LII - JESUS E MARTA

LII - JESUS E MARTA

Jesus caminhou pela Palestina, na direção de Jericó, e a certa altura foi abordado por um apóstolo:

— Senhor, precisamos parar, dormir e descansar. Afastados da cidade não encontraremos abrigo noutros lugares.

— Não podemos estacionar aqui!

Jesus sabia não estarem tão longe de Jerusalém e que por lá já se agrupavam com Nicodemos alguns sacerdotes à sua busca. Desceu para Jericó e, a certa altura, ordenou aos apóstolos:

— Ide à frente e mais tarde estarei convosco.

— Por onde iremos? Onde estaremos a te aguardar?

— Ide por aquele caminho. Ao longo dele encontrareis uma grande casa, já ao anoitecer. Lá encontrareis uma mulher muito triste pela doença do filho. Dize-lhe então que o Senhor irá repousar na casa dela e curará o seu filho. Ela entenderá e vos dará pouso e alimento. Banhai-vos lá e cuidai bem de vossas vestes. Lá chegarei mais tarde.

Assim fizeram. Aquela mulher os agasalhou da melhor forma e, ansiosa, ficou à espera de Jesus, que, todavia, apareceu apenas no amanhecer do outro dia.

Aquela mulher lá estava ainda, sentada no mesmo lugar, à porta, e Jesus lhe disse:

— Marta, há quanto tempo estás aí sentada!

— Senhor, o meu filho está morrendo aos poucos!

— Ele ficará bom!

— Nada mais se pode fazer por ele. Esperei-te a noite toda e não apareceste. Teus discípulos estão lá. Oraram e pediram, mas ele continua doente.

— Maria, leva-me até ele!

Jesus foi até aquele enfermo, chamado Felipe, e constatou a sua alta temperatura, a fortíssima infecção intestinal. Indagou Jesus àquele aflita mãe:

— Podes trazer-me água quente?

— Sim.

— Faze-o então.

Levaram-lhe um recipiente com água quente. Jesus cuspiu na água e a mexeu, o que todos estranharam. Jesus fixou Marta e disse:

— Não é nada do que pensas!

Felipe bebeu aquela água e logo lhe cessaram as dores e a febre. Com imediata vontade de evacuar, fê-lo e se libertou do que tanto o enfermava. Estava curado.

Pedro se acercou, dizendo:

— Mestre, não entendo! Oramos, pedimos e nada conseguimos!

— Simão Pedro, aprendeste, mas muito ainda hás de aprender na Terra!

— Mas, Mestre, oramos e o menino continuou doente. Nada pudemos fazer!

— O corpo dessa criança necessitava de certo remédio que vós ainda não conheceis. Pedi e sobre as águas o Pai colocou o remédio.

— Mas, Mestre, cuspiste na água!

— Foi o que viram os vossos olhos. Se tivésseis fé, meus irmãos, veríeis que aquilo foi o remédio que de mim se valeu o Pai para curar aquela criança. Não cuspi: apenas soprei.

Marta, erguida em sua grande fé, disse:

— Senhor, o meu marido é mercador, viaja de um lado a outro. Tenho aqui os meus serviçais. Permanecerás alguns dias conosco?

— Marta, permanecerei contigo neste dia. Conversando depois com ela, disse-lhe Jesus:

— Por pouco tempo viverás nesta casa. Ao saíres daqui, deves ir à Palestina. Lá encontrarás meus irmãos Ananias e Estêvão, e junto deles permanecerás. Sei que eles muito te ajudarão. Dize-lhes que devem acolher a ti e teu filho Felipe. Teu marido não permanecerá muito tempo convosco. Felipe crescerá ao teu lado e ao lado de Ananias. Um dia entenderás a razão disso, porque hoje não a podes entender.

— Ora, como pode ser isto?! Tenho uma casa grande e muita fartura, e tenho os serviçais e tudo o mais...

- Marta, da mesma lorma que Deus te concedeu tudo isso. Ele o tirará de ti. Acredita no que te digo! Marta, não foi a Terra que me trouxe até ti, e sim a vontade do Pai que está nos Céus. A bondade do teu coração nos deu o alimento e a bebida, e isto mesmo ainda darás a muitos dos meus irmãos necessitados. Verás a mim quando encontrares um desses caídos te estendendo a mão e pedindo. Dá e Ceu te dará em dobro! Ajuda e receberás de Deus a ajuda!

— Dizes palavras que não gosto de ouvir! Porém foi muita bondade tua teres curado o meu filho.

— Marta, sei que não me podes entender e não te condeno por isso. Chegará porém o dia em que estarás à minha frente e me sentirás e defenderás com toda a força do teu coração!

Partindo dali, Jesus tomou o rumo de Cafarnaum, terras que ele muito palmilhava.

Em certo momento, Marta viu ao longe uma poeira. Era o seu marido ateus que chegava. Ela o abraçou fortemente e disse:

— Graças a Deus estás vivo!

— Mas o que foi que aconteceu?!

— Nosso filho esteve muito doente.

— E como está ele?

— Jesus o curou, graças ao Altíssimo!

— Tenho viajado muito por aí e, em toda parte, quando não se fala de João Batista, se fala de Jesus. Parece que olvidaram todas as tradições das Sagradas Escrituras. O povo muito fala de Jesus. São inúmeras as curas que tem feito, e então preciso encontrá-lo para lhe agradecer a cura do meu filho. Sei que ele morreria se Jesus não o tivesse curado.

— Desesperei-me por largo tempo. Garanto-te que eu não tinha sono para me deitar e dormir, sempre pensando em que ele não amanheceria vivo. O corpo dele queimava de febre. Tudo o que eu fazia de nada adiantava. De repente chegou aqui um grupo de homens acompanhados de uma mulher. Disse-iam-me que o Senhor viria para salvar o nosso filho e que ele pedira que eu desse guarida àqueles seus discípulos. Na grande vontade de ver bom o nosso fílho, faria eu tudo o que me fosse possível. Acreditei no que disseram e lhes dei alimento e banho. Jesus não apareceu naquela noite. Permaneci ali sentada, a espera dele. Amanheceu e de repente vi ao longe um homem andando cal
mámente, com longos cabelos caídos aos ombros e divididos ao meio. Ele se me aproximou e sorriu. Indaguei-lhe como é que sabia estar doente o nosso filho, já que um daqueles discípulos me dissera que Jesus aqui viria para cura-io. Disse-me então que Deus estava com ele e que assim tudo estava bem. Pediu que eu o levasse até Felipe e assim fiz. Deu-lhe água quente para beber e imediatamente Felipe saiu e soltou tudo aquilo que estava na sua barriga. Ele sarou, se alimentou e não teve mais nada.

— Irei em busca de Jesus!

— Não, Mateus, não deves ir!

— Mas preciso agradecer-lhe, pagar-lhe, passar-lhe algum dinheiro. Estão viajando e às vezes sentem falta de alguma coisa. Temos muito e posso ajudá-lo.

— Devo dizer-te: Jesus não aceita dinheiro de ninguém. Come apenas aquilo que lhe vem à mão, e assim alimenta os seus discípulos. Tão belas são as suas palavras que se pudesse eu ficaria ao lado dele, ouvindo por muito tempo!

— Graças a Deus a nossa família está bem! Tenho um compromisso. Preciso estar em Jerusalém. Pretendo descansar um pouco da minha viagem. Deixarei aqui tudo o que necessitarás por um grande tempo, porque demorarei para retornar. Tenho umas negociações a cumprir. Chegará em Jerusalém um grande mercador que trará muitas vestes valiosas e sei que se encontrá-lo na frente dos demais, antes que ele chegue a Jerusalém, poderei comprar dele por um melhor preço e repassar aos sacerdotes e outros mais.

Mateus descansou e depois viajou para Jerusalém com os seus serviçais.

Perto da cidade havia comerciantes e Mateus fora informado de uma caravana da Pérsia que ali chegaria c assim poderia comprar as valiosas vestes que almejava. Viu então o carregamento no lombo dos animais. Eram roupas maravilhosas que ele comprou.

Aqueles homens, cansados da viagem, permaneceram por ali, enquanto que Mateus e os demais foram até os sacerdotes, venderam as belas vestes e dobraram o seu dinheiro.

Assim que terminou a sua negociação, Mateus comentou com os serviçais:

— Fizemos um ótimo negócio!

Permaneceu por ali e comprou uma encantadora veste para presentear a esposa. E ele dizia, contente:

— Ela já é linda e com este vestido ficará ainda mais bonita! Comprou também alguma coisa para os serviçais que cuidavam do seu rebanho naquele sítio.

Assim se preparou para retornar.

Havia entre os caravaneiros persas um homem chamado Juache. Era espertíssimo e de desmedida ambição, com o desejo de constituir fortuna a qualquer custo. Era um guia das caravanas. Ora, arguto observador, viu que Mateus estava cheio de dinheiro. Chamou os seus servos e se puseram a segui-lo à distância. Viram que Mateus e os seus homens entraram numa taverna, lá beberam vinho e saíram.

Juache e seus serviçais se adiantaram no caminho e se ocultaram. Assim que Mateus e os seus passavam por aquela tocaia, foram atacados. Mateus foi assassinado com uma espada e levaram o seu dinheiro, enquanto que os serviçais correram dali, fugidos.

Judá, um dos serviçais de Mateus, foi até o corpo dele e, vendo-o morto e sem o seu dinheiro, chorou comovidamente sobre ele. Pegou aquela bela Veste e levou para Marta, junto com o corpo do seu patrão. Disse-lhe Judá:

— Mateus tudo fez para lhe dar este presente. Fomos atacados e nada pudemos fazer. Eles estavam armados e mataram o nosso patrão. O meu coração está triste e não há mais lágrimas para derramar!

Marta abraçou o corpo do marido e chorou na maior aflição, durante toda a noite, até que o enterraram.

Desconsolada, a partir daí Marta se pôs em profunda depressão. Não comia, não bebia, não dormia.

Em certo momento, tombada pelo cansaço, ela adormeceu e Jesus lhe apareceu em sonho, da mesma forma que lhe aparecera naquela manhã, encontrando-a sentada naquele banco, sob uma árvore. Jesus se lhe acercou, segurou nas mãos dela e fitou os seus lacrimejantes olhos. Encostou o rosto dela no seu peito e a consolou, dizendo:

— Marta, agora é que começa a tua vida, a tua viagem! Jesus lhe soltou as mãos e, ali aparecendo sua mãe naquele instante, disse:

— Marta, esta é Maria, minha mãe. Porque tanta tristeza nos teus olhos? Minha mãe te consolará!

Maria abraçou Marta com imenso amor e ternura, dizendo:

—Acredita em Deus e também acredita em Jesus!

Marta acordou sob aquelas confortantes impressões, chamou os serviçais que normalmente acompanhavam o seu marido e com eles se dirigiu à Palestina. Lá, como afirmara Jesus, ela encontrou Ananias e depois Estêvão.

Aqueles dois pregavam numa sinagoga. Marta disse ao jovem Ananias:

— Eu estava em minha casa numa tarde e recebi a visita de um grupo de homens se dizendo discípulos de Jesus e afirmando que ele iria visitar-me.

— Jesus te visitou?! Ora, ele passou por aqui rapidamente. Sei que passou por várias localidades, mas não quis permanecer aqui. Tentamos acompanhá-lo, mas não conseguimos. Porém, se encontraste Jesus, conta-nos como foi!

— Meu filho estava doente. Se Jesus não tivesse aparecido, ele teria morrido. Jesus o curou e me disse que em breve eu estaria sem o meu marido e que eu e meu filho Felipe deveríamos procurar por vós, para que muito nos ajudásseis.

Estêvão disse:

— Jesus é da Galiléia e temos notícia de que vai muito bem em seu trabalho. Todavia, lá não o encontramos.

Marta continuou:

— Depois que o meu marido foi assassinado, dormi e sonhei com Jesus. Ele foi consolar-me e me mostrou uma Maria, que ele chamava de mãe.

Disse Estêvão:

— Maria é uma mulher bondosa, maravilhosa! Estamos justamente nos preparando para visitá-la.

— E levariam convosco uma mulher? Eu e meu filho podemos acompanhar-vos?

— Sim!

Dirigiram-se então à casa de Jesus.

Maria saudou com alegria os dois jovens e também Marta e seu filho. Como de costume, preparou pães e peixes para que comessem. Ananias indagou:

— E onde está Levi? Sabemos que ele fica sempre por aqui. Maria se entristeceu, seus olhos se orvalharam.

Ananias, preocupado, indagou:

— Maria, por que choras assim?! Eu disse alguma coisa desagradável? Ele fez algo contra ti?

— Não, meus filhos, foi muito triste! Recordo Levi tal uma criança que nem sabia andar sozinho. Esteve aqui com Jesus, que era ainda bem jovem, e os dois muito caminharam juntos, tornando-se-lhe um inseparável amigo. Ora, Levi foi atacado por ladrões que não respeitaram a vida daquele filho querido e o levaram de mim ! Antes do ocorrido, aqui estiveram alguns nomens de Jerusalém. Um deles, Zaqueu, disse que Jesus muito o havia ajudado, quando adentraraa sua casa e lá se alimentara. Com ele estava Nicodemos e outros mais. Levi, na sua bondade é tão grande educação, sempre era um mensageiro para ir até Jesus, e assim se prontificara a conduzir aqueles homens até ele. Antes de chegarem às terras da Judeia, foram atacados. Aqueles homens perderam apenas alguns pertences, enquanto Levi perdeu a sua vida. Então foi isto que muito me entristeceu. Mas Jesus me disse que havia colocado o espírito de Levi nos braços do Seu Pai e isso me acalentou e enxugou as minhas lágrimas. Marta disse:

— Vejo-te, Maria, da mesma forma que te vi naquele sonho! Maria, não entendendo, estranhou:

— Que sonho?!

— Sonhei que chegaste até mim, em minha casa, e me abraçaste, e teu abraço me foi muito confortador.

— Mas por que o abraço?

— Porque eu perdera o meu marido. Ele era mercador e dava a mim e Felipe uma vida muito farta. Tínhamos muitos serviçais que faziam tudo o que nos era necessário. Jesus me havia dito que meu marido morreria em breve e de fato aconteceu.

Fiquei muito aborrecida. Sonhei contigo e com Jesus, e ele pediu que eu procurasse Estêvão e Ananias, o que fiz.

Maria disse:

— Se Jesus te disse, faze-o da forma que pediu. Disse Ananias:

— Jesus entregou Marta em tuas mãos, Maria. Ela precisa de ti e dos demais.

Marta vendeu a sua casa e comprou outra na Palestina, a qual se transformou em casa de orações, como se fosse uma sinagoga, servindo de apoio a muitas pessoas necessitadas, a exemplo do que fazia a mãe de Jesus, com quem ela aprendera.

Conhecendo algo das Escrituras, o que aprendera com Ananias, Marta fez daquele local como que uma escola para as crianças, inspirada na ímpar dedicação de Maria a tal atividade.

JOÃO BERBEL