IV - DE VOLTA A DAMASCO

IV - DE VOLTA A DAMASCO

O dedicado guia Douglas se acercou de Barnabé e disse:

A viagem de volta é bem mais desgastante. Não tanto nós, mas os animais sentirão. Daqui a dois dias há uma certa parada. Lá deveremos adquirir mais uns animais, para que possamos ir trocando o peso que vai às costas deles.

Seguiu a caravana e, chegando àquela hospedaria, Douglas encontrou o seu amigo Judas - nome que o identificava por ser procedente da Judéia.

Ali eram trocados animais cansados por animais revigorados, cobrando-se certas quantias. Eram também vendidos os animais.

Há tempos não passas por aqui, amigo - disse Judas a Douglas. Realmente. Quando eu viajava com meu patrão Osnã, era trocada toda a tropa, mas estamos com animais novos, muito bons, e não pretendo dispor deles. Eu gostaria que me vendesses seis cavalos para que eu siga em frente na minha jornada.

— Tenho bons animais, embora não novos.

— Está bem!

Barnabé observou, discordando:

— Douglas, está tudo errado! Ora, se comprarmos esses animais, estará aí empatado praticamente o lucro da venda das mercadorias.

— Não teimes! Mais à frente entenderás.

Foram comprados os animais. Mudariam a carga, transpondo-a dos cavalos mais cansados aos mais novos.

Todos se alimentaram e passaram ali aquela noite. Partiram na manhã do outro dia.

Barnabé notou que aqueles animais que por maior tempo vinham levando as mercadorias sentiam a fadiga, e somente então entendeu a necessidade da troca da carga e da aquisição de mais cavalos.

— Se perdermos um desses animais, perderemos também a carga que ele leixará de levar. Ora, se isto ocorresse sucessivamente, com os animais cada vez nais cansados, perderíamos mais deles e também as próprias mercadorias, e assim nossa viagem estaria fracassada, sem nenhuma compensação. Estás enganado também quanto ao lucro. Ora, estaremos levando vivos os animais e eles também têm o seu próprio preço!

— Tens razão, Douglas!

— Sim. Não fiz isso apenas uma vez. Foram muitas e muitas vezes. Então foram à frente, sempre trocando a carga de animal para animal, procurando aliviar os mais cansados. Cada animal carregava peso apenas por meio dia, enquanto outros caminhavam mais descansados. A cada período trocavam o peso. E assim foram seguindo, vagarosamente, para não forçar os cavalos. Enfim, chegaram a Damasco.

Osnã mostrou a sua satisfação quanto ao sucesso da viagem e foi logo dizendo ao primo:

— Bem viste, Barnabé, que não é tão difícil como pensavas.

—A viagem é muito longa c demorada. Há muitas paradas a cumprir, para ião forçar a todos. Poderíamos abreviar tudo se levássemos mais animais.

— Estás enganado quanto a isto. Se levarmos uma soma maior de animais, sto chamará a atenção dos viajantes. Vendo uma grande tropa, com animais em excesso, certamente que os saqueadores nos perseguiriam. Se nos limitarmos a poucos animais, sem chamarmos a atenção de ninguém, assim poderemos viajar bem mais seguros.

— Ora, quando retornamos da Pérsia estávamos com bastante animais e nada ocorreu...

— Hás de observar que a caravana veio por outra rota em que não era hamada a atenção. Enquanto viajáveis por um caminho, eles viajavam por outros.

— Nunca foste emboscado por saqueadores?

— Passamos por isto, mas nos últimos anos temos tido muita sorte, porque nudamos a forma de jomadear. Não mais passamos por um único caminho. Douglas tem um grande conhecimento sobre isso e com os próprios fornecedores. Ide empre é informado por eles sobre as rotas que são atacadas Sempre pagamos muito bem os fornecedores e então eles têm o interesse de nos proteger, ás vezes té enviando à frente os seus próprios serviçais, para constatarem algum eventual perigo. Hoje temos tais vantagens, mas no começo sofremos muito Em cada dez viagens sofríamos três ou quatro ataques. Às vezes perdíamos tudo e entrávamos em desespero, fomos aprendendo com os nossos próprios erros e hoje chegamos àquilo que podes ver. Mas deves saber das más notícias daqui, ficamos sabendo que Roma está encaminhando para cá os seus exércitos. Daqui a alguns dias estarão edificando também aqui o seu império. De repente já surgirá aqui um castelo, já teremos as mesmas ações de Roma. Até certo tempo não víamos por aqui nenhum romano, mas aos poucos já estão chegando. Vêm de toda parte. De lugar nenhum que se espera, eis subitamente um deles à nossa frente. Logo seremos iguais ao pessoal de Jerusalém, da Palestina, da Samaria, da Judéia, da Galiléia. Não, eles não nos darão paz! Exigirão impostos. Tivemos muita sorte de não termos sido ainda interceptados em nossos carregamentos, mas, pelo jeito que andam as coisas, isso não tardará a acontecer.

Foram descarregadas as mercadorias c todos entraram num merecido e necessário repouso.

Disse Osnã ao primo:

— Viajarei para as terras da Galiléia, da Samaria. Preciso visitar os meus parentes, ver como estão. Pretendo também levar-lhes alguns presentes. Sei que estás cansado da longa viagem e então ficarás por aqui.

— Ora, se me deres um pequeno tempo para que eu possa descansar, viajaremos juntos. Seguraremos um pouco as mercadorias, para que os romanos não tomem conhecimento delas, e enquanto isto descansarei. Pretendo também viajar por aquela região.

— Está bem! Hoje iremos rezar. E' sexta-feira e virá de Jerusalém um mestre novo para pregar aqui. Toda a cidade se movimenta.

— Mas espero não ser aquilo de passar orando a noite inteira...

— Jamais! Não ficarei lá dentro tanto tempo. Participaremos da reunião, agradeceremos e pediremos a Deus por nossos bons negócios. Hoje é reservado apenas para homens. Ouviremos esse novo pregador e depois sairemos.

Ali chegou, pois, o pregador. Não era um velho sábio. Viram-no tal um jovem de vinte e sete a trinta anos, mas bem já viam nele o desgaste do tempo se estampando no rosto.

Indagou-lhe Osnã, respeitoso:

— És um dos mestres de Israel?

— Não, ainda não cheguei a tanto. Devido à grande vocação dos meus ancestrais em torno da religião, ingressei na mesma lida. Sou apenas um estudioso. Tive a oportunidade de, por cinco ou seis vezes, passar por Jerusalém.

— De onde vens?

— Meus pais são da região de Samaria. Seguindo deles os princípios religiosos e que aqui estou.

— Qual é o teu nome? —Andre'.

Teve início a reunião. Foi lida a escritura sagrada na parte da profecia falando da descida do Messias à Terra, da mudança que ele promoveria em todo o planeta, fazendo tombar todos os reis e cair fogo dos céus.

André assim pregava:

— Deus, o Eterno e Todo-Poderoso, já nos concederá e enviará o Messias que nos devolverá a Terra Prometida. Seremos uma só nação e todos os povos admirarão a nossa religião. E isto que pregam no grande templo e é assim que me preparei para trazer a mensagem a todos vós. Acreditai, irmãos, que o começo da nova Terra está próximo! Acreditai que seremos, mais uma vez, guiados pelas mãos dos céus, juntos desse novo Rei! Ele nos dará paz e fartura às nossas colheitas. Todo o povo de Israel verá o céu trombeteando a chegada do Filho de Deus! Como dizem as profecias, ele estará entre nós e todo o nosso sofrimento cessará. Ele há de colocar a mão sobre todos os filhos de Israel, e Israel será então o povo de Deus, a nação protegida por Deus!

Todos entraram em oração, inclusive Barnabé e Osnâ. Em certo momento, o cansaço de Barnabé se mostrou forte. Ele c Osnâ então se retiraram do templo.

— Amanhã é sábado — disse Osnã ao primo - e é certo que então nada faremos. Porém, no dia seguinte, iremos em busca dos nossos parentes na Galiléia. Pretendo ver o meu irmão, que é um pouco mais velho do que eu. E' uma pessoa muito admirada por lá. E' um homem simples e muito amigo de todos. Nem sei se ainda vive, mas quero vê-lo, abraçá-lo, senti-lo! Ah! Que satisfação terei! Fico empolgado apenas pensando... Relembrar o nosso tempo de criança... E levarei alguns presentes...

— Também eu ficarei feliz. Quero rever Simeâo, os amigos, a casa em que nasci. Sim, lá está Sinoé, filho do meu grande amigo Simeão. A todos quero abraçar e me sentir como em criança! Osnã, a nossa vida é maravilhosa! fomos abençoados por Deus! E Deus me abençoou enviando-te para estares ao meu lado! Repousaremos. Irei depois à tua casa e programaremos a nossa viagem. Deixaremos de lado os negócios e tudo o mais. Divirtamo-nos, pois já estamos avançando na idade e os nossos filhos bem que podem encarregar-se dos nossos negócios.

Assim, cada qual rumou para o seu lar e dormiu.

No outro dia, eis Osnã chegando cedo à casa de Barnabé. Projetaram a viagem para o outro dia.

— Temos muitos animais - disse-lhe Osnã. — Barnabé, muito devo te agradecer, pois devo ser sincero contigo: eu tinha os meus negócios, mas não prosperavam tanto quanto depois que nós dois nos unimos. Somos primos, viemos de uma só descendência. Tivemos a oportunidade de descender de Abraão, Jacó, e com isso Deus fez de nós criaturas felizes. Faremos então a nossa grande viagem!

— Também iremos nós? - indagou Orlinda.

— Não! - disse Osnã. — Não quero levar mulheres, não quero levar ninguém. Primeiramente devo ver como vão os meus parentes. Ficareis aqui para cuidardes da casa e dos deveres. Depois de algum tempo vos levaremos ou permitiremos que viajeis para lá com os nossos serviçais. Por enquanto não acho que é o tempo certo.

— Estás com toda a razão! - disse Barnabé. — Não posso desrespeitar, de forma alguma, todas as tuas intenções. Ora, não sabemos o que vamos encontrar pela frente...

Os dois permaneceram juntos até terminar o dia. Contataram os serviçais e ordenaram a Douglas que cuidasse dos afazeres. Jofre e Jacó, dois antigos funcionários de Osnã, foram convocados a acompanhá-los na viagem. Alguns presentes deveriam ser levados pelos animais.

JOÃO BERBEL