L1 - JESUS E NICODEMOS

LI - JESUS E NICODEMOS

Maria estava triste e lamentosa quando reviu seu filho. Este a abraçou comovido e ouviu dela:

— Meu filho, aqui estiveram uns homens que se vestiam e falavam muito bem. Buscavam por ti. Um deles tem até um distante parentesco com os familiares do teu pai. E um homem de mansas e sábias palavras. O outro é um cobrador de impostos que tu curaste. Meu filho, mataram Levi!

— Mãe, ele não morreu. Morre o corpo, mas não morre a alma. Mãe, da mesma forma que o Pai me deu Levi para que ele caminhasse ao meu lado, também eu o dei ao Pai. Ele está no Céu ao lado dos meus irmãos e eles velarão por ele enquanto eu estiver na Terra. Quando estava aqui, ele estava morto e agora renasceu para a vida dc verdade. Mãe, estarei com todos aqueles que estiverem no meu coração e os apresentarei ao Pai, e na glória do Paraíso viverão, até que se consumam os séculos e séculos!

Os apóstolos se acercaram de Jesus, sob lágrimas. Pedro o abraçou fortemente, Jesus abraçado a Maria. Era uma cena de muita comoção. Jesus disse:

— Enquanto permanecer neste mundo serei o Príncipe deste mundo. Enquanto eu viver no mundo, a Luz estará no mundo. Eu sou o caminho, eu sou a vida e eu sou a verdade! Ninguém vai ao Pai senão por mim!

Jesus dizia-o sob lágrimas. Ergueu-se, olhou para todos e disse:

— Mulher, dá-nos o que de comer, porque temos fome.

— Meu filho, és tão bom!

— Não, mãe! Bom é o Pai que está nos Céus!

Foi servido pão e vinho. A mesa se tornava farta, dentro daquela simplicidade.

Maria conversou com os apóstolos, que comentaram largamente sobre as pregações de Jesus na Judéia, dizendo da enorme aceitação da sua Boa-Nova entre aquele povo.

Indagou-lhe Maria:

— Mas Jesus também lhes ensinou os costumes judeus? Pedro pensou um pouco, olhou para os lados e respondeu:

— Não!

— Mas por que não o fez?! Pedro disse:

— Ora, conservo na cabeça a mesma indagação. Perguntá-lo-ei ao Mestre.

Pedro se acercou de Jesus e perguntou:

— Mestre, dialoguei com a tua mãe e ela me indagou algo que também me intriga. Ora, por que não ensinamos ao povo da Judéia os nossos costumes judeus? Por que não transformamos em sinagogas as residências daqueles irmãos?

— Simão Pedro, não entendeste? Cada povo é o seu próprio povo e a cada povo é dada a sua religião. A religião deles está nos costumes deles.

— Mas, Mestre, os nossos costumes provieram das Sagradas Escrituras, através dos profetas!

— Eles se acostumarão. Eles têm a mim na condição de seu profeta e eu serei o seu profeta. Em cada um daqueles corações edificarei o meu templo, e aquele que me aceitar, Simão Pedro, ele próprio já será o seu próprio templo, porque aquele que aceita a mim aceita também aqueles que me enviaram.

— Mas aqueles que te enviaram dos Céus não são os nossos ancestrais, não são do nosso povo judeu?

— Simão Pedro, a respeito de religião ainda há muito e muito mais que o homem ainda não está preparado para receber. Mas em verdade e em verdade vos digo a todos, meus irmãos, que dias virão em que todos a mim verão sob diferentes formas e situações. Então os homens se matarão em meu nome, em meu nome se destruirão, mas um dia eles entenderão. Em verdade vos digo que não vos deixarei órfãos. Rogarei ao Pai e Ele vos enviará o Espírito que haverá de vos consolar a todos, que haverá de mostrar a todos aquilo que fiz e muito mais. No dia em que estas verdades forem mostradas por toda a Terra serão vistos os sinais do fim dos tempos. Nesses dias, aqueles que me conservarem no coração jamais tocarão na sua espada para se defender do golpe do seu irmão. Serão dias de glória, serão dias de alegria: Proclacar-me-ão por toda a Terra e então saberão que eu fui o juiz desta vida e que sob tal princípio da verdade foi que desci a este mundo. Neste momento eu vos digo, Simão Pedro, Mateus, André, Judas e todos os demais: nesses dias haverá um só rebanho e um só pastor. Nesses dias de glórias vereis que repousarei sobre as almas calmas e mansas e as farei homens livres - livres dos seus galardões de ouro, homens que distribuirão aquilo que têm, homens que abrirão as portas dos seus celeiros e alimentarão a lodos os necessitados. Nesses dias, quando os homens se tornarem iguais como um todo, bem-aventurados serão todos os misericordiosos, os mansos e pacíficos, os humildes de coração, porque eles terão esta Terra para repouso do seu corpo e para que a sua alma se purifique perante a Seara de Deus!

Naqueles momentos uma etérea luz aureolava Jesus. Encantada, Maria abraçou o filho, repousou a cabeça no peito dele e disse:

— Meu filho, as tuas palavras confortaram o meu coração pela morte daquele que havias colocado em minha mão na condição de também meu filho querido!

— Mulher, é para tal testemunho que vim a este mundo, para que todos que crerem em mim não morram e tenham a vida eterna, porque tudo o que se vive na carne é formado pela terra e tudo o que é da terra para a terra retorna.

Jesus programava o seu novo ciclo de pregação. Iria até Canaã, percorreria a Palestina e retornaria a Belém.

Maria preparou os pães para que ele levasse e lhe disse:

— Meu filho, estou muito preocupada. Tens caminhado bastante e sei que multidões e multidões vão ter contigo. Tens passado por locais perigosos, a exemplo de Samaria e as terras da Judeia. Sabemos que entre Canaã e a Judeia há muitos saqueadores, que lá está um povo sem religião e sem Deus no eoração.

— Mãe, eles estão em todos os lugares, mas também são filhos de Deus, e eles também ouvem a minha palavra. Roubam porque ainda não tiveram a mim, e o meu trabalho é justamente aquele de chamar os culpados ao arrependimento. Assim como fez João Batista, também eu o faço, dizendo a todos que o reino de Deus está próximo, incitando-os a se arrependerem dos seus pecados para que grande seja nos Céus a sua recompensa. Ouvindo-me, vem até mim e vou até eles. Ando ao lado das mulheres de má fama, de todas que carecem da minha palavra e do seu arrependimento.

Naquele momento Maria de Magdala se acercou de Jesus e disse:

— Sim, Maria, poderás seguir eonosco. Pedro se adiantou, dizendo:

— Ora, ela é mulher; requer diferenciados cuidados e longas são as nossas viagens.

Jesus disse:

— Ela também é filha de Deus!

Pegaram a sua bagagem e viajaram, a caravana, dessa feita, engrossada com a presença de Maria de Magdala.

Adentraram as terras de Canaã, nas proximidades de Jerusalém. Jesus disse:

— Estamos a pouca distância de Jerusalém. Pedro disse:

— Mestre, vamos então pregar em Jerusalém. Sei que lá serás bem recebido pelos grandes sacerdotes, sei que serás recebido por uma grande multidão, igual àquelas que nos tem acompanhado.

— Ainda não é chegado o tempo para que eu vá a Jerusalém. Percorreremos a Palestina e desceremos até Cafarnaum, porque por lá há muita coisa a se fazer.

As populações tomaram a notícia da passagem de Jesus e ele lhes pregou a sua Boa-Nova, ao tempo em que curava as tantas pessoas que o buscavam. E ele dizia:

— Próximo está o reino de Deus! Amai os vossos inimigos, amai-vos uns aos outros!

Antes de adentrar a Palestina, Jesus observou que um grupo de fariseus e sacerdotes o acompanhava à distância. Sentou-se próximo a umas pedras e a uma pequena nascente d'água. Molhou os pés, os braços e a cabeça, os apóstolos fazendo a mesma coisa, inclusive Maria de Magdala.

Jesus se afastou dali e se sentou à sombra de uma pedra. Dele se acercavam uns e outros.

Olhando à frente, Jesus percebeu a presença de Nicodemos e o chamou. Acercando-se, Nicodemos disse:

—Acompanhei-te de longe, em várias vezes e até mesmo em Jericó, e hoje consigo aproximar-me de ti. Sábias são as tuas palavras, Mestre! Sei também que és muito bondoso e que curas as pessoas.

—Nicodemos, bom é o Pai que está nos Céus. Mestre posso até ser...
número c ouvem com atenção a lua voz, assim como ouviram lambem a voz dc João Batista. Então sei que realmente és um grande Mestre. Palas bastante dos Céus, mostras o caminho dc chegar aos Céus cm se libertando das coisas materi¬ais.

Sei que aos homens afortunados é bem difícil se libertar dos bens materiais. Ora, como se pode fazer então para entrar no reino dos Céus?

— O reino dos Céus não é conquistado ao peso do ouro. O reino dos Céus não é feito da forma pregada pelos sacerdotes nos templos. O reino dos Céus é conquistado sob o sacrifício de amor.

— E como se faz para adquirir esse amor e ingressar no reino dos Céus?

— Nicodemos, o reino dos Céus não se vê aqui ou acolá. O reino dos Céus está dentro de cada um dc nós, c para penetrar nele é necessário nascer de novo.

— Mas, Mestre, renascer de mulher?! Pode um homem velho, barbudo e cabeludo, penetrar novamente no ventre de uma mulher?!

— Nicodemos, Mestre és em Israel e bem deves saber dessas coisas -pois se não as souberdes, Mestre não serás cm Israel. Ora, Nicodemos, da água se forma, porque pela água se vem, mas ninguém sabe de onde vem ou para aonde vai. O espírito sopra onde quer.

Nicodemos, meio confuso perante o fator reencarnatório lembrado por Jesus, afastou-se uns passos dali, mas ainda ouvindo as fortes palavras dele:

— Em verdade, em verdade te digo, Nicodemos: ninguém chega ao reino dos Céus se não nascer de novo!

André e Pedro se acercaram de Jesus, indagando:

— Mestre, estranhas palavras são as tuas! Muito confundem a nossa cabeça! Mas foram também belas as palavras que disseste a Nicodemos.

— Sabeis o que é a pedra cm que vos assentais, ela vos servindo de banco; sabeis o que é de comer, porque sentis a fome; olhais e acreditais no que os vossos olhos podem ver; diferenciai uma coisa da outra porque elas estão à vossa frente. Ora, se buscardes o reino dos Céus por tais coisas que vedes e sentis, jamais entendereis o reino dos Céus. Em verdade e em verdade vos afirmo, todavia: há que renascer na carne quantas vezes se fizer necessário, porque assim foi com os vossos ancestrais e também com todos vós, e também será hoje, amanhã e sempre. Entre os nascidos de mulher, outro não se levantou maior do que João Batista, porque ele mesmo, no passado, foi Elias, e, tendo sido agora João Batista, vossos olhos não compreenderam.

-Senhor, prega então tais coisas pela Terra.

— Simão Pedro, se eu o disse há pouco a um mestre de Israel e ele :orreu do que lhe disse, imagina então sc eu sair a dizer o mesmo a esse povo, i esses pequeninos! Dia virá, todavia, em que toda a Terra conhecerá tais verdades e elas libertarão os homens. Conhece-se o pecado pela ação da má formação do homem, mas aquele que conhece a verdade jamais comete um adultério ou outro deslize.

— Mas, Mestre, o que entendes por adultério? Nós próprios já cometemos algum adultério ou algum pecado?

— O pecado faz parte do homem. O homem peca em pensamento. Em verdade vos digo: qualquer um de vós que fitar uma mulher e a desejar já estará cometendo adultério, porque o que os olhos dos homens não podem ver é visto pelo Pai que está nas alturas.

Os apóstolos, ouvindo tais explicações, grandemente se encantaram.

JOÃO BERBEL