CAPÍTULO 10 - JOÃO BATISTA,
O PRECURSOR DO CRISTO

CAPÍTULO 10 - JOÃO BATISTA, O PRECURSOR DO CRISTO

Na Antiguidade, um rei que viajasse para lugares pouco percorridos do seu reino enviava antes os precursores, a fim de aplainarem o caminho e encherem as depressões, de modo que não encontrasse obstáculos e viajasse em segurança.

Um precursor também precederia o Messias, preparando o povo para recebê-lo: "Eis que eu envio diante da tua face o meu mensageiro, o qual preparará o teu caminho diante de ti" (Malaquias 3:1).

Faria isso esperançando os humildes, abatendo os orgulhosos, corrigindo os desviados e abrandando os agressivos: " Indo vale será exaltado, e todo monte e todo outeiro serão abatidos; e o que está torcido se endireitará, e o que é áspero se aplainará" (Isaías 40:4)

Foi João esse precursor. Nos quatro Evangelhos, os autores, antes de falarem da tarefa de Jesus, contam como João Surgiu antes dele na Palestina, anunciando ao povo que o Messias chegaria em breve e que todos se preparassem espiritualmente para recebê-lo.

Observação:

João era chamado o Batista (porque batizava); não se deve confundi-lo com João, o Evangelista (que escreveu um dos Evangelhos).

Seu nascimento (Lucas, Cap. I)

Na época em que Heródes, o Grande, reinava na Judéia e César Augusto imperava em Roma, moravam, nas montanhas da Judéia, Zacarias (sacerdote da ordem de Abias) e Isabel (das filhas de Arão), "ambos justos perante a Deus".

Indo a Jerusalém para, na ordem de sua turma sacerdotal, realizar o culto no Templo, Zacarias ali viu um anjo (mensageiro espiritual), que se identificou como Gabriel e lhe anunciou que ele seria pai.

Zacarias duvidou do aviso, porque era velho e sua mulher também, além de estéril até então. Como sinal, o anjo o fez ficar mudo, até que se desse o nascimento do menino.

No anúncio, o anjo afirmou, entre outras coisas:

(...) "terás prazer e alegria e muitos se alegrarão no seu nascimento". De fato, alegraram-se: Zacarias (porque teve, enfim, um herdeiro), Isabel (porque deixou de ser estéril), os parentes e vizinhos (partilhando da alegria do casal) e, mais tarde, os que se beneficiaram do trabalho de João.

(...) "será cheio do Espírito Santo já desde o ventre de sua mãe". Quando Maria, já grávida, visitou sua prima Isabel (grávida seis meses antes), a criança desta lhe estremeceu no ventre e Isabel, mediunizada, exclamou: "Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre. E' de onde me provém que me venha visitar a mãe do meu Senhor?"

(...) "e lhe porás o nome de João". Não havia esse nome na família e iam chamá-lo Zacarias; porém, consultada a mãe, disse: "João" e consultado o pai (ainda mudo) confirmou pela escrita: "João", e recuperou a fala.

O fato foi muito admirado e divulgou-se pelas montanhas da Judéia, perguntando todos: "Quem será pois este menino?"

E "a mão do Senhor estava com ele", "crescia e se robustecia em espírito. E viveu nos desertos até o dia em que havia de mostrar-se a Israel."

A pregação do Batista

No ano 15 do império de Tibério César (talvez 28 d.C), Pôncio Pilatos era o presidente da Judéia e Herodes (não mais o Grande, mas um de seus filhos) era tetrarca da Galiléia; Anás e Caifás eram os sumos-sacerdotes.

A João "veio-lhe no deserto a palavra de Deus" (começou a ouvir mediunicamente) e "percorreu toda a terra ao redor do do Jordão".

Como se apresentava?

Vestido de pêlos de camelo, com cinto em redor dos rins; comia gafanhotos e mel silvestre. Como anunciara o anjo, não bebia "vinho nem bebida forte".

O que e como pregava?

Conclamava a todos: "Arrependei-vos, fazei penitência, porque é chegado o reino dos céus."

Nos que atendiam, aplicava o "batismo do arrependimento para a remissão dos pecados", ou seja, mergulhava-os nas águas do rio Jordão.

Ao povo, que indagava como proceder para estar bem com Deus, aconselhava: "Quem tiver duas túnicas, reparta com o que não tem; e quem tiver alimentos, faça da mesma maneira."

Aos publícanos (coletores de impostos), recomendava: "Não peçais mais do que o que vos está ordenado."

Aos soldados, dizia: "A ninguém trateis mal nem defraudeis, e contentai-vos com o vosso soldo."

Quem és tu?

Os judeus estavam sempre na expectativa da vinda do Messias e ninguém sabia como ele seria. Se alguém chamava a atenção pública (como João estava fazendo), logo pensavam que pudesse ser o Messias.

Então, de Jerusalém mandaram sacerdotes e levitas para perguntar a João:

"— Quem és tu?

— Eu não sou o Cristo", respondeu imediatamente João.

Mas também esperavam que, antes do Cristo, o profeta Elias voltasse à Terra, baseando-se em Malaquias (4:5-6): "Eis que vos envio o profeta Elias, antes que venha o dia grande e terrível do Senhor. E converterá o coração dos pais aos filhos e dos filhos a seus pais, para que eu não venha e fira a terra em maldição.

Ora, João era enérgico e destemido, como Elias o fora, e pregava exatamente o arrependimento e a reconciliação.

"Então, és Elias?", lhe perguntaram.

"Não sou", respondeu João (negou porque, ao reencarnar, esquecemos o passado).

"És tu profeta?", voltaram a indagar. "Não", respondeu João (no caso, significaria ser um porta-voz divino e João, de fato, não era o Verbo, o mensageiro maior).

"Que dizes de ti mesmo?", indagaram, afinal.

"Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor." - respondeu João citando Isaías (40:3). E, de fato, clamava no "deserto" das almas sem fé e corações endurecidos.

"— Se não és o Cristo, nem Elias, nem Profeta, por que batizas?

— Eu vos batizo com água, para o arrependimento", explicou João, mas alguém mais poderoso viria depois, batizan-do "com o Espírito Santo e com Fogo".

Eis o Cordeiro de Deus (Jo 1:29-34 e Mt 3:13-17)

Jesus veio da Galiléia ter com João, junto ao rio Jordão, e ali foi batizado por ele.

Já saíra da água e estava orando, quando João teve uma visão ("se í/te abriram os céus e viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo sobre ele") e ouviu-se "uma voz do céu que dixia:

Este é o meu Filho Amado, em quem me comprazo." (Mt 3, 16-17)

João Batista, que estivera aguardando esse sinal para reconhecer o Messias, a partir de então testemunhava: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!"

Que ele cresça e eu diminua

Jesus ainda não se manifestara abertamente nem produzir fenômenos, mas, ante a indicação do Batista, muitas pescadores começaram a segui-lo, até mesmo alguns discípulos de João.

Houve quem quisesse reclamar, porque o povo estava indo ter com Jesus, em maior número do que com João. Mas este explicou: "E' necessário que ele cresça e eu diminua."

A tocha passa de mãos

A missão de precursor terminara. João prosseguia sua vida normalmente. De público e agressivamente condenou Herodes por ter tomado como esposa a Herodíades, mulher de seu irmão Filipe (adultério). Mas foi preso. Herodíades queria matá-lo, mas Herodes ainda atendia a João, embora o mantivesse na prisão.

Ao saber que João fora preso, Jesus voltou para a Galiléia e começou a pregar como João o fazia, anteriormente: "Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus." E começou a curar, afastar Espíritos obsessores, e muitos outros fenômenos.

Da prisão, João mandou dois discípulos ter com Jesus e perguntar:

"És tu quem havia de vir? ou esperamos outro?"

Mas João já sabia que Jesus era o Cristo; talvez quisesse com isso encaminhar os discípulos para conhecerem Jesus e o seguirem.

Em resposta, Jesus atestou sua missão não com palavras, mas com fatos: produziu vários fenômenos e mandou os discípulos contarem a João.

Que saístes a ver?

Quando os discípulos de João partiram, Jesus falou ao povo sobre João afirmando que ele era profeta, e grande, e Elias (ver Lc 7:24-28 e Mt 11:14).

João sempre falou de Jesus com respeito e submissão.

Jesus sempre exaltou a João: "mais que profeta", precursor; "dentre os nascidos de mulher não há maior".

Deram exemplo de como os trabalhadores da seara se devem reconhecer e apoiar.

Mesmo se houver alguma diferença no modo de agir, porque entre João e Jesus havia algumas. João batizava e seus discípulos jejuavam; Jesus não batizava nem seus discípulos jejuavam; "a lei e os profetas duraram até João", enquanto Jesus "ensinava como tendo autoridade e não como os escribas".

Curioso é que os fariseus e doutores da lei não acolheram a João nem aceitaram a Jesus (que procediam de modo diferente), o que levou o Mestre a indagar: "A quem compararei os homens desta geração?" (ver Lc 7:31)

A morte de João e seu ressurgimento

Ao ser decapitado por Herodes (Mc 6:17-29), João resgatou o erro que cometera na encarnação anterior, como Elias, mandando degolar 450 sacerdotes de Baal. (IReis 18:19-40)

Após a morte de João, os judeus (que não sabiam direito como uma pessoa pode reaparecer, ressurgir) pensaram que João é que estaria fazendo tantos e tais fenômenos através de Jesus.

Mas Herodes comentou: "A João mandei degolar. Quem é pois este, de quem ouço tais coisas?" (Lc 9:7-9)

O verdadeiro ressurgimento espiritual de João comprovou-se na transfiguração (Mt 17:1-13). Materializados, aparecem ele, como Elias, ao lado de Moisés, conversando com Jesus sobre a sua próxima desencarnação em Jerusalém. Intrigados, os discípulos perguntaram a Jesus se Elias não devia vir primeiro (pois ainda aparecia no mundo espiritual). Jesus esclarece: "Elias já veio e não o reconheceram" e "o trataram como lhes aprouve". Os discípulos entenderam que João Batista era Elias reencarnado.

Jesus ainda se referiu várias vezes a João e sua tarefa: "ele deu testemunho da verdade", "era a candeia que ardia e iluminava e vós quisestes alegrar-vos por um pouco de tempo com sua luz" No Templo, arguido pelos sacerdotes e escribas quanto à autoridade com que expulsara os vendilhões, argumenta: "O batismo de João era do céu ou dos homens?" (ver Mt 21:25-27).

Do significado da missão do Batista, atestou o povo judeu: "Na verdade, João não fez sinal algum" (nessa encarnação não foi médium de efeitos físicos, como fora na encarnação com o Elias), "mas tudo quanto João disse deste era verdade. E muitos creram nele [Jesus]" (Jo 10:41-42).

E não fora exatamente para isso que João viera? Para anunciar Jesus ao povo, fazendo que o reconhecessem como o Messias Prometido? Missão cumprida!

Therezinha Oliveira