III - EM DAMASCO E NA PÉRSIA

III - EM DAMASCO E NA PÉRSIA

Barnabé realmente seguiu para Damasco e lá se instalou, buscando algo diferente, uma vida mais confortável para a família que deixou na sua antiga propriedade.

Na grande cidade ele tinha no seu primo Osnã um porto seguro, aquele que se tornara por ali tal um andarilho, um cigano a explorar daqui e dali as mais fáceis chances de sobreviver.

Aquele comerciante observara o grande potencial representado pelas vestes fabricadas na Pérsia, encontrando então cm Damasco o local certo para comercializar tal produto. Há tempos, ansioso, aguardava pelo primo para que juntos pudessem melhor desenvolver aquela atividade.

Barnabé conseguiu um alojamento que lhe daria toda a garantia de prosperar naquele negócio. Sabia que de Damasco poderia comercializar as vistosas vestes até mesmo com os sacerdotes em seus grandes templos.

Osnã contava com uma grande tropa que lhe servia em suas viagens por aquelas distantes regiões.

Aquelas viagens eram dificultosas. Levavam semanas e meses, dependendo do clima desértico a enfrentar.

Barnabé começou a oferecer por ali aquelas vestes, em curtas viagens, e logo se tornou muito conhecido.

Benedites crescia. Orlinda ficou grávida e nasceu um rebento. Barnabé se lembrou de um antigo pregador chamado Camarfeu e foi este mesmo o nome que escolheu para o seu novo filho.

A família do dedicado e próspero Barnabé conseguiu uma nova casa que lhe dava mais conforto.

Entretanto, os romanos iam aos poucos ganhando mais espaço em Damasco.

Certo dia, Osnã chegou muito cansado e disse a Barnabé:

-Estas muito bem. Até já trouxeste para cá a tua família. Já estou muito cansado. Tu então farás a próxima viagem, enquanto ficarei tomando conta de tudo por aqui.

Barnabé estranhou aquela atitude do primo e disse:

Osnã, estás muito nervoso e muito cansado. Deves parar por uns tempos. Ainda não viajei por aquelas paragens e nada conheço daquilo.

— Ora, temos muitos serviçais. Eles te acompanharão. Preciso descansar. As estradas estão muito perigosas. Há saqueadores por toda parte. Lá para o lado da Galiléia vivem também os meus familiares. Há muito tempo não vou por lá e então pretendo ir até lá para descansar.

Como vai o teu irmão Joaquim?

— Sei que ele está lá para o lado da Galiléia, sei que anda muito pela Numária, pela Judéia. E' um homem muito religioso. Sei que meu pai já partiu e ele continua por lá. Tão jovem parti de lá, deixando a minha casa! Neste mundo já não conto mais com a companhia do meu pai e da minha mãe. Sigo aqui a vida com a esposa e os filhos. Com a tua chegada, Barnabé, os meus negócios prosperaram bastante. Para te falar a verdade, tenho agora pouco ânimo de prosseguir nos trabalhos, e trabalhos, porque as coisas não andam muito bem para o nosso lado. Minha esposa muito reclama por e u ficar ausente do lar, o que para mim é inevitável, pois tenho de viajar incessantemente.

- Pois bem! Sei que fiquei com a parte melhor de toda esta situação, mas também que estamos juntos nesta lida. Se, pois, o desejas, viajarei.

Em dias foi preparada a viagem para aquele mundo desconhecido por Barnabé.

O pequeno Camarfeu ainda nem andava. Disse Barnabé a Beneditos:

— Tens a tua mãe e o teu irmão para cuidar. Eles estarão em tuas mãos, filho!

- Não, pai! - discordou Benedites. — Bem posso viajar com o senhor, Tenho que aprender essa tua lida, porque um dia o cansaço chegará também para o senhor, assim como ocorre agora com o teu primo. Posso assumir os negócios...

Barnabé fitou o seu filho, já um bem-formado e inteligente rapazinho.

- Leva o menino contigo - disse Orlinda. — Ele é muito esperto e, quanto a mim, ficarei bem. Temos muito com que sobreviver e, ademais, teu primo permanecerá por aqui com os familiares. Mal algum deves temer quanto a isto. E' bom que Benedites vá contigo para conhecer a tua lida.

Na manhã do outro dia já saía a caravana. Barnabé e o filho levavam toda a bagagem necessária à longa viagem.

Douglas, um velho sábio, era o guia daquela caravana. Conhecia na palma da mão aqueles perigosos caminhos da Pérsia. Viajava desde pequenino.

Logo Benedites criou grande simpatia por aquele velho guia. Os dois iam à frente daquela caravana de doze homens.

A certa altura chegaram numa pousada que era ponto de parada transitória dos viajores. Muitos ali se reencontravam, se reconheciam.

Douglas bem sabia que Barnabé era um homem inexperiente naquelas viagens. Sabia que, naquelas paragens, qualquer palavra mal falada servia para provocar um desarranjo, um desentendimento. Havia muitos saqueadores e eies poderiam criar alguma situação vendo e analisando aquela caravana. Assim, Douglas houve por bem seguir cm frente, afastar-se daquela costumeira rota, criando um roteiro alternativo.

Chegou a noite. Todos estavam cansados pela longa caminhada e pediam por uma parada de repouso.

Bem tarde da noite, Barnabé pediu a Douglas que parasse a caravana, mas ele disse:

— Que todos mantenham a força de caminhar, pois daqui a pouco encontraremos o local certo para o repouso.

Caminharam ainda e logo encontraram o local visado por Douglas.

Deixaram os animais descansando e por ali permaneceram.

Todos estavasm exaustos e famintos. Douglas, inquirido por Barnabé, disse que os homens e os animais precisavam alimentar-se. Quando viu Douglas dando pão aos cavalos, Barnabé estranhou e reclamou, ao que justificou o sábio guia:

— Eles carregam no lombo a nossa tralha, enquanto que nós carregamos apenas o nosso corpo. Deus alimenta a nós e também os animais! Eles estão cansados e precisam do alimento.

Todos se alimentaram e dormiram. Ao alvorecer, propôs Barnabé:

— Sigamos a jornada.

— Não! - discordou o guia. — Os animais tem muito e muito chão para romper e chegamos aqui já muito tarde. Eles necessitam de maior repouso e mais pastagem. Almoçaremos por aqui e depois seguiremos viagem.

— O senhor está louco! Por que então não paramos a caravana mais cedo ontem, ao entardecer?

- Irmão - se assim te posso chamar-, foi mesmo por causa do teu jeito de proceder que não paramos.

— Como podes falar-me assim?!

— Conheci o teu primo, o teu pai, a tua mãe e muito os admirei. Quanto a ti enfrentas uma primeira viagem por estas perigosas paragens. Ora, nada conheces disto aqui! Já vi homens morrendo em fuga...

— Mas tínhamos lá atrás uma pousada...

— Sim, tínhamos! E lá havia muita gente. Se aqueles homens percebessem suas intenções de mercador, bem pouco andaríamos de lá até que fôssemos assaltados. Talvez que, condescendentes, eles nos deixassem retornar e talvez que nos aniquilassem. Isto é então o que deves aprender!

— Ora, eles irão alcançar-nos e saberão de tudo da mesma forma.

— Não! Eles não virão em nosso encalço, não nos encontrarão, porque tomarão outros rumos que não este que escolhi.

— Como é que sabes disto?!

— Ora, meu irmão, por anos e anos venho fazendo esta mesma viagem. Conheço cada pedra, cada fonte de água do caminho. Daqui até o outro lado do mundo já rodei tudo. Conheci o povo amarelo- já fui até lá! Aquela gente é completamente diferente de nós. Se me ouvires, se deixares que tudo aconteça da forma que deve acontecer, teremos uma larga chance de retomarmos vivos. Vejo no teu filho um rapaz muito inteligente e esperto. Pelo que observo, logo ele será um homem bem experiente nesta lida, porque ele me faz muitas perguntas, enquanto que tu, até agora, pouco conversaste comigo e tão poucas perguntas fizeste. Contudo, estejas certo de que podes confiar em mim, pois não sou teu inimigo e não quero o teu mal.

Assim foi que permaneceram ali por mais umas horas. Barnabé procurou o seu filho e comentou:

— Que homem esquisito é esse Douglas!

— Não! Ele é mais velho, mas parece ter mais força do que todo mundo. Ele caminha na frente e, bem viste, não se cansa. Acho que podemos confiar nele.

A viagem prosseguiu em tranquilidade.

Barnabé levava uma grande soma de dinheiro para a compra de tecidos, e estes e outras mercadorias.

Passado o sétimo dia, chegaram, ao entardecer, numa convidativa e muito bela fonte de águas cristalinas. Era um ótimo local de descanso para aquela cansada tropa.

Exausto, Benedites se acuou e logo se desdobrou em espinio. Aqueie velho que lhe aparecera em criança, na noite em que saíra a cuidar das ovelhas, tomou-o pelas mãos e os dois saíram a caminhar.

Disse Benedites àquele espírito:

— Estamos andando já por sete noites e parece que o mundo se acabou. Sumiu toda gente, sumiu tudo...

— O mundo é assim mesmo, Benedites. Se o fitares, nada encontras, e se olhares ainda, tudo encontras - porque onde nada parece existir, aí mesmo existe um tudo. O tempo está próximo da mudança. O mundo se prepara para mudar. O teu caminho não é este de Damasco! Vem! Subamos no topo daquela pedra.

— Não consigo! Ela é muito alta!

— Segura em mim!

Deram-se as mãos e galgaram a parte mais alta daquela elevação. Lá de cima Benedites viu todos dormindo. Viu a Lua enorme, a tudo clareando.

— Observa aquela luz! - pediu aquele homem. —A Lua se faz a luz da noite para iluminar os viajantes. Mas depois virá o Sol e, sendo mais forte do que ela, clareará tudo mais intensamente, e trará fartura à Terra, e fará fartas as colheitas. Esse Sol iluminará toda a Terra, e homem algum sentirá fome, a não ser que ele seja preguiçoso e nada cultive. Já aquele que cultivar, a cada grão que plantar, fará surgir um milhão de sementes, pois a Terra se tomará uma só Terra, e as nações se tornarão uma só nação, pois esse Sol há de iluminar com grandioso poder, e aquele que o contemplar jamais o esquecerá. Os pais olharão para os filhos e os verão nutridos. O pastor fitará as suas ovelhas e verá que também elas estarão bem alimentadas, e que cada ovelha pode servir uma à outra, c que todas podem pastar por campos verdejantes. Esse Sol vem para empurrar a Lua, mas muitos não irão entender a sua luz, e se sentirão cegos, e procurarão uma luz mais fraca, até chega¬rem ao dia em que andarão em plena escuridão. Os pastos destes não produzirão o capim para as ovelhas, e elas aos poucos morrerão. As águas estarão todas contaminadas pela força dos próprios homens que não quiseram ver e seguir a luz do Sol. Estes então sentirão fome; fitarão os seus filhos e verão que nada terão para comer; chorarão arrependidos e implorarão por uma nova oportunidade; revoltar-se-ão contra a fosca luz e buscarão o Sol, e, quando encontrarem o Sol, então verão que o Sol já se cobre na tarde, preparando-se para partir. Ah! E esses irmãos, então tão desanimados, amargarão choros e lamentos - porque o Sol terá ido e levado consigo todos os seus filhos. Aqueles que não quiserem sentir o Sol se perderão e acompanharão a força demolidora. Estes terão muita fome, muito ranger de dentes; saqueadores os assaltarão, irmãos contra irmãos para roubarem o alimento para os seus filhos. Eles lamentarão, chorarão, implorarão pela Luz, mas a Luz lhes estara bem distante, carregando consigo todos os seus filhos. Para este princípio se fará presente o Céu sobre a Terra, e Deus vos dará o seu próprio Sol, que estará , houve entre vós!

Benedites, fitando os olhos daquele senhor, indagou:

E como perceberemos a vinda desse Sol? De onde ele virá?

Chegarás ao final da tua viagem e retornarás para a tua terra, para a tua mãe e teu irmão, e lá verás que alguém muito se admirará contigo e te cativará. Ouve então o que ele terá para te dizer. A tua missão não será esta de buscar a tua sobrevivencia através do comércio. Vai agora para o teu corpo!

Tenho medo de descer!

Nada temas!

— E' muito alto! Vou cair!

— Hás de tomar cuidado para que não caias na vida. Contempla esta pedra ela é enorme, mas nós a subimos com facilidade, e tu descerás dela com facilidade. Esta pedra será a tua vida e a tua vida será esta pedra. Se não tomares o devido cuidado, cairás. Porém, eu te ajudarei e ficarei contigo! Pisa apenas onde eu pisar.

O sábio senhor segurou na mão de Benedites, que foi colocando os pés nas precisas pegadas. Chegados naquelas águas, indagou-lhe Benedites: - Passarás a noite conosco?

— Eu não sou da noite: a noite é para mim, e da mesma forma que o Sol brillui para todos, estarei em algum lugar.

Disse-ò e caminhou. Deu dez passos e, voltando-se para Benedites, viu-o fitá-lo e lhe sorriu. Puxou o manto sobre a cabeça e rumou para aquela pedra.

Benedites levou as mãos ao rosto, na intenção de retomar o corpo. De repente percebeu que estivera dormindo, e não acordado, como imaginara. Entendi u que tivera um sonho e que nele reencontrara aquele mesmo homem que estivera no seu lado naquela noite, quando ainda menino. Exausto, nem conseguiu refletir naquelas palavras e dormiu.

A tropa, ao alvorecer, se preparou para partir e logo seguiu.

Benedites se acercou do pai e disse:

— Nesta noite tive um sonho. Lembra-te de quando eu era pequeno e me pediste que eu cuidasse das ovelhas na noite escura? Pois estive de novo com aquele senhor...

- Foi um descuido meu filho, e um atrevimento da tua parte. Não deixes que isso ocorra novamente. Também eu já tive muitos sonhos. Certa vez sonhei que fazia esta viagem e que nela muito me divertia. Então é muito bom sonhar. O homem que não tem sonhos não vence na vida.

Por fim a caravana chegou ao seu destino.

Douglas tomou a frente contatando os comerciantes. Devagar foram sendo adquiridas as mercadorias, que eram levadas ao lombo dos animais.

Logo a caravana pegava o caminho de volta.

JOÃO BERBEL