CAPÍTULO 30 - A CEIA PASCOAL
E A PRISÃO NO GETSÊMANI

CAPITULO 30 - A CEIA PASCOAL EA PRISÃO NO GETSÊMANI

A Páscoa (passagem)

Também chamada Festa dos Pães Asmos, a Páscoa era a primeira das três grandes festas anuais, comemorada em Jerusalém, na noite do dia 14 de Nisan (equivalente ao nosso mês de abril) e à qual deviam comparecer todos os homens israe¬litas.

Fora instituída para comemorar a libertação do cativeiro no Egito, quando, assim acreditavam, Deus ferira de morte todos os primogênitos egípcios, mas poupara as casas dos israelitas, porque suas portas estavam assinaladas com o sangue de um cordeiro, especialmente sacrificado para isso. Ante o impacto do doloroso acontecimento que, para eles, provava o poder do deus de Israel, o Faraó permitiu que os israelitas saíssem do Egito.

Os discípulos preparam a Páscoa (Mt 26:17-19, Mc 14:12-16 e Lc 22:7-13)

Na quinta-feira, Jesus disse a Pedro e João:

"— Ide preparar-nos a Páscoa para que a comamos.

— Onde queres que a preparemos?

— Ao entrardes na cidade encontrareis um homem com um cântaro de água; segui-o até à casa em que ele entrar [sem dúvida um fenómeno de presciência] e dizei ao dono da casa: o Mestre manda perguntar-te: Onde é o aposento no qual hei de comer a Páscoa com os meus discípulos? Ele vos mostrará um espaçoso cenáculo [sala de refeições] mobiliado; ali fazei os preparativos" (podia haver prévio entendimento de Jesus com essa pessoa).

Os discípulos foram, encontraram tudo como Jesus lhes dissera, e prepararam a Páscoa.

À mesa com os apóstolos

(Mt 26:26-30, Mc 14:22-26 e Lc 22:14-20)
Chegando a hora da ceia, Jesus sentou-se à mesa com os apóstolos e lhes disse como desejara comer aquela Páscoa com eles, porque não mais faria isso de novo a não ser no mundo espiritual.

O partir do pão

Tomou de um pão, deu graças e o repartiu entre eles, dizendo que era o "seu corpo", oferecido por eles. E que fizessem assim em memória dele. Por isso, os apóstolos, quando se reuniam posteriormente, tinham o costume de dar graças e partir o pão entre todos os presentes, para lembrar o que Jesus recomendara.

Da mesma maneira Jesus fez com o cálice de vinho. Simbolizava o sangue que iria derramar por eles, a vida que doaria para beneficiá-los, como uma nova aliança espiritual.

Entretanto, o ato simbólico significava que Jesus partilhara com eles sua própria vida, como um pão de verdade e amor, que deviam assimilar e, em memória dele, os discípulos deveriam se doar uns aos outros, passando adiante o seu ideal.

O lava-pés

Tendo surgido uma discussão sobre quem deveria se considerar o maior, Jesus lhes fez ver que os reis e autoridades dominam sobre as pessoas, mas que, entre eles, tinha de ser diferente: o maior se fazer pequeno e o líder ser um servidor, porque ele mesmo, Jesus, os servia.

Talvez a questão fosse quem iria lavar os pés dos outros (porque era costume se lavarem ao chegar em casa, antes de comer). Talvez por isso foi que Jesus se levantou da mesa, tirou o manto, cingiu-se com uma toalha, pôs água numa bacia e começou ele a lavar e enxugar os pés dos discípulos. Pedro não queria se deixar lavar por Jesus, mas acabou consentindo quando o Mestre disse "senão não terás parte comigo". Ao final, Jesus disse: "Se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros".

O traidor é indicado

Jesus avisa que um deles o trairá, mas que é "para que se cumpra a Escritura: Aquele que come do meu pão, levantou contra mim seu calcanhar" (Salmos 41:9). Que está avisando antes para que, quando acontecer, mais creiam nele. Não impediu (respeito ao livre-arbítrio) nem agrediu (não-violência), mas lamentou o traidor (por causa das consequências que sofreria).

"Todos se perguntavam quem seria o traidor. A um sinal de Simão Pedro, João, que estava aconchegado a Jesus, pergunta: Senhor, quem é?

— Aquele a quem eu der o pedaço molhado, respondeu Jesus. E, dando o bocado a Judas lscariotes, Jesus disse:

— O que pretendes fazer, faze-o depressa."

Judas saiu logo. Os demais discípulos pensaram que Jesus lhe tinha mandado fazer alguma compra ou dar algo aos pobres (era o tesoureiro do grupo).

O novo mandamento

Depois que Judas saiu, Jesus anuncia que logo será "glorificado" e eles o procurarão brevemente, mas não poderão ir aonde ele está indo (desencarnará). E dá-lhes um novo mandamento (Jo 13:34-35):

"Que vos ameis uns aos outros", "assim como eu vos amei", e "nisto todos conhecerão que sois meus discípulos". (Em Jo 15:12-14 e 17, repetirá o novo mandamento, acrescentando: "ninguém tem maior amor do que este; de dar alguém a própria vida pelos seus amigos".)

Pedro é avisado

Divergem os evangelistas quanto à forma do diálogo e à oportunidade em que se deu o aviso de Jesus a Pedro; mas são concordantes em que o apóstolo se acreditava corajoso a ponto de enfrentar até a morte pelo seu Mestre. Jesus, entretanto, o avisou de que "Satanás" (adversário espiritual) pedira permissão para tentar Pedro e previu:

"Nesta mesma noite, antes que o galo cante, tu me negarás três vezes."

Mas também informa a Pedro:

"Eu, porém, roguei por ti, para que tua fé não desfaleça; tu, pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos." (Mt 26:31 -35, Mc 14:27-31, Lc 22:31-34 ejo 13:36-38)

As duas espadas

Esta passagem é obscura. Somente Lucas a registra (22:35-38). Jesus recomenda aos discípulos tomarem da bolsa, do alforje e até venderem a capa para comprar espada (se não a tiverem), porque para ele está sendo cumprida a hora.

O sentido verdadeiro parece ser: vigilância e oração, que estejam mais bem prevenidos agora do que quando saíram para pregar, anteriormente.

O sermão do Cenáculo (Jo14a 16)

Narra João coisas muito importantes que Jesus disse, durante a ceia pascoal (não registradas pelos outros evangelistas), e que constituem o sermão do Cenáculo, resumido a seguir:
Confortando os discípulos

Que não se perturbem: "credes em Deus, crede também em mim".

Diz que vai preparar-lhes lugar, a fim de estarem com ele, depois.

Tomé diz que não sabem para onde Jesus vai, então como saber o caminho? ao que Jesus responde: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém chega ao Pai, senão por mim".

A Filipe, que lhe pedia mostrasse o Pai, explica: "Quem me vê, vê também o Pai" (Deus não se vê com os olhos da carne, mas através de sua criação e pela nossa sensibilidade espiritual; Filipe convivera durante cerca de três anos com Jesus, a mais alta expressão de espiritualidade visível na Terra, e ainda não percebera Deus em Jesus?)

Afirma que quem crer nele também fará o que ele fez e coisas ainda maiores, porque ele vai para junto do Pai e de lá atenderá ao que pedirem em seu nome.

A promessa do Consolador (Jo 14, 15:17-26, 16:7-14) e O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. VI)

E então que assegura "Não vos deixarei órfãos" e promete um outro Consolador, para ficar com eles para sempre. (Ver estudo mais detalhado no capítulo 26, sobre a liberação da mediunidade por Jesus)

A minha paz vos deixo

"Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou: não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize "

Assegura que vai, mas voltará para eles, depois.

Que deviam se alegrar de que ele vá para o Pai, porque o Pai é maior do que ele.

E que está dizendo tudo isso antes, para que, quando acontecer, creiam.

A videira e os ramos

Exorta a que permaneçam ligados a ele, porque é a "verdadeira videira" (símbolo de vida espiritual); o Pai é o "agricultor" e eles, "os ramos".

Desligados dele, serão galhos secos, nada podem fazer. Se permanecerem ligados a ele, terão vida e o Pai os limpará para que dêem muitos frutos.

De servos a amigos

Observa que já não os chama de "servos", pois "o servo não sabe o que faz o seu Senhor", mas de "amigos", "porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer" (ensinou-lhes sobre a vida espiritual e as leis de Deus).

Eu venci o mundo

Fala que, por "não serem do mundo", como ele também não é (não partilham dos interesses e modo de agir comum), serão incompreendidos e perseguidos, como ele foi, expulsos da sinagoga e até mortos.

Que, como a mulher que está para dar à luz, agora irão chorar e se lamentar, mas, depois, terão alegria, quando voltar a vê-los.

Que está chegando a hora em que serão "dispersos, cada um para sua casa" e "o deixarão só", mas o Pai está com ele.

Que falou tudo isto "para que tenhais paz em mim" (compreendessem e mantivessem serenidade).

"No mundo passais por aflições; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo" (abriu caminho para outros também vencerem).

A oração de Jesus (Jo 17)

Ao final do sermão do Cenáculo, Jesus ora a Deus. Essa oração, chamada de sacerdotal (título dado pelo luterano Chytraeus, em 1600) também é conhecida como oração pela unidade (título proposto por Lagrange), é um exemplo de como se deve orar: buscando propósitos elevados, mas com simplicidade e naturalidade, como uma conversa entre pai e filho.

Nela, Jesus ora:

- por si mesmo, dizendo, entre outras coisas: — "Agora, glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti, com a glória que eu tinha junto de ti, antes que o mundo existisse";

- pelos discípulos, dizendo: que Deus lhos confiara e ele cuidou deles e os instruiu, mas irão precisar de proteção; "Não peço que os tires do mundo mas que os guardes do mal";

- pelos futuros cristãos: "Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra, afim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós".

No jardim das Oliveiras

(Mt 26:30, 36-46, Mc 14:32-42, Lc 22:39-46)

Terminada a ceia e tendo cantado um hino (talvez um salmo, pois eram orações cantadas), saíram dali e foram para o monte das Oliveiras, onde estavam indo passar as noites, para fugir aos adversários.

Dirigiram-se para um jardim (ou horto) chamado Getsêmani (prensa de óleo, em aramaico), que existia ao pé ou na encosta do monte.

Deixando sentados à entrada os demais discípulos, vigiando, Jesus adentrou o horto, levando consigo Pedro, Tiago e João, a fim de orar.

Chegando a um local de sua escolha, Jesus começou a se entristecer e a se angustiar, e disse aos três: "A minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai comigo."

A tristeza e angústia de Jesus não era pela perspectiva dos sofrimentos físicos nem pelo abandono em que os discípulos o deixariam; sofria pela rejeição do povo, que ainda acarretaria para os israelitas muitas dores e problemas; sofria, também, talvez com a aproximação espiritual de hostes "infernais", que estavam tendo permissão de atuar e às quais Jesus aludiria como "a hora das trevas".

Afastando-se à distância de "um tiro de pedra" (talvez 50 ou 70 metros), Jesus se pôs de joelhos, e orava dizendo:

"Pai, tudo te é possível; se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade e, sim, a tua "

Por três vezes orou assim, com as mesmas palavras, sendo que na terceira vez apareceu-lhe um anjo do céu, que o confortava. E, entrando em agonia, Jesus orava mais intensamente (e teria, então, "suado sangue").

Em cada intervalo das três vezes em que orou, Jesus voltava para junto dos discípulos, mas sempre os encontrou adormecidos em vez de vigiando e orando. Dizem os evangelistas que os olhos deles "estavam pesados de sono" e Lucas acrescenta que era "de tristeza". Talvez, por exaustão física e emocional.

Na primeira vez em que Jesus voltou para os discípulos, disse a Pedro:

"Então, nem uma hora pudestes vós vigiar comigo?

Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca"

Na segunda vez, os apóstolos "nem sabiam que lhe dizer".

Na terceira vez, Jesus lhes disse:

"Ainda dormis e repousais! Basta! chegou a hora; o Filho do homem está sendo entregue nas mãos dos pecadores. Levantai-vos, vamos. Eis que o traidor se aproxima"

Jesus é preso

(Mt 26:47-56, Mc 14:43-52, Lc 22:47-53 e Jo 18:1-11)

Jesus ainda falava quando chegou Judas, acompanhado de grande turba, com espadas e cacetes, enviada pelos principais sacerdotes e anciãos do povo.

Mateus, Marcos e Lucas dizem que Judas, saudando Jesus com um beijo, o identificou e entregou aos adversários, como combinara fazer. E que Jesus lhe disse: "Amigo, para que viestes?"

(Mateus); ou "judas, com um beijo trais o Filho do homem?" (Lucas).

João Evangelista, porém, diz que Jesus, já sabendo o que ia acontecer, ao chegar a turba se adiantou, identificando-se, e que protegeu os discípulos, dizendo: "se é a mim que buscais, deixai ir estes"; e que, com isso, se cumpria o que Jesus falara antes, em oração: "Não perdi nenhum dos que me deste".

Os discípulos que estavam ao redor de Jesus, vendo que ele ia ser preso, perguntaram: "Senhor, feriremos à espada?" (Lucas).

E Pedro puxou da espada, ferindo Malco (um servo do sumo sacerdote) na orelha direita (João), ao que Jesus lhe disse:

"Embainha a tua espada; pois todos os que lançam mão da espada à espada perecerão. Acaso pensas que não posso rogar a meu Pai, e Ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim deve suceder?" (Lucas) "Não beberei porventura o cálice que Deus me deu?" (João)

E, tocando a orelha de Malco, curou o ferimento.

E falou à turba:

"Saístes com espadas e cacetes para prender-me, como a um salteador? Todos os dias eu estava convosco no Templo, ensinando, e não me prendestes; contudo, é para que se cumpram as Escrituras" (Mateus). "Esta, porém, é a vossa hora e o poder das trevas" (Lucas).

Jesus foi preso, manietado, e então, todos os discípulos, deixando Jesus, fugiram (certamente para não serem presos). E Marcos narra (14:51-52) que um jovem que seguia Jesus, coberto unicamente por um lençol (devia ter sido acordado no meio da noite e nem se vestira direito), quando o seguraram, ele largou o lençol e fugiu desnudo.

Bibliografia

De Eilen G. White (Casa Publicadora Brasileira):
-O Desejado de Todas as Nações, Caps. LXXI, LXXI1 e
LXXIII. De C. Torres Pastorino:
- Sabedoria do Evangelho, 7'J volume: "O Lava-Pés", "Judas é Indicado", "Transubstanciação", "O Novo Mandamento", "Aviso a Pedro"; 8" volume: "O Eu Profundo", "O Advogado", "União com Cristo", "Ódio do Mundo", "O Trabalho do Espírito", "Alegria Máxima", "A Oração", "Despedida", "Unificação com Deus".
De Cairbar Schutel (O Clarim):
- Parábolas e Ensinos de Jesus, "A Ceia Pascoal", pp. 264-271.

Therezinha Oliveira