II - NO LAR DE BARNABÉ

II - NO LAR DE BARNABÉ

Barnabé deixou a sinagoga pensando em como seria o novo Rei aguardado por todos.

Chegando em casa, encontrou-se com Orlinda, a esposa a aguardá-lo com Benedites, seu primeiro filho.

— Passaste no templo e oraste muito esta noite? - indagou-lhe Orlinda.

— Sim! Estive muito tempo na sinagoga. Não pretendo permanecer nestas terras. Deixarei aqui o meu pai e irei para Damasco. Tentaremos uma vida nova. Há rumores, por todo lado, por todas as sinagogas, sobre a chegada de um Messias, mas as palavras são muito truncadas. Agente não entende o que dizem esses mestres. E' uma linguagem complicada! Eu tanto pergunto e tão poucas respostas obtenho! Estou cansado desta minha lida! Esta propriedade passou do meu avô para o meu, teu pai e é passada para mim. Por aqui sempre ouço que chegará o Messias - mas quem será esse Messias? Acho que esses pregadores estão endoidecidos. Eles lêem muito e tudo que se tem há de se barganhar com eles. São autênticos donos da verdade, da razão. O que nos sobra ainda é levado para longe daqui por esse maldito César! Sim, ando muito cansado. Fiquei no templo a noite inteira. Pretendo mesmo mudar de vida. Sim, iremos para Damasco! Amanhã estarei com Simeão. Hoje todos descansam, ninguém faz nada, porque é sábado, mas ele me prometeu que amanhã virá nesta nossa propriedade. Ele sabe que pretendo deixar esta região da Galileia para buscar em Damasco um outro ramo de vida. Tenho vários amigos que foram para lá e se deram muito bem. Devemos buscar uma nova forma de vida. Por toda parte se fala na chegada desse novo Rei, mas acho que tudo é ilusão da mente desses nossos imiãos. Imagina! Quem ousaria enfrentar César e seus exércitos?! Há muitas coisas que não compreendemos e entender isso está muito longe de nós. Não, não ficarei por aqui aguardando esse determinado Messias, esse determinado Rei. Pretendo ir embora daqui, buscar novas terras, novas condições de vida para a nossa família. Tenho sido muito severo para comigo mesmo, tenho rezado bastante, tenho procurado muito me espiritualizar, mas o que se vê é apenas oração e mais oração, de dia e de noite. Atravessamos a noite orando e orando. Pretendo agora descansar um pouco, colocar o meu esqueleto em repouso. Como hoje nada se pode fazer, descansarei, mas hei de tentar uma nova vida noutro lugar! Se a coisa não der certo, retornaremos para cá, sem que nada venhamos a perder.

Barnabé repousou naquele resto de noite e naquele novo dia. Assim que o Sol se foi, observou que as suas ovelhas precisavam de cuidados. Chamou o pequeno Benedites e lhe disse:

— Estás descansado e já a noite avança. Amanhã, bem cedo, deves juntar as ovelhas, pois pretendo contá-las para ver o que é que com elas podemos fazer.

Passou a noite e o Sol nem aparecera quando Benedites saiu em busca das ovelhas. Com os seus apenas oito anos, ele já obedecia em tudo a seu pai.

Perdido naquela escuridão, o menino sentiu medo. De repente sentiu na cabeça o toque de uma mão e uma voz a lhe dizer:

— Filho, não tenhas medo! Observa: as ovelhas são mansas e nada de mal poderão fazer para ti. Eis que teu pai te mandou tão cedo para esta lida, mas nada deves temer, pois eu ficarei contigo até o alvorecer, quando então irei embora.

Es ainda uma criança, mas ouve: não foi apenas o descuido do teu pai que te enviou até aqui. Tu, menino, carregarás nas mãos a sabedoria! Não permanecerás aqui: alcançarás novas terras e lá um dia entenderás o que hoje te acontece aqui.

Aquele senhor de barba e cabelos longos, de brancas vestes, lá ficou até o amanhecer, à margem de um riacho. Benedites, sentado numa pedra, expressava um visível cansaço.

Eis que por ali passava Simeão, rumando à casa de Barnabé, e, vendo Benedites, indagou-lhe:

— O que fazes aqui tão cedo, menino?

—Aqui estou há muito tempo, atendendo à vontade do meu pai, que ordenou que eu cuidasse destas ovelhas.

— Mas como pode ser uma coisa desta?! És uma criança e haverias de estar ainda dormindo. Conversarei com o teu pai e o repreenderei por isto. Estás sozinho?

— Não. Há ali um senhor...

— Onde?

— Lá debaixo daquela árvore. Ele ficou comigo desde a noite e disse para que eu nada temesse, pois estaria sempre ao meu lado. Deve ser algum amigo do meu pai, alguém que não teria a confiança dele e aqui esteve para me ajudar a vigiar as ovelhas..

Sábias palavras saem da tua boca, menino! Como sabes que não devemos confiar nas pessoas?

Ora, meu pai sempre me ensinou que perante um estranho devemos suspeitá-lo, mas desconfiando dele. Vai até lá e conversa com aquele senhor. Vê? Ele está ali...

Benedites se virou para mostrar aquele senhor e viu que ele não estava mais líi onde estivera o tempo todo. Assustado, disse: —Mas havia alguém comigo!

— Deve ser algo criado por tua cabeça. Onde já se viu uma coisa desta?! Como podes ter estado aqui por toda a noite?!

Os dois deram uma espiada nas ovelhas e foram ter à casa de Barnabé. Orlinda já estava de pé e atendeu Simeão, que perguntou a Barnabé:

— Onde está o teu filho?

— Está dormindo.

—Não! Encontrei-o lá embaixo, na fonte, onde todas as ovelhas estavam reunidas. Disse que passou lá quase a noite inteira.

— Ora, esse menino deve estar ficando doido!

— Pois foi o que eu também disse a ele. Porém ele afirmou que tu mesmo mandaste que ele descesse e mantivesse o rebanho unido.

— Ele deve estar maluco!

— Não! - atalhou Orlinda. — Ordenaste mesmo aquilo ao menino.

— Ora, não me lembro disso!

— Barnabé - disse Simeão -, estás com a cabeça muito confusa. E' que passamos a noite em oração, sem dormir, e a falta de sono às vezes faz com que percamos o sentido ao dizer alguma coisa. Mas é muito perigoso o que ocorreu com Benedites.

Ele é ainda uma criança. E deves saber que criança alguma da Idade dele poderia conversar da forma que conversou comigo. E' uma criança diferente, dotada de certas coisas que não vejo noutras crianças.

Nas visitas que faço aqui tenho observado esse menino e visto nele algo diferente.

Barnabé chamou o filho e disse:

— Benedites, estás louco?! Como podes sair por aí à noite para ir atrás do rebanho?! Deves estar louco mesmo!

O menino, em respeito ao pai, permaneceu em silêncio. Sua mãe se adiantou, dizendo:

— Viste menino mal andava e já estava dependurado nessas ovelhas. Acostumou-se com elas, cresceu no meio delas.

Voltando-se para o filho, disse ela:

— Benedites, meu filho, não faças mais o que fizeste, nem com a tua mãe nem com o teu pai. Serás castigado para não repetires o que fizeste!

— Por que castigá-lo? - perguntou Simeão, defendendo-o. Benedites, sem muito entender de tudo o que ocorrera, saiu dali e foi sentar-se sobre uma pedra que havia sob uma grande árvore em frente à porta. Orlinda, chegando até ele, disse:

— Ficarás aí de castigo!

Barnabé, abrindo um outro diálogo com Simeão, disse-lhe:

— Como te afirmei, há muita gente deixando este lugar e tentando a vida em Damasco. E' um local mais distante da tirania romana e abre mais oportunidades para se prosperar. Sim, porque vós, mestres e sacerdotes, morreis de medo dos soldados romanos e permitis que eles levem tudo o que temos...

— Sim, concordo contigo. Porém, o que podemos fazer para nos defender de tal opressão?! Temos família, os filhos e as esposas para cuidar. Se ousarmos levantar qualquer coisa contra esse povo, ele não hesitará em se levantar também contra nós para nos arrasar de todas as formas. Com isso poderíamos até perder para ele o nosso sangue, principalmente eu... Parati, Barnabé, a coisa é mais fácil, mas, quanto a mim, não estou sozinho: são muitas as famílias que assisto na sinagoga.

Cabe-me ensinar a todos o respeito a todas as leis. Vou sempre a Jerusalém para receber grandes ensinos dos sacerdotes e repassá-los a esta nossa gente. Há muitos rumores sobre as mudanças. Tem paciência, Barnabé! Fica por aqui mesmo. E' certo que o novo Rei logo virá e então verás como seremos livres dos romanos.

— Simeão, meu velho amigo, há quanto tempo estamos juntos, eu na minha propriedade e tu na tua vizinha propriedade! Aqui trabalhamos, obedecemos a todas as leis de Deus, enfrentando o Sol, cuidando dos nossos rebanhos. Más os problemas com as pastagens, há o frio que nos castiga e, do pouco que nos resta, logo vem o pessoal de Roma a levar tudo como maldito imposto! Ora, tu mesmo dizes que somos judeus, que somos o povo de Deus, que somos uma nova raça para a humanidade, que seremos soberanos por sobre todas as nações, que seremos guiados por Deus... Já estou cansado de tudo isso! Passa ano e vem ano, sem nada e nada mudar. É sempre a mesma coisa, a mesma ladainha, o anúncio da chegada de um Salvador que nunca vem... E com isso já nem mais sabemos com que alimentara nossa família, tenho um filho, tenho dificuldadesetenho medo de ter outro e outros filhos que talvez não possa sustentar. Ora, sei que tu, além de imigo, és meu irmão, e sei que nossas ovelhas estão todas preparadas. Contá-las-emos e tu passarás a cuidar delas.

— Pois bem, amigo! Tratá-las-ei com o maior amor e carinho. Meu filho já um jovem e está sendo destinado a uma jovem chamada Erlinda. Ela vem da ascendência de Abraão, Isaque e Jacó. É uma família justa por excelência e estou certo de que a tua propriedade não terá mãos melhores para ser cuidada. Entretanto, convido-te ainda a que façamos o que havemos de fazer. Estou certo de que o novo tempo virá! No grande templo sempre falam da chegada do Messias e afirmam que os sinais estão nos céus e que já é chegado o momento da vinda do Messias. Ah! Verás então o mundo mudar!

—Tenho mesmo muito desejo de ver a mudança das coisas, a mudança de tudo; de que esse povo romano permanecesse em Roma, com o seu próprio pessoal, que lá vivesse em paz e deixasse que em paz cuidássemos das nossas vidas. Ora, ninguém sai daqui e ousa desafiar César e Roma para lhes cobrar tributo ou algo assim.

— Tem paciência, amigo! Deus é o Eterno c Ele é soberano e justo! Ele esteve com Abraão e traçou o nosso rumo. Ele nos enviará o Messias, assim como nos enviou Moisés. Ora, o Egito era uma força ainda maior do que a Roma que temos hoje, e Moisés desafiou o faraó e todas as autoridades egípcias, e tirou da barba deles todo o povo escravo que é hoje a nossa descendência.

— Sim, saímos do Egito! Comemos e bebemos com a maior dificuldade no meio do deserto afora, ao que dizem as nossas escrituras, e chegamos nos dias hoje, e juntos chamados de povo de Israel, e temos o nosso Deus. Ora, não assumimos a
mesma anterior condição de escravos, agora perante o povo romano? Trabalhávamos e comíamos por nós mesmos, e hoje trabalhamos e temos de alimentar os filhos de Roma. E se alguma voz se erguer contra César, severa será a punição.

E devo dizer-te, irmão: já vi muita gente erguida numa cruz, já vi muito sangue derramado sem que do nosso povo se esboçasse uma simples reação.

— Não apenas os teus, mas também os meus olhos viram isso, irmão! E' o que acontece todo dia em Jerusalém, porque lá se concentra a força de Roma e ela faz calar a voz dos sacerdotes, pois também eles não têm como desafiar Roma. Se l leso fizessem, vidas e vidas seriam sacrificadas e da mesma fornia Roma continuou dominando. Há mesmo muitos que se arrogam em heróis, em homens fortes, e da mesma forma caem nas garras dos romanos e são impiedosamente assassinados. Eu também sofro as mesmas sanções, meu irmão! Contudo, já experimentaste contemplar estas terras com mais gratidão? Elas nos foram passadas pelos nossos pais para que aqui criássemos as nossas famílias, para que aqui crescêssemos e nos tomássemos homens de bem. Tivemos a herança da nossa religião, a Santa Escritura, para que contemplássemos no passado a glória dos grandes profetas que fizeram com que nos tornássemos este povo. Tu podes ir embora, Barnabé, mas eu não arredarei daqui os meus pés! Permanecerei por aqui, por aqui edificarei a minha família e continuarei a rogar ao Eterno o bem dos tantos irmãos que me procu¬ram na sinagoga.

— Simeão, tu ainda tens no que cantar glória. Tens atua excelente moradia, um tanque para teus banhos. Vê agora a minha casa. Aqui viveram o meu pai, a minha mãe, os meus irmãos. Deles recebi a propriedade para cuidar. Observa quanta beleza!

Sei que, estando longe daqui, furtar-me-ei de contemplar tanta maravilha. Talvez eu sinta muita saudade daquela fonte, daquele riacho que dessedenta a mi¬nha família, as minhas ovelhas e o teu próprio rebanho. Sim, eu sei! Porém, partirei e um dia retornarei. Espero não demorar muito por lá. Quero apenas experimentar a vida em Damasco. Sei que os romanos estão de lá muito próximos, mas por lá eles não andam muito e isso me abre a oportunidade de poder prosperar. Tenho os meus irmãos que foram para terras distantes, para vários locais da Pérsia, e lá comercializam vestes. Pretendo instalar-me no comércio de Damasco, cidade grande e diferenciada das demais. Tenho lá um primo que aqui esteve tempos atrás. Irei, mas deixarei aqui minha esposa c filho, que virei buscar mais à frente.

Dizendo isso, Barnabé foi até Beneditcs e lhe disse com severidade:

— Proíbo-te de fazer o que fizeste! Não podes fazer uma coisa dessa!

— Quem é que estava contigo? - perguntou Simeão ao menino.

— Não sei. Era um senhor muito alegre. Tinha o sorriso estampado no rosto. Esteve comigo por toda a noite. Disse-me que não era por acaso que eu estava ali sozinho e que triunfarei longe destas terras.

— E' tudo imaginação tua - disse-lhe Barnabé. — As vezes o próprio medo cria uma imagem e ela faz com que as coisas aconteçam.

— Sobre o Céu e sobre a Terra - observou Simeão - acontece tanta coisa em que até nós descremos. Recordo-me da minha infância, de quando eu por aqui pulava. Ninguém imaginava que eu pudesse ir estudar em Jerusalém e depois vir aqui ensinar a este povo. Barnabé, se hoje há muita dificuldade, naquela época era muito pior. Agiam os saqueadores roubando a nossa comida, as nossas ovelhas, o nosso trigo, o nosso pão. Porém, vencemos! Então chegaram os romanos e foram colocando em tudo uma certa ordem, de tal forma que hoje já não temos mais ladrões em nossas regiões. São presos e executados, sem perdão. Então por que nao relletes melhor antes de partires? Aqui a vida é difícil, mas pelo menos podemosi plantar, colher, cuidar das nossas ovelhas. Deus tem sido muito generoso para conosco.

— Sim, para ti está tudo muito bem. Tens a tua moradia e o teu sustento. Tenho também a minha moradia, os meus pertences, mas não penso apenas nisso. Daqui a alguns dias partirei para Damasco!

Benedites, olhos lacrimejantes pela repreensão severa dos pais, lá estava sentado, ouvindo tudo.

JOÃO BERBEL