CAPÍTULO 16 - JESUS
E AS SINAGOGAS

CAPÍTULO 16 - JESUS E AS SINAGOGAS

Depois de reconhecido e anunciado por João Batista como o Messias, Jesus já fizera alguns discípulos e realizara a transformação da água em vinho nas bodas de Caná. Entretanto, ainda não pregava abertamente.

Quando ouviu dizer que o Batista fora preso, Jesus saiu da Judéia e foi para a Galiléia; ali deixou a cidade de Nazaré e passou a morar em Cafarnaum. Então, mais abertamente começou sua tarefa, produzindo fenômenos e pregando com as mesmas palavras que João costumava usar: "O tempo é chegado, arrependei-vos pois o reino dos céus está próximo." (Mt 4:12-22, Mi 1:14-15 eLc 4:14-15)

Jesus sempre falava do reino dos céus, ensinando as verdades espirituais, aonde quer que fosse. Mas procurava especialmente visitar os locais onde os israelitas habitualmente se reuniam para o trato das coisas espirituais. Em Jerusalém, era no Templo. Nas demais cidades, era nas sinagogas, onde não havia cultos e oferendas mas, nos sábados, se estudavam a lei e os profetas e se faziam orações.

Narra Mateus (4:23-25) que "Jesus percorria toda a Galiléia, ensinando nas suas sinagogas, pregando o evangelho do reino, curando todas as doenças e enfermidades entre o povo. Sua fama espalhou-se por toda a Síria: traziam-lhe os doentes e os enfermos, os possessos, os lunáticos, os paralíticos. E ele curava a todos. Grandes multidões acompanharam-no da Galiléia, e da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e dos países do outro lado do Jordão."

Lucas acrescenta um importante detalhe esclarecedor: "Jesus , então, cheio de força do Espírito, voltou para a Galiléia. E a sua fama divulgou-se por toda a região. Ele ensinava nas sinagogas e era aclamado por todos." (Lc 4:14-15)

Na sinagoga de Nazaré

(Mt 13:54-58, Mc 6:1-6, Lc 4:16-30)

Quando Jesus se dirigiu para Nazaré (onde fora criado), a fama de seus feitos já havia chegado lá.

Ele entrou na sinagoga, num dia de sábado, "segundo o seu costume" (todo bom israelita fazia assim), e levantou-se para ler a escritura (qualquer homem israelita podia fazer isso, desde que convidado pelo dirigente da sinagoga).

Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Jesus desenrolou o livro (rolo de papiro ou pergaminho) e escolheu a passagem onde estava escrito:

"O Espírito do Senhor está sobre mim, pois que me ungiu; e enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, para sarar os contritos de coração, anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os algemados, para apregoar o ano da graça do Senhor."

Era costume que, depois de ler, a pessoa comentasse a passagem. Mas Jesus leu, fechou o livro, deu-o ao ministro e se sentou. Todos na sinagoga ficaram de olhos fixos nele, em expectativa, até que Jesus falou:

"Hoje se cumpriu esta Escritura que acabais de ouvir."

Estava se anunciando como o Messias prometido! Deve ter dito ainda outras coisas mais, porque os judeus, perplexos, se indagavam:

"Donde lhe vem isso! Que sabedoria é essa que lhe foi dada? Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria, o irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? Não vivem aqui entre nós também suas irmãs?"

Quanto aos fenômenos que ouviam dizer que Jesus realiza¬ra, comentavam incrédulos:

"Como se operam por suas mãos tão grandes milagres?"

Desconfiavam tanto que Jesus se admirou da incredulidade deles e não pôde ali fazer nenhum "milagre", apenas aplicou passes curadores em uns poucos enfermos.

Jesus explicou para eles o porquê do insucesso:

"Sem dúvida me citareis este provérbio: Médico, cura a ti mesmo, todas as maravilhas que fizeste em Cafarnaum, segundo ouvimos dizer, faze-o também aqui na tua pátria.

De fato vos afirmo, nenhum profeta é bem aceito na sua pátria. Em verdade vos digo, muitas viúvas havia em Israel, no tempo de Elias, quando se fechou o céu por três anos e seis meses e houve grande fome por toda a terra; mas a nenhuma delas foi mandado Elias, senão a uma viúva em Sarepta, de Sidônia. Igualmente havia muitos leprosos em Israel no tempo do profeta Eliseu, mas nenhum deles foi limpo senão o sírio Naamã."

Quer dizer que faltavam a eles condições para receberem p« benefícios por não acreditarem. "A estas palavras, encheram-se todos de cólera na sinagoga. Levantaram-se e lançaram-o fora da cidade; e conduziram-no até ao alto do monte sobre o qual estava construída a sua cidade, e queriam precipitá-lo dali abaixo. Ele, porém, passou entre eles e retirou-se."

Contudo, Jesus não desanimou e "percorria as aldeias vizinhas, a ensinar".

Na sinagoga de Cafarnaum

Jesus morava em Cafarnaum e, portanto, há muitas de suas passagens evangélicas pregando nas sinagogas dessa cidade, nos dias de sábado.

Uma dessas sinagogas foi construída com a ajuda de um centurião romano, ao qual Jesus atenderia curando um servo seu (Lc 7:1-10). Jesus curou, também, a filha de Jairo, chefe de uma das sinagogas de Cafarnaum (Lc 8:40-42).

Vejamos algumas das passagens:

Expulsão de um Espírito obsessor (Mc 1:21-28) Jesus está pregando e um obsidiado começa a gritar: "Quem tens tu conosco, Jesus de Nazaré? Vieste perder-nos?

Sei quem és: o Santo de Deus!"

Jesus o faz calar (perturbava a pregação e fazia revelação prematura) e que se afaste do obsidiado. Todos se admiram:

- da sua pregação (com autoridade e não como os escribas que sempre citavam a lei);

- e de que mande e os Espíritos "imundos" obedeçam.

Cura de um homem de mão seca (Lc 6:6-11 e Mc 3:1-6) Escribas e fariseus espionam. Se Jesus curar (é sábado), o acusarão. Sabendo disso e, indignado, Jesus chama o aleijado para o meio de todos e argumenta: "Se uma ovelha cair no poço num sábado não irão socorrê-la? E um homem não vale muito mais que uma ovelha? Então é permitido fazer o bem no dia de sábado." E restabelece-lhe a mão.

Os adversários enchem-se de furor e tramam contra ele.

Cura de uma mulher encurvada (Lc 13:10-17) Havia ali uma mulher que, há dezoito anos, era possessa de um Espírito que a detinha doente: andava encurvada e não podia absolutamente erguer-se.

Jesus a cura, impondo-lhe as mãos. A mulher se endireita e louva a Deus.

O chefe da sinagoga se indigna, diz que a semana tem outros seis dias para curar. Jesus replica que no sábado desamarram animais e os levam para beber; se não deveria ser libertada a mulher daquela prisão também, apesar de sábado.

Os adversários de Jesus se confundiram, ao passo que o povo se alegrava.

"Eu sou o Pão da Vida" (Jo 6:22-65)

No dia seguinte ao da multiplicação dos pães, ao ver que Jesus e os seus discípulos já não estavam ali, a multidão atravessou o lago para procurar o Mestre e o encontrou em Cafarnaum, na sinagoga (vs. 59).

(Começou, então, uma longa conversa de Jesus com os circunstantes, cheia de grandes revelações. Começou com Jesus dizendo:

"Vós me buscais não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos fartastes. Trabalhai, não pela comida que perece, nas pela que dura até a vida eterna, que o Filho do Homem vos dará"

Então, pediram orientação a Jesus ("Que faremos para realizar as obras de Deus?") que disse ser preciso crerem nele como o enviado divino.

Os que haviam presenciado a multiplicação dos pães, talvez não duvidassem disso, pois até tinham querido proclamar Jesus rei, antes. Mas muitas pessoas, na sinagoga, só tinham ouvido lalar do fenômeno, não o tinham presenciado. Devem ter sido estas que perguntaram:

"Que sinal fazes para que o vejamos e creiamos em ti? quais são os teus feitos?"

E parece que desejavam a reprodução do fenômeno ali, porque aludiram ao episódio do maná, ocorrido ao tempo de Moisés:

"Nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: Deu-lhes a comer pão do céu." Jesus respondeu:

"Não foi Moisés que vos deu o pão do céu (...)" De fato, Moisés só pedia a Deus, que providenciara o fenômeno. Aliás, tudo vem de Deus, até mesmo o maná, recurso alimentar que os hebreus não conheciam, mas que bem pode ter sido um fenômeno natural (gotejamento de certa espécie de tamargueiras, espontâneo ou provocado por minúsculo inseto, a cochonilha, somente encontrado na região do Sinai).

"— (...) o verdadeiro pão do céu é meu Pai quem vos dá. Porque o pão de Deus é o que desce do céu e dá vida ao mundo.

— Senhor, dá-nos sempre desse pão", pediram.

"— Eu sou o pão da vida; o que vem a mim, jamais terá fome; e o que crê em mim, jamais terá sede. (...) Porque eu desci do céu não para fazer a minha própria vontade; e, sim, a vontade daquele que me enviou.

— Não é este Jesus, o filho de José? Acaso não lhe conhecemos o pai e a mãe? Como, pois, agora diz: Desci do céu?" Assim murmuravam os judeus.

— "Vossos pais comeram o maná no deserto e morreram. (...) Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém dele comer, viverá eternamente; e o pão que eu darei pela vida do mundo, é a minha carne.

— Como pode este dar-nos a comer a sua própria carne?

— Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. (...) Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim e eu nele.

(...) Assim como o Pai, que vive, me enviou, e igualmente eu vivo pelo Pai; também quem de mim se alimenta, por mim viverá"

Tais afirmativas de Jesus foram incompreendidas até mesmo por muitos dos seus discípulos; que murmuravam entre si:

"— Duro é este discurso, quem o pode ouvir?

— Isto vos escandaliza? Que será, pois, se virdes o Filho do homem subir para o lugar onde primeiro estava? [a ascensão que se daria futuramente]. O espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita; as palavras que vos tenho dito, são espírito e são vida"

Equivalia a dizer: "Não falo: comerem minha carne material para terem vida; a matéria não dá vida, o que dá vida é o espírito; e a mensagem que vos trago é que tem vida espiritual."

Tirando o véu da letra, a verdade espiritual surge clara, luminosa: Jesus "desceu do céu" (veio de planos superiores), "para dar a sua carne e o seu sangue" (oferecer sua existência na Terra), "como pão" (ensinamento e exemplo que alimenta a alma), que deve ser "comido" (assimilado) e "dar vida" (ativar-nos espiritualmente).

Mas muitos dos seus discípulos não entenderam e deixaram de acompanhá-lo. Então, perguntou Jesus aos doze apóstolos:

"Porventura quereis também vós outros retirar-vos?" Ao que Pedro responde:

"Senhor, para quem iremos? tu tens as palavras da vida eterna, (e nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus."

Na presença e pregação de Jesus nas sinagogas, testemunhando o próprio Mestre, respondendo ao sumo sacerdote Anás [Jo 18:20-21).

"Eu tenho falado francamente ao mundo; ensinei continuamente, tanto nas sinagogas como no templo, onde todos os judeus se reúnem, e nada disse em oculto".

Therezinha Oliveira