IX - O CENSO

IX - O CENSO

A notícia se espalhava célere: Roma procederia o censo. O batalhão seguiu viagem, percorrendo todas as províncias e anunciando o censo.

Benedites, dominando o idioma dos romanos e dos judeus, falava a todos sobre o projeto, tentando obter a compreensão e concordância de todos.

Os sacerdotes foram os últimos a serem abordados sobre a execução do censo. Ao fitarem Benedites, lançaram-lhe chispas de ódio, sabedores de que ele preparava todo aquele campo para a ação dos soldados romanos.

Uma desconfiança era gerada em cima do jovem, todos acreditando que ele agia apenas em proveito próprio.

Benedites, confiante, levava avante o seu trabalho.

Visitava as sinagogas e, contatando os líderes judeus, explicava-lhes as razões do censo, as vantagens que todos teriam com as novas medidas, quando os tributos passariam a atingir a todos com equanimidade, sem extorsão e tentando agradar a todos.

Os templos foram encarregados de proceder o censo. Foi criada a figura do cobrador de impostos, também nomeado entre o próprio povo judeu.

E assim ocorreu o censo, atingindo toda a região dos judeus.

A tropa seguiu para Damasco.

Barnabé, vendo Benedites envergando roupa romana, logo foi dizendo:

— Então te tornaste amigo do inimigo do povo de Israel?!

— Não! O povo romano nunca foi inimigo do povo de Israel. Acontece que o povo judeu não compreendeu a vantagem de ter as tropas romanas a protegê-lo. Ora, quantos saqueadores não enfrentamos em nossas viagens? Se tivéssemos a proteção das forças romanas, certamente não teríamos a ação dos salteadores, e isto permitiria uma comércio mais livre e mais rendoso, nossos comerciantes podendo viajar seguros para terras distantes, em busca de mercadorias, tanto quanto transportando para lá os nossos próprios produtos. Isto tornaria mais rica a nossa terra, sob a proteção de Roma. Basta que as pessoas entendam a necessidade de pagar os tributos, pois não há outra forma de manter o grande número de soldados protetores. Sim, Roma está certa e nós é que estamos errados.

Foi por isto que sugeri a idéia de criarmos o censo, visitar as pessoas e esclarecê-las, visando tirar-lhes apenas o justo e necessário. Não, não lhes será tirado nada além do que podem dar. De forma alguma! Tal avaliação será efetuada pelo próprio povo judeu. Não veremos mais os soldados romanos entrando nas casas e obrigando as pessoas ao pagamento, arrastando-as às praças e extorquindo-as.

Isto vai ter fim!

Benedites abraçou seu irmão Camarfeu e disse:

— Irmão, tu serás um dos cobradores de impostos. Para isto terás de trabalhar. Revirarás Damasco e constatarás quem deverá pagar e o quanto será cobrado.

Barnabé, acompanhando com espanto a exposição do filho, disse:

— Eu bem desconfiava que tinhas algo a mais, diferenças para com as outras pessoas, mas ignorava que pudesse ser tanto assim. Como se deu tudo isto?!

— Aquela voz me orientou em tudo. Então aqui estamos para realizar o censo. Todos os nossos líderes c todas as sinagogas terão de nos ajudar.

O censo foi um sucesso. Benedites falava em praça pública, discursava nas sinagogas, explicando sobre a importância de as pessoas pagarem os seus tributos. Falava das injustiças que até então eram observadas, quando muitos viviam bem pagando pouco, enquanto que outros pouco tinham pagando muito. Afirmava que tal estado de coisas teria fim, que todos seriam encarados com igualdade, que Roma daria proteção ao povo judeu, que teriam fim os roubos, os conflitos sociais.

Em muitos locais foi bem aceita a fala de Benedites, enquanto que em outros nem tanto, mas estava em curso o primeiro censo, tudo acompanhado de perto pelas autoridades romanas.

Noventa dias passados, eis tomando forma os resultados. Dobrou o montante da arrecadação de impostos.

Quatro meses depois a guarnição de Benedites retornou a Roma, outras guarnições rumando às terras dos judeus para suprir a falta deixada.

César imediatamente mandou chamar Oscar, Tomás e Benedites.

Os conselheiros renderam louvores a Benedites peio sucesso da empreitatada daí, ele passou a viver com regalias em Roma, com a liberdade de viajar ,ai a onde desejasse, na missão de levar ainda avante o grande plano falando da necessidade do censo, da unificação dos povos, das intenções de Roma.

Benedites se tornou um autêntico orador de César. Discursava em Roma, nos lugarejos das várias províncias. Em torno dele se formava um clima de harmonia. Todos os soldados passaram a tê-lo na condição de grande e sábio amigo.

JOÃO BERBEL