CAPÍTULO 14 - JESUS E
O TEMPLO

CAPITULO 14 - JESUS E O TEMPLO

Não dependia dele, mas o frequentava

Adorando a Deus, "em espírito e em verdade", Jesus amava a Deus e ao próximo, cumprindo, em tudo e sempre, a vontade de Deus, onde, quando, como e com quem estivesse.

Para essa adoração, não dependia do majestoso edifício do Templo nem de seus cerimoniais, rituais, prescrições ou autoridade de seus sacerdotes.

Não quer dizer que não respeitasse a atividade do Templo, que a considerasse inútil, nem que a combatesse.

Durante sua vida terrena, Jesus muitas vezes esteve no Templo de Jerusalém. Na infância, levado por seus pais; na idade adulta, comparecendo pessoal e voluntariamente. Natural o fizesse, pois tinha de dar orientação espiritual ao povo e, para os israelitas, o Templo era o necessário e importante ponto de encontro para o trato das coisas espirituais.

Neste estudo, apenas focalizaremos algumas das passagens principais da vida de Jesus em que o Templo de Jerusalém é local de acontecimentos ou a ele se faz referência.

A apresentação de Jesus no Templo (Lucas 2)

Seus pais o levaram (vs. 22-24): sendo Jesus um filho primogênito, mandava a lei dos israelitas que fosse apresentado ao Senhor, no Templo, e sua mãe levasse uma oferenda. Os pais de Jesus cumpriram essa lei, levando-o (com apenas um mês de nascido); como eram pobres, ofereceram somente dois pombinhos.

Simeão o identifica (vs. 25-35): homem justo e piedoso, Simeão morava em Jerusalém e "o Espírito Santo estava nele" (era médium dos bons Espíritos). Fora avisado (mediunicamente) que não morreria antes de ver o Cristo. No dia em que os pais de Jesus o levaram ao Templo, inspirado espiritualmente Simeão também foi lá e, ao ver Jesus, o tomou nos braços e louvou a Deus, dizendo:

"Agora, Senhor, despede em paz o teu servo, segundo a tua palavra, porque os meus olhos já viram a tua salvação (...)"

Ante a admiração de Maria e José por esse louvor e profecia sobre Jesus, Simeão esclareceu:

"Eis que este menino está destinado tanto para ruína como para levantamento de muitos em Israel, e para ser alvo de contradição, para que se manifestem os pensamentos de muitos corações.

Anunciou, também, que Maria teria sua alma transpassada por uma espada (= sofreria uma grande dor).

Ana, a profetisa (vs. 26-38): também médium, era uma mulher de idade avançada (84 anos). Apenas sete anos estivera casada, enviuvando bem moça. Desde então, não se apartava do Templo, servindo a Deus noite e dia, em jejuns e oração. Chegou ao Templo na mesma hora da apresentação de Jesus e "louvava a Deus e falava de Jesus a todos aqueles que esperavam a redenção de Jerusalém."

Aos doze anos, dialogando com os doutores da lei

Como vimos no capítulo 9, "Jesus, o Cristo de Deus - II", quando tinha doze anos, Jesus acompanhou os pais a Jerusalém, para as festividades religiosas da Páscoa e lá dialogou com os doutores da lei, a todos admirando com a sabedoria de suas respostas, argumentando depois com Maria que devia tratar dos "assuntos do seu Pai".

No pináculo do Templo, para ser tentado (Mt 4:1-11, Mc 1:12-13 e Lc 4:1-13)

A tentação de Jesus provavelmente não foi um fato real. Parece mais um simbolismo de como a criatura é experimentada, antes de poder realizar sua missão espiritual.

A tentação teria começado no "deserto" (= isolamento, soledade); de fato é sozinho e no íntimo que cada um experimenta os apelos da inferioridade, a que deve resistir, como Jesus fez.

Abrangeu três pontos fundamentais, em que toda criatura precisa ser experimentada, testada:

l) Quando Jesus, no deserto, teve fome, o tentador se aproximou:

"Se és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se tornem pães."

E a tentação do materialismo, o apelo para colocarmos o Espírito a serviço da matéria, quando a matéria é que serve ao espírito; é a sugestão inferior para cuidar mais do corpo e da satisfação dos sentidos que da vida espiritual, até desviando para isso faculdades espirituais.

"Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que vem da boca de Deus", respondeu Jesus, citando Deuteronômio 8:3.

De fato, o Espírito se alimenta de muitos recursos invisíveis com que Deus lhe sustenta a vida (ex.: verdade, amor, fluidos).

2) O demônio, então, o transportou à cidade santa (Jerusalém) e o colocou sobre o ponto mais alto do Templo (pináculo), dizendo-lhe:

"Se és o Filho de Deus, lança-te abaixo, pois está escrito: Ele deu a seus anjos ordens a teu respeito; proteger-te-ão com as mãos, com cuidado, para não machucares o teu pé nalguma pedra" (Salmo 90:11-12)

E a tentação do orgulho, o apelo a julgar-se muito importante, merecendo tratamento especial, privilegiado. Jesus respondeu, citando o Deuteronômio 6:16:

"Não tentarás o Senhor teu Deus."

Significa que devemos respeitar as leis divinas, que visam ao bem geral, sem a pretensão de recebermos condições especiais em nosso favor, nem mesmo por servirmos na área religiosa, espiritual.

3) Então, o "demônio o transportou uma vez mais a um monte muito alto, e lhe mostrou todos os reinos do mundo e a sua glória, dizendo-lhe:

— Dar-te-ei tudo isto se, prostrando-te diante de mim, me adorares."

É a tentação da ambição, o apelo ao desejo de poder e de posse (mando pessoal e domínio sobre seres e coisas).

"— Para trás, Satanás, pois está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a Ele servirás."

Não fomos criados para servirmos a nós mesmos ou a alguém mas, sim, para cumprirmos os desígnios divinos, sábios e bons. E servindo fielmente à vida universal, segundo as leis de Deus, que alcançamos nossa realização pessoal: o aperfeiçoamento e a felicidade.

"Depois de tê-lo assim tentado de todos os modos [essas três tentações sintetizam todos os apelos da inferioridade], o demônio apartou-se dele até outra ocasião" (Lc 4:13) (sempre haverá novas experimentações no caminho da vida mas quem já aprendeu a superá-las não mais cederá); e "os anjos aproximaram-se dele para servi-lo" (Mt 4:11). Os bons Espíritos vêm dar assistência no cumprimento dos deveres e tarefas.

Jesus no Templo

Como não era sacerdote, Jesus, quando ia ao Templo, não podia entrar no Santo dos Santos, nem sequer no pátio mais interno. Mas no pátio dos israelitas ele podia entrar, pois também era um deles.

Ceralmente, porém, Jesus ficava no pátio dos gentios (o mais externo deles e onde qualquer pessoa podia entrar). Ali é que fazia sua pregação, conversando tanto com o povo (gentios ou não) como com os sacerdotes, escribas, fariseus, saduceus, doutores da lei. Formulava perguntas ou a elas respondia, discursava ou contava parábolas.

Uma das passagens em que a presença de Jesus no Templo mais repercutiu e ensejou, em seguida, muitos ensinamentos, foi a da expulsão dos vendilhões.

A expulsão dos vendilhões

(Ml 21:12-13, Mc 11:15-18, Lc 19:45-46 e Jo 2:14-17)

No pátio dos gentios havia comércio (de animais e objetos de culto), câmbio de moedas (para visitantes e forasteiros) e coleta de esmolas ou donativos. Tudo isso causava muito movimento, ruído, vozerio, agitação, num jogo de interesses, disputas e ambição que:

- desviava a finalidade do Templo;

- perturbava o seu ambiente espiritual.

Certo dia, quando entrou no Templo, Jesus fez azorrague dos cordéis e começou a expulsar a todos que compravam e vendiam, bem como as ovelhas e bois; derramou pelo chão o dinheiro dos cambistas, virou as mesas deles e as cadeiras dos que vendiam pombos; e não deixava que ninguém conduzisse nenhum utensílio pelo Templo (talvez de recolher donativos).

Com isso, Jesus:

- não condenava nem impedia o serviço espiritual do Templo;

- nem afastava os sacerdotes ou os fiéis dos cultos. O que procurava era:

- corrigir o desvio da finalidade superior do Templo;

- defender a pureza da atividade espiritual dentro dele. Estaria transtornado pela cólera, quando agiu assim/ Verificamos que não, porque não feriu nenhum ser vivente (nem mesmo os pombos, cujas gaiolas mandou retirar para que eles não se ferissem); apenas afugentou animais e pessoas, derrubou dinheiro e virou mesas e cadeiras.

Por que agiu desta forma espetacular? A fim de atrair a atenção de todos para o que queria ensinar:

"Não está escrito: A minha casa será chamada casa de oração? Vós, porém, a tendes feito covil de salteadores."

Graças à preparação psicológica que Jesus fizera nos assistentes, pelo impacto emocional que causou, o ensino ficou gravado no espírito de todos, de modo indelével:

- os discípulos lembraram do salmo "O zelo de tua casa me consumiu" (Salmos 69:9);

- o povo todo comentou o fato, passando o ensino adiante;

- nenhum dos quatro evangelistas deixou de registrar o acontecimento.

Os ensinos subsequentes à expulsão dos vendilhões (Lc 20:1-8)

O acontecimento provocou muitas perguntas e comentários que Jesus aproveitou, para ministrar outros ensinamentos. Vamos citar apenas dois deles, que têm relação mais direta com o Templo.

"— Com que autoridade fazes estas coisas? Quem te deu essa autoridade?"

Indagação dos principais dos sacerdotes e anciãos do povo a Jesus, no Templo, no dia seguinte ao da expulsão dos vendilhões.

"— Eu também vos farei uma pergunta; se me responderdes, também eu vos direi com que autoridade faço estas coisas. Donde era o batismo de ]oão: do céu ou dos homens? Confabularam entre si:

— Se dissermos: Do céu, ele nos dirá: Então, por que não acreditastes nele? E se dissermos: Dos homens, é de temer o povo, porque todos consideram João como profeta.
Como não lhes convinha responder nem de um jeito nem de outro, disseram:

— Não sabemos.

— Nem eu vos digo com que autoridade faço estas coisas." Ensino: ao enfrentar adversários, não se indignar nem acusar, usar a inteligência.

Em três dias o reerguerei (Jo 2:18-22)

Perguntaram-lhe os judeus:

"— Que sinal nos apresentas tu, para proceder deste modo?

— Destruí este templo, e eu o reerguerei em três dias.

— Em 46 anos foi edificado este templo, e tu hás de levantá-lo em três dias?

Mas ele falava do templo do seu corpo. Depois que ressurgiu dos mortos, os seus discípulos lembraram-se destas palavras, e creram na Escritura e na palavra de Jesus."

Jesus, por sua grande evolução, em apenas três dias estava em plenas condições de equilíbrio e ação no mundo espiritual, após a desencarnação, assim reaparecendo aos seus discípulos, fazendo, tanto do seu corpo fluídico como o fizera com o físico, um templo divino.

Feio ou bonito, saudável ou enfermo, íntegro ou deficiente, nosso corpo foi planejado para ser também um templo divino, onde devemos fazer o culto do eterno bem. Como e para quê o estamos usando?

O anúncio da destruição do Templo (Mt 24:1-2, Mc 13:1-2 e Lc 21:5-6)

À saída do templo, os discípulos disseram a Jesus: "— Olha que pedras e que monumentos! — Não ficará pedra sobre pedra que não seja derrubada", responde Jesus.

E, em seguida, o Mestre profere o sermão profético.

Assim Jesus ensinava mais uma vez aos discípulos que o espírito é que é de importância fundamental, sendo a matéria uma construção temporária.

Referências de Jesus ao Templo em seus ensinos e feitos

Vai mostrar-te ao sacerdote.

Ao leproso que curou, na descida do monte, após o sermão das bem-aventuranças, Jesus recomendou:

Nada digas a ninguém mas vai, mostra-te ao sacerdote [por certo no Templo] e apresenta a oferta que Moisés determinou, para lhes servir de testemunho."

Dois homens no Templo (Lc 18:10) Contando a parábola do fariseu e do publicano, que subiram ao templo para orar, Jesus ensina a necessidade de contrição, humildade e desejo do bem para a prece alcançar atendimento.

Maior que o Templo é a criatura (Mt 12:6) Passando os discípulos de Jesus por uma seara, tiveram fome, colheram espigas e as comeram. Mas era sábado, dia çm que o trabalho era proibido, e colher espigas considerado trabalho.

Fariseus diziam: "Não é lícito." E recriminavam a Jesus, porque como mestre era o responsável pela orientação da conduta de seus discípulos.

Jesus relembra, então, quando Davi e seus homens, perseguidos e famintos, entraram no Templo e comeram os pães reservados para culto e oferenda a Deus e ninguém os condenava por isso.

Lembrou também Jesus que os sacerdotes no templo violavam o sábado (trabalhavam nas funções religiosas) e não havia culpa nisso.

A essa altura da comparação, já dava para entender que os discípulos de Jesus estavam plenamente justificados de haverem colhido espigas mesmo num dia de sábado, porque o haviam feito:

- para saciar a fome e sobreviver (como Davi);

- e enquanto estavam em função espiritual, socorrendo e orientando o povo (como os sacerdotes no Templo).

Então, concluiu Jesus:

"Pois aqui está quem é maior do que o templo." A criatura é mais importante que o templo, pois o templo existe para ela e não ela para o templo.

Muitas outras passagens esclarecedoras e edificantes existem nos Evangelhos sobre Jesus no Templo. Algumas ainda serão abordadas em capítulos futuros.

Do que já aprendemos, fica claro que, como Jesus, devemos zelar e cuidar do nosso templo, a casa espírita, fazendo dela um lugar onde se ensina a verdade espiritual e se vive o amor a Deus e ao próximo.

Se possível, procuremos atrair para o templo espírita as demais criaturas, a fim de que nele se beneficiem também, como o fomos nós no passado e o estamos sendo no presente.

Therezinha Oliveira