CAPÍTULO 27 - OBSESSÃO E
DESOBSESSÃO NO EVANGELHO

CAPITULO 27 - OBSESSÃO E DESOBSESSÃO NO EVANGELHO

Entre os muitos enfermos que Jesus curou, havia os chamados lunáticos ou endemoninhados. Eram pessoas que, por sofrerem a influência de Espíritos maus ou perturbados, apresentavam desequilíbrio no raciocínio ou no comportamento, sofriam crises ("ataques"), estados enfermiços.

Anormalidades assim também podem ter causas físicas (como as lesões cerebrais, epilepsia, distúrbios hormonais) ou resultar de problemas psíquicos (como a psicose, a neurose etc).

Nos casos relatados no Evangelho, a causa era, de fato, a obsessão, porque, afastados por Jesus os Espíritos obsessores, as pessoas saravam inteiramente.
Exemplos:

1) Expulso por Jesus o demônio de um homem, este, que se sentia cego e mudo, viu e falou (Mt 12:22-23); o demônio que era mudo, esclarece Lucas (11:14).

2) Sob a ação de um "Espírito de enfermidade", uma mulher estava encurvada há mais de dezoito anos, não podendo se endireitar para andar. Afastado por Jesus o Espírito, a mulher se endireitou e andou. Jesus explicou que "Satanás a tinha presa" e era preciso "soltar da prisão" a mulher (Lc 13:10-17).

Estudando tais curas de Jesus, muito aprenderemos sobre a obsessão e a desobsessão:

1) Perceberemos que os diagnósticos e terapia empregados pelo Mestre são os mesmos que Allan Kardec estuda em O Livro dos Médiuns (Cap. XXIII) e nós, espíritas, empregamos;

2) Que os casos de obsessão que Jesus tratou foram, principalmente, os de subjugação corpórea, a qual se caracteriza pela poderosa influência, prejudicial e constante, com que o obsessor tolhe e domina o obsidiado, constrangendo-o fisicamente.

Este se sente sob poder alheio, sem vontade própria nem forças para reagir.

São casos muito difíceis e de grande sofrimento para os obsidiados.

3) Que a obsessão nem sempre é feita por um só Espírito:

a) de Maria Madalena, curada por Jesus, diz Lucas que saíram dela sete demônios (8:2);

b) no episódio do endemoninhado gadareno, respondendo à pergunta de Jesus: "Qual é o teu nome?", o obsessor responde: "Legião, porque somos muitos" (Mc 5:1-20, Ml 8:28-34, Lc 8:26-39).

Como o obsessor age?

"Ninguém pode roubar os bens do valente, entrando-lhe em sua casa se primeiro não manietar o valente; e então roubará a sua casa." (Mc 3:27)

"Quando o valente guarda, armado, a sua casa, em segurança está tudo quanto tem; mas, sobrevindo outro mais valente do que lhe, e vencendo-o, tira-lhe toda a sua armadura em que confiava, .• reparte os seus despojos." (Lc 11:21-22)

Neste ensinos de Jesus, aprendemos que:

I) O obsessor é um adversário espiritual.

II) Ele quer roubar todos os bens da pessoa (equilíbrio, de, bem-estar).

II ) Para tanto, terá de lhe invadir a "casa" (a mente, o íntimo) e o "manietar" (tolher a ação) despojando-o da sua "armadura" (estrutura íntima que lhe dá confiança em si mesmo).

Procura aproveitar a invigilância da pessoa e estimular seus pontos falhos: vaidade, orgulho, ambição, vícios, preguiça, ira, etc. para levá-la a estados desgastantes, prejudiciais (mágoa, revolta, medo, desânimo, irritação nervosa, atividade obsessiva e desnecessária). Tudo, enfim, que possa diminuir a resistencia da pessoa e abalar sua confiança.

Como deve agir o assediado?

E' preciso ser "valente" (ter disposição de lutar pelo próprio bem-estar), andar "armado" (com a verdade e o amor) e "guardar" bem a casa mental (vigiar e orar sempre) para evitar que o obsessor se infiltre e domine.

Se, infelizmente, já houver caído em obsessão, deve:

I) Com toda a humildade, procurar ajuda espiritual em terceiros.

2 ) Não se deixar abater pela ação do obsessor.

3 ) Suportar os sofrimentos com paciência e resignação, enquanto se esforça por corrigir suas falhas, e perseverar nos bons pensamentos, sentimentos e ações, praticando a caridade, para adquirir merecimento de ajuda libertadora.

Como Jesus fazia a desobsessão?

Para tirar alguém do processo obsessivo, é preciso:

1) Atuar sobre o obsidiado (esclarecer, encorajar a resistir).

2) Atuar sobre o obsessor ("Por meio de sábios conselhos, é possível induzi-los ao arrependimento e apressar-lhes o progresso." (O Livro dos Médiuns, Cap. XXIII, item 254, questão 5)

Para quem vai tentar a desobsessão, é fundamental ter amor pelo próximo, vontade firme, bons fluidos, autoridade moral (única autoridade que os Espíritos respeitam e atendem).

Jesus possuía essas qualidades em elevado grau, por isso, obtinha resultados bons e imediatos.

Vemo-lo agir desobsessivamente:

1) Falando, como nestes exemplos:

a) "(...) meramente com a palavra, expeliu espíritos" (Ml 8:16);

b) "Caía-te e sai dele", ordena ao Espírito "imundo" que, na sinagoga de Nazaré, tentava, através do obsidiado, atrapalhar sua pregação e revelado, prematuramente, como "Filho de Deus". O Espírito calou e se afastou, incontinenti. (Mc L2L28)

E que a palavra expressa o pensamento; mas o que age é o pensamento, apoiado na vontade.

2) Impondo as mãos, como no caso da mulher encurvada. (Lc 13:10-17)

O passe pode produzir choque magnético sobre o obsessor e refaz as energias desgastadas no obsidiado.

3) A distância, como no caso da mulher cananéia; que tinha a filha "terrivelmente endemoninhada" e rogava insistemente a Jesus que a curasse; Jesus promoveu o afastamento do Espírito mesmo estando a jovem distante dali; fez isso através da equipe espiritual que o assessorava e que se deslocou até a jovem, para assisti-la. (Mt 15:21-28)

Quando for absolutamente impossível trazer o enfermo ao Centro, também poderemos apelar para os protetores espirituais, que agirão a distância, com apoio nos pensamentos e vibrações do grupo de desobsessão. Mas, obtidas melhoras, o infermo deverá vir ao Centro, para buscar a continuidade de sua recuperação espiritual.

Depois de libertado da obsessão

Jesus nos alerta que:

"Quando o espírito imundo tem saído do homem, anda por lugares áridos, buscando repouso; e, não o achando, diz: Tornarei para minha casa, de onde saí. E, chegando, achava-a varrida e adornada. Então, vai, e leva consigo outros sete espíritos piores do que ele e, entrando, habitam ali; e o último estado desse homem é pior do que o primeiro." (Mt 12:43-45 e Lc 11:24-26)

A "casa" é a mente do obsidiado, que o obsessor invadira e dominara. Afastado dela, o obsessor procura, mas não encontra dacilmente outra "morada" que o aceite. Voltando a observar a sua vítima anterior, se a apanha invigilante e com os mesmos defeitos que lhe facilitavam agir sobre ela, é como se encontrasse uma casa "varrida" (desocupada) e "adornada" (atraente) para ele.

A fim de se assegurar de que não será expulso de novo, tão facilmente como o foi na vez anterior, associa-se a outros Espíritos piores do que ele para, juntos, atuarem sobre o obsidiado.

Mas o obsidiado não recairá em obsessão se houver se renovado moralmente e estiver se esforçando por progredir espiritualmente. Pelo contrário, poderá se tornar um exemplo de vida cristã, e vir a ser mais um trabalhador na seara de Jesus.

Assim aconteceu com:

1) Maria Madalena, da qual "saíram sete demônios" e veio a ser mensageira da ressurreição.

2) O endemoninhado gadareno que, depois de curado, queria logo seguir a Jesus pelo caminho; mas o Mestre não lhe permitiu, orientando-o sobre o que poderia e deveria fazer: "Vai para tua casa, para os teus e anuncia-lhes quão grandes coisas o Senhor te fez e como teve misericórdia de ti". E ele foi e começou a anunciar em Decápolis o que havia aprendido com Jesus.

Discípulos aprenderam a fazer desobsessão

Jesus mandou que os discípulos expulsassem os demônios e, para isso, lhes deu poder (ensinou-hes como atuarem), passando os discípulos a expulsarem muitos Espíritos "imundos" (Mt 10:8 e Mc 6:7, 13).

A técnica, em si, não é tão difícil, como já vimos (fé, vontade firme de ajudar, bons fluidos, autoridade moral).

Tanto assim que mesmo alguns que não seguiam a Jesus também começaram a expulsar demônios em nome dele, e Jesus não os proibiu. (Mc 9:38-41 e Lc 9:49-50)

Mas os que tentaram fazer a desobsessão sem os requisitos básicos, não conseguiram êxito.

Ex.: Os filhos de Ceva (judeu, sumo sacerdote), que eram dos exorcistas "oficiais", ao tentarem fazer o afastamento de um Espírito maligno, dizendo "em nome de Jesus, a quem Paulo prega", receberam esta resposta: "Conheço a Jesus, e bem sei quem é Paulo; mas vós quem sois?" E o endemoninhado "saltou sobre eles, subjugando a todos, e de tal modo prevaleceu contra eles que, nus e feridos, fugiram daquela casa." (Atos 19:13-16)

Observação:

Havia, nas sinagogas, exorcistas oficiais, que obtinham êxito por meio da prece "Shema Israel" ou da recitação do Salmo 91, ou servindo-se de jejuns e outros ritos.

Mesmo os discípulos de Jesus encontraram dificuldade, certa vez, para afastar de um menino o Espírito mau que, desde a infância, o lançava por terra e o convulsionava, muitas dores jogando-o no fogo e na água para o matar. (Mc 9:14-26, Mi 17:14-21 eLc 9:37-44)

Chegando Jesus, manda que lhe tragam o menino e quando este vê a Jesus, sofre uma crise (reação do Espírito adversário quc o subjugava). Jesus lhe ordena deixar a vítima, o Espírito agita com violência o menino mas se afasta, porque não consegue resistir à autoridade moral de Jesus e ao seu magnetismo superior. Ao sair o Espírito, o menino fica "como morto" (inconsciente) e Jesus o reanima, tomando-o pela mão (transmissão de fluidos) e o entrega ao pai dele.

Espírito deveria ter ligações com o obsidiado desde outra encarnação (pois este era ainda um menino) e queria se vingar. Em casos assim, para afastar o obsessor é preciso certas condições espirituais, o que Jesus coloca (Mt 17:21) como "fé" capaz de "transportar montanhas". Em Marcos (9:29), lemos "Mas esta casta não se expele senão com oração" e, em outras variações, "com oração e com jejum" (Bíblia de Jerusalém). Entendamos "oração" como pensamento elevado, em comunhão com a espiritualidade superior; e "jejum" como abstinência do mal e dos excessos desgastantes.

Expulsar demônios não dá entrada nos "céus"

Jesus enviara 70 discípulos em missão à Galiléia.

Ao voltarem, eles relatam-lhe, alegremente:

"Senhor, pelo teu nome, até os demônios se nos sujeitam."

Jesus se alegra com eles, mas avisa:

"Não vos alegreis porque os espíritos se vos sujeitem; alegrai-vos antes por estarem vossos nomes escritos nos céus." (Lc 10:17-20)

Quando é que nosso nome fica registrado na espiritualidade superior?

Quando testemunhamos boa vontade para servir na seara espiritual e demonstramos ter condições morais e de conhecimento para fazê-lo.

Então, os bons Espíritos passam a contar conosco na assistência aos carentes e sofredores, bem como nas tarefas que visam ao progresso intelecto-moral da humanidade.

No Sermão do Monte (Mt 7:21-22), Jesus já alertara:

"Nem todo aquele que me diz, Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.

Muitos me dirão naquele dia: Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas?

E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade."

Para habitarmos planos melhores na espiritualidade (céus), não basta sabermos usar magnetismo e vontade sobre os outros, nem nos valermos de poder emprestado ("em nome de Jesus").

É preciso o merecimento das próprias obras, pelo fiel cumprimento das leis de Deus.

A blasfêmia contra o Espírito Santo - (Mc 3:22-30, Mt 9:34,12:22-32 e Lc 11:15-19)

Vendo Jesus afastar Espíritos obsessores, escribas e fariseus tentaram desmerecer Jesus e o incriminar:

"— É pelo poder de Belzebu, o príncipe dos demônios, que ele os expulsa."

Jesus argumentou:

"— Se Satanás está fazendo isso, combate contra si mesmo e logo o seu reino se destruirá.

E se eu expulso os demônios por Belzebu, por quem os expulsam os vossos filhos?" (Filhos - adeptos: Jesus se refere aos exorcistas oficiais, que sabiam, assim como os escribas e fariseus, ser possível afastar os maus Espíritos sem nenhuma interferência demoníaca.)

"Por isso, eles mesmos serão os vossos juízes" - continua Jesus.

E conclui:

"Tudo será perdoado aos filhos dos homens: os pecados e as blasfêmias que proferirem", até mesmo "contra o Filho do Homem"; "mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada, nem neste mundo nem no porvir".

Quer dizer, o mal que as pessoas fazem umas contra as outras e contra si mesmas pode ser facilmente relevado, pois tem causa na ignorância e seus efeitos são passageiros e limi¬tados; mas é falta de gravíssimas consequências, nesta e na outra vida, querer, voluntária e conscientemente, negar ou invalidar as manifestações da espiritualidade superior (Espírito Santo) junto à humanidade.

Therezinha Oliveira