CAPÍTULO 13 - A MULTIDÃO
E JESUS

CAPITULO 13 - A MULTIDÃO E JESUS

Rodeado pelo povo

Ao saber que João Batista fora preso, Jesus deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum (as duas são cidades da Galiléia), à beira do lago de Genesaré, talvez residindo em casa de Pedro.

Reuniu seus discípulos e começou a percorrer a Galiléia, pregando, afastando Espíritos obsessores, fazendo curas. Sua fama se espalhou e de toda parte vinha gente procurá-lo (não só da Galileia, como de Decápolis, de Jerusalém, da Judéia e de Além-Jordão) e muitos o seguiam.

A partir de então, Jesus sempre estará cercado por multidões.que o procuram com insistência, como vemos nestas passagens:

- quando voltou a Cafarnaum e ficaram sabendo que ele estava na cidade, juntou tanta gente na casa que não cabiam nem junto à porta (Mc 2:1-2); dirigindo-se noutra vez à casa, aí afluiu de novo tanta gente que Jesus e os discípulos nem podiam tomar alimento (Mc 3:20);

- à beira do lago, pediu aos discípulos para terem sempre pronto um barquinho, para que a multidão não o comprimisse, porque todos que padeciam de algum mal se arrojavam a ele, para o tocar (Mc 3:9-10);

- "E, levantando-se de manhã muito cedo, fazendo ainda escuro, saiu e foi para um lugar deserto e ali orava. E seguiram-no Simão e os que com ele estavam. E, achando-o, lhe disseram: Todos te procuram.'1 (Mc 1:35-37);

- "(...) seus discípulos se aproximaram dele e lhe disseram: O lugar é deserto, e o dia já está muito adiantado, despede-os". (Mc 6:35-36)

A qualquer hora, pois, e em qualquer lugar, a multidão rodeava Jesus, não lhe deixando, às vezes, tempo nem condições para meditação, repouso ou alimentação.

Como se sentia Jesus?

Narra Mateus (9:36) que Jesus "Vendo a multidão, teve grande compaixão deles, porque andavam desgarrados e errantes como ovelhas que não têm pastor."

Narra, também, que certa ocasião Jesus exclamou: "O' geração incrédula e perversa! Até quando estarei convosco? Até quando vos sofrerei ainda?" (Mt 17:17)

Jesus, pois, tinha compaixão do povo (pela desorientação espiritual em que se encontrava) e sofria pela incredulidade e maldade com que agiam.

E o que fazia?

Era para ajudá-los a sair da incredulidade e ignorância espiritual que Jesus dizia certas coisas e produzia fenómenos, como vemos nas seguintes passagens:

- em oração a Deus: "Eu bem sei que sempre me ouves, mas eu disse isto por causa da multidão que está em redor, para que creiam que tu me enviaste" (Jo 11:42);

- quando uma voz do céu lhe responde, esclarece ao povo: "Não veio esta voz por amor de mim, mas por amor de vós" (Jo 12:30);

- "vendo que a multidão afluía, repreendeu o Espírito imundo", o qual se afastou (Mc 9:25-26);

- "para que saibais que o filho do Homem tem sobre a terra autoridade", curou o paralítico (Mc 2:10).

Como o povo se sentia ante Jesus e o que fazia?

A multidão ficava "impressionada de sua doutrina" (Mt 7:28) e "se alegrava por todas as coisas gloriosas que eram feitas por ele" (Lc 13:17).

Recebiam-no com alegria (Lc 8:40) e demonstrações de apreço. Era convidado para banquetes, onde aproveitava para ministrar ensinos (Lc 5:27-32, 14:1-24). Várias vezes foi ungido com perfumes e bálsamos por mulheres do povo (Mt 26:6-13, Lc 7:36-50).

Alguns cooperavam com ele, até financeiramente, como Joana, mulher de Cusa, procurador de Heródes, e Suzana, e muitas outras que o serviam com seus haveres (Lc 8:1-3).

Mas se o procuravam reter, ele esclarecia: "Também é necessário que eu anuncie a outras cidades o evangelho do reino de Deus, porque para isso fui enviado" (Lc 4:42-45).

Nem todos o aceitavam

Foi rejeitado em Nazaré, terra de sua infância e mocidade (Mt 13:54-58) e na Samaria, onde, por preconceito tribal, alguns samaritanos não o quiseram hospedar (Lc 9:52-53).

Em Gadara (ou Gerasa), libertou um homem da "legião" de Espíritos que o obsidiava terrivelmente e os gadarenos "começaram a rogar-lhe que saísse da terra deles", porque sentiam "grande medo". De quê? Da ação espiritual de Jesus? De perderem mais rebanhos de suínos? (Mc 5:17).

As opiniões sobre ele se dividiam:

"Não é este o filho de Davi?", perguntavam alguns, quando Jesus curou obsidiado que passou a ver e falar. Mas os fariseus contestaram: "Ele não expulsa os demônios senão por Belzebu, príncipe dos demônios." (Mt 12:23-24)

"Ele é bom", diziam alguns. Outros redarguiam: "Não, antes engana o povo." (Jo 7:12-13)

E havia muitas suposições sobre quem Jesus de fato seria. Achavam uns que era João Batista de volta, ou Elias, ou, ainda, um dos antigos profetas ressurgido. Dúvida que ficou dirimida com a afirmação mediúnica de Pedro: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo ."(Lc 9:18-20)

Os adversários (sacerdotes, escribas, anciãos do povo etc.) continuavam a achar que ele era (Jo 5:18, Mt 11:19):

- violador da lei de Moisés (trabalhava no sábado);

- blasfemo (dizia ser Deus seu Pai; o que, na opinião deles, era querer se fazer igual a Deus);

- glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores.

E queriam apanhá-lo em falta. Por isso, ao curar pessoas, Jesus ordenava "que não o descobrissem". Mas nem sempre as pessoas mantinham discrição e os fatos divulgados mais expunham Jesus aos seus adversários.

A inconstância da multidão

Narra João que havia uns judeus que pareciam aceitar Jesus, mas Jesus "não confiava neles, porque a todos conhecia. E não necessitava de que alguém testificasse do homem, porque ele bem sabia o que havia no homem." (2:23-25)

E que, ante a multiplicação dos pães e peixes, a multidão quis proclamar rei a Jesus, mas o Mestre se retirou deles. Quando o alcançaram depois, na outra margem do lago, Jesus disse: "(...) me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes. Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que permanece para a vida eterna" (6:22-27).

Provam essas passagens que Jesus nunca se iludiu com a multidão e, de fato, ela demonstraria sua inconstância no posicionamento em relação ao Mestre:

- na última Páscoa, ao entrar em Jerusalém, uma multidão o aplaudia (Mt 21:8-11);

- mas também a uma multidão Jesus perguntaria no Horto: "Saístes, como para um salteador, com espadas e varapaus, para me prender? Todos os dias me assentava junto de vós, ensinando no Templo, e não me prendestes" (Mt 26:55);

- e uma multidão se deixou persuadir pelos sacerdotes a libertar Barrabás e pedir a crucificação de Jesus, de modo que quando Pilatos se declarou inocente da morte de Jesus, o povo todo respondeu: "O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos" (Mt 27:25).

Mas a dedicação de Jesus pela humanidade não se arrefeceu.

Caminhando para o Gólgota, sob o peso da cruz, seguido por grande multidão de povo e de mulheres, as quais batiam nu peito e o lamentavam, Jesus ainda alertou e aconselhou espiritualmente:

"Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai antes por vós mesmas e por vossos filhos. Porque se ao madeiro Verde fazem isto, que se fará ao seco?" (Lc 23:26-32)

E quando ressurgiu, foi para servir ainda à humanidade, recomendando aos seus apóstolos: "Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda a criatura." (Mc 16:15)

A multidão e nós

A multidão, ainda hoje, continua procurando o Cristo:

- ávida de fenômenos, curiosa de seus ensinos;

- querendo usá-lo para solução imediatista dos seus problemas;

- aplaudindo se as coisas vão bem, apupando se vão mal. Mas Jesus avisou: "Quem não tomar a sua cruz e não me seguir não pode ser meu discípulo."

Porque o discípulo tem de dar continuidade ao ideal do Cristo na Terra. Jesus diz ao Pai, em oração: "Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo." Por isso Paulo diz que somos "cartas vivas" do Cristo.

Se, esclarecidos pelo Espiritismo, quisermos ser um verdadeiro seguidor de Jesus, tenhamos compaixão da multidão e ajudemo-la, mesmo que a ignorância e a incredulidade das pessoas acaso nos façam sofrer.

Porque somente através do amor ao próximo podemos alcançar nosso progresso e redenção espiritual.

Therezinha Oliveira