CAPÍTULO 31 - O JULGAMENTO
E A CONDENAÇÃO DE JESUS

CAPÍTULO 31 - O JULGAMENTO EA CONDENAÇÃO DE JESUS

Jesus perante Anás e Caifás

(Mt 26:57-68; Mc 14:53-65; Lc 22:54, 66-71; Jo 18:12-14 e 19-24)

Era cerca de meia-noite (fim da quinta e começo da sexta-feira), quando Jesus foi preso (por guardas judeus), que o manietaram e o levaram à casa de Caifás (sumo sacerdote naquele ano).

Lá, o apresentaram primeiramente a Anás (sogro de Caifás), que fora sumo sacerdote antes (de 6 a 15 d.C.) e ainda gozava de muita autoridade e era o animador da luta contra Jesus.

Anás fez um interrogatório preliminar com Jesus, acerca dos seus discípulos e da sua doutrina. Jesus respondeu:

"Eu tenho falado francamente ao mundo; ensinei continuamente tanto nas sinagogas como no Templo, onde todos os judeus se reúnem, e nada disse em oculto. Por que me interrogas? Pergunta aos que ouviram o que lhes falei; bem sabem eles o que eu disse."

Um dos guardas, então, esbofeteou Jesus, dizendo: "— É assim que falas ao sumo sacerdote?

— Se falei mal [respondeu Jesus], dá testemunho do mal (mostra em quê,) mas se falei bem, por que me feres?"

Encerrado o interrogatório preliminar, Anás enviou Jesus, manietado, à presença de Caifás, o sumo sacerdote (que antes já havia declarado "ser conveniente morrer um homem pelo seu povo", Jo 11:49-51).

Jesus perante o Sinédrio (mesmas passagens citadas acima)

Na casa de Caifás, haviam se reunido os principais dos sacerdotes, anciãos e escribas que faziam parte do Sinédrio (ou Sinedrim: tribunal supremo dos judeus para deliberação quanto à vida e aos costumes do povo).

Teve lugar, então, o processo legal. Procuravam eles algum testemunho que incriminasse Jesus, para o condenarem à morte. Mas não achavam, porque, apesar de muitos testemunharem contra Jesus, seus depoimentos não eram concordantes.

Duas pessoas testemunharam falsamente que:

"Nós o ouvimos declarar: Eu destruirei este santuário edificado por mãos e em três dias construirei outro, não por mãos humanas.

Então, o sumo sacerdote se levantou e perguntou a Jesus: "Nada respondes ao que estes depõem contra ti?" Jesus ficou silencioso.

"— Eu te conjuro pelo Deus vivo [disse o sumo sacerdote] que nos digas se és o Cristo, o Filho de Deus.

— Tu o disseste [respondeu Jesus, equivalendo a concordar] e, desde agora, vos declaro que vereis o Filho do homem assentado à direita do poder de Deus, e vindo sobre as nuvens do céu.

Rasgando suas vestes (sinal de grande pesar e indignação), o sumo sacerdote disse ao Sinédrio:

"— Blasfemou! que mais necessidade temos de testemunhas?

Eis que ouvistes agora a blasfêmia! Que vos parece?"

(Blasfêmia: palavra que ultraja a divindade ou a religião.)

"— E' réu de morte.' responderam todos."

Assim foi a condenação de Jesus pelo Sinédrio.

Mas só o governador romano na Judéia poderia autorizar a pena de morte para Jesus.

Observação:

Os romanos, que dominavam a Palestina, permitiam aos israelitas terem seu governo, tratarem de seus assuntos internos, mas não permitiam que condenassem à morte nem que matassem ninguém.

Enquanto aguardavam amanhecer para levar Jesus ante Pilatos, ficaram a maltratá-lo. Alguns cuspiam em Jesus. Tapavam-lhe os olhos, espancavam-no e diziam: "Profetiza-nos, quem é o que te bateu?" E muitas outras coisas diziam contra ele. E os guardas o tomaram a bofetadas.

A negação de Pedro

(Mt 26:69-75; Mc 14:66-72; Lc 22:54-62; Jo 18:15-18 e 25-27)

Desde que Jesus fora preso, seguiam-no (embora a distância) Simão Pedro e outro discípulo (o qual deve ser João, porque narra esses acontecimentos com muita precisão e detalhes; por modéstia, costuma evitar mencionar seu próprio nome).

Chegando à casa do sumo sacerdote, Jesus foi levado para o pátio interno. João, por ser conhecido de Caifás, conseguiu entrar também. Pedro, porém, ficou de fora, junto à porta, até que João, falando com a responsável, fez Pedro entrar.

Ao ver Pedro, a mulher perguntou:

"— Não és tu também um dos discípulos deste homem?

— Não sou" (respondeu Pedro, negando Jesus pela primeira vez).

Era madrugada, fazia frio. Servos e guardas acenderam no pátio um braseiro. Pedro se aproximou dele para também se aquecer. Alguém comentou:

"Também és um deles, porque também és galileu, o teu modo de falar o denuncia" (o aramaico era falado na Galiléia com um acento especial).

Pedro começou a praguejar e a jurar:

"Não sei o que estais dizendo. Não conheço esse homem de que falais" (Negava a Jesus pela segunda vez.)

Mais tarde, um dos servos do sumo sacerdote, parente de Malco (a quem Pedro tinha ferido a orelha, no horto), perguntou:

"Não te vi eu no jardim com ele?"

De novo Pedro negou e, no mesmo instante, o galo cantou (estava amanhecendo). E virando-se, o Senhor olhou para Pedro. Então, Pedro se lembrou do aviso de Jesus: "Antes que o galo cante, tu me negarás três vezes". E, caindo em si, foi embora e chorou amargamente.

Arrependimento e suicídio de Judas (Mt 27:3-10)

Quando viu que Jesus fora condenado à morte (talvez tivesse esperado que Jesus, usando seus poderes, se libertasse dos adversários), Judas se arrependeu, sentiu remorso, e foi devolver as trinta moedas de prata aos principais sacerdotes e aos anciãos:

"— Pequei, traindo sangue inocente.

— Que nos importa? [disseram eles] Isso é contigo."

Judas atirou as moedas para o santuário, saiu dali e foi se enforcar.

Observação:

A narrativa de Lucas não esclarece como Judas se enforcou, embora se costume dizer que o fez pendurando-se pelo pescoço numa árvore.

Os principais sacerdotes e anciãos não quiseram usar as moedas como oferta ao Templo ("porque é preço de sangue"). Resolveram comprar com elas o campo do oleiro, para servir de cemitério a forasteiros (lugar que passou a se chamar "Campo de Sangue").

Cumpria-se, assim, mais uma profecia: "Tomaram as trinta moedas de prata, preço em que foi estimado aquele a quem alguns dos filhos de Israel avaliaram; e as deram pelo campo do oleiro, assim como me ordenou o Senhor". (Mateus cita a profecia como sendo de Jeremias, mas é de Zacarias, 11:12-13.)

Jesus perante Pilatos

(Mt 27:1-2; 11-14; Mc 15:1-5; Lc 23:1-7; Jo 18:28-38)

Logo pela manhã (da sexta-feira), entraram em conselho os principais sacerdotes com os anciãos, escribas e todo o Sinédrio; e, amarrando Jesus, o levaram da casa de Caifás para o Pretório de Pilatos (palácio que era a residência oficial de um governador de província). Mas não entraram no Pretório, para não se contaminarem (no contato com estrangeiros) e poderem comer a páscoa (naquela noite).

Pilatos saiu para lhes falar:

"— Que acusação trazeis contra este homem?

— Se ele não fosse malfeitor, não lho entregaríamos.

— Tomai-o vós outros e julgai-o segundo a vossa lei.

— A nós não nos é lícito matar ninguém."

Observação:

A resposta demonstra que não queriam apenas um castigo para Jesus, mas, sim, a sua morte, para o que precisavam da autorização de Pilatos.

Para obter a condenação de Jesus, não bastaria aos judeus acusado de blasfêmia contra Jeová, pois isso nada significaria para os romanos, que tinham outra religião, com outros deuses. Tiveram de acusar Jesus de traição para com o governo romano. Lucas diz que a acusação foi:

"Encontramos este homem pervertendo a nossa nação, vedando pagar o tributo a César e afirmando ser ele o Cristo e Rei."

Pilatos entrou no Pretório, chamou a Jesus e lhe perguntou:

"— Es tu o rei dos judeus?

— Vem de ti mesmo esta pergunta, ou to disseram outros a meu respeito?

— Porventura sou judeu? A tua própria gente e os principais sacerdotes é que te entregaram a mim. Que fizeste?

— O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui.

— Logo, tu és rei?

— Tu dizes que sou rei. Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, e afim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz.

— Que é a verdade? indagou Pilatos, e voltou aos judeus:

— Eu não acho nele crime algum."

Os judeus, porém, insistiam em acusar Jesus de muitas coisas.

"Não ouves quantas acusações te fazem? perguntou Pilatos a Jesus.

Jesus não respondeu nem uma palavra, o que muito admirou o governador.

A certo ponto, os judeus disseram:

"Ele alvoroça o povo, ensinando por toda a Judéia, desde a Galiléia, onde começou, até aqui."

Ao ouvir falar em Galiléia, Pilatos perguntou se o acusado era galileu. Ante a resposta afirmativa, sendo a Galiléia jurisdição de Herodes (Tetrarca da Galiléia, ou seja, o designado pelos romanos para governar aquela região) e por saber que Heródes estava ali em Jerusalém, Pilatos remeteu a ele o acusado. Com isso, talvez esperasse se livrar daquele caso desagradável.

Perante Heródes (Lc 23:8-12)

Heródes tinha ouvido falar a respeito de Jesus e há muito queria vê-lo, esperando presenciar algum sinal (Lc 9:7-9). Por isso, quando o viu à sua frente, se alegrou muito. E começou a interrogá-lo de muitos modos.

Jesus, porém, nada lhe respondia. Os adversários que o haviam acompanhado até ali é que continuavam a acusá-lo com grande veemência.

Nada conseguindo de Jesus, Heródes, juntamente com os da sua guarda, começou a tratar Jesus com desprezo e, para escarnecer dele, fê-lo vestir um manto aparatoso (como de um rei) e o devolveu a Pilatos.

Nesse dia e por causa desse episódio, se reconciliaram Heródes e Pilatos, que antes viviam inimizados um com o outro.

Novamente diante de Pilatos

(Mt 27:15-31; Mc 15:6-20; Lc 23:13-25; Jo 18:39-40)

Recebendo Jesus de volta, Pilatos reuniu os principais sacerdotes, as autoridades e o povo:

"Apresentaste-me este homem como agitador do povo; mas tendo-o interrogado na vossa presença, nada verifiquei contra ele dos crimes de que o acusais. Nem tampouco Heródes, pois nôdo tornou a enviar. E, pois, claro que nada contra ele se verificou digno de morte. Portanto, após castigá-lo, o soltarei:'

Pilatos percebera que somente por inveja e para manterem seu poder sobre o povo é que os principais dos sacerdotes lhe haviam entregado Jesus.

E, também, sua mulher lhe mandara um recado:

"Não te envolvas com esse justo; porque hoje, em sonhos, muito sofri por seu respeito."

Procurou, então, desviar a corrente de ódio dos judeus.

Jesus ou Barrabás?

Como estavam na Páscoa e era costume, por ocasião de festa, soltar um dos presos, a pedido do povo, perguntou:

"Quereis que vos solte o rei dos judeus?"

Mas os principais dos sacerdotes incitaram a multidão a pedir que lhes soltasse Barrabás (um salteador, implicado numa sedição que causara um homicídio) e fizesse morrer Jesus.

Ainda outra vez o governador perguntou:

"— Qual dos dois quereis que eu vos solte?

— Barrabás! respondeu a multidão.

— Que farei então de Jesus, chamado Cristo?

— Seja crucificado! responderam todos.

— Que mal fez ele? perguntou Pilatos.

— Seja crucificado! clamavam cada vez mais"

Então, para contentar a multidão, Pilatos soltou Barrabás e mandou seus soldados açoitarem Jesus.

A flagelação de Jesus

Os soldados romanos despojaram Jesus de suas vestes e o açoitaram.

Observação:

A flagelação era usada pelos romanos para obterem confissão de crime, ou depoimento de testemunhas, e também para castigar antes da execução os condenados à morte de cruz.

Flagellum era um azorrague (açoite) de tiras de couro com pedaços de metal ou lascas de ossos nas pontas. A vítima era açoitada da cintura para cima.

A coroa de espinhos e o manto

Depois os soldados romanos entreteceram uma coroa de espinhos e a puseram na cabeça de Jesus; vestiram-no com um manto de púrpura (provavelmente o mesmo com que Jesus viera do palácio de Heródes).

Observação:

A púrpura era um tecido muito caro, de cor violácea (todos os tons entre o violeta e o carmesim), usado pelas pessoas ricas, reis e sacerdotes.

Na mão direita, puseram-lhe um caniço e, ajoelhando-se diante dele, o escarneciam: "Salve, rei dos judeus!" e davam-lhe bofetadas, cuspiam nele.

Depois, tomando o caniço de sua mão, davam-lhe com ele na sua cabeça.

Ecce Homo!

Outra vez saiu Pilatos do Pretório e disse ao povo judeu:

"Eis que eu vo-lo apresento, para que saibais que eu não acho nele crime algum"

Trouxeram Jesus, com a coroa de espinhos e o manto de púrpura.

"Eis o homem! disse Pilatos."

Esperava, talvez, comover a multidão, pois a aparência de Jesus, machucado e escarnecido, era de causar compaixão.

Mas, ao verem-no, os principais sacerdotes e seus guardas gritaram:

"— Crucifica-o! Crucifica-o!

— Tomai-o vós outros e crucificai-o; porque eu não acho nele crime algum.

— Temos uma lei [responderam os judeus] e, de conformidade com a lei, ele deve morrer, porque a si mesmo se fez o Filho de Deus"

Ouvindo tal informação, Pilatos ainda mais atemorizado ficou e, tornando a entrar no Pretório, perguntou a Jesus: "Donde és tu?"

Mas Jesus não lhe respondeu.

"— Não me respondes? Não sabes que tenho autoridade para te soltar, e autoridade para te crucificar?

— Nenhuma autoridade terias sobre mim, se de cima não te fosse dada; por isso quem me entregou a ti, maior pecado tem."

A partir desse momento, Pilatos procurava soltado mas os judeus clamavam:

"Se soltas a este, não és amigo de César; todo aquele que se faz rei é contra César."

Ouvindo Pilatos estas palavras, trouxe Jesus para fora e sentou-se no tribunal, no lugar chamado Pavimento (Gábata, em hebraico).

Era a parasceve pascoal (véspera da Páscoa), cerca da hora sexta (das 11 às 12 horas), quando Pilatos disse aos judeus: "— Eis aí o vosso rei.

— Fura.' Fora.' Crucifica-o! clamavam.

— Hei de crucificar o vosso rei? perguntou o governador.

— Não temos rei, senão César, responderam os principais sacerdotes ."

Pilatos lava as mãos

Vendo que nada conseguia, antes, pelo contrário, aumentava o tumulto, Pilatos mandou vir água e lavou as mãos perante o povo, dizendo:

"— Estou inocente do sangue deste; fique o caso convosco.

— Caia sobre nós o seu sangue, e sobre nossos filhos! respondeu todo o povo ali presente."

Então, Pilatos o entregou aos soldados, que levaram Jesus para dentro do palácio, tiraram-lhe o manto, voltaram a vesti-lo com suas vestes e o levaram para ser crucificado.

Comentários finais

1) Lendo as narrativas dos evangelistas sobre o julgamento e a condenação de Jesus, percebe-se, claramente, que foi um processo de falsa justiça. Sob as aparências de legalidade, o processo foi conduzido para a conclusão que queriam: condenar Jesus e aniquilá-lo.

Milton Duarte Segurado, na sua Introdução ao Estudo do Direito, examina o processo a que Jesus foi submetido, apontando os vários erros judiciários.

2) Por que teria Pedro negado a Jesus? Por covardia, já que era atemorizante a possibilidade de também ser preso, sofrer e morrer? Ou quem sabe evitava ser aprisionado porque, em liberdade, pensava melhor ajudar o Mestre?

De qualquer maneira, o momento não era para negação e, sim, de testemunho corajoso, que Pedro não deu.

Ante as lutas e tentações da vida, fiquemos alerta para não falharmos em nossos testemunhos de fé nos ensinos de Jesus, de confiança na orientação cristã que ele nos legou.

3) Que grande engano o de Judas, suicidando-se por haver entregado Jesus aos seus inimigos! O suicídio não corrige a falta anterior, é uma segunda falta e complica ainda mais a situação espiritual de quem errou. Mais vale enfrentar humilde e resignadamente as consequências do erro e aprender com a experiência dolorosa e não mais falhar, procurando fazer o bem que possa para compensar o mal que ensejou.

4) Por que Jesus nada respondeu a Heródes? Não seria um bom momento para ensinar a ele o bom caminho? Ainda mais que era um rei...

A Jesus não faz diferença a posição social da criatura e, sim, a sua disposição interior para receber a mensagem. A Heródes, Jesus já chamara de "raposa"; de fato, o rei era muito esperto, grande político, mas não estava interessado em coisas espirituais, apenas queria presenciar fenômenos, já que falavam coisas admiráveis sobre Jesus; talvez também desejasse agradar Pilatos, manifestando interesse por Jesus, pois fora Pilatos quem lho enviara.

Por conhecer a alma de Heródes é que Jesus nada lhe respondeu; não adiantaria, nem ele estava realmente interessado.

5) Notamos que Pilatos procurou ser justo ante a acusação infundada contra Jesus, mas não resistiu ao apelo para defender seus próprios interesses; então, se omitiu.

6) Quanto aos israelitas, ainda hoje são acusados por alguns de serem "os assassinos de Jesus". Mas os atuais israelitas não são responsáveis pelo que seus ancestrais fizeram, pois são outros Espíritos. A responsabilidade de cada um é pessoal e não se transfere aos seus descendentes corpóreos. Mesmo dos reais culpados a falta já terá sido ressarcida, por meio da lei da reencarnação.

Therezinha Oliveira