CAPÍTULO 7 AS TRÊS REVELAÇÕES

CAPÍTULO 7 - AS TRÊS REVELAÇÕES

Revelações espirituais

Com a inteligência de que Deus os dotou, os seres humanos fazem descobertas, tomam contato com a realidade universal (material e espiritual),'passando a conhecer e entender seus processos e finalidades e, assim, vão progredindo sempre mais.

O entendimento que não possam alcançar por si mesmos lhes é proporcionado pela Providência Divina, através da revelação (revelar = tirar de sob o véu).

As revelações espirituais se fazem:

- através de médiuns missionários, que servem de intermediários para os bons Espíritos transmitirem às criaturas as leis de Deus (no Velho Testamento, são chamados de profetas = porta-vozes, anunciadores);

- por Espíritos superiores que encarnam na Terra especialmente para esse fim.

E são proporcionadas de acordo com o estado evolutivo dos povos a que se destinam, a fim de poderem ser aceitas e assimiladas.

Ao longo da história da humanidade, os povos têm recebido revelações espirituais adequadas à sua época e à sua gente.

Todas essas revelações são respeitáveis e, basicamente, concordantes nas verdades fundamentais: Deus, imortalidade, justiça divina, fraternidade.

Para os cristãos e à luz do Espiritismo, identificamos três grandes revelações, que vieram dar às criaturas na Terra, em sucessão harmoniosa e progressiva de ensinos, o melhor conhecimento espiritual que lhes é possível assimilar até agora.

Essas três revelações são: a mosaica, a cristã e a espírita.

1ª - Revelação: a de Moisés

Foi feita aos hebreus, por Moisés, cerca de 1.300 anos antes da era cristã.

A humanidade já havia atingido, nessa época, um plano de evolução mental capaz de encarar o Universo como um processo total, de maneira global.

Daí a revelação de Moisés destacar-se pela idéia de um Deus Único (monoteísmo) e providencial (criou o mundo todo e todos os seres e por eles vela).

Foi uma revelação de importância fundamental para o desenvolvimento da civilização humana.

Entretanto, como condutor de um povo e com o fito de coibir a série de abusos e desregramentos que grassavam no seio dele, Moisés estabeleceu leis morais, religiosas, políticas, civis e até preceitos de higiene.

O mesmo fizeram, de certa forma, os profetas hebreus que, depois dele, ajudaram a entender, corrigir e fixar os ensinamentos espirituais da revelação mosaica.

Não se pode, pois, encarar todo o sistema, esboçado por Moisés e os profetas do Velho Testamento, como verdade incontestável e originária de fonte divina e eterna.

É imperioso fazer-se, na revelação mosaica, uma delimitação entre a parte divina (imutável e eterna) e a humana (reformável e transitória).

A lei civil (ou disciplinar) de Moisés

As leis civis variam de acordo com os costumes e o caráter de cada povo, modificando-se com o tempo.

As leis civis de Moisés visavam a orientar a vida na comunidade hebraica de então, incutir hábitos de higiene, evitar mescla dos seus costumes com os dos povos bárbaros.

Algumas eram boas, outras não.

Como médium (profeta), Moisés tinha a incumbência de guiar o povo de Israel à terra prometida e atuava transmitindo as instruções do mais Alto.

Como chefe político, civil e militar, porém, era muito zeloso da unidade nacional e religiosa do seu povo e dava ordens nem sempre de acordo com a inspiração superior.

Assim, não podem ser de inspiração divina algumas de suas ordenações, que já examinamos no primeiro capítulo - "A Bíblia".

Ainda menos divina é a terrível e longa maldição anunciada para quem "não quiser ouvir a voz do Senhor teu Deus, e não guardares e praticares todas as suas ordenações e as cerimônias que eu hoje te prescrevo" (ver todo o capítulo 28 do Deuteronômio).

Por isso, entre as leis civis que Moisés estabeleceu, vamos encontrar a velha "pena de talião" (pena igual ao crime), no "olho por olho, dente por dente", e a proibição do intercâmbio com os mortos, que estava sendo feito de modo abusivo e para fins materiais, egoístas e imediatistas.

A lei divina na revelação mosaica

Bem diferente das leis civis de Moisés é a lei divina de que ele foi o porta-voz. Lá está, condensada no Decálogo (os dez mandamentos), a moral natural, básica e invariável em todos os tempos e povos.

Relembremos esses dez mandamentos, tais quais estão em Êxodo (20:1-17) e Deuteronômio (5:6-21) e notaremos que os quatro primeiros deles regem a relação da criatura para com Deus, e os demais, para com os seus semelhantes.

1) Não adorar outros deuses.

2) Não idolatrar (não fazer imagens nem figuras para adoração ou prestação de culto).

3) Não tomar o nome de Deus em vão.

4) Guardar o dia de sábado.

5) Honrar pai e mãe.

6) Não matar.

7) Não adulterar.

8) Não roubar.

9) Não dizer falso testemunho.

10) Não desejar a mulher do próximo nem cobiçar nenhum de seus bens.

A revelação mosaica anuncia a vinda do Messias e, com isso, faz a relação do seu próprio conteúdo com a revelação que viria posteriormente, em sequência.

Os profetas também anunciaram a vinda do Messias.

2ª Revelação: a do Cristo

Cerca de 1.300 anos depois, o povo hebreu já evoluíra um tanto mais, sob a lei mosaica e os profetas, e precisava de uma nova revelação.

É então que, como fora predito, vem o Messias (Jesus, o Cristo) para lhe trazer os novos ensinamentos espirituais.

Pregava Jesus "como quem tinha autoridade e não como os escribas". No Sermão do Monte, proclamava: "Ouvistes que foi dito" (fazendo menção aos ensinos antigos); "eu, porém, vos digo" (e ministrava os novos ensinos).

Para alguns, Jesus estaria contrariando as leis divinas anteriormente reveladas por Moisés e os profetas. Jesus esclareceu:

— "Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas; não vim para revogar, vim para cumprir". (Mt 5:17)

De fato, ele não derrogou a parte divina e moral da lei já revelada, pois uma revelação verdadeira não anula princípios básicos que as anteriores ministraram. Mas a parte humana, Miscetível de ser alterada, essa ele enfrentou, reformou, revogou e combateu.

Para dar verdadeiro cumprimento às leis divinas, Jesus teve de:

1) Descomplicar o ensino da lei (as prescrições inúmeras confundiam o povo), relembrando e resumindo: "Amar a DEUS" sobre todas as coisas e "ao próximo" como a si mesmo (Mi 22:36-40).

2) Passar a instrução do aspecto "controlador" (não fazer), para o "realizador" (positivo, fazer): "Tudo quanto quereis que homens vos façam, fazei-o vós a eles" (Mt 7:12).

3 ) Retirar os acréscimos que tinham sido feitos pela má-fé ou ignorância: "doutrinas que são preceitos de homens", "toda planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada" (Mt 15:9 e 13).

4) Corrigir as más interpretações, mostrando o verdadeiro sentido dos ensinos: "O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado" (Mc 2:27).

5) Desenvolver e adaptar os ensinos ao grau de maior adiantamento moral do povo, estimulando a uma conduta mais evoluída. Onde se orientava "amarás ao teu próximo e aborrecerás ao teu inimigo", propõe: amar ao inimigo, fazer-lhe o bem, orar por ele (Mt 5:43).

6) Estender a mensagem a todas as criaturas (não apenas aos hebreus): "Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha voz; haverá um rebanho e um pastor" (Jo 10:15).

Explica que começava uma nova fase de evolução ( "Porque todos os profetas e a lei até João profetizaram"). Agora, cada qual tinha de se esforçar por entender a vontade divina e agir de acordo com ela, voluntariamente e não por imposição ("Desde os dias de João Batista até agora, o reino dos céus é tomado por esforço e os que se esforçam se apoderam dele") (Mt 11:12-13).

O anúncio do Consolador

Tendo ensinado tanto, Jesus ainda não pôde dizer tudo declaradamente. "Muitas coisas tenho para vos dizer mas vós não as podeis suportar ainda." (Jo 16:12) Era preciso aguardar maior amadurecimento do espírito humano e que progredisse no conhecimento científico.

Pediu a eles: "Se me amais, guardai os meus mandamentos; e eu rogarei ao Pai e ele vos enviará outro Consolador; afim de que fique eternamente convosco, o Espírito de Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê e absolutamente o não conhece, mas, quanto a vós, conhecê-lo-eis, porque ficará convosco e estará em vós.

Porém, o Consolador, que é o Santo Espírito, que meu Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos fará recordar tudo o que vos tenho dito." (Jo 14:15-17 e 26)

Era o anúncio de uma sequência na assistência e revelação espiritual para a humanidade, futuramente.

Façamos um parêntese para analisar o Consolador Prometido por Jesus.

Consolador = paráclito, advogado, defensor.

Do grego parakletos = chamado para junto de.

Traduzido para o latim advocatus = chamado para junto de, a fim de assistir, assessorar, instruir como falar e agir, acompanhar e defender (Sabedoria do Evangelho - vol. 8, pág. 14).

O Consolador não é Jesus (ele mesmo assegura que é "outro").

Nem é uma pessoa, mas elemento espiritual (justamente por isso poderá ficar "eternamente" com os discípulos).

Também não é nenhum Espírito, mas "Espírito de Verdade", "Espírito Santo", o mundo "não o pode receber, porque não o vê nem o conhece" (muito apegadas à matéria, a maioria das pessoas não crêem no espírito, não se interessam pelas coisas espirituais e, em consequência, nada sabem da vida imortal nem dos Espíritos, habitantes do plano invisível).

Mas "vós o conheceis, porque habita convosco e estará em vós" (apóstolos já sabiam da vida espiritual e contavam com assistência dos bons Espíritos).

Quando o Consolador vier, "vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito" (do que Jesus falou, muita coisa iria sendo esquecida), "vos ensinará todas as coisas" ou ainda "vos guiará a toda a verdade" (o que não fora entendido, o que fora interpretado erroneamente pela ignorância, ou que a má-fé omiti-la ou deturpara), "e vos anunciará as coisas que hão de vir" (processo do conhecimento humano ensejaria novas revelações a melhor explicação daquilo a que Jesus apenas aludira por alto).

3ª Revelação: a do Espiritismo

A luz da codificação kardequiana, reconhecemos no Espiritismo (Doutrina dos Espíritos) esse Consolador Prometido, a terceira revelação, revivescência e continuidade do Cristianismo.

Argumentam alguns: o Consolador já não se manifestou no Dia de Pentecostes?

Sem dúvida, os Espíritos do Senhor se manifestaram então gloriosamente, através da mediunidade dos apóstolos, em meio a efeitos físicos (sonoros e luminosos), além da psicofonia (falando sobre as "grandezas de Deus") e no idioma natal de cada um que ali se encontrava (xenoglossia).

Mas não se manifestaram apenas nesse dia os Espíritos do Senhor. Continuam se comunicando, conforme a promessa de Jesus: "Onde duas ou mais pessoas estiverem reunidas em meu nome, eu aí estarei com elas."

Posteriormente, porém, os que haviam assumido a liderança dos agrupamentos cristãos impediram o intercâmbio mediúnico. E não havia mais ambiente para a manifestação do Consolador.

Por isso, em meados do século XIX, "os Espíritos do Senhor, que são as virtudes dos céus, qual imenso exército que se movimenta ao receber as ordens do seu comando, espalham-se por toda a superfície da Terra" (Prefácio de O Evangelho segundo o Espi¬ritismo) produzindo fenômenos, prodigalizando ensinamentos.

E, em 1857 (dezoito de abril), codificado por Allan Kardec, o Espiritismo surge da revelação dos Espíritos Superiores, apoiando-se na comprovação pelos fatos.

Ensina a existência e a natureza do mundo espiritual; suas relações com o mundo corpóreo (sem nada maravilhoso ou sobrenatural); e quem somos, de onde viemos, por que estamos na Terra e para onde iremos.

Também não vem destruir a Lei Divina, revelada através de Moisés e os Profetas, nem o que Cristo ensinou.

Pelo contrário: recorda tudo isso; mas expurga os acréscimos indevidos; corrige a má interpretação (penas eternas, proibição do intercâmbio mediúnico etc); desenvolve, completa e explica (perispírito, reencarnação, lei de causa e efeito, evolução etc).

"Ele me glorificará (disse Jesus, ainda, sobre o Consolador), porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar."

E o Espiritismo recebe de Jesus: a verdade que ele já deixara na Terra, mais o que não pudera dizer antes e, do mais Alto, envia agora em continuidade.

Recebe de Jesus e anuncia a todas as criaturas sem nada impor, convidando ao exame pela razão, como Jesus fazia ("ouça quem tem ouvidos de ouvir e veja quem tem olhos de ver").

Apresenta-se em tríplice aspecto - ciência, filosofia e religião - para atender a todas as possibilidades e necessidades do pensamento e ação humanos. Faz a aliança da Ciência e da Fé, mostrando que são as duas alavancas da inteligência humana, revelando uma: as leis do mundo material, e a outra: as do mundo moral, não precisando, pois, contradizer-se (pois essas leis têm o mesmo princípio, que é Deus), antes devendo se apoiarem mutuamente (O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. I).

Assim, "Atrai para os verdadeiros princípios da lei de Deus e consola pela fé e pela esperança" (O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. VI).

Nele se conjugam a revelação divina (de iniciativa dos Espíritos) e a elaboração humana (pesquisa, análise, conclusões, aplicação).

Mas tamhém o Espiritismo ainda não disse tudo o que há para se saber espiritualmente, nem o poderia fazer, pois a humanidade continua em progresso. A revelação espírita tem, portanto, um caráter progressivo, admitindo modificar-se (se em algum ponto houver erro) e aceitando as novas verdades comprovadas que vierem a ser reveladas (Allan Kardec, em A Génese, Cap. I, item 55).

Caráter principal de cada uma das três revelações

Na revelação mosaica, é a idéia de justiça.

Na revelação do Cristo, é o amor.

Na revelação do Espiritismo, é a verdade consoladora.

Entretanto, se a primeira revelação pode ser personificada em Moisés, e a segunda revelação em Jesus Cristo, a terceira revelação, sendo dos Espíritos o ensino, não se centraliza na pessoa de Allan Kardec, que é somente o seu Codificador (trabalho que executou com extrema dedicação, eficiência e fidelidade).

bibliografia

Aureliano Alves Netto: Artigo "Os Dez Mandamentos", em Correio Fraterno do ABC, janeiro, 1982.
De Herculano Pires: Artigo "Por que o Espiritismo é a 3a Revelação?", em O Semeador, 2a quinzena, feveiro, 1988 (São Paulo).
Leon Denis (FEB): (Wistianismo e Espiritismo.
Paulo Alves Godoy: Artigo "Não Vim Destruir a Lei", em Unificação, agosto, 1976.

Therezinha Oliveira