CAPÍTULO 19 - MEMÓRAVEIS
DIÁLOGOS DE JESUS

CAPITULO 19 - MEMORÁVEIS DIÁLOGOS DE JESUS

Todos os diálogos mantidos por Jesus merecem ser conhecidos e estudados. Destaquemos, porém, alguns deles, mais longos e cheios de importantes afirmativas e de preciosos ensinamentos espirituais.

Com Nicodemos sobre reencarnação (JO 3:1-12)

"Ora, entre os fariseus, havia um homem chamado Nicodemos, principal dos judeus, que veio à noite ter com Jesus e lhe disse:

— Mestre, sabemos que vieste da parte de Deus, porque ninguém pois poderia fazer os sinais que tu fazes, se Deus não estivesse com ele.

— Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo.

— Como pode nascer um homem já velho? Pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, para nascer segunda vez?

— Se um homem não nasce da água e do espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne e o que é nascido do Espírito é espírito.

Não te admires de que eu te haja dito ser preciso que nasças de novo. O vento sopra onde quer e ouves a sua voz, mas não sabes de onde ele vem, nem para onde vai; o mesmo se dá com todo aquele que é nascido do Espírito.

— Como pode isso fazer-se?

— Pois quê! és mestre em Israel e ignoras estas coisas? Digo-te em verdade que não dizemos senão o que sabemos, e que não damos testemunho senão do que temos visto. Entretanto, não aceitais o nosso testemunho. Mas, se não credes, quando vos falo das coisas da Terra, como me crereis, quando vos fale das coisas do Céu?"

Ensino: É preciso reencarnar para progredir espiritualmente e alcançar planos superiores de vida.

Nicodemos pensou no mesmo corpo nascendo de novo (o que não é possível).

Jesus corrigiu esse erro, separando entre "nascido da carne" e "nascido do Espírito". Reafirmou que, para "entrar no reino de Deus" é preciso renascer tanto "da água" (símbolo da matéria) como "do Espírito" (renovar-se espiritualmente).

Usa o vento ou o ar (pneuma) como símbolo de elemento espiritual para comparar que também sentimos sua presença e manifestação através do corpo, mas não podemos identifi¬car de onde esse Espírito veio (o passado é providencialmen¬te esquecido) nem apontar-lhe um futuro determinado (de¬penderá do seu livre-arbítrio).

Com a mulher samaritana

Sobre a verdadeira adoração (Jo 4)

Atravessando a Samaria para ir à Galiléia, Jesus chegou a Sicar e, cansado da viagem, assentou-se à beira do poço (ou fonte) de Jacó, enquanto seus discípulos iam à cidade comprar alimentos.

Era meio-dia (hora sexta).

Uma mulher samaritana veio tirar água da fonte (trazia cântaro).

Jesus lhe pediu:

"— Dá-me de beber."

Percebendo que ele era judeu (talvez pelas vestes ou pela pronúncia) e como judeus e samaritanos não costumavam se falar, a mulher estranhou:

"— Como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana?

— Se conheceras o dom de Deus e quem é o que te pede: 'Dá-me de beber', tu lhe pedirias, e ele te daria água viva."

Jesus está aludindo à verdade espiritual de que é portador.

A mulher não entende, mas observa:

"— Senhor, tu não tens com que a tirar [faltava o cântaro] e o poço é fundo; donde, pois, tens a água viva? Es tu, porventura, maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, do qual ele mesmo bebeu e, bem assim, seus filhos e seu gado?

— Quem beber desta água tornará a ter sede; aquele, porém, que beber da água que eu lhe der, nunca mais terá sede, para sempre; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna."

Com isso, Jesus conseguiu despertar o interesse da mulher, embora ela ainda pense em água material.

"— Senhor, dá-me dessa água para que eu não mais tenha sede, nem precise vir aqui buscá-la.

— Vai, chama teu marido e vem cá.

— Não tenho marido.

— Disseste bem, não tenho marido; porque cinco maridos já tiveste, e esse que agora tens não é teu marido; isto disseste com verdade.

— Senhor, vejo que tu és profeta"

Percebendo faculdades espirituais em Jesus ela, então, vai dirigir a conversa para o terreno religioso.

"— Nossos pais adoravam neste monte; vós, entretanto, dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar.

— Mulher, podes crer-me que a hora vem, quando nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus."

Jesus está confirmando a melhor orientação espiritual dos judeus e o surgimento do Messias entre eles.

"Mas a hora vem, ejá chegou, quando os verdadeiros adoradores adorarão ao Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores.

Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade."

Parece que a mulher começou a achar que ele podia ser o Messias, porque disse:

"— Eu sei que há de vir o Messias, chamado Cristo; quando ele vier nos anunciará todas as coisas."

E Jesus, que geralmente se ocultava para fugir aos seus perseguidores, confirma para a samaritana:

"— Eu o sou, eu que falo contigo.

Nisto, chegaram os seus discípulos. A mulher deixou ali o seu cântaro e foi à cidade, onde contou aos moradores tudo que Jesus dissera e como adivinhara o seu passado. Convidou-os a irem ter com Jesus. Eles foram e se convenceram quanto a Jesus. E o Mestre ficou dois dias com eles em Sicar, ensinando-os." Que diálogo proveitoso!

Ensino: A verdadeira adoração deve ser espiritual e sincera.

Jesus sabia motivar seus ouvintes para transmitir a mensagem.

Com o moço rico sobre o desapego às riquezas (Mt 19:16-30, Mc 10:17-31 e Lc 18:18-30)

Um jovem se aproximou de Jesus, reverenciou-o e lhe disse:

"— Bom Mestre, que hei de fazer para herdar a vida eterna?"

O jovem queria saber como alcançar vivência espiritual plena e feliz.

Jesus não aceitou o adjetivo com que o jovem o saudou: "— Por que me chamas bom? Ninguém é bom, senão um, que é Deus."

De fato, somente o Criador possui o infinito das perfeições.

Mas ao pedido de orientação espiritual, Jesus atendeu: "— Se queres entrar na vida, guarda os mandamentos.

— Quais? indagou o jovem.

— Não matarás; não adulterarás; não furtarás; não dirás falso testemunho; honra a teu pai e a tua mãe." Jesus está mencionando os dez mandamentos, que são diretrizes básicas e mínimas para quem deseja cumprir as leis de Deus.

"— Tudo isso tenho guardado desde a minha juventude." Mas não era ainda "um jovem"? Mateus narra assim; mas Marcos fala em "um homem" e Lucas cita "um dos principais".

Seria, pois, um homem ainda jovem, de posição social elevada.

Ante a resposta do jovem, Jesus fitou-o e "o amou" (o apreciou muito, por ser um homem de bem, cumpridor de seus deveres).

"— Que me falta, ainda?" teria o jovem perguntado, segundo Mateus.

"— Se queres ser perfeito [fazer mais e melhor do que o mínimo pedido ao comum das pessoas], vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois vem, e segue-me."

Jesus abriu uma grande oportunidade para o jovem progredir espiritualmente.

Mas o jovem, ouvindo isso, encheu-se de tristeza e se retirou. Porque "era muito rico", "possuía muitos bens" e, certamente, não estava disposto a se desfazer de suas riquezas.

Então, Jesus, olhando à sua volta, disse aos discípulos:

"— Como é difícil um rico entrar no reino dos céus! [Disse difícil, mas não que seja impossível.] E' mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no reino dos céus" (ou "no reino de Deus").

Jesus não condenava as riquezas, mas o apego a elas, e aos gozos que podem proporcionar, em detrimento do cultivo do espírito.

Observação:

"Camelo" poderia ser a corda feita do pêlo desse animal; "Agulha" seria a porta estreita nos muros das cidades, pelas quais passavam pessoas, mas não os animais de carga. De qualquer modo, a figura empregada por Jesus deveria ser bem fácil de compreender para o povo daquela época, que o estava escutando.

"— Quem pode, então, ser salvo?" perguntaram os discípulos, provavelmente muito admirados com a necessidade de grande desapego aos bens terrenos para se alcançar o reino dos céus.

"— Para os homens é impossível, mas não para Deus, respondeu Jesus; porque para Deus tudo é possível."

Se pensarmos somente em termos de vida corpórea, parece impossível que criaturas humanas se desprendam dos valores terrenos em favor da vida espiritual. Deus, porém, através das reencarnações e pela lei do progresso, nos fará compreender isso e, então, não mais sentiremos apego pelas coisas materiais.

"— Eis que nós deixamos tudo e te seguimos, disse Pedro; que recompensa, pois, teremos nós?

- Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou mulher, ou irmãos, ou irmãs, ou pais, ou filhos, ou campos, por amor do reino de Deus [ou, por amor de mim e do evangelho], que não haja de receber cem vezes tanto, já neste tempo, em casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos, e no mundo vindouro a vida eterna."

Entenderemos a afirmativa de Jesus se observarmos o que acontece a quem não se prende unicamente aos laços de família nem se apega a posses materiais para poder servir a Deus e ajudar o próximo:

- faz muitas amizades puras e sinceras, que valem por uma imensa ampliação da sua família neste mundo;

- muitos recursos lhe são confiados pelas pessoas que o estimam e admiram a fim de que os administre em favor dos i arentes, dos enfermos e dos sofredores;

- e ainda consegue, para si mesmo, grande progresso espiritual.

Não é isso o que tem acontecido com "os santos de nossos dias"? Exemplos: Irmã Dulce, na Bahia; Madre Tereza de Calcutá; Francisco C. Xavier.

Com os judeus no Templo de Jerusalém (Jo 8:21-59)

Neste diálogo, que vamos resumir, Jesus defende sua autoridade espiritual e diz:

- que vai se retirar e, se eles não o aceitarem (isto é, não assimilarem seus ensinos), morrerão em seus pecados (não se libertarão do erro em que vivem);

- que não conseguem provar que ele esteja em pecado, mas pretendem matá-lo e não o aceitam, porque ele só fala a verdade e eles preferem a mentira.

Quando Jesus afirma que, se alguém guardar a sua palavra (se mantiver fiel ao que ele ensina) não verá a morte, eternamente, os judeus argumentam:

"— És maior que o nosso pai Abraão, que morreu? Também os profetas morreram. Quem, pois, te fazes ser?"

Depois de reafirmar que sua glória vem de Deus, Jesus diz:

"— Vosso pai Abraão [pai, porque os hebreus o tinham como patriarca] alegrou-se por ver o meu dia, viu-o e regozijou-se.

— Ainda não tens cinquenta anos, e viste a Abraão?

— Antes que Abraão existisse, eu sou."

Jesus apenas dissera uma verdade. Abraão, que desencarnara havia muito tempo, se encontrava no plano espiritual; de lá, teria assistido ao nascimento de Jesus aqui na Terra, alegrando-se com o cumprimento da profecia de um salvador vindo redimir a humanidade, com a chegada do Messias que eles tanto esperavam.

Quanto a Jesus ser anterior a Abraão, fica fácil de entender à luz do conhecimento espírita. Os Espíritos são individualizações do princípio inteligente criado por Deus, individualização que não se dá ao mesmo tempo para todos e que continua se fazendo, através dos tempos. Nesse sentido, Deus sempre criou, cria e criará Espíritos (Cap. I da 2a Parte de O Livro dos Espíritos). Quando Abraão alcançou sua individualização, Jesus já existia como Espírito individualizado e muito evoluído.

Os judeus, porém, que quase nada entendiam da vida no Além, acharam que a afirmativa de Jesus era uma orgulhosa blasfêmia. Então, pegaram em pedras para atirarem nele. Mas Jesus se ocultou deles e saiu do Templo.

Therezinha Oliveira