CAPÍTULO 11 - OS TRÊS BATISMOS:
DE ÁGUA, DE FOGO E DO ESPÍRITO

CAPITULO 11 - OS TRÊS BATISMOS: DE ÁGUA, DE FOGO E DO ESPÍRITO

O batismo de água

A palavra batismo quer dizer imersão, mergulho (do grego baptisma, passando ao latim baptismus).

O costume de batizar não tem sua primeira origem no Cristianismo, pois, nos relatos de diferentes seitas de povos da Antiguidade, encontramos referências a banhos purificadores, aspersões e imersões, que preparavam os crentes para o culto às suas divindades.

Como surgiu na área cristã?

Foi João (filho de Zacarias e Isabel e, segundo a tradição, primo de Jesus) quem deu início à prática do batismo entre os judeus, de modo popular.

Ele anunciava a vinda do Cristo e convidava o povo a se arrepender dos seus pecados e, aos que o atendiam e se propunham a uma renovação moral, ele batizava (mergulhava nas águas do rio Jordão). Por essa prática, ficou conhecido como "o Batista", ou seja, o que batiza.

Seu significado

O batismo de água era uma prática simbólica, um testemunho público de arrependimento e propósito de corrigir-se, "lavar-se" dos seus pecados.

É o que fica evidente, em passagens como estas:

"Eu, na verdade, vos batizo com água para vos trazer à penitência; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas alparcas não sou digno de levar; ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo." (Mt 3:11)

"Apareceu João, batizando no deserto e pregando o batismo do arrependimento, para remissão dos pecados." (Mc 1:4)

Por simbolizar arrependimento de pecados, João só aplicava o batismo em adultos, que tinham do que se arrepender e podiam analisar o certo e o errado para se arrependerem.

E mostrava que não adiantava o batismo de água em quem não estivesse realmente arrependido. Ex.: A muitos dos fariseus e saduceus que foram até ele para que os batizasse, admoestou:

"Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento". (Mt 3:7-8)

Por que Jesus foi batizado? (Mt 3:14-17 ejo 1:29-34)

Jesus foi ter com João para ser batizado por ele. João ainda não sabia que Jesus era o Messias, mas reconhecia que seu primo era bom, virtuoso e melhor que ele próprio, não precisando do "batismo do arrependimento". Por isso não o queria batizar: "Eu é que preciso ser batizado por ti e tu vens a mim?"

Respondeu Jesus: "Deixa, por agora, porque nos convém cumprir toda a justiça." Referia-se Jesus a Moisés e os profetas, que para os judeus eram "a lei". Havia previsões feitas sobre o Messias que deveriam ser cumpridas, como a de Isaías (11:2): "E repousará sobre ele o espírito do Senhor, o espírito de sabedoria e de inteligência, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do Senhor."

Também era preciso se cumprisse o aviso que João recebera sobre como reconhecer o Messias, para poder anunciá-lo ao povo: "Eu não o conhecia, mas o que me enviou a batizar com água, disse-me: 'Aquele sobre quem vires descer o Espírito e ficar sobre ele, é o que batiza com o Espírito Santo.'"

João mergulhou Jesus nas águas e nada ocorreu. Mas depois, quando Jesus já saíra das águas e se pôs em oração, a João: "Eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo sobre ele. E eis que uma voz dos céus dizia: 'Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo.'" Diante do fato, João ficou sabendo que Jesus era o enviado de Deus ao mundo, para esclarecer a humanidade e libertá-la do erro, e começou a testemunhar:

"Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Este é aquele do qual eu disse: Após mim vem um varão que foi antes de mim, porque já era primeiro do que eu."

"Eu vi o Espírito descer do céu como uma pomba e repousar sobre ele"

"E eu vi, e tenho testificado que este é o Filho de Deus."

"E eu não o conhecia; mas, para que ele fosse manifestado a Israel, vim eu, por isso, batizando com água."

Então, cumprido o reconhecimento do Messias, a rigor o batismo de água não era mais necessário.

Jesus não batizava com água

E, de fato, Jesus não adotou essa prática, como fica claro nesta passagem: "Quando, pois o Senhor veio a saber que os fariseus tinham ouvido dizer que ele [Jesus] fazia e batizava mais discípulos do que João [se bem que Jesus mesmo não batizava e, sim, os seus discípulos], deixou a Judéia, retirando-se outra vez para a Galiléia." (Jo 4:1-3)

Alguns discípulos de Jesus batizavam com água porque, antes de seguirem a Jesus, tinham sido discípulos de João, com quem aprenderam a prática e, por certo, a julgavam importante. Mais tarde, com o aprendizado junto a Jesus, iriam se desapegando de tal costume.

Mas Jesus trazia dois outros batismos, como anunciou João: "aquele que vem após mim é mais poderoso que eu; ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo" (Mt 3:11); não iria exemplificar o simbólico, exterior e não mais necessário batismo de água.

O batismo de fogo

Desde que se inteire da verdade espiritual, uma pessoa pode se reconhecer em falta, arrepender-se dos seus erros e desejar proceder melhor.

Então, com ou sem água que a lave exteriormente, com ou sem fórmulas religiosas começará a luta para se renovar, corrigir sua conduta, reparar os males praticados. Terá de dar testemunho de seus novos propósitos em todos os momentos, vencendo seus instintos e hábitos inferiores, procurando praticar o bem.

Nesse esforço e nessa luta maior, dentro de si mesma e em meio a tudo e a todos, tem o seu batismo de fogo, que purifica mais profundamente.

A essa luta é que Jesus se referia ao afirmar: "Eu vim para atear fogo à Terra. E que mais quero se ele já está aceso?" (Lc 12:49)

O batismo do Espírito Santo

Quem se esforça por melhorar moralmente e se dedica ao bem merece o batismo do Espírito Santo (sintonia com os benfeitores do plano invisível), através de manifestações mediúnicas ostensivas ou sutis (telepatia, intuições etc.).

Assim aconteceu com os discípulos de Jesus,; Primeiro o Mestre os fez passar pelo batismo de fogo: provas e experiências em que lutavam por se melhorarem e servirem ao próximo.

Aos poucos, se desenvolviam e até já conseguiam realizar alguns trabalhos, afastar Espíritos perturbadores e curar enfermos. Mas ainda havia muito a aperfeiçoar; ex.: o Espírito que não conseguiam afastar (Mt 17:14-21), ensinos de Jesus que não entendiam (Mt 13:36, 16:5-12, Jo 14:7-11), a negação de Pedro (Mt 26).

Quando já haviam vencido muitas lutas, receberam um magnífico batismo do Espírito Santo, no Dia de Pentecostes, quando os Espíritos do Senhor se manifestaram através deles, em diversos idiomas, aos habitantes e visitantes de Jerusalém (Atos 2).

Finalmente, os discípulos foram compreendendo que o batismo verdadeiro não era o de água. Pedro entendeu isto, no caso do centurião Cornélio, em Cesaréia, que, apesar de gentio, recebeu (ele, familiares e agregados) a manifestação espiritual (Atos 10 e 11:16-17).

Como Jesus mandou batizar

Ressurgido, Jesus disse aos apóstolos: "Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado." (Mc 16:16)

De fato quem não crê é porque não entendeu, não se conscientizou e, portanto, não se arrepende, permanecendo no erro, na inércia, no egoísmo, que acarretam efeitos dolo¬rosos.

Quem crê, ao contrário, deve ser batizado; não com água e sim com os batismos que Jesus ensinou, de fogo e Espírito Santo, isto é, ser convidado ao testemunho até alcançar sintonia superior.

Por isso mesmo, Paulo (o apóstolo dos gentios) afirmava que com água batizara apenas uns poucos e dava graças a Deus por isso, "Porque Cristo me enviou não para batizar [com água, não!] mas para evangelizar".

Por que, ainda, o batismo de água?

Jesus, que nos ensinou a adorar a Deus "em espírito e em verdade", jamais instituiu fórmulas materiais nem designou lugares especiais para o culto ao Criador.

Mas, pela pouca evolução, muitas pessoas acham falta de um meio material para expressar, tornar concretos os fatos espirituais. Foi assim que, em vez de conservarem a pureza e simplicidade do Cristianismo, em vez de abolirem as antigas práticas externas de culto, acabaram por infiltrar no Cristianismo rituais, fórmulas, vestes especiais etc. E o batismo de água, em vez de se extinguir, assumiu uma importância maior (que não tinha), perdendo-se o seu significado espiritual, que era: a necessidade de arrependimento e desejo de renovação.

O batismo nas Igrejas cristãs

Atualmente, o significado mais geral do batismo é o de "iniciação" ou "admissão solene a uma religião".

Nas igrejas protestantes, evangélicas, geralmente é feito em adultos, porque exige compreensão e decisão pessoal.

No catolicismo, o batismo ainda é o primeiro dos seus sete sacramentos e se faz por aspersão apenas; significa que a criança (ou o adulto que se converteu) passa a fazer parte desse grupo religioso.

Observação:

Antigamente, na Igreja Católica, o batismo visava a "apagar o pecado original" que atingia toda a humanidade, por causa de Adão e Eva. Porém, no ensino católico, cada pessoa que nasce não é uma alma nova, recém-criada por Deus? Como o "pecado" teria passado de pai para filho? E que justiça haveria em Deus fazer uma alma pagar pelo erro de alguém que ela nem conheceu? Ou responder por um erro que não ajudou a cometer? O "pecado original" poderia ser um símbolo das consequências de erros que cada pessoa traz ao nascer (porque já viveu antes) e precisam ser resgatados, corrigidos, "lavados". Mas isso não se consegue porque alguém a mergulhe na água ou a derrame sobre sua cabeça. Somente seus esforços para o bem e os atos bons que praticar, na nova existência, conseguirão libertá-la dos efeitos dos erros passados e ensejar-lhe situações mais felizes para o futuro.

Os espíritas e o batismo

O espírita consciente não se batiza nem faz batizar os seus filhos, nem adota essa prática no grupo espírita que frequenta ou dirige. Porque sabe que é uma prática exterior e simbólica apenas.

Em vez disso, procurará vivenciar as três fases do processo de evolução humana:

1) Conscientização espiritual, pelo conhecimento das leis divinas.

Estudar, observar, experimentar, para saber quais são as leis de Deus no Universo e se seus atos estão de acordo com elas. Se não estiverem, será o caso de sentir arrependimento.

2) Esforço por um modo melhor, mais elevado de pensar, sentir e agir.

Procurar vencer hábitos e tendências inferiores, transformando-se moralmente e agindo para o bem, o mais possível.

3) Alcançar sintonia com os bons Espíritos.

Resultante do novo grau de evolução que atingir, e demonstrada através de manifestações mediúnicas ostensivas ou de sutil auxílio espiritual.

Quanto ao batismo para outras pessoas (até mesmo os próprios filhos), procurará o espírita estimular a que também vivenciem as três fases. Advertir quanto ao erro, convidar ao esforço para o bem, a fim de que, se o quiserem, alcancem igualmente os benefícios do batismo do espírito.

Mas isso não será feito com nenhuma fórmula religiosa e, sim, pela troca de ideias e exemplificação da vivência evangelizada.

E a influência do meio?

Não obstante o seu entendimento pessoal esclarecido quanto ao que representa o batismo de água, o espírita ainda se defronta com um meio social em que as idéias são bem diferentes, antiquadas.

É preciso encontrar, com bom senso, tolerância e fraternidade, um modo de conviver em que, sem abdicar do nosso conhecimento espiritual e do direito à nossa expressão de religiosidade, não causemos atritos desnecessários com os nossos semelhantes.

Observação:

Este tema consta, também, do Iniciação ao Espiritismo, desta coleção.

Therezinha Oliveira