus olhos estão me engodando.

- Sou eu, minha rainha do Nilo. Por que correu de mim, que venci unta distância para estar com você?

- Senti-me tão extasiada ao saber de sua presença que nem perce-bi o quanto estava enlameada e feia. Minha pele se torrou, bem como meus cabelos.

- Está linda! Sempre estará linda!

Proteu mergulhou nas águas frias e tomou-a nos braços.

- Tive tanto medo!

- Está segura a partir de agora; ninguém vai tirá-la de perto de mim, nunca mais. Não pode avaliar o sofrimento que me dominou mando cheguei e não a encontrei, posto que seus braços eram para mim os portais de Tebas.

- Bem posso avaliar. Cada dia de viagem para cá me dava a certeza de nunca mais tornar a vê-lo.

- Para eu não a encontrar, só se tivesse morrido. O mundo inteiro não é distância para buscá-la.

Livre de toda a lama, ela nadou para a borda, onde se deitou ao sol oara secar; ele se estendeu ao seu lado e segurou sua mão. - Proteu, eu não me recordo de ter amado alguém assim. Nea Kenefer, nem Nyla, nem mesmo Ra.

- E tão estranho para mim... Já estive com tantas mulheres, centenas delas... Por que só você me impressiona, me prende, me abala. m-enlouquece?

- Porque eu o amo, Proteu de Mileto! Eu o amo, meu deus giegM Este tempo como escrava me fez aprender certas coisas, das quais as mais importantes são duas: o trabalho é a base de todas as coisas e o amor é a de todos os bons sentimentos.

- Se me demorasse um pouquinho mais, encontraria sacerdotisa.

- Falo sério. Todo este tempo sentada em um barranco úm com as mãos a moldar a argila em movimento uniforme e repeti fez minha mente vagar e buscar algumas respostas para perguntas eu mesma me fiz.

- Desculpe a mofa, mas a verdade é que eu concordo. Parece madura e ponderada, e essa coisa de bons sentimentos tem me intei do, desde que estivemos juntos. Sinto paz e contentamento intradu: quando olho para você. E, afinal, qual é o maior objetivo do ser hut senão ter paz e contentamento? Então começo a questionar-me a re to do que é o necessário a cada um, além de um rosto amado para se i - falava olhando fixamente para o rosto, agora moreno, de Kyia.

- Para mim é o que basta para ser ilimitadamente feliz. Sem rosto, nem mesmo o paraíso perdido me interessa!

- Não existe um paraíso sem seu rosto.

- Como me descobriu?

- Vim na pista da chave do enigma perdido - narrou os encon com o bizantino e Amonet.

- Como você deu a chave a Faisal, nunca saberemos que eni é esse.

- Saberemos, sim. Antes de chegar ao Bósforo, eu passei m tempo a olhar para aquele laço e constatei que era oco. Com prec e muito jeito, abri a parte inferior e achei outro objeto. Usanc; pedaço de madeira fino e pontiagudo, tirei mais um da parte superior outros dois, um de cada ponta da laçada. Agora tenho quatro objetos pequenos que aparentemente nada significam nem possuem conexão perceptível, mas sem dúvida são uma pista para o misterioso enigma.

- Uau! O que deu a Faisal não o levará a lugar algum.

- Ele pensa que o laço de ísis por si só abre alguma passagem secreta, ou arca, algo assim. Na realidade a chave trazia quatro peças que certamente são o próximo passo que nos levará ao enigma.

- Meu Deus! Para que servem essas coisinhas? O que tem uma a ver com a outra?

- Ainda descobriremos, rainha do Egito. Por ora eu não quero pensar nisso, nem em nada. Desejo apenas fitar seus olhos até que, saturado de paz e contentamento, venha a dormir em seus braços.

- Seu semblante suavizado pelo sono é ainda mais encantador do que esse mistério.

Kyia despertou com a agitada música árabe. O sol já se recolhia e o cheiro de carne assada no ar contava que a festa de Faisal se iniciava. Com uma careta de dor, esticou o braço direito; ao movimento seguiu-se um estalo.

- Essa coisa de “dormir em seus braços” nada tem de romântica.

- O que disse? - Proteu acordava meio confuso.

- Nada importante, deus grego. Acorde, a festa está começando.

O alarido era gigante. Instrumentos aliados a vozes e palmas, dançarinas trepidantes e malabaristas, como havia exigido o patrocinador do evento. Animais que giravam sobre um braseiro e cântaros de vinho e cerveja. E gente, gente de todos os recantos, da vila, da olaria e passantes. As pessoas gritavam e comiam com sofreguidão. No meio dessa algazarra, Faisal dançava com as escravas e servas. Era uma versão ampliada das festas que ele promovia sempre que vendia todo o estoque de suas preciosas cerâmicas.

- Kyia! - gritou meio bêbado. - Venha dançar com Faisal.

A ex-escrava aceitou, e enquanto evoluíam pela praça pública conversaram pela última vez naquela encarnação. Contudo, um elo fora formado; o gérmen de uma amizade verdadeira estava criado para se desenvolver ao longo dos séculos vindouros.
Os olhos de Kyia brilham. Está feliz e bem-amada. Faisal está feliz por Kyia.

- Quase não me aguento de tanta felicidade!

- Foi um tempo bom com Kyia aqui. Faisal gosta de Kyia.

- Foi um tempo importante para mim. Aprendi a trabalhar, a fazer nascer do barro algo útil e belo. Vou sentir saudade da olaria, da vila e dos companheiros de jornada. Vou sentir falta de você, Faisal. Também gosto de você.

- Faisal nunca pediria que ficasse. Sabe que está feliz, vai com um marido que a ama muito e tem outro que espera por você. Seu lugar é no Egito, mas Faisal sente aperto no peito.

- Quem sabe um dia você não vai a Tebas e nos visita?

- Faisal não pode prometer, visto que parte em busca do enigmi perdido.

- O que é o enigma perdido?

- Faisal não sabe.

- E como tem tanto interesse em algo que não sabe o que é?

- Na verdade Faisal usa desse artifício para procurar pela esposa desaparecida, por isso precisa da chave. Sem chave pessoas não acreditam e chamam Faisal de bobo e fraco porque procura por quem abandonou.

- Quer dizer que você inventou essa lenda para procurar sua m._ lher sem ninguém saber?

- Não, essa coisa existe. Faisal só adquiriu a chave para provar c procura outra coisa.

- A chave estava com um homem em Urchada.

- O homem que seu amigo matou.

- Isso.

- Ele a havia roubado para Faisal de outros que a roubaram outros ainda, e por aí adiante. Por isso naqueles dias, naquelas parage todos estavam correndo atrás dessa peça que desaparecera há mais 200 anos e fora encontrada depois de muitas buscas dentro de _ embarcação, no fundo do mar Vermelho, por uma expedição financb por ricos árabes.
Meu Deus! Onde fui me meter?

- E Faisal também não sabia que entraria numa confusão tão grande. A peça desapareceu e o mundo árabe todo estava atrás dela. Como seu amigo matou enviado de Faisal, ninguém desconfiou dele. Então Faisal resolveu voltar para casa antes que isso acontecesse. Quando viu Kyia no deserto, imaginou ter achado a peça que todos diziam ter sido roubada por uma mulher sozinha que matou dois homens e enganou outros dois. Mas Kyia deu a um mercador o objeto de desejo de um punhado de pessoas violentas e frias.

- E você não perdeu de todo; conseguiu uma escrava.

- Acredite ou não, Faisal a trouxe por saber que não sobreviveria a tão ferrenhos inimigos, a começar pelo sol. Faisal a trouxe para salvar sua vida.

- Eu trabalhei para você por mais de dois anos.

- E claro, todos têm de pagar para viver. Mas se sua memória não falhar lembrará que Faisal nunca a castigou. Sempre que sonhava com Proteu, ficava de pirraça com dor de amor e Faisal a deixava repousar, até conversava com você. Nunca foi tratada como escrava. Faisal não tem escravos, estão todos livres; muitos já quiseram partir e partiram. Acredite, Faisal pensou em salvar você da corrida macabra que estava acontecendo atrás de uma mulher com a chave do enigma. Se não a tivesse trazido, Kyia estaria morta sem apelação.

- Obrigada, Faisal. Principalmente por me ter dado a chance de aprender a trabalhar.

- Alguma coisa também Faisal precisa ganhar; prejuízo não foi feito para Faisal.

- Todos os dias vou pedir às forças superiores do universo que o ajudem a encontrar sua esposa.

A música parou. O árabe pegou Kyia no colo e a entregou aos braços de Proteu. E com a voz embargada disse ao grego:

- Tome Kyia para esposa, e cuide bem da amiga de Faisal. Ela deverá estar com este brilho no olhar todos os dias de sua vida, entendeu?

- Sim, Faisal. No que depender de mim, não haverá mulher mais feliz neste mundo.
Se assim não for, Faisal pega você, grego. Faisal gosta de Kvii Agora dance com ela.

- Eu não sei dançar...

- Bem mostra ser da Grécia. Ensine Proteu a dançar, Kyia, coir. Faisal ensinou a você.

A sorrir ela puxou para o meio da praça o mercenário que, desaiei tado, tentava acompanhar os movimentos da dança árabe.

A festa se arrastou noite adentro e antes de o sol nascer os viajante de Tebas partiram para o estreito. Faisal estava totalmente esmaecid: de cansaço e toda sorte de excessos. Kyia aproximou-se, sabendo se inútil chamar pelo árabe; beijou-lhe a testa e deixou em suas mãos un lírio branco encontrado no charco de onde tiravam a argila. Ela sempn gostara da planta que, embora no pântano, conservava-se imaculada-mente branca.

Capítulo 19

ALEF

Uma vez a bordo de uma das embarcações da expedição, Proteu e Kyia, completamente absortos, examinavam as quatro pequeninas peças sobre um pedaço de linho branco. Uma lua crescente? Um cálice? Um alef e uma lança? Ou seria um cetro?

- Eu acho que é uma lança - arriscou Proteu.

- Para mim é um cetro - sugeriu Kyia.

Ao mostrarem o artefato para toda a população, as opiniões variavam entre lança e cetro, confundindo ainda mais os caçadores do enigma.

- Lembra em qual local do laço estava cada peça?

- Sim. Supõe que essas coisinhas tenham uma ordem para serem vistas?

- É uma tentativa.

- Na parte superior do laço estava o alef.

- Faz sentido, já que é a primeira letra do alfabeto hebraico e pode significar o começo.

- À direita achei o cálice, à esquerda o cetro ou lança e na parte inferior esta lua.

Kyia depôs os objetos nessa ordem e os olhou fixamente.

- Alef, cálice, cetro ou lança e lua crescente... - disse ele. - Não há como interpretar.

- Espere, Proteu! A leitura árabe se faz da direita para a esquerda; logo, a ordem é inversa.

- Lua crescente, cetro ou lança, cálice e alef! Também não facilita.

- Temos três mares para singrar e, na falta de onde ir, podemos usar o tempo para analisar estes símbolos.

A noite caiu sobre o mar de Mármara e Proteu, olhando para a lua. pensava nos objetos roubados do laço de ísis, até que adormeceu. Viu-se outra vez na câmara secreta junto a Kyia. O bracelete de águia brilhou quando ela ergueu o braço que segurava uma arma cortante; num gesto instantâneo ele tirou-lhe a pequena espada e preparou-se para desferir violento golpe. Ao contrário do que antes ocorria nesse pesadelo reincidente, não acordou; ouviu o baque surdo de um corpo caindo e viu a espada coberta de sangue em suas mãos. Despertou de um salto. Personificando o semideus seu homônimo, cogitou em silêncio:

“Estou tendo uma visão, e se nela Kyia usa o bracelete que ainda nem lhe dei é por ser uma visão do futuro. Isso quer dizer que um dia ela tentará matar-me e eu, desarmando-a, tirarei sua vida naquela maldita câmara. Não pode ser assim. Preciso mudar isso.”

Correu ao encontro da mulher e a abraçou forte.

- Kyia, quero que saiba que eu a amo, que para mim a preocupação com sua segurança é elevada ao mais alto grau. Mesmo que algum dia eu lhe dê motivos para pensar o contrário, acredite sempre no meu amor por você.

- Por que diz isso? Acaso pretende dar-me tais motivos?

- Não, minha rainha; só quero que se lembre disso sempre. Em qualquer circunstância.

- Impossível esquecer uma única palavra que saia de sua boca.

Ele chamou um soldado que passava e o mandou avisar aos remadores que desacelerassem o ritmo; queria que a viagem fosse bem lenta. Embora sem entender, ele transmitiu a ordem que faria dobrar o temp? de navegação nos três mares.

Lua crescente, cetro ou lança, cálice e alef: tais palavras foram ditas um sem-número de vezes pelo casal ao longo da viagem.

- Kyia, olhe só: cetro simboliza poder, cálice representa o feminino] Talvez estejam tentando nos falar de uma mulher poderosa; uma rainha, quem sabe?

- E se for uma lança?

- Sim, é uma lança, que significa o masculino; cálice, o feminin o. Faz sentido?
Algum, mas... O que querem dizer um homem e uma mulher, uma lua e uma letra hebraica?

- Tem de haver uma conexão.

- Há, com certeza; precisamos tentar descobrir qual é.

- Esse enigma está torrando meus miolos.

- Ao chegarmos ao Egito poderemos contar com a ajuda de Amonet; e se ela não puder colaborar, Haemon o fará.

- Vou parar de pensar nisso e aproveitar enquanto tenho você ao meu lado.

- Você me terá sempre ao seu lado.

- Não assim, em tempo integral.

- Isso é verdade.

Durante a viagem marítima Proteu esteve diuturnamente com Kyia. Era raro se afastar da moça; andava pelo convés a conversar com os soldados sempre a puxá-la pela mão. Os pesadelos se intensificaram e o “semideus” adoecia pouco a pouco. Muitas vezes chorava contemplando o horizonte, sem dizer a ninguém o que se passava. Afinal, nem ele sabia o que se passava. A única convicção que possuía o guerreiro era a de que mataria a amada com um golpe de uma lâmina desconhecida, uma estranha espada curva como jamais vira igual em todas as guerras que travara.

Os viajantes alcançaram o delta do Nilo em um lindo entardecer. Proteu resolveu não seguir e armaram acampamento nas imediações de Mênfis. Quando Kyia revelou-se desejosa de ver a terra natal, ele negou veemente; pensou na cena da morte da amada que se desenrolava na câmara secreta. A pirâmide de Chephren ficava exatamente ali; estava fora de cogitação aproximar-se dela com Kyia. Passariam longe de Mênfis. Mesmo sem compreender, já que o grego tencionava protelar a viagem, ela concordou e alguns dias depois entravam no antigo templo de Hathor.

A sacerdotisa ficou verdadeiramente emocionada ao ver juntos Proteu e Kyia, e na primeira noite os três estiveram em vigília quase até amanhecer. Ela se inteirou da viagem, ficou admirada com o mundo de Faisal e trocou com os visitantes impressões a respeito do trabalho, da amizade e do amor universal.
Na segunda noite que ali permaneceram, ela foi informada sobre os mistérios que cercavam a viagem. Quando o assunto passou a ser a chave do enigma perdido a conversa se inflamou, Amonet olhou para as pequenas peças e pediu que lhe dessem um tempo para concatenar certas idéias que lhe vinham. Convidou então os amigos ao repouse, dizendo que este abre portas para mundos mais avançados onde muitas respostas são descobertas. Disse ainda que tudo parece mais simples após uma boa noite de sono, em que o corpo se refaz e o espírito busca o que lhe apraz.

No dia seguinte, dispostos e descansados, acordaram muito cedo e encontraram a sacerdotisa sentada no chão para o desjejum, como de costume. Diante dela, além do pão e das frutas, estavam os quatr: objetos na ordem árabe.

- Descobriu algo, Amonet? - quis saber Proteu.

- Sentem-se aqui. Olhem bem: lua crescente, cetro ou lança, cálice e alef. Eu diria que tanto faz ser cetro ou lança; qualquer um desses símbolos se encaixa na pista que os antigos quiseram deixar. Lua crescente: muito reverenciada pelos árabes é a lua, por ser companheira e guia dei suas andanças pelo deserto, para as quais naturalmente preferem a noite, pois o sol é inclemente; a fase da lua não faria diferença, mas a cheii, por exemplo, poderia ser confundida com uma esfera qualquer, por isso tomaram o cuidado de fazer um crescente, que a nada se assemelharia,. Se tiveram esse cuidado com a lua, por que pecariam com o cetro ou i. lança? Eles queriam prevenir equívocos entre os símbolos, por isso eu digo que o cetro é uma lança ou a lança é um cetro; ou seja, representa : poder da força física masculina. Cálice é o feminino. E alef corresponue à origem. Em resumo, as peças dizem: viajando através do deserto encontrará o templo de uma deusa ou sacerdotisa que foi tomada à força por um deus ou sacerdote, e lá estará a origem do enigma.

- E onde será isso?

- Corre pelos desertos egípcios uma lenda que diz que uma sacerdotisa, semideusa árabe bela e delicada, morava em um templo de cristaL Era também um oráculo infalível e guardiã de um segredo do universo. Por ser sábia e bondosa, todos se consultavam com ela e a adoravam.

Um dia se apaixonou por um homem chamado Hakim, que igualmente se encantou por ela e passou a viver em seu templo. Como o coração ciumento de Hakim não conseguiu dividir a amada com tantos consulentes e adoradores, num gesto de furia ele arrebatou a sacerdotisa de seu templo e a escondeu no deserto. Os deuses se vingaram de Hakim com uma tempestade de areia que o cobriu, e assim seu corpo se perdeu. A bela deusa construiu com magia um templo no meio do deserto e continuou a guardar o segredo, até que uma expedição árabe veio em seu encalço, não para consultá-la, e sim para se apossar do segredo. Sabendo que se tratava de um segredo inviolável e que não poderia cair em mãos erradas, furiosos os deuses desintegraram o templo; uma vez que era feito de magia, foi fácil para eles desfazerem a construção, e a semideusa foi arrebatada aos céus. O segredo, porém, que não era etéreo como o templo e a sacerdotisa, ficou no local e se perdeu em algum ponto do deserto.

- Então isso é real?

- Eu sempre encarei como uma lenda, mas acreditem, amigos: as Lendas guardam um pouco da verdade original.

- Ainda que assim fosse, a pista acaba aqui. Não temos a mínima .deia de onde ficava esse templo mágico.

- Não acho que fosse um templo mágico. Penso que para ser construído e destruído tomou muito tempo e que não foi utilizada magia em nenhum dos procedimentos.

- Se não fosse fruto de magia, saberiamos da sua localização.

- Essa lenda é muito antiga, e pouco popular inclusive no mundo arabe. Não é bem conhecida por aqui; soube dela por um dos meus hóspedes árabes, faz muito tempo. E ele a apresentou como uma historinha de fundo moral que realça o poder devastador do ciúme. Entretanto, olhando agora estas peças, não vejo outra explicação para a sequência de símbolos.

- E só a chave, como disse Faisal, estava perdida há duzentos anos. Esse templo deve ter existido em algum ponto do deserto, mas como saber?

- Deve haver outra pista. Guarde as que tem; quando aparecerem, as novas as complementarão.
Amonet, mais uma vez lhe agradecemos a hospitalidade e a cooperação. Por mim ficaria aqui pelo resto da vida, mas preciso voltar a Tebas.

- Não antes do combinado. Façamos uma festa para celebrar sua ligação com Kyia e nossas despedidas.

- Eu nunca esquecería. Será hoje.

No Egito da época não havia o casamento religioso, nem mesmo ? civil; ele ocorria como parte de um acordo do casal que decidisse viver junto. Já para a separação, sim, era necessário o divórcio homologas o por autoridades, que também interferiam em caso de adultério por parte da mulher. Não obstante, na intimidade de amigos e conhecidos, paia, marcar a união realizava-se uma espécie de ritual seguido de festa.

Amonet colocou sobre a palma da mão de Proteu uma moeuu um pedaço de pão, um círculo de metal e uma semente de sésamo^ que simbolizavam a riqueza, a fartura, o compromisso e a fertilidass, a seguir pôs a mão de Kyia sobre a dele e prendeu as mãos dos noivos com as suas.

A comemoração durou a tarde inteira e todos se mostravam muito felizes. Apenas Proteu em certos momentos revelava expressão triste-nha e apreensiva, o que foi percebido por Amonet. A sacerdotisa aproximou-se do grego quando o viu sozinho em uma espécie de jardim ãe inverno, mantido cuidadosamente pelos moradores do templo.

- Alguma coisa o aborrece?

- Estou voltando para Tebas e com isso fecho um ciclo em minha vida. Tenho uma sensação de perda.

- É normal nos sentirmos assim, depois de conhecer locais e pessoas que dificilmente voltaremos a ver. Alegre-se, amigo, tem uma esposa feliz e apaixonada.

- Eu sei, e é por ela minha apreensão. Temo causar sofriment; Kyia; eu não gostaria...

- Se não gostaria, não o faça! Somos donos de nossos atos e r todas as suas consequências.

- É exatamente como estou agindo. Só que às vezes se torna muia difícil tomar decisões.
Às vezes, não. Sempre, porque as pessoas não aprenderam a per-cer, e decidir é ganhar algo enquanto algo se perde.

- Amonet, vou sentir sua falta.

- Abrace-me, Proteu. O abraço é uma troca de energias que nos favorece muito.

- Se trocar energias comigo vai se sentir exaurida.

- Elas provêm de uma fonte inesgotável; podemos doar e receber em proporções gigantescas.

- Fala de Ra?

- Chame-o como quiser; contanto que se ligue a ele, estará sempre meio de energia.

A sacerdotisa abraçou o hóspede carinhosamente e chamou Kyia ;: m um aceno. Formaram um abraço triplo do qual lentamente ela se es gueirou, deixando os noivos em um amplexo de nobres energias pro-

r.das dos bons sentimentos que nasciam no âmago de cada um.

A noite caía quando a expedição rumou paraTebas. Foi com o pei-r: opresso que Proteu e Kyia se despediram de Amonet. Numa época que as distâncias eram maiores, uma despedida facilmente poderia ser tornar um adeus.

Os mistérios do enigma e da câmara secreta mantinham os via-mtes intrigados. Talvez por isso Kyia não tenha percebido a expressão -.elancólica de Proteu no restante da viagem.
Ao cruzar as portas de Tebas, em meio a gritos de comemoração, o grupo de soldados se dispersou.

Proteu e Kyla pararam em frente às obras mortuárias do Faraó.

-Minha rainha do Nilo, lembra-se do que eu lhe disse ainda no Mármara?

-Disse-me tantas coisas !

-Eu lhe disse que a amo e que para mim a preocupação com sua segurança é elevada ao mais alto grau.

Sim, eu me lembro.

-Pois saiba que nem um só til muda na minha fala nem no meu coração. Ainda assim, é em nome deste amor que sinto por você que vou levá-la agora para Kenefer e devolver a esposa a quem realmer.rt pertence.

- O quê? O que está dizendo? Que não me levará consigo com: deveria ser?

- Sim. Não posso, minha querida. Por mais que deseje ter você comigo, eu não posso. Acredite, é pelo seu bem!

Kyia se mostrava no auge do desespero e Proteu tinha a dor estampada no rosto, sentimentos que se traduziam nos tons de suas vozes: eh gritava e ele quase sussurrava.

- Pelo meu bem? Que conversa absurda, Proteu! Meu bem e í; seu lado.

- Engana-se, rainha! Ao meu lado corre perigo de morte.

- Você só pode estar a gracejar. Atravessou meio mundo para mc buscar e agora me abandona?

- Não é bem assim, minha querida.

- Como não é bem assim? Por que foi atrás de mim? Eu estão muito mais feliz lá, vivendo de lembranças, do que aqui nesta situação!

- Kyia, por favor, entenda!

- Não entendo! Como entender que alguém empreenda tal aven-tura por outra pessoa e quando a encontre abra mão dela. Como entender que alguém faça isso se não for por amor?

- Tudo que fiz foi por amor!

- Piora a situação com essa afirmativa. Não volto para Kenefer, r_ã» me separo de você, a menos que declare não me amar.

- Jamais direi isso. Eu a amo, só não posso estar com você - ís imagens do terrível pesadelo reincidente assomavam-lhe à lembrança. - Eu a machucaria. Eu a machucaria muito, minha rainha. Por favtJ fique longe de mim.

- Não - segurou o braço do mercenário.

- Escute: o que vivemos foi muito bonito, um privilégio de pou: c mesmo que tenha sido por tempo tão curto. Muitos passam a vida toda sem sentir o que sentimos.

- Não tem de acabar! Deus grego, por Ra, você não pode afastar-afl de mim. Vou perder o que de bom consegui.
- Não! Isso não se perde! Agora, não torne tudo mais difícil; solte meu braço e vá para Kenefer.

- Não. Só se disser que não tem amor por mim.

-Já sabe que nunca vou dizer isso. Então, solte meu braço e entre nessas malditas tumbas.

Como ela não obedeceu, ele tirou o braço violentamente e a afastou tom um empurrão, jogando-a de encontro às pedras e ao chão arenoso. Ao ver as lacerações em seu corpo e as lágrimas sentidas que escorriam rapidamente em seu rosto moreno, Proteu se abaixou até ela, angustiado.

- Eu não lhe disse, Kyia? Vou machucar você. Afaste-se de mim. Sou um bárbaro brutal, não sei lidar com coisas delicadas.

- Não sou delicada, posso igualmente ser bárbara e brutal. Lembre--e sempre disso.

Tomada de sofrimento infinito, entrou na tumba. Parecia ter o pei-: o destroçado por dor tão extenuante que não percebeu o galo na testa e rs lacerações nos antebraços e joelhos. Todos os trabalhadores paravam cara ver a inusitada cena: segunda esposa de Kenefer, bronzeada, com : s cabelos ressecados e a pele marcada por profundos arranhões, passava em sentido pranto, alheia a tudo, pelos labirintos tumulares de Hakor.

Kenefer divisou a esposa ao longe e correu a estreitá-la em amoroso abraço. Nos braços do bondoso marido ela chorou copiosamente.

- Kyia, minha pobre esposa! Pensei nunca mais vê-la, que bom estar de volta! Graças dou a Ra por tê-la preservado de mal maior. Que felicidade ver você!

- Kenefer, não sou digna de você. Se quiser, pode e deve mandar matar-me.

- E por que eu faria isso a quem estimo tanto?

- Eu o traí, desde que deixei Tebas.

- Muito antes de deixar Tebas você me traía levianamente, e não a matei por isso. Não agiria assim agora que o fez por amor. Sei que quer : divórcio para viver com Proteu, e o concederei. Quero que seja feliz, í isso não precisa necessariamente se dar como minha esposa. Tem o direito de ser feliz com quem escolher; baseado no amor que tenho por você, só posso concordar.
Não vou viver com Proteu, ele não quer.

- Como não quer? Você arriscou a vida por ele, se perdeu no deserto e nobremente ele a resgatou. Haemon contou-me toda a história e pediu-me que concedesse sua liberdade. E agora ele não a quer mais?

- Isso mesmo.

- Proteu não pode fazer isso. Não pode desonrar-me dessa maneira diante de todos. Tomou você por esposa desde que a encontrou ea Bizâncio, sob os olhares de todos os soldados tebanos, e acha que pode chegar aqui e me devolver uma esposa que sem escrúpulo algum usoa durante toda a viagem?

- Quem lhe contou isso?

- Os soldados se dispersaram pela cidade relatando detalhes da viagem em pormenores sórdidos; destilando uma dose gigante de veneno na parte da história que diz respeito a você e Proteu.

- Perdoe-me, Kenefer! Mas eu não vim aqui para que me acõBC por esposa; não tenho essa coragem, não sou tão cruel assim. Vim parque senti saudade, vim pelo seu abraço paternal; não teria coragem ãc pedir ato tão despropositado. Sei que maculei sua honra, não o tã com sua casa e suas filhas. Não quero voltar para sua casa, cuide de Ni

Dizendo isso, deu-lhe as costas e caminhou para a saída.

- Kyia! O fato de não a querer como esposa não significa que n lhe quero bem. Não vou deixá-la desamparada nem lhe fazer mal. ’ mesmo cuidar de você. Antes, porém, preciso acertar certas coisinl com Proteu.

- Kenefer, não pode sequer pensar em confrontar força física ca Proteu. É um homem muito mais velho e nunca treinou nada além escritas e desenhos. Ele destroçaria você.

- Não me importo. Nunca mais poderei andar de cabeça erp_ pelas ruas se não tirar satisfações com ele. E por falar nisso, coma machucou?

- Eu caí.

- Kyia!

- Ele me empurrou.

Os lábios de Kenefer tremeram de raiva.
- Vá para o templo de Sobeknefru e diga-lhe que a instale confor tavelmente.

Eu pagarei por tudo. Ela obedeceu. Encontrou o amigo sacerdote conversando com Tula e Péricles.

Este não conseguiu disfarçar a frustração com a notícia do regresso do general. Já pensava em ocupar o lugar do companheiro de armas, tomara gosto pelo ato de comandar e estar em evidência perante as tropas e o faraó. Torceu a cada dia de ausência para que o colega não voltasse, desejou que morresse em algum ponto do deserto e não reassumisse o posto de maioral do exército. Com a volta dele, teria de se retirar à subalternidade detestável, degradante. Péricles saiu carrancudo, decerto rumo ao quartel-general.

As companheiras tinham então toda a tarde para conversar sobre os anos que haviam passado separadas; ambas tinham muito a relatar, muitas experiências boas e más acontecidas ao longo desses anos. Quanto a Kenefer, logo após o terceiro culto a Ra procurou por Proteu na casa de Haemon que era onde morava. O sábio e amigo veio recebê-lo. Proteu, abatido e sonolento devido à longa viagem e aos últimos acontecimentos, nada havia relatado ao irmão, deixando a penosa conversa para o dia seguinte. - Kenefer, meu irmão do coração! Já soube que Kyia voltou? - Sim, meu amigo, eu já estive com ela. -

Posso avisar o faraó de seu divórcio, como havíamos planejado? - Pode, sim; eu me divorciarei de Kyia como planejado. Meus planos continuam os mesmos, o que não ocorre com seu irmão de caráter
duvidoso e covarde. - Do que fala, amigo? - E você, tem certeza de que não sabe?

- Acha meu caráter falho também? Se pergunto o que se passa é porque realmente não sei. Está me assustando com essas expressões amargas e insinuações maldosas, tão impróprias a você e a seu caráter íntegro. O escriba desatou pranto sentido. Haemon acorreu e abraçou o amigo, deixando que chorasse.

Quando enfim o viu mais calmo, sentou--se bem em frente a ele Quer me contar o que o atormenta tanto?

- Haemon, nunca serei capaz de traduzir em palavras o que senti e vi hoje. Kyia, ao entrar nas tumbas, parecia a imagem da derrota e da dor. Tinha escoriações pelos braços e pernas, a pele escura e os cabelos clareados em nada lembravam a bela mulher branca de cabelos negros que um dia saiu daqui para levar um recado de vida ou morte a seu irmão. E o pior não era isso; tinha o espírito machucado pela rejeição, pelo abandono e pela humilhação.

Kenefer interrompeu a narrativa por se achar estrangulado pek dor. Respirou fundo para continuar.

- Proteu, depois de buscar Kyia nos confins do mundo, tomá-k tal qual esposa sem ao menos fazer disso segredo entre os soldados, agrediu-a a ponto de machucar seus braços e pernas e a largou às portas de meu trabalho, como a me devolver algo que não mais lhe interessa.

- Kenefer! Eu só acredito porque você está dizendo. Pois garant c que Proteu ama Kyia, tenho convicção disso! Meu Deus! O que fez meu louco irmão? Onde está ela?

- No templo de Sobeknefru. Pedi que fosse para lá, não poss. abandonar essa menina ao acaso. É uma pobre coitada.

- Eu sei, e me sinto um pouco responsável por tudo isso.

- Haemon, como o tenho por irmão, quero que saiba que não posso deixar isso passar em branco. Devo defrontar-me com Proteu.

- Seja mais específico.

- Haemon! Sei que me entendeu.

- Amigo, você não pode chamar Proteu para uma luta corporal: c totalmente incompatível. Ele o destruirá.

- Ele já fez isso, amigo! Não pode avaliar o quanto gosto de minha segunda esposa. Sei que me julga um fraco por me sentir assim, mas tenho por ela um amor maior do que estas pirâmides. É algo diferente d: que sinto por Afra; esta eu não suportaria que me traísse. Já Kyia é semelhante a minhas filhas. Não posso perdoar o que seu irmão fez a elx.

- Não vou permitir que enfrente Proteu.

- E de que outra maneira poderei olhar de novo para meus ajudantes e para minha família, que é feita somente de mulheres? Como elas se sentirão em relação ao homem que deve protegê-las? E quanto - andar nas ruas? Como encarar qualquer cidadão de Tebas que sabe dessa história?

- Embora sejam convenções mesquinhas, são coisas próprias de um tempo infantil da humanidade com as quais precisamos conviver. Sei que está correto, concordo que Proteu merece receber um corretivo. Apenas peço que não faça isso antes de eu falar com meu irmão e descobrir o que o levou a cometer tal perversidade contra a mulher a quem, não tenho dúvida, ele ama. Espere até amanhã e lavaremos sua honra, amigo. Quanto a Kyia, eu exigirei que ele pague por sua estadia no templo de Sobeknefru. Até amanhã terei uma forma de resolver esta situação constrangedora. Agora vá para casa e descanse; vou ver Kyia e suas feridas.

Ao contrário do que imaginou o mestre, Kyia não estava dormindo. Conversava com Tula havia horas, de maneira tão inflamada que Sobeknefru gostou da chegada do outro para interromper aquela falação. Ao ver o mestre, ela correu para cumprimentá-lo.

- Kyia, você conseguiu! Cumpriu sua missão. Ganhamos a guerra e está aqui de volta. Parabéns!

- Estou horrível, não? - ela sorriu sem graça.

- Não! Ainda a reconheço.

O galo em sua testa havia afetado o olho, que ficara arroxeado e inchado. Em silêncio contemplativo, ele olhou ternamente para a cunhada. Tratou suas feridas e deixou-lhe algum medicamento. Quando enfim terminou seu trabalho, emocionado indagou:

- Kyia, confia em Ra?

- Não.

- E na Grande Estrela?

- Talvez. Mas eu confio em você, Haemon.

- Vou ajudá-los a reverter esta situação lamentável. Esteja em paz.

- Obrigada, mestre!

Proteu virou a noite sem acordar. Haemon não mexeu com ele até se recolher. Fez suas orações com fervor, rogando o auxílio do Alto no intuito de auxiliar os amigos em tão doloroso impasse.
Nada tema, Haemon. Deus permanece no leme de todas as situações lamentáveis que criamos por insensatez e falta de fé. Continue amparando nossos irmãos menores, como se propôs, para que diante de seu-exemplos e conselhos dignificantes se elevem na busca do caminho reto

A voz chegava em seu entendimento com brandura inenarráveL

- O que eu posso fazer neste caso, amigos do espaço? Uma tempestade se arma em meio ao deserto. Kenefer não tem a mínima chance contra meu irmão, mesmo doente em todos os aspectos. Kyia não tem para onde ir e corre risco de ser linchada ou banida da cidade. E receio que essa moça dançarina que Proteu trouxe para minha casa preter.m tirar proveito da condição penosa de todos. Quando as coisas pareciam seguir um curso harmonioso, tudo desaba de uma vez... Por quê?

- Tranquilize-se, companheiro! Esteja em Deus que ele está cai você. Á sua sabedoria e à sua bondade foi confiado esse grupo de viaim- í tes da Terra. Não lhe dissemos que seria tarefa fácil; se assim fosse nãa haveria necessidade da sua bagagem milenar. Confie e trabalhe. Seja imparcial e justo. Todos o respeitam e confiam plenamente em voou incluindo nós, do plano do espírito.

A silhueta delicada e diáfana de uma mulher se desenhou na parede. Haemon não seria capaz de dizer quem era, onde ou quando rn essa imagem. Sabia apenas se tratar de um ser querido como irrr.La, protetor como pai e amante como mãe; uma figura que representai 2 a síntese de todas as nuanças do amor na Terra, desabrochada no amcr universal. Paz intraduzível se apossou de Haemon e ele adormeceu sese-namente, recuperando através do repouso todas as forças exigidas pan I missão de guiar aquele grupo de espíritos rebeldes recém-iniciadc; ra exercício de amar.

Capítulo 20

Naquela manhã, após o primeiro culto a Ra, Haemon pensou voltar correndo para casa. Não desejava que o irmão encontrasse Kenefer antes de sua intervenção. No entanto, Hakor chamou por ele; queria sua opinião a respeito do divórcio de Kenefer e do comportamento de Kyia.

- Grande Ra, já estou envolvido nesse assunto por ser um caso tamiliar. Peço ao soberano que aguarde um pouco, pois vou dar uma solução a esse problema. Se me permite, quem o inteirou dessa questão, visto que ainda não o fiz e Kenefer pediu a mim que cuidasse de sua magnânima permissão para o divórcio?

- Eu preciso responder a essa pergunta?

- Como verdadeiro enviado de Ra, sabe que pode fazer o que quiser. Porém, se me quer como conselheiro e consultor com sucesso, não pode omitir de mim qualquer informação.

- Nefertari veio ontem me ver. Sempre que sinto saudade ordeno que venha. Estou errado?

- Pode fazer isso sempre que desejar, nobre Ra. Quem erra é Nefertari em revelar, mesmo que para o faraó, um assunto referente à minha casa, que diz respeito a meu irmão e meu amigo Kenefer, sobretudo quando era eu quem deveria trazê-lo ao seu conhecimento. E é justamente por esse assunto que não posso demorar-me muito aqui. Com sua licença, nobre Ra!

Como mandava a tradição, Haemon foi saindo de costas, de modo a ficar de frente para o soberano. Uma vez tendo virado nos corredores do palácio, ele correu pelos labirintos faraônicos para chegar ofegante em casa e encontrar o irmão ainda dormindo. Respirou aliviado e entrou nos aposentos escuros.

- Acorde, irmão, precisamos conversar muito.

- Haemon! Que bom que me despertou! - Proteu tinha o rosto molhado de suor. - Estava em meio a um sonho terrível.

- Mais terrível que a realidade?

- Não sei, meu irmão. Tudo está terrível. Andei tanto para buscar Kyia e sequer posso desfrutar sua companhia. Tenho três problemas sem solução.

- Isso não existe; tudo tem solução. O que aconteceu com você? Por que feriu Kyia e os brios de Kenefer?

- Meu Deus! Não tinha pensado nisso. Eu não quis ferir Kyia. ET se negava a soltar meu braço e na tentativa de me soltar eu a derrubei Sabe que sou abrutalhado, não tenho muita noção de como usar a foiça física. Quando me desvencilhei dela a pobrezinha caiu sobre um monK de blocos de pedra. Acredite, isso doeu bem mais em mim.

- Por que se desvencilhar de uma pessoa que diz amar?

- Justamente por amor! Não quero machucá-la ainda mais. Soa um bárbaro.

- Acha-se tão violento a ponto de não conseguir conviver coa alguém sem agredir essa pessoa? Mesmo sendo uma mulher?

- Não é por aí. Vou contar o que tem me atormentado.

O sábio ficou em silêncio profundo, ouvindo o irmão em seu retrato. Proteu falou da câmara secreta, do tormento de ver Kyia atrás de sua armada de estranha espada e com o terror estampado nos olhos. Narroz o momento em que a desarmou e matou-a com sua própria arma.

- Acha que pode ser uma premonição?

- Sonhos reincidentes são sempre mais que simples sonhos. Podesj. sim, ser premonições.

- Mas se eu vejo o futuro, não é sinal de que está escrito e acontecerá inapelavelmente?

- Não. Quando chega a nossa hora de nascer existe, sim, um roteiro a seguir, do qual quase sempre nos desviamos; por isto sofremos tanto. Todavia, não existe planejamento para o mal; o mal faz parte dos desvios de planejamento. Se estivesse “escrito” que mataria Kyia, que culpa teria você?

- Quer dizer que se for uma premonição eu posso mudar?

- Pode e vamos mudar.

- Então devo ficar longe de Kyia?

- Pelo menos até desvendarmos o seu sonho, pois talvez não seja premonição. É possível que o golpe não a mate, é possível até que seja desferido em outra pessoa, já que vê apenas a arma suja de sangue. E, finalmente, pode ser uma cena do passado gravada em sua memória do espírito, da qual se recorda quando livre das cadeias carnais. Portanto, são muitas as possibilidades.

- Acha que posso então procurar por Kyia?

- Não por enquanto. É melhor mantê-la a uma distância segura.

- Mesmo que eu nunca a leve à câmara secreta?

- Nada a impede de segui-lo até lá um dia, haja vista que o sonho principia com os dois correndo pelo deserto e só depois entram.

- E se comprovarmos ser premonição, nunca mais poderei estar com Kyia?

- Depende de você. Se acha que sabendo do futuro terá a força para domar-se e mudá-lo, não vejo por que não possa.

- Então o futuro não existe?

- Não, meu irmão; ele é feito das consequências do presente.

- E quanto ao tal plano de vida?

- Quem nos dera o seguíssemos à risca... Bom, quanto ao primeiro problema, fica decidido que devemos encontrar uma forma de descobrir o que significam seus sonhos; enquanto isso, Kyia permanece na casa de Sobeknefru e você paga suas despesas. E quais são os outros?

- Um é o mal que me acometeu na câmara secreta, e outro é isto -pôs nas mãos do irmão os símbolos tirados do laço de ísis.

- Penso que realmente você tem um problema e uma solução. Pelo jeito os pesadelos e o mal que o acometeu são partes de um único mistério: o mistério da câmara secreta. O enigma perdido não é um problema, e sim uma solução, porque uma vez de posse da sua localização pelo menos o afastaremos de Tebas, por algum tempo, até os ânimos se esfriarem.

- Quem está de ânimos exaltados?

- Kenefer. Isso não chega a ser um problema, mas exige uma solução. Ele quer um acerto com você.

Proteu fez uma expressão incrédula.

- Está brincando! Kenefer quer se indispor comigo? Brigar comigo? Tenha paciência, posso estraçalhar seu amigo com as mãos amarradas.

- Eu sei, e o proibo terminantemente de fazer tal atrocidade.

- Deveria proibir a seu amigo essa atrocidade contra si próprio.

- Não posso. Ele precisa disso para continuar vivendo. O que entendeu que você fez a ele é muito grave e cruel. Acredita que lhe usou a esposa, machucou-a e deixou-a à porta de seu trabalho como se devolvesse um objeto que se toma imprestável.

- Não era essa a minha intenção. Não pode imaginar como foi difícil abrir mão de Kyia. Eu a queria comigo, como queria! Essa viagem foi a melhor parte do resto de minha vida; recordo cada detalhe dda como se ainda estivesse acontecendo.

- Grandes momentos são aqueles que, mesmo efêmeros, duram, vida toda!

- Eu não queria separar-me de Kyia. E não quero machi Kenefer.

- E isso você não fará. Acabei de proibi-lo de tal monstruosic

- Vai desviar Kenefer desse intento?

- Escute, Proteu. Na próxima vez em que cruzar com você Kei vai lavar a honra, pode esperar; e lhe digo com todas as letras: se chucar meu amigo mais do que já o fez, eu não sei quando consej falar com você.

- O que quer que eu faça? Fale e eu farei. Não me abandone horrível pesadelo!

- Deixe-o lavar a honra e a alma, sem machucá-lo.

- Quer que eu fique parado enquanto ele me bate?

- Claro que não, ou evidenciar-se-ia a farsa; nem ele acreditaria ter enfrentado você e saído completamente ileso. Pode dar-lhe um ou
outro tabefe, tomando cuidado para não destroçar seu rosto. - E o que farão meus guerreiros quando souberem que eu levei uma surra de um homem velho e fraco?

- Eu não sei o que farão, mas sei exatamente o que você fará se eles tentarem façanha igual à de Kenefer. E depois, não se preocupe; não ficará muito tempo em Tebas. Vou descobrir a localização do templo e o despacharei nessa busca, pelo faraó.

- Vai dar o tesouro a Hakor? - Vou, visto que se estiver dentro do Egito a ele pertence. E se for algo que interesse a ele, com certeza a mim não interessará. Quanto a você, ainda tem as riquezas de duas pirâmides para explorar; não precisa ser desonesto. - Por que não ser desonesto com Hakor, que nada faz de correto?

- Cada um responde pelos próprios atos. - Olhe o que ele me fez enquanto defendia seu reino. - Se o condena, por que quer agir de maneira idêntica? - Está bem, vamos fazer o que sugere. Oh, Deus! Tenho de me
preparar para levar uma sova! - Sem dramas! A mão de Kenefer em nada lhe pesará.

Alguns dias depois, Kyia e Tula cuidavam da limpeza de algumas roupas, no fundo do templo de Sobeknefru, quando este chegou apavo-
rado. Dizia aos berros que a cidade estava em polvorosa, pois Kenefer queria matar Proteu e esperava pelo grego defronte à casa de Haemon.

Todos apostavam moedas e metais preciosos, comida e cerveja às toneladas na vitória esmagadora do grego. As duas saíram correndo para as ruas. As roupas molhadas colavam nos corpos de modo agradável naquele calor infernal. Tula havia desenvolvido verdadeira adoração pelo escriba que a livrara da terrível “maldição da múmia”, e nem seria preciso dizer o quanto Kyia tinha amor pelo ex-marido. Pensavam em salvá-lo da aniquilação total. Ao chegarem ao local do impasse indagaram pelo sábio, que segundo informaram, se ausentara dali. As esperanças das amigas diminuíram consideravelmente. Sem o concurso de Haemon seria muito difícil demover o artesão do propósito suicida.

- Kenefer! Por Ra, desista dessa loucura!

- Proteu precisa pagar pelo que fez à minha família. Se não houver reação alguma, qualquer mercenário poderá entrar em minha casa e tomar Afra ou uma de minhas filhas, abusar e devolver. E o que acontecerá.

- E o que acontecerá se você for espancado ou mesmo morto?

- Pelo menos terei defendido minha honra.

- Kenefer, eu lhe peço de joelhos, não faça isso! - Kyia abaixou-se aos pés do ex-marido. - Lave sua honra matando-me ou apedrejande--me, como mandam as leis do povo de Afra. Mate-me, mas não se mate dessa forma estúpida.

- Pare com isso, garota tola! Não vou matar você, tão fraca e vulnerável; não sou covarde como alguns.

Os olhos de Kyia seguiram o olhar de Kenefer, deparando com a figura gigantesca de Proteu. Avançou para ele e gritou a plenos pulmões:

- Não toque um só desses dedos imundos em Kenefer, seu bruta-montes sem alma!

- Kyia, assim me desmoraliza ainda mais.

- Trouxe a esposa para defendê-lo? Que coisa mais infame!

- Infame foi você quando desonrou minha família, seu estrangeir: indecoroso e canalha!

- Saia daqui, o assunto não é para mulheres.

- Saia você da minha frente, da minha cidade, da minha vida. Não quero vê-lo nunca mais.

Tula pegou a amiga pelo braço e a afastou do grego. Kenefer chegou bem perto e avançou como um raio, batendo a cabeça contrr : estômago de Proteu, cujo abdome rígido nada sentiu. Contudo, cocam recomendara o irmão, ele caiu de costas. Em questão de segunda Kenefer chutou-lhe a virilha e o fez berrar como fera.

- Desgraçado! Essa doeu de verdade.

Rolando de dor, recebeu nos rins e no rosto os golpes dos pés calçados de sandálias do escriba. Havia subestimado a força do oponente. Tomado de dor e raiva superlativas, levantou-se e parou ofegante olhando para Kenefer. Devagar limpou o sangue do canto da boca, e se preparava para trucidar o adversário quando seus olhos avistaram, em meio à multidão, a figura imponente de Haemon, que nele fixava o olhar. Todo o combinado voltou-lhe à memória e ele respirou fundo.

As pessoas ao redor pareciam nem respirar e a algazarra fora convertida em silêncio absoluto. Deu um passo para junto de Kenefer e atingiu-lhe a boca com violento soco, que fez o escriba quase perder os sentidos, sangrar copiosamente e encostar o queixo no peito. “Droga, nunca consigo dosar minha força!”. Com o maxilar inferior deslocado de maneira chocante, Kenefer reuniu forças para contra-atacar. Munido de um pedaço de pedra, acertou a face esquerda do mercenário, que, decidido a colocar um final naquela coisa sem sentido, caiu ao chão. O desafiante continuava a bater naquele que desonrara sua família quando Haemon interveio.

- Pare, amigo. Não se bate em um homem caído e humilhado, quase inconsciente. Olhe à sua volta, estão todos boquiabertos com seu ato. Todos o respeitam e cumprimentam; ninguém ousará se meter com suas mulheres. Vamos cuidar desse queixo que está feio de se olhar.

Então, dirigindo o olhar para a razão do conflito, pediu:

- Kyia, pode cuidar novamente de Proteu para mim?

- Sim, Haemon, eu o farei.

A uma ordem do sábio, dois homens ergueram o gigante do solo e o ampararam até o templo de Sobeknefru, onde Kyia lavou as feridas e as tratou com os medicamentos do sacerdote.

- Desculpe-me!

- Terminei de fazer o que pediu seu irmão. Pode, por favor, ir embora?

- Não fique tão amarga, esta separação não é definitiva. Eu vou à procura de algumas respostas e depois retorno para você.

- Para mim é definitivo. Não o quero ver nunca mais nesta vida.

- Mas você afirmou que só se afastaria de mim se eu dissesse que não a amava. Eu não disse isso e nunca vou dizer, pois ainda a amo como em Urchada.

- Mentira! Você já disse isso.
Quando?

- Quando levou Nefertari para sua casa.

- Não é como você imagina.

- Afinal, quem pensa que eu sou? Uma maga ou deusa que deve entender cada ato seu como deseja que possa parecer? Você me machuca, atirando-me agressivamente sobre blocos de pedra e declarando não me querer mais como esposa, depois de tudo que vivemos de Bizâncic até aqui. Por fim fala que é para o meu próprio bem, e eu tenho de entender esse disparate? Agora diz que tem a dançarina em casa, tomou-i do faraó enquanto eu estava perdida pelo oriente, e espera que eu acredite que não é o que penso ser? Na verdade, Proteu de Mileto, você nem sabe o que eu penso. Nada sabe de mim. Se soubesse a mínima parte do que sou e sinto, jamais levaria aquela desprezível para casa.

- Quer que lhe explique esse acontecimento?

- Não, basta de mentiras!

- Por favor, Kyia!

- Por favor, Proteu! Vá embora!

Com o rosto bastante ferido, o mercenário deixou o templo e dirigiu-se para casa. Na saída ainda deparou com Kenefer, que tinha pedaço de linho amarrado em torno da cabeça, segurando o maxiAr no devido local. Ele nada falou; isso fora proibido por Haemon, ass:~ como a ingestão de sólidos por um bom tempo. Proteu também seg calado.

Quando entrou em casa, o guerreiro grego indagou ao irmão:

- Então, como me saí?

- Bem, mas podería ter controlado esse punho; fez um estrago maxilar do coitado. Fico imaginando como seria se eu não cheg naquele momento.

- Nem é bom pensar. E onde estava enquanto tudo acontecia?

- Eu tratava de desvendar a localização do templo perdido.

- O quê?

- Isso mesmo. Eu sei onde ficavam o templo perdido e seu enis

- Haemon, eu o amo! Indique-me o lugar e eu partirei tão seja possível.
Acalme-se. Amanhã vou convencer Hakor a patrocinar a expedição e confiá-la a você.

- Diga-me onde ficava o templo e como descobriu isso.

- Pois bem, era em Mênfis. Novamente Mênfis.

- Sempre Mênfis.

- A cidade parece mística. Não é por acaso que foi escolhida por Kbufu e Chephren, entre outros tantos grandes faraós, para lá construírem suas tumbas.

- Como chegou a esse ponto? E, por falar nisso, em que ponto da cidade estava o templo?

- Creia, meu irmão, o templo se perdeu exatamente onde está o complexo piramidal de Chephren, Khufu e Menkaure. Talvez seja essa a razão da escolha da área para a necrópole. E quer saber como eu descobri? Você conhece minha paixão pelo firmamento e seus astros. Pois foi olhando para estes artefatos que percebi que também poderiam representar uma constelação; fixando-me na base de cada um verifiquei que todos têm uma estrela gravada - menos a lua crescente, por já ser um corpo celeste. Se a simbologia masculino e feminino havia sido usada para revelar uma pista, logo teríamos de encontrar outro significado; do contrário voltaríamos à velha lenda árabe. Então dispus as peças na ordem certa, em posição contrária e de cima para baixo, ao invés do sentido horizontal, como foi adotado para descobrir a lenda. E veja só o que eu constatei.

Fez curta pausa, mostrando o conjunto dos objetos antes de prosseguir:

- A lua está no céu, a lança aponta para ela como uma pirâmide e o cetro, que consiste na mesma peça, representa o poder dos faraós mortos que a veem de cima para baixo ou em forma de cálice; e o alef, a origem, significa o segredo guardado. Agora, ao observar esta distribuição das peças, vê-se claramente uma constelação composta pelas estrelas em suas bases, tendo como ponto de referência a lua - tomou o ancestral do astrolábio e colocou seus ponteiros no horizonte e no zênite. - Está vendo como se calcula a posição destas estrelas perto da lua? Com estes cálculos sobre o mapa do Egito, uma reta liga a lua e as outras quatro estrelas, e as liga ao solo neste raio de 40 estádios, bem aqui - bateu o indicador sobre o mapa -, no complexo piramidal de Chephren, Khufu e Menkaure.

A despeito de não haver entendido bem como o irmão chegara àquela conclusão, Proteu confiava nele e as peças dispostas daquele jeito faziam o maior sentido.

- Então aguardaremos as ordens do soberano facínora para partir para Mênfis. E, aproveitando o ensejo, farei uma visita a Chephren.

- Monte sua equipe. Ele ficará louco quando eu lhe contar detalhes do enigma perdido.

- Irei com os mesmos que me acompanharam a Bizâncio e deixarei Péricles em meu lugar.

- Não acha que as repetidas vezes em que dá esse poder a ele insuflam seu ego de maneira perigosa?

- Nada preocupante. Péricles me adora como a um deus. Não ousaria usurpar-me o cargo.

- Bem, você o conhece e eu não; mas que isso me preocupa, ah, preocupa sim! Primeiro foi o acidente com a águia, depois a viagem a Bizâncio e agora Mênfis. Será uma longa viagem e as buscas não serão rápidas. Os 40 estádios que deverá vasculhar minuciosamente não são coisa para poucos dias. Quer saber? Leve Péricles com você.

- É que só me sinto tranquilo com ele cuidando dos outros. Em todo caso, farei o que me pede; eu o levarei.

Mas Péricles não partiría com os demais. Simulou um mal-estar para ficar no lugar de Proteu, que já pensava ser seu.

Assim, dois dias depois, Proteu procurou por Kyia no templo de Sobeknefru. Disse ao sacerdote que queria apenas dizer adeus e agradecer-lhe por ter mais uma vez cuidado de suas feridas.

- Ela não vive mais aqui - foi a resposta.

- Para onde foi?

- Não me informou, nem mesmo a Tula. Não quer ser encontrada.

- Não disse a Kenefer?

- Talvez, porém ele jamais contaria.

- Está bem, obrigado, Sobeknefru. E diga adeus a Tula por mim.

- Parta em paz, Proteu de Mileto!

Nas imediações do quartel-general, ele teve a surpresa de ver Netikerty. Já não se lembrava da última vez que estivera com a irmã de Nefertari, e agora percebia quão estranho fora seu sumiço. A moça deveria pelo menos agradecer pelo fato de tê-la separado da irmã.

- Soube que parte hoje, no primeiro declínio de Ra.

- Netikerty! Há quanto tempo não a vejo! Poderia ter vindo ao meu encontro. Afinal, você me deve um favor: eu matei seu minotauro.

- Não exatamente.

- Ainda mora no palácio?

- Sim, no mesmo quarto que ocupei quase a vida inteira.

- O que quer de mim? Suponho que não apareceu aqui por acaso.

- Oh, não! Acasos não existem, guerreiro. Preciso que me faça um favor. Leve-me para sua casa.

- Espere! Acho que não ouvi bem. Primeiro me pede para separar sua irmã de você, por não mais suportar seu convívio, e agora quer ir para onde ela está? Não, não farei isso. De mais a mais, nem tenho casa; moro com meu irmão.

- Eu pedi que matasse Nefertari, e não que a tomasse como escrava. Se tivesse matado minha irmã eu estaria realmente livre. Mas não. É obsceno e libidinoso; teve de mantê-la porque é uma bela e jovem mulher. Não atendeu meu pedido, que era o único jeito de eu me libertar dela - nesse instante pôs-se a chorar desesperada, a ponto de sensibilizar o mercenário. - Ela não me deixa em paz, me chama o tempo todo, manda recados e até invade meus sonhos. Por Ra, Proteu, mate-a ou me leve com você.

- Não posso fazer o que me pede. Não sou obsceno e libidinoso, nada tenho com sua irmã nesses termos. Mas não poderia matar uma pessoa sem mais nem menos, só porque a gêmea dessa pessoa assim deseja. E não posso levar você para a casa de Haemon; ele me mataria.

. - Então devolva minha irmã ao faraó.

- Nem pensar! Ela vai comigo para Atenas algum dia.

- E nesse dia eu poderei ir?
Só um louco viveria com vocês duas sob o mesmo teto. Eu sinto muito sua desdita, porém fiz o que me pediu uma vez; não posso mais ajudá-la.

- Está certo. Vou procurar outra pessoa que possa.

- Faça como melhor lhe aprouver, mas cuidado para não se arrepender de novo.

Angústia infinita se apossou da. gêmea da dançarina, que percorreu as ruelas em pranto copioso. Recebeu o abraço de Haemon na via pública e rogou-lhe que a deixasse morar junto à irmã em sua casa. O sábio negou docemente e durante um tempo confortou a desafortunada moça.

- Por favor, Netikerty, não queira ir para perto de Nefertari. Sei que esteve muito bem por todo esse período em que andou meio sumida. Por que voltar aqui? Para sofrer? Seu motivo é ilusório, ao passo que esse sofrimento é real. Querida, vá para o lugar de onde veio; deixe sua irmã em paz, como está em minha casa.

- E eu também quero paz. Aceite-me em sua casa, junto dela!

- Pelo bem das duas e dos demais, não.

- Você ama Nefertari porque ela é bela.

- Amo você também. Por isso quero que pare de sofrer e retorne para onde estava.

- Sufocada, sumida, fora do convívio de todos! È assim que me ama?

- Embora sufocada, não sofria. Estou errado?

- Era como se eu não existisse, Haemon.

- Às vezes é melhor não existir.

Ela berrou como uma ave de rapina:

- Não me ama! Ninguém me ama! Não sirvo para nada e sou horrível; não sei dançar, não sei fazer nada. Minha irmã tem razão em me odiar. Deixe-me perto dela, ainda que para ser maltratada.

- Não. Volte para onde esteve até agora.

- Sabe onde eu estava?

- Sei.

- No palácio de Hakor.

- Se quer chamar assim...

- Eu vou. Mas não antes de encontrar alguém que poderá libertar--me de Nefertari.
Fala de quem?

- Não lhe interessa... Já que se recusa a me ajudar, não lhe interessa.

-Tudo que fiz foi ajudar você e Nefertari, desde que as conheci.

- E quer nos separar. Isso é cruel, gêmeos não se separam.

- Eu concordo com você, porém às vezes acontece.

- E muito triste - da exaltação ela passou ao abatimento total. -Como é triste...

- Esqueça Nefertari, deixe-a viver em paz!

- Não depois de tudo que me fez. Todos devem pagar pelos seus crimes.

- E pagam, é uma lei imutável. Aliás, acho que ela já vem pagando.

- É pouco...

- Perdoe Nefertari. Perdoe-se, Netikerty!

- Não vai permitir que eu more com vocês?

- Não.

- Então vou procurar outro lugar.

- No palácio de Hakor?

- Não, lá não.

- Até mais, Netikerty!

- Adeus, Haemon.

Ela andou para o lado das casas dos agricultores e artesãos, imaginando que encontraria Kyia e esta involuntariamente a ajudaria. Foi recebida por Nany, a filha de Kenefer, que sentia verdadeira aversão pela segunda esposa do pai. Sabedora do pedido da visitante a Proteu e da mágoa que existia entre Kyia e ela, com sorriso malicioso nos lábios a mocinha contou onde estava a primeira. Enquanto caminhava, a irmã da dançarina ia pensando nas palavras do mercenário grego para Nefertari, quando esta falara em se casar com ele: “Ela matará você; ou a mim, sei lá”. Queria ver se isso procedia. Aquela adúltera maldita faria por ela o que o mercenário não fizera? Teria de matar Nefertari para ela e acabar com seu sofrimento. Ao lado da tresloucada mulher, um espírito com aparência feminina tentava demovê-la do intento criminoso, que comprometería a ela e também a Kyia.

Capítulo 21

Em uma das muitas olarias de Tebas, Kyia trabalhava em peças de cerâmica. Pretendia angariar fundos para voltar para casa e recomeçar a vida perto dos parentes consanguíneos. Viu quando Netikerty entrou no local acompanhada por uma segunda moça que, como pôde notar, já não fazia parte deste mundo. Tinha semblante bondoso e beleza impar, mas uma coisa fez Kyia estremecer de susto: era por tudo e em tudo idêntica a Nefertari e à gêmea a seu lado. Diria ser uma trigêmea das duas.Teria a dançarina morrido? E essa que estava desaparecida, desde que a outra fora morar com Haemon, e agora voltava... Teria matado a irmã má?

Diante do seu espanto, a gêmea explicou que estivera envolvida com outros assuntos particulares. Olhando para a figura junto de Netikerty, que acreditava ser Nefertari morta, Kyia chamou um menino e o mandou entregar o mais rápido possível o seguinte bilhete para Haemon: “Corra até a olaria de Inarus. Netikerty matou Nefertari”.

Haemon, por sua vez, estava apreensivo pelo fato de ao chegar em casa ter achado um sinistro bilhete da dançarina: “Adeus, vou descansar no mundo dos mortos; mumifiquem meu lindo corpo”. Onde estaria a jovem naquele momento? Pediu a seus companheiros invisíveis que não permitissem o retorno de Netikerty. Pensara estar tudc resolvido; Nefertari parecia bem e com um objetivo na vida, que era o casamento com Proteu... E agora a volta de sua gêmea! “Oh, céuá Ajudem-me a ajudá-las.”

Na olaria, Kyia olhava estarrecida para a outra. Em pensamenr: dirigiu-se à acompanhante fantasma, perguntando se era Nefertari. ao que ela respondeu: “Não, eu sou Netikerty”.
Espantada com a resposta, Kyia supôs estar sofrendo alucinações e desistiu da conversação. Fechou assim seus canais mediúnicos, o que deixou em desespero a desencarnada que não mais era vista por ela.

- Quero falar com você, Kyia. Preciso de sua ajuda.

- Sempre que pede ajuda a alguém, uma tempestade se arma. Da última vez você fez Proteu levar sua irmã para casa, e por isso minha vida desmoronou.

- Acha que foi por isso que ele a desprezou?

- E não foi?

— Claro que sim. Ou acredita que eles não são marido e mulher?

- Eu não sou tão idiota. Mas o que temos nós a ver com a vida conjugal deles?

- Eu queria que Proteu matasse minha irmã e ele não atendeu o que pedi. Por isso ela ainda me atormenta, como sempre fez. Eu quero Nefertari morta e você quer Proteu viúvo. Sendo assim, quero que a mate.

- Não posso, você já fez isso.

- Está louca? Mate minha irmã e tome seu homem de volta.

- Você quer armar para que pareça que eu matei sua irmã, pois na verdade já o fez, fratricida dos diabos! Vi o fantasma dela em seu encalço quando aqui entrou. Você matou sua irmã!

- Não, não e não! Não matei! - Netikerty estava completamente transtornada.

- Eu vi o fantasma dela. Matou, sim.

- Então o fantasma dela me persegue? Não, isso não existe; não fui eu. Não tenho irmã gêmea nem nenhuma irmã; sou filha única.

A figura de Nefertari apareceu novamente ao lado dela.

- Eu a vejo e ela me diz que a perdoa. Sinto que você a matou. Eu sei que matou sua irmã afogada no Nilo. Eu sei, mas ela afirma que a perdoa.

- Desgraçada! Não é verdade, eu não matei minha irmã. Foi um acidente, um terrível acidente. Ela era tão linda!... Muito mais bonita que eu. Não poderia continuar vivendo e ofuscando minha beleza.

- Você afogou Nefertari?

- Não, eu afoguei Netikerty, e você não poderia ter descoberto isso. Agora deve morrer também. Não pode descobrir um segredo e permanecer viva.Tudo poderia ter sido diferente. Você mataria Nefertari. me daria a paz que desejo e estaria com seu amado Proteu; mas não. preferiu fazer tudo de um jeito mais difícil. Sinto muito, Kyia, deve morrer também.

A seguir avançou para cima de Kyia, derrubando-a no chão. Corras duas mãos apertava sua garganta, fazendo-a perder o ar. Reunindo forças nas duas pernas, a oleira colocou os dois pés sobre o peito da outra e a empurrou com toda a energia que lhe restava. Netikerty bateu de costas na parede e permaneceu de pé.

- É isso aí, Kyia, exatamente isso que eu planejava. Agora tenho a paz.

Sentada no chão, ainda tossindo, Kyia assistiu à morte da gêmea. Havia na parede uma espécie de gancho onde os oleiros dependuravarr. as roupas limpas que usavam para ir e vir do trabalho. A peça de metal penetrou a parte posterior da cabeça de Netikerty, mantendo o cadáver de pé, ereto, de maneira aterradora.

Soltando um grito de pavor, a ex-esposa de Kenefer se pôs a chorar no momento em que Haemon, seguido de Proteu, entrava no local.

- Tarde demais!

- Haemon, eu não queria, foi um acidente.

-Talvez não. Ela queria assim.

Proteu aproximou-se e tomou nos braços a amada, que sem sistência se deixou abraçar enquanto o sábio retirava o corpo preso parede. Com orações silenciosas ele deitou a mulher morta no úmido e começou a despi-la de certos artifícios que lhe davam aps cia rechonchuda. Com um pedaço de linho umedecido desfez as trizes de seu rosto, e em um gesto final tirou o lenço, revelando : cabelos negros.

- Nefertari! - os dois assistentes exclamaram juntos.

- Sim, amigos, eu sou o médico dela. Conhecia o caso em det; e afirmo que é um clássico e intrigante caso patológico de dupla p< nalidade, desencadeada pela culpa. Por isso lhes pedi tanto para fic. longe dela, pois sabia que além de tudo tinha uma personalidade lévola e inteligente. Essa combinação só poderia resultar em tragédia, Não entendo absolutamente nada! Eu vi o fantasma da outra gêmea.

- Eu vou explicar desde o começo. Agora que ela está morta e não possui familiares, o sigilo não tem razão de ser. Antes, porém, ajudem--me a levar o corpo para ser mumificado, como era o desejo dela.

Depois de ter dado os primeiros passos no processo, Haemon cobriu de natro o corpo de Nefertari e se sentou com o irmão e a amiga.

- Pois bem, o caso de Nefertari é um dos mais complexos que já estudei. Nasceu gêmea de outra menina idêntica que se chamava Netikerty. Esta, diferente da irmã, era de temperamento doce e cândido que a todos enternecia; a menina era o que os judeus chamariam de anjo. Era essa a beleza que Nefertari reconhecia ser maior nela, e não a física, já que eram idênticas. De espírito rebelde e recalcitrante, não conseguiu fazer o que se propôs ao nascer: aprender da brandura e serenidade de sua gêmea. Ao contrário, a cada elogio dirigido a ela seu despeito crescia e florescia em forma de ódio, até se tornar insuportável a presença da outra. Um dia, cansada de ver realçadas as qualidades da irmã e as dificuldades próprias, chamando-a para passear e nadar nas águas do Nilo, atingiu-a com uma pedra no momento em que nadavam. O corpo de Netikerty nunca foi encontrado. Maldosamente ela apontou um local muito diverso para o pseudo-acidente, o que impossibilitou a mumificação do corpo; assim impedia, em sua mente doente, até mesmo a ressurreição da outra. Netikerty, espírito mais sublimado, algum tempo depois entendeu e perdoou a irmã; esta, contudo, nunca se perdoou. A culpa a tomava de tal modo que por vezes dizia não ter irmã alguma e por outras interpretava a gêmea assassinada. Já uma coisa era sempre patente: o desejo de ser assassinada, como uma tentativa de redenção; por isso pedia que matassem a irmã, pois sabia que era o jeito de ser morta.

- Por que em uma de suas personalidades fazia questão de não ser bonita?

- As gêmeas tinham uma grande divergência que era a beleza moral, como esta ela não conseguia ter, haja vista que sempre oscilava entre quem seria a carrasca e quem a vítima, optou pelas formas físicas como distinção.
- Então eu vi o fantasma da verdadeira Netikerty?

- Sim, ela esteve muito tempo ao lado da irmã, tentando auxiliá-la. No entanto, a culpa da outra não lhe permitia interagir. Ao sentir sua presença, a gêmea imaginava que vinha com a intenção de executar uma vingança pelo afogamento e enlouquecia.

- Enquanto estava em uma personalidade ela se lembrava da outra'-

- Nefertari não tinha consciência plena de si como Netikerty e, sabendo ter matado a irmã, afirmava não ter nenhuma, o que não deixava de ser verdade. Todavia, como Netikerty ela sabia da existência da outra e se perdia entre ser vítima e criminosa em busca de seu próprio julgamento e da sentença pertinente. A personalidade complementar também era uma tentativa de trazer de volta a irmã morta e eximir-se da culpa pelo assassinato.

- Mas na realidade ela desejava morrer; foi o que me disse na hora extrema.

- Não desejava apenas morrer; isso ela resolvería com o suicídio e pronto. Era essencial ser assassinada por alguém conhecido, como fora, a irmã.

- As duas tinham vidas independentes?

- Não seriam vidas, porquanto eram uma só alma e um só corpo; cotidianos diferentes, anseios diferentes, isso sim.

- Netikerty buscava a morte violenta, a autopunição e agressão! Nefertari queria ficar livre desses desejos mórbidos, desaparecer coo| Netikerty de si; foi para isso que procurou minha cooperação. Sonhar* casar-se com Proteu e morar em Atenas, onde longe de tudo pudesse recomeçar.

Kyia fez uma careta para Haemon.

- Então ela não era tão ruim assim - ponderou o mercenário.

- Difícil classificar essa mulher enigmática, capaz de matar a gêmea com frieza calculada. É uma doente da alma, ignorante do bem e da paz de espírito que ele traz ao coração. Portanto, uma infeliz.

- O faraó sabia de tudo isso?

- Não, nem mesmo que a favorita teve uma gêmea idêntica.

- Eu cheguei a achar que eram trigêmeas.
- E você, Kyia, por que não me contou que estava na olaria de Inarus?

- Não gostaria que soubessem de meu paradeiro. Só preciso de alguns recursos para ir embora deTebas. Não posso envergonhar Kenefer. Eu o amo muito.

- Para onde pretende ir?

- É melhor que não saibam um do outro, por enquanto.

- Por que, Haemon? Acha que vou me jogar nos braços de seu irmão agora que a dançarina está morta? Eu não queria que fosse assim.

- Nada tem a ver com ela. É que às vezes a força de nossos pensamentos nos arrasta a desgraças que poderíam ser evitadas. É muito perigoso quando acreditamos piamente em algo que não é de fato bom; podemos ser arrastados por um acontecimento que julgamos irreversível. Essa coisa tem a mesma força para o bem; o problema é que quase nunca a direcionamos para ele.

- Haemon, eu preciso voltar, ou Inarus ficará furioso.

- Posso acompanhar você até a olaria? - Proteu perguntou.

- Não se preocupe, irei sozinha.

- Deixe que ele a acompanhe, Kyia. O sol já se põe, logo estará escuro, e as estradas até Inarus se tornam desertas e perigosas. Ou então pernoite aqui.

- Acaba de dizer que devemos ficar afastados e agora sugere que passemos a noite sob o mesmo teto, ou ainda que caminhemos juntos até Inarus?

- Pensei tê-la ouvido dizer que não se jogaria nos braços de meu irmão.

O rosto da moça corou de vergonha.

- Está bem, ele pode ir comigo.

O trajeto até a olaria foi feito em absoluto silêncio. Os acontecimentos do dia haviam sido demasiado estressantes e a expressão do rosto da bailarina morrendo não saía da memória daquela que, mesmo involuntariamente, causara seu passamento.

A propriedade de Inarus parecia, a bem da verdade, um mundo à parte. Além da olaria, havia plantações e pequenas choças ocupadas pelos oleiros. E era cercada de pedras com largos portões de madeira maciça.

- Está em casa.

- Obrigada.

Virou-se e andou em direção aos portões, enquanto Proteu permanecia exatamente no mesmo lugar. Ao tocar a grande aldrava, ela parou e voltou o olhar para ele.

- Pode ir.

- Não posso.

Seguiu-se um silêncio angustiante. E, como em movimento simultâneo exaustivamente ensaiado, correram um para o outro e se abraçaram com desespero.

- Não podemos, Proteu!

- Não podemos estar juntos em determinado local que não é Inarus. Partirei amanhã e não sei por quanto tempo. Não corremos perigo; deixe-me ficar aqui com você por hoje, rainha do Nilo!

- Não me importo mais com isso. Existem coisas que em uma idade são objetivos centrais e que com o amadurecimento passam a ser engraçadas lembranças.

- Sei bem do que fala, e lhe digo que nem sempre são lembrancus engraçadas, como seu desejo de subir ao trono egípcio. Muitos objetivos se transformam em amargos remorsos ou efeitos desastrosos. M2SÍ esqueça o Nilo. É a minha rainha!

- E você será para sempre meu semideus, ainda que volte dessi viagem decidido a me esquecer.

- Posso até me afastar de você; esquecê-la já é missão impossível

Ela sorriu.

- Venha comigo. Só não durma em meus braços ou vai acabar pai amassá-los como a um papiro.

— Durma você nos meus!

Atrasado em um dia na viagem até a necrópole, Proteu saiu ceda de Inarus, informando à amada:

- Vou em busca do enigma. Haemon descobriu a localização da templo perdido.
- Não me conte a localização. Temo que isso influencie meu destino ao sair de Tebas.

- Não direi, mesmo porque não a quero nesse lugar de maus presságios.

- Eu o amo!

- Meu Deus! Eu também a amo!

E abraçando-a longa e fortemente, despediu-se.

Quando o sol iniciou seu declínio os guerreiros de Proteu toma-

ram o caminho do norte, rumo à foz do Nilo. Seu destino, a necrópole em Mênfis; seu objetivo, um enigma que talvez se achasse ali, nas ruínas de um templo perdido através dos séculos, sufocado pelas enormes construções de Khufu, e Chephren.

Capítulo 22

Passados alguns dias, Kyia abraçava Tula e Sobeknefru para despedir-se dos amigos. Decidira deixar Tebas e poupar Kenefer de aborrecimentos. No dia anterior abraçara com força o ex-marido e sua primeira esposa; de Nyla não quisera se despedir Nem mesmo a eles contara para onde iria. Apenas Tula conhecia seu paradeiro, o que levou Haemon a procurar pela esposa do general em exercício. Esta se negou com veemência a revelar ao sábio onde a amiga se encontrava, pelo fato de ser irmão de Proteu.

- Tula, acha que eu, já um homem velho, tentaria descobrir onde está Kyia a fim de contar isso ao meu irmão? Não vê que é um comportamento totalmente impróprio para alguém da minha idade e com a carga de responsabilidades e afazeres que possuo?

- Desculpe-me, Haemon! Mas por que quer saber onde está Kyia?

- Façamos melhor. Eu não quero saber onde ela está; ficarei feliz se souber onde não está. Diga-me, Tula: ela não está em Mênfis, está?

- E para onde mais acha que ela iria, se toda a sua parentela vive lá?

- Então afirma que ela foi para Mênfis.

- Sim, regressou para o lugar do qual veio, o que é o normal. Se eu tivesse de sumir daqui, aonde acha que iria? Claro que para Atenas; é lá que estão minhas origens, minha família e...

A grega parou de falar subitamente, ao notar que o grande conselheiro de Hakor não estava mais a seu lado. Haemon saíra em disparada logo que ouvira a confirmação do paradeiro da enamorada de seu irmão.

- O que é isso? Que educação a desse mago!

O sábio penetrou correndo nas obras das tumbas de Hakor e, ofegante, não pôde falar. Apenas pegou Kenefer pelo braço e o puxou em - Haemon, não pode deixar aqueles dois entrarem juntos na dita câmara. Dominado pela ideia fixa de seus pesadelos, é bem provável que ele mate a mulher.

- E tenha uma vida inteira para se arrepender, pois não deve ser assim. Sinto que falta alguma coisa, algum detalhe nessa história.

- Parta em paz, amigo, e quando voltar traga boas novas a respeito do enigma e desse crime que atormenta o jovem casal.

- Boa sorte com nosso impetuoso monarca.

- Esteja igualmente em paz quanto a ele.

Haemon e um pequeno séquito partiram para Mênfis naquele entardecer. Enquanto seu conselheiro viajava, o faraó foi tomado dc amores pelo substituto que deixara, dizendo inclusive que ele não mais lideraria artesãos; seria o segundo conselheiro real. Os dois passavam longas horas a conversar a respeito do paraíso perdido e de sua reconquista, prestavam juntos os cultos ao deus Ra e passeavam em animadas palestras pelos jardins artificiais do soberano.

Houve uma noite em que tiveram sonho idêntico e ficaram o dia inteiro a falar sobre ele, desejando ardentemente estar junto de Haemon e confirmar se também não se lembrava das mesmas coisas. No sonho, estavam os três juntos em estranho veículo que alçava voo sereno pelo espaço sideral, onde Haemon contava curiosidades sobre os corpos celestes pelos quais passavam em velocidade estonteante O mais estranho para os dois era que se tratavam por irmãos, tendo Haemon como pai consanguíneo. Aquilo deu ao faraó a certeza de que esse parentesco existira em vida remota, em outro lugar muito distante no céu.

Ele estava convencido de que viera do paraíso perdido junto de um irmão e de seu pai, para governarem o Egito. Tal fato contribuiu pam aumentar ainda mais o apreço do soberano pelo antigo irmão, agon conselheiro. E uma dúvida pairava sobre eles: por que haviam perdido : paraíso? Quem os expulsara de lá? Seria então verdade o que Chaya lhe dissera sobre a expulsão e o degredo? Mas, segundo ela, os degredados eram um casal, um único homem e uma mulher. Como explicar terem eles próprios vindo de lá?
Foi pensando nisso que certa manhã, logo após o culto, chamou o conselheiro a seus jardins.

- Amigo Kenefer - ou irmão Kenefer, depois do sonho que tivemos -, uma vez contratei uma judia de nome Chaya para me falar sobre o paraíso perdido - expôs a interpretação que recebera. - Já Haemon me disse que o perdemos por nossa culpa e o recuperaremos por nosso mérito, apesar de eu nunca o ter entendido muito bem. Sinto que ele existe, ou pelo menos existiu, tal qual o templo buscado por Proteu. Às vezes me pego a recordá-lo não como o jardim dos judeus, e sim como uma grande cidade futurista ainda mais organizada que as cidades-estados gregas. Vejo veículos que se movem sem tração animal e alguns que até voam. E trago comigo a convicção de que para voltar lá só morrendo. Acho inclusive que todos os meus antecessores pensavam a mesma coisa, pois vivem mais a própria morte que a vida inteira. Agora, gostaria de saber o que você pensa a respeito. Se desenhou tão bem as minhas lembranças na tumba é porque tem disso algum conhecimento.

- Nobre Ra, o que penso talvez não seja de seu agrado como foi com Chaya.

- Não quero tão somente o que me agrada e sim a verdade.

- Penso como Haemon. Acho que fomos expulsos de um lugar maravilhoso pelo nosso comportamento inadequado, que perturbava a paz dos demais habitantes.

- Quem nos expulsou de lá? O faraó daquelas paragens?

- Digamos que sim; uma espécie de líder.

- Estranho, pois me lembro de ser pequeno, de ter uma mãe e um pai; ou seja, eu nasci aqui.

- Não fomos expulsos como entende. A expulsão se deu quando morremos naquele local e não nos foi permitido voltar a nascer lá. Viemos para cá em espírito e tomamos um corpo dentro do corpo de nossa mãe. E a inversão se dará da mesma forma. Por isso não faço questão de ser mumificado para preservar meu corpo para tal fim, pois lá terei outro novo.

- E por que aqui?

- Isso é mistério para mim. Por que aqui? O que fizemos para merecer este degredo em terras causticantes e inférteis, que a habilidade vinda de outro mundo contornou com o Nilo?

- Essa coisa que Afra e Chaya falam sobre o suor no rosto é interessante. Será que lá o trabalho é mais leve e sem suor?

- Provavelmente. Mas se aqui é para ser assim, eu faço essa questão.

- Então é por isso que prefere ser artesão a ser escriba?

- Pode acreditar.

- Quer voltar para lá, não é?

- E o senhor não?

- É tudo que desejo. Imagine só: se estivéssemos lá poderiamos tomar um daqueles veículos maravilhosos e visitar Haemon em Mênfis, obter informes sobre as buscas e retornar em pouco tempo, no mesmo dia.

- Seria bom ver Kyia. Eu me preocupo muito com aquela moça, e tenho amor por ela.

- Quer a esposa de volta?

- Não, quero que seja feliz junto de seu general.

- Você é um homem muito bom, Kenefer. Não sei por que foi expulso do paraíso; deveria estar lá.

- Não sabemos como éramos na ocasião. De lá para cá creio que conseguimos melhora considerável, visto que pela idade dos escritos de Moisés, que já tratavam disso, muito tempo passou.

- Será este o propósito da expulsão: melhoramento individual e coletivo?

- E exatamente nessa ordem. Talvez algo mais. As vezes vejo as pessoas como criaturas tão ignorantes de tudo, tão simplistas e cordatas* cegas para o que mandam que façam, sem questionamento algum...

- Acha que viemos para dominá-las?

- Não seria um propósito nobre e de melhoramento. Creio que viemos para instruí-las.

- Uma ocasião Haemon disse-me alguma coisa mais ou menoi nesse contexto; para mim faz sentido.

Nesse convívio, a amizade milenar de Kenefer e Hakor afloravi como fermento ao sol.
Haemon, por sua vez, chegou a Mênfis e sentiu-se tranquilo. Constatou que o irmão não sabia do motivo real de sua vinda à cidade e não se incumbiu de contar-lhe. Torcia pela possibilidade de descobrirem o templo, e por consequência os mistérios que para ele os haviam atraído, antes de os amantes se encontrarem. Os temores de Proteu foram confirmados pelo sábio, que ao adentrar a câmara secreta teve sensações inesperadas e viu imagens que pareciam memórias milenares.

Passava horas dentro do incômodo aposento, que não constava na planta da morada eterna de Chephren, a meditar e tentar contato com os espíritos que ali haviam deixado seus invólucros físicos. Em vão. Estariam todos encarnados? Não saberia responder de imediato. As vozes superiores pediam-lhe que estivesse em oração e vigília constantes, e até aquele momento só conseguira cenas isoladas que mais o confundiam e intrigavam.

O bracelete da múmia estava em seu poder desde que Proteu voltara de Bizâncio com aquelas revelações perigosas. Segurou a joia com as duas mãos e recolocou-a no lugar de onde fora tirada. Estranhamente pensou em Kyia. Em frente à múmia teve a sensação da presença dela. Foi envolvido pelo mesmo sentimento paternal de guia protetor que o acometera, vencendo uma pequena resistência que tinha em relação à moça, quando a vira interessada no irmão. Talvez fosse porque assim ela deixaria de explorar o amigo, o que não aconteceria com Proteu, que, além de não ser dotado da bondade e boa fé de Kenefer, possuía o amor de Kyia.

Enquanto Haemon cismava dentro da câmara, lá fora as buscas eram tão incessantes quanto infrutíferas. Contudo, nenhum dos caçadores desanimava; a vontade de encontrar o templo da deusa árabe era maior que o cansaço e o calor.

Capítulo 23

Kyia, de regresso à terra natal, retomara sua vida no ponto em que a deixara anos atrás, quando partira embalada pelo sonho infantil e disparatado de se tornar rainha do Egito. Voltara ao convívio dos parentes, que estranhavam a maturidade da nova ceramista que, acreditavam, havia descoberto um novo aparato para proteger as casas do sol e ua modo divertido e fácil de fazê-lo. Não tardou e as telhas que aprendem a fazer com Faisal se tornaram o negócio da família de Kyia em Mênfia

E seria a notícia a ela trazida certa vez por um meio-irmão qac mudaria muitos destinos. Dizia Takelot, seu maior ajudante, que ua grupo de caçadores de tesouros se encontrava nos arredores da cidade - mais precisamente na necrópole -, a mando do faraó, e que havia montado um acampamento precário. Indagando dos homens de Hakoqj descobrira que estavam ali há muito tempo e ainda deveriam demoal várias luas. Ao falar de suas coberturas de casas, eles se interessaram s pediram para ver uma amostra do artefato.

- Se porventura fecharmos negócio será uma grande venda, visa que eles possuem galpões enormes onde guardam a tralha e barraca individuais.

- Obrigada pela sugestão, Takelot. Irei até lá com uma amostra ãn nosso produto.

Levando uma peça sob o braço e usando sobre os cabelos um lenço cujas pontas cruzou em torno do pescoço, a artesã do deserto seguiu sol destino. Ao longe viu o acampamento e os homens trabalhando qual formigas, nas escavações que semelhavam formigueiros gigantes.Já imaginou o que haveria no subsolo de um cemitério para interessar ao faraó, se o interior das tumbas, todos sabiam, estava repleto de tesouros incalculáveis.

Mas os tesouros do faraó de nada lhe serviriam; precisava, sim, vender o produto de seu trabalho e sobreviver. Segurando a telha, ela chamou a atenção de um trabalhador que lhe pediu para esperar até que avisasse o chefe. Quando este chegou ela pensou estar tendo uma miragem. - Proteu!

O mercenário estremeceu de puro pânico. Kyia naquele local, junto a ele... Não podia estar acontecendo, era mais um pesadelo! - Kyia, não! Vá embora daqui! Por favor, não se aproxime. Vá agora! - O que eu não posso ver? O que tem tanto medo que eu descubra? -

Não se trata disso. Eu imploro, volte para a cidade! - Senti saudade de você. - Não me fale nada. Aqui não, por Ra! - O que está havendo? 0 grego desistiu de argumentar e correu. Seus pés afundavam na areia quente, tal qual no pesadelo medonho que há tempos o atormentava. Olhou para trás e viu que, também de maneira igual, ela o seguia a correr. Não portava a espada e sim uma telha curva. Seria isso que vira no sonho e não recordara perfeitamente? E agora? Nada poderia fazer, pensou. A força do destino o arrastava para o inevitável, para o crime hediondo de matar a mulher que aprendera a amar. Fora inútil tentar afastar-se; o destino cruel a trouxera ao lugar exato de sua desdita.

Ao lado de Proteu, um espírito gargalhava malicioso. Vivia há mais de 2 mil anos na câmara misteriosa e insuflava-o ao assassínio. “Entre na câmara secreta”, repetia em seu ouvido, e o grego obedeceu. “Espere por ela e acabe com isso. Não pode fugir do que está traçado. Pegue o bracelete que pertence a ela e coloque em seu braço.” Como um autômato, o mercenário tirou novamente a joia da múmia e aguardou. Seus olhos pareciam parados, mirando o que não via de fato. Na mente já adoecida em época anterior, o monoideísmo ditava que estava na hora de o pesadelo se tornar real. Kyia entrou na câmara. Respirava ofegante e sentia o coração bater na garganta.

Notou que a expressão facial de Proteu se transformara.

Estava fria e distante, como se tomada por uma abiose patológica; os olhos pareciam de vidro, gélidos e parados.

- Proteu!? O que houve com você?

Ele nada respondeu. Pegou o braço da moça e nele colocou a joia.

- É lindo!

Ainda em estado quase cataléptico ele nada falou. Segurou o rosto da egípcia com as duas mãos e carinhosamente as escorregou até o pescoço. Então começou a apertar com violência.

- Estava escrito, Kyia. Perdoe-me!

O toréedor invisível da tragédia berrava de euforia suprema, quando a vítima ergueu a telha e bateu forte na cabeça do agressor, o que o fez parar por um tempo. O brilho da joia no braço erguido para se defender lembrou-lhe ainda mais o pesadelo e de novo ele avançou para a jovem. Esgueirando-se pela sala redonda, ela procurava trazê-lo de volta à realidade.

- Pare, Proteu! Não está em si, não quer me matar! Você me ama. Ama-me desde que o encontrei em Urchada e você dormiu em meus braços pela primeira vez. Você me ama, disse isso muitas vezes; inclusive se afastou de mim porque não queria me machucar. Lembra-se do antigo templo de Hathor, onde Amonet celebrou nossa união e você me tomou por esposa? Eu sou sua esposa, Proteu. Atravessou o deserto para dormir em meus braços sob o céu de Bizâncio e singramos três mares nos braços um do outro. Fomos imensuravelmente felizes naqueles dias! Você até ordenou que atrasassem a viagem, lembra-se?

Ele fez um sinal afirmativo de cabeça.

- Em Inarus você garantiu que não corríamos perigo. Naquela noite eu acreditei que nunca mais o veria, mas fui completamente feliz. E mesmo que me mate agora, ainda seguirei amando-o, pois esta é umi condição irreversível.

As recordações do tempo que haviam passado juntos e dos bons sentimentos que os envolviam deixaram o general de Hakor menos vulnerável ao assédio do adversário desencarnado.

- Não quero machucar você, minha rainha, porém é o destino, estí escrito; eu tive a premonição.
- O que sentimos é mais forte que qualquer destino. Nosso destino é vivermos juntos.

Irritado, o obsessor se afastou, prometendo que voltaria em outra ocasião, e o guerreiro deixou-se cair no chão de pedra em sentido pranto. O lado esquerdo da testa sangrando, que ela limpou com o lenço.

- Não adianta, minha rainha, não podemos viver para sempre assim, eu sabendo que a matarei e você tentando me demover desse ato insano.

-Temos de achar uma solução. Só não pode ficar separado de mim, porque me e necessário como o proprio ar.

- Fique comigo. O tempo sem você não passa. Se for preciso, mate-me; não me deixe machucá-la.

- Sei que não fará isso. Abrace-me e não faça mais essas brincadeiras sem graça. O meu maior temor não era ser machucada; era não ter meu deus grego de volta. Estava estático e estranho, não era meu Proteu.

- Algo esquisito aconteceu comigo desde que descobri este lugar. Perdi minha saúde de ferro e parece que hoje, por um momento, perdi completamente a razão.

- Volte para Tebas, peça ajuda a Haemon.

- Meu irmão está aqui. Veio para isso.

- Então o que estamos esperando? Vamos até ele.

O casal foi ao alojamento e o sábio não estava; passou pelo barracão individual e também nada. Depois de percorrer os 40 estádios e não ver o irmão, Proteu começou a ficar preocupado. A última pessoa que conversara com Haemon garantia que havia entrado na câmara secreta bem antes deles e não saíra ainda; sabia disso porque estivera trabalhando por todo aquele tempo no corredor de acesso, à procura de uma passagem oculta, como o próprio sábio mandara.

Novamente dentro da misteriosa câmara, as perguntas pairavam sobre eles. Teria a câmara tragado Haemon de corpo e alma? Haveria algum monstro escondido ali que o teria devorado? Teria o misterioso local evaporado o corpo do sábio? Ou existiría ali uma passagem desconhecida por onde ele teria saído? E neste caso, para onde ele teria ido? E sem dizer nada a ninguém!
- Kyia, vamos sair daqui e lacrar este local maldito. Tenho medo de estar aqui com você. Tenho medo de estar aqui!

- Não pode viver com medo; temos de descobrir o que se passa neste lugar, como Haemon se perdeu... Em minha opinião ele não saiu, e se lacrarmos a câmara provavelmente o estaremos sepultando vivo.

- Você tem razão. No entanto, como procurar alguém em um lugar sem vãos e sem divisórias?

- Os nichos! Será que não há uma passagem secreta atrás das múmias?

- Confiramos.

As paredes dos nichos arredondados eram completamente sólidas. Impossível haver uma passagem secreta ali. Exaustos, tornaram a sentar-se.

- Sinto cheiro de queimado. Parece que alguém queima trastes de couro.

- Também sinto. De onde virá esse cheiro?

- Espere que se intensifique.

- Seja de onde for, sou capaz de apostar que é meu irmão quem fia um sinal para nós.

- Olhe, Proteu!

Na greta formada no ponto de junção de dois dos enormes blocos de pedra, que pavimentavam o piso da câmara, subia uma pequena cortina de fumaça.

Com muita dificuldade os braços gigantescos do grego afastaram o compacto bloco de pedra e ele viu, espantado, um cômodo subterrâr. na profundidade de mais ou menos quatro metros. Lá embaixo, ao la de uma pequena fogueira, estavam seu irmão e um ajudante.

- Haemon!

- Eu encontrei! - berrou eufórico.- Encontrei o templo perdidc Nágila, a semideusa árabe.

- Você é doido, irmão! Como entrou aí? Podemos entrar taml

- Perdido há tantos séculos e eu encontrei! Venham. Eu entrei a ajuda de Amoy e uma escada; aí o bloco caiu, fechando a passagem, e não conseguimos afastar a pedra pelo lado interno. Parece até uma — adilha dos antigos para quem chegasse aqui.

- Não duvido que seja. E então, achou o enigma?

- Ainda não. Desça e me ajude.

Ao ver Kyia ele se assustou.

- Menina maluca, o que faz aqui?

- Isso pergunto eu. Sou daqui e é aqui que devo estar.

- E eu vim por sua causa. Meu plano era evitar que estivesse com teu neste local.

- Pelo jeito não conseguiu - retrucou com expressão traquinas.

-Tome juízo! Não sabe o que pode acontecer.

- Sei, e conto com sua ajuda. Não agora, visto que o momento é i o encontro do templo perdido.

O sábio a recebeu com um abraço e, segurando uma tocha, deu ra na mão do irmão.

- Olhe só que mágico! A câmara foi construída sobre as ruínas do iplo. E pelo jeito a pirâmide também.

- Este templo já esteve na superfície. Os séculos de tempestades de u se encarregam de tornar qualquer coisa subsolo. Creio que aqui-strou uma espécie de balcão de pedra em pedaços - era o altar prin-al. Olhe para a pedra do tampo.

- Um alef gravado!

- Tudo aqui tem um alef. Veja os vasos nas paredes, que devem sido usados para fixar as tochas; cada um tem um alef. E atrás do altar temos o que restou de quatro degraus; e, o mais intrigante, estão raados de cima para baixo com os símbolos encontrados no laço de : o primeiro, com a marca da lua, é maciço; o mesmo se dá no degrau - a marca do cetro ou lança e no terceiro, com o desenho do cálice; o último, porém - uma pausa fez aumentar ainda mais o suspense -, cado com o alef, vê-se de modo inconteste que tinha na antiguidade na de baú, pois seu resto é completamente oco; era um esconderijo arçado de degrau. Aqui, meus amigos, Nágila guardava o enigma chamarei de Alef ou enigma sagrado e perdido. Era aqui que ele deveria estar.
- Deveria estar? Não estava mais quando descobriu o templo?

- Infelizmente, não. Alguém chegou antes de nós.

- Diabos! O que será essa porcaria de enigma?

- Fazendo alguns cálculos de engenharia descobri que estes degraus deviam possuir 2 metros de comprimento por 25 centímetros de largura e 20 de altura. Ou seja, espaço mais que suficiente para guardar esse Alet. que podería ser muitas coisas: joias, armas, um metal mais precioso que o ouro, mapas e aparelhos para se ver o céu ou o fundo do mar, sei lá.

\ — Seus cálculos ajudaram muito...

- Ora, Proteu, sabemos que não pode ser uma múmia, uma biga... - disse o sábio a sorrir.

- Um oásis, um palácio - o outro emendou com sarcasmo.

- Brincadeiras à parte, o que acha que pode ter acontecido com o Alef?

- Se a pirâmide foi construída sobre o templo, isso quer dizer que ele foi descoberto e esta localização escolhida por isso. Chephren acreditava que o local estava impregnado de energia criadora da deusa do Alef. É bem provável que naquele tempo o enigma ainda estivesse dentro do falso degrau; portanto, o faraó teria se apossado dele.

- O que Chephren teria feito com ele?

- Difícil saber, tanto tempo depois.

- Quais as chances de encontrar o Alef?

- Não são completamente nulas, uma vez que era algo importanw para Chephren, ou não faria sua tumba aqui. E o que acontecia estas coisas importantes para os faraós?

- Eram colocadas com seus corpos nas respectivas tumbas.

- Logo, as chances de o Alef estar aqui são grandes e nossos c pos de busca diminuem de 40 estádios para o interior da câmara n tuária de Chephren.

- Uau!

- Vamos subir e deixar o templo de Nágila tal qual o encontrar Precisamos conversar a respeito do motivo que me fez vir até aqui: câmara secreta. Desde que cheguei comecei a ver cenas de um te: antigo que acredito ser o de Chephren e da construção desta pirâmede. Quando viveu e reinou Chephren ou Khaf-re, como dizem os egípcios?

- Faz mais de 2 mil anos. Quando morreu Khufu ou Quéops -como nós, gregos, nos referimos a ele -, Chephren não ascendeu imediatamente ao trono. Ele tinha um irmão mais velho, Djedefre, que viveu como faraó por pouco mais de oito anos. Foi com a morte dele que Chephren se tornou o soberano da teocracia mais antiga do mundo.

- Teria Chephren assassinado Djedef-re?

- Muitos dizem que sim, mas é meio tarde para apurar tais fatos. O que eu posso perceber nesta câmara é que ela não estava incluída no plano inicial da construção do faraó. Parece algo bem à parte do delta piramidal e totalmente destoada do restante da construção.

- Sua entrada não poderia ter sido fechada mais tarde, por um restaurador de outro faraó? Tanto tempo depois é difícil saber o que é original e o que foi mexido, transformado e mesmo roubado nestas tumbas. Dizem inclusive que um construtor de Ramsés II teria roubado material daqui, fazendo desta pirâmide sua pedreira.

- Nesse caso o dono do mistério passa a ser Ramsés II e não Chephren. Não obstante, as perguntas continuam as mesmas. Eu ainda acredito que Chephren construiu esta câmara e a velou para selar um segredo muito sinistro, até mesmo para um deus. As entradas da tumba têm muito em comum, olhem só. A pirâmide tem duas entradas, ambas com cerca de doze metros a leste do ponto central de sua face norte; a primeira fica a mais ou menos quinze metros de altura em relação ao solo, ao passo que a outra foi escavada diretamente nele, e também abaixo da primeira. Dois corredores, correspondentes a duas entradas, juntam-se para conduzir a uma câmara funerária que abriga o sarcófa-go. Acima de cada uma das entradas está esculpido caprichosamente o nome de Chephren em escrita hieroglífica, hierática e demótica. As entradas têm muitos pontos congruentes. Quanto a esta câmara, nem mesmo possui uma entrada visível e é totalmente desarmônica se defrontada com o restante da obra. E uma coisa ninguém pode negar: os faraós sempre foram exigentes em suas construções. Não há alternativa; esta câmara é claramente observável como abrigo de algo sinistro de que ninguém poderia ter conhecimento. Algum mistério se encerra neste local. O que o faraó desejaria esconder aqui? O que, afinal, um soberano absolutista precisaria esconder, e de quem? Na teoria ele era deus e podia fazer o que bem entendesse.

- Como disse tão bem, é um pouco tarde para apurar os fatos. As evidências não mais virão até nós.

- Talvez possamos ir até elas.

- Como assim? Não se pode fazer voltar o tempo de Khafre.

- Falo em voltar ao tempo de Khafre - deu ênfase à preposição.

Diante da perplexidade dos três companheiros, deu início à explicação.

- Quando eu era jovem, estive um tempo considerável isolado em uma comunidade, na companhia de um sábio mestre conhecedor de muitas filosofias; entre tantas, a de Siddhartha Gautama, conhecido no Oriente como Buda. Esse grande mago me ensinou coisas muito interessantes, entre elas um método de viajar no tempo em espírito, uma espécie de regressão às vidas que já tivemos. Lembro-me perfeitamente de ouvir o mestre dizer que era algo perigoso e que só deveria ser feito em casos extremos, pois Deus nos provê com o esquecimento por nenhum outro motivo senão o imenso amor que dedica a todos. Isso porque a visão do passado muitas vezes é penosa, ao nos mostrar mais jovens de espírito e por conseguinte, inferiores ao que somos hoje. Igualmente difíceis seriam as reconciliações, se soubéssemos comprovadamente que nossos íntimos de hoje foram nossos inimigos do passada.

- Acha que este é um caso extremo?

- Eu não sei. Gostaria de ter meu mestre aqui para me dizer se devo ou não. Como não é possível, partindo do princípio de que a vida de Kyia corre perigo e é necessário trazer o Alef de volta, crei; que devemos.

- Qual a necessidade de trazer esse Alef?

- Segundo as vozes superiores, “é chegada a hora de ressuscitar o mistério do templo perdido para ser usado em prol do crescimenn coletivo”.

- Está pretendendo recuar ao tempo de Chephren?
- Eu não. Vou mandar vocês dois, não simultaneamente, já que o corpo exige monitoração circunspecta e contínua.

- Nós dois?

- Sim, pois diante de seus pesadelos e visões temos certeza de que estiveram lá.

-Já fez isso alguma vez, Haemon? É seguro?

- Fiz uma única vez e estava decidido a nunca mais fazer, porquanto o viajante enlouqueceu frente às informações acerca de si mesmo; não estava pronto para conhecê-las. Por isso digo que não é seguro. Entretanto, se não descobrirmos 9 que sucedeu neste lugar há 2 mil anos, Kyia não estará segura aqui no presente e o Alef não será encontrado.

- E se enlouquecermos?

- Desta vez não estamos movidos por vã curiosidade. Não ficaremos à cata de informações frívolas e estamos respaldados pelas vozes superiores. Sinto que seremos felizes nesta busca.

- Acha que estou pronto para isso?

- Você, Proteu, tem a pior informação que poderia receber: a de que matou Kyia. Se descobrir através dessa viagem que ela não é real, só tem a ganhar.

- Acha que lá no passado terei uma informação do futuro?

- Penso que descobrirá que o futuro não existe tal qual entendemos; ele está sendo construído a cada dia por nós próprios. Penso também que lá, no tempo de Chephren, está a cura para os males que o acometeram quando, não por acaso, descobriu esta câmara.

- Nesse caso, quero começar agora mesmo.

- Calma! Vamos nos preparar devidamente, e amanhã poderemos dar início à nossa expedição extracorpórea.

A luz do meio-dia fazia a “Grande Quéfren” brilhar de maneira ofuscante. Majestosamente revestida de pedras calcárias e granito vermelho parecia um gigantesco prisma a decompor a luz e as cores a seu redor. Não havia dúvida: o local fora escolhido com precisão por Chephren.

Por outro lado, Quéops também fora caprichoso com o local exato. A orientação da sua pirâmide permitia que os raios luminosos da estrela Sírio, ao passar pelo meridiano, entrassem na câmara principal em
seu núcleo por meio de um conduto, exatamente quando se anunciava o princípio do ano egípcio e das inundações do rio Nilo, pois a luz da estrela Polar entrava pelos condutos do norte.

“Como teriam feito estrutura tão majestosa em tão prisco tempo? - Haemon conjeturava. - Certamente foram idéias trazidas de outro tempo e de outro lugar.”

Capítulo 24

O dia amanheceu claro. O sábio pediu a Proteu que mandasse os homens até a olaria de Kyia para adquirir as telhas e empreender rapidamente a construção das casas. Assim teriam privacidade na “Grande Quéfren” para realizar seus experimentos.

Era muito cedo quando Haemon, Proteu e Kyia entraram na câmara secreta. O primeiro pediu a proteção dos amigos invisíveis e o segundo se ofereceu para ser o primeiro a embarcar na viagem transcendental. Não conseguiu, por vários motivos: não era sugestionável à hipnose e magnetização do sábio, sentiu medo e no fundo não acreditava que poderia voltar ao tempo de Chephren.

O que eles ainda não sabiam era que não se tratava de voltar ao tempo de Chephren e sim de voltar para dentro de si mesmos em busca das próprias memórias do tempo em que tinham vivido no reinado de Chephren; de lembranças arquivadas na memória do espírito imortal, no eu maior, inacessível à memória física pelo simples fato de o físico não as possuir. O corpo fora criado para aquela encarnação e continha informações sobre ela, ao passo que o ser imortal que ali habitava fora criado muitos milênios antes, e guardava informações que nem caberiam nele.

Proteu não se desligava de sua era e dos ruídos à sua volta. Inúmeras vezes Haemon tentou fazer a regressão com o obstinado irmão, sem sucesso, a ponto de chegarem os três à exaustão e decidirem recomeçar no dia seguinte, trocando o viajante.

- Esse é o rosto de Chephren? - perguntou Proteu a uma contemplativa Kyia em frente à grande esfinge.
Muitos apostam que sim. Eu vou até lá conferir - disse sorrindo. - Existia ali entre as patas dianteiras uma pequena capela, ao tempe de Amenhotep IL Ele fez dessa capela um novo templo para Hauron-Haremakhet. Contam os mais antigos que era pequena para não chamar atenção, como faria o grande templo. Era um local particular do faraó, onde ele adorava, em segredo, uma deidade feminina.

- Nágila?

- Quem sabe?

- Se no tempo de Chephren já haviam se perdido Nágila e seu

templo misterioso, de quando datam essas ruínas que meu irmão descobriu? |

- Por que acha que naquela época o templo já estava desaparecido-Talvez tenha sido o próprio Chephren ou Khufu, seu pai, que o tenha destruído.

- Nesse caso ele o fez por ciúme de Nágila, como diz a lenda.

- Crê que um dos dois grandes faraós teria sido amante de Nágila?

- A lenda diz que o ciúme de Hakim o fez levar Nágila para o deserto, onde morreu numa tempestade de areia. Talvez Hakim seja a imagem figurada de um dos faraós.

- É tão confuso...

- E tão belo! Embora venha da Grécia e tenha convivido cor as grandes cidades organizadas em seus detalhes, digo que nunca vi nada como o Egito e seus deuses de carne e osso. Há quanto tempo estão aqui, vivendo às margens férteis do Nilo e protegidos de invasões pelo deserto? São fascinantes seus conhecimentos sobre ; mundo dos mortos e os mistérios do céu; eles tornam os egípcios rs verdadeiros sábios. O Egito me fascina; não acho que seja a primeira vez que vivo aqui. Você me fascina, Kyia. Sinto por você um misto de encantamento e apreensão; ao mesmo tempo em que a desejo a; meu lado, algo me diz que você vai me enganar e causar algum maL É como se um aviso dentro de mim me deixasse em alerta a cada vez que a vejo.

- Deixa-me profundamente desgostosa com essa desconfiar. Tenho imenso afeto por você, e não poderia lhe fazer mal.

Eu sei, mas é como um instinto impregnado em mim que diz que você representa perigo.

A moça segurou a mão do guerreiro e, levando-a aos lábios, fechou os olhos em êxtase.

- Eu o amo, Proteu! Mato-me mil vezes antes de fazer mal a você.

- Nem pense nisso. Eu a amo também e sei que esses sentimentos negativos que tenho, bem como minhas doenças, vão acabar com esta viagem ao mundo de Chephren ou Khufu. Então seremos felizes juntos e livres de qualquer maldição de qualquer faraó. Olho para seu rosto, minha rainha, e sinto vontade de ser melhor, de ser bom e dócil como Kenefer, de ser sábio como Haemon. E tudo isso apenas para estar com você. Sua presença dispensa qualquer paraíso perdido, sua presença é o paraíso encontrado. A sensação de maior força é tomá-la nos braços, e a de maior poder é levá-la comigo. Embora não tenha o direito de me conceituar de um jeito áureo, sei que o sentimento que me liga a você pode se difundir para outras pessoas, tornando-me um pouco melhor. Portanto, se eu fizer algum mal a você, perderei minha única chance de crescimento real, junto com o estado de contentamento que só a sua presença é capaz de me trazer. Mas tenho medo. Tenho tanto medo de minha força física e minha habilidade para machucar pessoas... Aqueles pesadelos são terríveis!

- Abrace-me com toda essa força e pare de pensar em seus pesadelos. Já combinamos que não entraremos mais sozinhos na câmara; assim, você não poderá matar-me como nos pesadelos. Isso quer dizer que podemos estar juntos no Egito quase inteiro.

Ele riu.

- Só aqui neste vale temos templos, tumbas e ruínas tão variados que dificilmente nos lembraríamos da câmara secreta. Templos do vale e de Ramsés, pequenas pirâmides das rainhas, e pirâmides de pai, filho e neto... Não precisamos voltar lá. Temos muito para fascinar qualquer estrangeiro por milênios e milênios.

- Tomara que suas palavras sejam profecias, visto que cada faraó tem destruído e roubado o que o anterior construiu, ao invés de preservar obras tão majestosas. Olhe para o templo de Ramsés, todo
construído com base na desconstrução de Chephren. A ponte que ligava o vale ao templo e à necrópole ninguém mais usa; devido à depredação, não é mais segura. Tudo isto tende a ser coberto de areia; apesar de triste, é a verdade.

- Não se preocupe com um futuro tão distante! E como dia Haemon: o futuro não existe, está sendo arquitetado precisamente agora. Tentemos descansar para a grande viagem de amanhã.

A areia quente e os fragmentos de rochas das construções locaií machucavam os pés descalços de Kyia. Com incrível facilidade Prote_ a tomou nos braços.

- Afinal, ter força não é de todo ruim.

O sol escaldante feriu seus olhos e ela os cobriu com uma mech* dos longos cabelos do general grego de Hakor. Proteu vencia os caminhos tortuosos do vale das pirâmides como se andasse sobre floccs de algodão.

O amanhecer seguinte encontrou os três viajantes a postos na câmara. Longe de Hakor, Haemon nem se lembrava do culto a Ra. Estai» ocupado demais para pensar no sol que, sabia ele, por bondade de Deu* sempre voltaria pela manhã.

O sábio cumprimentou os irmãos, como se referia a Proteu e Ky_ com um beijo terno nos cabelos e deu à moça um chá calmante. Depo fizeram uma série de exercícios de relaxamento que lembravam muito yoga. Kyia então se acomodou em confortável divã enquanto Haemon induzia, através de hipnose e magnetização, a uma regressão ao pass

Ela recordou a viagem para Mênfis, a morte de Nefertari, a entre Kenefer e Proteu, além do período em Bizâncio. Sorriu ao de Faisal e Amonet e chorou ao se lembrar do encontro com Proteu em Urchada. As imagens se aceleravam em sua mente e ela visualizou chegada em Tebas, o casamento com Kenefer e o nascimento de Nyla. J chorou copiosamente, um choro que assumiu tom infantil e desesperado.

- Quantos anos você tem? - Haemon indagou.

- Quatro.

- Por que chora?

- Levaram minha mãe.
Não sofra. Volte ao colo dela, volte ao peito dela, volte para dentro dela!

O corpo de Kyia assumiu a posição fetal, Proteu permanecia mudo. No fundo acreditava que a namorada também não conseguiría. E apreensivo ouviu o irmão conduzi-la para mais distante ainda. Nomes e situações desconhecidos saíam de seus lábios e Haemon a conduzia além.

- Escute bem: eu quero que volte para os últimos dias do reinado de Khufu; você esteve lá e pode trazer as informações de que precisamos.

-Tula...

- Está vendo Tula?

- Sim, eu e ela em um templo. Belo templo onde servimos a sacerdotisa. Sacerdotisa não, é uma semideusa. Amonet! Que saudade de Amonet...

— Ela não se chama Amonet; tente lembrar o nome!

Kyia balançou a cabeça com força.

- Tudo bem. O que vê no templo?

- Um lindo altar, sobre o qual há a estátua de uma deusa desconhecida, e atrás dele quatro degraus.

- Cada um deles com uma marca?

- Sim.

- Lua crescente, cetro ou lança, cálice e alef?

- Sim. Silêncio! Ele está chegando. Devemos levar o poderoso até Amonet.

- Quem está chegando?

- Haemon. Ele é impiedoso com qualquer falha. É cruel, déspota e sanguinário; transforma todos os filhos de Kemet19 em seus escravos durante as cheias do Nilo, quando não podem trabalhar nas plantações. Eles são obrigados a construir a grande tumba.

- Isso não pode ser; Haemon não tem esse poder. Quem está chegando?
- Haemon chega para visitar a única pessoa que adoça suas maneiras rudes. Haemon ama Amonet verdadeiramente; vem para vê-la.

O rosto de Kyia se tornou sombrio e lágrimas de desespero risca-ram-lhe a face porejada de suor.

- Por que chora?

- Não pode ser! Amonet é má, Kyia é má, Tula e Haemon são perversos.

- Quem você vê?

Com um grito de pavor ela se sentou, ofegante.

- Khufu! O grande Quéops! Tenho medo!

Carinhosamente ele deitou a paciente no divã.

- Acalme-se, ele não pode lhe fazer mal; está segura aqui. Tente ver o que Quéops deseja no templo.

- Ver a sacerdotisa. Eles têm juntos um filho. Vivem como amantes, mas ninguém pode saber. Uma sacerdotisa deve ser casta. É un» segredo que guardamos, eu e Tula.

- Qual dos filhos de Khufu é filho da semideusa?

- Hakor é o bastardo, porém vive no palácio como filho legítim: do faraó com a rainha. Amonet já planeja elevar seu rebento ao trono através de assassínio.

- Khufu não tem filho de nome Hakor. Quem é o filho de Amo: e Khufu?

- Chephren! Esse é o nome.

- Em resumo: você e Tula são serventes de Nágila, amante Khufu e mãe de Chephren?

- Isso mesmo!

Haemon precisava parar. Acabara de descobrir que era o mesi espírito que vivera há 2 mil anos como Khufu ou Quéops; que teria si pai de Chephren, o atual Hakor, e que Nágila, sua amante e guardiã Alef, estava reencarnada como Amonet no antigo templo de Hatf Precisava digerir tanta informação.

- Escute, minha irmã: quando eu beijar a sua testa, quero que vo ao tempo de Hakor, para a câmara secreta, para mim e para Prote _ quero que se lembre de cada informação que foi buscar.
Kyia abriu os olhos e, vendo a condição emocional do amigo, nada disse. Tomou a mão de Proteu e deixou a câmara secreta. Sabia que as viagens continuariam e que certamente trariam revelações acerca de si própria e de Proteu; e que nesses dias gostaria de ficar só.

Haemon permaneceu em silêncio, sozinho consigo mesmo. Entendia agora o estado de angústia e nostalgia que o acometia sempre que olhava para a grande pirâmide, o sentimento paternal por Hakor e o coração vazio à espera de um amor que mulher alguma pudera ocupar; a sensação de que em algum lugar perdera o amor de sua vida, sem, no entanto, saber exatamente de quem se tratava. Amonet, do templo de Hathor, meu Deus! A guardiã do Alef. Khufu, como pude ser tão cruel! Abençoadas sejam as diversas oportunidades de viver na carne, em corpos diferentes, com o intuito de aprender a amar.

Por longo tempo chorou, relembrando seu mestre oriental: “Essas viagens são perigosas, não descobriremos coisas belas a nosso respeito. O importante é estar preparado para esse encontro consigo mesmo”. Tal pensamento o predispôs ao diálogo espiritual.

- Amigo Haemon, longe vai o tempo em que reinou no Egito como Quéops. Estava recém-chegado ao planeta, trazendo vasta bagagem intelectual, e como se esperava subiu ao trono para ajudar no crescimento de seus irmãos terráqueos, bem como preparar os seus filhos para o mesmo fim. Infelizmente os planos feitos fora da carne não são tão simples, quando vistos através dos olhos carnais. Conhece sua história como Quéops, não preciso repeti-la. Por isso deve saber que, embora déspota, tirano e ditador, contribuiu muito para o progresso da Terra nas áreas de engenharia, medicina e agricultura; trouxe e espalhou esses conhecimentos e, como acontece hoje com seus irmãos, ensaiou com Nágila a suprema arte de amar sem limites. Mais de 2 mil anos transcorreram, tempo suficiente para aprender a usar seus conhecimentos em prol da coletividade. Hakor é o soberano, mas quem governa é você. E o faz com justiça e inteligência, impedindo o filho de outrora de cometer desmandos. Seja feliz consigo mesmo; está prestes a voltar para o seu verdadeiro lar.

- E Nágila?
Também segue da mesma forma; não demora a voltar.

- Por que não pode estar comigo? Sinto tanta falta dela!

- Eu sei, e ela de você, porém estão em uma etapa importante de sua trajetória. Unidos os incitamos a amar e separados os obrigamos a universalizar o amor. Quando o tiverem conseguido em plenitude, o prêmio será a reunião de suas almas para que juntas sigam trabalhando em prol da coletividade.

- É sempre assim?

- Quase sempre. Assim nascem os bons trabalhadores da Grande Estrela que virá.

- A essa menção sinto tanto amor que, sabendo ser ele o líder destas paragens, perco a vontade de voltar para casa e anseio continuar por aqui a seu serviço.

- Quem sabe ele não lhes conceda tal dádiva! Todavia, para que isso aconteça não se deixe abater por seu estágio como Quéops; esti mais de 2 mil anos mais velho. O abatimento e a culpa são os maiores entraves à obra da Grande Estrela. Para começar, tem o próprio trabalho a que se dispôs com o objetivo de curar os meles de seu irmão, e c curará muitos outros.

- Está certa, amiga! Vou continuar trabalhando.

- Bom trabalho e muita luz!

- Para encontrar o Alef?

- Não, isso será muito fácil. Precisará de trabalho e luz p divulgá-lo.

O espírito protetor de Haemon tocou sua fronte, na qual depc tou fluidos benéficos em forma de suave luz azul. Em seguida desa; receu como se desfazendo à sua frente. Secando as lágrimas, ele coe para fora da pirâmide de Chephren a fim de olhar para a de Khufu maneira diferente.

“Minha tumba! Meu Deus, que coisa mais maluca!”

- Está melhor, Haemon?

- Sim, minha irmã. Desculpe-me pelo egocentrismo que abateu. Nem ao menos perguntei se você estava bem depois da longa viagem.
Eu estou bem, nada impactante descobri sobre mim mesma. Você foi o mais revelado na etapa inicial. Merecia dar-se ao luxo de sofrer sozinho.

- Obrigado. Quando quiser poderemos voltar.

- Não imagina como o desejo; podemos começar quando achar melhor.

- Não se entusiasme tanto. Sabe que pode descobrir coisas tristes.

- Sei que posso descobrir o que faz Proteu acreditar que deve me matar e passar tão mal. O pobrezinho vomita demais e sente dores terríveis. Morro de pena!

- Bom, felizmente não é mera curiosidade!

- Haemon! Julga-me mal.

- Não. Sei muito bem o que sente por ele; já passei por isso.

- Precisa ir ao deserto buscar Amonet para junto de nós.

- Não, irmãzinha. O trabalho dela, segundo contam, é de elevada importância no exato local onde está, e o mesmo digo do meu. De mais a mais, precisamos permanecer apartados para que o sentimento nobre não se restrinja entre duas almas somente.

- Não sente vontade de vê-la?

- A falta dela chega a arder, mas desta vez não podemos estar juntos pelo fato de termos missões diversas e fisicamente distantes. Os caminheiros do deserto necessitam dela e o soberano, na capital, precisa de mim. Se alcançarmos o final com o dever cumprido, mereceremos o grande prêmio que é a realização do amor de almas.

- Se, como diz, tudo caminha para o mesmo fim, algum dia terei de me apartar de Proteu?

- Com certeza um dia terão de se separar a fim de que canalizem esse amor para a caridade pura. Se assim não for ficarão estacionados, amando-se mutuamente, sem crescer no amor universal que é o plano maior.

- Você fala de coisas que não consigo compreender.

- É porque é muito, muitíssimo mais jovem que eu. Eu vinha de :ma longa caminhada quando você, Proteu e alguns outros ensaiavam os primeiros passos.
- Você estava belo como faraó. Usava um saiote plissado de fin □ linho branco, entrelaçado com fios de ouro e prata, e um cinto largo de. couro incrustado de pedras preciosas; sobre a fivela, o seu nome real em signos de ouro. Todo o seu corpo estava coberto por uma capa de pele de leopardo curtida, com as quatro patas e a cauda do animal: as próprias garras do bicho eram as presilhas. Trazia ainda um peitoral óe ouro e de faiança azul, com turquesas, cornalinas, escaravelhos de ametista; e falcões eram a moldura de um olho de Hórus20. Nos braços, nacj pulsos e nos tornozelos brilhavam joias: braceletes de ouro, de ág de lápis-lazúli, de jade, de cornalina, de malaquita, de rubis e de tc as pedras imagináveis. Anéis, um em cada dedo das duas mãos; um forma de escaravelho, idêntico ao que Proteu achou.

- Quem sabe não é o mesmo?

- Provavelmente, já que foi encontrado na sua tumba.

- Kyia, por Deus! Eu ainda não morri.

- Desculpe-me! Na tumba de Khufu. Quer prosseguir, ou muito emocionado?

- Podemos.

Capítulo 25

Antigo, que significa roderosos e mais usa-
Naquela segunda viagem ao passado, Kyia vislumbrou o vale das pirâmides quase vazio; faltavam a esfinge, a pirâmide de Chephren, a de Menkauré e uma série de pequenos templos e pirâmides que ainda não haviam sido construídos. Viu-se correndo em meio ao enorme complexo funerário de Khufu, passando pelos fundos da grande pirâmide e entrando no templo perdido de Nágila, tal qual na viagem anterior. O templo não era subterrâneo; os mais de dois milênios em tempestades de areia se encarregariam disso. Quando nele entrou, levou um susto. Snefru, o terceiro filho de Khufu, ali se encontrava com a sacerdotisa. Logo após consultar-se e ser iludido a respeito de seu futuro - coisa que ela era tão mestra em fazer -, saiu com expressão feliz e colocou uma pedra semipreciosa na mão da irmã responsável pelos pagamentos do oráculo, que ela reconheceu como Tula. Cortês, a tesoureira do templo agradeceu.

- Proteu!

- Reconhece Proteu? - indagou Haemon.

- Sim, é ele, mas deveria ser o terceiro filho do faraó morto há pouco tempo.

- Khufu está morto?

— Sim.

- Quem reina no Egito?

- Djedefre, seu primogênito.

Haemon sempre imaginou ser Chephren o sucessor de Khufu. Era uma revelação nova e ele deixou Kyia penetrar nas memórias remotas. Ela visualizou seu passado com tal clareza que Haemon passou a ouvir seu diálogo com o terceiro filho do soberano morto.
Snefru?

- Quem é você?

- Meu nome é Hanifah. Venho do Oriente junto da semideusa para servir à família real do Kemet.

- E em que poderia me servir?

- Tenho uma informação que poderá elevá-lo ao trono.

- Sou o terceiro filho, preciso esperar a morte de Djedef-re e depois a de Chephren, para só então subir até lá. E isso se ambos morrerem sem filhos.

- Pode acontecer.

- Por favor, não me perturbe! Já deveria dar-me por satisfeito porque, mesmo sendo desnecessário ao trono, o velho miserável não exig. -minha companhia até o mundo dos mortos. O pai dele, o primein» Snefru, deixou apenas ele fora da tumba por se tratar do sucessor.

- Se algum dia quiser associar-se a mim, ambos nos elevaremos o topo deste império.

Ele se foi sem dar resposta.

Kyia ficou em silêncio. Respirava regularmente e a expressão a: rosto traduzia imensa serenidade. Haemon esperou. A viajante começou a se tornar ofegante.

- O que aconteceu?

- Imagina só, o faraó morreu. Morte estranha e inesperada. Di: a boca pequena que foi assassinado pelo irmão Chephren.

- E isso procede?

- Sim. Foi uma trama em conjunto com Nágila, que na verdade sua mãe.

- E ele sabe disso?

- Que ela matou o faraó, sim; que é sua mãe, não.

- Nágila matou Djedef-re para elevar seu filho Chephren ao do Egito?

- Exatamente. Pobre Kenefer, não morra.

- Você o chama de Kenefer?

- Pois é assim que vejo Djedef-re; como o meu querido Ke Ela o matou.
E teve ajuda de Snefru?

- Não, ele nada sabe disso. Foi Nágila, pactuada com Chephren.

- Como foi morto?

- Não sei, talvez com magia.

- Agora Chephren sobe ao trono?

- É o que manda a sucessão. E a festa é grande e farta, todos estão pelas ruas comendo e bebendo. Lindas dançarinas e músicos orientais foram contratados. É um grande dia para Chephren; ele se torna soberano de todo o impérió.

Conversando com Haemon, Kyia foi se lembrando do que estava guardado em seu ser. Chephren, que era uma vivência antiga de Hakor, havia tomado por esposa sua irmã Khamerernebti I, com quem tivera Miquerinos, que o sucedería no trono. Também se casara com Meresankh II, sua outra irmã. As esposas do soberano foram rapidamente reconhecidas como Nefertari e sua irmã gêmea Netikerty, morta em tenra idade.

- E Snefru, subiu ao trono?

- Chephren reinou por mais de vinte anos e foi sucedido por Menkau-re, ou Miquerinos. Snefru nunca subiu ao trono. Era um covarde, bem mereceu o fim que teve.

- E qual foi esse fim?

- Morreu berrando feito um porco depois de ingerir o preparado de Apepe.

- Apepe?

- Sim, Apepe. Parece que tem outro nome, mas é sempre o fazedor de venenos para Chephren, Menkau-re, Amenhotep, Ramsés e tantos outros. Só trocava o nome e a vestimenta para se esconder de suas vítimas; continuava sendo o mesmo inventor da morte.

- Por que Apepe matou Snefru?

- Por ordem do faraó. Louco, Khaf-re matou os irmãos e tomou por esposas as irmãs. Considera-se um ser superior a eles; em sua cabeça os irmãos são pouco mais que animais irracionais e estupidamente imbecis, os quais tem todo o direito de tirar de seu caminho. Khaf-re afirma ter vindo diretamente do céu para governar a Terra. Diz que é o próprio Deus encarnado para ser soberano; que tem lembrança de deixar seu mundo de delícias para vir morar neste lugar retrógrado apenas para governar. Para retribuir esse sacrifício, todos deveriam sacrificar-se por ele. Khaf-re é mau, tal como seu pai. É mau, esse arrogante. Como pode se achar um Deus? Ser abjeto e asqueroso!

- Conhece Khaf-re pessoalmente?

- Sim. Ele vem ao templo se consultar, como todos da família real. Não gosto quando vem; causa-me supremo mal-estar. Sempre chega acompanhado pelo pai.

- Khufu não está morto?

- Sim, morreu e eu mesma vi quando o encerraram na grande pirâmide. Mas misteriosamente anda atrás do filho, dando ordens como se ainda reinasse no Egito. Agarra-se em Nágila e só após muito trabalho deixa a pobre sacerdotisa.

- Sabe onde está o Alef?

- Sim, dentro do falso degrau do altar. O faraó não pode descobrir isso, ou levará o Alef de sua guardiã.

- Por que Nágila é a guardiã?

- Porque lhe foi entregue pelo dono legítimo no momento extremo da morte. Um andarilho hebreu, da tribo de Judá, morria no deserto, vítima de cruel e desumano espancamento. Parece que seus adversários eram os seus compatriotas da tribo de Efraim. Segundo n judeu, seus agressores queriam destruir o Alef que era guardado desde a chegada dos primeiros hebreus. Disse que a preciosidade havia sida salva da destruição pelo próprio Noé, em sua arca, e que não podería deixar que por orgulho os israelitas o destruíssem.

- Sabe o que ele representa?

- Nunca tive acesso a isso.

- Consegue ver a câmara secreta?

- Não existe ainda; nem a esfinge, nem a maior parte do complexo piramidal.

- A sacerdotisa nada lhe revelou?

- Está a variar? Ela morre de medo de ter fim idêntico ao do hei breu. Não sabe como o Egito é cheio de judeus de todas as tribosn Dizem que já morreram mais de vinte guardiães. E seus pares.
Pares?

- Sim, quatro pessoas de confiança absoluta do guardião, que sabem onde está o Alef, embora ignorem do que se trata. No caso de algo acontecer ao guardião, o primeiro par na hierarquia toma o posto e nomeia outro par. Isso tem por finalidade não permitir que o Alef se perca no tempo.

“Pelo jeito não funcionou”, pensou Haemon.

- Quem são os pares de Nágila?

- Pela ordem: eu, minha irmã Shadha, Sobeknefru e Faisal.

- Sobeknefru e Faisal?

- Isso. O primeiro é um sacerdote e o segundo um caçador de feras, vendedor de capas e adornos feitos dos animais. Ambos são da estrita confiança de Nágila.

- E os outros pares?

Demorado silêncio precedeu uma crise de choro convulsivo, e Haemon decidiu chamar a irmã.

- Kyia, no momento em que eu beijar sua testa, quero que volte para o tempo de Hakor de posse de todas as suas lembranças.

Depositou na testa da moça um beijo estalado que a trouxe de volta. Ela abriu os olhos.

- Haemon, algo de muito terrível aconteceu. Estou com medo!

- Nada tema, tudo já passou:

- Não estou conseguindo assimilar tanta informação.

- Pelo menos descobrimos de onde vem a pretensão dos soberanos egípcios de serem deuses. Na verdade, são reminiscências do degredo de um paraíso perdido que os fazem pensar serem deuses vindos direto do “céu” para governar na Terra. Mal sabem que foram degredados porque eram inferiores.

- É muito desagradável de se ver a imagem de Khufu atrelada ao corpo de Khaf-re, como se fossem um só. Por outro lado, conseguimos também descobrir os motivos do fascínio de Hakor pela dançarina, do respeito por você e do desejo de ajudar Kenefer.

- A dificuldade de Nefertari com a gêmea, e a de Hakor com Proteu.
Bem como o seu amor pelos três.

- Percebemos como as sábias leis universais levaram Apepe a provar do seu “próprio veneno” e aproximaram Tula, Sobeknefru e Faisal de você.

- E Proteu? Quando o vi como Snefru II sabia ser ele, porém nada senti. Era como se não fosse Proteu.

- E não era. Proteu agora é outra pessoa. Foi, graças à bondade divina, iniciado no poder de amar. Diga-me, Kyia, quando o viu nesta vida pela primeira vez, sentiu algo além do desejo de subir ao trono egípcio?

- Não. O primeiro momento de ternura se deu quando cuidava dele em minha casa; quer dizer, na casa de Kenefer. Ver toda aquela fortaleza à minha mercê, aquele gigante tombado e dependente, sentindo dores cruciantes, encheu meu coração de compaixão. Eu desejei ardentemente tirar seus sofrimentos, desejei inclusive tomá-los para mim. apenas para vê-lo feliz e em paz. Quando ele adormecia eu costumava acariciar seu rosto e o contato de sua pele me dava prazer indefinível. encantador. E no dia em que se foi parecia que tinha levado minha própria alma, visto que não podia nem ao menos me mexer diante da pilha de lenha que ele deixara em seu lugar. Haemon, meu peito parecia estraçalhado, a dor era muito física, entende?

- Sim, é compreensível. Não sou imune aos sentimentos humanos: por vezes chego a sentir essa dor.

- Acha que foi o fato de o sentir vulnerável como estava que me fez amá-lo tão profundamente?

- Acredito que o plano maior era despertar em vocês um bom sentimento, e o melhor jeito de fazê-lo é justamente este: um nascer como homem e o outro como mulher. E para acelerar o processo, o ato de cuidar e ser cuidado desperta em um a compaixão e no outro a gratidão, duas emoções maravilhosas que, com a mistura dos sexos opostos, resultam no sentimento primitivo que evoluirá com certeza para o amor universal.

- Haemon, o amor universal é como o que sinto por você, Kenetes, Nyla,Tula?... Ou o que sinto por Proteu?

- E a mistura de todos eles direcionada a todas as pessoas de maneira uniforme e intensa.

- Mas isso é possível?

- Sim. Por enquanto ainda não é para a maioria, porém posso assegurar que muitos amam assim. - Quem são essas pessoas?

- Não as conheço por nomes, pois para aqueles a quem me refiro isso não tem o menor significado. Digo-lhe, entretanto, minha irmã Kyia, que a Grande Estrela e seus servidores mais próximos amam assim, razão pela qual são felizes como todo ser supremo é, visto ser esse o prêmio por seguir no bem. O maior prêmio almejado por qualquer ser humano não é reinar sobre os outros, nem morar em palácios, nem possuir toda a riqueza guardada nas pirâmides. Tudo que todos desejam é felicidade, e esse prêmio é ofertado àqueles que seguiram no bem. O sol se punha na necrópole. O sábio enlaçou a discípula pela cintura e caminharam para o merecido repouso. Ainda estava escuro quando Haemon despertou. Sozinho, deitado de braços abertos, mirou o firmamento cintilante como pérolas e elevou o pensamento às potências superiores. Lembrou-se de Hakor. O que diria o soberano se o visse em oração, voltado para o céu, sem a presença do sol? “Oh, grande Deus do universo! Mal sabem os egípcios que os raios
do sol, embora magnificentes, ofuscam o brilho de tão belos astros que o Senhor colocou caprichosamente no céu para nos servirem de lares. E ao olhar para esse misterioso amontoado de joias preciosíssimas temos uma pequena amostra de sua grandeza.”

Contemplando a beleza espetacular do céu, adormeceu novamente e visualizou sua protetora. - Amiga! Sinto saudade de casa! - Aguarde, confie e trabalhe! Sua hora se anuncia em um horizonte iluminado. - Eu desejo o trabalho, desejo reencaminhar meus queridos irmãos. - Para isso, querido amigo, deve recomeçar no ponto exato em que os desvirtuou. Quando dotado do poder de Quéops, plantou em seus corações a semente da discórdia, da ganância e do egoísmo superlativo que os domina há 2 mil anos.
- Conhece o tamanho de meu arrependimento.

- Sim, e de seu esforço para reparar as coisas. Graças à sua im venção, Kenefer se encontra no palácio tomando todas as decisões ( Hakor lhe delega. É uma forma de devolver ao irmão a experiência £ o impediu de realizar quando, como Chephren, assassinou Djeder-re impediu de cumprir a prova do poder. Cada detalhe do passado que *.9 à tona lhe mostra o que deve fazer no presente para encaminhar 9 amigos rumo ao advento da Grande Estrela, que está sendo prepararia muitos séculos. Cuide do solo de seus corações de modo a que, quaa ele chegar, o terreno antes pedregoso esteja fértil para a grande serr.sil ra do amor; para a revelação de Deus como Pai amoroso, e não com mundo hoje o vê; e para a compreensão de todos os povos como ir

Capítulo 26

A Haemon acordou com crianças nuas a chamá-lo. Já fazia parte da rotina do bom sábio fazer o desjejum para os pequenos que viviam na região. Enquanto dividia o pão e uma espécie de polenta feita das sementes de sésamo, ele contava uma história. Seu repertório era tão vasto que até a ele próprio impressionava; nunca repetia nenhuma. Naquele dia, começou contando assim:

- Era uma vez, em um lugar muito, muito distante, um rei que tinha três filhos e uma filha muito amados. O primeiro era um de seus ministros e o ajudava a governar aquele reino; o segundo vivia a ofertar-lhe os mais belos presentes; o terceiro cuidava de seus cabelos, de sua pele e de sua aparência para cada compromisso a que ele precisava comparecer. Mas a filha, criatura linda, delicada, bondosa e suavemente perfumada, era a companhia diuturna do rei. Só sua presença o fazia sorrir e ser infinitamente feliz; para o soberano a moça significava toda a alegria. Ele costumava caminhar de mãos dadas com a princesinha, pelos jardins do palácio, cheio de orgulho e contentamento. Um dia uma doença misteriosa roubou a filha do rei e ele se tornou amargo e alheio a tudo. O primeiro filho se empenhava na administração do reino para tentar alegrar o rei, que nem se importava e ainda o maltratava. Este, desgostoso, abandonou o trabalho. O segundo filho oferecia ao rei as mais preciosas joias e as mais belas peles, cavalos de raça e festas maravilhosas; ele se mantinha impassível, nada o fazia sorrir. O segundo filho acabou por desistir e não mais lhe trouxe nenhum presente. O terceiro filho tentava lavar e perfumar seus cabelos e tratar sua pele com os cosméticos mais finos de todo o reino; o rei nem mesmo ouvia o que o filho falava. Este também se revoltou e foi embora do palácio. Eia» então o rei sozinho e triste e foi definhando, definhando até morrer de tristeza e dor.

- Pobre rei! - lastimou uma das crianças. - Por que ele não ficoo feliz com os outros filhos?

- Porque os filhos a que a história se refere não são realmenar filhos de sangue. O primeiro representa a saúde, que nos ajuda a trabalhar; o segundo, a riqueza que nos provê do que é necessário e do cue queremos apenas por vaidade; o terceiro corresponde à beleza física; e a quarta, ao amor. Se não temos o dom do amor, nada mais nos interessa nem nos faz felizes. Somente o amor nos dá a felicidade sonhada ea todos os estágios de nossa vivência. Por isso, amiguinhos, é importanac que tenhamos saúde e recursos, e a beleza é sempre agradável aos olho^ mas se não tivermos amor com certeza perderemos os demais atribuMÉ que julgamos serem a razão da felicidade humana. Saúde, posses e beleza sem amor de nada nos valem.

- Eu gosto de você, Haemon! - declarou um menino de boca chea que parecia falar dentro de uma caverna, pois sua voz produzia ecos diversos. Toda a turma se jogou sobre o sábio e um coro de gargalhada se fez no deserto. As sobras dos alimentos ele ainda dividiu entre a pequenos, que as levaram para casa.

Seu sorriso sincero, quase transcendental, provava a veracidade □ conto que acabara de narrar: só o amor traz felicidade.

- Eu concordo com ele - disse Proteu num sussurro ao ouvido : Kyia, que sorriu feliz. Pelo menos naquele momento sua felicidade a completa.

O casal, que acompanhara um pouco afastado, aproximou-se ; sábio.

- Irmãos! Estão aqui há muito tempo?

- O bastante para aprender com as crianças a importância do am

- Num dia não muito distante virá aquele que saberá falar do arr por possuí-lo em sua essência, por estar falando de si próprio. Esc* que eu possa estar preparando vocês para esse dia.

- Fala da Grande Estrela?
- Sim.

- Mas você me disse que ele deve demorar uns quatro séculos... Como fala em dia não muito distante?

- Kyia, mesmo fazendo essas viagens até 2 mil anos atrás, não percebe quão rápido o tempo passa? Lembra-se de Nágila e de viver em seu templo, e isso nem parece tão distante assim.

- Tem razão, meu amado amigo. O tempo é muito relativo para quem tem a eternidade para viver, morrer e renascer. E por falar em viagens, vamos viajar?

A terceira viagem levou Kyia de volta ao templo perdido de Nágila em plena construção da câmara secreta sobre ele. Segundo Chephren, seria uma câmara funerária para a sacerdotisa e seus ajudantes, as irmãs e o caçador de feras também pertencente à família. O faraó ressaltava que fazia aquilo em agradecimento por ela ter-lhe “dado” o trono do Egito. Quando estivesse pronta a câmara mortuária da amiga, que ele ainda ignorava ser sua mãe biológica, começaria então a própria, que nada deixaria a desejar diante da de seu pai.

- Reconhece o local como a câmara secreta?

— Sim, é ela! Mas que estranho... Ele manda esculpir os nichos e depois os camufla.

- Por que faz isso?

- Se a câmara era para os habitantes do templo, bastariam quatro nichos; por que ele faz muito mais que isso?

- Quantos?

- Não sei quantos estão camuflados, impossível contar. Pelo jeito ele pretende matar um bocado de gente.

- Sabe o que pretende?

- Sei. Pegar o Alef e matar todos que sabem de seu segredo e desejam usurpar-lhe o trono.

- E como sabe de tudo isso?

- Eu me associei a Chephren.

- Não foi a Proteu?

- Achei que seria mais vantajoso unir-me ao faraó.

- E foi?
Não.

- Pode contar o que aconteceu?

- Procurei por Snefru II e lhe propus uma sociedade vantajosa para nós dois. Ele se tornaria o faraó e se casaria comigo para que eu me tornasse a rainha. Aceita a proposta, contei-lhe sobre a origem do irmã: e a manobra assassina de sua verdadeira mãe para elevá-lo ao trona. Sendo filho bastardo, Chephren não poderia ter sucedido Djedef-rc; I esse direito seria de Snefru, que de imediato chamou o irmão e expôs : que descobrira, apenas protegendo o nome da sacerdotisa. Anunciou ser ele o verdadeiro herdeiro e exigiu sua renúncia imediata. O faraó, clamd recusou e ainda o ameaçou de morte. Snefru II fingiu partir do Egitn

e manteve-se incógnito planejando a tomada do poder. Com retóncal invejável e poder de liderança, o príncipe conquistou grande parte ão exército egípcio, que pelas promessas do terceiro filho de Khufu concordaram em lutar a seu favor numa guerra contra o irmão. Na sombea de uma noite morna, Snefru II apareceu sob minha janela e contou-zoe , seu plano de invasão do palácio. Ele quer dormir comigo.

- Não, não posso! Sou uma serviçal da semideusa. Só domurss i

com você quando for o faraó e eu sua rainha. I

Kyia emudeceu.

- O que está acontecendo?

- Não tenho paz. Khufu passa o dia todo à minha volta. Diz ; jc somos iguais, que temos sede de poder e sangue.

- E é verdade?

- De que outro modo ele estaria junto a mim? Somos iguais, e seremos totalmente quando eu for a rainha.

- O que Khufu lhe propõe?

- Que eu seja uma das rainhas de Chephren. Se ele já está no argumenta, por que esperar uma luta de Snefru II que pode dar em naàfl Ou, pior, num morticínio sem precedentes? Ele tem razão. Vou asscoaaf -me ao filho certo. O favorito de Khufu. O filho de Nágila. EsparS® faraó visitar o templo, com suas irmãs e esposas, e reverente o aborcez I

- Grande Deus! Tenho informação que pode salvar sua vida no trono do Egito.
Por que devo acreditar?

- Porque sabe que seu irmão Djedef-re foi morto para lhe dar o lugar e que outro irmão pode pensar igual ao senhor. São tantos!

- Snefru, presumo, está morto, posto que nunca mais apareceu. Seria o irmão imediatamente abaixo dele?

- Não. Este deixaria que ele tomasse o poder para matá-lo; seria mais inteligente.

- Snefru está vivo?

- Sim. E planeja tomar o poder usando de força.

- Pode dizer como, quando e onde?

- Depende!

- Do quê?

- De eu poder ser a terceira rainha.

- E inclui nesse caso a informação de onde se encontra o Alef?

Ela pensou que seria a próxima guardiã. Valéria a pena arriscar

tanto?

- Eu lhe dou o Alef no dia do casamento.

- Feito. Uma rainha a mais ou a menos...

Os olhos das rainhas pareceram alvejar a rival.

- Então?

- Contei a Chephren tudo que sabia, omitindo unicamente o nome de sua genitora; mas fui ingênua o suficiente para me mostrar informada em dados muito minuciosos, o que fez o arguto faraó descobrir que fora eu a delatar os segredos de sua origem para Snefru II. Esperto como um felino, não se mostrou desconfiado e com certeza mandou fazer na câmara secreta um nicho para mim.

- Deus!

- Isso mesmo. Um deus era o que ele achava ser, para decidir entre a vida e a morte de tantas pessoas.

- E o que sucedeu depois?

- Snefru II trouxe-me um presente bonito. Um bracelete com bela águia em baixo relevo. Pobre sócio, confia em mim; me chama de sua rainha e quer dormir comigo. Disse que eu sou bonita... Eu lhe permiti dormir comigo; transgredi as leis do templo para obedecer ao faraó.

Chephren ordenou que o deixasse passar a noite em meus aposentos, enquanto o seu exército, liderado por Péricles, aniquilava o de Snefru I em um ataque surpresa.

- Péricles?

- Ele mesmo, corroído de inveja por não ter sido convidado pel herdeiro a participar do golpe. Agora vejo a câmara pronta e vária pessoas palestrando animadamente. Apepe, solícito, serve bebida exóticas a todos.

- Você está na câmara?

- Não, estou em uma estalagem; Snefru dorme tranquilo ao me lado. Minha irmã Shadha, ofegante, bate desesperadamente em mi nha porta. Ingênua, pede-me que interceda junto a meu prometí Chephren para que não mate a sacerdotisa e os pares masculinos.

- Eles se encontram agora na câmara funerária tomando be! ragens preparadas por Apepe. Vão morrer. E quanto ao templo? E Alef? - Shadha falava a custo.

- Como sabe disso?

- Um comandante do faraó me avisou que fugisse hoje desse 1< e aguardasse a sua volta nas choças às margens do Nilo; ele me le\ para longe. Enamorou-se de mim, o pobre Péricles; porém, por sa minha vida, ela passa a lhe pertencer.

- Sabe que o alquimista de Chephren...

— Ele morrerá hoje também.

- Snefru, ajude-me a fazer algo! Podemos ameaçar contar o se do do faraó, o que pelo menos nos dará algum tempo. Se morrere guardião e dois dos pares, o Alef correrá perigo ímpar.

Kyia parou de falar abruptamente.

- Kyia?

- Não! Não posso mais chegar perto disso! Sinto que estou minhas últimas horas. Estou a pouco tempo de minha morte viole

O corpo da moça suava e se agitava tanto que para evitar qi machucasse Haemon pediu a Proteu que a amparasse nos braços e jou sua testa de maneira sonora.
Ela despertou e chorou por muito tempo. Depois, olhando para o rosto do marido, disse sufocada:

- Perdoe-me, Proteu! Agora sabe por que eu lhe provocava a sensação de perigo e traição. Eu o traí levianamente, entreguei você para Hakor.

- Acalme-se, minha rainha. Isso foi há dois milênios, já deu tempo de esquecer - falou beijando seus cabelos.

- Por hoje chega. As próximas revelações, ao que parece, serão o decesso de vocês. Vamos recarregar nossas energias com orações ao Senhor dos mundos e nos preparar para essas emoções.

Pelo resto do dia eles descansaram. Kyia, aproveitando a concessão dada por Hakor a Proteu, andou pelo interior da grande pirâmide de Khufu. Usou a entrada ao norte e viu os blocos de granito que selavam o acesso à área superior amontoados e a passagem livre. Contudo, optou pelo caminho descendente de acesso à câmara subterrânea. Voltando por rota diferente, visitou a grande galeria e as câmaras da rainha e do rei. Podería ficar para sempre visitando o gigantesco local, porém no fim do dia estava entregue à exaustão. De qualquer modo, sentia-se satisfeita com a excursão. Olhar para as tumbas e pensar que conhecera as pessoas encerradas ali há tantos anos era uma experiência no mínimo inusitada.

Haemon tirou o dia para refletir. De acordo com as lembranças de Kyia, era parcialmente culpado de muitos desajustes atuais. Proteu, por exemplo, parecia alguém pacífico que ele, ao começar uma guerra familiar pela sucessão ao trono, através de processo obsessivo, despertara para a belicosidade que o seguira até o presente. A obcecação de Kyia por ser rainha fora incitada por ele. Deus! Havia contribuído para uma estagnação de 2 mil anos na evolução daquele grupo. O Egito deveria ter sido governado por Djedef-re, que apesar de não ser ainda tão benevolente, era o mais piedoso de seus filhos. Assim não teria havido aquela guerra fratricida pelo trono. Olhando para o complexo piramidal, pensou:

“Como seria esta necrópole hoje se Djedef-re tivesse governado e um filho dele o sucedido? O que mudaria na história se Quéfren e Miquerinos nunca houvessem governado o Egito?”
- Sossegue seu coração, Haemon! - era a voz da entidade com aparência feminina que o tutelava. - Nossos erros são sempre aproveitados em nosso próprio benefício. Quase nunca deixamos a vida correr da maneira que planejamos antes da incursão carnal; estamos sempre i mudar nossos planos, desviar nossos rumos e os de nossos companheiros. Entretanto, a cada escorregada nossa a misericórdia divina junn os cacos do que quebramos e monta outro roteiro, o qual, mesmo que não seja o mais indicado, ajuda-nos na medida do possível. Não estamos jogados ao acaso, estamos cuidados! A belicosidade e a violência de Proteu podem ter sido despertadas por uma sugestão infeliz sud quando Khufu; mas você só despertou o que já existia nele e que cabe a ele trabalhar. Isso também vale para a ganância de Kyia e de seis outros filhos biológicos da época. Não obstante, olhe para o que tefli feito atualmente por eles! Todos tiveram ou têm seus conselhos e sesi apoio incondicional quando dispostos a acertar. Hakor governou coHj sua tutela e Kenefer, através de você, recupera agora o lugar que é dãt, Kyia já não pensa em ser rainha, e só poderá vir a ser se estiver presa para tal prova. E normalmente quando estamos prontos para reims c que não mais desejamos esse poder. Veja Kenefer: nem morar no r ü-cio como escriba ele quis; precisamos de uma manobra perfeita para colocá-lo. Proteu terá seus dias de luta e consequentemente seus dias dfc paz. Quando seu dom de amar for maior, ele não suportará mais n « em guerra. Lembre-se de que cada um tem o seu tempo, e se Khufu team acesso a esse grupo foi por serem compatíveis. Dois mil anos separam. Amonet, você, Afra, Kenefer e tantos outros optaram por ses o bem. Não se culpe pelas escolhas dos outros; trabalhe em prol de redenção, sem se julgar o motivo de eles terem ficado para trás.

- Obrigado, amiga! Suas palavras sempre me reanimam e cob lam. Sinto saudade de vocês.

- Breve estaremos juntos, como família que somos! Reunidos r a grande viagem de volta.

- Eu aguardo com fervor.

A entidade sublime pareceu desfazer-se a seus olhos e ele. a tindo intraduzível bem-estar, rumou para seu aposento que já esta coberto pelas telhas de Kyia. Antes de entrar no cômodo, mirou o céu e suspirou estremecido. “Minha casa, que saudade de casa!” Sentiu que se pudesse deixar ali mesmo aquele corpo pesado e alçar voo para a sua estrela natal seria muito feliz, extremamente feliz, irremediavelmente feliz! Em diferente ponto do deserto, outro par de olhos mirava as mesmas estrelas e partilhava igual sentimento. Amonet, deitada no chão de seu templo sem teto, curtia no âmago a saudade daquilo que imaginava nunca ter visto.

Capítulo 27

A manhã já começara quente demais. Proteu e Kyia chegaram à câmara secreta e Haemon não estava. De um salto o mercenário saiu correndo.

- Não posso ficar aqui sozinho com você, Kyia; menos ainda usando esse bracelete.

- Não deixarei de usar este bracelete, presente que você me fez » duas vezes. Não se preocupe com os pesadelos, Proteu. Acho que essa cena que o atormenta já aconteceu há 2 mil anos. E' passado e não futuro.

- Por que pensa assim?

- Porque naquele tempo você tinha motivos para me matar, não os tem mais. Não desejo ser rainha de mais nada, a não ser de seus pensarnentos, e afirmo-lhe com toda a convicção que a experiência própria me concede: o maior risco para mim é estar longe de você. Nunca mais se afaste como fez em Tebas; nunca mais me prive da presença da soa mais importante que existe para mim. Sei o que digo. Eu esthr 18 na época de Khufu e Khaf-re, eu revivi as redes de intrigas tecidas mim, recordei o quanto fui leviana com você, e com seus irmãos. Se estes seus pesadelos são reais, são lembranças de um passado e não pressiagio pois, como ensina Haemon, quanto mais vivemos, melhores podem nos tornando. A cada dia que passar gostará mais de mim e eu de não poderei fazer nada que o incite a matar-me.

- Ela está certa, irmão. Embora nada seja motivo para se tirar a vida de uma pessoa, naquela época até se entenderia se atentasse Kyia. Não hoje. Hoje eu sei, sabia antes de você, que tem amor por ela

- Não é verdade, Haemon? - O sábio havia chegado e se juntado aos companheiros. - Eu joguei muito sujo e ele nem tinha amor por mim.

Exatamente. Mas para acabar com esse tormento vamos voltar até lá uma última vez. Veremos o que aconteceu nesta câmara há tanto tempo e para onde foi levado o Alef. Então, queridos, poderemos voltar para Tebas e viver em paz.

- Não vejo a hora de tudo isto acabar.

- Eu também, meus filhos. Eu também.

- Haemon, não está pensando em nos deixar depois de resolvidos os mistérios, está?

- O que o faz pensar assim, irmão?

- Não sei. Às vezes penso que você não é para nós. Que não pertence a este mundo, sei lá. E como se estivesse de passagem por aqui, para logo nos deixar.

- Na verdade, meus queridos, ninguém é deste mundo. Nós todos estamos aqui com um único propósito: voltar para casa.

- Mas por que sentimos que você está de partida?

- Porque talvez esteja.

— Eu não quero que nos deixe.

- Isso não é a mesma coisa.

- Como assim?

- Posso me soltar das amarras que me jungem, sem ter necessariamente de deixá-los em definitivo. Acredito que as forças superiores do universo promovem encontros para aqueles que se amam e se veem momentaneamente apartados.

Emocionado, o guerreiro abraçou o irmão e entraram na câmara. Proteu manifestou o desejo de tentar novamente a regressão. Precisava “ver” o seu pesadelo para ter certeza de que já acontecera. Haemon concordou. Quem sabe poderia encontrar o motivo de sua tristeza indecifrável e dos males gastrintestinais, bem como poupar Kyia da terrível cena desenrolada na câmara que ela resistia em rever.

Assim o sábio iniciou o árduo trabalho com o irmão mais moço, cuja trajetória até o dia da inauguração da câmara secreta era um roteiro de violência e terror. Dificilmente passava uma encarnação sem viven-ciar a guerra. Ele se recordou de estar em muitas ocasiões associado a Kyia em falcatruas das mais variadas, roubos espetaculares e sequestros.

de pessoas para o comércio da escravidão infame. Ao final de cada empreitada, sempre havia discussão e agressão física, de que a parte mais frágil saía com algumas costelas quebradas e um lucro superior ao c: agressor. Mas mesmo ele sendo sempre prejudicado, ambos continuavam sócios nos mais diversos embustes e fraudes.

Uma lembrança o impressionou de forma particular. Viu-se entrar em uma celebração bárbara que, a despeito de não se assemelhar a nada que conhecesse, era sem dúvida um ritual preparativo pan uma boda. A nubente, pouco mais que uma criança, estava deitara., trêmula e nua, numa espécie de altar onde o sacerdote, munido de objeto pontiagudo de dois gumes, falava em idioma desconhecic.au Ao perceber que se tratava de ritual de hedionda mutilação, resolver roubar a nubente. Não por compaixão, e sim por pena de estragare— tão bela “mercadoria”; aquela moçoila poderia render-lhe bom lu. na corte do faraó. Dono de força descomunal, deixou o sacerd desacordado e desamarrou a menina. Segurando-a com apenas i braço, usava o outro e as pernas para pôr para dormir quem se arcasse a resgatar a noiva. Jogou-a sobre seu cavalo e sumiu em m< às areias do Saara.

- Foi a primeira vez que viu Nefertari? - perguntou Haemon irmão em transe.

- Sim. Depois fomos irmãos, filhos de Khufu, mas ainda assim não me perdoou.

- Queria ser mutilada?

- Era o costume da tribo; marcava a entrada da menina para a i de adulta. Por mais medo que sentisse, era um dia especial em sua v Fora assim com a mãe, a avó, as tias e as irmãs. Ela estava feliz e eu. < minha ambição, estraguei tudo. Conservei a menina comigo por alí tempo. Ela dava a impressão de que se acostumava à minha compac Imaginava um dia me convencer a levá-la de volta à tribo. Então, um bom preço eu a vendi à corte do faraó e ela nunca mais reton sua tribo e à sua família. Deixou de comer. Morreu jovem, odiand< por tudo que lhe roubei. Na época eu nem me importei, mas agom que lhe devo a família que lhe tirei. Pobre Nefertari, está morta!
- Ninguém morre, irmão! Terá sua chance com Nefertari. Recuemos mais um pouco. Eu preciso que volte à estalagem onde passou a noite ao lado de Kyia enquanto Péricles, a mando de Hakor, aniquilava seu exército. Fixe o momento em que Shadha bate à porta pedindo ajuda para as pessoas na câmara secreta.

- Sim. Ela pede ajuda para os guardiães do Alef e algumas pessoas que se encontram como comensais de Quéfren na câmara secreta.

- Snefru, ajude-me a fazer algo. Podemos ameaçar contar o segredo do faraó, o que pelo menos nos dará algum tempo. Se morrerem o guardião e dois dos pares, o Alef correrá perigo ímpar.

- Que história é essa de Quéfren ser seu prometido?

- É uma longa narrativa que não temos tempo para fazer agora. Vamos até o templo.

“Tomei minhas armas e parti, Kyia pegou uma coisa estranha, parece uma espada curva. Não, é uma ferramenta para agricultura, agora eu sei o que é. Corro pelo deserto e vejo que Kyia vem atrás de mim segurando a ferramenta. Só que não me persegue para matar-me, como imaginei; ela corre para alcançar-me.”

- Continue, Proteu! O que fazem agora? Entram na câmara?

- Não! Entramos no pavimento inferior do templo. Meu Deus! O altar do Alef inteiro e reluzente... E lindo!

- Quem vocês encontram aí?

- Chephren! Ele está no altar, imponente como um deus! Vestido de branco e dourado e coberto de joias. Usa um nemes listrado e uma barba postiça.

- Irmão! Que surpresa, minha terceira esposa! O que fazem juntos?

Ao olhar inquisidor de Snefru, Hanifah tentou falar.

- Snefru, por favor, eu posso explicar.

- Pode explicar? Existe explicação para uma serviçal do templo que passa a noite comigo e é esposa do faraó, que por sinal é meu irmão?

- Irmãozinho, deixe-me explicar! Minha terceira esposa Hanifah, como boa e fiel esposa, não cometeu nenhuma traição para comigo. Apenas distraiu meu inimigo com seus dotes femininos para que meu exército atacasse e destruísse o dele no deserto, o que a esta altura já
deve ter sido feito. Achou mesmo que um paspalho como você poderii montar exércitos contra o grande deus Khaf-re?

O corpo do mercenário grego era sacudido por espasmos. Parecia reter um pranto tempestuoso.

- E o que vai fazer, Khaf-re? Por que vai matar todas aquelas pessoas?

- Minha amada terceira esposa Hanifah, diga-me agora onde está o Alef. Hoje é o dia de nosso casamento; já foi até apresentada com: esposa a um membro da família, meu irmão Snefru II!

Hanifah caminhou até o quarto degrau e o abriu como se fosse um baú. Dentro dele se achava um embrulho roliço; deve ser algo cilíndrico, envolto em couro animal e amarrado com tiras também de couro. O Alef tinha mais ou menos 80 centímetros de comprimento e aproximadamente 50 de diâmetro, Khaf-re tomou a relíquia e alojou-i embaixo do braço.

- Por que vai matar todas aquelas pessoas?

- Porque sabem de meu segredo. Não posso dormir em paz alguém que conhece minha origem respirar. Vamos até a câmara rr tuária para que veja o tamanho do meu poder.

Khaf-re subiu elegantemente a rampa que dava acesso à cân secreta acompanhado de Apepe, Snefru e Hanifah. O espetáculo aterrador: muitos corpos ao chão, de rosto azulado e expressão de p: co estampada em rostos mortos.

- Estão todos mortos!

- Oh! Mesmo? E eu estou em paz. Ninguém mais sabe que sou lho ilegítimo de Khufu, com exceção de vocês dois. Como são de m família, sei que guardarão segredo. Brindemos a isto.

A tensão na câmara era crescente. Sabiam que estavam em c bamba. Por outro lado, se não enrolassem o grande rei, seria o mesmo

que assinarem a própria sentença de morte.

- Como saber se não vai nos envenenar? - Snefru pergu timidamente.

- Farei como se vocês fossem os reis; provarei o cálice dos antes que o sorvam. Aceitam o brinde assim?

Nesse caso, sim.

Tomou três cálices das mãos de Apepe e bebeu um grande gole de um deles, que entregou a Hanifah dizendo:

- As rainhas primeiro!

Sorveu grande quantidade do líquido contido no segundo e pas-sou-o ao irmão. Depois elevou o terceiro e exclamou:

- Saúde ao grande Khaf-re! Viva a quarta dinastia egípcia de deuses de carne e osso! >

Os outros tocaram seus cálices no do faraó e beberam de um só gole. Então, cruzando os braços sobre o peito numa posição de múmia, Khaf-re falou cinicamente:

- Boa viagem, amigos!

- Como assim?

- Vocês são ingênuos e crédulos. Um homem cretino como você nunca poderia governar nem um palmo de areia. Acha que deixaria vocês dois sobreviverem sabendo que sou filho de uma rameira? Provei seus cálices e, enquanto os oferecia a vocês, com o polegar abria a pedra talsa de meu anel onde se encerra o reservatório de veneno. Os olhos são infinitamente mais lentos que as mãos. Estão envenenados, queridos. O veneno de minha esposa querida é rápido e fulminante. Já o seu, irmãozinho, fará efeito lentamente. Vai sofrer tanto que implorará que eu o mate. Olhe para o chão: alguns de nossos irmãos, os mais ambiciosos, também estão aqui. E a múmia do primogênito será igualmente removida para junto de vocês.

A boca de Snefru começou a arder e queimar, tanto quanto o esôfago, o estômago e todo o abdome, como se estivessem incendiados. A dor cruciante era enlouquecedora. Hanifah reuniu suas últimas forças para avançar sobre o faraó com a ferramenta acima da cabeça, o bracele-te a brilhar. No entanto, não conseguiu dar mais que dois passos e parou em frente a Snefru, aniquilada.

- E a cena dos meus pesadelos. A impressão que tenho é de que estava para desferir o golpe em mim. Ao contrário, ela tentava chegar até Khaf-re.

- Então você tirou a arma dela?
Sim. Antes que caísse ao chão com o rosto azul pelo tóxico, eu lhe tirei a arma e, quase cego pela dor, golpeei Apepe, que estava atrás dela, na altura da garganta.

Fez-se silêncio.

- E então, Proteu?

- Ele está morto, sangrando aos borbotões, e Kyia também morreu.

- E quanto a Khaf-re?

- Sorri de minha agonia, segurando o Alef sob o braço. Aí eu resolvo que posso ser cruel em meu último momento e digo quase sem forças:

- Sua mãe não é a minha, e também não foi uma rameira como acredita. Sua mãe, aquela que lhe deu a vida, deu-lhe além disso o trono do Egito e você a matou. É filho de nosso pai com Nágila. Espero que viva o resto de seus dias a reinar sobre o seu remorso, bastardo desgraçado!

Antes de cair em um vácuo que parecia infinito, pude ver o desespero de Khaf-re, chorando alto abraçado ao Alef.

- Pode imaginar o que ele fez com o Alef?

- Não. Estou prestes a perder a consciência; sinto dores infernais e de minha boca o sangue jorra vivo e quente.

O corpo de Proteu tremia como em uma crise epiléptica, e Haemc r. decidiu trazê-lo de volta. O irmão já havia descoberto o que lhes era útil: o Alef fora levado junto de Khaf-re quando ele já estava morto; não fazia sentido deixá-lo sofrer tudo aquilo de novo.

- Proteu, quando eu beijar sua testa, quero que volte ao tempo de Hakor, para mim e para Kyia, conservando todas as informações que conseguiu.

Ao receber o beijo do irmão o mercenário abriu os olhos assustados, como quem acorda de um pesadelo, e chorando qual criança se jogou nos braços dele.

Após um tempo do qual Proteu precisou para se acalmar, iniciararz o diálogo sobre a experiência que acabavam de reviver.

- Sei que a cena terrível que persegue não é futuro, tampouco passado. Foi uma mistura de imagens confusas que davam a entender tuõs de maneira diversa. O golpe foi para Apepe e não para você. Nudci.

vou matá-la, e nunca a matei; creio mesmo que me apaixonei por você naquele templo.

- O que não o impediu de me quebrar alguns dentes e costelas.

- Pode me desculpar? Até hoje, 2 mil anos depois, não aprendi a conviver com a força física. Machuquei-a em Tebas e quase arranquei o rosto de Kenefer.

- Está certo.

- Importa também que você, sabendo enfim de onde vêm seus males gastrintestinais, deixe que passem junto com o tempo que os separa de seu corpo atual.

- Acreditaria se eu lhe dissesse que já me sinto bem melhor?

- Sim. Era de se esperar. Sanada a causa, desaparece o efeito.

- E quanto ao Alef? Não temos ainda a informação de seu paradeiro; não podemos encerrar as viagens.

- O Alef foi entregue a Khaf-re por Hanifah e em seguida esta morreu, assim como todos os que estavam no templo, com exceção dele. Logo, só uma pessoa pode descobrir, através de regressão, onde o Alef foi escondido.

- Hakor!

- Exatamente. Preciso voltar a Tebas e convencer o faraó a se submeter a isso.

- Podemos todos viajar para Tebas.

- Kyia desistiu realmente de ser rainha, não é?

- Proteu! Por nada eu me associaria a Hakor.

- Irmão, as informações que possui são para ajudá-lo a viver melhor, e não o contrário. Tudo que sucedeu naquela época pertence a vocês naquela época, à evolução que tinham lá. Hoje são pessoas diferentes. Não é admissível que cometam os mesmos atos.

- Desculpe-me, Kyia!

- Eu entendo que estamos muito deslumbrados com o que temos constatado. Entretanto, algo me intriga: os nomes das múmias aqui sepultadas não são os que descobrimos.

- Não acredito que Khaf-re gostaria de ter os nomes de tantos membros da família real talhados em uma câmara tão pequena e, para piorar, mortos no mesmo dia. Ele não estava disposto a dividir mais nenhum segredo e ter de continuar matando pessoalmente, já que nisso seu braço direito havia sido decepado.

- Acha então que ele mandou talhar os nomes falsos aos pés das múmias?

- Sim. Todavia, de acordo com as antigas crenças, o nome do morto deve estar escrito corretamente para que os espíritos do bem o encontrem e o levem. Portanto, esses nomes devem estar escritos em algum lugar.

- E o fato de cada múmia ter dois nomes grafados não confundirii os espíritos? a

— Não, porque eles consideram o primeiro nome grafado na lápide.

- Ou seja, deve estar embaixo do nome falso.

- Exatamente. Vamos procurar!

Com uma ferramenta dos garimpeiros da necrópole eles começaram a raspar os hieróglifos aos pés dos cadáveres milenares.

- Nágila, Hanifah, Snefru II, Montuhotep e Djeserka, nesta meira parte.

- Amonet, Kyia, Proteu, Sobeknefru e Faisal.

- Djedef-re, Sadha, Katep, Meketre e Adilah, nesta segunda.

- Kenefer,Tula, Péricles, Apepe e Azeneth. Ele matou minha i e seu soldado certamente por nos terem alertado.

- Os outros quatro irmãos assassinados reconhecemos como Nany, Neith e Nyla. Os seis nichos restantes devem ter sido ocup pelos mumificadores dos demais e artesãos que cuidaram desses menores. Somente o último trabalhador, o que lacrou a câmara, está encerrado aqui. Este o faraó deve ter envenenado, com seu? ; mortíferos, em local diverso; a ele pode ter acusado de traição. E a o segredo do faraó permanecería lacrado pelo menos até hoje.

- Meu Deus!

- Eu não aguento mais esta necrópole. Se não pudermos ir Tebas, rumarei para minha casa de Mênfis.

- Acalmem-se! Vamos todos para Tebas. Não adianta pr:> pelo Alef às cegas em meio a areias intermináveis. Reúna as tropas e voltemos para nossas casas, nossas vidas. Hakor tem a informação de que precisamos. De posse dela, viremos para pegar o Alef apenas alguns de nós, sabendo com exatidão onde Khaf-re o escondeu.

- Será que Kenefer me perdoou? Ou terei de apanhar a cada vez que o encontrar pelas ruas?

- Ele já lavou a honra - Haemon disse a sorrir. - De mais a mais, estaremos levando Kyia para nossa casa. De acordo com minha amiga Amonet, vocês estão ligados.

Outra vez Kyia se despediu de seus parentes consanguíneos e seguiu para Tebas. Deixou a olaria para a família cuidar e dela sobreviver. Takelot prometeu cuidar de tudo, garantindo que se um dia regressasse ela ficaria orgulhosa dele e teria seu negócio devolvido.

Capítulo 28

Passados alguns dias a caravana entrava emTebas alta madrugada. Apos repouso merecido os três saíram bem cedo. Haemon e Proteu foram em busca do soberano, enquanto Kyia procurava por Kenefer.

Bonito sorriso iluminou o rosto do escriba ao deparar com a ex--esposa. Kyia estava linda, tinha a pele morena e os cabelos não mais eram naturais.

Uma ternura infinda se apossou da moça, como se fizesse 2 mil anos que não via Kenefer. Ali estava Djedef-re, o filho mais terno do grande Quéops, aquele que a tratava com respeito no templo de Nágila. Ele mesmo a aconselhara certa vez ficar longe do poder, que, segundo afirmara, fedia. Sabia por que o amava tanto. Eram velhc s conhecidos.

- Kenefer! Meu amigo querido!

- Minha querida! Está bem e bela.

- Venho lhe contar que me casei e moro com Proteu em casa ce Haemon.

- Ah! Então a surra que dei nele resolveu. Vai reparar seu erro.

- Sossegue seu bom coração, amigo! Sinto saudade de Nyla.

- Posso deixar que a veja; só peço que não conte quem é. A coita-l dinha chorou por semanas quando você se perdeu no deserto; depois houve toda a confusão no seu regresso e, sem que ela fosse notificada (fa sua volta, você partiu novamente. Hoje a menina se recuperou, chama Afra de mãe e é feliz assim. Não acha que seria cruel se apresentar cornai a mãe que sumiu quando ainda era muito pequena e que agora vch? para tirar dela tudo que julga ser verdade?
Você está certo - admitiu limpando as lágrimas. - Não é justo, não direi que sou sua mãe; apenas me permita ver minha filha.

- Ao fim do expediente, esteja aqui e me acompanhe até minha casa. Poderá ver Afra e as meninas.

Abraçando-o com carinho ela se retirou, lembrando como as filhas de Kenefer a rejeitavam e diziam sempre que ela aparecera para acabar com a família. Na época, por mais que tentasse, não entendia de onde vinha tal afirmação, já que nunca provocara brigas ou qualquer conflito. Entendia agora que as meninas guardavam na memória a imagem de Hanifah a prender os irmãos em uma rede de intrigas que resultara na morte de tantos filhos de Quéops. Compreendia que nada havia que ficasse sem retorno, e que não existiam vítimas inocentes. Como aquelas viagens sofridas e cansativas a tinham ajudado a crescer!

Antes delas, sem se importar se Nyla ficaria feliz ou não, faria questão de contar que era sua mãe; e não só contar, mas impor-se à menina como tal. Naquela tarde, porém, deu-se por satisfeita em ver a bela criança, afagar seus cabelos e ser apresentada como a esposa de um amigo de Kenefer. As duas conversaram animadamente e Afra, apesar do desgosto estampado no rosto das filhas, convidou Kyia para cear. Esta aceitou e lavou as mãos como pediam os costumes judeus, coisa que antes não fazia por querer agredir a primeira esposa do marido. Cerrou os olhos, respeitosa, quando a anfitriã proferiu sua oração e começaram a comer alegremente.

- Afra, você descende de qual das tribos de Israel?

- A família de minha mãe é da tribo de Judá e a do meu pai da tribo de Levi. Logo, eu sou considerada da tribo de Judá, pois para o meu povo o que mais conta é a ascendência materna.

- Tem conhecimento de alguém da tribo de Efraim?

- Não. Dizem inclusive que é uma tribo, se não desaparecida, em via de desaparecer.

- Sendo você da tribo de Judá, sabe o que é o Alef? Sei que não significa só a primeira letra do alfabeto hebraico.

- Existe uma lenda em torno de alguma coisa assim. Mas não passa de lenda.
As lendas têm às vezes um fundo de verdade.

- Talvez... Eu era muito pequena quando ouvi falar no A última vez. Meu pai não gostava que se tocasse nesse assunto e mãe obedecia, como mandam as escrituras.

- Por que essa divergência?

- Como descendente da casa de Levi, meu pai colocava 1 que descendia da mesma tribo, em mais alto grau. E, de acordo lendas, o Alef difama o profeta. Já os da casa de Judá, embora t honrem o nosso enviado, tinham o Alef como preciosidade. A de Israel entraram muitas vezes em conflito por vários motivo: tal Alef seria um deles.

- E sua mãe nem ao menos deu uma pista do que pod sido isso?

- Segundo ela, tratava-se de uma relíquia trazida do jai Éden por ninguém menos que nosso primeiro ancestral, o pai c os homens: Adão, com sua esposa e os filhos.

- Espere! Está dizendo que o Alef é um objeto trazido do

- Mais ou menos isso.

- Preciso contar a Haemon.

- Até ele está envolvido com essas lendas sem cabimento?

- Acredite, Afra, elas têm muito mais cabimento do que supor. É que ao longo do tempo as crenças populares foram m< a história do Alef com informações fictícias e sem fundamei obstante, uma verdade sempre persiste e o Alef está prestes a se encontrado. Meus queridos amigos, obrigada pela hospitalidade; a ce perfeita. Até mais! - saiu em disparada para casa.

- Haemon! - gritou nem bem adentrou a residência.

O sábio, que se encontrava logo à entrada, assustou-se an neira afoita com que ela entrara.

- O que aconteceu? Por que tanta urgência?

- É por causa do paraíso perdido - ou Éden, como ch: judeus.

- Sim?

- Pode alguém vir de lá trazendo um objeto ou coisa que o valha?

- Não acredito que isso seja possível. Cada mundo tem seu tipo próprio de matéria.

- E se, de alguma forma, Adão e Eva conseguiram roubar algo de lá e trazer para cá, essa coisa não poderia ser o Alef?

- Talvez, mas eles não conseguiríam. Kyia, todos que foram expulsos do paraíso não vieram para cá voando ou caindo do céu. Os degredados morreram lá para renascer aqui, numa metempsicose interplanetária, entende? Como poderia um ser trazer um objeto de um mundo e ingressar com ele no corpo de sua mãe?

- Se for assim, então o que Afra sabe é mesmo lenda!

- O que poderia ter esse artefato que difama um profeta tão querido, que enfrentou o faraó e dedicou quarenta anos de sua vida a tirar daqui o seu povo escravizado? E ainda é tido como relíquia por uma parte desse povo...

- Deve ser porque acreditam que veio do Éden.

- Pode ser que não tenha vindo de lá, mas seja uma cópia de algo de lá...

- Como saber?! E quanto a Hakor, disse a ele o que pretende?

- Disse. Seu desejo de achar o Alef é milenar. Ele aceitou.

- Como pensa que ele vai lidar com essas informações?

- Precisamos fazer a primeira viagem e, conforme suas reações diante dos fatos, na hora de despertá-lo vou sugestiona-lo para que não se lembre de nada. Estando em estado hipnótico seu cérebro deverá acatar a sugestão, apagando todas as informações então adicionadas.

- Isso é possível?

- Você nem imagina o que podemos fazer a uma pessoa em estado de hipnose! Jamais se entregue assim a alguém em quem não tenha plena confiança e que não saiba exatamente o que está fazendo. Por segurança, o melhor é não recordar o passado, a menos que exista um motivo nobre ou mesmo a necessidade de uma cura. Nunca faça isso por mera curiosidade; é perigoso ao extremo.

- Nem precisava falar isso, Haemon. Só quem vai lá atrás e volta sabe o quanto é arriscado. Por alguns momentos tive medo de cair em tristeza profunda e irreversível, ao me ver fazendo tantas coisas ruins.
- Isso realmente acontece, e com mais frequência que parece. O Egito está cheio de magos e sacerdotes que se acham qualificados a manipular a mente humana através do tempo, quando muitos acordam corroídos pelo remorso e chegam à loucura total. Sem contar que ao descobrirmos velhos inimigos as chances de reconciliação se tornam quase nulas.

- É o que pode ocorrer com Hakor e Proteu.

- Hakor não deve recobrar a memória do passado. Se o fizesse, com certeza perdería a razão, procuraria por Amonet e seria bem capaz de cometer outros tantos assassinatos.

- Com Hakor de posse dessas lembranças, Proteu estaria em perigo.

- E você também.

- Tome cuidado, Haemon.

- Fique tranquila. No que depender de mim, o faraó nunca se recordará de que Khaf-re e ele são o mesmo espírito. Inclusive porque sempre questiona o método do governo que foi dele próprio no passado.

- E como foi o encontro de Proteu com Hakor e Péricles?

- Melhor do que eu esperava. Ainda bem.

- Haemon, e se eu tivesse enlouquecido neste retorno ao passado?! Ou Proteu?

- Aos primeiros momentos da regressão, aquele que a induz teaq por obrigação saber se existe tal perigo. Em caso positivo, chama dq volta o paciente e ordena-lhe que não traga nenhuma lembrança : que viu ou ouviu. Então encerra a sessão alegando um motivo qualmu - por exemplo, que a pessoa não é sugestionável e passível de hipnose Se houvesse esse risco com vocês eu agiría estritamente assim.

- Acredita que encontrar o Alef é um motivo nobre para essa gem de Hakor?

- Eu não sei, minha irmã. Às vezes me questiono quanto a porém não me sinto motivado a recuar agora. Não sei se é curiós: ou mesmo se buscar o Alef consiste em uma missão nobre. O que ] fazer é tentar chegar até lá sem deixar danos em ninguém. Acho bém que estas experiências são um aprendizado para todos.
- É verdade. Eu me sinto um pouco mais amadurecida depois disto tudo. E Proteu também, além de ter melhorado de seus males. E por falar nele, onde está?

- Está junto a seus soldados, para grande desgosto de Péricles, que não contava com o retorno tão rápido do líder.

— Preciso ver Tula e Sobeknefru amanhã, logo após o primeiro culto. E pensar que já fomos irmãs...

- Nada revele a Tula. É uma das responsabilidades conferidas àqueles a quem os véus do passado são descerrados: o silêncio discreto e caridoso.

- Não direi nada. Só quero abraçar minha amiga depois de tanto tempo.

- Parece que foram mais de 2 mil anos, não é?

- Precisamente 2528.

Calado, o sábio sorriu benévolo.

- Vou pelo caminho das casernas para me encontrar com Proteu. Poderemos caminhar pelas margens do Nilo e de lá viremos juntos para casa.

- Vá! Bom passeio!

— Venha comigo, Haemon!

- Obrigada, preciso pensar a sós.

O primeiro culto a Ra acabava solenemente; abria-se um novo dia sobre a joia do Nilo. O sol fazia as águas escurecidas pela agricultura marginal brilharem intensamente, criando a ilusão de um cardume prateado a dançar na superfície do rio que corria em direção ao mar Mediterrâneo.

Ao mirar as margens via-se o paradoxo de cores, o contraste de ambientes retratado nas verdej antes culturas de cereais e no amarelo dourado da desértica paisagem, cuja proximidade traçava uma linha quase reta que distinguia o fértil do infértil, o úmido do ressequido, a fartura da miséria. Camponeses molhados até os joelhos abriam novos canais por onde a água, sangue da terra, circularia para alimentá-la. Era realmente impressionante a habilidade de povos tão antigos...

Capítulo 29

Haemon acompanhava Hakor, que sempre que acabava de oficiar um culto fazia questão de um diálogo com o conselheiro em seus aposentos confortáveis, onde vários escravos ficavam a postos para servir ao seu deus. Nesse dia o sábio custou a crer no que seus olhos viam: um escravo parado num canto, como estátua, tinha o corpo lambuzado de mel onde milhares de moscas e outros insetos pousavam, agarravam, picavarr.: passeavam até sobre os olhos do infeliz, imóvel como um cadáver. Ao olhar interrogativo do amigo, o soberano explicou:

- Ah! É uma maneira de manter esses voadores longe de nós enquanto conversamos.

- Faz isso sempre?

- Aprendi com um soberano árabe que visitou meu palácio quand: você esteve em Mênfis. Muito eficaz.

- Excessivamente cruel. Libere o pobre escravo, Hakor. Certas ervas queimadas têm a mesma eficácia, não molestam pessoas e com elas não se desperdiça mel.

- Liberando-o é que desperdiçarei o mel, ao passo que estand; aqui o mel terá uma serventia.

- Todo-poderoso, não conseguirei fazer meu trabalho de frente para esta torpeza.

- Está bem! - disse com ar desolado, soltando o ar ruidosamente. - Só porque estou muito curioso quanto à minha pessai no passado. Tenho certeza de que fui Tutankhamon; antes devo rer sido Mentuhotep I e Ramsés. Aliás, não tenho dúvida de que frã Narmer Hetepsekhemwy, o primeiro faraó, anjo caído diretamente do paraíso para governar na Terra, aquele que trouxe o Alef. Sem contar Tohotmus III, o grande faraó guerreiro, que expandiu o Egito para além do alcance das visões.

- Grande Ra, de que adiantaria se tivesse sido? Já passou. Essa revelação só iria inflar seu já piramidal ego.

- E acha que o fato de ser o deus de todo o Nilo não é motivo suficiente para lisonja? Ainda mais se soubermos ter vivido essa experiência “única” por tantas vezes!

- Sim, porém essa experiência, por mais “única” que seja, é passageira...

- Eu não concordo em renascer se não for como faraó. Você é louco, amigo: deixar de ser o deus para ser conselheiro dele!

- Por isso lhe digo que não somos tão poderosos assim.

- Acha que uma deidade perversa pode pegar-me a alma à minha revelia e metê-la no ventre de uma escrava qualquer?

- Não diria perversa, talvez justa.

- Haemon, tem sorte de eu o considerar como pai, ou em uma dessas suas falas estaria morto.

- Sei do apreço que me tem, e é com ele que conto para sair ileso das ajudas que lhe ofereço.

- Tudo bem - com um sinal da mão fez sair o escravo lambuzado de mel. - Agora diga-me: se, como mencionou, eu estava presente ao tempo de Khufu, já que ele era você, quem fui eu? De modo algum acredito ter sido Khaf-re, cujo governo foi longo e fraco; com exceção da própria câmara funerária e da bela esfinge, ele nada fez em prol do reino.

- Não tenho essa informação; poderá conferir por si mesmo.

- Não vejo a hora de chegar até lá e descobrir quem fui eu e onde está o Alef. Claro que quando descobrirmos vai trazê-lo para mim, não é, Haemon? Sei que com ele meu poder será ainda maior.

O sábio ficou em silêncio.

- Haemon? Vai entregar o Alef para mim, a maior autoridade do Egito, não vai?

- Vamos encontrá-lo primeiro.
O que o faz crer que eu posso saber dele?

- A última cena que trouxemos do passado foi da sua pessoa com ele sobre o braço. Você o guardou, 2528 anos atrás. É a única pessoa que pode dar uma pista de seu paradeiro.

- Mesmo porque se o Alef é algo vindo do Éden, segundo afirmam os judeus, fui eu quem o trouxe.

O rosto de Haemon demonstrava incredulidade no que ouvia. Pelo menos no tocante ao ego, dois milênios não haviam sido o bastante pari mudar o grande Khaf-re.

Começaram os preparativos para a viagem. O quarto foi colocac; na penumbra e sutilmente o sábio induziu o faraó a recordar seus dias passados. Altamente sugestionável e curioso, o soberano se deixava levar facilmente. Desejava o poder que, sabia inconscientemente, o Alef lhe daria.

- Onde se encontra, grande Hakor?

- Em um templo, um belíssimo templo erguido em homenagem a divindade feminina. Espero para falar com a sacerdotisa, uma semideu-sa árabe, bela e sábia.

- O que vai falar com a sacerdotisa?

- Eu, nada; foi ela que me mandou chamar à sua presença. Oferece-me o trono do Egito e se propõe a matar Djedef-re, o primogênito de meu pai.

- Quero que avance mais um pouco; não precisamos revive: tudo isso.

- Claro que não! Eu quero ver o Alef. Sei que esta mulher o tem escondido, em conluio com mais quatro estrangeiros; uma escória pam guardar o maior e mais sagrado segredo.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

- Onde se encontra, grande Ra?

- Em uma câmara mortuária. Há muitos corpos estendidos no chão e um curandeiro distribuindo veneno como se fosse cerveja. Proteu está morrendo no chão. Tentou trair o grande Khaf-re, o desgraçado! Ele d a outra medíocre vassala do templo pensaram poder enganar o grande, magnífico e perfeito Khaf-re! Ingênuos, morrem aos meus pés - gargalhou sarcástico - Tenho o Alef, tenho o Egito e vou sepultar todos os meus inimigos. O que ele está dizendo? Nágila é minha verdadeira mãe? Eu matei minha mãe? Meus deuses! Matei o ventre que me gerou! Serei amaldiçoado por toda a vida. Por que meu pai não me contou a verdade? A culpa é toda de Khufu, que escondeu minha origem. Matei minha mãe, e a culpa é de meu pai. É sua, Haemon. Como pôde fazer isso comigo?

A essa altura ele gritava e chorava de maneira escandalosa e sentida.

- Acalme-se, Quéfren! Saia dessa câmara e leve o Alef para seu destino.

- Estou fora. Já se passaram alguns dias e o processo de mumifi-cação dos corpos se concluiu. Logo que saí matei o último trabalhador que esteve comigo selando a câmara, selando o segredo de Khaf-re; ninguém jamais saberá o que houve aqui. O problema é que uma pessoa sabe o que houve aqui, e esta eu não posso matar: sou eu mesmo. A culpa pela minha mãe me segue dia e noite, preciso fazer algo para me redimir. O povo não me ama, sei que me odeia; e isso é porque sou um desgraçado, que secou a fonte de onde proveio.

- Onde guardou o Alef?

- Está muito bem guardado.

- O laço de ísis está em seu poder?

- Não. Isso é coisa dos árabes; guia seu dono até o templo em que o Alef já não está - mesmo porque vou sumir com o templo.

- E onde pretende guardar o Alef?

- Em um lugar diferente, mas ainda nas imediações do local místico no qual um dia esteve o templo, onde está a tumba de meu pai e a minha estará. Construirei um monumento nunca visto em lugar algum: um leão com rosto humano que vigiará ininterruptamente a necrópole; e entre suas patas edificarei um templo pequeno e belo em homenagem à grande deusa guardiã do Alef, minha mãe, mãe de um deus. Lá, protegido dos maus espíritos e dos saqueadores, eu depositarei o Alef e diariamente farei meu culto para que ela me perdoe.

- O que é o Alef, Khaf-re? Do que ele trata?

- Por que deveria contar-lhe? Deixou de me contar quem era minha mãe!
Perdoe-me! Sei que não deveria ter omitido isso de você; pouparia tantas tragédias... Porém, somente hoje percebo que errei. E embora não possa reverter a situação, sei que dela todos nós tiramos lições.

- Oh, sim, grande Khufu! Aprendi que viverei para odiar você e seus filhos com a rainha.

- Não será de todo assim, eu lhe asseguro. Agora quero que veja a esfinge. Suas obras concluídas, majestosas e reluzentes.

- Estou cansado, sinto-me um velho; e minha tumba ainda é menor que a sua! Mas tudo bem a esfinge será minha marca para todos os séculos vindouros. É bela e imponente, a minha imagem e semelhança. E como a entidade grega em que inspirei suas formas, vai guardar um enigma e um segredo.

- Fala do Alef?

— Sim. Ele repousará, entre as patas do monstro fabuloso, até que eu me vá e então retorne para buscá-lo. O Livro dos Mortos me garanrt esse direito.

- Abriu o Alef?

- Não. Descobri que todos que o abrem morrem de morte ler.cu e dolorosa. Existe uma maldição nesse segredo judeu, dizem, que nem mesmo Moisés aceitou quebrar-lhe o lacre. Aqueles que ousaram des-lacrar o objeto do Éden viveram algum tempo para contar o que viram] E isso dividiu as tribos de Israel, jogando umas contra as outras eal guerras sangrentas que levaram várias à desaparição completa.

- Sabe do que trata essa maldição, e como foi colocada?

- Quisera saber. Não, nada sei. Só vou levar o Alef para junto da deusa no novo templo que, acredito, seu espírito habitará. Um arte-1 trabalhou por muitos sóis fazendo um nicho em uma rocha enorme; íxí o Alef repousará até minha volta triunfal ao trono do Egito.

- Onde está situada essa pedra oca que contém o Alef?

- Exatamente eu não sei. Os engenheiros decidirão onde a pecr* ficará melhor. E criarão um enigma para facilitar-me o acesso; se r*ar acaso eu a perder, saberei exatamente onde está, sem ter de procurar pa| todos os blocos do templo.

- E você sabe onde está?
Acredite ou não, eu não sei. O idiota do Khaf-re matou o engenheiro que assentou a pedra com o Alef e não conseguiu desvendar o enigma que ele criara a seu próprio mando.

- Matou o engenheiro sem saber a localização do Alef, ou ao menos a solução do enigma?

- Matei.

- Meu Deus!

- Sempre questionei Khaf-re. Que decepção descobrir que quem cometeu tantos erros grosseiros e se comportou de maneira tão insensata fui eu!

- Acalme-se, Hakor. Está dois milênios mais velho que Khaf-re; é tempo mais que suficiente para amadurecer e se tornar sensato.

- É um consolo - o faraó estava no auge da desolação.

- Procure então recordar o enigma. Mesmo sem ser capaz de decifrá-lo, sabe o que era proposto e onde estava escrito?

- Estava escrito logo na entrada do templo. Era como se a estátua fizesse igual à criatura lendária grega, propondo um enigma aos viajantes. Na primeira pedra que se via logo ao parar em frente à porta, bem no centro da parte superior da entrada principal, fora grafado o enigma nestes termos:
“A metade dos belíssimos se opõe ao horizonte” “Uma menina entre as quatro se esvaziou”

“O leão de Judá aclama seu gestol”
Haemon anotou as três frases corretamente.

- Hakor, quando eu beijar sua testa deverá voltar a seu tempo e deixar o que viu nesse tempo que já se foi. Para o bem de todos nós e do Egito, principalmente, deve esquecer tudo que viu.

- Por quê?

— Sei que não conseguirá lidar com essas lembranças, com a minha omissão a respeito de Nágila, e isso comprometerá o governo do Egito, pois você próprio declara que não o realizaria sem minha ajuda. Kyia e Proteu correrão perigo novamente com sua ira e a amizade que desenvolveu com Kenefer se perderá. Acredite, filho, o melhor é não se lembrar.

- Se você assim diz, eu não posso me opor, sobretudo sabendo de minhas raízes. Meu Deus! Quem olha para estas pirâmides pensa em grandes faraós. Eu sou um cretino, estúpido, ignorante...

- Chega de autoelogios. Venha para cá e não se lembre de nada!

Ao receber o beijo do conselheiro ele despertou.

- Então, Haemon? Vamos descobrir onde está o maldito segredo judeu?

- Eu adoraria, grande Ra, mas não consigo influenciá-lo a esse ponto. Desisto. É dono de personalidade forte e não sugestionável; nã o seria o soberano do Egito se assim não fosse. Ingenuidade a minha... Achar que poderia manipular sua mente! Perdoe-me, Hakor.

- Não se culpe; o erro foi igualmente meu ao me submeter a essas maluquices. Depois, é como você mesmo disse: saber quem eu era para, quê? Basta eu saber quem não era. E Khufu já sei que não fui, pois se trata de você, e Khaf-re também não posso ter sido, haja vista aquele ser um completo imbecil.

- Um completo imbecil! Agora vou repousar um pouco. Sinto-me cansado como se tivesse caminhado por um longo período.

Haemon sabia que o soberano precisava dormir para perder a noçãoí do tempo que gastara em sua “tentativa frustrada” de voltar ao passado.

Capítulo 30

Cuenciá-lo a esse - igestionável; não _idade a minha...

As frases do enigma pareciam gravadas na cabeça de Haemon. Eram frases isoladas e ao mesmo tempo parecia que se interligavam de modo estranho e misteriosamente desconexo. No íntimo sabia que poderia desvendá-lo uma vez estando no templo, entre as patas da esfinge. Contudo, restavam as perguntas que ultimamente pareciam perseguir o sábio. Seria lícito trazer à tona um segredo milenar? Seria esse o plano dos mestres superiores? Não estaria movido por vã curiosidade? Se fosse para ser descoberto, por que tanta dificuldade?

O vento soprou o rosto cansado de Haemon e partículas de areia lhe maltrataram os olhos. As lágrimas provocadas pela agressão se misturaram às do sentido pranto que sufocava o sábio degredado.

- Haemon!

- Kenefer!

Abraçou o escriba com força excepcional, o que o fez questionar:

- Puxa, amigo! Parece que não me vê há anos...

- E quem sabe se assim não é?

- Como foi em Mênfis?

- Bem proveitoso. E como foi junto a Hakor?

- Tivemos tempo de conversar, ensinar e aprender muito um com o outro. Não foi tão difícil demover a fera de algumas vilezas e asneiras. Parece distante, amigo, esteve a chorar?

- Realmente, estou sentindo o peito opresso por muitas dúvidas e indecisões. Gostaria que me caísse do céu um livro contendo as respostas para todas as minhas perguntas.
Meu querido mestre, gostaria de poder ajudá-lo; no entanto, sei que é a mente mais brilhante que conheço. Como ajudar alguém ti; i nossa frente no caminho para a perfeição?

- Seus olhos são bons, Kenefer, por isso só enxerga a bondade; i às vezes é maltratado por ter essa qualidade. Não sou a mente mais faõl lhante que já viu. Acaso se esqueceu do grande Lamech?

- Sim, ele é grande, mas vivi tão pouco ao seu lado... Não seguir seus exemplos; o celibato ainda é uma prova pela qual não arrisco a passar. Quero crescer mais antes de tentar.

- Não se preocupe com o celibato, amigo. Tem tanto ensina to de Lamech dentro de si! Tantas pérolas foram guardadas em coração! E se todos se tornassem celibatários, como se daria a nuidade da raça humana? Se quer saber, acabou de me ajudar: falar nosso mestre deu a mim uma ideia que não me havia ocorrido, procurar por ele.

- Eu o ajudei? Sinto-me no auge do contentamento por isso.

- Lembre-se sempre Kenefer: todos têm algo a dar e todos algo a receber, por mais pobres ou ricos que sejam.

Com largo sorriso o escriba seguiu para o palácio, enquanto o r ia para casa.

Kenefer tornou a ocupar o cargo de conselheiro direto de Sem nenhuma bagagem e com parca refeição no farnel, Hi abraçou os irmãos e partiu. Atravessou o Nilo rumo à velha dos mortos e ao oásis onde passara a infância, a adolescência c da vida adulta.

Tebas antiga era dividida em duas partes fundamentais: o a cidade dos vivos, onde se encontravam os palácios reais, os de culto, os diversos edifícios da administração, os mercados Oeste, a cidade dos mortos, a necrópole tebana. O rio Nilo era a barreira que separava os dois lados.

Em um belo oásis de verdor espetacular, de que muitos nem se aproximavam por entender se tratar de miragem, a do templo de Hórus - naquela época consagrado a Ame Haemon havia sido educado por uma comunidade judia de disciplinados, aliados a conhecimentos médicos e espirituais inimagináveis à época.

Afamados pelo poder de curar com ervas, água ou apenas o toque de mãos, tendo ainda o dom da profecia, os habitantes do lugar foram objeto de lendas e crenças descabidas. E, por ser uma sociedade fechada, cujos iniciados precisavam ficar por um ano em rigorosa observação, o clima de mistério a envolveu. Na verdade, era uma comunidade de médiuns e estudiosos dos fenômenos naturais que abrangem os dois mundos e sua interação; aquela que mais tarde, ao se mudar para as proximidades do mar Morto, seria conhecida como a comunidade dos essênios.

À volta do grande lago azul, as palmeiras cresciam em sentido horizontal por um longo período, para depois se erguerem verticalmente, formando um ângulo quase reto no meio das águas plácidas e brilhantes; de tão límpidas, permitiam vislumbrar um anel em seu fundo, se fosse ali atirado, assim como contar os pequenos cascalhos e cardumes diversos.

Laranjeiras, limoeiros, pessegueiros e romãzeiras cresciam e frutificavam robustas sobre um tapete de verde embriagador, a que as papoulas se encarregavam de dar um toque delicado e colorido. Na margem oposta do lindo lago havia um conjunto de casas idênticas, singelas casinhas brancas que rodeavam um poço. E à entrada, ao invés de portões, via-se um umbral de onde pendia uma espécie de cincerro de cobre pelo qual os forasteiros se anunciavam. O acesso era um caminho margeado por videiras carregadas de frutos maduros.

A emoção tomava conta do sábio, ao ter o passado todo de volta diante de seus olhos. A comunidade não mudara absolutamente em nada; era como se nem um dia houvesse transcorrido desde que saíra dali para ser o preceptor do neto de Neferites I, fundador da XXIX dinastia. A ideia era preparar o garoto para derrubar o faraó e subir ao trono que seria seu por direito.

Foi com o coração aos saltos que ele tocou o cincerro. Um homem que vestia túnica de linho branco e calçava sandálias, segurando outra indumentária completa, surgiu à entrada. Haemon sabia ser o questor da ordem, membro da sociedade nomeado pelo superior para tratar de assuntos pertinentes aos hóspedes e intendente do vestuário dos mesmos, se necessário.

- Se vem em paz, seja bem-vindo!

- Sim, eu venho em paz. Sou membro da comunidade que presta serviço de conselho ao faraó.

- Irmão Haemon! Queira entrar!

Antes, porém, ciente dos costumes locais, ele se despiu e descalçou, transpôs o umbral completamente nu e, uma vez do lado de dentro, posicionou-se à esquerda do portal onde um grande cântaro estava pendurado com uma corda amarrada à borda; colocou-se sob o recipiente e puxou a corda, virando sobre si água limpa e fresca; a seguir, recebendo das mãos do iniciado nova indumentária, se vestiu e calçou como um deles.

- Meu nome é Enos. Qual sua necessidade imediata, irmão Haemon?

- Estou bem; tomei minha refeição às margens do lago, saciando li também minha sede. Deveria lembrar-me de você, já que me conhece?

- Perdoe-me, irmão, não me conhece. Quando me iniciei já havia partido para a cidade dos faraós. Não obstante, todos nós sabemos de você e de sua grande missão.

- Deve estar me confundindo. Não sou dono de grande missão.

- Como não? É a cabeça do faraó! É a inteligência que governa o Egito. E quanto ao ressurgimento do Alef?

- O que sabe acerca do Alef?

- Acho que já falei mais do que devia. Ouvir é a inteligência de quem ganha e falar é a negligência de quem perde. Dado que não precisa de água e comida, quem sabe um pouco de repouso?

- Eu agradecería, estou caminhando há dias. E quando podem falar com Lamech?

— Descanse agora; ele virá até você.

O silêncio era quase absoluto, quebrado unicamente pelos ruídai próprios da natureza, como o som da cachoeira que formava o lago © das aves atraídas pelas frutas maduras. Silêncio misterioso para os tor2»| teiros, mas resultado da sobriedade permanente dos moradores do locaL
Haemon pensava ter passado por uma simples modorra quando Lamech o despertou, tocando levemente seu rosto e dizendo que dormira por várias horas. O corpo descansado era testemunha do repouso corhpensador.

Lamech se vestia como os demais, tinha o rosto sem rugas e os cabelos embranquecidos; os olhos eram cambiantes e inquisidores, sem perder a ternura própria daqueles que amam. Parecia tanto um jovem envelhecido precocemente quanto um ancião muito conservado.

- Grande mestre! Nada mudou em seu rosto.

- Bondade sua. Tantos anos se passaram!...

- Perdoe-me a negligência e a ausência.

- Isso na verdade é para mim uma lisonja. No dia em que o diretor se torna supérfluo para seu pupilo porque ele adquiriu plena autonomia espiritual, a missão do mestre está gloriosamente cumprida.

Bendito seja o mestre que, por ensinar eficazmente, torna-se supérfluo ao discípulo - Haemon curvou-se reverente para o líder da sociedade. - Mas ainda falta um pouco para se tornar supérfluo para mim. Estou diante de uma situação que não sei como resolver; preciso de sua ajuda, mestre.

- Fala do Alef, ou de sua partida?

- Das duas coisas. Como sabe? Entrou em minha mente?

- Conversei com você enquanto dormia. Assim ganhamos tempo.

- Ufa! Então já sabe tudo que tenho a lhe falar?

- Quase tudo. Não sei, por exemplo, a quem estão entregues Hakor e seu decadente império.

- Kenefer está a seu lado, e faz isso igual a mim.

- Quando duas pessoas fazem a mesma coisa, essa coisa já não é a mesma.

- Acha que errei em deixar Hakor com ele?

- Eu não disse isso. Disse que não fará a mesma coisa que você; pode ser até que faça melhor. Kenefer é um bom homem, preparado para cargo de comando desde eras remotas.

- Sinto-me aliviado. Assim, quando eu partir ele estará em boas mãos. E por falar em partida, estou angustiado. Tenho sonhado com belíssima mulher que me mostra o paraíso perdido... Acho que meu tempo está acabando.

- E o que o angustia? Não sabe que já passou por isso inúmeras vezes?

- Não é a passagem que me assusta. Fiz uns cálculos e tenho quase certeza de que a Grande Estrela não demorará. E eu queria tanw vê-lo... - duas lágrimas rolaram pela face do sábio.

- Haemon, a hora mais cruel do ser humano é quando ele vê à soa frente um ser divino que com sua simples presença conscientizando como deveria ser, de como é possível ser enquanto criatura humana, e não é. Sua missão será exatamente esta: mostrar o futuro grandioso sz humanidade, mostrar que o homem pode fazer-se um deus seguindw seus exemplos, visto que ele atingiu essa glória.

- Ele é Deus?

- Sim.

- O deus único dos judeus?

— Ele é deus, você é deus, somos todos deuses, porque somos sua atuação da Divindade Criadora.

- Entendi. Ele existia antes de ser criado este mundo, mas é também criatura divina, e não divindade criadora. O primogênito da humanidade terrestre.

- Ele não é cria da Terra. Porém, partindo do princípio de cael encarnará aqui, digamos que sim. Está pronto para vê-lo?

- Não sei, apenas desejo ardentemente.

- Quando acha que o Grande Logos virá?

- Mais ou menos em quatrocentos anos.

- Você sabe que nossa comunidade está esperando por ele. cuidarmos de sua educação - se é que se pode educar a Estrela. A verdade é que ele será aniquilado em um corpo como o nosso e deixou passar por certos incômodos; estudar conosco será um deles. Esta nossa missão: preparar o Logos para sua missão. Para isso, dentro de pouco deveremos migrar para a Palestina, pois é por lá que ele nascerá. Digo-lhe mais, Haemon: acho que esta sociedade desaparecerá tão rápido quando isso se cumprir; voltaremos para o orbe de origem. E isso responde sua pergunta quanto à licitude de encontrar o Alef.
Devo encontrá-lo?

- É sua grande missão a que se referiu Enos. Boa parcela dos nossos companheiros de jornada está deixando a Terra novamente, de regresso à estrela natal que muitos tratam por paraíso perdido. Com isso as chances de recuperação do Alef se reduzem sensivelmente, uma vez que os que ficam possuem inteligência privilegiada e moral duvidosa -por conseguinte, mãos nas quais o Alef não poderá cair -, e os outros, as crias da Terra, ainda não têm inteligência para encontrá-lo e usá-lo. Ou seja, é agora que ele deve ressurgir das ruínas. E há mais uma coisa importante: nossa sociedade migrará para a Palestina lentamente e se afastará do Alef a cada dia; é imprescindível que ele volte para as nossas mãos nesta vivência, antes da queda das dinastias egípcias.

- Queda das dinastias egípcias?

- O Egito está em evidente declínio. Os povos vizinhos descobriram um metal bem mais forte que o bronze, do qual não temos nenhuma fonte. Assim, ficou difícil lutar com os países próximos. Estamos importando soldados e armas da Grécia e perdendo grande parte do poder. O trono ser ocupado por invasores gregos é questão de tempo.

- Por que o Alef deve ser entregue à nossa comunidade?

- Porque se trata do material didático para o trabalho com o Logos.

- Mas se ele será judeu e o Alef difama Moisés, como usarão isso em sua educação?

- Essa pergunta só será respondida quando tivermos o Alef em nossas mãos.

- E se não sobrevivermos à sua abertura? Muitos morreram ao des-lacrar a relíquia. Acha que ele pode estar impregnado de algum veneno?

- É possível, ou talvez por agentes invisíveis de doenças letais. Portanto, tomaremos precauções para abri-lo.

- Acha que isto tudo é parte do grandioso plano cósmico para a encarnação do Logos?

- Tenho certeza.

- Então, quando eu me for daqui sem o ter visto atuando no plano físico, poderei dizer que contribuí para sua vinda?

- Ainda tem dúvida?
Não. Tem alguma ideia do que significam as frases do enigma?

- 5Í metade dos belíssimos se opõe ao horizonte”. Não posso imaginar, por ora. “Uma menina entre as quatro se esvaziou". Não poderia se tratar de um dos pares de Nágila que entregou o segredo a Khaf-re? No caso, Kyia? “O leão de Judá aclama seu gesto!” Pode ser uma alusão ao símbolo da tribo de Judá; ele tem um leão ao centro da estrela de Davi.

- Já tenho material para pensar por um tempo. Se o senhor me permitir passar uns dias aqui, o silêncio e a beatitude local serão meus aliados nesta procura.

- Você pode ficar o tempo que quiser... E que saia daqui com a certeza da localização exata do Alef. Agora vamos comer, fazer nossas orações e repousar.

Haemon sabia da disciplina férrea do lugar. As refeições, o zM de se recolher e o de se levantar eram rigorosamente cronometrados^ Levantavam-se antes do sol e as orações eram feitas enquanto ele despontava, e recolhiam-se ao pôr do sol, quando as orações eram feitas ele desaparecer no horizonte. Podia-se dizer que se deitavam e levzn-j tavam com o sol.

Antes de entrar no refeitório, Haemon e Lamech despiram-se túnicas e se banharam em água fria; então, usando outra roupa, u espécie de tanga cingida à cintura, entraram e comeram em compl silêncio; o questor da cozinha servia a cada um o pão necessário, u um grama a mais. Após trocarem a roupa novamente, ajoelharam-se pátio comunitário e oraram ao Deus criador até o sol se por; em seguida, silenciosamente, cada um foi para o seu aposento.

Capítulo 31

Haemon dormiu com tranquilidade ímpar. Viu-se outra vez junto a Lamech e Kenefer em local futurista e belo, cheio de velhos conhecidos e amados companheiros de quem não tinha conhecimento em estado de vigília. Manuseavam animadamente aparelhos que levariam milênios para chegar à Terra e de novo a mulher que parecia translúcida falou-lhes com voz suave:

- Força, viajores! A resignação e o amor ao degredo os fizeram merecer o prelúdio da volta definitiva, que não tardará. Regozijem-se, estão em casa, e estarão em definitivo ainda mais cedo do que imaginam.

- Irmã, minha estada na Terra é finda?

- E não deveria, depois de tantas vivências de erros e acertos, de lutas acerbas, lágrimas e sorrisos? Fez do cruel e impiedoso Khufu o amado e amoroso Haemon; deu sua contribuição para um governo mais justo e humano que devia ao Egito; restabeleceu tantas coisas entre os antigos inimigos... E até mesmo contribuiu para que Proteu e Kyia, comparsas milenares em atos escabrosos, ensaiassem as primeiras notas do dom supremo de amar. É mais que justo o prêmio que receberá de retornar ao orbe querido, junto à alma de sua alma, onde o pão não carece mais de suor no rosto, as viagens não são sofridas e as dores se atenuam mais facilmente. O orbe onde o bem sobrepuja o mal e o amor é maioria; onde as portas são cerradas apenas para proteger da brisa noturna e não de um irmão que nos pode machucar. Aqui, irmãos não se machucam, não se roubam nem se prejudicam; eles já se amam. A bem da verdade, não é o paraíso segundo a visão cósmica universal, mas tendo a Terra como ponto de vista é bem mais que isso.
O sábio grego chorava copiosamente ao ver Amonet caminhando devagar em sua direção, trajada como a sacerdotisa do templo perdí ãc. Estreitando a amada nos braços, sentiu felicidade tão gigantesca qoe parecia crescer, expandir-se e explodir em partículas de pura luz.

- Minha eterna amada! Como sinto sua falta!

- Sigamos em frente, esposo! Breve estaremos reunidos em casa!

- Como tem sido sua vida?

- Cheia de lutas e trabalhos e, como não poderia ser diferente, da alegria que nos traz a sensação do dever sendo cumprido. Entretanto, sinto especialmente sua falta.

Por algum tempo os integrantes daquele grupo de espíritos afins estiveram juntos, até que os deveres do dia a dia os chamaram de volta a carne. Mesmo sem guardar a total lembrança da experiência, sentiam todos a impressão de terem encontrado velhos conhecidos em local muito familiar e experimentado contentamento indescritível. Em contrapartida, a nostalgia lhes apertava o peito, envolvia-os o desejo inconsciente de não ter acordado.

Em seu leito, Haemon respirou fundo. Ainda estava escuro. mas como iniciado na sociedade sabia ser o momento certo para se levantar.

A lua continuava a banhar o pátio quando todos os irmãos puseram em prece solene. O silêncio começou a ser quebrado pelo despertar das avezinhas e dos pequenos roedores. O escuro se t:ornou lusco-fusco e o horizonte parecia um grande risco flamejante contra o céu azul escuro. As gotas de orvalho nas folhas verdes foram as primeiras a demonstrar a presença da luz, abrigando dentro de si diminutos arco-íris que se desintegravam ao toque sutil das bortoletas que graciosamente despertavam.

Verdadeiro milagre se consumou diante dos iniciados absolutamente entregues à oração: o sol se erguia majestoso, seus raios semelhantes aos inúmeros braços em sincronismo perfeito, qual bailarina oriental. Em seguida o disco solar começou a despontar, lembrando o elmo rei de um guerreiro, a lançar raios cintilantes sobre a aldeia, iluminando os pomares multicores e as hortaliças verdejantes, fazendo brilhar as paredes alvas das casinhas, prateando a superfície do lago azul.
Partículas em suspensão se tornavam visíveis quando o sol já parecia um semicírculo incandescente, e o orvalho ia se vaporizando em forma de uma fina camada na atmosfera que tornava o ar deliciosamente respi-rável. A sensação de frescor alcançava até os pulmões, junto com o odor desprendido das pétalas que se abriam para receber a luz cheia de energia e de elementos curativos. Nesse momento os animaizinhos noturnos procuraram suas tocas, o astro-rei se mostrou por inteiro e um espetáculo de luz, cor e poder se derramou sobre a vila dos essênios. Lamech agradeceu à Divindade Criadora, não por ter nascido o sol, pois isso era muito genérico, e sim por ele particularmente ter podido ver tamanha magnificência.

Lentamente todos se encaminharam para o trabalho no qual tinham a habilidade necessária; este seria ininterrupto até a quinta hora, quando seria servida a primeira refeição, e depois voltariam a trabalhar até a undécima hora.

- No que devo trabalhar? - foi a pergunta de Haemon para Lamech.

- Você tem o privilégio de escolher.

Por três dias consecutivos Haemon dedicou-se aos trabalhos de plantação, colheita e fabricação do linho. Quando chegou a hora de parar, já conhecedor dos costumes, ele não procurou a cantina. Sabia que no sexto dia da semana o jejum começava logo após o almoço, pois no sábado nem os intestinos deveriam trabalhar. Sabia também que o descanso do sétimo dia era somente questão de necessidade física, mas se não houvesse certa mistificação em torno disso muitos poderiam se exceder, tornando-se escravos, e em consequência adoecer. A lei de repouso é tão importante quanto a lei do trabalho.

O sábado amanheceu lindo. As orações crepusculares reacenderam em Haemon a paixão por esses momentos matutinos e vespertinos que os cultos exteriores e superficiais a Amon-Ra haviam apagado. Entendia agora porque um povo tão infante acreditava ser o sol a imagem de Deus; era realmente uma de suas obras-primas.

Após as orações ele se dirigiu para o lago. Sentado em sua margem, acompanhava o rastro luminoso que o percorria inteiro. Durante toda a manhã de sábado repousou ali à beira das águas límpidas e calmas, contemplando as palmeiras inclinadas para elas e refletidas ao inverso.
Quando o sol atingiu o zênite ele se sentou, maravilhado. O reflexo da estrela no lago cristalino produzia uma ilusão ótica de duplicidade magnífica; era como se um sol morasse no céu e outro na águx Admirou a perfeição do sol. Não por acaso os egípcios o envolviam em tudo: política, teologia, medicina, arquitetura, artes e ciências, mister. :s e enigmas. Enigmas?

A metade dos belíssimos se opõe ao horizonte”

O sol estava na metade certa do céu; a copa de uma palmeira parecia tocá-lo, e seu longo caule se projetava horizontalmente. O meio-Ai era a metade dos crepúsculos, espetáculos belíssimos, por sinal.

Haemon correu eufórico ao encontro de Lamech.

- Mestre, acho que desvendei o enigma.

- Acalme-se e regularize sua respiração. Não deveria estar trabs lhando no enigma no dia santificado ao descanso.

— Eu estava descansando -, disse mais calmo. - Cochilava à na gem do lago e as peças foram se encaixando em minha cabeça c_ se involuntariamente; não pude evitar. Venha comigo, eu desvenda enigma. Eu sei onde está o Alef.

De volta ao local, ele mostrou.

- A metade dos belíssimos é o zênite, que é a metade dos crepã culos. Olhe para esta palmeira: ela se volta para o meio do céu e pari horizonte, formando em seu vértice um ângulo quase reto.

- E em que a árvore pode ajudar, quando sabemos estar o Alef longe daqui?

- Não imagino que esteja aqui. O formato da palmeira apenas < viu para que eu visse que se, do deserto sem montes, opusermos o n do céu ao horizonte teremos um ângulo reto. Juntando isso à irí mação que tive de Khaf-re, de que o Alef foi guardado dentro de . pedra ocada por um artesão, a pedra deve então ter esta forma: a de ângulo reto ou uma pedra angular; e se cada recinto normalmente : quatro cantos...

- ‘'Uma menina entre as quatro se esvaziou” - Lamech citou qi afônico, estupefato.

- E posso até dizer que sei qual das quatro “meninas” se esvaziou.

- Pois diga!

- É a pedra que está no segundo canto à esquerda de quem entra no templo.

- Claro! O leão, símbolo da tribo de Judá, tem as patas em posição de louvor para esse lado, se desenhado no chão em frente a quem entra.

- Exatamente. Colocando o desenho do leão à nossa frente, não importa em que posição sigamos, ele estará com as patas voltadas à nossa esquerda e para o alto; ou seja, a segunda pedra à esquerda de quem entra. O Grande Logos já tem seu material didático.

- Bendito seja o mestre supérfluo ao discípulo!

- Amigo, parto agora mesmo em busca da relíquia.

- Aconselho que parta amanhã; assim terá ajuda de outro membro. Hoje será difícil alguém fazer algo por se tratar do sábado.

- Certamente é o mais sensato. E posso dedicar o restante do dia para aproveitar sua companhia.

- Como pretende empreender a viagem? Volta a Tebas ou segue pelo deserto?

- Não posso voltar a Tebas. Como Hakor deseja o Alef, não pode saber que descobri onde está, ou exigirá sua posse; e se assim for, toda a luta terá sido inglória. Partirei daqui para Mênfis e de lá novamente para cá, onde espero deixar o Alef a seus cuidados. Só então irei para Tebas.

O sétimo dia, santificado para os judeus, terminou com suaves brisas vindas do lago e as orações feitas ao pôr do sol. Haemon agradeceu intimamente pelo privilégio de fazer parte de tão grandioso plano, bem como por ter o Alef sido descoberto antes da decadência total do império e do êxodo da comunidade dos futuros essênios rumo à Palestina.

O céu avermelhado, em contraste com o verde do pomar, era beleza de encher os olhos, e o sábio grego sentiu o peito opresso. Atravessava um momento difícil. Tinha saudade de seu “paraíso perdido” e sofria a falta de pessoas queridas dele apartadas, como sua amada Nágila; vezes havia em que desejava ardentemente a morte, a fim de voltar à sua estrela natal. Agora, porém, sabendo que esse dia se aproximava, sentia-se enfraquecido em face da perspectiva de deixar a Terra. Embora habitasse o deserto, já avistara as paisagens mais

mirííicas de que seus olhos tinham lembrança. E as pessoas daqui que incluira em sua família e amava profundamente? Sabia que partiría sem Hakor, Proteu, Kyia, Tula, Péricles, Sobeknefru, Nefertari, entre tantos... Amava esses espíritos como filhos do coração. Como podería afastar-se deles?

- Não sofra, irmão! Haverá o momento em que todos merecerão o paraíso e se reunirão por muito se amarem.

- Lamech, eu desejei tanto voltar para casa!...

- E essa volta é mérito seu. Não pode se amofinar por Hakor ter sucumbido ante tantas oportunidades. Já os seus outros afetos são crias da Terra, e devem ficar até que eles ou ela se regenerem. Talvez o façam. juntos ou se apartem, como um dia aconteceu conosco.

- E quanto ao Logos Cósmico? Eu queria muito estar com ele, mesmo sabendo ser tão difícil colocar à prova nosso monstruoso ego, como disse.

- Querido irmão, sei bem do sentimento que o assola. O fato õe: saber onde está o Alef e a iminência de recuperá-lo infundem-lhe ã sensação de dever cumprido. No entanto, não precipite as coisas; air.ca não temos a relíquia em nosso poder. Vamos repousar e deixar que cada dia resolva seu próprio problema.

Abraçou-se ao discípulo e foram para seus aposentos.

Na manhã seguinte, logo após as orações, Lamech apresento. t Haemon um rapaz de nome Eber, que iria com ele até Mênfis.

- Eber é dotado de inteligência e valores privilegiados; será bo companhia para proveitosos diálogos. É também dono de força f descomunal, mas muito bem direcionada - Haemon pensou no ir caçula e em seu braço poderoso e indômito. - Tenho certeza de serão grandes parceiros, se é que já não o são.

- Obrigado pela disponibilidade e boa vontade em acompaj um velho pelo deserto.

- Eu é que agradeço o privilégio de participar de tão meme: missão. Serei o primeiro dos iniciados desta geração a pôr os olhos Alef e ainda seu segundo guardião. Terei a graça de passá-lo adiame talvez a de guardá-lo novamente, em outra ocasião.
Apesar de os cavalos terem sido introduzidos no Egito pelos hic-sos, no segundo período intermediário, e o camelo ser conhecido desde o início do império novo, aquela comunidade usava burros como animais de carga. E foi com um deles que Haemon e o jovem Eber partiram rumo a Mênfis.

Na primeira parada, onde tomaram frugal refeição, o sábio constatou que, apesar do rosto imberbe, o rapaz era bem mais velho do que se poderia conceber. Dele ouviu que os membros da comunidade vinham de outro orbe - ou paraíso, como diziam alguns judeus -, mas que entre eles havia ainda duas classes de imigrantes: aqueles vindos em missão e outros com o objetivo de redenção. Todavia, por se tratar de forasteiros no orbe e devido ao nível intelectual, eles se atrairíam sem apelação e os segundos teriam a oportunidade de aprender com os primeiros a usar para o bem o conhecimento adquirido.

Quando isso acontecesse, os segundos poderíam voltar ao seu plano de origem e seguir o curso da própria evolução. Já os primeiros só voltariam ao lar e ao seu posto quando a Grande Estrela ou o Logos Planetário estivesse entre eles. A partir desse dia a comunidade começaria a se extinguir, sem que se perdesse o Alef; este deveria ser enriquecido por ditos e feitos dele e ficaria para a posterioridade.

- Isso explica o que você disse sobre deixar o Alef e tornar a pegá--lo em outra ocasião?

- Exatamente. Segundo se calcula, teremos tempo de ir e voltar algumas vezes antes de ele chegar; isso se realmente eu for parte dos primeiros.

- Tem alguma dúvida a respeito?

- Sim... E quantas são, senhor!

- Quanto a mim, não tenho a menor dúvida de que sou parte dos segundos e estou aqui em processo de redenção, por não ter merecido o paraíso.

- Baseado em acontecimentos de sua vida - Lamech conta muito sobre você -, digo que deve estar de partida.

- Certas revelações que venho tendo nesse sentido me dão motivos para acreditar que alguns de meus pares já regressaram.

Bem-aventurados aqueles que retornam para casa d cumprida a jornada de trabalho.

Haemon sorriu sem graça. Não concebia a ideia de dizei tão evoluído que não estava feliz com o que deveria chamar de jubiloso à estrela natal. Não obstante, o rapaz parecia penetra: íntimo pensamento do grego.

- Estou enganado ou se mostra apreensivo?

- Não sei responder a essa pergunta.

- Embora sinta saudade dos seus afins, já se apaixonou pelos terráqueos.

- Sim. E por mais que eu os ame e eles a mim, meus pares degredados não precisam de minha presença como os daqui. Afora as questões do planeta - estou aqui há pelo menos 2 mil anos e se não tivesse amor pelo planeta seria um insensível -, a maior problemática é ele.

- O Grande Logos.

- As chances de me encontrar com ele serão muito remotas.

- Encarnado, eu diria quase nulas.

- Esse “quase” é só para não deixar mais aflito meu coração.

- Resta o convite ao crescimento para encontrá-lo em espírito.

- Quanto tempo acha que eu levaria para isso?

- Partindo do princípio de que ele já era um espírito antes da criação da Terra, tanto que a Gênese mosaica coloca no plural o verbo fazer, o ato da criação, deixando claro que havia um cocriador ao lado da Divindade Universal, e isso data de alguns bilhões de anos. Quer mesmo essa resposta?

- Não.

- Esteja em paz, Haemon. O espírito dele envolve a Terra em todas as dimensões. Envolve você também.

- Eu sei, irmão. É que, pouco evoluído que sou, quer ostensivo se tratando dele. Não chego a desejar ser um de seus preceptores, tampouco um dos seus colaboradores diretos que imagino terá. Eu seria o mais feliz dos homens se pudesse estar com ele em carne e osso nem que fosse por um átimo; tocar o vaso que guardará inteligência, sentir a energia desse gigante, ainda que invólucro grosseiro. Seria um momento íntimo entre ele e eu, que assim poderia por toda a eternidade dizer para mim mesmo: ele assumiu nossa forma, nossos incômodos e dores; ele nasceu na Terra e eu estava lá. Eu fui testemunha de um acontecimento que marcou o fim de uma era e o início de outra. Eu vi o Logos fazer-se homem, diminuir-se até nós e viver conosco. Ah, Eber, eu queria tanto!

- Não chore; espere e confie. Cada um tem exatamente o que merece e precisa. Caminhemos. O sol já se faz menos inclemente e temos um longo trajeto até Mênfis.

Capítulo 32

Enquanto os essênios andavam pelo deserto, nossos conhecidos ãe Tebas passavam por diversas tribulações.

Para Péricles, que tanto admirava o general, estar ao seu lado exército já não era o bastante. Agora desejava ser igual a ele; na veru.ie. queria ser o próprio Proteu. Dirigir o exército do faraó em sua ausência fizera o grego considerar que o general se tornara desnecessário. Havia feito um belo trabalho ao lado dos mercenários e egípcios, e não gostaria que ele voltasse e tirasse o seu lugar de mando. Por diversas vezes enviara homens armados para atacar e matar o líder pelo deserto. estes nunca conseguiam interceptar a comitiva, que intuída pelos protetores mudava o curso de seu itinerário.

Restava agora traçar um plano inteligente. Péricles sabia que o faraó e o general se suportavam por puro interesse mútuo e que. portanto, jogar Hakor contra Proteu não seria uma tarefa tão complicada. Precisaria, sim, pensar com muito cuidado em algo sólido e convincente para afastar de vez o ex-ídolo, convertido agora em rival, do posso chefia que queria ocupar. Péricles ainda não tinha claramente definido o que fazer contra o superior hierárquico; sabia apenas que o plane veria envolver Kyia, menina dos olhos do gigante grego.

A ideia lhe veio quando todos estavam em Mênfis. Ele e KereáB substituíam os irmãos em seus postos. Kenefer havia confidenciado seu amor por Kyia e o soberano procurara pelo chefe do exército, com Trifl ao envio de expedição a Mênfis para sequestrar e devolver a ex-esposa do conselheiro. Ao ouvir dele que certamente Proteu a traria de volta como esposa, o rei do Egito indagou ainda se haveria condição de comprá-la do mercenário, o que o substituto do general achou muito improvável, de vez que ele a amava realmente e tinha muitas riquezas tomadas das grandes pirâmides. A despeito de não poder ajudar o faraó naquela ocasião, Péricles se convencera de que a derrocada de Proteu enquanto general de Hakor teria de envolver a pessoa da jovem egípcia.

Kyia, por sua vez, nos últimos dias vinha dando excepcional trabalho a Sobeknefru, que não conseguia ajudar a moça em suas crises diárias de vômitos, pesadelos noturnos e pânico diuturno. O sacerdote tentara todos os tônicos possíveis e nada amenizava a aflitiva situação. Proteu, desconfiado que a esposa adquirira doença desconhecida na câmara secreta, como acontecera a ele, concluira que só restava esperar Haemon para diagnosticar e curar o mal. Enquanto isso, a jovem parecia definhar. Já nem saía de casa, onde recebia Tula e Sobeknefru com poções que a faziam vomitar e sofrer ainda mais, a ponto de quase perder a razão.

Foi quando Péricles aconselhou o superior a tirar uns dias de folga para ficar com a esposa e deixá-lo em seu posto, do qual cuidaria com zelo. O general falou com Hakor e obteve a folga, bem como a crítica malévola de Péricles. Esta foi ouvida por Kenefer, que ao saber da doença da ex-esposa acompanhou o rei para vê-la, ao fim do expediente, reforçando no outro a ideia de planejar algo abrangendo aquele triângulo de sentimentos diversos.

Proteu abriu a porta e olhou desconfiado para Kenefer, parado na soleira.

- Veio para me bater novamente?

- Creio que já estamos certos quanto àquele assunto. Vim pedir sua permissão para ver Kyia, talvez possa ajudar.

- Seja bem-vindo, Kenefer! Sobeknefru tudo fez para ajudar minha esposa e nada tem adiantado. Se você não o fizer e Haemon demorar mais, creio que ela poderá morrer.

- Leve-me até ela.

Kyia se encontrava sentada em um divã enrolada em uma manta de lã que não deixava um só minuto, apesar do calor local e do suor que lhe descia pelo corpo aos borbotões.
Kyia! O que houve com você, querida?

- Ken! Ajude-me, tenho medo.

- O que teme?

- Eu não sei. Mas sinto medo sempre crescente, monstruoso, infinito. É como se um perigo fabuloso me rondasse, como se um exército de inimigos se aproximasse para atacar-me e trucidar-me. Entende?

- Sim, eu entendo. Não sente calor?

- Sim, mas se retiro a manta o medo aumenta; é como se sem ela eu estivesse ainda mais vulnerável.

- Acredita em mim, Kyia? Acha que eu a exporia a algum perigo?

- Acredito que me ama; sei que não me exporia a nenhum mal.

- Então eu lhe digo que pode se desenrolar dessa manta.

- Kenefer!

- Eu queimaria minha própria pele antes de arranhar a sua.

O escriba levou mais de quinze minutos para retirar a manta do corpo da ex-esposa. Kyia usava apenas uma camisa de linho encharcada de suor, colada no corpo, que ao ser descoberto passou a tremer. Kenefer pediu uma vasilha de água e uma toalha limpa, com as quais passou a limpar o suor da moça.

Proteu, num canto do aposento, sentia-se arder em ciúme, porem nada ousou fazer, visto que nos últimos dias tinha tentado de tudo, sem sucesso, para tirar a esposa daquela situação.

- Tome um pouco de água, amiga. Vejo que seu corpo grita por elaj sua pele cola em si mesma.

A ex-esposa tentou. Ingeriu um pouco da água, cujo volume parecia multiplicado quando voltou, em uma violenta crise de vômito, com; se fosse uma substância emética. Chorando, Kyia confidenciou-lhe:

- Se eu tiver de viver assim, prefiro morrer.

- Não fale besteiras, eu vou ajudar você. Acha que existe a possibilidade de estar esperando outro bebê?

- É uma possibilidade que sempre existe com uma mulher casadaj mas ainda não tive tempo para suspeitar disso. E também não me senã assim quando tivemos Nyla.
Cada caso é um caso. Pode ser que se sinta diferente desta vez. Colha um pouco de sua urina e eu levarei para fazer o teste.

- Como pode ser isso?

- Coloco sua urina no pé de uma planta sensível a substâncias próprias de uma mulher grávida. Se for o seu caso, no dia seguinte a planta estará amarelada e ressentida; se seu aspecto não se alterar, é porque não terá um bebê. De toda forma, eu lhe darei algo que aliviará os sintomas desconfortáveis.

- E o medo?

- O remédio a fará dormir e esquecer esse detalhe apavorante.

- Nem tenho lembrança de quando dormi uma noite tranquila. Se cochilo, sou arrebatada a charcos sombrios e malcheirosos onde corro sem sair do lugar e uma turba de maltrapilhos anda cambaleante em minha direção, igualmente sem nunca chegar; todavia, impinge-me terror tão assombroso que não me abandona ao acordar.

- Dormirá hoje, querida criança.

Quando Kenefer deixou a casa de Haemon, Kyia dormia serenamente. Ele voltou na manhã seguinte com a confirmação de que a ex--esposa esperava um bebê.

O bom escriba retornaria cinco meses depois, para auxiliá-la num processo doloroso de aborto. Kenefer tudo fez no afã de salvar o novo ser, mas não houve nenhum recurso para ele; o feto já estava sem vida dentro da mãe. Kyia chorou tristemente, sentindo um vazio físico e espiritual; porém o medo, que a acompanhava diuturnamente, parecia ter saído dela com o filho gorado.

- Perdoe-me, Kyia, não consegui segurá-lo dentro de você.

- Não foi sua culpa, sei que ele já estava morto quando você chegou aqui.

Após cuidar de Kyia e fazer suas recomendações médicas, ele saiu levando o natimorto envolto em faixas. Sentia a angústia abater-lhe a alma. “Se Haemon estivesse aqui, teria salvado o pobre bebê”, pensou no auge da desesperação. “Não deveria ter me metido a coisa tão séria. Pobre Kyia, uma vez deixei-a cega, e agora deixei morrer seu rebento.” Â margem do Nilo ele depositou o minúsculo corpo e o cobriu com a erra negra trazida pelo rio. Olhava desolado para a cova do pequeno quando uma entidade com aspecto calmo e sereno surgiu ao seu lado sem que ele notasse sua aproximação.

- Esteja em paz, Kenefer; fez sua parte salvando a vida da mãe. Aquele espírito não veio para nascer e crescer. Kyia é uma mulher muito forte\e conseguiu mantê-lo por cento e cinquenta sóis. Isso foi além de nossas expectativas.

- Como alguém pode vir para não nascer e crescer?

- As vezes o que parece triste e injusto nada mais é que um ato da mais pura misericórdia divina. Ao ser socorrida, Azeneth tinha o corpo sutil plasmado na forma de múmia em franco estado de putrefação; a pobre irmã acreditava estar se decompondo, e isso acelerou a força de retração própria destes nossos corpos. Com tal pensamento ela estava comprometendo sua forma humana, que, uma vez desfeita, demoraria muito a ser recuperada. Para parar esse processo com maior urgência seria necessário pôr para funcionar a força de expansão, que é contrária à de retração e também própria destes corpos que usamos após a morte física. E o único jeito de conseguir isso é colocar o doente o máximc de tempo possível em um útero, pois é lá o lugar onde mais depressa crescemos e consequentemente ativamos nossa força de expansão; estando esta inativa, como no caso de Azeneth, o corpo não responde ao tratamento de que necessita. Entende agora por que, embora você tenha obtido muito sucesso em seu intento, o bebê de Kyia não vingou?

- Acho que sim. Mas por que nosso corpo etéreo precisa dessas forças?

- E de que outro modo ele se adequaria às variações do corpc físico, que de uma célula se transforma em milhares, sofre mutilações] aumento ou diminuição de massa e, ainda no processo de retorno à carne, tem de assumir o tamanho de um zigoto? Essas forças são de suma importância para nossos corpos.

- Então, de um tamanho normal para um zigoto esse corpo nàffl perde matéria, como aconteceria com o físico?

- Justamente; a matéria dele se expande ou se contrai sem aumento ou diminuição real. Foi este o trabalho de Kyia: ajudar Azeneth nesse processo. E o seu foi o de ajudar a moça a sobreviver a processo de tão alto risco. Estejam em paz, estejam felizes. O propósito foi alcançado, e todos ganharam em sua caminhada evolutiva.

- Mas acha que é justo o sofrimento que isso causou a ela?

- Tudo é justo, porque existe um Justo a velar por tudo. Kyia não passou por isso à sua revelia; foi consultada e aceitou a tarefa, visto que, além de ajudar Azeneth - de quem em certa medida era devedora, por ter contribuído para sua triste situação quando sugeriu o assassinato de Apepe -, a perda do bebê fez doer-lhe o coração e servirá para que não repita o erro que cometeu com Nyla, ao negligenciar e entregar a outrem a obrigação que era dela. Tudo tem um propósito benéfico para todos. Você foi corajoso ao adentrar a casa de Proteu para tratar-lhe a esposa, sendo seu ex-marido; cumpriu sua missão sem temer a reação do guerreiro, pulou por cima do medo e do orgulho ferido pela traição.

- O orgulho ferido até que sim, mas medo dele eu não tenho; haja vista que já o desafiei para uma briga de braço e o venci.

- Sei que não acredita realmente nisso, Kenefer. Um só golpe que recebeu continha centenas de vezes mais força que todos os que aplicou.

Ele baixou os olhos com humildade.

- Eu temi pela saúde de Kyia. Sabia que Haemon estava ausente e que o marido nada podería fazer para ajudá-la.

- Não se entregue, portanto, ao desânimo. Sem você Kyia podería ter morrido. Continue prestando auxílio a todos que precisem. E que a paz esteja com você!

Assim como surgira a entidade desapareceu, deixando Kenefer animado e seguro. Desejou contar a Haemon. Onde estaria o amigo e mestre?

Capítulo 33

Haemon se encontrava em companhia de Eber às portas de Mênfis. com o coração acelerado. Estava bem perto do Alef. Finalmente tomaria nas mãos o enigma perdido!

Respirou fundo ao ver a esfinge, situada a sudeste da grande pirâmide, voltada para leste. O leão com cabeça de Quéfren usando uma peruca ritual: vinte metros de altura e 57 de comprimento de pura ostentação; o protetor da necrópole, a guardar orgulhosamente o repouso dos mortos e afastar os espíritos do mal.

A esfinge, um leão, é o símbolo do rei. Talvez por tal motive Quéfren quisera ser retratado desse modo. Leões presidiam o nascer e o pôr do sol para que o ciclo solar se realizasse harmoniosamente. Por isso as esfinges eram colocadas diante de templos e sepulturas.

Os viajantes beberam água e descansaram antes de entrar ou templo que teria existido entre as patas da esfinge. Haemon pedal a colaboração de Eber para reabrir a porta que havia sido selada aw longo dos anos.

Ao contrário do que pensaram os sábios, a porta era ao nível da chão. O templo ficava entre as patas do monumento, porém na sua base., sob o corpo do leão. O cômodo onde um dia Quéfren chorara e or. por sua mãe não passava de uma sala quebrada; havia sinais de que : trora existira ali um nicho ou coisa parecida, mas se não fosse pelas 9 descobertas anteriores Haemon nunca imaginaria que aquilo havia á um templo. Na parede em frente à entrada, as insígnias do Alef estar: desenhadas abaixo da escrita ainda legível:
“A metade dos belíssimos se opõe ao horizonte”

“Uma menina entre as quatro se esvaziou”

“O leão de Judá aclama seu gestol”

Tendo os olhos lacrimejantes, pediu ao companheiro para cavar no canto esquerdo até encontrar a pedra angular e, com precisão cirúrgica, arrombar o artefato.

Por um tempo indefinível o grego mirou o volume tal qual Proteu o descrevera: um objeto roliço envolvido em couro de ovelha. Em silêncio agradeceu a Deus e, como se tocasse um delicado recém-nascido, tomou o Alef nas mãos. Eber aproximou-se.

- Posso?

- Claro, filho, toque-o. Entretanto, não o abra agora; não sabemos que tipo de armadilha nossos ancestrais colocaram nele.

-Já ouvi histórias a esse respeito; dizem até que quem o abre morre pouco depois. Contudo, não quero pensar nisso; deixe-me tocar o legado dos primeiros imigrantes do planeta. Não sei por que este objeto não me é estranho.

- Não sabe mesmo?

O rapaz não respondeu; apenas chorou calado e com o Alef nos braços exclamou meio entorpecido:

- Meu Deus! O que teríamos escrito aqui?

- Nós saberemos no momento apropriado, quando estivermos mais próximos da aldeia. Se algo nos acontecer o Alef se perderá de novo, e não temos mais muito tempo.

Rapidamente saíram de Mênfis. Haemon desejou mostrar o tesouro a Proteu e Kyia; achava que eles mereciam a visão do tão admirável, concorrido e desejado Alef. No entanto, a prioridade não era essa, e sim levar a relíquia para a segurança da aldeia para os cuidados daqueles que deveriam ser seus guardiões até a chegada da Grande Estrela, do Logos Planetário.

Quando faltava pouco mais de meio dia de caminhada para a aldeia essênia, Haemon chamou Eber para conversar.

- Filho, estamos quase chegando à comunidade. Como bem sabe, abrir o Alef é assinar uma sentença de morte. Na antiguidade foram nele colocados venenos que se tocados ou aspirados matam em tempe breve. Sabemos que alguém terá de fazer isso, e, para que possa sev usado no grandioso propósito a que foi destinado, este material dercsá ser lido e transcrito em pergaminhos descontaminados. Do contrintK como seria? Imagina o Grande Logos debruçado sobre veneno letal?

- Em hipótese alguma se pode conceber isso. O que está pensanda^ Haemon?

- Agora que estamos perto da comunidade, mesmo que aspire < veneno terei tempo para fazer esse trabalho e entregar os escritos mãos do chefe, antes de morrer.

- E quanto a seus parentes em Tebas? Acha que terá tempo j ir até lá?

- Talvez. Seja como for, por mais que partir sem dizer adeus faça doer o coração, é preciso optar pelo mais útil. Eu vou transe cada palavra destes pergaminhos, conferir letra por letra, e então truirei o original contaminado. Levarei esta preciosidade para as : de Lamech; só assim darei por cumprida minha missão.

- Deixe-me então ajudá-lo; assim ganhará tempo para sua vb a Tebas.

- Filho! Não existe a necessidade de sacrificar duas vidas quar sacrifício de uma só é suficiente.

- Como pode ter certeza? E se o senhor não conseguir fazer trabalho sozinho? É possível que se canse, que sua vista falhe, que j mãos entrem em colapso... E se eu me for deixando o senhor ca Alef e um salteador passar? Tem força para lutar com ele e protegí tesouro? Acho que está sendo um pouco imprudente, para não d arrogante. Não estou aqui por acaso; sou necessário a esta missão.

- Perdoe-me a arrogância. É que pensei em poupar-lhe a vida vem e saudável.

- Está pensando somente no corpo, amigo. Pense além. Adoec: morrer, em face de ler o Alef, higienizar o material de estudo do Gra Enviado, ser parte no grandioso plano cósmico, é um preço muito há já que morrer e viver, como dizemos, são apenas estados diferentes uma mesma vida. Quantos corpos ainda terei? Quem pode garantir que serei eu próprio a manusear o Alef descontaminado daqui a mais ou menos um século? Quem sabe eu me sacrifique agora para mais tarde trabalhar em segurança?

- Não pode morrer, Eber. Lamech tem planos para você.

- Nada que outro não possa fazer. Ninguém é imprescindível.

- Está correto. Comecemos então nosso admirável trabalho. Antes, porém, devemos envolver nossos rostos em faixas; isso irá servir como paliativo na contaminação.

Deixando só os olhos descobertos, Haemon começou a desamarrar as, tiras de couro que envolviam os pergaminhos. Em dois maços separados, os escritos estavam dispostos de maneira sistemática e organizada. O primeiro deles lembrava a Gênese mosaica, se referindo claramente à criação do planeta.

“No princípio Deus criou a Terra, que se encontrava incandescente e disforme, contendo todos os elementos vitais em estado de vapor”. Durante dias intermináveis ela foi se resfriando e a água em suspensão se precipitava sobre o solo em brasa e voltava rapidamente para a atmosfera. Quando enfim a água se sustentou sobre o solo, este estava escaldante e sem condições de vida, até que o vapor existente se dissipou e a luz do sol entrou vibrante no planeta-bebê. Era como se pudesse ser ouvida a “voz” de Deus a chamar a luz, e a luz foi feita. Por milhares de vezes a luz se fez dos dois lados da Terra, que dançava no espaço infinito. Então os elementos submersos na água rasa se projetaram, formando camadas distintas e juntando a água, que ganhou profundidade.

“Por mais uma infinidade de tempo o solo permaneceu nu, mas dos elementos que já se espalhavam por todo o mundo surgiu a vegetação”. Era o sopro divino sobre a parte seca do planeta, fazendo brotar a vida. O clima produzido pela vegetação tornou a atmosfera ainda menos densa e a visão de muitos outros mundos se fez no firmamento quando’ o sol se escondia. Mais tarde as águas, sob o comando de Deus, produziram os primeiros seres minúsculos e sem inteligência que evoluíram para os peixes e animais aquáticos, entre os quais muitos continuaram a evoluir e saíram para a parte seca. E tendo Deus todo o tempo de que se possa dispor, a eternidade, os minúsculos seres se transformaram em gigantescos répteis que andavam pesadamente sobre o chão. Eles povoaram a Terra por longo tempo, até que novamente a atmosfera se adensou, devido a astros que se precipitaram no jovem planeta, e a luz deixou de entrar, tornando o solo gélido e infértil.

“A vida assumiu o estado” latente - se antes pelas altas temperaturas, agora exatamente pelo contrário - e milhares de dias se passaram até que a camada de pó se dissipasse para deixar o sol entrar e aquecer a partir do centro, fazendo a água voltar a seu estado normal. Quando enfim o ambiente estava pronto e fertilizado pelos cadáveres dos animais extintos, Deus colocou na Terra o homem, simples e ignorante, com. todas as possibilidades de se tornar imagem e semelhança daquele que 1 o criou. E o homem evoluiu em corpo e alma para o que é hoje, belo e

inteligente, porém longe da forma a que está destinado.

“Havia também desde o princípio o Logos. Ele estava com Deus, todas as coisas foram feitas com sua intervenção e sem ele nada do que foi feito se fez. A vida estava nele e ele é a luz dos homens, que no momento certo se fará carne como nós e viverá entre nós, para a glória dos filhos de Israel e do mundo inteiro.”

- Meu Deus! Por isso as tribos de Israel são divergentes sobre o Alef. Consideram que ele desacredita Moisés, porque tomaram seus escritos ao pé da letra.

- A Gênese mosaica não é mentirosa; apenas mostra os conhecimentos que ele tinha na época, que não eram como os de hoje. Quanu: disse que o espírito de Deus repousava sobre as águas, ele não sabia explicar por que as águas estavam em suspensão; e era pela alta temperatura que as transmutava em vapores.

- Exatamente. E os sete dias a que se refere podem bem ser períodos mais ou menos extensos, de acordo com a necessidade. Se um grão de cereal leva até cinco dias para brotar, como se faria tudo que se vê e o que não se vê em apenas sete? Deus estabeleceu leis naturais e se de mesmo as descumprisse seria sinal de que não eram perfeitas; e.tuào que ele faz tende a ser perfeito como o é o Criador.

- Irmão Eber, morreremos em breve, é certo, mas levaremos mais c:-nhecimentos destes pergaminhos do que se tivéssemos vivido por mil anos.
- E como vale a pena, pois voltaremos trazendo esses conhecimentos para uma nova vida!

- Sigamos, irmão.

O segundo pergaminho tratava da queda do homem. Discorria sobre a progressão dos mundos e os exilados de um orbe evoluído onde o pão não mais se adquiria com o suor no rosto, visto que nele a era de trabalhos pesados já não existia. Colocava a serpente como o monstruoso ego humano e o fruto da ciência do bem e do mal como a responsabilidade pelos próprios atos, em virtude do conhecimento adquirido. Abel representava o bem e Caim o mal. E o assassinato de um pelo outro mostrava que o mal ainda impera na Terra.

A encarnação de grandes sábios de moral duvidosa no planeta jovem explicava o que os escritos do profeta chamavam de geração de gigantes, assim como o avanço de certas civilizações, entre elas a do Egito.

- De fato, é muita informação para os infantes da terra. Moisés contou tudo isso de maneira simbólica, infantil e ingênua.

- O Alef deve ficar entre os iniciados. As pessoas comuns não suportariam tamanha revelação. A comunidade israelita poderia entrar em crise e a crença no Deus único ficaria comprometida.

- Sim, estes ensinamentos são para quem tem maturidade. Acredito que o Logos fará certas revelações, ele saberá como agir. Cabe a nós zelar por isto até que ele venha.

O terceiro pergaminho do Alef tratava do grande dilúvio.

“Houve ventos e turbulência por toda parte e parecia que o mundo ia se acabar. Casas inteiras voavam como pássaros e até bois pareciam criar asas. De repente, como se viessem dos céus, águas do mar avançaram por terra cobrindo cidades e até montes, obrigando os que se salvaram a construir novas moradas em outro local, dado que aldeias se transformaram em mares de água salgada.”

- Acha que seja essa a origem dos mares fechados?

- Não tenho a menor dúvida. O primeiro texto mostra que toda a água que existe não é capaz de afundar os montes. Se eles se ergueram e agruparam a água, que só então ganhou profundidade, isso nos leva a crer que o dilúvio não foi sobre toda a Terra e que não se tratava de uma chuva ininterrupta; foi, sim, um maremoto que formou ondas gigantescas que avançaram sobre o solo.

O quarto pergaminho contava de uma invasão de povos vindos do mar; povos desconhecidos que falavam de modo ininteligível e não se entendiam nem mesmo entre si. Aqueles dentre eles que se entendiam se aglomeravam em aldeias distintas, cercadas por altíssimas torres de vigia, onde cresciam e se multiplicavam.

- Torre de Babel! - Haemon disse ao companheiro.

Durante muitos meses os dois sábios estiveram às voltas com os pergaminhos, boa parte dos quais era história: trajetória dos viajantes interplanetários; grandes cataclismos que destruíram cidades inteiras: guerras e genocídios, ascensões e quedas do poder temporal; historias de reis, faraós e profetas. Então, um maço de pergaminhos estava, transcrito.

Naquela noite, depois de revisarem minuciosamente cada texto, os sábios atearam fogo no primeiro maço original. Conversavam ao lado da fogueira quando Eber percebeu que Haemon sangrava pelo nariz.

- Sente algo, amigo?

- Meus olhos ardem e venho tendo dores de cabeça. E você?

- Sinto ardência nas pontas dos dedos e sob as unhas.

- Acho que já iniciamos o processo.

- Tudo bem, o maior maço de pergaminhos já foi copiado.

Na manhã seguinte, logo após as orações, os dois abriram a segunda parte do Alef. A introdução falava do grandioso plano cósmico.

“Ao principiar o tempo da vinda do Logos Planetário, aquele a quem as escrituras anunciaram como o Salvador, houve um acontecimento õe suma importância no plano invisível de vida”. O Espírito Santo convocou dez mil espíritos de escol para traçar o plano de sua vinda à camc. que deveria ocorrer no momento em que as órbitas do sistema de Órioa se alinhassem, desprendendo uma quantidade de energia suficiente pan que a Terra pudesse suportar tanto brilho. O Logos deveria passar por uma espécie de condensação de sua natureza pura para se tornar possbt vestir-se como os habitantes do planeta. Tal processo levaria milênios seria necessário apagar esse Sol para que ele não queimasse a Terra.
“Durante esse processo o Guardião entregou a direção do planeta aos dez mil espíritos que trabalhariam nos dois planos de vida para o sucesso do grandioso plano”. Milhares de espíritos malévolos foram aprisionados para não intervirem com sua energia pesada no plano supremo, e muitos espíritos de elite começaram a encarnar na Terra a fim de preparar a acolhida da Grande Estrela que, embora de brilho inco-mensurável, precisaria de um suporte enquanto retida na carne.

“A comunidade foi instruída e ensinada por ele para que depois pudesse receber dos próprios ensinamentos, quando menino na Terra. Esses preceptores da Grande Estrela começaram a chegar ao planeta muitos séculos antes e guardam os ensinamentos de geração em geração, devendo retornar ao plano de origem no final da missão.”

- A sociedade deverá extinguir-se com o retorno do Logos.

- Eu já imaginava.

- Olhe, Haemon: esta parte que eu peguei para copiar parece trecho de um diário de um chefe essênio.

Os dois se debruçaram sobre o manuscrito.

“Estranho, os iniciados que me chegam possuem conhecimento vasto sobre as coisas ocultas e são gênios da medicina e da arquitetura, mas possuem dureza e amargura no coração que somente a Grande Promessa consegue atenuar e adocicar. Acho mesmo que é esse o nosso dever. Acreditam ter vindo de um paraíso distante, onde a felicidade era cotidiana, e pretendem morrer para voltar ao local de origem. A maioria, porém, não consegue se adaptar à falta do contato das mulheres e das riquezas e voltam para suas cidades corrompidas e obscenas. Todavia, cada um que fica se torna um de nós por excelência, podendo inclusive trabalhar na execução do plano que cumpre a Grande Promessa de Deus.”

- Aí estão os segundos iniciados, os irredentos.

- Eles chegaram à Terra e foram atraídos pela sociedade.

- Afinidade é uma força criadora.

A segunda parte do Alef era de uma riqueza espetacular. Os grandes enviados do Cristo Cósmico tratavam de questões pertinentes ao espírito e sua sobrevivência ao corpo, do fluido universal e da cura através das ervas, do toque e da imposição de mãos. Falavam do corpo fluídico e de suas propriedades, da interação dos dois mundos e da reencarnação a que chamavam metempsicose, da evolução das espécies e da variedade de mundos habitados. Diziam que todos os homens são iguais perante Deus, ainda que a nós pareçam deferentes, pois ele conhece o grande propósito da criação, que é a perfeição moral e intelectual.

Se a primeira parte do Alef incomodava o povo hebreu, a segunda desgostava poderosos e sacerdotes. Esse parágrafo era sem dúvida ura incômodo para os grandes faraós, que não pensariam duas vezes para destruí-lo.

Por isso os pergaminhos eram tão bem guardados. Não faltava quem os quisesse destruir, como se assim fosse possível eliminar a verdade neles contida.

O Alef continha também artigos sobre medicina, psicologia. Satânica, alquimia, matemática, lógica, ética, astronomia, letras, música, política, sociologia, linguística, telepatia, levitação e religião. Nada precisaria sem ser “lecionado” ao Logos. E Haemon e Eber enriqueceriam seus conhecimentos.

O sol se punha gracioso quando os sábios terminaram suas cra-ções vespertinas e atearam fogo na segunda parte da relíquia “trarâdc. do Éden”. Aproveitando o frescor da hora, eles caminharam ruma ã sociedade essência. A noite já ia ao meio quando avistaram o lago az JL Decidiram passar o resto da noite em sua margem, para não perr_zz«j o sono dos amigos. Na manhã que se anunciava, foi cheio de emcçãli que Haemon depositou nas mãos de Lamech os pergaminhos ncmflfl descontaminados.

- Bem-aventurados sejam, irmãos! Desejo que a Luz dos homens os envolva, enchendo-os de paz.

- Que seja assim, irmão! Tenho hoje minha maior missão cumprida, mas meu tempo é demasiado curto. Sei que estou de partida e me separo fisicamente de vocês, de meus companheiros em Tebas e mesmo do Logos, porém estou feliz por ter deixado minha contribuição parao grandioso plano cósmico.

- Não chore, Haemon! Do Logos não se pode perder; ele é energia que abrange distâncias inimagináveis.
- Eu só queria tocá-lo por um segundo.

Ao abraçá-lo, Lamech notou a temperatura elevada.

- Está febril.

- Isto era previsível. Não se preocupe, irmão; cuide de Eber. Eu devo passar por Tebas antes da partida.

- Eu sinto muito!

- Não precisa. Fizemos o que escolhemos e estamos felizes com isso. Adeus, grande amigo, irmão e mestre.

- Que os anjos de Luz o acompanhem, além do rapaz a quem confiarei a sua escolta.

- Não se preocupe com isso; posso partir só, como vim. São meus últimos momentos na Terra; quero estar apenas comigo nesta viagem, a fim de poder fazê-la também para dentro de mim. Adeus Lamech!

E abraçou Eber com carinho.

- Até breve, amigo!

- Será breve mesmo?

- Eu espero que sim.

Capítulo 34

Durante a viagem Haemon pensou a respeito de tudo quanto aprenderi com o Alef... Não só dos seus escritos, como também do que começari a entender desde que recebera de Proteu a chave do primeiro enigmx a volta no tempo e as descobertas acerca de seu passado. Como eram perfeitas as leis do universo! Colaborara com um propósito grande, mas quanto ganhara nessa jornada!

A cada dia que nascia o sábio se sentia mais fraco, cansado e dolorido; sangrava pelo nariz e por todos os poros, numa espécie de hema::--hidrólise penosa e abundante.

Era alta madrugada quando avistou as portas de Tebas. Sentado no chão, mirou a lua e se lembrou do início de tudo, de quando passara a se empenhar na grande busca, na ocasião em que Proteu e Kyia haviam regressado do Oriente. Ah, os irmãos! Queria tanto contar-lhes sobac o Alef! Temia, pois, não ter tempo. Estava no fim; caminhara mui:; e agora, tão perto de casa, sentia as forças minadas e a impotência par* terminar a jornada. A lua, que estava cheia e bela, foi sumindo e o bacx essênio perdeu os sentidos de tempo e espaço. Pensou ver o rosto de Amonet antes de cair em um vácuo infinito.

Proteu se encontrava no regimento militar de Hakor quando a guarda noturna ali chegou e procurou por ele. Esse destacamento a responsável por estabelecer ordem na cidade durante a noite: matai assaltantes e assassinos, dar um corretivo nos bêbados e baderneiros, bem como recolher cadáveres que amanheciam amontoados pel» ruelas estreitas.

- General, em nossa ronda, logo ao amanhecer, tivemos uma surpresa bastante desagradável: às portas da cidade encontramos, desacordado e em crise hemorrágica aguda, seu irmão Haemon.

- Por Zeus! O que aconteceu a ele? Prestaram socorro? Para onde o levaram?

- Não sabemos o que sucedeu ao grande mestre. Prestamos socorro, sim, e o deixamos na própria casa em companhia de sua esposa.

- Vá para casa, general, eu assumo o comando! - interveio Péricles, que chegava ofegante, fingindo preocupação com o sábio.

- Eu lhe agradeço, Péricles; vou ver meu irmão.

Mal o general cruzou os portões do quartel, o maldoso substituto correu até Hakor a fim de delatar que, mais uma vez, seu homem de confiança no exército deixara o posto por problemas pessoais.

- Haemon voltou e se acha doente? Chame a guarda do palácio para acompanhar-me até lá! Não posso conceber que meu conselheiro e amigo pessoal esteja sozinho em momento de dor.

Quando Proteu entrou em casa, encontrou a esposa a chorar segurando a mão do moribundo. Ele se postou do outro lado da cama e pegou-lhe a outra mão.

- Proteu, querido irmão, que bom que tive tempo de vê-lo! Não chore por mim, eu cumpri minha missão. O Alef está nas mãos de quem poderá cuidar dele e usá-lo da maneira correta, aquela a que se destinou ao ser criado. O Alef consiste, como pensávamos, em escritos de riqueza ímpar, ensinamentos esplêndidos, porém não é para agora; ainda não temos compreensão para tanto. Hakor não deve saber que o descobrimos, ou mandaria buscá-lo mediante emprego de violência. Isso seria uma tragédia, pois aqueles a quem o entreguei são homens totalmente pacíficos; logo, seriam aniquilados pelos exércitos do faraó. E acreditem, irmãos, isso comprometeria muito a missão da Grande Estrela.

- Irmão, não morra!

- Ninguém pode conseguir tal proeza. Não estou morrendo, e sim voltando para casa.

- Não nos deixe! Como faremos sem você?
- Kyia, você viveu os anos mais frutíferos de sua vida na olaria de Faisal. Não foi ao meu lado. Continue crescendo e trabalhando.

- Haemon!

- Proteu, eu conheci um jovem muito forte, tão forte como você, e que maravilha! Nunca feriu ninguém; usa a força física como impulso ao crescimento próprio. Pense nisso.

O mercenário não pôde responder; limitou-se a um sinal afirmativo com a cabeça. O pranto lhe estrangulava a voz. Kyia limpava o suor sanguinolento do amigo, que pediu para ver Hakor no momento exato em que este entrava na casa.

- Haemon, não lhe permito morrer!

- Grande Ra, hoje excepcionalmente vou desobedecer-lhe.

- O que hoüve com você? Parece envenenado.

- Talvez tenha sido. Recordo-me de acordar ao lado de um ninho de serpentes, que não pude ver quando acampei na noite anterior.

- Então foi mesmo isso, amigo. Não tentou um antídoto?

- Nada pode ser feito. Aquiete-se, Hakor, não percamos nosso tempo. Preciso falar-lhe algo importante.

- Fale o que quiser, mas não vai morrer.

— Escute bem. Mantenha Kenefer em meu lugar; ele sabe como auxiliá-lo devidamente, com competência e bom senso. Não quero ser mumificado. Nem pense, ouça bem, nem pense em encerrar junto a meu corpo sem vida qualquer um de meus amigos ou familiares; cada qual tem seu tempo de ir para a tumba. Não conseguirei repousar vendo meus afetos morrerem de fome, sede e asfixia ao meu lado, enquant; espero os espíritos que me levarão ao paraíso. Entendeu?

O faraó sorriu com ternura.

- Sei que não acredita nisso, meu irmão. Contudo, se é o seu desejo, assim será: apenas você repousará em sua tumba. Também não sen agora. Vamos, melhore para retomar o trabalho ao meu lado; você faz falta. E quanto ao Alef? Como vou achá-lo sem você?

- Esqueça o Alef, amigo. Ele não é para agora.

Haemon cerrou os olhos e aspirou profundamente. Sentiu cx! quando o ar penetrou em seus pulmões; sabia que estava por pouco tempo. Tula entrou no quarto, silenciosa, achegou-se ao doente e beijou sua testa. Haemon sorriu.

- Obrigada por tudo, amigo! - colocou um saco com algumas moedas gregas na mão do sábio. - Isto é o pagamento do barqueiro para que ele o atravesse para o mundo dos mortos em segurança.

- Dê as moedas aos pobres e escravos - ele sussurrou com um fio de voz. - É essa a garantia de uma travessia segura para o mundo dos mortos.

- Está certo disso?

- Sim, amiga irmã, eu estou.

Hakor, Proteu, Kyia e Tula rodearam o leito de morte de Haemon e ali permaneceram até que o sábio desse o último suspiro, entre lágrimas de pesar, não por estar encerrando a vida física, e sim por deixar o planeta que o acolhera para o trabalho em busca da regeneração.

Haemon abandonara o corpo da forma como nele vivera: tranquilo, sereno e resignado aos desígnios maiores. A amiga espiritual que o tutelara no curso de todos os seus milênios terráqueos estava presente no momento certo de desatar os laços que o prendiam ao corpo de carne e encaminhá-lo no plano maior. Em suave torpor, ele foi levado a descansar por um período antes do despertar grandioso, prêmio daqueles que cumprem o propósito a que vieram.

Em sua casa no plano terreno, principiara o tumulto. Cada pessoa em Tebas que havia recebido dele um pão, um remédio, uma palavra ou um sorriso, uma intercessão caridosa junto ao faraó, um conselho, um trabalho, queria dizer adeus ao benfeitor. Eram tantas as dádivas vindas do velho sábio que em questão de segundos a casa estava superlotada. Antes do fim do dia, um cortejo gigantesco atravessou o Nilo rumo à cidade dos mortos, onde foram depositados os restos de Haemon.

Kyia, Proteu e Tula foram os últimos a deixar o local. Os três ficaram em completo silêncio, como se vigiassem a tumba do sábio querido, deixando a mente divagar ao tempo em que Haemon estava entre eles.

A voz do sábio ecoava na memória de cada um naquele momento triste e solene.
“Francamente, Kyia! Como podefazer tudo errado? Deve ser até difícil errar tanto... Acho que nem de propósito alguém conseguiria. Você quase nunca trabalha, e quando o faz é com essa balbúrdia. ”

A moça sorriu entre lágrimas, refletindo: “Haemon valorizava acima de tudo o trabalho; tanto que elegeu como o melhor tempo de minha vida aquele em fui forçada a trabalhar com Faisal. Prometo a você trabalhar muito”.

“Sou seu irmão, Proteu, e entendo seu sentimento de homem. Os deuses gregos são muito medíocres para sentir tamanhaforça. Não queira ser invulnerável, irmão; éjustamente esta vulnerabilidade que nos difere dos fracos. Amar épara os poderosos, sofrer é para os fortes. ”

“Ninguém amava como você, meu irmão. Ainda bem que pôde ensinar-me um pouco sobre esse sentimento. Prometo que vou amar muito e usar minha força para fazer coisas boas.”

“Se esqueceu em que ponto perdeu sua vida, eu refrescarei sua memória. Você adquiriu essa doença quando planejou matar Apepe, e a agravou quando decidiu conservar seus despojosl'

“Fazer o bem era o melhor remédio de seu receituário. Vou tentar agir de modo mais correto; prometo a você, meu grande amigo”.

- Nós tivemos o privilégio de ter este homem ao nosso lado. Foi por um curto espaço de tempo, mas seus exemplos e ensinamentos são de valor inestimável e durarão a vida inteira.

- A vida sem ele será muito difícil em Tebas. A cidade perde um verdadeiro benfeitor.

Kenefer saiu da tumba acompanhado de Hakor e Sobeknefru, que com ele haviam presidido os últimos rituais póstumos: o sacerdote para encomendar o sábio, o escriba para grafar seus dados e atributos, e o representante direto de Ra para autorizar sua partida.

Hakor se dirigiu a Proteu e Kyia nestes termos:

- Que sorte a sua! Haemon poderia ter sido enterrado com honras de soberano e nesse caso você seria parte do ritual, bem como sua esposa.

- Sorte a sua também, grande Ra, pois sou o coração da defesa do Egito.
Proteu deu a resposta cinicamente e se lembrou das regressões para exclamar no íntimo que não era a primeira vez que escapava de ser enterrado vivo, e graças ao mesmo morto.

Péricles, que igualmente seguira o soberano, ouviu aquilo e odiou Haemon por ser tão humilde! Naquele momento seu rival poderia estar encerrado para sempre na tumba e ser ele o senhor absoluto dos exércitos do faraó. A ideia de enterrar o general vivo veio-lhe como uma flecha; seria um jeito de tirar o êmulo de seu caminho sem deixar pistas. Mas quem, além do faraó, arrastaria ao túmulo junto de si Proteu de Mileto? Hakor não permitiria enterrar seu general com ninguém senão ele próprio, e matar Hakor era manobra cem vezes mais arriscada que matar Proteu. Não, apesar de maravilhoso, isso seria impossível de se dar. Devia haver outra maneira de tirar o irmão de Haemon do local de seu desejo. Pensaria mais um pouco, tinha de descobrir como acabar com o gigante grego sem riscos.

Era a hora do culto a Ra e Hakor voltou ao palácio acompanhado de seus soldados. Os outros foram para casa, onde o vazio do lar mostrou o tamanho da falta que Haemon faria em suas vidas. Sempre que se envolviam em uma contenda, lá estava ele arranjando a melhor solução; se a dor chegava, suas mãos não demoravam a trazer o alívio; e se a dor era no coração partido, ele também tinha o remédio.

— Eu não sabia que gostava tanto dele.

- Coisa estranha: Haemon estava longe fazia tanto tempo e eu não me sentia assim, com o peito destroçado; agora que sei que ele morreu, a dor é tão profunda que parece que alguma coisa está quebrada dentro de mim.

- É como se nosso coração se fizesse em cacos e esses cacos dilacerassem o corpo pelo lado de dentro, lá onde não dá para aplicar pomadas ou unguentos.

- É bem assim, minha rainha. Sinto vontade de dormir por dias, anos, para não sentir esta dor. Eu quero meu irmão de volta. Por que fiquei tantas vezes longe dele, em guerras e conflitos externos? Poderia ter aproveitado sua companhia tão maravilhosa por mais tempo... Eu deveria ter estado com ele a vida toda.
Olhando através da janela, Proteu chorou. Kyia jogou-se em seus braços em pranto sentido.

- Gostaria de ir para Atenas. Não suportarei o Egito sem Haemon.

- Se quiser voltar para a Grécia, eu irei com você.

- Não sei se seria possível. Desde a guerra contra os persas não sou mais bem-vindo a minha terra.

- Esqueci que havia sido expatriado.

- A menos que eu faça a Hakor o que ele fez a mim naquela ocasião: troco os segredos egípcios e meus serviços militares pela revogação dessa expatriação. Assim a Grécia invade o Egito, o que é seu maior sonho, e eu regresso ao lar que agora é o meu.

- Mas, Proteu, sem você e seus homens o exército do faraó não conseguirá defender o reino.

- Se você estiver comigo em Atenas, nada mais aqui me importa depois que meu irmão se foi. Percebe-se claramente o declínio egípcio; é questão de tempo para gregos ou romanos tomarem este reino decadente

- Pretende voltar para Atenas, Proteu? -Tula entrava sem se anunciar com o mínimo ruído.

- Pretender não basta, Dimitrula. Fui expatriado como traidor, não se lembra?

- Tudo entre gregos é negociável. Comanda uma força militar poderosa que qualquer cidade-estado adoraria ter a seu lado.

- Não estou pronto para decidir nada. Preciso sofrer a minha do r

- Desculpe-me a intromissão em seu momento de luto. E qoe Péricles seguiu com o faraó e não me senti bem sozinha. Ao chegar sem querer os ouvi confabulando a respeito de voltar para a Grécia: ca não gostaria de ficar no Egito sem vocês.

- Não se preocupe. Se eu for, decerto meu exército irá, e seu ma rido é meu imediato. Peço apenas que não comente o que ouviu aquc

- Nada direi, mesmo porque nada sei além do seu desejo de vo

- Melhor assim.

Tula mentira descaradamente. Ouvira todo o assunto do c de amigos e correu a contar para o marido, cuja ambição conhecia detalhes.
Tenho de pensar em algo rápido. Partir para Atenas ele até pode e deve. Não posso, porém, admitir que leve seus homens para usá-los contra mim, que pretendo ocupar o seu lugar junto ao exército de Hakor.

- Péricles, meu querido, esse exército não existe. Existe, sim, o exército de Proteu, e esse ele levará consigo para a Grécia. Se fizer o que planeja, não restará muita coisa para você liderar, acredite.

- Eu sei, querida, por isso preciso pensar. O que faria Proteu partir deixando o exército?

- A morte.

- Sim, só que eu correria o risco de ser descoberto. E se isso acontecer os homens que o veneram jamais me obedecerão. Pior, com certeza me lincharão.

- É bem verdade. Por outro lado, Proteu apenas sairia do Egito sem levar seus homens se tivesse de ir fugido, às pressas e na calada da noite.

- E o que o faria fugir?

- Não o quê. Quem.

- Kyia?

- Hakor?

- Os dois?

- Quem sabe...

- Acha que devo contar a Hakor que ele pensa em deixar o Egito?

- Ainda não. Isso o faria propor melhoras para que ele fique.

- Preciso pensar em algo perfeito; algo que faça Proteu abrir mão do cargo em meu favor, recomendar a minha pessoa aos seus homens, sem saber que estou tramando contra ele... Aliás, algo que o faça acreditar que o estou ajudando. Deixe estar, há de aparecer uma ideia.

- A única coisa que lhe peço é que nada faça contra Kyia. Foi a primeira pessoa que encontrei no Egito e que me estendeu a mão. E eu gosto dela.

- Fique em paz, nada farei contra a sua amiga. Meu alvo é o meu amigo...

- Bom, tenho de voltar para o templo; Sobeknefru deve estar sentindo minha falta. O sacerdote me arruma cada trabalho hediondo que nem mesmo Ra seria capaz de executar sem vomitar.
Eu imagino. Aquele cretino metido a oráculo é irrisório. Mas quando quer ser mau e vil, ninguém o supera.

A partir daquele dia Péricles se dedicou a pensar em como fazer o general partir sem seus homens fortes e bem treinados. Milhares de idéias lhe vinham à mente, sempre acompanhadas por falhas graves que sem dúvida o levariam a perder-se.

Proteu, por sua vez, sentia-se a cada dia mais angustiado com a falta do irmão, além de desmotivado do reino de Hakor.

Atuava a serviço do Egito há dez anos, apenas um a menos que seu saudoso irmão e o próprio faraó, que tomara o poder em 393 a.C., após derrubar Psamutis. Estava cansado, queria um lugar para parar, plantar verduras e criar gatos com sua egípcia. Era hora de deixar a guerra para quem dela quisesse ocupar-se.

Capítulo 35

Haemon foi levado para um posto de socorro próximo à crosta terrestre. Sentia-se bem e cheio de vigor quando acordou naquela manhã contínua; olhava através da janela e a sensação de aurora não se rendia ao calor do meio-dia.

- Bom dia, Haemon!

- Bom dia...?

- Abgail.

- Desculpe-me por ignorar seu nome. Está comigo há tanto tempo!

- É verdade. Embora você tenha muito mais condição de me aconselhar, fui designada para esta missão árdua, porém agradável.

- Está pronto?

- Sim, Haemon, acabou. Está de volta.

- Pensei que seria mais difícil. O veneno do Alef era realmente implacável.

- Não foi somente o veneno colocado nos pergaminhos pelos antigos que desencadeou o processo de morte física em você e Eber. O tempo e as condições de armazenagem dos pergaminhos favoreceram o aparecimento de pequeninos seres causadores de doença até então desconhecida na Terra, que lhes penetraram na pele, nos olhos e no nariz, causando hemorragias dolorosas.

- Não me lembro de ver esses animaizinhos.

- Não seria possível percebê-los com os olhos apenas; são tão minúsculos que escapam à vista física, e é justamente essa invisibilidade que faz deles inimigos mortais.

- Como está Eber?
- Muito bem. Visitou você várias vezes enquanto dormia.

- Poderei vê-lo mais tarde?

- Claro.

— E meus filhos... quer dizer, meus irmãos em Tebas?

- Seguindo.

- O que vai fazer agora que eu estou aqui e não é mais meu anjo da guarda?

- Sempre haverá trabalho, e eu ainda tenho compromisso com você até que seja encaminhado.

Para onde?

- Isso saberemos logo. Ou pretende ficar aqui dormindo até quando-

- Não. Estou muito bem e posso trabalhar também, se me permitir.

- Claro. Mas primeiro levante-se, precisa ver alguém que o espen há algum tempo.

As lágrimas corriam ininterruptas pelo rosto do sábio ao avista^ em meio a flores variadas, a silhueta de Amonet de braços abertos para envolvê-lo em um abraço de paz e amor infinitos.

- Nágila! Como foi difícil viver na Terra sem sua presença! Existia um vazio em meu peito que ninguém conseguiu preencher, uma saudade de algo desconhecido que só se acalmava quando o trabalho enchia meus pensamentos.

- Não me senti diferente, e por isso enchi minha vida de trabalho em pleno deserto; era o único recurso que encontrava para não me consumir na dor que sua falta me infligia. Agora está acabado esse tempo. Poderemos trabalhar juntos, meu querido. Valeu a renúncia, pois conquistamos o direito de voltar para casa.

- Para casa?

- Sim, meu amado, lá onde não mais se tem o suor no rosto ç angariar o pão; onde tudo é feito por comando de voz e todas as oc— res, não apenas as do parto, são atenuadas pela tecnologia da medicina, avançada e dos médicos de boa vontade; onde as viagens são rápidas e confortáveis e o bem sobrepuja o mal.

Haemon fitou Abgail e Eber, que repousava o braço no ombro da amiga.

Lembro-me agora de todos esses avanços e confortos que não merecí ter outrora. Quando olho para você, as imagens de um mundo futurista e sem dificuldades se desenha em minha frente; eu quase posso ver veículos velozes e brilhantes que levam pessoas de um local para outro no bem-estar da sombra e do clima ameno; posso ver as pessoas se comunicando a distâncias imensuráveis e gozando de qualidade de vida ilimitadamente superior à da Terra.

- Isso é conquista nossa, Haemon.

- Durante séculos sofri a nostalgia desse paraíso perdido e me propus trabalhar com afinco e me reformar intimamente, a fim de merecer voltar para casa. Quanto mais eu trabalhava, mais perto do retorno me sentia, e isso me deixava ávido de trabalho e mudança. Entretanto, os dois fatores (trabalho e mudança) que me aproximariam de casa na verdade me fizeram almejar coisa maior, infinitamente maior. Apesar de ter saudade do meu lar e de meus familiares, não posso ignorar que entre as crias da Terra fiz outra família; que a simples ideia de me separar dos meus pequeninos parte meu coração. E existe ainda algo tão grande que não tem medida comum com nenhuma outra grandeza. É anunciada a hora da encarnação do verbo de Deus, do Logos Planetário por quem, ao longo de minha vivência, apaixonei-me de maneira irremediável. Esse acontecimento será único e nada poderá substituir a graça de estar no mundo quando o grandioso viajor nele aportar. Trabalhei tanto para voltar para casa e no percurso da minha jornada de trabalho conheci outro objetivo. Eu queria poder ensinar aos meus afetos terráqueos o doce sabor do trabalho do amor e da bondade; não gostaria de deixá-los agora. Não que eu seja imprescindível em suas vidas, mas sei que estava tendo um bom resultado com eles. Eu gostaria de ver a Grande Estrela, tocar suas mãos, oscular seus pés. Aí então Deus poderá dispor de meu espírito em qualquer setor de trabalho, que nada mais pedirei. Por agora, renuncio a viagens confortáveis, trabalhos amenos e partos sem dores; eu renuncio aos avançados meios de comunicação, à longevidade com qualidade de vida. Alguém, por favor, peça ao Logos que me permita dilatar minha estada na Terra até que ele habite aquelas paragens!
- Haemon, seu coração é de ouro! - exclamou Abgail.

- Irmão, eu lhe disse uma vez na Terra que todos têm o que merecem e pouquíssimos merecem um desejo realizado como você. Por amor entregou sua vida, e por esse mesmo amor abdica de um mundo mais adiantado e feliz para abraçar as procelas terrenas err. todas as suas nuanças. É necessário, porém, que saiba que não temos acesso a todos os mundos habitados, e sim apenas àqueles cuja evolução superamos. Desse modo, os mundos regenerados, felizes ou celestiais não são acessíveis a um espírito recalcitrante e voltado para o mal. No entanto, espíritos de luz têm livre acesso a todos os mundos. A nós, que ainda estamos a meio tempo de caminhada, e permitido acesso aos nossos mundos e a seus inferiores; portanto, você pode perfeitamente permanecer na Terra se essa é sua escolha, já que, estando à frente do planeta em nível evolutivo, apenas fará o bem a ele e a seus habitantes. Se antes veio aportar na Terra por não poder viver em seu mundo de origem, agora nela estará como enviado e não degredado. E poderá partir para sua estrela natal ao final de qualquer uma de suas próximas vivências, pois se hoje está apto, considerada a lei de que não existe retrocesso na trajetória do espírito, estará sempre pronto para voltar.

Haemon correu em lágrimas profusas para abraçar Eber.

- Eu verei a Grande Estrela? Poderei tocar o Logos?

- Acalme-se, irmão, eu apenas disse que poderá permanecer na Terra. O Logos se encontra em processo encarnatório, não tenho como responder a essa pergunta.

- Desculpe-me a afoiteza, já me sinto extremamente feliz. Pelos próximos quatro séculos, farei tudo para merecer vê-lo.

- Por ora pode se dedicar aos seus familiares no Egito. Em breve; Hakor estará de volta e Neferites II virá logo a seguir, com a invasão grega. Graças a você o Alef está seguro.

- Graças a nós.

- Sim, mas não se ache tranquilo. Ainda nos encontraremos coo! as relíquias antes da encarnação suprema do Logos.

- Nós dois?
Pensa que se livrou de mim? Já que escolheu permanecer na Terra, terá de me ajudar a protegê-lo.

- Nem sei se mereço tamanha felicidade. No momento, para mim a Terra é o mais feliz dos mundos, a despeito de suas dificuldades.

Eber sorriu satisfeito; contaria com um excelente parceiro.

- Nágila, minha querida! - Haemon se voltou para a companheira desde os tempos anteriores ao degredo. - Pode me entender?

- Eu o entendo muito bem. E o que são quatrocentos anos-terra? Temos a eternidade para estar juntos em nossa estrela e em outras, de brilho ainda superior. Eu ficaria com você se não estivesse imbuída da missão de levar até nosso orbe um novo meio de transporte, rápido e absolutamente seguro.

-Eu lhe desejo sucesso e felicidade.

- Cuide de Quéfren com carinho; tente levá-lo com você quando for para casa.

- No que depender de mim voltaremos juntos, eu, ele e Kenefer.

- Desde já aguardo o seu regresso; e por enquanto, em momentos de repouso, irei à Terra ver vocês.

- Perdoe-me, esposa querida. Mais uma vez a deixo só.

- Não se preocupe. Foi graças à solidão de minha última vivência que consegui desapegar-me para o propósito a que me destino. Dedicar-me-ei à ciência energética e cinética; não terei muito tempo para sentir solidão.

- Da última vez que nos casamos, combinamos que seria depois da formatura. Aí você me enrolou com a pós-graduação e mais uma porção de cursos. Finalmente, quando doutos, nos casamos e foi o caminho mais certo. Agora a coisa é a mesma, só que em proporção gigante.

Ela sorriu.

- Então nos formemos!

- Vamos lá! Boa sorte, minha querida.

- Boa sorte, meu esposo. Cuide das crianças!

- Esteja em paz.

Com um caloroso abraço, os enamorados se despediram. Amonet seguiu rumo à encarnação como cientista, na constelação de Cabra, e Haemon continuou ali para viver seu longo romance com a Terra e seu governante supremo.

- E agora? - indagou a Abgail.

- Minha missão ao seu lado está cumprida. Deixo-o aos cuidados de Eber. É chegada a minha hora de descer à Terra e conto com sua ajuda, já que estará tão perto de minha família.

- Nascerá no Egito?

- Não. Os ânimos lá estarão muito acirrados com a invasão prevista para daqui a alguns anos.

Por algum tempo os amigos estiveram juntos, naquela colônia de repouso, traçando os planos de trabalho no planeta Terra.

E lá também os planos eram traçados, porém tinham teor interior e mesquinho. Péricles e Tula arquitetavam uma maneira de tirar de Proteu o seu exército, ao passo que o chefe dos mercenários imaginava um jeito de voltar à Grécia tirando vantagem do Egito. Isso porque haviam findado os dez anos da concessão de explorar a necrópole, sua “rainha” era sua esposa, Haemon não estava mais entre eles e nada mais lhe interessava às margens do Nilo. No sentido de viabilizar seu propósito o gigante grego enviou a Atenas três mensageiros, com intervalos de tempo estratégicos, e calmamente esperava a resposta.

Numa época em que a média de vida era de quarenta anos, Prote _ ao contar um pouco mais e estar em plena forma, reforçava a reputação de semideus. Péricles, que estava mais ou menos com a mesma idade, achava-se um pouco decadente, e tanto Hakor como Kenefer mostravam diversas falhas no sistema físico. A bem da verdade, para a époes eram todos idosos e Haemon aos cinquenta era considerado extrem-mente velho.

Contudo, a ambição ainda imperava na maioria dos corações dos nossos amigos, e era esse o motivo do encontro de Péricles com Sobeknefru naquele dia do longínquo 382 a.C.

- Posso saber por que ou para quem quer este preparado?

- Ei, espere aí! Eu não disse que quero um preparado letal; apertas perguntei o que você usou para envenenar Apepe.

Caro Péricles, sabemos nós dois que sou um sacerdote do faraó e não me é permitida a prática de envenenamentos, a não ser a mando dele próprio. Igualmente sabemos que desobedeci a esse pormenor, pois o fiz a pedido de sua esposa leviana. Logo, poupemos tempo e cinismo. Você quer que eu lhe dê o veneno para matar uma pessoa, e aí ficamos cada um conhecedor de um segredo do outro. Ou seja: eu lhe dou o veneno e finjo que nada sei, e você faz o mesmo em relação a Apepe. E não adiantaria nem mesmo eu lhe dizer que se for condenado sua esposa irá comigo, visto que caso se importasse com ela não a venderia barato para seus colegas de armas.

- Engano seu. Amo muito a minha esposa. Só que amo bem mais a mim; e se um sacrifício dela me é bom, está tudo certo.

O sacerdote fez uma negativa com a cabeça.

- Você é repulsivo - disse, dando ao outro o frasco com o veneno.

- Se não tivesse agido errado, não daria a brecha para que eu viesse aqui agora. Você também é repulsivo.

- Saia dos meus domínios e leve sua esposa infame.

- O maior problema em ceder a uma chantagem é que se corre o risco de nunca mais parar. Não levarei Tula daqui até que eu tenha o palacete de Haemon para morar. E lembre-se: se contarmos mutuamente os nossos segredos, eu fugirei com minha esposa para Atenas e você cairá em desgraça com o faraó.

- Não pode matar Proteu. É um semideus, olhe para ele: nem um só fio dos cabelos está branco, não tem uma dobra na pele e é forte como um leão.

- Não pretendo matar Proteu, oráculo pérfido. Eu amo meu general.

- Ama seu general e sua esposa! Pobres de seus inimigos...

Soltando sonora gargalhada, o outro saiu do templo. Enquanto

andava ao encontro da esposa, peça fundamental de seu nefasto plano, Haemon, em espírito, ia ao seu lado e tentava de tudo para dissuadi-lo do crime.

“Péricles, não atente contra a vida de um irmão que tanto quanto você só deseja ser feliz e seguir seu caminho. Deixe as coisas correrem naturalmente, não atropele os fatos e as pessoas. O exército estará sob seu comando muito antes do que possa imaginar, sem que para isso precise plantar uma semente de frutos amargos que inexoravelmente terá de colher. Você terá o exército, Proteu partirá para uma vida de paz e todos ganharão, ao passo que se levar a cabo seu intento desencadeará uma série de acontecimentos drásticos que amargará a boca de muitcs. a sua em primeiro lugar. Pare enquanto pode. Lance fora esse tônico de tamanha periculosidade e espere com fé o desfecho feliz dessa história.”

Por um momento o imediato de Proteu fraquejou e pensou em desistir, mas forças negativas também caminhavam ao seu lado. Inimi; -desencarnados dos campos de batalha e das noites de desregramentos em que ele e a esposa se embrenhavam com frequência infundiam-lhe » contrário do que o bom amigo inspirava. A cena era tragicômica: Péricks no meio de duas forças antagônicas que tentavam influenciar sua mente.

Contudo, o direito da escolha permanecia com o grego, que submetido a seus instintos animalizados e ambiciosos optou pelo crine. Haemon ainda redarguiu.

“Respeito sua decisão, e tenho comigo que não é inocente; hã vista que está sendo elucidado a tempo e escolhe o caminho large d* perdição. Lembre-se de não culpar ninguém a não ser você mesmo pea inevitável queda.”

Naquela tarde, logo após o culto a Ra, Kyia recebeu a visita ãc Tula. Esta lhe pediu que a acompanhasse até a casa de Kenefer, r es sentia dores horríveis e ininterruptas na cabeça e no pescoço (esta pa era verdade) e sabia que o bom ex-marido da amiga muito entendia medicina.

A egípcia se aproximou do marido, que descansava no terra aberto onde as mãos sábias de Haemon haviam feito um belo jardim papoulas trazendo terra das margens do Nilo.

- Proteu, vou com Tula até a casa de Kenefer; ela deseja se o tar de certas dores e eu preciso confirmar nossas suspeitas.

- Ele não pode vir aqui?

- Não vejo por quê.

- Eu me sinto mal quando se encontra com Kenefer.
Proteu! Você está com ciúme de Kenefer?

- Dele não, de você.

- De mim com ele. Isso não tem o menor cabimento. Kenefer é um homem bom, de coração gigantesco e puro, jamais me desrespeitaria. Desde que você entrou em minha vida, antes até do divórcio, ele nunca mais me tocou por sentir que meu coração lhe pertencia. Antes que eu mesma soubesse, ele já sabia e me respeitou. Perdoou-me incondicionalmente a traição e ainda faz o bem para mim.

- Eu sei de tudo isso, e é justamente por reconhecer a minha inferioridade que me sinto inseguro com essa proximidade. Se eu estivesse em seu lugar, jamais escolheria a mim.

- Meu deus grego! Sei da diferença que existe entre ele e você. E a mesma existente entre Afra e eu. E depois, o que fazer quando o coração escolhe? Eu não seria feliz sem você, nem com Kenefer nem com qualquer outro; escolho você entre todos os homens e amo a minha escolha. Eu o amo, Proteu de Mileto, com todos os nossos defeitos e dificuldades, os quais segundo Haemon podemos vencer juntos se munidos de bom sentimento. E quanto a isso, está tudo certo.

- Eu a amo igualmente, rainha do Egito. Nosso amor é mil vezes maior que nossas imperfeições.

- Nosso amor é perfeito.

Ele tomou a esposa nos braços e declarou emocionado:

- Acho que não quero mais tirar vantagens do Egito ou de nada. Está na hora de viver em paz, de ter sossego.

- Plantar verduras e criar gatos.

- Sim, querida, muitos gatos. Vá e aproveite o que Kenefer tem a lhe ensinar, não ligue para meus sentimentos inferiores. Levarei bem mais tempo para vencê-los que aos exércitos numerosos com os quais já me avistei. Se realmente você estiver para dar à luz, eu me exonerarei do exército, deixando Péricles em meu lugar. E iremos viver em um lugar tranquilo e verde, com clima ameno, onde envelheceremos com tranquilidade e sossego.

- Sabe que assim, repousando em seus braços fortes, não sinto vontade de ir a nenhum lugar? Eu poderia passar aqui o resto de meus dias.
- Também não sinto vontade de deixar que vá, porém quero saber se mesmo estando velho terei meu filho nos braços. E Kenefer pode responder a isso.

- Eu não me demoro, minha vida. Estarei aqui antes que sinta minha falta.

- Isso não pode ser. Já sinto sua falta.

Ela sorriu feliz e beijou-lhe os cabelos.

Capítulo 36

Kyia caminhava alegremente com Tula para a casa de Kenefer quando viu Nyla, carregando um cesto com cereais. A filha se transformara em linda moça; sentiu-se velha do alto de seus trinta anos. A moçoila lembrava-lhe a própria juventude; fisicamente era muito parecida com ela. Mas apenas o exterior era análogo ao da mãe. Nyla era cordata e bondosa, calma, recatada e prudente; respeitava o decálogo de Moisés com paixão e estava sempre pronta para ajudar.

- Boa tarde, Nyla. Seu pai já se encontra em casa?

- Ainda não, senhoras. Minha mãe sim, e poderá recebê-las.

Ao ouvir a filha se referir a Afra como mãe, Kyia sentiu como se um punho forte pressionasse sua garganta.

- Nyla, está uma moça tão bonita...

Ela sorriu e Afra veio chegando. Tinha os cabelos embranquecidos e a expressão cansada.

- Entre, Kyia. Do que precisa?

- Viemos para pedir conselhos médicos a Kenefer.

- Sentem-se, ele não demora. Querem um pouco de água ou chá?

- Não, obrigada. Como estão Nany e Neith?

- Elas se casaram, como você sabe, e estão bem com seus maridos. Agora só me resta Nyla, que acredito não tardará a fazer o mesmo, visto como é bela.

- Mamãe, já lhe disse que não me casarei se tiver de me apartar da senhora e de meu pai. Cuidarei de vocês e lhes farei companhia até o fim.

- Não se prenda a nós, querida. Deve pensar em sua felicidade.
Minha felicidade é honrar meu pai e minha mãe como manda o Senhor Deus, bendito seja seu nome.

Kyia sentiu-se lesada no que dizia respeito ao amor da filha, embora soubesse ser a única culpada. Lembrou-se de como a negligenciava e delegava suas obrigações de mãe às irmãs da menina. A imagem do bebê morto no colo de Kenefer lhe voltou à mente.

“Dê-me uma segunda chance, Ra!”

- Kyia! - Tula chamou a amiga, que parecia distante.

- Sim?

- Eu lhe disse que Kenefer está chegando.

- Kenefer!

- Kyia! Estava com saudade.

Abraçou a ex-esposa, que ao contato amoroso do amigo chorou copiosamente. Nyla e Afra sabiam que deveriam sair e deixar médico e paciente as sós.

- O que há com você, minha querida? Pensei que estava feliz.

- Eu estava... quer dizer, estou. É que olhando para Nyla vi como errei; depois me lembrei do bebê. Será que foi por castigo que ele morreu?

- De maneira alguma Deus castiga seus filhos que agem por ignorância. Apenas deixa que suas ações gerem as reações reparadoras. A morte daquela criança serviu para fazê-la repensar seu erro com Nyla. porém não tenha isso como castigo e sim como lição. Depois desse acontecimento, haja o que houver eu duvido que abandone outra cria sua. Não ousaria explicar detalhes a você; só quero que acredite que foi altamente positiva a vida curta daquele ser, e que quando puder ter consciência de si próprio ele será muito grato a você. E quer saber mais? Vejo em torno de você uma luz muito brilhante. Vai receber outra criança, não para educar e sim para ser educada por ela. Ela será seu suporte e sua segurança, vem para guiar você e o pai para a redenção, para a universalização do amor. Fará que se tornem pessoas melhores, com laços familiares mais estreitos daqui por diante.

- Estou esperando outro bebê?

- Sim, minha querida, está.
- Eu vim procurar você para perguntar sobre isso. Nem precisou fazer o teste da planta.

- Não, Haemon contou-me o que lhe disse; ele continua a cuidar de nós.

- Kenefer, ajude Tula. Ela está no limite de suas forças.

O velho sábio voltou a atenção para a grega.

- O que sente, Dimitrula?

- Dores de cabeça e no pescoço. Parece que vou morrer de tanta dor.

- Dor de cabeça é sempre alerta para problemas que não conseguimos solucionar. E se é contínua por mais de três dias, na maioria dos casos está ligada diretamente às questões sexuais.

- S-sexuais?

- Sim, por que o espanto? Acha que não tem nada a mudar nessa área da sua vida?

Ela não respondeu.

- Vou lhe dar um remédio que a aliviará. No entanto, lembre-se: a dor é só um efeito; se a causa não for “tratada”, ela com certeza voltará. Bendita a dor, que sempre nos chama para algo que está em desarmonia!

- Obrigada, Kenefer.

Enquanto o escriba foi buscar o tônico adequado para as dores de Tula, ela caminhou lentamente até uma fornalha em brasas onde o jantar do dono da casa esperava para quando tivesse tempo de comer. Desde que o marido estava a serviço ou a capricho do faraó, Afra sempre jantava com Nyla e deixava a comida dele sobre as brasas. Rápida como um raio, Tula destampou a panela de pedra e despejou todo o veneno que Sobeknefru havia dado a Péricles.

Kenefer retornou com o medicamento nas mãos e o deu à paciente. Com as mãos ungidas tocou a fronte de Tula e a massageou, pedindo ajuda do Alto.

As amigas deixaram a morada do conselheiro do faraó e Tula já sentia grande alívio ao entrar na casa de Sobeknefru. O marido esperava por ela.

- Conseguiu?

- Sim, está feito - ela estava à beira de uma falência psíquica.
- Comemoremos.

- Não! - Tula berrou. - Não me toque. Você é esdrúxulo, medonho e hediondo. Como pode sacrificar uma pessoa tão boa para seus propósitos bélicos ilícitos?

- O que está acontecendo com você? Será que está pegando o mal de sua amiga, que apesar de casada morre de amor pelo ex-marido?

— Eu vinha sofrendo uma dor enlouquecedora há mais de seis dias. Achei que ia morrer, e ele me deu alívio com o toque de suas mãos abençoadas. E sabe como agradeci? Derramei veneno letal em seu jantar. Depois de ajudar a tantos, o santo homem, pensando em saciar a fome, morrerá de forma trágica e dolorosa. Eu não valho absolutamente nada. O excremento dos bois é mais útil que eu, visto que fertiliza, dá a vida, e eu esterilizo.

Ele gargalhou.

- Não acredito que está querendo me convencer de que sente pesar! Você? Por favor, poupe-me disso.

- Eu vou voltar à casa de Kenefer e avisar que seu jantar está envenenado, Que todos os deuses do Olimpo me amparem. Hermes em especial me colocará asas nos pés e chegarei antes que ele tome aquela porcaria.

- Quer me trair? - disse o marido calmamente. - Quer acabar comigo? Não sabe como Hakor morre de amores pelo escriba? Você não vai a lugar algum, mocinha!

- E como pretende impedir?

Sem responder, ele desferiu violento golpe no rosto da esposa e esta caiu sem sentidos. Ainda desmaiada, recebeu outro golpe do companheiro, que a colocou sobre a cama e falou alto e cinicamente:

- Boa noite, querida!

Kenefer sentou-se sobre as pernas cruzadas e com a refeição n* palma da mão esquerda, forrada com pedaço de linho, mirou o alimento e agradeceu a Deus pelo jantar. Logo que provou a primeira porção, visualizou Haemon à sua frente.

- Amigo e mestre!
- Amigo para sempre, porém mestre temos apenas um, e em comum com a humanidade inteira. Como se sente?

— Estou bem.

- E nossos pequenos?

- Caminham...Tento cuidar deles, tarefa árdua sem sua presença.

- Não diga isso! Está se saindo muito bem.

- Hakor é um cabeça-dura, mas com muito tato o tenho demovido de cometer certos desregramentos e barbáries. E quanto a você? Pode me falar do paraíso perdido? Encontra-se nele?

- Ainda não. Pedi permissão aos superiores e me foi concedido permanecer na Terra. Tudo aqui é tão lindo! Existe a questão dos afetos que fiz e - fez uma pausa e fechou os olhos, embevecido da mais pura emoção - o Logos está vindo.

- Eu gostaria de ver esse evento magno. Acho que não será problema, ainda não estou pronto para o paraíso. E se estivesse acho que faria como você: eu pediria para ficar.

- Olhe que o paraíso vai ter problema com a demografia local.

Os amigos sorriram juntos.

- Sinto sua falta, Haemon. Aliás, todos nós sentimos. É como se a Tebas faltasse um pedaço.

- Estou feliz por ver o quanto me amam. Saiba que sinto o mesmo em relação a todos vocês.

Haemon percebeu que Afra, notando a ausência do marido ao seu lado, acendia um archote e se levantava para procurar por ele. Então convidou:

- Venha comigo, Kenefer. Quero que conheça um novo amigo meu, Eber. Ele me ajudou muito na ocasião em que busquei pelo Alef e me recebeu quando deixei o corpo.

- Será gratificante conhecer alguém que o ajudou.

Rapidamente os amigos alcançaram a colônia onde Haemon acordara algum tempo antes.

- Que belíssima paisagem! Seria assim o paraíso dos judeus?

- Bem que podería.
Eu nunca vi lugar tão lindo, céu tão azul, águas tão límpidas e vegetação tão verde. A Grécia é aqui, Haemon?

- Realmente, nunca havia saído do Egito, por isso estranha lugares tão verdes e frescos. Não estamos na Grécia; aliás, não estamos na Terra. Não obstante, por lá também existem paisagens inacreditáveis para quem sempre viveu no deserto.

- Maravilhoso! Estou adorando o passeio, mas me preocupa as coisas em Tebas. A que horas voltaremos? Preciso cuidar de Kyia e Tula. e deixei alguns assuntos pendentes com Hakor.

- Esteja tranquilo, tudo ficará bem. Aconselho que repouse um pouco, e logo virei despertá-lo.

- Eu quero... - disse bocejando.- Estou muito cansado.

Em leito alvo e com cheiro de flores Kenefer adormeceu, enquanto Haemon voltava à casa dele na Terra.

Ali, Afra procurava pelas sandálias sob a fraca iluminação do aposento; quando as achou, calçou-as e se dirigiu até a cozinha, onde havia deixado o marido com as amigas. O conselheiro do faraó estava deitado ao lado das brasas que aqueciam o ambiente.

“Pobre esposo, vencido pelo cansaço; por sorte o calor ainda persiste, ou estaria congelando.”

- Kenefer! Venha para a cama, querido. O chão está frio. Acorde e vamos para a cama!

A panela de pedra estava no chão, tendo derramada ao lado grande: quantidade do alimento.

- Querido, nem mesmo conseguiu jantar... Venha, vamos dorr Kenefer? Meu Deus todo-poderoso! Kenefer, por favor, acorde! N ajude-me!

A moça veio correndo e ajudou a mãe a levar para a cama o co: sem vida do pai.

- Ele se foi, mamãe! Fique calma e confie em Deus, pois papaii está mais aqui.

As lágrimas abundantes molhavam o rosto da jovem e da mãe

- Como se deu isso? Ontem ele parecia tão bem...
- Infelizmente papai já estava idoso. Por mais que doa em nossos corações, era hora de acontecer.

- Como faremos agora?

- Fique tranquila, o Senhor Deus nada nos deixará faltar. Precisa confiar.

- Eu confio, querida. Só está doendo muito.

- Eu sei e sinto a mesma dor, mas precisaremos amparar uma à outra.

Abraçou a mãe do coração e assim permaneceram. Esperariam a hora do primeiro culto a Ra para comunicar ao faraó que seu conselheiro não estava mais entre eles.

Nyla saía de casa enrolada em um manto quando cruzou com Tula, que vinha esbaforida rumo à casa.

- Tula!

- Nyla!

A expressão no rosto da moça e os olhos injetados confirmaram o que a grega já sabia, e abraçadas ambas choraram.

- Vou avisar ao faraó. Por favor, faça companhia a minha mãe.

- Sim, eu faço; e você avise também a Kyia.

A cena da panela jogada no chão da cozinha e do alimento derramado cortou o coração de Tula, que imaginou a inocência de sua vítima cansada do trabalho desejando saciar a fome. No quarto, Afra banhava e perfumava o corpo, fazendo o tamponamento como mandavam os rituais judeus.

- Tula, ele nos deixou!

— É na verdade uma tristeza sem par.

- Estou procedendo como manda a tradição do meu povo, pois Hakor poderá levar o corpo.

- Ele fará isso, certamente.

Com zelo e carinho, Afra obedeceu rigorosamente à tradição. Depois de ungir o cadáver com óleo perfumado, envolveu-o em linho branco e postou-se junto dele em oração. Tula não aguentava o tormento do remorso a corroer-lhe o espírito. Chorava muito quando Kyia entrou, acompanhada de Proteu, a gritar de desespero.
Afastou o linho que cobria o rosto do ex-marido, recusando-se a acreditar.

- Ken, não faça isso! - falava como se o cadáver pudesse ouvi-la.-Não brinque conosco, acorde e se levante que já é hora do primeiro culto. Querido, não vá! Kenefer, eu o amo tanto... Por Ra, perdoe tod o mal que eu lhe fiz! Afra, como foi isto?

- Eu não sei. Era alta madrugada quando dei por sua falta. \ im procurando por ele pela casa e o encontrei morto, no chão da cozinha.

- Não pude acreditar quando Nyla me contou. Ele estava tão bem ontem à noite... O que podemos fazer, Afra?

- Não se desespere. Permaneçamos em oração, para que o Senhor receba em sua morada de paz nosso querido Kenefer, e que ele possa habitá-la por longos dias.

Com um gesto leve e delicado ela cobriu o rosto do morto e chorou, incapaz de se concentrar em uma oração. Ficaram os cinco velacc-res ao lado do morto querido, até que ruídos de patas de cavalos e ua falatório os tiraram do estado contemplativo.

Hakor chegava com seu séquito de soldados, a que não permitia segui-lo de imediato ao interior da residência. Entrou sozinho, pai na cozinha e notou o jantar derramado como lhe narrara Nyla. Por guns minutos observou a cena, depois entrou no quarto e olhou ate Todos os presentes se curvaram reverentes à presença do soberano, com um gesto de mão ordenou que voltassem ao normal.

- Sinto o coração partido com esta ocorrência repentina e tr Mais ainda: sinto-me perdido sem meus conselheiros. Por mim nunca teriam morrido. Mas como evitar? Quanto a isso sou tão potente quanto o menor dos escravos; eles morreram e o que me é dar a Kenefer, como fiz a Haemon, exéquias de um chefe de es Para tal, é necessário que eu leve o corpo para o palácio.

- Esteja à vontade, soberano, já fiz o que meu povo manda.

- E eu a perdoo, Afra, pois sabe bem que apenas o faraó e os s dotes podem tocar um cadáver.

- Obrigada pela benevolência, grande rei.
Sobeknefru e dois outros sacerdotes entraram a mando de Hakor e pegaram o corpo de Kenefer, que foi removido para os procedimentos de praxe na câmara do próprio faraó. Cabia agora esperar que ele chamasse os demais para o sepultamento. Kenefer, ao contrário de Haemon, não sabia estar partindo e, portanto, não tivera tempo de recomendar ao faraó que fizesse um funeral simples. Ele por certo não gostaria da pompa que se anunciava.

- Vamos mantê-lo repousando até que tudo isso passe, sem que ele sinta as vibrações de pesar e tristeza das esposas e do próprio Hakor?

- Exatamente, Haemon. Por merecimento Kenefer teve uma passagem tranquila, mesmo ingerindo a substância que fez Apepe entrar em agonia suprema e demorada.

- Apepe tinha dívidas nesse sentido, o que não acontece com Kenefer.

- Claro. Se ambos morressem de forma idêntica, onde estaria a justiça?

Após o ocorrido com Kenefer os dias seguiam lentos, até que através de um mensageiro o faraó chamou Kyia e Proteu à sua presença. O mercenário já estava acostumado a esses chamados repentinos; só estranhou o fato de a esposa ter sido convocada junto. Como uma convocação de Ra era sempre inadiável, o casal rumou para o palácio.

- Aqui estamos, grande Ra, ao seu divino dispor.

- Proteu de Mênfis, que falta fazem meus conselheiros e amigos! Ainda bem que está por perto; assim me sinto seguro em minhas divisas.

- Obrigado, fico lisonjeado. Porém não creio que esteja aqui para ouvir elogios a meus serviços prestados ao Egito.

- Não. Como havia dito, fui privado de meus conselheiros e não sei se estou agindo corretamente. E como é um homem de estratégias, sinto que poderá ajudar-me em uma investigação que estou fazendo.

- Diga, grande Ra.

- Eu tenho motivos para suspeitar que a morte de Kenefer não tenha sido um acidente. Por isto chamei também sua mulher, que, embora eu saiba que amava Kenefer como a um pai, foi a última pessoa a ver vivo meu conselheiro.
Não, grande Ra, a última pessoa a ver vivo seu conselheiro foi aquela que o matou.

- Não necessariamente, já que ele fora envenenado e o assassino podería ter colocado o veneno em seu jantar muito antes.

- E como sabe que foi envenenado?

-No dia de sua morte observei que insetos que se juntaram na comida derramada morriam perto do alimento. Por isso quero perguntar a Kyia: quem, na sua opinião, envenenou o jantar de Kenefor?

- Não tenho a menor ideia.

- Quem estava na casa dele naquela noite?

- Eu, Tula, Afra e Nyla.

- Acha que poderia ter sido Tula?

Kyia lembrou-se do ocorrido a Apepe e da estranha visita dela à casa de Kenefor, tão cedo, com o rosto machucado.

- Eu não sei, grande Ra.

- Oportunidade ela teve.

- E por que faria isso? Kenefor apenas fez o bem a ela.

- Ele fazia o bem a todos. Com esse raciocínio, ninguém poderia ter feito nada e ele estaria vivo entre nós.

- Sim, tem razão, soberano - Proteu entrou na conversa - Dê-me um tempo para avaliar o caso e eu o procuro.

- Se me der o assassino de Kenefor, será regiamente recompensado.

- Se eu descobrir esse assassino já me sentirei recompensado.

Ao sair do palácio eles encontraram Péricles, que vinha igualmente a mando do soberano. Os mercenários se cumprimentaram com um aceno de cabeça.

Hakor fez a Péricles as mesmas perguntas que fizera aos outros, apenas invertendo a desconfiança para Kyia. O imediato afirmou também suspeitar da esposa do chefe, e ainda tranquilizou o faraó com a ideia mórbida.

- Se deseja sepultar Kenefor como chefe de estado, pretende deixar de fora dos rituais logo Kyia, aquela a quem o morto mais venerava — acima da primeira esposa, das filhas e até do próprio orgulho masculinc -

Ele sorriu malévolo.
- Deixe estar, Péricles. Se ela for a assassina, seu castigo será bem maior que o esperado.

Naquela tarde Kyia procurou porTula.

- Hakor acha que a morte de Kenefer não foi natural.

- Acha?

- Sim, e eu também.

- Como assim? - a grega olhava para os próprios pés.

- Tula, olhe para mim! Kenefer estava muito bem quando o deixamos. Tudo leva a crer que morreu enquanto jantava - ou seja, logo que saímos.

- Pode ter sofrido um ataque cardíaco enquanto comia, não é impossível.

- Muitas formigas tiveram o mesmo ataque comendo a comida dele. Vamos falar abertamente, Tula: havia veneno no jantar de Kenefer. E somente eu, você, Afra e Nyla estávamos na casa dele naquela noite.

- Acha que uma de nós envenenou deliberadamente Kenefer?

- Tenho certeza.

- E acha que fui eu?

- Sim. E direi por quê. Dessa forma terá como explicar certos fatos, e eu deixarei de suspeitar de você. Por que foi consultar Kenefer, se sempre se arranjou com Sobeknefru? Como sabia do acontecido para estar tão cedo na casa dele?

Tula ficou em silêncio e Kyia fez nova pergunta:

- O que machucou seu rosto?

- Eu caí.

- Não, Tula, aquilo foi agressão. Alguém bateu em você. Por quê?

- E o que tem uma coisa a ver com a outra?

- Penso que alguém a machucou por saber que envenenou Kenefer, uma pessoa de que todos gostavam e de quem recebiam inúmeros favores.

- Não foi nada disso... Não posso contar o que sei. E não me pressione, por favor; não aguento mais tanta pressão. Não sabe como tenho sofrido. Sinto uma dor maior que eu, não como, não durmo, não penso mais com clareza, desde o maldito dia em que Kenefer foi morto. Ele

morreu, mas quem perdeu a vida fui eu. E quer saber de mais uma coisa? Assim que sepultarmos Kenefer, volto para Atenas e me livro deste maldito lugar. Bem dizem que aqui existem maldições de faraós antigos. Desde que cheguei minha vida se tornou um inferno: fui recebidi com uma clavícula quebrada, depois me casei com uma múmia e fui possuída por outra, fui vendida para tipos asquerosos, e agora morre o pobre Kenefer. Para mim já deu. Vou para Atenas.

- E Péricles?

- Quero que afunde no inferno de Hades!

Dizendo isso, saiu a correr em pranto escandaloso, o que deixou a amiga ainda mais intrigada.

Capítulo 37

A mumificação de Kenefer foi finalizada numa tarde em que o rio Nilo estava transbordante. Sobeknefru anunciou que as exéquias podiam começar e Hakor mandou buscar Afra e Nyla. Também apareceram Kyia e Proteu, além de toda a equipe de escribas e sacerdotes de Hakor, bem como a nobreza, que se faria presente mesmo sem ter tido o menor contato com o morto, por se tratar de um convite do soberano e pela grande festa que na verdade era um funeral dos nobres. Por isso o palácio estava superlotado.

Quando Kyia e Proteu adentraram o recinto onde o sarcófago fora depositado de pé, conforme o costume, duas dançarinas se aproximaram e a levaram pelas mãos. Em cômodo pequeno e retangular ela se sentou. As dançarinas a despiram e jogaram sobre seu corpo água do Nilo e essências aromáticas, colocaram-lhe uma peruca negra e lisa enfeitada de pedras e adereços coloridos, ungiram seu corpo com gordura de crocodilo e pintaram-lhe o rosto, os lábios e os olhos com maquiagem carregada e chamativa. Em seguida a vestiram com uma camisa muito fina e, por cima dela, um vestido branco plissado e transparente, que se unia sobre o seio esquerdo, deixando descoberto o direito; abaixo da cintura, uma abertura lateral de ambos os lados descia até os pés. Adornaram a moça com tantas joias que ela se sentiu mal ao suportar o seu peso. E então foi novamente levada pelas dançarinas à sala do velório.

Próximo ao sarcófago, três cadeiras que mais pareciam tronos estavam dispostas uma ao lado da outra. Afra e Nyla se encontravam sentadas em duas delas e Kyia foi guiada até a terceira. Pelo chão havia várias cestas contendo frutas, pães, mel e bebidas variadas, diversos animais assados e um jarro de prata cheio de peças de ouro e moedas que agora o Egito cunhava. O desespero tomou conta da jovem esposa de Proteu, que procurou pelo marido em meio aos comensais de Hakor. Ele parecia petrificado.

- Silêncio! - pediu um guarda do palácio.- O grande Ra nos falará.

Depois de discurso pueril, o faraó emendou:

- E como prova de minha dedicação e gratidão, permito que leve com você três de minhas belas súditas para o mundo dos mortos, para o paraíso perdido. Levará suas esposas e sua filha, assim como todas estas provisões.

- Grande Ra, existe algum engano. Não sou mais esposa de Kenefer; já me divorciei e até me casei novamente.

- E eu não sei? Sei tudo que se passa no Egito de alto a baixo. Por isso digo que Kenefer, embora lhe concedesse o divórcio, amava-a com loucura e sei que se sentirá ilimitadamente feliz levando-a consigo.

- Não, grande Ra, ele jamais gostaria de matar a nós três, exatamente por nos amar. E eu... eu vou ter um bebê. Poupe-me disto!

- Grande Acoris - Proteu nunca o havia chamado pela versão grega de seu nome -, essa é minha esposa! - deu ênfase à palavra minha.

- Amigo general, antes de ser sua esposa era a esposa de Keneíêt E é, como sabemos, a mãe da moçoila que igualmente irá para a tumba, e a lei vale para o primeiro casamento.

- Que lei é essa?

- Minha lei, a lei de Hakor.

- Desde quando essa lei existe?

- Desde agora. O que conta é o primeiro casamento.

Proteu estava a um passo de cometer uma loucura quando um õe seus soldados, um conterrâneo seu novato na tropa, chamado Tales. t3-cou seu braço suavemente e, olhando na direção contrária ao ponto que se achava o superior, sussurrou:

- Contenha-se, general, ou não sai vivo daqui. Tenho a solu. deixe como está.

Kyia olhou para Nyla, que parecia querer sumir. Quão cruel Hakor! Com certeza Kenefer havia dito que Nyla não sabia de origem. Os olhos da mocinha se revezavam entre Afra e Kyia. Parecia perdida, mas sem perguntas; era o fim das três, preferia nunca ter sabido.

Pelo restante dos rituais Kyia chorou em silêncio, borrando a maquiagem pesada. Temia o encerramento, a morte lenta e cruel dentro do sepulcro; o escuro perturbador e os espíritos que assombravam a cidade dos mortos. Estava aterrorizada. Viu com pânico indescritível as costas de Proteu quando este saiu do local; estava sozinha, preparada e purificada para ser sepultada viva. No auge da aflição, olhou para o sarcófago lacrado e pensou em Kenefer.

“Amigo, sei que não deseja esta covardia insana, ajude-nos!”

Haemon, invisível a ela, tocou-lhe a fronte e incutiu em seu espírito a esperança e a confiança na Providência Divina. Por um momento a jovem entrou em um estado de torpor.

- Fique em paz, Kyia! Afra tem sua história de sepultamentos de vivos quando viveu seus dias de faraó.

Atribuindo o pensamento a si própria, supôs estar influenciada pelas viagens nas quais se descobriram tantos faraós.

- Isso mesmo. Akhenaton foi um grande revolucionário. Não por acaso ele implantou o monoteísmo no Egito; raízes hebraicas, amiga. Contudo, a despeito da ideia de um Deus único, ainda não entendia que ele era amor. E a delicadeza de Nyla não lhe lembra em nada a suavidade do rosto de Tutankhamon, o faraó menino?

- Nyla, Tutankhamon?

- A justiça é perfeita, Kyia.

- Devo resignar-me à morte tenebrosa e ao abandono de meu marido?

- Deve confiar em Deus.

Um grito fez Kyia retornar ao palácio. Tula entrou na capela mortuária e chamou a atenção do faraó.

- Grande Ra, peço humildemente sua permissão para incorporar--me ao cortejo fúnebre e ser também encerrada no mausoléu. Confesso diante de todos e do senhor, grande Ra, que coloquei o tônico venenoso no jantar de Kenefer.

Kyia não conseguiu fechar a boca diante da confissão da amiga.
- Acha que meu amigo gostaria de levar consigo para o paraíso sua assassina?

- Eu só quero ficar livre da tortura do remorso e da culpa que me esmaga dia e noite. Estou prestes a enlouquecer de dor.

Com um sinal de mão o rei do Egito mandou que levassem Tula presa. E o gesto a seguir foi passar o dorso lateral da mão direita na própria garganta, em um movimento que lembrava a tão usada decapitação. Péricles abandonou o recinto com a fisionomia triste e abatida; sentia-se culpado pela morte da companheira. Afinal, idealizara o assassínio que ela executara e não lhe permitira que no auge do desespero desfizesse o ato vil. Não se arrependia, porém a lembrança da imagem da face esbofeteada da esposa desmaiada fazia-lhe mal. Sentiu pesar por saber que não podería fazer os funerais de Tula. Nunca mais a veríi. nem viva nem morta.

Esses condenados, ao contrário de todas as outras pessoas, eram jogados para os crocodilos do Nilo devorarem. No Egito antigo, até os forasteiros que morriam em suas terras eram lavados, embalsamados e sepultados como objeto sagrado, visto que assim era considerado o corpo humano. Contudo, aqueles a quem o faraó mandava matar eram inimigos do rei - logo, do reino - e por isso lançados desrespeitosamente ao rio. E foi esse o desfecho da história de Tula, que corroída pelo remorso não podia continuar sua caminhada.

O coração de Kyia disparou quando o faraó autorizou a saída ds cortejo. O sol estava então a pino.

Na frente ia o faraó em um trono móvel carregado por quatro escravos de peito nu, seguido imediatamente dos sacerdotes e escrihs carregando o sarcófago; depois vinha a família que seria sepultada iur.r ao morto e atrás dela uma turma de carregadores levando os víveres recursos dos viajantes para o mundo dos mortos; por último, os comí dados do soberano.

Em meio aos carregadores de provisões Kyia reconheceu Proteu.

- Não tema, rainha do Nilo. Se atravessei desertos e mares em se encalço, acha que uma única parede poderá apartá-la de mim?

- Não me deixe agora, Proteu!
- Nem agora nem nunca. Espere por mim.

- Não se demore. O azeite pode acabar e tenho medo do escuro na cidade dos mortos.

- Antes que isso aconteça, estaremos fazendo mais azeite em Atenas. Fazendo azeite e criando gatos, lindos gatos de olhos coloridos e pelagem macia.

- Sim, querido, muitos gatos.

As lágrimas estrangularam-na. Proteu tomou sua mão e a beijou com força; a seguir tomou a direção oposta ao cortejo.

À porta de sua casa, Tales esperava por ele.

- Então?

- Enviei três mensageiros a Atenas com um intervalo de tempo estratégico. Quanto ao exército, todos os soldados gregos estarão conosco na hora extrema. Disseram que estiveram com você por toda a vida e não o deixarão agora para se associar ao faraó. Aos egípcios nada contei; temo que nos entreguem a Hakor.

- Fez bem. Não quero levar os homens do faraó; quero apenas os meus e aqueles que forem fiéis a mim.

- Por isso não disse nada a Péricles, que acredito ter se bandeado para o lado do nemes. Quando você está distante o orgulho lhe sobe acima da própria cabeça, e percebo que seu regresso não lhe agrada.

- Pois bem, comunicarei a ele na última hora; assim não terá tempo para nos trair e se por acaso for inocente decerto nos acompanhará. Aproveitemos a balbúrdia do funeral, quando ninguém notará nossas movimentações, e carreguemos as mulas com nosso tesouro pilhado das pirâmides.

- E quanto aos alimentos?

- Não se preocupe com isso; na tumba de Hakor há muito mais do que podemos carregar ou consumir.

Num gesto reverente o rapaz beijou a mão do general.

- Escute, Tales: se Péricles for mesmo um traidor, você será chefe do meu exército; e se for inocente, será o imediato dele, quando eu estiver plantando minhas verduras e criando meus gatos.

- Pretende parar, general?
Estou velho e cansado, e quero ver meu filho crescer. Desde os oito anos que me dedico a esta arte, estou exausto. Portanto, se necessário travarei contra Hakor minha última batalha.

A brisa fresca do Nilo acariciava o rosto de Kyia. O cortejo estava agora em uma embarcação rumo à necrópole. Nyla olhava para a frente em atitude séria e compenetrada. Desde a revelação maldosa de Hakor a moça não mais olhara para Kyia, que respeitava o silêncio e a mágoa da filha, mas prometera a si mesma que tentaria falar com ela a sós.

A tumba do faraó Hakor não era piramidal. Constituído de dois pavimentos que lembravam uma grande canastra, o sepulcro era uma maravilha arquitetônica e escultural. A fachada frontal era imponente e clássica, sustentada por quatro colunas que na verdade eram estátuas de Hakor e Neferites I, o fundador da XXIX dinastia. A porta principal era de bronze com o disco solar esculpido ao centro, sendo o astro talhado com um rosto humano perfeito em suas formas. As travas que mantinham a tumba lacrada eram os raios da escultura, que ao toque do sacerdote guardião da tumba (preciso e combinado como um segredo de cofre da antiguidade) moviam-se e se recolhiam para dentro do disco, destrancando a porta. O cheiro sufocante de locais fechados encheu as narinas dos acompanhantes, que não faziam a menor questão em prosseguir; a partir dali os sacerdotes os despediam, entrando apenas eles, o faraó, um escriba e a família.

O primeiro sacerdote entrou na frente, acendendo as tochas fixadas nas paredes dos dois lados do corredor estreito, que dava em ampla câmara onde um altar era disposto para o nascente. No altar, o sarcófaga foi depositado e Sobeknefru leu trechos do Livro dos Mortos que ninguém ouviu. Ainda assim ele se sentiu orgulhoso e mandou autorizar a entrada dos carregadores de alimentos, que depositaram no altar una. quantidade exorbitante de comida e foram dispensados, indo para dentro do grande “baú” apenas dois carregadores que levavam as riquezas.

Da câmara em que ficaram os alimentos o cortejo caminhai por um corredor inclinado, baixo e estreito, que descia pela sepultin até penetrar na rocha, tornando-se então horizontal até uma cânuol funerária secundária, um pouco abaixo da destinada ao rei, onde o sarcófago de Kenefer foi colocado com um ritual demorado e confuso. Então os objetos com os quais seriam “compradas” as passagens para o paraíso foram solenemente dispostos e os carregadores dispensados. Os escribas grafaram os nomes do morto e de suas acompanhantes e saíram também, sendo designados três sacerdotes para ouvir as últimas palavras das três mulheres de Kenefer. Sobeknefru segurou as duas mãos de Kyia entre as suas e fitou os olhos borrados de maquiagem e lágrimas da parceira.

- Sinto muito, Kyia. Acredite, eu gosto de você. Perdoe-me por estar aqui fazendo isto; eu não tenho escolha.

- Não se preocupe. Você não tem culpa, não tenho sentimentos ruins por você. Nem mesmo por Hakor, de quem sempre esperei atos torpes e infames, sendo como é. Minha maior decepção foi com Tula. Como ela pôde ser tão cruel?

- Não pense tão mal de Tula; ela não é má a esse ponto. Como sempre, deixou-se levar por Péricles, a quem sua dedicação é total. Ele planejou a morte de Ken e deu-lhe o veneno para matá-lo. Ainda naquela noite ela se arrependeu e tentou voltar atrás; Péricles, porém, impediu-a de retornar ao local com violenta bofetada que a fez dormir até de madrugada; quando despertou e correu para lá, já era tarde demais.Tula não conseguiu viver com isso; entregou-se em holocausto, como viu.

- Por que Péricles queria Kenefer morto?

- Não sei o que ele planeja, mas pelo que ouvi se tornará general de Hakor por causa disto.

- E por que você não impediu, já que escutou a conversa dos dois?

- Estava sendo chantageado e o veneno Péricles obteve comigo; estava em suas mãos. No entanto, nada mais importa; contei apenas para que não partisse tão magoada com sua amiga. Agora deite-se e feche os olhos!

Sobre as pálpebras cerradas de Kyia o sacerdote colocou duas moedas e em suas mãos um laço de ísis.

- Boa viagem, companheira! Que a luz de Ra a conduza!

Após idêntico ritual feito com Afra e Nyla, a voz do faraó fez-se ouvir estrondosa:

- Eu, Khenem-Maat-Re (unido à justiça de Ra), permito a Keneter partir para o mundo dos mortos levando consigo as mulheres que lhe pertencem por direito, suas esposas Afra e Kyia, e a filha que ainda lhe pertence por estar solteira, Nyla. Que se cumpra a vontade do todo--poderoso Amon-Ra.

O soberano saiu da tumba secundado pelos sacerdotes, e o grande mausoléu foi lacrado. Se o cortejo havia saído ao sol do meio-dia e em meio à algazarra própria dos funerais egípcios, dentro da câmara nada mais havia que a luz bruxuleante das tochas e o silêncio sepulcral. Kyia retirou as moedas dos olhos e mirou o rosto do deus grego nelas talhado.

- Afra! Nyla! Estamos sós.

- Kyia, mantenha-se calma, não temos apelação.

- Não, Afra, não vou morrer aqui. Se pudesse pelo menos seguir com Kenefer... Só que ele não vem para nos levar; já deve ter ido hi muitos dias. Proteu vem me buscar, e vocês podem vir também. Nyla!

- Sim.

- Acha que pode me perdoar?

- Eu não tive tempo sequer de me magoar; foi tudo tão depressa, ainda nem assimilei.

- A verdade é que eu não estive com você como deveria.

- Por que não quis ser minha mãe?

- Não foi bem assim. Eu parti para levar uma mensagem importante e fui aprisionada como escrava por muito tempo. Quando voltei, Kenefer disse que o melhor era deixar como estava. Você já havia sofrido a minha falta, e por não saberem se eu estava viva nunca lhe deram esperança no sentido de me rever. Contar-lhe que Afra não era sua mãe só iria fazer você sofrer mais.

- Mas ela não a abandonou à própria sorte - Afra interveio, ajudando a companheira de infortúnio. - Você estava com pessoas bo« que a amavam e cuidavam de você. Se não tivesse esse suporte, Kyia não teria aceitado a missão de levar a mensagem. Não é, Kyia?

- Claro que não. Eu não a despacharia em um cesto no Nilo, de modo algum.

Capítulo 38

Hakor se encontrava deitado em grande recipiente de metal cheio de água, que os escravos cuidavam de não deixar esfriar, quando lhe foi anunciada a presença de Péricles.

- Desculpe o incômodo, grande Ra, porém jamais o importunaria se não se tratasse de algo urgentíssimo.

- Espero que seja mesmo.

- Tenho informações seguras de que Proteu, meu superior e seu primeiro homem no exército, planeja profanar a tumba real a fim de resgatar a esposa lá encerrada.

O faraó se sentou em um salto.

- Profanar minha tumba? Isso é motivo para pena de morte.

- Ele o planeja, e é exatamente por isso que venho à sua presença-Como agirei sem um comando?

- A partir da confirmação dessa informação você não mais será comandado. Eu o nomeio primeiro general do meu exército e já nessa condição ordeno que pegue seus homens e se dirija à cidade dos mortos para proteger meu sagrado sepulcro. Antes, porém, passe aqui para apanhar-me. Quero estar com você nessa diligência.

- Sim, senhor!

No interior da úmida e sombria tumba de Hakor, era como se ; tempo tivesse parado. Kyia começava a sentir verdadeiro pânico, enquanto Afra e Nyla permaneciam serenas. No momento em que um tropel se fez ouvir, dando a impressão de que várias pessoas entravam pelo corredor acima da câmara onde se achavam, Kyia sentiu o medo gelar-lhe o estômago. Seria Proteu com auxiliares, ou os fantasma perversos da cidade dos mortos? Foi com um grito histérico que ela percebeu a presença de Bakenrenef, o sacerdote guardião da tumba. Chorando como criança, vislumbrou sob a luz bruxuleante da candeia o rosto de Proteu seguindo-o bem de perto.

- Acalme-se, rainha do Nilo, sou eu. Não disse que viria buscá-la?

- falou estreitando a esposa nos braços.

- Você demorou, estou com tanto medo! Assustei-me com esse homem, que imaginei ser um fantasma nefasto e apodrecido.

- Precisava aguardar a noite, e este é Bakenrenef, o sacerdote guardião da tumba. Não poderia perder tempo arrombando pedras tão espessas, ou procurando-a neste labirinto gigante; por isso o trouxe para abrir a porta e me guiar até você.

- E ele concordou?

- Um pouquinho de incentivo sempre ajuda. Disse que lhe quebraria o pescoço em um só golpe, caso não viesse comigo.

- Que incentivo! Veio apenas com ele?

- Não; alguns de meus homens estão carregando a comida para as mulas. Não acredito que Kenefer vá precisar de tanto no paraíso.

- Tenho certeza de que ele adoraria dividir.

- Vamos, minha rainha; não podemos nos demorar.

Ela chegou perto de Afra.

- Venha conosco. Não se entregue à morte aqui.

- Eu não conseguiría. Estou velha e doente, e ficar pelo caminho será muito mais penoso que aqui, onde tenho comida, água e sombra, até Deus me autorizar a partir para junto de Kenefer. Vá, Kyia, e leve nossa filha sã e salva para Atenas.

- Afra, mil vezes lhe peço perdão por ter adentrado seu lar, compartilhado seu marido e lhe deixado uma filha para criar. E ter sido o agente principal da morte de Ken.

- Nada acontece por acaso. Não foi à toa que nossos caminhos se cruzaram. Caminhos nunca se cruzam por acaso. Trocamos experiência e aprendizado.

- Eu recebi muito mais de vocês.

- Vá em paz, Kyia; cuide de Nyla.
- Não - Nyla entrou na conversa eu não vou sair daqui. Sei que a senhora não poderá fugir, tampouco eu irei sem minha mãe.

- Nyla, faça o que lhe peço! Não se sacrifique por mim, que estou velha. Você é jovem e forte, faça-me feliz e vá!

- Mamãe, qual a felicidade que mais lhe importa: a minha ou a sua?

- Sabe muito bem que a felicidade dos filhos está sempre acima da das mães; seremos felizes se vocês forem.

— Então quer que eu seja feliz, mesmo se causar sua própria infelicidade?

- Sim, minha querida.

- Pois escolho ficar. Nunca seria feliz sabendo que a deixei morrer sozinha aqui. A lembrança da última vez em que vi seu rosto me perseguiría para sempre, trazendo uma torrente de lágrimas e remors: Mãezinha, se sair nunca serei feliz; eu quero, eu preciso ficar. Viverei por pouco tempo, eu sei, mas se sair já irei morta por dentro. Por Deus, permita-me ficar e ser feliz.

Em lágrimas, Afra envolveu a filha em abraço apertado no qual Kyia se juntou, abraçando as duas com total afeição.

- Adeus, Afra. Adeus, minha Nyla - chorava sentida. - Perdoem-me, eu não posso ficar e não posso tirá-las!

- Você não precisa ficar, filha, nem nos tirar daqui. Precisava apenas nos trazer. Esteja em paz e seja feliz.

Ao ouvir isso ela de imediato recordou a intuição que tivera durante o funeral. Akhenaton e Tutankhamon: fazia o maior sentido.

Logo que saíram da câmara, Proteu segurou Kyia pelo punho c correram pelos corredores íngremes e cobertos de mofo. Os suprimentos haviam diminuído substancialmente, sinal de que as mulas estavam abarrotadas de alimento. Quando ganharam a noite escura e silenciosa, Kyia tremeu de frio dentro do vestido fino e decotado; parecia estar nua. Proteu tirou o hosch21 de Bakenrenef e cobriu a esposa. Depois mandou-o lacrar novamente a tumba e, reforçando a promessa de quebrar-lhe o pescoço, ordenou que o sacerdote sumisse imediatamente da necrópole.

- Proteu de Mileto! - a voz do faraó, aos ouvidos de Proteu, parecia um trovão vindo do Olimpo.

- Hakor!

O soberano vinha acompanhado de Péricles e uma dezena de soldados egípcios.

- Como pode ultrajar-me dessa maneira infame e sacrílega, violando minha tumba? Brinca com o meu poder ao cometer ato tão indigno e condenável!

- O mesmo penso eu do seu ato quando encerrou minha esposa aqui.

- Leis são leis, e eu sou a lei.

- Não sou um de seus súditos, não o reconheço como deus.

- Reconhecendo ou não, eu o condeno à morte no deserto para onde o banirei sem provisões e completamente nu. E farei a esposa de meu conselheiro voltar para seu devido lugar, que é a tumba de seu marido.

- Agora é você quem brinca com meu poder.

- Faz-me rir! Seu poder foi dado por mim e eu o retiro neste instante em favor de Péricles.

- E sabe o soberano que está dando poder ao assassino de Kenefer? O sacerdote me contou que Tula o matou a mando de Péricles.

- È uma acusação muito séria para se fazer sem provas.

- Pois mande interrogar Sobeknefru.

-Levem Péricles e Sobeknefru para investigação.

Dois soldados obedeceram.

- Proteu, entregue-se! Estou ainda com oito homens que podem acabar com você.

- Acoris, eu lhe agradeço pelos dez anos nos quais me ofereceu trabalho e pátria. Todavia, não entendo por que está tão alterado com minha entrada neste sepulcro, se você mesmo me autorizou a explorar as grandes pirâmides de Mênfis por todo esse tempo. E olhe que da sua tumba só tirei o que é meu. - Vai querer uma luta armada?

- Por mim não faz a menor diferença; não acredito que você assim deseje.

- Por que acha que o deixaria partir depois de ter profanado a tumba do faraó?

— E por que acha que eu deixaria meus homens para você?

Nesse momento, mercenários gregos surgiram às dúzias como se nascessem da areia da necrópole. Hakor sentia a impotência gelar-lhe o sangue e ferir-lhe o orgulho gigantesco de soberano do Egito.

- Vá, Proteu! Desta vez você me venceu. Vá e leve sua mulher. Veremos se encontra onde viver, já que Atenas não o quer mais. Ou se esqueceu de que, ao contrário de Chabrias22, rejeitou os apelos da cidade para voltar com seus homens e não defender o Egito?

- O mundo é muito maior que a Grécia e o vale do Nilo, grande Acoris.

- Tomara mesmo que você se perca nessa vastidão, pois se eu o encontrar algum dia, um de nós será um homem morto.

- E eu espero que seja você.

Dizendo isso, montou a esposa em seu cavalo árabe negro, enquanto o faraó observava a poeira se levantar pelo atrito de milhares de patas. Quando enfim os mercenários se perderam no horizonte, Hakor, sentindo--se derrotado e ultrajado no mais íntimo e desprotegido sem os gregos, regressou ao seu palácio. Ali, após berrar e quebrar toda sorte de utensílios, ele se rendeu à angústia e dormiu soluçando para acordar cheio de ira.

Mandou chamar Sobeknefru, que curvado à sua frente o cumprimentou.

- Olhe para mim. Quero saber exatamente o que aconteceu com Kenefer. Pensou que Kyia nunca mais sairia da tumba e revelou a ela algo que eu não sei?

- Não estaria na hora do primeiro culto a Amon-Ra, grande Hakor?
- Hoje não haverá nem um só culto a Ra. Quero que saiba que não estou nada bem com ele.

- Mas...

- Sem mais nem menos. Há doze anos presto os quatro cultos a Ra, e olhe o que ele me fez: levou Haemon, Kenefer e me tirou o exército vencedor. Estou perdido e desprotegido, é o fim. Quero que Amon-Ra saiba quão insatisfeito estou com ele.

- Grande Hakor, o que deseja saber?

- Precisamente o que contou a Kyia na tumba.

- Disse-lhe o que gostaria de ouvir. Como iria morrer, por que não dar a ela um pouco de alento em sua decepção? Menti que o autor da morte de Kenefer era Péricles e não sua amiga, a fim de que sofresse menos. Para ela, que estava para morrer na tumba, fazia enorme diferença pensar que a amiga era inocente; e, imaginando que ela nunca mais sairia para falar sobre isso, resolvi dar-lhe o que queria: a inocência de Tula. A verdade, porém, é que Péricles nada tem a ver com o ocorrido. A grega me pediu que fizesse um veneno para matar os insetos em seu quarto e eu acreditei que se tratava mesmo disso; apenas depois percebi quão ingênuo fui, mas era tarde demais.

- Vá embora. E está proibido de preparar venenos ou qualquer outra substância, a não ser a meu pedido. Está proibido de exercer a medicina em todo o território do Kemet, incorrendo em pena de morte caso o faça.

- Clemência, grande Hakor! A medicina é minha vida.

- Poupe-me, Sobeknefru. Ambos sabemos que é péssimo nessa área. Agora saia e volte para o seu templo. É somente um sacerdote, até que eu decida o contrário.

O sacerdote saiu do palácio chorando. Sabia ser justo seu sofrimento; matara algumas pessoas malévolas e ambiciosas, em suas tentativas de descobrir o elixir da eterna juventude. Entretanto, Kenefer era uma pessoa tão boa!... Entrou em casa, que parecia maior naquele dia sem a hóspede barulhenta e sua visita ainda pior. Deitou-se em seu leito, exausto pela noite que passara acordado nas masmorras de Hakor; apesar disso, o calor o impedia de pegar no sono. O que aconteceria a Péricles?
- Sobeknefru!

- Kenefer!

O sacerdote tremia como bicho acuado. Por mais que tentasse tapar os olhos, era como se a figura do escriba estivesse impressa em suas pálpebras.

- Pelo amor de Deus, não me machuque! Eu lhe peço perdão de joelhos.

- Pare de apertar os olhos; desse jeito, quem vai machucá-lo é você mesmo.

- Você está morto! Nós o sepultamos ainda ontem, nem teve tempo de ir para o mundo dos mortos.

- Acha mesmo que os mortos ficam esperando quarenta, cinquenta ou até setenta dias desse processo de embalsamamento de vocês para seguir seus destinos? Enquanto se preocupavam com a carne putrefata e fétida, meu amigo Haemon me conduziu, adormeceu e despertou meu espírito.

- Todo aquele trabalho penoso e repugnante é inútil? E quand: o morto é desprovido de posses o processo é ainda mais doloroso para nós. Você tem noção do que é encher seringas de licor untuoso tirado do cérebro e injetar no ventre de um morto, sem fazer nenhuma incisão e sem retirar os intestinos, e tamponar o indivíduo para impedir que •; líquido saia? Salgar o corpo, deixando-o assim durante determinac: prazo, e ao final fazer escorrer do ventre o licor injetado? Esse licor é tão forte que dissolve as entranhas, arrastando-as consigo ao sair. Nem se viver mil anos eu esquecerei esse odor.

- É como eu disse: preparam tanto o corpo perecível e esquecem o espírito imortal! Todavia, não é um trabalho feito em vão; as múmias bem conservadas servirão como objeto de estudo para a humanidade futura Mas não estou aqui para falar de mumificação, a menos que seja espiritual

- Mumificação espiritual?

- Sim, a preparação do espírito para o retorno ao mundo dos mortos, já que agora sabe que é ele quem viaja, e não o corpo.

- E a quem quer preparar para tal?

- Tula.

- Tula?
- Sim, a pobre se encontra às margens do Nilo em completo desespero. Corroída pelo remorso, ora sente enormes répteis devorando-a dia e noite, ora tem a impressão de se afogar nas águas do rio. Algo precisa ser feito.

- Suponho estar ficando louco, ao conversar com um defunto que eu próprio mumifiquei. Justo eu, que morro de medo deles...

- Pare com isso, Sobeknefru! Você não está louco. Eu estou aqui, e necessito que me ajude a ajudar Tula.

O sacerdote levantou-se sorrateiramente e tentou tocar o ombro do visitante, caindo de costas na cama quando sua mão traspassou o corpo dele.

- Vá embora, por favor, eu lhe peço em nome de Ra.

- Que vergonha! Um sacerdote mumificador e médico que tem medo de mortos!

- Nem médico sou mais.

- Talvez nunca tenha sido. Não acha que querendo acumular tantas profissões acaba por não exercer nenhuma satisfatoriamente?

Sobeknefru ficou em silêncio.

- Dedique-se àquilo que faz melhor e se aperfeiçoe antes de aprender mais. Entendo que se usar para o bem o dom que possui, de interação com o mundo dos mortos, será excelente sacerdote e poderá ensinar a seus companheiros de profissão o valor real do corpo e do espírito.

- Quer que eu faça uma campanha contra a mumificação?

- Não. Quero que faça uma campanha a favor da espiritualização.

- Como devo começar?

- Ajudando-me a tirar Dimitrula do vale de lágrimas que criou para si mesma.

- Sabe que ela o matou?

- Olhe para mim e para ela e responda: a quem esse ato fez maior mal?

- E quanto a Péricles? Acha que o faraó vai acreditar na minha versão da história de sua morte?

- Não, ele não acreditará. Não obstante, fingirá acreditar, pois do contrário teria de matar Péricles, e este é a única - embora falha e carente - segurança que lhe resta. Afinal, como fará sem ele agora que Proteu e todos os outros gregos se foram?

- Hakor, apesar da adoração e do verdadeiro fanatismo que tem por Tohotmus III, o grande faraó guerreiro, nada entende de guerra; basta dizer que nem sabe segurar uma espada.

- Por isso afirmo que nada acontecerá a Péricles, pelo menos não por enquanto. Então vá até o Nilo e tente ajudar Tula.

- Outra defunta? Por que eu?

- Você consegue interagir com ela, é coautor do seu crime. Uma vez que a moça morava em sua casa, isso ajudará quando a chamar para sair do local em que está. Precisa de mais motivos?

- Não... Mas você quer que eu chame Tula para minha casa?

— Qual o problema? Ela morou aqui por mais de dez anos.

- Quando era viva.

- E continua viva.

— Por que você não vai até ela?

- Não posso infligir-lhe tamanho sofrimento. Ter meu auxílio de forma aberta humilharia a pobre irmã, que ainda sofre pelo que me fez.

- Acho que entendo.

- A visão de nossas vítimas, quando nos encontramos tal qual Tula, é tortura bem maior que a culpa. Na hora certa estarei com ela para falarmos do acontecido e eu lhe contar que a perdoo de coração. Agora isso não seria benéfico, e sim rebaixaria mais sua autoestima.

— Então devo chamar Tula para minha casa. E se ela aceitar, o que farei com esse fantasma aqui? Oh, Deus! Mais uma vez estarei às voltas com fantasmas em casa... Parece destino.

- E é, pode crer. Inclusive foi escolha sua!

— Minha? Eu não posso aceitar!

- Pois é! Agora pare de perder tempo: vá buscar sua hóspede e aguarde novas orientações.

Tula se achava em estado deplorável às margens do rio Nilo. Tinha as roupas rasgadas, os cabelos em desalinho total e uma ferida a sangrar ininterruptamente no pescoço. Sobeknefru estremeceu de pavor.

- Dimitrula, o que faz aqui?
- Sobeknefru, que bom ver você! Tento voltar para casa e não consigo. Ajude-me! O que aconteceu? Só me lembro de ter matado Kenefer, nada mais. Onde estão meu marido e Kyia e...

- Vamos para casa; lá conversaremos.

- A dor provinda do crime não me permite recordar sequer como ir para casa... Estou muito confusa.

- Siga-me!

Ela obedeceu e ao chegar naquela que fora sua casa sentiu-se segura e confortável. Por sugestão do anfitrião, deitou-se no antigo quarto. Sobeknefru impôs as mãos sobre a cabeça da enferma, que adormeceu pesadamente. O sacerdote aproveitou para sair do aposento, fechando a porta atrás de si, e encostado a ela suspirou ruidosamente. Deveria aguardar instruções de Kenefer, que todos os dias viria tratar a doente até que pudesse, como filha da Terra que era, ser levada para um pronto-socorro próximo.

Dentro da câmara funerária da tumba de Hakor o ar se tornava cada vez mais denso; para Afra e Nyla parecia quase pastoso. Com aflição e coragem as duas se abraçaram e elevaram uma prece ao Deus único de seus ancestrais. Sabiam que era questão de pouco tempo para se entregarem ao Pai, e com fé inabalável recitaram o Salmo 22:

O Senhor é meu pastor, nada me faltará.

Em verdes prados me faz repousar.

Conduz-me junto às águas refrescantes, restaura asforças de minha alma.

Pelos caminhos retos me leva, por amor de seu nome.

Ainda que eu atravesse o vale da morte,

Nada temerei, pois estais comigo.

Vosso bordão e vosso báculo são o meu amparo.

Preparais para mim a mesa à vista de meus inimigos.

Ungis minhafronte e transbordais minha taça com vosso amor.
A vossa bondade e misericórdia hão de seguir-me por todos os dias de minha vida.

E habitarei a casa do Senhor por longos dias.
Uma luz pálida e morna brilhou na câmara funerária. Haemon se fez presente no escuro mórbido do sepulcro.

- Amigo Haemon, que fizemos para merecer tamanha crueza?

- Queridas, todos nascemos neste planeta para expiar débitos seculares gravados em nossas almas. Na imensa maioria os que aqui aportam vêm nessa condição, pois é a condição da Terra. Mas por ora não devem inquirir do que resultou este sepultamento; alegrem-se pela etapa vencida! Orem por seu algoz. De mais a mais, ele não estava completamente enganado quando disse que partiríam com Kenefer.

As duas recém-libertas correram para os braços do amigo que se encontrava à espera da família. Estreitando as duas contra o peito, pediu que não olhassem para trás.

- Kenefer! Como sou ditosa!

- Abba!

- Afra, Nyla, minhas queridas, sigamos para a terra prometida!

- Bem-aventurados aqueles que, mais do que acreditar, confiam na bondade de Deus, porque habitarão a casa do Senhor por longos dias—

Se Hakor pudesse ver, seria dominado pela convicção de estar correto em sua ignorância. Kenefer deixava a tumba segurando as mãos db esposa e da filha, seguidos de perto por Haemon, a quem a misericórdii divina confiara aquele grupo de grandes faraós, antigos inimigos en evolução. Um rastro de luz ainda mais forte que o sol do deserto riscoo o céu azul intenso do Kemet. Era a pegada deixada pelos viajantes espaço, em busca da luz maior.

Hakor, um dos “anjos caídos”, sucumbira naquela campanha à iluminação. Tivera o amparo e o exemplo de tutores mais esclareci e mesmo assim continuava irredento e hóspede da Terra, junto seus compatriotas que, à exceção de Haemon, não se achavam pron para partir rumo ao “paraíso”.
O grande faraó, depois de perder seu exército, passara a sentir temor doentio de uma invasão e da consequente perda do poder. Ordenara a Péricles que reforçasse as fileiras egípcias, mas isso demandaria tempo, o que fez crescer a apreensão do superior a ponto de gerar estado de morbidez tal que lhe trazia a imagem de Psamutis - a quem tirara o trono e posteriormente executara - exigindo de volta sua posição de faraó, sob ameaças tétricas que o levavam à loucura. Por muitas vezes o soberano era visto surrando as paredes sólidas de seus aposentos, na tentativa de exorcizar o usurpador do trono egípcio. Dia após dia, Hakor perdia gradualmente a razão.

Capítulo 39

Proteu e seus comandados aguardavam na costa do Mediterrâneo os mensageiros enviados a Atenas com a resposta à sua proposta. A mensagem foi clara e direta. A Grécia aceitava de volta seu filho desgarrado, nestes termos: Proteu de Mileto deveria novamente assinar o seu nome de origem; deveria fornecer, com requintes de detalhes, todos os segredos e táticas do exército do faraó; nunca mais deveria deixar os limites de Atenas, a não ser se enviado em missão pela própria cidade ou pela metrópole; deveria pagar um tributo pelo perdão incondicional da cidade-estado de Esparta, capital do mundo grego.

- Que história é essa?

- General, esqueceu que Atenas foi derrotada e submeteu-se a Esparta? Desde então Esparta lidera o mundo grego.

- Deixe estar, eu concordo com os termos. Vamos voltar para casa, meninos.

Com a colaboração da legião romana cujo general era amigo de Proteu, a quem os mercenários estavam sempre dispostos a ajudar, atravessaram o Mediterrâneo sem maiores problemas. Ao avistar a costa grega Proteu se emocionou, com se entrasse em estado contemplativo.

- Olhe, Kyia! Hélade23, minha terra, minha casa!

- Eu não acreditava que pudesse existir um lugar tão verde. Parece o paraíso-jardim dos judeus mesclado às cidades futuristas dos faraós.
23 Os antigos gregos autodenominavam-se helenos, e ao país chamavam Hélade;, gregos e Grécia são palavras latinas, atribuídas pelos romanos.
Quero ver tudo quanto me contava em Tebas: Pártenon, templo de Artemis, Acrópole, Ágora, templo de Hefesto. Quero assistir aos jogos de Olímpia e tomar banho de mar.

- Espere um pouco, minha rainha! Posso mostrar a você quase tudo, menos os jogos olímpicos, que são proibidos às mulheres.

O desapontamento no rosto dela era notável.

- Querida, aqui as mulheres não têm as mesmas regalias que no Egito, porém lhe asseguro que dentro de nossa casa tudo será como em Tebas. Prometo que viveremos em local onde haja a menor desigualdade possível.

- Mas não é tudo igual, submetido a um único rei?

- A Grécia não é um estado unificado com um só governo, como o Egito. É um conjunto de cidades-estados independentes entre si, que possuem características próprias. Contudo, na maioria elas têm sistemas econômicos, políticos e civis semelhantes, excluindo-se Esparta, que atualmente é a maior potência.

- Que estranho! Com tanta diferença, como conseguiu viver no Egito?

- Não é fácil viver em reinos estranhos; nunca será simples deixar a pátria. Eu consegui, da mesma maneira que você conseguirá viver em Hélade, por muito amar. Sempre que estava à beira de um colapso diante de algo que julgava absurdo, eu me lembrava de você como egípcia que é e pensava: “minha Kyia é parte de tudo isto”.

- Meu deus grego, como sou feliz por ter encontrado você! E digo--lhe até que embora os costumes de sua terra sejam desfavoráveis aos progressos que nós, mulheres, tivemos no Egito, por você eu me submeto, tal qual durante dez anos você fez no Kemet.

- Nunca a submeterei a algo que a desfavoreça. Eu a amo mais que à Grécia, a Mileto, a Atenas ou a mim mesmo.

No decorrer dos primeiros dias, Kyia deslumbrou-se com a paisagem jamais vista, tampouco imaginada por alguém que estivera toda a vida no deserto. A figura da Acrópole no alto da cidade era encantadora e o Pártenon, oposto ao céu azul, era motivo de orgulho dos atenienses e admiração dos forasteiros. As oliveiras enfileiradas, carregadas de rutos, davam-lhe a impressão de uma permanente miragem. O mar grego era de um azul tão intenso que parecia feitiço de Poseidon. Tudo era novo e belo.

Proteu passava muitas horas do dia em conferência com as lideranças militares de Atenas, a quem repassava os segredos, os pontos fortes e as fraquezas do exército de Hakor. A cidade-estado, em terrível decadência, no momento não cogitava uma invasão ao delta; repassava as preciosas informações a peso de ouro aos macedônios, que reputava os únicos com possibilidades reais de subjugar Esparta. Por sua vez, Proteu realmente passara a liderança do grupo de mercenários a Tales e deixara a guerra, alegando não mais ter idade para tal.

As ausências do marido, entretanto, eram agradáveis a Kyia, que assim podia passear por Atenas a sós, sem com isso ter de se submeter ao costume grego que mandava as mulheres a andar atrás do esposo, nunca ao seu lado nem à sua frente. Nessas ocasiões a egípcia sentia saudade do Nilo, por onde caminhavam de mãos dadas.

Na Grécia, a figura masculina era endeusada pelo simples fato de os homens serem guerreiros. As mulheres, por sua fragilidade física, eram tidas então como imprestáveis para a guerra e portanto deviam servir aos defensores da cidade em todos os aspectos imagináveis. Reconhecia-se a inferioridade física como defeito grave, em tempos nos quais a força e a agressividade eram os principais requisitos para se sobreviver em uma pólis. A obediência cega e a submissão a todo tipo de desrespeito eram também vistas como uma forma de agradecer aos bravos lutadores pela segurança e proteção que ofereciam.

Kyia, acostumada à autonomia relativa da mulher egípcia, que podia inclusive pedir divórcio e manter um negócio, não entendia como as mulheres de Atenas achavam natural tal situação. No entanto, como havia sido ajustado com Proteu, o casal mantinha uma espécie de fachada. Em casa, ele sempre lavava os próprios pés.

A jovem havia aprendido a arte de fazer azeite de oliva, os gatos da casa somavam mais de vinte e a horta já mostrava sinais de fartura quando Abgail retornou ao plano físico. Uma mulher tida na época como idosa, entre 45 e 50 anos, veio para ajudar Kyia nesse momento.

Ao entregar em seus braços a menina de beleza rara e aspecto calmo e tranquilo, a “velha” grega parabenizou a nova mãe.

- Que Atenas a envolva em sabedoria e luz; foi a única esposa felizarda a gerar para o guerreiro!

- Como?

- Foi a única das esposas a gerar para o guerreiro; ainda que a criança seja fêmea, nenhuma outra conseguiu gerar sua semente.

- Eu não estou entendendo. Proteu não tem outra esposa.

- Como não? Todas as viúvas de seus guerreiros se tornam suas esposas, embora com algumas ele não tenha consumado o fato...

- Está dizendo que as tais viúvas de Proteu são na verdade suas concubinas? Que o acampamento militar é um harém?

- Não é bem isso, pois nós lavamos as roupas dos guerreiros e cozinhamos para eles.

- E o que mais?

A grega ficou em silêncio.

- E não brigam entre si?

- Por que deveriamos? Proteu não nos pertence; nós é que pertencemos a ele.

- Isso quer dizer que você é esposa de meu marido?

- Sim. E não podemos brigar, visto que ambas lhe pertencemos.

Haemon, que com a permissão do Alto continuava ligado aos ambientes terrenos, auxiliando as criaturas às quais se afeiçoara, estivera no quarto de Kyia para proteger a chegada daquela que lhe fora tutora, enquanto encarnado; e agora amparava a egípcia diante da revelação que lhe rasgava o peito e o espírito fragilizados pelo parto, momento propício para que a revelação não fosse acompanhada de trágicos acontecimentos.

Alisando amorosamente seus cabelos, falou-lhe à alma: “Kyia, não se desespere com essa notícia. Agradeça a Deus a oportunidade de sentir a dor-evolução, aquela que nos ensina a não cometer novamente os mesmos erros. Acaba de conhecer as proporções da dor que provocou em Afra quando se impôs como esposa de Kenefer. Já sabe que não deve mais invadir a sagrada instituição familiar”.
A mãe de Abgail - a quem Proteu chamaria Helena - não ouviu claramente o que o protetor lhe dissera ao coração, porém reportou-se ao dia em que se casara com Kenefer; recordou a dor reprimida nos olhos de Afra ao receber em sua casa, por esposa do próprio marido, mulher muito mais nova e bela. A situação de Afra era ainda mais cons-trangedora; Kyia pelo menos tinha sua casa, era a mais jovem e posterior a todas as demais. Ainda assim, pediu que sua ajudante se retirasse e soltou-se em pranto profuso e sentido.

Ao ver a grega deixar o quarto, Proteu adivinhou o que ocorrera e entrou imediatamente. Tomou a criança nos braços e afirmou, admirado de tanta beleza, que daria a ela o nome Helena, por este lembrar una beleza tão rara que causara uma guerra de dez anos. Sentou-se ao lado da mulher e falou carinhoso:

- Obrigado por Helena, e por tudo quanto tem feito por mim desde que aqui chegamos. Peço que me perdoe por não ter contado a você sobre as viúvas.

- Sobre as suas mulheres?

- O que você quer que eu faça? Que jogue ao vento tantas mulhej res desprotegidas e sem meios de sobreviver?

- Sim.

- Kyia!

- Não acredito que em algum instante se preocupou em ser provedor dessas mulheres por caridade desinteressada ou lealdade aos a guerreiros mortos. Você pensou em tirar vantagem da situação, q brincar de soberano árabe. Pois fique sabendo, Proteu de Mileto: vou me recuperar deste parto e matarei uma dessas odaliscas a cada talvez ao final de um ano elimine essa praga.

- Você não teria coragem.

- Não aposte nisso. Disse a você que me submeteria aos costu de sua terra, mas não sabia que na Grécia existiam haréns.

- Não se trata disso.

- Agora saia daqui! Preciso ficar sozinha e descansar.

Durante os dias seguintes Kyia recebeu a visita de uma mulher jovem que dizia ser pitonisa infalível, capaz de ver o futuro e fazer encantos variados, para o bem e para o mal. Soubera por intermédio de uma das viúvas, como eram conhecidas as mulheres que moravam no campo de treinamento, que a senhora egípcia não se conformava com a situação do marido, que por ter deixado as batalhas passava muito tempo entre os guerreiros e suas cuidadoras.

- Como pode ver, acho esta história um disparate, senhora...

- Roxana. Concordo plenamente, já que Proteu é um heleno, não árabe... Se algumas escapulidas são até aceitáveis entre os helenos, um harém é demais, senhora. Posso pôr fim a esta festa rapidamente sem que ele perceba.

- E o que eu preciso fazer?

- Noto que tem sensibilidade para assuntos transcendentais, e assim poderá ajudar-me a realizar o feitiço. E como sei que seu marido saqueou as grandes pirâmides, imagino que terá condições não de me pagar, pois o que vou fazer não tem preço, mas de me ofertar um regalo dos velhos faraós em sinal de gratidão.

- Que seja assim.

Nefertari, que se aproximara graças ao estado ciumento de Kyia, sorriu a um canto. Se a adversária mostrava a mínima brecha para ser destruída, trabalharia nesse espaço que o desejo do mal abrira.

- Vou vigiar a lua certa para o trabalho de magia negra que pretendemos; na noite propícia avisarei a senhora para começarmos os procedimentos. Espero que não tenha medo de confabular com as trevas.

- Não tenho medo, mas diga-me: o que se sucederá às viúvas?

- O que quer aconteça a elas?

- Quero que morram de maneira aparentemente natural.

- Isso é um pouco mais dispendioso.

- Nenhum problema.

- Então passe bem, senhora!

- Até breve!

A partir daquela data, Kyia só pensava em destruir as viúvas de Proteu, e Nefertari em destruir Kyia. O ódio nos dois espíritos os mantinha ligados por laços tão tenazes que vez por outra seria impossível identificar os pensamentos de cada uma separadamente.

Roxana chegou em uma noite muito clara dizendo ser aquela a ocasião propícia aos feitiços pretendidos. Helena dormia graciosamente no berço e as duas saíram ocultas nas sombras. Sob frondosa oliveira a pitonisa iniciou os rituais macabros que acreditava serem necessários para a evocação de espíritos recalcitrantes no mal e plenos de desejo de vingança. Ambas ignoravam que bem antes de começarem os dispensáveis rituais Nefertarl e uma horda de espíritos que se sentiam lesados pela egípcia, entre eles Montuhotep e seus companheiros da estalagem de Urchada, já estavam presentes, rindo às gargalhadas de tanta trabalheira que as viam ter com objetos estranhos, desenhos indecifráveis e carcaças de animais domésticos.

- Grandes mestres das trevas, já se encontram aqui?

Os desencarnados riam em completa algazarra. Eles estavam sempre ali, atraídos pela similaridade das médiuns desavisadas que ainda não sabiam usar para o bem o belo dom que haviam recebido ao rea-portar na Terra.

- Grandes gênios do mal, venham em nosso auxílio!

- O que querem de nós, mortais rastejantes da areia do desertei' Nós, que planamos nos céus azuis e na imensidão do cosmo, não estamos por conta de seres tão abjetos e obsoletos.

Kyia falava com voz rouca e arrastada. Seu corpo espiritual se ligara ao de Montuhotep e ele influenciava o aparelho fonoaudiológico da egípcia de modo a falar por ela, que entrara em estado de torpor.

- Perdoem-nos por incomodá-los com nossa pequenez, mas nadz podemos fazer sem seu concurso.

- O que querem?

- Precisamos de algumas mortes acidentais.

- Muito fácil e rápido. Como seremos pagos?

- Falem o que desejam de nós.

- A única coisa que têm e não podemos ter sem sua cooperação.

- O que seres tão abjetos e obsoletos têm que falta a vocês?

- Os prazeres da carne. Depois que fizermos o que pedem, deverão estar sempre disponíveis para nos fornecer essas sensações perdidas.
- Pode ser mais específico quanto aos prazeres a que se refere?

A entidade gritou encolerizada, espumando os cantos da boca do aparelho físico de Kyia:

- Seres imbecis, imprestáveis e estúpidos! Falo de álcool, comida e sexo; maledicência, furto, corrupção, agressão, desavenças, discórdia e guerra.

- Quer dizer que...

- Farão tudo isso por nós, sempre.

- É um pacto?

- Exatamente. Um pacto com Hades, o maligno, o rei das trevas inóspitas contidas embaixo da terra, do subterrâneo das dores eternas, dos lamentos vãos de criaturas desavisadas; o gênio do mal, o anjo precipitado cujas asas se tornaram negras e malévolas.

Montuhotep se fazia passar pelo irmão de Zeus, deus das trevas e da morte.

- O pacto pode ser feito entre você e Kyia. Afinal, é ela quem deseja os acidentes.

- Covarde! - a voz se tornara mais apavorante e cavernosa. - Está com medo?

Roxana gaguejou ao admitir:

- Eu não quero pacto; estou com medo, sim. Não quero ficar presa a você para os mais torpes e obscenos fins. Se Kyia quiser continuar, eu não quero mais. Saia desse corpo para que eu possa conversar com ela.

O corpo de Kyia foi violentamente arremessado ao solo, causando escoriações e violenta crise de tosse.

Quando enfim, quase sem fôlego, conseguiu falar ela perguntou assustada:

- O que houve aqui? Eu me senti arrebatada para local ermo e escuro de onde sons humanos animalizados enchiam o ar sem que pudesse ver sua procedência. O cheiro era de barro podre e não havia sequer uma folha verde.

- Você esteve nos infernos de Hades, e ele esteve aqui falando por você. Disse que pode facilmente provocar os acidentes, desde que em troca você esteja sempre à sua disposição para quaisquer vícios e torpezas.
- Sokar?

- Sokar, Hades, Plutão, demônio para os judeus, nomes não interessam... O próprio rei das trevas esteve aqui e propôs um pacto. Eu disse não; quanto a você, a decisão é sua.

- Se eu aceitar, pode ajudar-me a falar com ele?

- Você pensa em aceitar? Sabe que com isso estará sujeita à ação dele pelo resto da vida e depois que morrer cairá direto em seus braços?

- O que faremos?

Sorrateiramente Nefertari intuiu a pitonisa.

- E se nós mesmas as matássemos?

- Como fazer isso? São muitas mulheres. Poderemos matar algumas sem sermos descobertas, mas todas? Não, acho quase impossível agir tantas vezes sem sermos pegas.

- Deixe-me pensar em algo. Sei que não quero pacto com Hades. É um preço muito alto a se pagar. Lembre-se, amiga: a eternidade é eterna. Contudo devo adverti-la de que formamos um par perfeito e poderoso, haja vista que obtivemos contato com o próprio Hades. Poderemos ganhar muito com este nosso poder.

- Ganhar o quê?

- Riquezas inimagináveis, moedas incontáveis, tudo isso pode vir até nós se nos dedicarmos à arte dos feitiços, encantos e malefícios. Podemos armar e desarmar casamentos, gestações, reinados, empregos, viagens, negócios... Podemos curar, adoecer e matar com a ajuda dos mortos.

- Acha que pode dar certo?

- Claro, não há como não dar. Inclusive acho que podemos começar já, enquanto ganhamos poderes para acabar com o harém de seu marido. Mas como pode esse Proteu ser tão.... nem sei o que dizer!

- Não diga nada ou nem mesmo terei planos para matar as viúvas. Mato logo esse maldito grego e acabo com tudo isto cometendo apenas um assassinato.

- Que bela ideia, sócia! Seria muito mais simples.

Nefertari exultou e foi esbofeteada por Montuhotep, que após o diálogo havia assumido a forma mitológica de Hades, fornecida pela mente de Roxana.
- Não seja cretina! Um assassinato! O que vale isso quando podemos acrescentar mais de uma centena nas costas dessa maldita?

— E quanto à minha satisfação pessoal em matar aquele que me tirou a família?

- E quem disse que não pode fazê-lo? Só que para isso não precisa estragar meu plano de morte em massa de todos aqueles guerreiros e suas viúvas desavergonhadas.

- Sim, grande Hades! Mas por que quer matar os guerreiros?

- Para fazê-los pagar por todas as atrocidades que praticaram em Urchada. Esses gregos malditos entraram em nosso povoado matando, estuprando, pilhando e queimando tudo pela frente. Quero destruir a desgraçada que me matou fazendo-a cometer os crimes que me interessam. E quando ela chegar aqui terá uma legião de guerreiros a esperá-la.

Dizendo isso, soltou uma gargalhada alta e rouca, aterrorizante, e se aproximou da egípcia.

“Não aceite a sugestão dessa grega cretina; não pode matar Proteu. Gosta dele, e é o pai de Helena.”

- Não posso matar Proteu. Eu amo meu marido, é o pai de minha filha!

- Você é mesmo uma fraca.

- Começa uma sociedade já desfazendo de sua sócia? Eu me en-volvi com você porque quero Proteu só para mim. Nada justifica matá--lo; assim eu o tiraria das viúvas e de mim própria.

- Pensando por esse lado, está certa. Deixe o semideus viver. Vamos trabalhar e fazer fortuna.

O quarteto de desencarnados assessorava tanto as duas sócias em pequenos favores que não tardou a se espalhar por Atenas sua fama de grandes magas que resolviam qualquer problema com magia. À influência insistente dos assessores somava-se a moral reduzida dos homens da época, que davam brecha para os malévolos agirem a seu bel-prazer. Assim, ora eram convencidos de que estavam apaixonados e deviam desposar determinada pessoa, ora o contrário. Da mesma forma eram induzidos a comprar, vender ou até doar os mais variados bens. Alguns chegaram ao ponto de adoecer ao acatar sugestões para excessos que levavam inclusive à morte.

Esse tipo de procedimento acontece quando abrimos nossa guarda por muito agir incorretamente. É válido dizer que se vivermos no bem nenhum artifício negativo terá força para nos alcançar.

Houve, por exemplo, o caso de uma mulher que procurou pelas magas e pagou pela realização de seu casamento com o preceptor de seu irmão, sábio ateniense dominador da matemática e da filosofia e que nas horas vagas lecionava nas ruas para crianças de parcas possibilidades, entre as quais sempre dividia um pão e um odre com leite.

Montuhotep, que a cada dia se apresentava aos “clientes” com um nome diferente, dessa vez se fazendo passar por Homero, pediu o prazo de trinta luas para o erudito se declarar apaixonado pela irmã do pupilo. Ao fim do prazo esta retornou irada, exigindo seus tributos de volta: durante os trinta dias o mestre nem mesmo alterara o jeito de olhar para ela. Roxana, auxiliada pela mediunidade psicofônica de Kyia, trouxe “Homero” para se explicar com a insatisfeita cliente.

- Não é justo que seja ressarcida em suas doações espontâneas - disse ele, fingindo o tom de voz dos antigos sábios gregos. - O meu trabalho foi feito: passei horas a fio ao lado de Demétrio, dias e noites inteiros falei-lhe de sua beleza e feminilidade, realcei seus dotes físicos e modos meigos e insinuantes. Ele não me ouvia, não me via, passava por mim. por dentro de mim, como se eu não existisse. Gritei minhas sugestões até ficar rouco; ainda assim não ouviu. Ordenei que Nefertari assumisse suas feições, entrasse em contato com ele durante o sono do corpo e o envolvesse para despertar as sensações e os desejos da carne por você. Quando enfim o grego deixou o corpo, enormes guerreiros nos barraram o acesso a suas atividades extracorpóreas, que não se deram por aqui; o professor foi conduzido para longe da Terra, até onde não pudemos acompanhar. Chamei então todos os meus companheiros para gritar em coro a sugestão do casamento, e nem com a ajuda de mil vozes ele nos ouviu. E impossível falar a alguém surdo; não conseguimos incutir nele a ideia de se apaixonar por você. Todavia, tivemos um trabalho muito grande que precisa de remuneração - mudou o tom de voz para agressivo e rouco. - E não queira brigar conosco, pois pode sair bem mais caro se a fizer aparecer doente da noite para o dia, se levar você à loucura completa a que se seguem o suicídio e os tormentos infernais.

- T-tudo bem, não precisa me devolver nada. Está tudo certo.

Sem tirar os olhos de Kyia, que assumia feições grosseiras e medonhas, a moça apanhou seus pertences e correu para casa. Na sala principal encontrou Demétrio e o irmão entretidos com os números variados; passou sem olhar para o mestre, que estranhou sua maneira apressada de ir para outros aposentos sem ao menos cumprimentá-los. Apesar de surpreendido, suspirou aliviado. Se ela parasse com aquele jogo estúpido e pueril de sedução, sentir-se-ia bem mais à vontade para ensinar o menino.

E assim seguiam Kyia e Roxana. Os clientes eram tantos que a própria pretensão de acabar com as viúvas foi ficando em segundo plano - embora o assunto ainda fizesse Kyia sofrer -, enquanto as magas enriqueciam de forma vertiginosa.

Helena crescia, a cada dia mais bela e meiga. Com quatro anos completos, era a razão do sorriso de Proteu, que em virtude da “aposentadoria” dedicara-se inteiramente à criança, cujo comportamento se revelava infinitamente superior à idade física. Incapaz de suportar a falta da filha por mais que algumas horas, era quase inevitável ser visto com ela sobre o cavalo. Por isso sempre que se ausentava levava a pequena, que também já não concordava em ficar apartada do genitor.

Capítulo 40

Numa noite de chuva - coisa que, a despeito de cerca de cinco anos longe do deserto, ainda admirava com fervor - Kyia olhava pela janela, extasiada diante do fenômeno. O barulho da água nos telhados era como música em seus ouvidos e o farfalhar das oliveiras ao vento soava como a voz do próprio Zeus. A enxurrada que descia da Acrópole lhe parecia sagrada por banhar os templos e sentia ímpetos de se deitar no caminho das águas e passar a noite ali. A madrugada já ia alta quando se dirigiu aos seus aposentos.

A cena era enternecedora: Proteu, o gigante grego adormecido com o minúsculo corpo de Helena de bruços sobre o peito, a mão que a embalara em seu sono tranquilo tomava toda a extensão de suas costas e os cabelos encaracolados da pequena repousavam sobre o rosto do pai.

Kyia parou na entrada do aposento, temendo desfazer tão belo quadro, e por longo tempo permaneceu ali admirando sua família. Que belo era seu marido! Quão linda sua Helena! Não poderia terminar seus dias dividindo seus tesouros com aquelas viúvas alegres... Se fazia os desejos de todos se tornarem reais, estava mais que na hora de trabalhar no seu, que na verdade fora o que desencadeara sua sociedade com Roxana. Precisava dar fim ao maldito harém.

Leves pancadas na porta a despertaram de seus devaneios. Acorreu rápido para que o sono de seus amados não fosse perturbado por motivos fúteis de pedintes atrasados. Tomando afiada espada, falou com o rosto encostado a porta:

- Quem é e o que deseja nesta hora tão avançada?

- Kyia?
Quem está aí?

- Não se assuste. Sou eu, Sobeknefru; abra para mim, estou encharcado e enregelado.

Num instante a porta se abriu e ela, sem se importar de ficar toda molhada, atirou-se nos braços do amigo.

- Seu idiota charlatão! Estava morrendo de saudade de você. O que faz tão longe de casa?

- Preciso de abrigo e ajuda para que possa instalar-me por aqui.

- Não trabalha mais para Hakor?

- Hakor morreu pouco depois que vocês deixaram Tebas, acredito que de desgosto, pois, nada foi diagnosticado em seu corpo. Neferites II o sucedeu, mas não reinou senão por poucos meses; foi assassinado por Nectanebo, cujo reinado também quase nada durou. A XXX dinastia mal começou e terminou com a invasão persa, que destronou Nectanebo II e dominou todo o Egito. Os persas estão aniquilando qualquer egípcio que não se submeta ou que tenha sido ligado à administração faraônica. Por isso tratei logo de sumir dali. A sua lembrança, única amiga que me restou, veio a me intuir a fugir para a Grécia, e aqui estou. Acha que posso trabalhar neste lugar?

- Sobeknefru! - ela exclamou entre o espanto e a empolgação. - Não poderia ter chegado em melhor hora. Conheci uma pitonisa de nome Roxana e juntas formamos uma sociedade quase perfeita; digo quase porque nos falta um profissional de poções e venenos. O que acha?

- O que fazem exatamente?

- Tudo que nos pedem - com o concurso dos espíritos, é claro. E você, além de ser um oráculo infalível, sabe muito bem fabricar poções.

- Eu adoraria trabalhar com vocês.

- E a primeira tarefa sua será preparar um veneno poderoso para mim. Preciso fazer um serviço grande.

- Quantos?

- Mais de cem.

- Como agirá tantas vezes sem ser pega?

- Eu não sei. Tem alguma ideia?
- De que tipo de pessoas se trata?

- As viúvas de Proteu - o ódio era evidente no olhar da esposa do guerreiro.

- Ele realmente se envolve com elas?

- Sim - a voz estava sufocada por contido pranto.

- Mais de cem mulheres? - parecia incrédulo.

- Não, mas não sei quais delas são minhas rivais. Por isso acabarei com todas.

- Está certa do que quer?

- Estou. Você não pode imaginar o tamanho da minha dor ao pensar que Proteu tem outras mulheres, que lhes dá o mesmo carinho que pouco depois me oferece. Chego a sentir o cheiro delas em seu corpo. E doloroso ao extremo porque gosto muito dele. Soube por pessoas leais que essas odaliscas pegam no colo minha Helena, que é afeiçoada a todas as detestáveis viúvas. Ajude-me, Sobeknefru! Como agir tantas vezes sem ser descoberta?

- Essas mulheres moram juntas?

- Sim, no campo militar existe um alojamento.

- Fácil. Aja apenas uma vez.

- Uma vez?

- Isso. Sabote a água do local.

- Mas assim matarei os guerreiros... E minha própria família está sempre por lá.

- Guardemos o antídoto para Proteu e Helena, se por acaso ingerirem a água. Quanto aos guerreiros, têm mesmo vida curta, e toda grande ação traz um efeito colateral. São perdas necessárias.

-Teremos de passar por todos os guerreiros e viúvas para chegar ao reservatório. Pode ajudar-me nisso?

- Claro.

- Ótimo, então fica combinado. Por ora lhe arranjarei um alojamento, até que construa outra casa-templo como em Tebas. Hoje você dorme em minha casa.

- Obrigado, Kyia. E se não se importa quero fazer isso já; não imagina como estou cansado da viagem.
- Imagino, sim. Venha, vou alojá-lo no quarto dos fundos; é silencioso e confortável.

Depois de acomodar o velho amigo ela se dirigiu aos próprios aposentos. Com cuidado retirou os cabelos de Helena do rosto de Proteu. Por alguns segundos admirou a beleza grega do marido serenada pelo sono e a formosura da filha, que transcendiam os padrões normais. Cautelosa deitou-se ao lado deles e, aconchegando-se ao outro braço de Proteu, cansada, dormiu também.

- Kyia... - uma voz doce e familiar chegou aos seus ouvidos.

O mar azul e fabulosamente lindo, como sempre foram os mares gregos, era o pano de fundo de praia paradisíaca da qual Kenefer chamava por ela.

- Kenefer! Por onde anda, meu amigo? Isso é o paraíso que habita agora?

- Não, minha querida. Isto é uma ilha grega em que muitas batalhas aconteceram entre a liga de Delos e a do Peloponeso, a luta entre os deuses do mar e da terra.

- Os deuses gregos...

Kenefer sorriu.

- Os deuses de carne e osso.

- E Nyla?

- Está bem.

- É pena que não possa conhecer minha Helena.

- Helena é nossa velha conhecida; um espírito de meiguice e bondade ímpares que veio para cuidar de vocês. Veio através de você para adoçar o coração do guerreiro.

- E ela o faz. Parece um bobo quando a tem nos braços.

- Eu sei.

- Tem visto Haemon?

- Com menor frequência do que gostaria, devido a suas ocupações, porém o vejo, sim. Ele se dedica à preparação para o advento da Grande Estrela, do Logos Planetário que se aproxima, e delegou a mim a tarefa de apoiar vocês. Hakor e Neferites já regressaram; resta-me conduzir você, seu marido e seus sócios.
Estamos errando muito, não?

- Sim, Kyia, muito mesmo. Sua situação não é nada tranquila devido ao tipo de irmãos a quem estão associados. Entretanto, minha missão aqui é bem maior do que isso. Tenho um conselho para você.

- Fale!

- Quero convidá-la a encerrar definitivamente a sociedade com Roxana e desistir do intento de matar aquelas mulheres, pois isso pode acarretar a interrupção precoce de sua vivência na carne.

- Está dizendo que vou morrer antes da hora, quando tenho uma filha pequena para criar? Eu tenho também um marido ao lado de quem que gosto de viver. Está me convidando a deixar tudo que tenho e partir para o mundo dos mortos?

- Estou convidando-a a não cometer um desmando que a afundará num lodaçal incomensurável, de onde sabe Deus quantos séculos levará para sair! Proteu e os outros de nosso grupo caminham bem; esse seu ato, se consumado, a afastará deles por um período indefinido. O Logos virá, viverá seu tempo entre nós e retornará sem que você se dê conta de tão magno acontecimento.

- Explique-me do que está falando.

— Kyia, se envenenar a água que banha o campo de treinamento, além de um genocídio sem precedentes que ultrapassará os portões do campo e as muralhas de Atenas, você causará um grande desequilíbrio biológico, visto que o tóxico chegará até o mar, arrasando toda forma de vida em seu caminho.

- E se eu prometer que não farei mais isso?

- Já prometeu várias vezes; inclusive estamos segurando esse ate desde o nascimento de Helena. Agora, com a presença de Sobeknefru. será impossível dissuadi-la disso; ao acordar você esquece o bom propósito. Somente poderá permanecer no planeta sem riscos se conseguir abandonar essa ideia ao despertar.

- E se você me aparecesse quando acordada e repetisse tudo que está dizendo?

- Com as campanhas nas quais está envolvida, nunca estará apta a se sintonizar com o bom conselho.
- Então eu tenho de morrer?

- Não. Está recebendo a oportunidade de ser salva de si própria, o privilégio de ser contida em sua maldade ignorante. Contudo, pode não aceitar e arcar com as consequências de ato tão covarde. Pode até mesmo conseguir vencer essa tentação. O que não pode é sair ilesa do pior crime: o de danificar o sagrado líquido que mata a sede, presente de Deus para todos os viventes. É extremamente covarde molhar com veneno cruel gargantas ressequidas que esperam a linfa cristalina das mãos de Deus.

- Eu não quero fazer isso! Não quero perder-me de meus afetos, não quero perder a passagem do Logos pela Terra! Não quero matar tantas pessoas; só as rivais que usurpam meu semideus.

- Ninguém é dono de ninguém. Esse sentimento de posse aliado ao desejo de matar a levará à ruína.

- Ajude-me!

- É justamente o que estou fazendo. Agora vá, o dia começa em Atenas. Não se preocupe, virei encontrá-la todas as noites.

Kyia acordou com a sensação de ter o peito prensado por força invisível. Olhou para o rosto de Helena, que sorria misturando os cabelos aos dela.

- Está a tomar meus cabelos, pequena? Já não se contenta com o meu coração que roubou ao nascer?

- Imaginei ser meu seu coração - Proteu entrou na conversa de mãe e filha.

- É assim que sucede, meu deus grego. Meu coração pertence ao seu, que foi igualmente roubado por Helena, e ambos vivem juntos ao lado do dela.

- Entendi. Dessa maneira não preciso construir um grande cavalo de pau para ter minha amada de volta.

- Mesmo porque desta vez Helena não foi roubada; ela, sim, roubou nossos corações.

- Papai, conte-me a história de Helena de Troia!

- De novo, pequena? Acho que já sabe melhor que eu essa narrativa.

- Cada vez que me conta aparece um fato novo.
- Está bem, vamos lá. Existia um rei espartano chamado Menelau e sua rainha era Helena, a mulher mais linda de toda a Hélade. Era tão linda que Páris, um príncipe troiano, ao vê-la apaixonou-se perdidamente...

Enquanto preparava o desjejum a egípcia refletia sobre a história da guerra de Troia. Achou-a tão triste que chorou amargamente, pensando estar com pena de espartanos e troianos.

- Chorando, Kyia? - indagou Sobeknefru.

- A história do cavalo de Troia me emociona.

O sacerdote fez uma expressão incrédula.

- Descobri como usar o veneno sem despertar a atenção de ninguém.

- Como?

- Ao invés de colocá-lo no reservatório que fica nos domínios dos guerreiros, podemos envenenar a nascente, o manancial de onde vem a água que o abastece.

- Sobeknefru, você é um gênio! Comece a fazer o veneno, muito veneno, e todos os dias eu o despejarei na nascente. Enquanto existir uma só odalisca, ali o porei diariamente.

Os dois gargalharam. Não obstante o sentimento de angústia que dela se apossava, Kyia já se preparava para o gesto covarde.

A noite caía sobre Atenas quando a dupla despendia enorme esforço no afã de colocar sobre o cavalo dois grandes tonéis com muitos litros de tóxico poderoso. Kenefer, ao lado, sentia-se desolado e vencido. Tudo tentara para atingir o coração da ex-esposa, sem sucesso; ela só pensava em concretizar o plano macabro.

Com o sentimento de vingança a acalorar seus passos, ela seguA pelos quase quatro quilômetros que a separavam do objeto de sua loucura, a pensar nas mulheres caindo ao chão feito frutas de época. Quando descobrissem que a peste vinha da água, já seria tarde demais.

Kenefer elevou o pensamento e pediu ajuda.

- Acalme-se, amigo, Deus não desampara seus filhos. Vim ajudá--lo a ajudar Kyia.
Haemon, que maravilha encontrá-lo aqui! O que faremos? Ela está inacessível a conselhos e sugestões.

- Vamos para a nascente esperar por eles e ver o desfecho da história.

- Por eles? Quem mais vai com Kyia?

- Não com ela, mas segundo meus cálculos um guerreiro deve chegar lá pouco depois de nossa protegida. Estive hoje com um guerreiro sedento e quando ia virar a caneca com água adicionei a ela algo que lhe daria um sabor entre o amargo e o metálico, que sem interferir em suas funções biológicas o despertou para algo de errado no líquido. Nada tendo achado nos aquedutos, despertei nele o desejo de procurar pelo percurso que a linfa fazia até ali. O amigo seguiu então o curso de água em sentido contrário e deverá alcançar a nascente pouco depois de Kyia.

- Crê que conseguirá impedi-la?

- É o que esperamos. Esteja em oração, Kyia se aproxima.

Era impossível para a moça retirar os tonéis de sobre o cavalo sem o auxílio que tivera para colocá-los. Foi por isso que, desmontada, puxou o cavalo para a margem do pequeno poço que se formava antes de a água correr montanha abaixo e, usando uma adaga, principiou o trabalho de perfurar o recipiente para que o veneno caísse diretamente na água, sem precisar ser retirado. A madeira nova e resistente fazia o rosto da egípcia ficar molhado de suor; ela parava por alguns segundos, respirava ofegante e recomeçava com frenesi ainda maior.

- Ei, você! O que faz aí? - o guerreiro Ulisses chegava à nascente. - Por acaso está turvando nossa água?

Sem dar resposta, ela dobrou a força empregada no intuito de perfurar o fundo do tonel.

- Pare! - o homem advertiu. - Não permitirei que macule nossa nascente; se não parar vou acertar você.

Ao olhar para o guerreiro que lhe apontava uma seta, ela presumiu estar perdida. Havia sido descoberta e Proteu seria informado das pretensões criminosas da esposa contra seu povo. Jamais a perdoaria, certamente a mandaria embora e lhe tiraria Helena. Que falta de sorte, ser pega no primeiro ato. Depois disso não lhe importava morrer; portanto, concluiria o que viera fazer. Com tal pensamento acelerou o processo de perfuração da madeira dura.

Sem titubear o guerreiro disparou a flecha, que a feriu no antebraço direito. Ela urrou de dor e continuava em sua tentativa quando outra seta perfurou-lhe o flanco, e uma terceira que penetrou suas costas a fez perder os sentidos.

Ulisses correu encosta acima, verificou o tonel quase intacto e, usando de um animal silvestre, atestou a natureza do seu conteúdo. Então virou o corpo de sua vítima e com espanto pronunciou o nome da mulher do general. O mais depressa que pôde amarrou o cavalo dela à cauda da própria montaria e com a mulher sobre esta voltou para a cidade. Haemon e Kenefer já estavam na casa de Kyia quando ela chegou, e se postaram ao lado de sua cama enquanto o guerreiro foi buscar ajuda.

- Ela respira.

- Sim, Kenefer. É imprescindível que permaneça o maior tempo possível no corpo; esse estado de sofrimento e dor a auxiliará muito, acredite. Se partir agora será levada por Montuhotep e seus pares, que lhe imporão padecimentos mais atrozes que o que experimenta neste momento. Por isso vamos mantê-la no corpo o máximo que pudermos, pois enquanto expia suas faltas nos dará ensejo de igualmente socorrer seus desafetos.

— Que maravilha a obra divina! Deus nunca se esquece de ninguém.

- Ele está atento a cada fio de cabelo que perdemos sem ao menos notar, mas para tanto precisa de nós. Cuide de sua esposa, que breve despertará em espírito; assim entrará em abençoado coma que, além de poupá-la por um tempo das dores e dos questionamentos, a colocará ac seu alcance para ser instruída na sabedoria do espírito imortal. Faça por ela tudo que puder durante esse abençoado sono, porque quando voltar ao corpo não mais ouvirá sua voz; sofrerá suas dores para através delas ter melhor entrada no plano maior.

- Eu estarei com ela dia e noite até o momento de sua vinda.

- Isso, e eu irei em busca de Montuhotep e Nefertari; estaremos em contato.
Obrigado, amigo, obrigado por tudo!

- Agradeça a Deus! É o que eu faço sempre. Agradeço a Deus pelo trabalho redentor que poderá dar-me a chance de tocar o vaso sagrado que guardará o Logos.

- Querido Haemon, eu ofereço o meu trabalho para que você possa vê-lo.

Com lágrimas nos olhos o sábio abraçou o amigo, que prosseguiu:

- Meu desejo que você esteja com ele supera o seu próprio. Eu sei que terá permissão para vê-lo, sendo um homem tão bom! Ninguém lhe negará isso.

Haemon suspirou sonoramente.

- Bom apenas Deus o é, e se eu não puder tocar a Grande Estrela a ninguém mais que a mim mesmo culparei, por não ter crescido o suficiente para merecer essa dádiva. Bom trabalho, Kenefer! Que o brilho da Grande Estrela se infunda em nós!

- Que assim seja sempre.

Proteu chegou em casa sem Helena. Acompanhado de um médico, correu até o quarto e angustiado chamou por Kyia, que não respondeu.

- Minha rainha do Nilo, sei que não tentava envenenar a nascente. É uma calúnia que Ulisses lhe endereça a fim de se redimir de gesto tão covarde que, já adivinhava, faria que eu o matasse. Não acredito que poria em risco a minha vida e a de Helena, que tomamos daquela água. Acorde, minha amada, e se defenda de tão falsa acusação.

Vendo que ela nem se mexia, o marido entrou em total desespero.

- Não morra, minha querida! Amo você com loucura, não poderei ficar sem sua companhia! - voltou-se para o médico. - Salve minha esposa e lhe dou muito mais dinheiro do que poderá gastar em toda a sua vida, sem trabalhar.

- Eu vou fazer tudo que me for possível. Agora deixe-me sozinho com ela.

O facultativo principiou o trabalho de retirar as setas com Kenefer segurando-lhe as mãos, de modo que dificilmente se poderia distinguir a ação de um ou de outro. Iniciou-se um espetáculo de luzes que se desprendiam das mãos do protetor e penetravam diretamente no corpo físico da protegida, que resistia bravamente aos profundos ferimentos. A cada movimento dos membros superiores de Kenefer, os mesmos membros do médico acompanhavam como se a eles estivessem amarrados, e dessa forma a paciente recebia a ajuda dos dois planos de vida. Era uma cena belíssima de ser ver.

Quando enfim o exausto cirurgião deu por encerrado seu trabalho, a moça respirava melhor. O aposento fora limpo e Proteu sentou-se à cabeceira. Helena chegou e se postou ao lado do pai.

Fortalecendo o corpo de Kyia com fluidos benéficos, Kenefer chamou por ela que surgiu das entranhas avariadas e adormecidas de seu veículo somático.

- Kenefer! O que está acontecendo? Estou morta?

- Não, minha querida. Olhe para seu corpo: embora avariado, continua a respirar; temos um tempo para a redenção.

- Pobre Proteu, como sofre meu adorado marido! Não acredita que eu envenenaria a água, ainda bem!

- Nada disso! Terá seu momento para confessar-lhe sua intenção e os motivos que a levariam a tal gesto.

- Por que eu deveria?

- Para não ser culpada pelo assassinato de Ulisses, que sem dúvida Proteu cometerá, e para que aprenda quão perigosas podem ser as energias sexuais se direcionadas de maneira irresponsável. Vamos dar uma volta, querida. Precisamos conversar e quero que conheça algumas coisas que ignora. Seu corpo está bem guardado; Helena é um espírito de bondade e sabedoria, e cuidará dele.

- Helena!

- Mamãe!

- Ela tem condição de me ver?

- Sim. Helena ainda não alcançou os sete anos, faixa de idade em que se completa a encarnação. Tem a encarnação em processo de complemento, fato que a mantém com acesso maior ao mundo espiritual. Além disso, é uma médium poderosa, que ao tempo certo trabalhará em prol dos irmãos sofredores.

- Helena, meu bem, cuide do papai, está bom?
Mamãe, a senhora vai embora?

- Eu não sei, meu amor.

Proteu tomou nos braços a filha, que teimava em dizer que a mãe estava saindo do quarto junto com outro homem.

Kenefer, aproximando-se da menina, falou-lhe ao ouvido espiritual:

- Helena, fique calma, não é hora de dizer adeus. Sua mãe ainda voltará. E como pode comprovar com seus próprios olhos, ninguém morre; apenas mudamos de estado. Esteja com seu pai, que precisa muito de você, e cuide deste corpo até que retornemos.

- Sim, senhor!

Proteu, acreditando que a afirmativa fora dirigida a ele, tranquilizou-se com a menina nos braços ao lado do corpo em coma da esposa, que partia para se encontrar consigo mesma.

Montuhotep e Nefertari foram abordados por Haemon. Inacessíveis a qualquer tipo de ajuda, endurecidos quanto ao perdão e sem ânimo para retomar a caminhada rumo ao melhoramento íntimo, fugiram do sábio por várias vezes, até que ele não mais lhes permitiu as escapadas infantis.

- Não perdoo Kyia por mais uma vez me tirar a chance de ter minha família de volta. Proteu me deve a minha família, e teria saldado essa dívida em Tebas se ela não houvesse regressado do Oriente.

- Não pode culpar Kyia por um erro de Proteu. Precisa perdoar aos dois e seguir seu caminho longe de tanto sofrimento.

- Não posso!

- Terá todo o tempo de que necessitar para trabalhar essa mágoa que, apesar de direcionada a Proteu e Kyia, agride sobretudo a você. Agora, porém, você chegou ao limite do permitido pela lei de causa e efeito; deve ficar afastada dos dois para que todos possam se melhorar concomitantemente.

- Não me afastarei de ninguém! Não arredarei pé de perto daqueles cretinos; quero levá-los à morte lenta e dolorosa.

- Não acha que sofreu demais? Que merece um pouco de descanso e cuidados para suas feridas e seu cansaço?
— Não acho nada.

- Olhe quem vem chamá-la à realidade, mostrar-lhe que o perdão é sempre o vencedor com seu próprio exemplo, visto que a perdoou de coração. Filha, não adie sua vitória, segure a mão de quem quer ajudá-la.

Nefertari caiu em pranto convulsivo ao avistar a irmã gêmea, de quem tirara a vida ainda na infância. Netikerty, com aparência de menina, estendeu-lhe a mão.

- Netikerty! Ai, valha-me o grande Ra! Morro de vergonha, remorso e culpa.

- Nada disso a ajudará, irmã.

- Mate-me, Netikerty! Lance-me nas águas barrentas do Nilo e acabe com esta culpa que me consumiu a vida toda e nem a morte consegue apagar.

Abraçando a irmã que chorava qual criança, Netikerty dirigiu um olhar de agradecimento a Haemon, que nada falou. Ambos se entenderam com a linguagem própria do espírito, a linguagem universal do amor incondicional a todas as criaturas, em particular àquelas que muito erraram. E ainda em silêncio a imagem de uma criança segurando uma mulher feita nos braços pequenos se desfez diante de Haemon. Começava o processo de cura de Nefertari. Estava entregue à irmã que a partir dali se dedicaria à sua reabilitação para futuras experiências na carne, onde juntas de novo trabalhariam as arestas que as prendiam aos sentimentos inferiores.

Montuhotep assistiu a tudo espantado. Sentiu-se sozinho sem a comparsa, mas não teve desejo de se entregar à reparação.

- Deixe-me! Não quero ser levado para sei lá onde, chorando feito um bebê desconsolado. Quero continuar forte naquilo que faço; quero trabalhar com magia negra, que é minha especialidade.

Haemon, com sua experiência milenar, sabia ser impossível resgatar alguém que quer permanecer chafurdado na lama; sabia também que não se pode forçar ninguém à redenção, que cada um define seu momento. E aguardou ansioso pela hora de Montuhotep. Ao primeiro sinal de conformidade com a luz, estaria a postos para o devido resgate.

O espírito endurecido foi tragado para um plano que se sintonizava com seu pensamento malévolo, voltado para a vingança e a crueldade. Seus companheiros de Urchada seguiram-no para seu plano afim, no qual, embora pensasse estar chefiando os companheiros no trabalho do mal, estaria monitorado e vigiado nos limites que o Criador não nos permite ultrapassar.

Capítulo 41

A esfinge com o rosto de Khaf-re, tal qual um leão, presidia ao nascer e ao pôr do sol para que o ciclo solar se realizasse harmoniosamente. Acreditava-se que o felino tinha o olhar tão penetrante de noite como de dia e nunca fechava os olhos; por isso era o guardião da necrópole. A grande pirâmide e as menores eram incessantemente vigiadas pelo rei com corpo felino.

- Por que me trouxe aqui, Kenefer?

- Porque é sua terra natal. Acho que todos desejam voltar à sua origem, nem que seja para dizer adeus.

- Sinto algo como uma angústia por ter feito tanta coisa errada. Perdi tempo. Agora estou aqui, de volta às origens, com a dolorosa sensação de que perdi uma grande oportunidade.

- E precisamente isso, Kyia! Mas mesmo os erros não são desperdício. Servem para nos ensinar, quando queremos aprender com eles.

- Terei de começar tudo outra vez.

- Ainda bem que temos essa chance.

- Dá um desânimo... Como consegui ser tão cretina?

- Não se martirize. Lembra-se da câmara secreta? De lá para cá, você melhorou muito. Adquiriu a condição de amar muitas pessoas.

- Embora o amasse, eu o prejudiquei demais. O mesmo se deu com Nyla.

- Com Proteu e Helena não foi assim; você cresceu. Antes nem mesmo era capaz de amar; depois amou de um jeito truncado, agindo em prejuízo do ser amado; por último amou Proteu e Helena de maneira intensa e sempre fez a eles todo o bem que desejava a si própria:
Os dois foram felizes com você, sentiram-se amados plenamente. Agora falta o desprendimento, o amar pelo prazer de dar amor, sem o egoísmo que deseja prender a nós o ser amado, que não permite a liberdade do outro. De qualquer forma, não há como negar que você cresceu.

- Eu entendo. Amei Sobeknefru,Tula e Roxana... Como estáTula?

- Em tratamento. Como todos, ao sair da carne, ela experimenta a sensação angustiante do tempo perdido.

- Poderia ter sido diferente.

- Cada nova oportunidade é diferente. Pense no casamento e na filha que tivemos, e no que você construiu com Proteu. A cada vez que repetimos uma etapa nós a fazemos bem melhor. Trabalhe e confie.

- Já não posso fazer nada. Eu gostaria de não ter magoado você e sua família, não ter abandonado Nyla, não ter tirado a vida de ninguém, não ter atentado contra a nascente dos guerreiros... Agora nada mais pode ser feito, meu corpo morre em Atenas.

- Enquanto seu corpo respirar sobre aquela cama, muito pode ser feito. Tudo quanto estiver ao nosso alcance usaremos para prolongar sua estadia na carne. Logo, aproveite a oportunidade única que a bondade divina lhe está concedendo.

- O que me resta fazer em estado tão extenuante?

- Quando nos propomos ao melhoramento íntimo, isso nos é possível em qualquer momento, espaço ou situação. Você ainda tem tempo, não se deixe levar novamente para as cavernas nas trevas abissais, de onde foi resgatada antes desta vivência à custa de muito trabalho despendido.

- Eu me lembro, Kenefer, meu bom e amoroso Kenefer. Tirou-me de região pantanosa onde me achava submersa em lama fétida e asfi-xiante. Eu chorava sem parar de frio, dor e medo, as chagas tomavam toda a extensão de meu corpo e insetos medonhos tentavam devorar-me. Embora estivesse ali por tantos anos, minhas pupilas nunca se adaptaram, não se dilataram o bastante, pois nada enxergava além de vultos de seres apavorantes e vorazes que vez por outra me infundiam tormentos desumanos. O som ininterrupto em meus ouvidos era de lamentos animalescos, gritos aterradores e um vozerio de tom cavernoso do qual não identificava uma única palavra. De quando em quando um corpo caía ao meu lado, parecendo que vinha do nada, e começava uma briga animalesca por espaço dentro do fétido lugar; na maioria das vezes uma alma de-savisada era empurrada para o firndo do lodaçal, se é que aquilo tinha um fundo. No dia em que você se aproximou de mim, imaginei estar vendo um anjo de Deus. Em meio à escuridão compacta, suas vestes brilhavam prateadas como uma lua cálida e bela em noite de lua cheia. Suas mãos em contatos com as minhas quase congeladas pareciam queimar, e a carga de energia vinda de seu abraço me fez sair de mim. Eu deveria ter sido uma boa esposa para você. Perdoe-me, Kenefer!

- Não se amofine por isso. Você precisava estar com Proteu; foi ele quem despertou em seu coração o germe do amor. Não reparou, minha querida, que somente depois de amá-lo você amou a mim?

- É verdade, Kenefer. Só agora percebo isso. Ajude-me, não me deixe voltar para aquele antro de sofrimento e desesperação.

- Estou aqui para ajudá-la. Contudo, isso depende muito mais de você. Eu estarei ao lado de seu catre até o último momento.

Kyia esteve em coma total por onze dias. Seu corpo era tratado pelo médico e pelo segundo marido, ao passo que o primeiro tratava do espírito. Em companhia de Kenefer ela andou pelo Egito rememorando seus erros e acertos. Esteve no templo de que Amonet cuidava e às margens do mar Vermelho, quando descobriu ser capaz de amar. Na pousada tomou consciência de que pelo menos daquela vez agira em legítima defesa. Rememorou o período em que aprendera a trabalhar, o reencontro com o grego, a corrida pelo Alef, as viagens ao passado, a perda do filho antes que nascesse, a morte de Kenefer e seu próprio sepultamento ao lado dele, o olhar de Nyla quando optou por morrer com Afra e a terrível descoberta das viúvas de Proteu, que desencadeara o processo que vivia no momento.

Em uma manhã de muita chuva o ex-marido a levou para retomar o corpo. Kyia chorou de medo - medo da dor física, medo da morte que se anunciava.

- Nada tema, minha amiga, a morte é algo semelhante ao que acaba de vivenciar. Onze dias atrás você saiu de seu corpo atendendo a meu chamado; na hora certa a chamarei novamente para deixá-lo em definitivo, e não será em nada diferente.

- Tenho medo das dores. Olhe para meu corpo: aparenta estar em grande sofrimento para manter-se vivo.

- E está; por isso é necessário que volte.

Kyia fechou os olhos de seu corpo espiritual para abri-los no físico. Viu o rosto de Proteu e tentou sorrir, mas sentia dores tremendas ao menor movimento.

- Minha rainha, que bom que está de volta!

Ao tentar falar, duas lágrimas escorreram pelo seu rosto.

- Não fale, querida, ainda não. Procure antes se recuperar; teremos muito tempo para conversar. Deve comer um pouco. Não está com fome? Pisque os olhos para responder sim.

Ela não piscou.

O médico abrira uma cavidade em seu abdome e ali fixara uma espécie de funil por onde a paciente era alimentada; na verdade era uma sonda gástrica muito rudimentar, pela qual entravam o alimento e todo tipo de agentes infecciosos.
Durante dois anos Kyia permaneceu acamada. Havia sofrido lesões na coluna que não lhe permitiram mais se locomover. Mantinha-se assim em estado de prostração desolador. Pouco falava, pouco se alimentava, estava com o corpo alquebrado e emagrecido, escaras profundas tomavam-lhe as costas, as pernas e os pés, as dores eram alucinantes. Nos curtos períodos em que adormecia, vencida pelo cansaço e pela dor, a mãe de Helena encontrava Kenefer, que a consolava e mostrava o quanto é válido um estágio de sofrimento para quem acumulou muitas dívidas. Por fim, devido à falta de locomoção da paciente uma grave infecção paralisou seus rins, o que a levou à desencarnação em alguns dias.

Na última tarde, Proteu se sentou ao seu lado e ternamente beijou--lhe as mãos. O guerreiro assustou-se com o timbre de voz potente da esposa, que há tanto tempo falava por sussurros. Em hora extrema Kenefer energizava seu aparelho fonológico, para que conseguisse falar o necessário à sua redenção.
Kyia, está bem hoje; fala como antigamente.

-Talvez seja a misericórdia de Ra para que eu possa me redimir de grande culpa. Não tema em trazer Ulisses de volta à corporação; ele não mentiu quanto a minhas pretensões na nascente. Eu desejei envenenar a água e guardava o antídoto para você e Helena, caso a provassem.

O grego estava pálido.

- Por que, minha rainha?

- Eu queria matar todas aquelas mulheres. Você sabe muito bem por quê.

- Você não acha que eu tinha uma centena de amantes, acha? - sua voz traduzia profunda consternação.

- Não tantas, porém muitas.

- Perdoe-me, minha rainha! A origem de tanta desgraça está em minha promiscuidade.

- E na minha inferioridade.

- Não se amofine, meu comportamento é realmente inadmissível. Como pude imaginar que você acharia normal? Nem mesmo uma ateniense suportaria tamanha devassidão; o que dizer de uma egípcia? Eu prometo a você, rainha do Nilo, que não mais terei esse tipo de comportamento.

- Não temos mais tempo Proteu. Talvez da próxima vez cumpra essa doce promessa. Estou partindo, Kenefer está comigo há dias me ajudando a passar por isto sem maiores traumas. Ele diz que Helena veio para adoçar seu comportamento violento; atente para a doçura de nossa filha e cuide dela.

- Não, você não está morrendo. Vejo-a muito melhor que ontem. Pare com esse assunto macabro e triste; você vai ficar bem e vamos criar juntos a nossa Helena.

- Não faça isso, Proteu. Deixe-me, por amor de Ra, fazer as recomendações necessárias para que eu tenha paz.

- Eu amo você, não posso deixá-la morrer.

- Também o amo, e este é o fator que nos salvou de tantos desmandos a mais. Mas agora faz-se mister que eu me vá. E em nome deste amor que sentimos eu lhe peço: cuide de Helena, restabeleça Ulisses e faça algo muito importante para que eu tenha paz.
Nesse instante o guerreiro deixou fluírem as lágrimas até então contidas; sabia que aquele corpo não oferecia mais condições de vida à esposa.

- Farei o que me pedir. Mesmo que eu tenha de atravessar meio mundo outra vez.

- Não chega a tanto. Preciso que vá aTebas, até a olaria de Iranus, onde está uma grande dívida a ser paga. Existem naquelas choças algumas dezenas de famílias que por minha culpa vivem na mais absoluta miséria. Foram as minhas sugestões de política trabalhista aprendida com Faisal que ele adotou, condenando aquelas pessoas ao limite da exploração física e psíquica, ao abuso e à quase escravidão, enquanto eu desfrutava as vantagens financeiras. Preciso que pegue tudo quanto me pertence, desde minhas joias pessoais até meus lucros como feiticeira, e leve para aquele povo, de maneira a ressarcir em parte o prejuízo que lhe causei.

- Depois de tanto tempo, acha que eles ainda estão lá?

- Sim, estão; Kenefer me levou até lá quando meu corpo dormia. Vivem em situação desumana, caótica. Estão a tal ponto humilhados e agredidos que já não se vestem; andam nus pela olaria, tendo o corpo coberto de lama e chagas provocadas pelos chicotes de Iranus. Algo precisa ser feito rápido. Morrem e nem direito a um funeral possuem; são tragados ali mesmo pela lama em que trabalharam a vida toda.

- Se é disso que depende sua paz no mundo dos mortos, será a mais ditosa das criaturas, pois irei até lá, comprarei aquela propriedade a qualquer preço e a doarei a seus trabalhadores, a fim de que passem a trabalhar para si mesmos. Além disso, oferecerei a infraestrutura necessária para que se reergam e recuperem a dignidade e o amor próprio.

- Faça isso é estará reerguendo a mim e devolvendo um pouco de minha dignidade.

- O que mais quer que eu faça?

Kenefer retirou as mãos de sobre Kyia e ela tornou a falar sussurrado e quase ininteligível.

- Sente-se aqui e segure minha mão. Até mais, Proteu. E não esqueça: você me ensinou o amor.
Aprendemos juntos, minha querida! Espere por mim. Sei que sem você não vou me demorar muito.

Kyia não respondeu. Deixou o corpo nos braços de Proteu e correu para abraçar Kenefer, que desde o ocorrido na nascente não saíra de seu lado. Ainda sentindo muitas dores, foi encaminhada para o socorro e o tratamento apropriado. Kenefer recebeu os cumprimentos de Haemon pelo trabalho incansável junto a Kyia e foi enviado para acompanhar a redenção de Proteu ao lado de Helena.

Hakor, que havia declarado Proteu inimigo público, já desencarnara, bem como seus dois sucessores. O Egito estava sob domínio estrangeiro e isso facilitou a entrada de Proteu no Kemet com sua Helena, que com a morte da mãe passou a ser sua prioridade. A essa altura Tales já comandava o exército de mercenários em Atenas.

Ao chegar na “cidade” de Iranus, Proteu parou estupefato. Os trabalhadores que a esposa mencionara na hora extrema da morte física eram nativos africanos pegos à revelia e trazidos para o trabalho forçado. Pessoas de ingenuidade superlativa, intelecto baixo e submissas até o inimaginável, formavam um bando de crianças grandes tratadas como animais ou talvez mais indignamente. A mesma prática abominável seria adotada muitos séculos depois na colonização da América.

Proteu propôs a compra da olaria a Iranus, recebendo a ríspida resposta de que o negócio não estava à venda; era uma empresa rentável da qual ele não pretendia se desfazer. O grego sentia-se tocado nas fibras mais íntimas do coração por aquele povo singelo e puro. Seu passado de escravizador, negociante de seres humanos ao lado da antiga comparsa Kyia, gritava dentro dele cobrando a reparação. Decidiu que a todo custo faria algo em prol daqueles meninos crescidos. Quando o dono da empresa saiu, ele entrou e passou um bom tempo a observar a vida daquelas pessoas. Helena, com quase sete anos, pediu-lhe de maneira madura e nobre:

- Papai, alguma coisa precisa ser feita; isto é demasiado cruel. O único jeito de devolvermos estas criaturas a si mesmas será comprá-las de quem se acha seu dono. Façamos isto: compremos as pessoas e o local para que outros desses pobres nativos não venham parar aqui. Faça tudo que for possível, papai; ajudemos estas pobres criaturas.

No dia seguinte Proteu entrou na casa de Iranus sem bater.

- Que diabos quer aqui?

- Eu quero a olaria e seus escravos.

- Não tenho escravos, são trabalhadores.

Ele riu cinicamente.

- Realmente? Ainda assim eu os quero.

-Já disse que não estão à venda. O que o faz pensar que mudei de ideia?

- Palpite.

- Tem o palpite de que vou aceitar sua proposta?

- Uma nova proposta, tenho certeza, o convencerá.

- Duvido. Mas vamos lá, grego arrogante: o que pretende fazer para me convencer a vender minha propriedade a você?

- Não quero comprar a sua propriedade. Por acaso disse isso hoje? Eu queria ontem, hoje não.

- Não o entendo.

- Senhor Iranus, tem esposa ou filhos?

- Não, por quê?

- Só para saber se tem herdeiros. Eu vim para matá-lo e tomar conta da olaria - segurou o oleiro pelo pescoço.

- Por Ra, sei quem é e conheço sua fama. Não me mate. Entrego-lhe a olaria e tudo o que existir dentro dela. Mais: ofereço-me para trabalhar para o senhor e sua filha. Vai precisar de mim. Conheço todos os clientes, a forma correta de trabalhar, a melhor argila... Sei tudo; estou há anos neste ramo. Por Zeus, não quebre meu pescoço!

Captando a sugestão desesperada de Kenefer, ele soltou o egípcio.

- A partir de agora está subordinado a mim.

- Sim, senhor!

Proteu e Helena nunca mais voltariam à Grécia. Desde então se dedicaram a melhorar a qualidade de vida daquele povo, em memória de Kyia e por verdadeiros apelos do coração. Os trabalhadores foram vestidos, bem alimentados, e as choças melhoradas em muito para a época.

As peças ornamentais e os utensílios domésticos saíam mais belos e as telhas em padrão superior. A cada venda os salários eram pagos e o que sobrava era convertido em ganhos na condição de vida de todos.

Ao contrário do que dissera à esposa na hora de sua morte, Proteu viveu até os setenta anos, o que reforçou sua fama de semi-deus numa sociedade em que a expectativa de vida era de quarenta anos. No entanto, nem uma vez voltou a Atenas; dedicou o resto da vida aos amigos de pele escura que amava como sua própria família. A comunidade de Iranus tornou-se uma espécie de bairro de Tebas e as pessoas esperavam na fila por uma vaga de trabalho e alojamento no local.

Naquela noite em especial Proteu sentia muito sono. Beijou Helena, que se tornara formosa mulher, e adormeceu pesadamente. No meio da noite percebeu a presença de Haemon.

- Irmão, quanta saudade sinto de você! Faz-me muita falta, bem como Kyia e tantos que se foram. Sinto-me tão velho...

- Talvez seja hora de partir.

-Já começava a acreditar que era imortal - ele riu.

- Esteve por dois decênios dentro desta comunidade e fez muito bem a todos, ajudando com seu gesto a Kyia e a você próprio, antigos vendedores de seres humanos. Sua condição melhorou muito. Já pode partir sem ter de chegar em situação muito dramática.

- E quanto a Kyia?

- Ela aprendeu muito com a dor. Quanto a você, felizmente muito fez por amor. Ambos, porém, ainda carregam muitos débitos a serem resgatados. E é para isso que devem preparar-se. Brevemente os macedônios, usando de suas informações, invadirão e dominarão o Egito. O delta será novamente o palco para nossa tragicomédia da vida real. Aproveite este tempo de aprendizado na olaria para domar a violência que se encontra adormecida em você. Vamos para casa, irmão. Helena é uma mulher feita e saberá conduzir este trabalho, ensinando as pessoas daqui a sobreviverem quando vier o momento da partida dela.

Na manhã seguinte o povo da olaria deparou com uma cena inusitada, que acreditava ser impossível: um semideus, filho de Poseidon, havia se rendido a Ptah-Seker-Osíris24.

Helena, secundada pelos moradores da comunidade, presidiu aos funerais de Proteu e seguiu, tal qual falara Haemon, dedicando-se integralmente ao povo expatriado e sofrido da olaria, que graças a seu apoio e sua sabedoria pôde viver dias melhores.

Capítulo 42

A luz cálida de um sol róseo aquecia ligeiramente o jardim de intradu-zível beleza. Flores de cores variadas e brilho peculiar se estendiam qual tapete multicor e infinito, rodeado de relva numa escala monocromática em tons de verde. As árvores frondosas de vivacidade ímpar juntavam as copas, lembrando mãos postas em sinal de oração e louvor a tão sublime arquiteto de si mesmas. Avezinhas irrequietas se revezavam entre as flores de mil matizes e as águas cristalinas, que refletiam o céu no chão que ondulava ao toque de suas suaves patinhas ou de suas asas em frenesi e se tornava divino, mágico. O som ambiente era de floresta, pássaros, vento entre folhagens espessas e convite ao relaxamento trazido pelas passadas delicadas em um caminho de folhas secas.

Helena se sentia tomada de estranha satisfação, de um estado in-dizível de contentamento pleno, de uma alegria tão profunda que sua vontade era cantar junto aos sons da mata. Esta se assemelhava a um grande jardim que sequer o próprio Monet em sua magnitude artística conseguiría retratar. Onde estava? Não era o Egito, nem em seu mais belo oásis. Não tinha lembrança de ter voltado à Grécia, que a despeito do verde exuberante não se comparava ao local em que se encontrava no momento.

Pela trilha de folhas secas ladeada de árvores e flores rasteiras visualizou um ser que caminhava em sua direção. Aliás, caminhar não parecia o termo apropriado, visto que o ser parecia flutuar a poucos centímetros do solo acarpetado de folhas.

- Seja bem-vinda, Helena!

Por alguns instantes ela olhou para o anfitrião sem o reconhecer.

- Quem é você, ser de luz que me recebe?

- Estou longe de um ser de luz. A parca luminosidade que possuo adquiri com o auxílio de seus sábios conselhos e sua assistência constante enquanto estava na carne. O mínimo que posso fazer agora é recebê-la de volta. Sou Haemon, às suas ordens, querida Abgail.

- Haemon? Meu tio que não cheguei a conhecer?

- Você me conhecia de velhas eras, querida. No tempo certo recordará.

- Pode falar-me de meu pai?

- Está assistido. Evoluiu muito bem, graças ao sentimento paternal que despertou em seu coração.

- E mamãe?

- Também. Você é a última do grupo a regressar à pátria, querida Helena. Todos já retornaram, em melhor ou pior estado, mas o importante é que nossa família se encontra de volta e com um saldo positivo, por mais estranho que possa parecer.

- Folgo em saber. Uma coisa, entretanto, me intriga. Não me lembro de como vim parar aqui.

- Isso é privilégio de poucos, minha cara. Foi adormecida segundos após deixar o corpo e despertou em belo jardim. Não sentiu os incômodos próprios do processo biológico de morrer, não entrou na perturbação que comumente sucede esse processo; foi colocada em seu lugar e despertada entre amigos.

- O que farei agora?

- Conheço sua disposição para o trabalho, mas aconselho um intervalo de repouso e reflexão íntima. Venha, vou apresentar-lhe seu quarto. Relaxe! Depois conversaremos sobre os planos para o futuro.

Cordata e meiga, ela acompanhou Haemon e fez o que lhe sugeriu. Enquanto repousava era instruída e assistida na sua condição de recém-chegada ao mundo do espírito. E quando, já desperta, saiu de novo para o lindo e vasto jardim-floresta estava em plena consciência de si mesma.

Aproximou-se de uma mulher, vestida de verde-água, que passava em direção ao que ela imaginou ser a cidade e perguntou por Haemon.

Venha comigo, estou indo exatamente para a praça dos ministérios, onde ele se encontra.

Helena seguiu a jovem mulher. Ao olhar para a praça citada, sen-tiu-se totalmente em casa. Era como se os quarenta e poucos anos que estivera na Terra não tivessem durado mais de quarenta minutos.

- Haemon está no ministério de proteção e amparo.

Apontou em direção a um prédio de paredes azuladas que pareciam vidro. Agradecendo, conquanto sem precisar da última informação, pois reconheceu o local como seu antigo trabalho, Helena se separou da mulher, a qual caminhou para o ministério da anatomia perispiritual.

O prédio era parte de um conjunto arquitetônico de formosura e simplicidade ímpares, que compunha de modo harmonioso o centro administrativo da colônia. Todos os edifícios pareciam translúcidos e brilhantes. Como tinham forma piramidal, a ação da luz solar os transformava em gigantescos prismas por onde as mais variadas cores se refletiam. As portas frontais davam sempre para um jardim que pertencia à totalidade do complexo, e a iluminação vinha apenas da energia solar, que era contínua pelo fato de não possuir a colônia o movimento de rotação; isso fazia o ar ficar imutável, tendo-se constantemente o que na Terra seria perto de nove horas de uma manhã de estação intermediária.

Helena entrou sem bater. A pessoa que se achava logo no saguão, um rapaz de aparência árabe, correu para ela.

- Abgail! Está de volta? Haemon não me contou.

- Eu quis fazer uma surpresa, Hamim. Não gostou?

- Claro, claro! Seja bem-vinda, amiga! Todos temos sentido sua falta.

Já a sós com Haemon, ela abordou o assunto que constituía seu interesse primordial.

- Poderei retornar ao meu trabalho?

- Decerto. Recomece quando quiser.

- Trabalharemos juntos, como antes?

- Sim, vou precisar mais uma vez de seu amparo.
Voltará à Terra?

- Breve, amiga, muito em breve.

- Haemon, sabe que de todos nós, os degredados, somente você e Amonet se encontram em condição de regressar à pátria espiritual. Por que ainda não o fez?

- Querida Abgail, criei estreitos laços de amor com os nativos da Terra e a própria Terra, porém isso sabemos nós que é imperecível e imortal. Portanto, digo-lhe que pedi permissão para continuar aqui pelos próximos séculos na esperança de, quem sabe, poder estar com o Logos Planetário. Ele se fará carne e sangue e esta será uma chance de poder vê-lo, tocá-lo, falar-lhe. Isso acontece com qual frequência, irmã?

- Não tenho a menor ideia.

-Tampouco eu. Por isso este é o momento de permanecer na Terra para fazer parte daqueles que têm uma chance, mesmo que remota, de estar com a Grande Estrela, materializada em figura de homem. Não posso sair daqui. Por mais que todos me narrem as delícias de nossa estrela natal, nada se compara à simples expectativa de poder estar ao lado dele em carne e osso. Pode ser só um sonho, mas não sairei deste planeta antes disso. Compreende-me?

- Eu o compreendo; apenas não me julgo capaz nem de sonhar com isso.

- Eu sou presunçoso. Mesmo sem saber se posso desejar isso, como disse, só o sonho já me deixa em êxtase.

- E quais são os planos para seu retorno à Terra?

- Alexandre da Macedônia está para fundar no delta uma grande cidade, a qual terá a maior e melhor escola, que por sua vez terá a maior e melhor biblioteca da atualidade. E para lá que devo ir, com o intuito de retomar meus projetos astronômicos e reinventar meu instrumento para estudar as estrelas - trabalhos arquivados pela rejeição de Hakor. Pretendo trabalhar com a matemática avançada, em especial com as diversas nuanças da geometria e da trigonometria.

- Pode contar com minha cooperação, sempre gostei de cálculos. Quem sabe vou com você?
Acredito que com minha partida você deverá cuidar dos nossos tutelados mais efetivamente, como quando eu estava lá e você aqui.

-Tem razão, amigo, como sempre. Não podemos ainda afastar-nos simultaneamente; eles precisam de nossa assistência.

- Eles? - Eber chegava.

- Falamos dos filhos da Terra que assumimos por tutelados.

- Muito bem, Abgail. Realmente deve estar por perto das crianças, que precisam preparar-se para novo estágio em terras hostis do leste europeu, além de intuir Haemon quando seus propósitos nobres, amortecidos pela carne, correrem riscos ante o desânimo causado pela oposição daqueles que pretendem estagnar o planeta.

- Estou à disposição.

- E quanto a você, Eber? O que planeja para agora?

— Vou com você, Haemon. Existe muito trabalho na escola de Alexandria esperando por nós.

- Alexandria?

- Oh! Desculpem-me, amigos. Empolguei-me e falei de algo de que ainda não têm conhecimento. Alexandria será o nome da cidade fundada muito em breve por Alexandre no local onde fica o povoado de Rakotis.

- Gostei do nome. É imponente e sugere intelectualidade.

- Então, amigos, ao trabalho! Faltam alguns decênios para cumprirmos esse propósito. Aconselho-o, Haemon, a refrescar sua memória a respeito de matemática, astronomia e trigonometria.

Os três amigos, abraçados, caminharam pelos belos jardins cumprimentando aqueles com quem cruzavam como velhos conhecidos, que na verdade todos eram.
Voltando à Terra alguns anos depois, Haemon nasceu em Niceia em 190 a.C. e cresceu outra vez entre essênios. Seguiu para Alexandria a fim de fazer parte do corpo docente da grande escola do mesmo nome, tendo sido um de seus principais representantes. Deixou também seu legado em Rodes, onde trabalhou até se desligar do corpo físico em 120 a.C.
O que Hakor ainda estava imaturo para receber foi aplaudido pelo líder da época, Ptolomaica25, que o considerou o pai da astronomia, área na qual fez descobertas fundamentais, e empregou rigorosos princípios matemáticos para a localização de pontos na superfície da Terra. Indroduziu o conceito de grandeza associado ao brilho aparente das estrelas, quando antes era vinculado a suas dimensões. Inventou instrumentos precisos para medir o diâmetro aparente do Sol e da Lua, e determinou as coordenadas celestes das estrelas. Para a cartografia, criou um método de projeção estereográfica revolucionário para aquele tempo. Deduziu o valor correto de 8/3 para a razão entre o tamanho da sombra da Terra e o tamanho da Lua, e também calculou que a Lua estava a cinquenta e nove vezes o raio da Terra de distância (o valor correto é sessenta). Definiu ainda a duração do ano com uma margem de erro de seis minutos. Tudo isso há mais de 2 mil anos...

Haemon viveu quase setenta anos dedicados inteiramente às ciências complexas, reaprendendo e ensinando, dando sua contribuição significativa ao progresso do planeta que aprendera a amar como sua segunda casa. Difundiu igualmente ensinamentos sobre os dons do espírito, que trazia armazenados na alma desde o contato inenarrável com o Alef e foram recuperados pelo convívio com os essênios, que àquela época já migravam paulatinamente para a Palestina.

Foi depois dele, em 145 a.C., que ocorreu a primeira depredação da escola de Alexandria. Saqueada, como represália, em uma guerra civil, ela foi reestruturada e encontrou novo apogeu, seguido da queda no século I a.C.25 A dinastia ptolemaica (ou ptolomaica) foi uma dinastia macedônia que governou o Egito de 305 a 30 a.C. Recebeu a designação devido ao fato dos seus soberanos terem assumido o nome Ptolemeu.

Haemon deixou o corpo velho e alquebrado em Rodes, no ano 120 a.C., e seu nome ficou registrado no livro da história da humanidade como um dos mais sábios entre os sábios gregos de Alexandria e Rodes. Cumprira, como quase ninguém, cem por cento de seu plano encarnatório, espalhando pela Terra cálculos, instrumentos, inovações e descobertas, teoremas e teorias. E, como não podería faltar, seu amor colossal pelo planeta e suas crias e pela Grande Promessa da vinda do Logus ao orbe terreno, que segundo suas previsões estaria chegando em pouco mais de um século.

Ao regressar foi recebido por Eber, que fora seu primeiro mestre em Niceia, e Abgail, a presença espiritual que o intuira, protegera e amparara durante setenta anos no corpo físico.

- Seja bem-vindo, Hipparkhos de Niceia! Ou quer ser tratado por Haemon?

- Fique à vontade, amigo. Só não gostaria que me tratasse por Khufu, nome que não me traz boas memórias. Todavia, faltam pouco mais de cem anos para o Logos descer à Terra, e se eu puder estar lá o nome que estiver usando será o que conservarei, de modo a ser para sempre aquele que esteve com ele.

- Admitindo a hipótese de você não reencarnar pelos próximos cem anos, como devo chamá-lo?

- Haemon está bem; creio que o outro será mais popular.

Os amigos sorriram e tornaram a se empenhar no trabalho de receber seus tutelados, vindos dos campos gelados e hostis que hoje conhecemos como Sibéria. Haemon acolheu um por um, com um beijo na testa e um demorado abraço, realçando os acertos e estudando os erros de cada tutelado, bem como as maneiras de acertar na próxima vez.

Naquele dia o bondoso sábio esteve com Hakor por longas horas em um mundo inferior, criado por ele próprio, cheio de animais mortos. O antigo faraó ainda tivera muitas quedas, mesmo distante do poder ao qual culpava por seus desmandos. Como ermitão das planícies geladas, conseguiu ser cruel na caça predatória e desnecessária de todos os tipos de animais e seres humanos, que abatia pelo prazer de ver a neve manchada de sangue. De suas presas, menos de um décimo era bem mais que o necessário à sua alimentação.

O caçador implacável chorou por horas no colo de Haemon, porém não admitiu arredar-se um passo sequer daquele antro com insuportável cheiro putrefato de que se achava merecedor. O sábio prometeu voltar para ajudá-lo, sempre que possível.
Regressando a seu mundo, Haemon estava pensativo, sentado no belíssimo jardim, quando Eber achegou-se a ele.

- O que está a cismar, amigo?

- Acabei de visitar o pobre Hakor; está em situação degradante. Tudo tenho feito para auxiliar esse menino e ainda não fui capaz de melhorar muito sua condição.

- Você tem auxiliado muito, amigo, mas a melhora de sua situação depende unicamente dele.

- Está certo... É que, como sabe, tenho amor por ele e sofro seu sofrimento.

- Pois pare de sofrer, que tenho uma ótima notícia para você.

- Fale!

- Vai descer à Terra. Irá para Jerusalém.

- Agora?

- Sim.

Duas lágrimas rolaram pela face do astrônomo.

- Qual o problema?

- Quanto tempo falta para a Estrela nascer? Exatamente.

- Noventa anos.

- Onde?

- Talvez Nazareth.

- E quanto tempo leva minha preparação para nascer?

- Algo em torno de meio decênio.

- Então, amigo, não mereci ver o Logos. Estarei com 85 anos, se continuar vivo, quando ele chegar. E em cidades diferentes, com os meios de transportes de que dispomos, será impossível um velho empreender essa viagem para visitá-lo.

- Pode desistir da missão em Jerusalém.

-Jamais deixaria de fazer algo que me confia, pela obra grandiosa Dele, só por meu desejo pessoal de vê-lo de perto.

- Não desista de seu desejo, Haemon, ele é nobre.

- Não é que eu tenha desistido; contudo, conhecendo como conheço os cálculos, as probabilidades de me encontrar com ele são quase nulas.
Nossos cálculos ainda não conseguem abranger certas grandezas, Haemon.

- Prepare minha incursão na carne, Eber. O que devo fazer em Jerusalém?

- Curar, amigo. Haverá por aquelas bandas um surto de peste que assolará a primeira infância, elevando os índices de mortalidade infantil a números impensáveis, e que deverá erradicar antes da chegada dele, ou a grande missão poderá ser comprometida.

- Salvar-lhe a vida é ainda mais importante que tocá-lo. Eu irei feliz, e se você puder estar com ele, Eber - fez uma pausa para recuperar a voz embargada pela emoção -, abrace-o muito apertado por mim.

- Eu o farei. Esteja certo disso, amigo. Agora esqueça as ciências exatas e dedique-se às biológicas pelos próximos anos.

Capítulo 43

As portas de Jerusalém estavam lacradas por ordem do procurador romano, apoiado por Arquelau. Ninguém podería adentrar a cidade e aquele que saísse ficaria proibido de retornar. Isso porque uma doença respiratória desconhecida vinha acometendo as pessoas. O mal que em adultos não passava de uma crise violenta de tosse, que tendia a desaparecer em algumas semanas e com alguns quilos a menos, estava matando a quase totalidade das crianças que o adquiriam. As ruas da cidade estavam movimentadas e o alarido do lado de fora era infernal. Caravanas e mais caravanas de judeus de toda a região queriam entrar na cidade para fazer seus sacrifícios no templo, que se achava abarrotado de fiéis com seus cordeiros e pombas. Nas escadarias de acesso à edificação era difícil trafegar entre tantos vendedores.

Em meio a esse frenesi deparamos com nosso velho conhecido Haemon, que entrava no templo sem nenhum animal para ser sacrificado. Sentia aversão pelo derramamento de sangue e em sua concepção cena tão covarde não agradaria a um ser de amor. O templo era uma ampla edificação de pedra com colunas de diâmetro colossal, e a pompa dos altares e assentos dos sumos-sacerdotes e doutores da lei era notável. Haemon nunca discutira com aqueles homens cheios de inveja e malícia, nunca mostrara o quanto sabia. Sentia no fundo de seu ser que fora enviado para uma missão relevante, por isso não colocaria a vida em risco discordando deles.

Como sempre em suas vivências, fora criado entre essênios, que na atualidade eram um povo malvisto pelas outras comunidades judaicas, como a dos saduceus e a dos levitas, entre outras. Por isso, com o fito de preservar sua integridade física, mantinha-se em seu canto, evitando que percebessem seu vasto conhecimento acerca de tantas ciências e verdades espirituais. Do alto de seus setenta e cinco anos, era bem mais que um ancião. Era um homem muito além da expectativa de vida da época, a quem respeitavam pela idade, mas não davam a menor atenção - exatamente como queria o velho Haemon.

Até então dedicara a vida a fazer jus ao nome de sua comunidade. Era um grande terapeuta. Sua casa pobre no subúrbio da cidade estava sempre repleta de sofredores de toda sorte, para os quais sempre tinha um alívio, um conselho, um pedaço de pão. Sua fama de homem cheio de santidade e bondade corria os arredores, e muitos que podiam ver contavam que diuturnamente estava a seu lado um anjo de compleição lindíssima e diáfana que sobrepunha a mão à dele para curar dores e expulsar demônios.

Nesse dia, dentro do templo, cansado, ele adormeceu e esse anjo se fez visível em seu sonho.

- Abgail, há tempos não a vejo.

- Eu sei, mas estou por perto. Não tenha a ilusão de que algum dia ficará livre de mim.

- Não pretendo sua ausência. Sem você nada do que fiz se faria.

- Não abra mão de seus méritos.

- Estou tão velho e cansado... Quando poderei repousar na casa do Senhor?

Abgail soltou uma bela gargalhada.

- Quer deixar o corpo justo na hora em que começa sua missão propriamente dita? E quanto ao Messias? Desistiu de vê-lo? Falta menos de um decênio para ele vir.

- Não aguento tanto tempo neste velho corpo.

- Mas eu prometi que não morrerá sem vê-lo.

- Se é assim, eu acredito. O que quer que eu faça?

- Vê toda essa balbúrdia?

- Sim. Por que as autoridades não permitem que os forasteiros entrem?
- O procônsul teme que tragam para Jerusalém uma doença que está matando crianças e prostrando adultos, e que se tem verificado pelos arredores. Casos de óbito já foram vistos em Jope, Cesareia,Tiro,Tiberíades e Nazareth. Como pode ver, a enfermidade já chegou à Galileia.

-E...?

- Esta é sua missão: não deixar que tal moléstia se espalhe pela Palestina. Você tem dez anos para sanar esse mal.

- Dez anos?

- Sim. Deve sair agora de Jerusalém e partir para essas cidades.

Os olhos do sábio brilharam.

- E ao final poderei permanecer em Nazareth e esperar por ele? É isso?

- Não. Ao final deverá voltar para Jerusalém.

Impossível descrever a expressão no rosto de Haemon. Misturava dor, frustração, desespero, amargura e - por que não dizer? - um pouco de raiva.

- Por que quer impedir-me de vê-lo?

- Eu não quero fazer isso.

- Como, se me manda, nesta idade avançada, sair da cidade em que Ele deverá nascer e vir para onde deverá morrer, mais de trinta anos depois?

- Cumpra seu propósito, amigo.

- Quando ele nascer terei oitenta e cinco anos, e bem mais de cem quando morrer. Se as chances de vê-lo nascer já são remotas...

- Você aceitou esta missão sem questionar. E lembre-se: ele podería ser uma vítima do mal que deverá erradicar. Vá para casa, pegue todos os seus instrumentos de trabalho e parta para os locais citados. Não lhe faltará assistência na descoberta do antídoto.

O ancião acordou com lágrimas teimosas a escorrer na face. Ainda assim, fez o que sua mentora sugeriu.

Gastando pouquíssimo tempo, colocou em rústico bornal todo o seu arsenal de facultativo, que o acompanhava desde que saíra da comunidade essência no intuito de curar. Cerrou a porta tosca e encerrou seu passado dentro da casa simples.
Chegara a Jerusalém há mais de cinquenta anos. Era então um jovem terapeuta com profundos conhecimentos matemáticos e astronômicos, que dividia seu tempo entre a arte de curar e o namoro com o céu da cidade sagrada. Esse fato deixava muitas moçoilas revoltadas com a indiferença do jovem médico a seus dotes femininos, a ponto de se fazerem passar por doentes para receber um pouco de atenção do belo mancebo judeu de olhos cativantes com a cor e a doçura do mel. Mas esses faniquitos não lhe passavam despercebidos e, penalizado, o jovem doutor lhes dava o remédio da atenção desinteressada, o que quase sempre curava um coração partido.

Naquele dia Haemon recordava, com aperto no peito, que cuidara de crianças que já haviam tido crianças que já tinham crianças... Na verdade, se tivesse gerado as próprias já seria tetravô.

As ruas calçadas de pedras avermelhadas estavam movimentadas. Mercadores, mulheres carregando cântaros vazios rumo à fonte e pedintes dividiam o espaço com militares romanos em seus cavalos de compleição física perfeitas. Em um canto, usando um caixote como mesa, os odiosos publicanos enchiam as sacolas já abarrotadas da águia rapinante como a ave que lhe inspirou o símbolo. Coberto com capa vermelho-sangue, um soldado alto e forte se aproximou.

- E aí, velho judeu? Pretende sair de Jerusalém, mesmo sabendo que não poderá voltar?

- Pretendo.

- Sabe que lá fora se alastra uma espécie de peste do destempero que faz murchar quem é acometido por ela? O indivíduo acaba por expelir a própria alma e morre em consequência disso.

- Bobagem, ninguém pode evacuar a própria alma.

- Vá e comprove. É realmente uma pena você morrer. Certa vez curou minha sogra e minha filha, porém é você que escolhe. E as ordens do procurador são claras no sentido de não deixar ninguém entrar na cidade; nada foi dito sobre sair...

- Agradeço pela preocupação e estimo que sua sogra e sua filha estejam bem. Mas não pretendo morrer de desanda, e sim ajudar os que por ela são assolados.
Só o contato já é fatal.

- Então, eu vou pagar para ver.

Sem mais palavras o soldado mandou abrir os portões da cidade para o velho essênio. A madeira estalava sob a força de robustos romanos e Haemon olhou mais uma vez para a cúpula brilhante do grande templo, dizendo um adeus que acreditava ser para sempre. Era seu plano, assim que tivesse solucionado o problema da moléstia, dedicar-se à procura da família Dele e quem sabe vê-lo nascer, crescer e ficar com Ele enquanto vivesse; e num belo dia de sol morrer mirando Seu rosto infantil e certamente belo como o ouro.

A primeira cidade que recebeu Haemon foi Jope. Resolveu que tão logo sanasse o problema daquela localidade migraria para Cesareia, Tiro e Tiberíades, deixando por razões óbvias Nazareth por último.

Mal se instalou na cidade seguiu para a sinagoga, onde, com autorização do rabino, apresentou-se como médico; avisou que aceitaria por pagamento aquilo de que o cliente pudesse dispor e que o abastecesse do necessário, nada além disso, fato que o tornou conhecido rapidamente.

Poucos dias depois Haemon teve o primeiro contato direto com o problema da peste, que já tomava a periferia, ameaçando avançar até as áreas centrais e nobres da cidade. Munido de seu equipamento, ele se transladou para o bairro pobre e com parcas noções de higiene. Oito famílias constituíam casos típicos da doença, e ele começou a cuidar de vinte e seis doentes, entre os quais dezessete crianças. Ao fim de oito semanas haviam ocorrido dezessete óbitos e nove restabelecimentos difíceis; os pacientes mostravam magreza e palidez cadavéricas, mas respiravam e iniciavam a convalescença. Em contrapartida, surgiram outros dezenove casos confirmados.

As idas e vindas do bom médico o estavam fatigando mais que o próprio trabalho nas casas dos doentes; por isso teve a ideia, apoiada por todos, de que uma vez diagnosticado o mal os pacientes deveriam agrupar-se em um só lugar - a exemplo de método já usado com os leprosos -, o que auxiliaria inclusive a deter o processo de contaminação, já que os enfermos estariam isolados.
Assim foi construído um amplo aposento para receber os doentes, perto da casa do médico, facilitando a sua locomoção. Haemon passava todo o seu tempo a observar e pensar em uma maneira de curar as pessoas e fazer parar aquela terrível moléstia antes de o Logos aportar na Palestina. Sua primeira constatação foi que aqueles que sobreviviam nunca mais se contaminavam, por mais que se expusessem ao mal. Isso restringiu seus ajudantes apenas às pessoas que já houvessem sofrido da doença; às demais nem mesmo como visitantes poderíam entrar no local. “E quanto ao senhor, já teve o mal?” A essa pergunta ele sempre respondia que sim. Sua prioridade era higienizar a Palestina para a chegada do Logos; quanto à explicação de por que adoecemos ou não, deixaria a cargo dele.

Numa noite de imenso cansaço encontrou Abgail e Eber.

- Haemon, você vai muito bem; isolar os pacientes foi genial. E a sua observação é realmente importante: quem tem a doença e sobrevive se torna imune.

- Que bom ver vocês! Ainda bem que estão comigo.

- Vamos conversar sobre a doença?

- Parece claro que se os sobreviventes ficam imunes o remédio está neles. No sangue deles deve haver um anticorpo que inibe a ação do vírus.

- Com certeza, mas lembre-se: está em uma época em que sequer esses termos existem, não possui equipamento para fabricar uma vacina a partir das defesas dos sobreviventes, não tem nem mesmo como injetar essa gamaglobulina nos infectados.

- Está certo.

- Rememore o que estudou sobre o corpo humano, no tocante à proporção de água nele existente, em especial na infância.

- Um corpo humano é formado por sessenta por cento de água, sendo que no organismo infantil essa proporção é maior, chegando a setenta. As fezes líquidas estão fazendo que se perca basicamente o corpo dessas pessoas; por isso todas as crianças morrem e alguns adultos sobrevivem, devido ao percentual de água.

- Isso! E não esqueça: o que mata não é a doença; é a desidratação do corpo.
Então o segredo é repor essa água até que os anticorpos se formem e se encarreguem de defender o corpo do agente infectante?

- E alguns sais minerais. A água deve ser pura; ferva-a, se preciso, e não deixe de oxigená-la, pois água fervida perde o oxigênio.

- Acho que já temos a cura.

- E a erradicação. Porém atente para o fato de que estamos na primeira cidade, e a Grande Promessa chegará em menos de dez anos.

- E quanto a vocês?

- É sobre isso que quero falar também. Teremos de nos afastar por um tempo; é hora de aportarmos à carne novamente.

- Vão nascer perto dele!

- Sim, vamos.

- Conviverão com ele!

- Até o fim.

- São bem-aventurados. E quanto a mim? Ficarei abandonado na Terra?

Os mentores riram de sua expressão infantil.

- Imagine! Alguém virá em nosso lugar. Adivinhe quem chegou de uma encarnação ao mundo dos espíritos e se ofereceu para ficar com você pelo pouco que lhe resta?

- Bem que poderia ser Kyia. Assim, juntos subverteremos todas as leis e nos colocaremos ao lado do Logos.

Entrando na brincadeira do tutelado, Eber respondeu amoroso:

- Não, não é Kyia. Não quer arriscar outro palpite?

Lendo o pensamento do amigo e sentindo no ar as vibrações mirí-ficas da companheira, ele balbuciou emocionado:

- Amonet... Minha doce Amonet!

Envolvendo-a em terno abraço, ele acordou cheio de saudade daquilo que não recordava. No entanto, as idéias novas acerca da doença que precisava vencer o impediram de se abater pela nostalgia de ter nos braços a amada por instante tão fugaz. Naquela manhã, levantou-se como se tivesse trinta anos.

O vento vindo do mar trazia um frescor diferente. Ele acreditava que uma chuva não seria algo impossível naquele dia, e captar água pluvial era um costume que trouxera da comunidade essênia e que todos em Jope aprovaram. Ordenou às mulheres que lavassem os captadores, pois precisariam de muita água. Amanhecera com idéias bem definidas a respeito do papel da água na cura da moléstia, o que atribuía ao fato de ter observado na véspera que as crianças choravam sem lágrimas e nenhum paciente urinava ou suava, por mais calor que fizesse.

A partir de então adotou o tratamento com água e minerais; as frutas eram servidas em forma de suco e nenhuma oportunidade de ingestão de líquido era desprezada. Com lágrimas emocionadas ele percebeu um menino de nome João Marcos lacrimar copiosamente enquanto sentia dores abdominais. Os sinais de convalescença eram visíveis em todos, de qualquer idade, e logo o número de óbitos caiu em mais de noventa por cento.

Capítulo 44

Dois anos transcorreram até que nenhum caso da doença foi registrado naquela cidade, que cerrou os portões a qualquer forasteiro após a passagem de Haemon, que se despedia de uma comunidade grata e pesarosa. Dali ele se dirigiu para Cesareia, e com a experiência adquirida em Jope levou tempo bem menor e enfrentou menos perdas para erradicar a virose.

Seguindo sempre ao norte, com destino a Tiro, ainda parou em Ptolemaida, onde alguns casos começavam a ser diagnosticados, e, deixando a situação sob controle no litoral, dominado por emoção ímpar entrou na Galileia. Por mais algum tempo se dedicou à erradicação da doença que poderia acometer o Logos, fazendo malograr um trabalho de mais de 2 mil anos. Quando, enfim, mais de um ano se passou sem um único caso da moléstia, ele foi à sinagoga e agradeceu ao Mundo Maior a confiança nele depositada.

Um homem entrou à procura do rabino, parecendo revoltado com a atitude dos cobradores de impostos. Relatava terem os romanos tomado de sua esposa moedas, utensílios domésticos e até a única ovelha que possuíam, como fonte de lã para a esposa grávida tecer os agasalhos para o rebento que chegaria em breve. Pedia o conselho do líder religioso quanto à atitude que deveria tomar.

Haemon sentia o coração chocar-se contra a caixa torácica, sem compreender de onde vinha tamanha emoção. Uma voz interior lhe dizia que o homem, já grisalho, falava dos agasalhos roubados do Logos. O rabino recomendava-lhe que não tentasse reaver a ovelha, ou poderia vir a perder algo mais valoroso ou mesmo sem preço.
- Até quando teremos de nos submeter a estrangeiros?

- José, onde está sua fé? Deus está nos vigiando e no momento oportuno nos enviará o Salvador, que restabelecerá o reino de Israel. Duvida disso?

- Não, eu não poderia. Eu vi o anjo de Deus.

- Não quero ouvir mais essa narrativa blasfema. E já está proibido de repeti-la a quem quer que seja.

O homem grisalho de olhos aveludados saiu da sinagoga visivelmente inconformado; nem se despediu do rabino, de quem imaginara receber ajuda em sua aflição.

Haemon saiu em seu encalço, acelerou os passos cansados e alcançou-o.

- Espere, senhor. Por acaso ouvi sua conversa com o rabino. Posso ajudá-lo?

- Sou Josephe Ben Jacob, carpinteiro, e atendo a domicílio. Encontrava-me no trabalho quando minha jovem esposa - é a segunda, sou viúvo - estava só e os cobradores apareceram. Não tinha a pobrezinha como pagar o que queriam os malvados e nossa casa foi saqueada; levaram inclusive nossa única rês. Estou consumido.

-Josephe Ben Jacob, esta raiva apenas o consumirá ainda mais; ela não pode atingir os romanos.

O homem parou, fitando o rosto de Haemon por longos minutos.

- Está certo. Devo me acalmar e dar suporte para minha querida esposa. A tirania da águia está por pouco, o Salvador está chegando. Acredita nisto, ancião?

- Claro, e estou ansioso por ouvir a “narrativa blasfema”. Pode me contar, José?

Ele respirou fundo.

- De onde vem?

-Jerusalém.

- Para onde vai?

- Ainda não sei. Sou um essênio a serviço da saúde dos pobres.

- Eu vi um anjo de Deus em meus sonhos.
Eu os vejo sempre. Revelam-me maneiras de curar e resolver muitos problemas. O que lhe disseram eles?

- Minha esposa afirmou ter recebido a visita de um anjo que lhe fizera uma revelação, e eu não acreditei. Então ele veio até mim e fez a mesma revelação. Disse o ser de luz que meu filho que está a caminho é o enviado de Deus para se cumprir a Grande Promessa; que esse bebê, um menino, é o Messias, o Salvador do povo de Israel, e se chamará Yeshua. Será que eu e Mirian estamos loucos?

- Não estão. Ele é o Logos Planetário, o imperador do mundo.

- E olhe só - José chorou sentido -, não tenho como receber o imperador do mundo.

- Ele é grande por si só, José, não precisa de adereços. Ainda assim, tenho algumas economias e vou comprar sua ovelha de volta. Não será a falta de agasalhos e leite que afligirá a Grande Estrela. Para onde foi o cobrador?

Seguindo a indicação, Haemon caminhou pelas ruelas estreitas de Nazareth e numa espécie de praça pública localizou o cobrador, que, excessivamente bêbado, arrastava a ovelha por uma corda em torno do pescoço. Não foi difícil comprar o animal, que dava ao cobrador trabalho e despesa. Pegando a rês, o médico alisou-lhe o pelo com adoração. Seu coração parecia saltar quando bateu à porta da casa de José.

Tratava-se de morada pequena e simples. As janelas redondas eram cobertas por cortinas de couro e havia uma única porta, de madeira rústica, que funcionava como entrada e saída. À guisa de jardim, plantas e condimentos diversos eram cultivados às margens de um estreito curso de água que passava muito próximo. Ao lado, um aposento maior funcionava como carpintaria e depósito de madeiras e ferramentas do patriarca, que abriu a porta com largo sorriso.

- Aqui tem de volta sua ovelha, amigo José.

- Não me admira que os anjos falem com você. É um homem cheio do espírito de Deus. Mirian se sentirá muito feliz com a recuperação.

- Posso vê-la? Conhecer o vaso onde se encontra o imperador do mundo?

Ele foi ao aposento contíguo.
- Por causa do estado interessante minha esposa se envergonha de se avistar com outro homem que não o pai da criança, mas manda agradecer-lhe de coração.

- Posso então visitá-la e à criança, assim que esta nascer?

- Será um prazer recebê-lo em nossa casa nesse grande momento, que não demora mais que uma lua.

- Peça a ela que pronuncie uma palavra, uma única palavra para que eu possa ouvir a voz daquela que sustenta no ventre o Messias, e guardar para sempre essa nota, se por acaso morrer antes que Ele chegue.

José nada disse. A esposa já o havia escutado e falou com voz suave como a brisa do mar da Galileia:

- Shalom!

Saindo da singela e graciosa morada que receberia o Logos, Haemon chorou por mais de uma hora. Sua emoção só seria maior quando pudesse mirar o bebê Yeshua.

Nada fazia o bom velhinho pegar no sono naquela noite. Amonet se mostrou a ele em estado de vigília e sentou-se aos pés de sua cama.

- Eu estive na casa dele. Falei com seu pai e lhe devolvi o agasalho. Meu velho coração não aguenta mais a emoção. Ouvi a voz de Mirian, escutei quando ela me desejou a paz, Amonet, eu ouvi a voz dela e ela o contém, Ele está dentro dela - um fluxo contínuo de lágrimas quentes corria de seus olhos cansados.-José disse que Ele chega dentro de uma lua e que eu posso visitá-lo.

-Junte suas coisas, querido, precisa voltar a Jerusalém.

- Quando?

- Amanhã.

- Está brincando? Em pouco tempo ele estará aqui, quase do meu lado, e quer que eu volte para Jerusalém, não sei quantas estádios ao sul?

- Volte amanhã para Jerusalém.

- Por que faz isto comigo? Por que não quer que eu o veja?

- Eu digo que deve partir exatamente para que se cumpra a promessa de Abgail no sentido de vê-lo.

- Ele estará ao meu lado muito em breve, eu não entendo... — Haemon chorava feito criança.
Nem sempre entendemos os desígnios da Providência. Não cabe em nossa inteligência mediana compreender os caminhos que são usados para nos ajudar, uma fé verdadeira só nos deixa a alternativa de obedecer. Por isso eu repito: querido amigo, volte amanhã bem cedo, antes do sol, para Jerusalém.

- Posso ao menos dizer