CAPÍTULO 1 - A BÍBLIA

CAPÍTULO 1 - A BÍBLIA

Muitos pontos dos Evangelhos, da Bíblia e dos autores sacros em geral só são ininteligíveis, parecendo alguns até irracionais, por falta da chave que faculte se lhes apreenda o verdadeiro sentido. Essa chave está completa no Espiritismo, como já o puderam reconhecer os que o têm estudado seriamente e como todos, mais tarde, ainda melhor o reconhecerão.
— Allan Kardec (Allan Kardec, O Evangelho segundo o Es¬piritismo. FEB. Introdução, "I -Objetivo desta Obra")

Moisés abriu o caminho; Jesus continuou a obra; o Espiritismo a concluirá.

— Um Espírito Israelita
(Allan Kardec, O Evangelho segundo o Espiritismo. FEB. Cap. I, item 9)

A BÍBLIA

Que é a Bíblia

A Bíblia é um conjunto de livros que relata a história dos hebreus, povo asiático da Antiguidade, que se instalou na Palestina.

Seus livros foram escritos por vários autores, em épocas diversas.

Teriam sido 36 os seus autores, contados desde Moisés (1437 a.C), o primeiro deles a escrever, até João, pescador e apóstolo (em 98 d.C).

O conjunto todo, portanto, foi escrito ao longo de 1.571 anos (quase 16 séculos).

Quem primeiro usou a palavra bíblia (do grego byblos = livro) para designar essa coleção de textos como "o livro por excelência" foi João Crisóstomo, patriarca de Alexandria (entre 398 a 404 d.C.)

Como se divide

Como a conhecemos hoje, a Bíblia está dividida em duas partes: o Antigo (ou Velho) Testamento e o Novo Testamento.

Por que "testamento"?

O termo original, em hebraico, era berith, que quer dizer: ajuste contratual entre pessoas ou tratado político entre tribos.

Traduziram para o grego pela palavra diatheke, que pode ser usada tanto no sentido de pacto ou aliança como no de testamento.

Ao passar para o latim (e daí para o português), foi traduzida como testamento. O melhor sentido, porém, teria sido outro: pacto, aliança, porque fora exatamente um pacto o que (segundo os israelitas) Deus (a quem chamavam Jeová) teria feito com eles, nos seguintes termos (Ex 24:6-8, Gên 15:18 e 17:2,4 e 19):

1) Deviam ter Jeová como único e verdadeiro Deus e só a Ele servir, fielmente, pois para isso os escolhera ("povo eleito").

2) Em troca, Ele os protegeria sempre, os faria muito numerosos, livres, poderosos e lhes daria uma terra fértil para habitarem (até então eram nômades).

Velho Testamento - VT

É constituído pelos livros que foram escritos antes da vinda de Jesus. Narra toda a história do pacto entre Jeová e os israelitas e de tudo quanto se seguiu em cumprimento dele.

Seus livros abrangem a história, religião, instituições e costumes hebreus; alguns deles são as principais obras literárias e filosóficas desse povo. Também contêm o registro das manifestações e revelações espirituais que, ao longo de sua história, os hebreus receberam da Espiritualidade Superior.

Em alguns deles, já se anuncia o advento do Cristo, um redentor para o povo hebreu.

Quando dizia "a lei e os profetas", Jesus estava aludindo aos livros do Velho Testamento, que continham os mandamentos e ordenações a que os israelitas obedeciam.

Novo Testamento - NT

Com a vinda de Jesus e, através dele, um novo pacto ou aliança foi firmado por Deus (Lc 22:20, Mc 14:24, Mt 26:28, Ex 24:6-8), agora não apenas com o povo hebreu, mas extensivo a toda a humanidade.

Os livros do Novo Testamento:

1) Contam a história do advento de Jesus, o Cristo, e da repercussão que causou na Palestina e no mundo.

2) Fazem a biografia terrena de Jesus, relatando seus principais feitos e ensinos, bem como os de seus primeiros e mais diretos seguidores.

Observação:

Para os israelitas, a Bíblia consiste unicamente no Velho Testamento, pois não reconhecem Jesus como o Messias Prometido.

Para os cristãos, a Bíblia abrange o Velho e o Novo Testamento.

EM QUE IDIOMA FOI ESCRITA? Velho Testamento

Seus livros foram, na maioria, escritos em hebraico (idioma semítico que, após o cativeiro na Babilônia, os hebreus usavam na liturgia, no culto religioso); apenas algumas passagens foram escritas em aramaico (idioma semítico falado em Arã, a noroeste da Mesopotâmia, usado pelos israelitas em suas relações internas e com outros povos).

Novo Testamento

Jesus falava aramaico, mas nada escreveu; seus discípulos é que escreveram sobre ele e o fizeram em grego, com exce-ção de Mateus, que escreveu em aramaico.

VERSÕES E TRADUÇÕES QUE DELA FIZERAM

Entre as várias versões e traduções existentes, citaremos as mais conhecidas.

A versão dos Setenta

No século II a.C, 72 sábios judeus que viviam em Alexandria (Egito) traduziram para o grego os livros do Velho Testamento, acrescentando a eles mais outros sete livros; os judeus de Jerusalém não aceitaram esses acréscimos.

A Vulgata (em latim, divulgada, ou "versão comum")

O idioma grego foi perdendo sua importância como idioma cultural, enquanto o latim dos dominadores romanos começava a se impor. No século IV d.C, já havia uma tradução da Bíblia para o latim.

Papa Dâmaso (pontífice entre os anos 366-384 d.C.) ordena a São Jerônimo revisão e tradução das versões existentes para o latim.

Atendendo à determinação papal, São Jerônimo traduziu o Velho Testamento dos textos hebraicos para o latim (incluindo os sete livros deuterocanônicos) e o uniu ao Novo Testamento (revisando antiga versão latina).

A Vulgata é a única versão que a Igreja Católica adota, embora permita o estudo de outras.

Impressão gráfica em alemão

Até o século XVI, só tinham acesso à Bíblia e podiam lê-la, o clero católico e as pessoas por ele autorizadas.

Lutero, o pai da Reforma (1517) queria colocar a Bíblia ao alcance de todas as pessoas.

Então, traduziu-a para o idioma do seu povo (o alemão) e, graças à imprensa recém-inventada por Gutenberg, publicou-a e a popularizou.

Traduções para o português

As mais conhecidas são:

1) Protestante: a de João Ferreira de Almeida, publicada em 1748, muitos anos após a morte dele.

2) Católica: a do Padre Antônio Pereira de Figueiredo.

3) Bíblia de Jerusalém: por equipe de exegetas católicos e evangélicos.

Por que estudá-la?

O estudo da Bíblia é importante e interessa a todos os cristãos (inclusive, portanto, aos espíritas), porque:

1) É na Bíblia que encontramos os relatos sobre a vida de Jesus (que era judeu, da casa de Judá, uma das tribos dos hebreus) e a história do povo em que ele nasceu e viveu.

2) Conhecendo o povo, a época, os lugares e as circunstâncias em que Jesus viveu, poderemos entender melhor seus atos e sua mensagem.

No estudo bíblico, porém, não podemos ignorar que no Velho Testamento há:

Uma parte humana, constituída:

1) Pelas idéias que os hebreus faziam quanto à origem do Universo, a criação da Terra e dos seres que a habitam.

2) Pela legislação civil, disciplinar, estatuída por Moisés e outros dirigentes do povo hebreu.

Dessa parte humana da Bíblia, muita coisa ficou ultrapassada pelo progresso do conhecimento humano e mudança dos costumes sociais.

Exemplos:

1) O direito e dever da viúva sem filhos de casar com o cunhado para suscitar descendência para o marido morto (Deut 25:5).

2) O dever de os pais apresentarem o filho rebelde e contumaz para ser apedrejado e morto (Deut 21:18-21).

3) A permissão da escravidão, a venda de filhos como escravos, ou a de si mesmo por pobreza (Lev 25:39-55, Deut 24:7, Amos 2:6, 2 Reis 4:1-7).

4) A prisão por dívida e sem poder sair antes de pagar o que deve (Jesus alude a isso em Mt 18:30).

5) A proibição de o filho bastardo entrar na congregação do Senhor até a décima geração (Deut 23:2).

Uma parte divina, constituída:

Pelas revelações feitas por bons Espíritos em nome de Deus e através de Moisés e outros profetas (médiuns), transmitindo ensinamentos sublimes sobre as leis divinas.

Como tudo que é divino, essa parte dos ensinamentos bíblicos não mudou nem perdeu seu valor, permanecendo atual sempre.

Exemplos:

1) O Decálogo (os dez mandamentos) (Êx 20:1-17, Deut 5:6-21).

2) A hospitalidade para com os viajores (Gên 18:1-18; 19:1-3).

3) Não oprimir a viúva, nem o órfão, nem o estrangeiro, nem o pobre (Zc 7:10).

4) Preferir Deus a misericórdia e não os sacrifícios ou holocaustos (Os 6:6).

5) O justo não paga pelo pecador e há recuperação do pecador que se arrepende (Ez 18).

Não basta, pois, ler a Bíblia e decorar suas passagens. E' preciso entender, discernir e interpretar o que ela contém.

E muito nos ajudará, no entendimento das passagens bíblicas, o conhecimento de usos e costumes do povo hebreu, caráter dos israelitas, o modo de se expressarem em imagens fortes e simbólicas etc.

Interpretação da Bíblia à luz do Espiritismo

Embora estudem também o Velho Testamento, é ao Novo Testamento que os espíritas dão maior importância e valor, por que nele está o cerne doutrinário do Cristianismo, o ensinamento espiritual do Cristo, revelação mais avançada e aperfeiçoada que a de Moisés.

Para o estudo bíblico, os espíritas se utilizam de uma das respeitáveis versões da Bíblia que já existem.

Observação:

São livros históricos, não poderia existir uma "Bíblia dos Espíritas".

As obras espíritas que abordam a Bíblia são de exegese (estudo da autenticidade do texto e de interpretação do seu sentido).

Essa exegese é feita à luz do conhecimento espírita e visa à aplicação do ensinamento evangélico em nossas vidas. "Estudar Kardec para viver Jesus" (Bezerra de Menezes)

Algumas obras espíritas de exegese bíblica De Allan Kardec (FEB):

- O Evangelho segundo o Espiritismo (o volume todo contém o exame dos ensinos morais do Cristo);

-A Gênese (o livro todo, especialmente os capítulos: XI, "Raça Adâmica" e "Anjos Decaídos"; XII, "Criação do Mundo" e "Perda do Paraíso"; XV, "Os Milagres do Evan¬gelho"; XVII, "Predições do Evangelho");

- Obras Póstumas, Ia Parte: "Estudo sobre a Natureza do Cristo";

- O Céu e o Inferno (vários temas).

De Cairbar Schutel (O Clarim, Matão/SP):

- Parábolas e Ensinos de Jesus;

- Vida e Atos dos Apóstolos;

- O Espírito do Cristianismo;

- Interpretação Sintética do Apocalipse;

- O Batismo;

- O Diabo e a Igreja;

- Espiritismo e Protestantismo.

De Leon Denis (FEB):

- Cristianismo e Espiritismo.

De Vinícius (FEB):

- Na Escola do Mestre;

- Na Seara do Mestre;

- Nas Pegadas do Mestre;

- Em Torno do Mestre;

- O Mestre na Educação (FEESP).

De Eliseu Rigonatti (Pensamento):

- O Evangelho dos Humildes;

- O Evangelho da Mediunidade (sobre os Atos dos Apóstolos);

- O Evangelho da Meninada (para crianças). De Rodolfo Calligaris (FEB):

- Parábolas Evangélicas à Luz do Espiritismo;

- O Sermão da Montanha.

De Emmanuel, psicografia de Francisco C. Xavier (FEB):

-Caminho, Verdade e Vida;

- Pão Nosso;

- Fonte Viva.

De Carlos Torres Pastorino (Sabedoria):

- Sabedoria do Evangelho (vários volumes).

De Mário Cavalcanti de Melo (Livraria da Federação Espírita do Paraná):

- Da Bíblia aos Nossos Dias.

De Romeu do Amaral Camargo (Livraria Editora da União Federativa Espírita Paulista):

- De Cá e de Lá.

De Jayme Andrade (EME):

- O Espiritismo e as Igrejas Reformadas.

De Richard Simonetti (FEB): -A Voz do Monte.

De Djalma Motta Argollo (Mnêmio Túlio):

- O Novo Testamento - Um Enfoque Espírita.

De Severino Celestino da Silva (N. Esp. Bom Samaritano):

-Analisando as Traduções Bíblicas. De Roberto Macedo (FEB):

- Vocabulário Histórico-Geográfico dos Romances de Emmanuel.

De Amélia Rodrigues, psicografia de Divaldo P. Franco (Leal):

- Luz do Mundo;

- Quando Voltar a Primavera; -Primícias do Reino (Sabedoria).

De Hermínio C. Miranda (O Clarim): -Cristianismo: a Mensagem Esquecida;

- O Evangelho de Tomé.

De J. Herculano Pires (Correio Fraterno):

- Visão Espírita da Bíbíia. De Clóvis Tavares (LAKE):

- Histórias que Jesus Contou (para crianças).

De Bruno Bertocco:

- O Evangelho em sua Pureza Essencial; -Cristianismo Redivivo (Edigraf).

De Therezinha Oliveira (Allan Kardec):

- Na Luz do Evangelho;

- Parábolas que Jesus Contou e Valem para Sempre.

Bibliografia não-espírita deste curso

- A Bíblia de Jerusalém (Paulinas);

- História Ilustrada do Mundo Bélico (Seleções do Readers Digest).

- Introdução da "Bíblia Sagrada", editada pelo Centro Bíblico Católico de S. Paulo, com base na versão francesa dos Monges Beneditinos de Maredsous, Bélgica (Ave Maria).

De Félicien Challaye (Ibrasa):

- As Grandes Religiões (Cap. IX, "O Judaísmo", e Cap. XIII, "O Cristianismo").

De Daniel Rops:

- O Povo Bíblico (Livraria Tavares Martins, Porto, Portugal);

- A Vida Diária nos Tempos de Jesus (Vila Nova).

De Pe. Lincoln Ramos (Regnum Dei):

- O Evangelho (sinopse dos quatro).

De John D. Davis (Casa Publicadora Batista):

- Dicionário da Bíblia.

De S. L. Watson e W. E. Allen (JUERP):

- Harmonia dos Evangelhos.

De Haim Cohn (Imago):

- O Julgamento e a Morte de Jesus.

De Charles A. Oliver:

-Preparação de Professores (Imprensa Metodista de São Paulo);

De Maria Helena de Oliveira Tricca (Mercuryo):

- Apócrifos - Os Proscritos da Bíblia, vols. I e II.

De Eilen G. White (Casa Publicadora Brasileira):

- O Desejado de Todas as Nações.

De Henrique Galbiati (Paulinas):

- O Evangelho de Jesus (sinopse dos quatro).

Therezinha Oliveira