L - JESUS PREGA NA JUDÉIA

L - JESUS PREGA NA JUDÉIA

Assim que adentrou a Judéia, Jesus encontrou uma certa família totalmente desestruturada, uma mulher que lutava para se manter mentalmente equilibrada. Ela não falava coisa com coisa, era considerada uma lunática.

Acompanhado de seus apóstolos, logo Jesus sentiu a forte ação dos espíritos malfeitores em torno daquela mulher. Acercou-se e lhe indagou:

— Qual é o teu nome?

Aquela mulher arregalou o olhar para um lado e respondeu:

— Verônica.

E Jesus indagou ao seu marido:

— Qual é o teu nome, homem?

— Sou José. Também vim da Galiléia. Não és um galileu?

— Sim!

— Não és um judeu?

— Sim!

— Não podemos misturar-nos contigo!

— José, nosso Pai fala a todos os homens com igualdade. A religião não foi criada para um só homem nem para um só povo, e também nem um só homem nem um só povo foram criados para a religião. Vinde a mim, vós que estais oprimidos e sobrecarregados, e eu vos aliviarei e vos farei homens livres!

José ouviu aquilo, fixou Jesus e o abraçou, dizendo:

— Sim, tu és o Jesus de que tanto falam, o Jesus dos gentios e dos judeus!

— Vim ao mundo em amor ao próprio mundo!

— Jesus, minha mulher há muito vem apresentando muitos problemas. Ela é lunática. Quando vem a Lua Cheia ela não sabe o que diz, judia das crianças. Mas, senhor, a ela tenho somente e a amo com toda a força do meu coração! Tu daria a minha vida para libertar a vida dela!

— Que seja feita, José, a tua vontade!

Disse-o Jesus e se acercou de Verônica. Colocou o dedo na testa dela e aos poucos ela foi perdendo energia, seu corpo se amolecendo e logo tombando ao solo.

As crianças se assustaram vendo aquela cena com a sua mãe. Jesus as fitou e disse a José:

— O reino dos Céus não é conquistado ao peso do ouro, e sim ao peso do sacrifício do amor. Para que se adquira o reino dos Céus é necessário tornar-se simples, à semelhança destas crianças que inocentes brincam.

Jesus foi até Verônica e lhe disse:

— Mulher, estás curada, porque os demônios que te atormentavam não mais te atormentam!

Verônica acordou sob um diferente comportamento, o que muito agradou ao seu marido, que disse a Jesus:

— Senhor, sei que vieste para os pobres! Derrama então a tua bênção sobre a minha família, para que ela não venha a cair nas tentações!

— Sabes, José, como fazer tais coisas?

— Senhor, minha vida foi marcada por muita pobreza. Aprendi apenas a trabalhar para sustentar a minha família. Meus pais padeceram por causa da fome e muitos dos meus irmãos morreram por falta de comida. Perdi todo o meu tempo trabalhando para ganhar o pão à minha família.

— José, não somente de pão vive o homem.

— Senhor, podes pousar conosco esta noite?

— Sim, José!

José o abraçou e disse:

— Es tão diferente dos outros homens!

— Ainda hoje cearei contigo. Virei mais tarde.

Jesus percorreu as redondezas, enquanto, feliz, José utilizou dos seus recursos para poder fazer um bom jantar para Jesus e seus apóstolos. Tinha no fundo do quintal um porco que havia conquistado com o seu trabalho, para sacrificá-lo e alimentar a sua família. Assim que Jesus se foi, abateu aquele suíno e mandou temperá-lo.

Muito humilde era a casa de José. Muitos vizinhos, sabendo da cura de Verônica, foram até lá com alegria.

Jesus caminhava e conversava com muitos, no passar do dia, e lhes lalava do reino dos Céus, do sacrifício de amar as pessoas, da partilha dos bens, e todos bem o aceitaram.

Chegando a hora, Jesus foi ter à casa de José.

Quando os apóstolos viram aquele porco, repudiaram-no, indignados, porquanto alimentar-se de suínos era vedado pela sua religião e pelo seu costume.

José se acercou de Jesus e disse:

— Senhor, tenho poucos pães e um pouco de vinho, mas é o melhor que pude fazer para ti e os teus!

— Meu filho, não é necessário tudo isto. Chamando os seus apóstolos, disse-lhes Jesus:

— Comei em minha memória!

Disse-o e, olhos fixos em José, pegou um naco daquela carne e a comeu, mostrando imensa satisfação, como se estivesse num grande banquete. Notou, porém, que aquela carne não entrava muito bem na boca dos apóstolos e, fixando-os, disse:

— Homens, bem ouvistes as minhas palavras! Falei abertamente nas sinagogas, nas praças públicas, no meio da rua, em todo lugar, mas não ouvistes bem e nada entendestes de mim, porque ainda não estou em vós! Somente quando me entenderdes é que sereis homens diferentes, porque somente então terei verdadeiramente nascido dentro do vosso coração. Eu vos ordenei que comêsseis, porque nada do que entra pela boca do homem lhe faz mal, e sim aquilo que sai da sua boca!

A partir daí os apóstolos comeram da carne com maior gosto. Pessoas e pessoas foram chegando naquela humilde vivenda e José disse a Jesus:

— Senhor, fiz tudo para ti, e não para eles!

— Todos têm de comer onde se alimenta o Filho do Homem!

Então aquelas pessoas foram adentrando a casa e comendo. Quanto mais comiam mais carne aparecia, todos se fartando.

Jesus pronunciou belas palavras, encerrando aquela ceia, e cada qual rumou à sua casa.

José, confuso, disse:

— Senhor, não sei o que aconteceu! Todos comeram e ninguém ficou com fome!

José, aquele que recebe a mim recebe também aqueles que me enviaram, porque lá de onde vim partilhamos o nosso alimento, e aquele que está comigo faz com que o alimento dê para todos e ninguém fique faminto. Da mesma forma que são alimentados os cães, que também são filhos de Deus, todos são igualmente alimentados. Enquanto eu permanecer nesta Terra a partilha do pão virá dos Céus e ninguém passará fome!

José ficou maravilhado. Jesus lhe pediu que orasse com a sua família, e enlão todos oraram em gratidão a Deus. E Jesus disse a José:

— Não há que te preocupares com religião. No dia em que a angústia invadir a tua alma e a dor roubar a tua calma, lembra-te de te ajoelhar ao chão e pedir por mim, pois estarei contigo todos os dias e em todos os momentos.

José ficou emocionado com a conduta de Jesus e a partir daí tomaria por costume orar a Jesus e a Deus todo dia. Gente e mais gente, no passar do tempo, foram chegando e se aglomerando naquela casa, dela fazendo um templo de oração. Jesus lhes ensinava a orar para que fugissem das tentações do mundo, para que agradecessem a Deus pelo alimento.

Eis que ali se instalou então aquele sentimento religioso, marcado por aquela prática orientada por Jesus.

Partindo dali, e como fazia muito calor, Jesus parou num poço. Lá estava uma mulher e Jesus lhe pediu água.

— És um judeu? - indagou a mulher.

— Sim! Vim da Galiléia.

— Bem sabes que é do costume do nosso povo nada oferecer aos judeus.

— Mulher, já estás com o teu terceiro marido e tens os teus filhos. Não é pecado nem o Céu te castigará por isso, mas bebe da minha água, porque vem de uma fonte viva! Quem bebe da minha água jamais sentirá sede!

— Ah! És aquele que passou na casa de José!

— Sim!

— Senhor, perdoa-me pela minha ignorância!

Aquela mulher pediu que Jesus fosse à sua casa e ele a atendeu. Lá viu os filhos dos seus vários casamentos e a todos abençoou. Aquele marido fitou Jesus e indagou:

— E' pecado ter o homem outra mulher? É pecado uma mulher se casar várias vezes?

— O maior pecado está na alma do homem, está na boca do homem. Se tomaste esta mulher com todo o amor do teu coração, Simeão...

— Por que me chamaste por tal nome?! - atalhou aqueie homem, assustado.

— É pelo lugar de que vieste. Jesus fitou aquela mulher e indagou:

— Mulher, amas este homem com toda a força da tua alma e do teu coração?

— Sim, senhor! Ele tem sido muito bom para mim e tem educado os meus filhos.

— Mulher, nem somente de pão vive o homem, mas também da graça e do amor de Deus perante ti!

— Sabes que somos muito descrentes. Acreditamos em Deus por causa dos nossos ancestrais, mas não aceitamos os costumes judeus.

— Orai para que não vos sucumbais na tentação, e ensinai-o aos vossos filhos, pois disto muito necessitam.

Dirigindo-se a Pedro, indagou Jesus:

— Simão Pedro, aprendeste a orar da forma que te ensinei?

— Sim, aprendi.

— Como foi então que te ensinei?

Pedro se ajoelhou e neste gesto foi imediatamente imitado por aquele casal e por todos os demais apóstolos. Pedro abriu os braços e, fixando Jesus, orou:

— Pai nosso que estás nos Céus, santificado seja o Teu nome! Bendito seja o Teu reino de amor e de caridade! Perdoa os nossos erros tanto quanto somos capazes de perdoar os nossos inimigos e aqueles que nos ofendem! O pão nosso de cada dia nos dá hoje, Senhor, para que em Teu nome saciemos a nossa fome! Livra-nos das tentações e de cometermos pecado, por todo dia, até que se consuma a nossa vida!

Jesus fitou os olhos brilhantes de Pedro e percebeu que aquelas suas palavras haviam sido bem aceitas pelo casal e pelos filhos.

Aquela era uma casa bem grande. A comunidade, por força dessa família e da família de José, construiu ali um templo com práticas diferenciadas daquelas dos judeus, pois todo aquele povo muito admirara Jesus.

Partindo dali, subitamente Jesus sentiu algo diferente e se pôs de joelhos. Fitou o alto e disse:

— Pai, afasta de mim esta dor! Pai, faze, porém, a Tua vontade, e não a minha! Pai, sei o quanto é dorido aceitar essas coisas! Eu desejaria protegê-lo e dar por ele a minha vida, mas a mim não é concedida tal coisa, e então que se cumpra a Tua vontade!

Sob lágrimas, Jesus se retirou dali e, com a aproximação dos apóstolos, afaslou-se deles, indo ter até um arvoredo onde havia uma fonte sustentando um pequenino curso d'água. Ajoelhou-se e lavou o rosto.

Os apóstolos chegaram ali correndo e indagando:

— Mestre, o que foi que aconteceu?

— O que aconteceu não pude evitar, porque não dependia da minha Vontade, e sim da vontade do Pai que está nos Céus. É necessário que a semente morra para que possa germinar. Pai, recebe em Teus braços esse meu irmão, esta alma liberta!

Saindo dali, saiu a pregar por aquelas regiões da Judéia, atraindo multidões.

Em certo momento foi ter com Jesus uma criança cega. Disse seu pai:

— Meu filho nasceu deste jeito. Nunca viu a luz do dia. De tempos para Oá ele vem gritando de dor nas vistas e ninguém pode aliviá-lo.

Jesus indagou àquele homem:

— Que queres que eu faça?

— Que retires a sua dor.

— Acreditas que sou o Emissário de Deus?

— Pelas tuas palavras, por tudo o que falas, acredito! Sei que comeste conosco a carne suína, o que judeu algum faz. Por certo tempo trabalhamos para uma família de judeus e éramos tratados iguais a escravos. Trabalhamos em troca de comida, nada mais recebendo. Eles repudiavam a carne de suíno, enquanto que tu a comeste e ordenaste que a comessem aqueles que te seguem, afirmando que não faz mal o que entra, e sim o que sai pela boca do homem. Ja, homem algum entraria na Judéia e faria o que fizeste! Então te respondo: creio que tens mesmo do Céu o poder!

Jesus se abaixou, cuspiu nas suas mãos, esfregou-as, molhou os dedos e massageou os olhos daquele menino. Este gritou de dor. Jesus soprou no rosto dele e isto refrescou as sua faces. O menino abriu os olhos e disse que a dor se fora.

Jesus pediu:

— Trazei-me água! Atenderam-no e pediu:

— Menino, lava o rosto nesta água!

Ele levou as mãos à água e imediatamente viu as suas mãos e as aguas, e viu Jesus parecendo uma enorme figura à sua frente. Gritou:

— Estou enxergando! Estou enxergando!

A multidão se maravilhou sobremaneira com aquela cura e muitos se foram aproximando de Jesus, cada qual apresentando a sua enfermidade, e Jesus os curava a todos, à medida que os tocava.

Assim, todos dali foram aceitando Jesus com a maior normalidade e as notícias de suas curas se estendiam por aquelas vastas regiões.

Caminhando pela Samaria, Jesus pregava e curava incessantemente.

Em certo momento foi abordado por um homem que lhe disse:

— Minha mulher sente fortes dores na barriga. Sangra dia e noite. Tudo tenho feito para ajudá-la, mas nada tenho conseguido.

— Leva-me até ela!

Jesus foi ter à casa dela e a curou.

Então enfermos de todo jeito foram chegando até Jesus e ele a todos curava. Ensinou aquela gente a orar e logo foi edificado um templo naquela localidade. Mesmo dentro das próprias casas as pessoas se reuniam e Jesus lhes dizia:

— Eu sou a verdade, eu sou o único caminho que vos pode levar até Deus! Lembrai-vos então da oração, porque eu estarei convosco todos os dias, todas as horas e todos os momentos. Não vos deixarei órfãos, porque, sob o comando da minha voz, muitos anjos dos Céus estarão sobre vós. Que entre vós se estabeleça uma nova ordem e que ela seja perfeita tanto quanto o vosso Pai celestial.

Aquelas pessoas se encantavam vendo e ouvindo Jesus pregar sob aquela ímpar simplicidade.

Partindo para a Galiléia e lá chegando, Jesus se encaminhou ao seu lar.

Seus apóstolos logo tomaram a notícia de que certos sacerdotes da Palestina, acompanhados de vários serviçais, haviam sido atacados ao adentrarem a Judéia, numa região de muitos malfeitores. Foram saqueados e Levi, estando a guiá-los em busca de Jesus, fora golpeado fatalmente pelas costas, com uma pedra.

Simão Pedro, ao saber disso, abordou Jesus:

— Mestre, tudo aconteceu naquele momento em que choraste e oraste ao Pai?

— Simão Pedro, entre o Céu e a Terra estamos todos nós. Levi muito me serviu, muito me ajudou e foi apedrejado e morreu. Mas, em verdade te digo , Simão Pedro, filho de Jonatas: muitos de vós sereis apedrejados e sacrificados em meu nome.

Porém, em verdade também vos digo: todos aqueles que perderem a Vida em meu nome terão galardões nos Céus, porque serão chamados de irmãos e de simples. Estes estarão cm mim e eu estarei neles. O meu dia ainda chegará, Simão Pedro, e nesse dia também dos teus olhos saltarão muitas lágrimas, e também de todos aqueles que estão em mim, porque foi para dar testemunho da verdade que vim a este mundo, e não estou aqui sozinho. Mas, ouvi todos vós: reparai como será esse dia! Diante de mim vereis os sinais. Mateus indagou:

— Senhor, acompanho-te todo dia e toda hora, e então ficaremos sozinhos quando chegar a tua hora?

— Nenhum de vós que estais em mim estará sozinho. Lembrai-vos do que vos tenho dito: na casa do Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu não vo-lo teria dito. Rogarei ao Pai para que, onde quer que eu esteja, todos VÓS estejais comigo.

Mas lembrai-vos do que vos tenho dito: o caminho é tortuoso, é todo atulhado de pedras, é todo permeado de sacrifício, mas todo aquele que em meu nome padecer por esse sacrifício estará comigo. Muitos dentre vós não me entenderão e me negarão no juízo final, no dia em que a ferra haverá de se preparar para o juízo da própria Terra, quando o Príncipe da Luz sobre ela brilhar bem mais forte do que podeis imaginar. Não vos escolhi, e sim vós me escolhestes, e para tal procedimento é que vim a este mundo, para que todos vejam em mim o meu Pai, para que todos espelhem em mim a grandeza do Seu amor. Nesse dia a escuridão cairá sobre vós, mas lembrai-vos de que no terceiro dia irei ter convosco e me vereis - porque bem vos digo que não é somente de carne que é constituído o homem, mas também da força do espírito de Deus, porque assim se fez em amor a este mundo e o Pai enviou todos ao mundo, para que nascessem na carne e na carne experimentassem os amores e desamores, o sentido do bem e do mal, da mesma forma que vos alimentais do sal que vem do mar. E se vos faltar o sal, faltar-vos-á também o que de comer? E se vos faltar o que de comer e beber, do que vivereis?

Lembrai-vos do que vos digo, que assim é o reino dos Céus. O sal é abundante porque desce dos Céus à Terra para satisfazer a todos os irmãos que nela padecem. Aquele que não morre na carne não tem como entrar no reino do Céu. Mas eu vos digo que aquele que tiver pecado sobre a Terra e não se arrepender e a mim não receber também terá sobre si o peso do pecado no juizo final. Ora, se o vosso olho é motivo de escândalo, arrancai-o e atirai-o para longe de vós, porque em verdade vos digo que melhor é entrardes sem ele no reino dos Céus do que o vosso espírito não entrar. Se um dos vossos membros vos for arrancado, atirai-o para dentro do mar, porque também com ele não podereis apresentar-vos no grande juízo. Ora, se o juízo vos julga pelos vossos pecados, libertai-vos então deles, e conciliai-vos com os vossos irmãos, amai os vossos irmãos da forma que vos ensinei. Eu ainda sou o Príncipe deste mundo, mas dia virá em que a Luz do Mundo não mais caminhará convosco, e então recordai tudo o que vos tenho dito: que é léu em juízo aquele que não amou o seu irmão. Guardai convosco estas verdades e elas vos libertarão, e não direis raca por sobre o vosso irmão, porque aquele que aqui diminui o seu irmão também será diminuído no reino dos Céus. Em verdade e em verdade vos digo que aquele que pecar contra o seu irmão será réu no juízo, e também aquele que tomar para si o pertence do seu irmão, porque de vós será cobrado até o último vintém, porque eu vos perdôo, mas o Pai não vos perdoará.

Em silêncio e respeitosos ouviam os apóstolos, notando que o seu Mestre estava inusualmente emocionado naqueles momentos.

Jesus acelerou os passos para mais rapidamente chegar à Galiléia e à sua casa.

JOÃO BERBEL