CAPÍTULO 25 - TRANSFIGURAÇÃO,
MULTIPLICAÇÃO DE PÃES,...

CAPÍTULO 25 - TRANSFIGURAÇÃO, MULTIPLICAÇÃO DE PÃES E "RESSURREIÇÕES" OPERADAS POR JESUS

A transfiguração
(Ml 17:1-8, Mc 9:2-8 e Lc 9:28-36)

Resumamos as narrativas evangélicas: Jesus levou Pedro, Tiago e João em particular a um alto monte, com o propósito de orar.

Enquanto ele orava: seu rosto se modificou, resplandecia como o sol; suas vestes tornaram-se brancas como a luz.

E apareceram Moisés e Elias (ambos já desencarnados) e conversavam os três sobre sua partida, que ele estava para cumprir em Jerusalém.

Explicação espírita do fenômeno

A transfiguração é "uma transformação fluídica, uma espécie de aparição perispirítica, que se produz sobre o próprio corpo do vivo, "geralmente é perceptível a todos os assistentes e com os olhos do corpo, precisamente por se basearem na matéria carnal visível". Pode-se dar pela vontade da própria pessoa ou sob influência externa. (Ver Allan Kardec, A Gênese, Cap. XIV, item 39; e a Revista Espírita de março de 1859)

Quando orou, Jesus se expandiu penspiritualmente, superpondo ao corpo novo aspecto e apresentando grande irradiação. A luminosidade propagou-se às suas vestes e através delas.

Quanto à presença de Moisés e Elias, foi um fenômeno de materialização (Pedro, Tiago e João eram médiuns de efeitos físicos), que será estudado em capítulo posterior.

A multiplicação de pães e peixes

Relatam os evangelistas que Jesus, por duas vezes, multiplicou pães e peixes para atender à multidão que o seguira até uma região "deserta" (longe de cidades) e ali ficara ouvindo-o e recebendo curas, mas, por não se terem munido de alimentos, estavam a ponto de passar fome.

A primeira multiplicação é relatada por Mt 14:13-23, Mc 6:30-44, Lc 9:10-17 e Jo 6:1-15. A segunda somente por Mi 15:32-39 e Mc 8:1-10.

As diferenças entre as duas são pequenas, pois em ambas Jesus:

- aproveitou o de que dispunham (alguns pães e peixes);

- mandou que o povo se assentasse em grupos (ordenou a multidão);

- orou (tomando os pães e peixes, ergueu os olhos aos céus e os abençoou);

- depois fez a repartição entre os discípulos e estes para o povo;

- todos comeram à vontade (milhares de homens, além das mulheres e crianças);

e ainda sobraram muitos cestos com pedaços de pão e de peixe, que Jesus mandou recolher para nada se perder.

Como explicar esse fenômeno?

Kardec entende que não houve o fenômeno materialmente (A Gênese, Cap. XV, item 48). A passagem seria simbólica, representando que Jesus "alimentou" espiritualmente a multidão que, magnetizada por sua presença e atenta à sua palavra a, nem sentiu a falta de alimento físico. Assim queria Jesus que os discípulos também "alimentassem" o povo, quando lhes disse: "Não é preciso que se retirem; dai-lhes vós de comer".

Também se pode pensar que, além dos poucos pães e peixes trazidos pelos discípulos, outras pessoas tivessem mais alimentos consigo e, ante o exemplo de doação generosa, acabaram por entregá-los também para a repartição entre todos. Al, deu e sobrou.

Entretanto, não seria impossível um fenômeno de efeitos físicos, materializando substâncias. Em O Livro dos Médiuns (( ap. VIII, "Do Laboratório do Mundo Invisível"), vemos que os Espíritos podem não só reproduzir aparência de alimentos, mas fazer que essas substâncias materializadas dêem até a impressão de saciedade", quando ingeridas.

Mas para que teria Jesus realizado um fenômeno de efeitos físicos assim, multiplicando pães e peixes? Talvez como objetivo de ensinar que precisamos pensar no próximo, no que ele necessita, e ajudar a atender essa necessidade; fazer isso orientando e ordenando o povo, doando o que nos for possível, buscando também o auxílio espiritual (orou antes de multiplicar) e não desperdiçando recursos (mandou recolher o que sobrasse).

Qual foi a repercussão?

Foi grande.

A multidão, depois, queria proclamar rei a Jesus. Mas ele não aceitou.

E advertiu a todos: "Trabalhai não pela comida que perece mas pela que permanece para a vida eterna", ou seja, que procurassem assimilar sua mensagem, seus ensinos e exemplos.

Ressurreições

No Velho e no Novo Testamentos, há relatos de ressurreições, isto é, de pessoas que estavam mortas e voltaram a viver.

Como aceitar tais relatos se, à luz da ciência, fatos assim são impossíveis e também não mais os vemos ocorrer nos dias de hoje?

O que a ciência constata são casos em que as pessoas sofreram:

- morte clínica: com parada cardíaca, perda da respiração, da consciência e dos movimentos;

- letargia (do latim, lethargia): perda momentânea da sensibilidade e do movimento, dando ao corpo aparência de morte real;

- catalepsia (do grego, katálepsis): perda momentânea, algumas vezes espontânea, da sensibilidade e do movimento em determinada parte do corpo.

São, os três, estados patológicos ou anómalos. Geralmente, a pessoa pode se recuperar deles, em minutos ou dias, havendo as condições e ajuda adequadas.

Explicação espírita de tais estados

Havendo desligamento parcial do perispírito, o Espírito deixa de tomar contato, temporariamente, com determinada região do corpo ou no seu todo, porque lhe falta o elemento de ligação com ele.

O desligamento perispiritual pode se dar por causas orgânicas ou espirituais (também por influência de outrem). Mas enquanto os laços fluídicos não se desataram totalmente e o corpo ainda tem vitalidade, sem lesão irreversível nos órgãos, será possível fazer a pessoa retornar ao normal:

- restaurando as condições do funcionamento orgânico;

- auxiliando fluidicamente (magnetismo humano ou espiritual);

- estimulando o Espírito à ação sobre o corpo;

- afastando o Espírito perturbador (se houver).

Mas, ao tempo de Jesus, se uma pessoa caísse em estado letárgico, não haveria no local um médico que a examinasse soubesse reconhecer que ela estava viva. (Quase não havia "doutores" na Palestina, naquela época, e muitos dos que assim se consideravam eram rabinos e, às vezes, curandeiros; conheciam-se poucos remédios genuínos, se bem que se usassem várias ervas medicinais.)

Por isso, as pessoas em estado letárgico acabavam sendo consideradas mortas. E como, por causa do clima quente, o sepultamento de cadáveres era feito no próprio dia da morte (geralmente oito horas depois e às vezes de modo imediato: Atos 5:1-11), podia não dar tempo de a pessoa se recuperar da letargia.

Após estes esclarecimentos, leiamos e analisemos os três usos em que Jesus "ressuscitou" pessoas, que foram: - o filho da viúva de Naim (Lc 7:11-17); a filha de Jairo, chefe da sinagoga de Cafarnaum (Lc 8:40-42 e 49-56); Lázaro (Jo 11:1-46).

Observações:

1) Nos casos da filha de Jairo e de Lázaro, Jesus afirma textualmente que a pessoa não está morta, mas dorme. Também ocorreria o mesmo quanto ao filho da viúva de Naim.

2) Jesus orou antes de "ressuscitar" Lázaro; certamente o fez também nas outras vezes mas, ou não foi em voz alta, ou não ficou relatado.

3) Os discípulos estavam sempre por perto; mas provavelmente se utilizava Jesus dos fluidos de Pedro, Tiago e João (médiuns de efeitos físicos), pois estes apóstolos foram os únicos que admitiu entrassem com ele para fazer a "ressurreição" da filha de Jairo.

4) Jesus se encaminhou para o túmulo de Lázaro, que "era uma gruta, a cuja entrada tinham posto uma pedra". Esclarece bem o evangelista João, pois o sepultamento, entre os judeus, não era feito sob a terra (como o fazemos atualmente), mas nas rochas, em cavernas naturais ou artificiais, fechando-se a entrada por meio de pedras, para proteger de eventual ataque de animais.

Preferiam sepultar em lugares distanciados das habitações, fora dos muros da cidade.

Portanto, apesar de sepultado logo após a sua "morte", Lázaro não estava sob a terra, mas numa gruta, com oxigenação suficiente para sobreviver ao estado letárgico em que caíra.

5) "Senhor, já cheira mal, porque já é de quatro dias", disse Marta, irmã de Lázaro, quando Jesus mandou removessem a pedra da entrada do sepulcro. Era o que Marta pensava, mas não a realidade, pois Lázaro não morrera, e seu corpo, em estado letárgico, não estava em decomposição.

6) Nos três casos, Jesus falou diretamente à pessoa para que se levantasse. Em Espírito, podiam ouvi-lo e agir sobre o corpo, após haverem recebido a ajuda fluídica de Jesus. No caso da menina, Lucas diz expressamente: "voltou-lhe o espírito" (quer dizer que estava afastado) e então "ela imediatamente se levantou". (Ver O Livro dos Espíritos, 2a Parte, Cap. VIII, questões 422 a 424 e A Génese, Cap. XV, itens 37 a 40)

Por mais admirável que a "ressurreição" física nos pareça, ela é de efeito temporário, pois um dia o "ressuscitado" terá de desencarnar mesmo.

Que haverá "ressurreição" espiritual para todos nós, além da morte do corpo, é verdade, pois continuaremos a viver em Espirito. Porém, em que estado despertaremos nesse Além? Felizes ou infelizes, conforme nossos pensamentos, sentimentos e ações.

Que mais nos importa, então? É a "ressurreição" moral, o despertamento nosso em Espírito, para sairmos da "morte espiritual" (erro, inércia, vício, usura etc), na direção da violência correta e plena de nossas potencialidades espirituais.

Therezinha Oliveira