LIII - O SEMEADOR

LIII - O SEMEADOR

Aproximando-se de Cafamaum, Jesus encontrou uma grande multidão a aguardá-lo no caminho, todos desejosos de caminhar com ele. Era a hora do almoço e seus apóstolos estavam famintos. Disse-lhes Jesus:

— Ide até a cidade. Permanecerei por aqui. André, João e Tiago, acompanhai-me!

Aquele grupo seguiu em frente e os quatro também se retiraram dali.

Jesus subiu no mais alto ponto montanhoso, com bela vista para a bem próxima Cafarnaum e o seu grande lago. Sentou-se e ficou acompanhando com os olhos aquela multidão que o recepcionara e seguia com os demais apóstolos.

Diante dos três apóstolos, disse Jesus:

— Há muitas coisas que ainda tenho para fazer, porque os meus dias vão chegando ao fim. Muito ainda hei de andar enquanto ainda é dia.

Ordenou que os três tomassem uma posição em meio àquelas pedras e que permanecessem orando em silêncio.

Foi até uma pedra, à sombra de uma árvore, ali se recostou e fechou os olhos.

Os três olharam para trás e viram que uma névoa branca saía dos orifícios do corpo de Jesus. Espantaram-se grandemente com aquilo.

Jesus permaneceu estático, silencioso, enquanto os apóstolos oravam incessantemente.

Toda aquela tarde decorreu na mesma situação: Jesus estático e os três sob contínua oração.

Quando findava o dia, Jesus se despertou e, diante dos seus apóstolos, ouviu:

— Dormiste e saiu de dentro de ti uma coisa muito esquisita! Quanto a nós, estamos cansados de tanto orar!

A oração não e capaz de cansar ninguém, a nao ser aqueles que se mostram realmente despreparados para orar.

Quando a oração vem do coração, este sentimento sobe até Deus e o Pai nos dá o alívio e o conforto do nosso corpo.

— Mas, Senhor, por que dormiste tanto?

— Vossos olhos viram que eu dormia, porque assim mesmo eles vêem e crêem no que podem ver. Em verdade tenho visitado os gentios, os que não têm religião.

Tenho visitado todo o vosso mundo. Muitos me verão assim, e verão o filho do Homem andando sobre os homens e falando aos homens na linguagem deles ou na mesma linguagem que ora uso para vós.

— Mas, Senhor, há muita diferenciação nas línguas. Os egípcios falam de uma forma própria, bem sabemos disso. Também o povo da Pérsia e outros povos distantes falam em outros idiomas. Ora, se foste até eles, como pudeste lalar na linguagem deles?

— Ainda não credes nos poderes que o Pai me atribuiu? Entendeis as misas pequeninas. Acreditais no pão que comeis porque vedes o grão do trigo germinar na terra e produzir. Então é assim que acreditais. Também acreditais que das sementes vêm as árvores frutíferas e as suas frutas. Ora, se tanta dificuIdade ainda demonstrais em entender melhor tudo isto que vem da Terra, haveríeis de aprofundar ainda mais as coisas de Deus. Contemplai o céu, as nuvens, a chuva que cai para todos os povos, para os bons e maus. Acreditais que a chuva vem diretamente de Deus porque não a vede subir ao céu sob outra forma. Ora, assim também sou eu entre vós. No dia em que não puder mais caminhar, subirei aos Céus e vossos olhos então me verão, e crereis em mim.

-Tudo o que é concedido ao homem ele o absorveu da Terra, mas tudo o que é concedido ao homem proveio antes do Céu e do amor soberano do Pai, do mesmo amor que vos dedico. Foi com este mesmo amor que há pouco fui ao encontro dos meus irmãos longínquos que em mim não puderam tocar por estarem na carne. Porém, andei sobre eles e me viram e, de certa forma, tocaram em mim, porque assim o quis o Pai que está nos Céus. Faço tudo aquilo que o Pai I ordena. E se o filho faz tudo o que lhe ordena o seu pai, ele é um bom filho, e se o filho lhe desobedece, é um mau filho. Para ser um bom filho há de se surpreender a vontade que vem do pai. Todo homem que tem a sua esposa cria os seus filhos para que cresçam na Terra, e se tornem homens, seguindo os mandamentos, ordenando que se multipliquem - porque tal é a lei que veio do Pai que está nos Céus. O pai ensina os seus filhos e eles aprendem segundo a vontade do próprio pai. Hoje estou entre vós, porque sou o Príncipe deste mundo e para tal princípio vim a este mundo, mas dia virá em que não mais me vereis nem podereis tocar-me, e, entretanto, mesmo assim estarei ao vosso lado, mesmo vós não me vendo. Ora, se o Pai ordenou que eu pregasse também a outros povos, por que ignoraria a própria ignorância? O que viste em mim é o próprio amor que o Pai tem em mim, o mesmo amor que tenho ao Pai e a cada um de vós, pois quem ama o Pai ama também os filhos dEle: se não amar os irmãos não há como amar o Pai. Então o Pai manda que, mesmo agredidos pelos irmãos, maior ainda se torne o nosso amor por eles, por aqueles que ainda nos odeiam, perseguem e caluniam. Se assim não fosse, eu não vo-lo diria, meus irmãos, porque, em verdade, vós mesmos me escolhestes para que caminhasse ao vosso lado. E vós sereis os doze que acalmareis as doze tribos da Judéia e Israel.

Diante daquele longo discurso, estáticos e admirados estavam aqueles três apóstolos.

Desceram a montanha e foram ao encontro da multidão a aguardá-los. Muitos diziam a Jesus:

— Onde estavas? Por que tanto demoraste? Precisamos de ti! Ajuda--nos a salvar-nos dos pecados! Cura as nossas doenças!

Jesus lhes disse:

— Estive ao vosso lado a todo tempo e vossos olhos não puderam ver--me. Procedei à semelhança daquele que sai a semear, porque aquele que semeia, colhe, e se bem semeia, boas coisas lhe advirão. Assim me vejo entre vós. Se semeio entre vós é porque sou o Semeador. Se lanço as minhas sementes sobre as pedras, sei que terão dificuldade para germinar, mas mesmo assim germinarão. Se eu jogar as sementes em terra safara, também elas germinarão. Se jogar as minhas sementes no espinheiro, mesmo assim nascerão sobre os espinhos. Porém, jogo também em terras férteis as minhas sementes. Assim foi com os que me antecederam: vieram para lançar as suas sementes. Porém, muitos não os compreenderam, e então será o mesmo com o Filho do Homem. Colhereis o que semeardes. Mesmo que o terreno seja ruim, jogai-lhe a boa semente, para que ela renda frutos e estes possam agradar ao Pai que está nos Céus!

Após aquela bela preleção, disse-lhes ainda Jesus:

— Vós que tendes a doença a atormentar a vossa alma, crede e orai, porque o Filho do Homem está entre vós! Todos vós que vos atordoais no pecado, arrependei-vos, porque o Fogo do Céu cairá sobre vós e queimará do vosso corpo e da vossa alma todo fruto do pecado, porque assim mesmo foi escrito e foi dito.

— Tenho lido abertamente as Escrituras e nelas jamais encontrei essas palavras que dizes provir dos antigos.

— Hipócrita és tu, escriba! Hipócritas sois vós, fariseus, que não podeis compreender a doçura do mel mesmo sabendo que a abelha é venenosa e produz um bom mel! Mesmo que o trigo não seja de boa qualidade, produz um bom pão para alimentar o homem, porque assim o permite o Pai que está nos Céus. Por mais que na maravilha das coisas se encontre dificuldade para entender, entende aquele que tem olhos para me ver e entende aquele que tem ouvidos para me ouvir. Assim como ocorreu com Elias, que atraiu sobre vós o fogo dos Céus, também eu lanço o Fogo sobre vós, para queimar as vossas doenças!

De repente gritou um homem lá da distância:

— Senhor, filho de Deus! Senhor, filho do nosso Deus! Eu estou curado, porque ouvi as tuas palavras!

Perceberam que se tratava de um corcunda que sempre sentira fortes dores na coluna. Seu corpo se endireitara e muitos se admiraram com aquilo.

E, da mesma forma, muitos e muitos que manifestavam dores no corpo foram sendo curados naqueles momentos.

Jesus disse:

— Para dar testemunho a vós, escribas e fariseus, dos Céus ainda desce o fogo do amor do espírito santo, que ainda queima a alma dos que não acreditam. Não estarei convosco nem mais nada vos direi, por não entenderdes o que digo!

Quando aquele aleijado, plenamente curado, foi até Jesus, aquele escriba caiu de joelhos à frente do Messias e lhe pediu perdão, dizendo:

— Conheço este homem desde quando ele era bem jovem. Jamais ele tivera paz, tal era a dor pelo problema em suas costas, e agora o vejo curado. Senhor, tem piedade de mim e faze de mim um dos teus servos!

— O que tens, Jonatas, a oferecer ao Filho do Homem?

— Ora, Senhor, tenho muito dinheiro, muita fartura deixada pelo meu pai.

— Crês que sou o Messias?

— Sim, creio, pela força do teu amor!

— Crês que sou o Emissário do Pai?

— Sim, creio!

— Então vai e renuncia aos teus tesouros materiais! Acuda os necessitados, minha memoria e em minha memoria herdaras o reino dos Ceus! Jonatas se ergueu e Jesus o abraçou.

Ao sair dali, Jesus foi abordado por um dos que ali estavam e que indagou:

— Senhor, é pecado ter tesouros sobre a Terra?

Jesus fitou aquele e os demais que com ele faziam aquela pergunta, e disse:

— Não há pecado maior no homem do que ofender o seu irmão. Àquele que é muito dado também é muito cobrado.

— Mas, Senhor, qual é o pecado do homem?

— Pecado algum cai sobre o homem sem que venha da mão de Deus, mas Deus não criou o pecado para o homem: o próprio homem criou o pecado para si mesmo. Ora, tudo o que é dado ao homem vem de Deus. Em verdade vos afirmo que não deixarão de estar entre vós os trabalhadores da última hora. Sim, porque assim foi feito com um grande senhor a quem fora concedido um grande poder na Terra. Alguns trabalhadores foram procurá-lo. Nas primeiras horas do dia chegou um trabalhador e lhe foi passado o serviço. Ao meio-dia chegou outro trabalhador que também obteve serviço. A vinha era muito grande e havia trabalho para muitos. A tarde já bem avançava quando ali chegou ainda um outro pedindo serviço e, sob a bondade e sentido de igualdade daquele patrão, também obteve serviço. E os três trabalharam. O primeiro produziu bastante, o segundo produziu um pouco menos e o terceiro pouquíssimo, embora tudo fizesse para produzir ao máximo. O primeiro recebeu o pagamento por um dia todo de serviço. O segundo também recebeu o mesmo valor, como se houvesse trabalhado o dia todo. E também o último chegou para receber e disse: — Senhor, lutei muito para que pudesse produzir igual aos demais, mas curto foi o meu tempo. Aquele senhor lhe disse: — Está aqui o teu pagamento. Porém, aquele trabalhador da primeira hora, vendo aquilo, disse ao patrão: — Mas, senhor, trabalhei o dia todo e deste a ele o mesmo que deste a mim! O trabalhador do meio-dia também estranhou e, indignado, fez a mesma observação ao seu patrão. Eis que então lhes disse aquele senhor: — Em verdade, em verdade vos digo: tu, que primeiro vieste, muito trabalhaste; e tu, que vieste ao meio-dia, também muito lutaste e bem produziste; e também tu que chegaste na última hora muito produziste, tentando colher tanto quanto os outros dois, não deixando escapar momento algum para que fosse aproveitado, e então o Senhor te viu com bons olhos, porque foste o fiel trabalhador da última hora?! E o senhor lhes disse:

-Senhor, ele é o último e recebe igual a nós?!: — Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos no reino dos Céus. Então deveis trabalhar bastante com o vosso amor e a vossa dedicação para que recebais a recompensa dos Céus.

Dirigindo-se agora àquele homem abastado, disse-lhe Jesus:

— Vai e prega! Cria grandes plantações e oferece-as como trabalho aos homens para que sustentem a sua família, porque se renunciares ao teu galardão de ouro da Terra terás um novo galardão nos Céus. Assim foi feito para todos vós: para que recebais do Sol o mesmo calor que o pobre requisita e para que a chuva que molha a vossa lavoura molhe também as plantações dos pobres. Assim foi no princípio, será no meio e será no fim, porque a todos que aportarem da Seara do Pai, mesmo que forem nas últimas horas, será ofertado trabalho, porque aí está a grandeza do amor do Pai, que tem em todos vós os seus filhos amados!

Várias mulheres, com seus maridos e parentes, vinham acompanhando Jesus, que, chegando a uma hospedaria, pediu que para elas fosse oferecida hospedagem, escolhendo o estábulo para se acomodar com os seus apóstolos.

Todos comeram e beberam naquela hospedaria. O abastado Jonatas pagou todas as despesas, dizendo que comessem em memória de Jesus.

Feliz com aquele procedimento, disse-lhe, porém, Jesus:

— Jonatas, não somente à minha frente esse povo sente fome. Quando eu lhes der as costas ainda sentirão fome. Aquele que produz boas coisas às vistas do homem há de fazê-las também na sua ausência, porque Deus vê o que não veem os olhos dos homens.

Jonatas indagou:

— Mas, Mestre, tudo o que eu fizer será agradável aos olhos de Deus? Até um vintém que eu der a alguém será enxergado por Deus?

— Não duvides disso, Jonatas, porque Deus vê tudo o que não veem os seus olhos mas sabe a tua consciência. Não olvides, Jonatas, que até os cabelos da tua cabeça estão contados, pois Deus a tudo conhece. Então não te preocupes nem deixes alguém em miséria quando te vires servido pelos tesouros da Terra.

Jesus e os seus apóstolos se acomodaram entre os capins daquela estrebaria.

Pedro havia guardado alguns pães e Jesus os repartiu entre todos, também ele se alimentando.

Pedro indagou:

- Mestre, falas e escreve a esse povo por parábolas, mas ele pouco pode entender o sentido claro de tuas palavras.

— Simão Pedro, filho de Jonatas! Deus, nosso Pai que está nas alturas, permite que eu passe por parábolas os meus ensinos, mas a vós que me seguis é dado compreender mais claramente o que digo, porque um dia fareis de mim os vossos próprios passos. Nesse dias caminharei ao vosso lado e aquilo que digo ao povo será dito também por vós. Por isso é que o Pai permite que melhor vos esclareça. O bom semeador é todo aquele que ouve e segue a palavra, é aquele que escuta e sai semeando. Vê bem! Quando lançares a semente em terra fraca, ela germinará, mas será também frágil: produzirá poucas sementes e logo fenecerá. Este é aquele que me ouve e sente, mas não deixa que eu nasça no seu coração para que possa produzir em meu nome. Aquela semente que cai sobre o terreno pedregoso germinará, mas não produzirá um bom fruto, porque estará enraizada na velha lei e não poderá ver a luz. Aquela semente que cai sobre o espinheiro germinará, porque boa é a terra, mas logo será abraçada pelos espinhos, que são os demônios que vêm roubando as virtudes do homem e lhe provocando sofrimento, porque ele adentra a porta larga e não pode compreender o que há por trás da porta estreita; tem vontade de produzir, mas é aprisionado pelas coisas da Terra, porque os demônios estão do lado dele, fazendo com que se filie ao mal. Porém, aquela semente que cai em terra fértil produz outras cem mil ou mais sementes, e elas se vão espalhando. Este é então o bom semeador, este sou eu entre vós e será cada um de vós que lançareis as vossas sementes, as quais cairão muitas vezes em locais sáfaros e, caso germinem, serão sufocadas pelas coisas materiais e não entenderão as vossas palavras. Outros lançarão as suas sementes em terras improdutivas e será da mesma forma das pedras e dos espinheiros, porque ainda não aceitarão Deus da forma que sente o vosso coração. E hoje, em verdade, semeio em cada um de vós que está comigo e caminha comigo!

Tiago disse:

— Mestre, quando repousaste solitário debaixo daquela sombra soltaste muita coisa estranha e disseste que foste aos gentios. Como é isto?

— Para tal princípio vim ao mundo: para dar testemunho à verdade, para que mesmo aqueles que não estejam comigo ainda assim me vejam. Estarei refletido em vós e vós acalmareis as doze tribos de Israel!

Todos silenciaram e Jesus também silenciou e adormeceu. Ao surgir de um novo dia, Jesus lhes disse:

— Teremos hoje um dia sobrecarregado de problemas, porque muitos e muitos nos procurarão. Cada um de vós lhes dirá então tudo o que ouviu de mim. Anunciai que o reino do Céu está próximo, dizendo-o em amor a mim e àqueles que me antecederam.

Saíram dali e, de fato, logo encontraram uma multidão desejosa de ver, ouvir e tocar em Jesus.

De muito longe chegou uma família com uma menina completamente endemoninhada. Tal um bicho, estava amarrada por pés e mãos dentro de uma carroça. Ela rasgava a roupa, ficava seminua e corria por todo lado.

Três homens e uma mulher desceram daquela carroça e se acercaram de Jesus, um deles dizendo:

— Senhor, há meses te procuramos. Peço-te, pelo amor de Deus, por minha filha! Ela é possuída pela força do mal! Nada consegue acalmá-la. Para alimentá-la é um sacrifício: temos de segurá-la, tombar a comida por sua boca, e ela engasga e passa muito mal. Não nos perdoa de jeito algum: diz palavrões, xinga constantemente. Já a levei em todos os templos, até mesmo no grande templo de Israel, e lá não quiseram recebê-la. Já a levei em inúmeras sinagogas e também se negaram a recebê-la.

Senhor, espero que, pelo teu amor em Deus, possas recebê-la!

Jesus abraçou aquele homem e sua mulher, a esta indagando:

— Crês que tua filha ficará boa?

— Sim! Com toda a fé do meu coração! Acredito em ti, porque já deste luz aos cegos e fizeste andar os paralíticos!

A multidão estava atenta ao que pudesse acontecer com aquela infeliz menina.

Jesus se acercou da carroça e ordenou àqueles homens:

— Soltai a menina!

— Senhor, ela fugirá e para segurá-la precisaremos de muitos homens!

— Cortai as amarras!

Obedeceram-no e a menina, cabelos desgrenhados, maltrapilha, toda suja, permaneceu quieta no lugar. Jesus se lhe acercou e ela se levantou, sentou--se, quis correr dali, mas Jesus ergueu a mão na sua direção, sem nada dizer, e ela estacou.

Virando-se, a menina entortou o pescoço, virou os olhos e, retorcida de um lado, rastejou e se ajoelhou diante de Jesus.

O espírito imundo a tomar a menina pronunciou palavras que ninguém ali entendia. Jesus o fixou e falou naquela sua mesma linguagem desconhecida:

— Imundo espírito, aí não é o teu lugar!

—Afasta-te, espírito cruel! Ser imperfeito, ser imundo, a ti não pertence este mundo e serás lançado no sofrimento!

O espírito deu tremendo grito e em sua linguagem disse:

—Não me jogues no Inferno! Não queimarei no Inferno, Senhor! Livra-me do Inferno, Senhor!

— Vai-te daqui, espírito de más obras! Para ti não há piedade, porque também nos teus olhos não há piedade! Retira-te desta irmã!

Jesus levou as mãos até a menina e ela deu um grito medonho, caindo com pernas e braços retorcidos para trás, como se os tivesse quebrado. Pondo--se ela em choro, Jesus a beijou e abraçou fortemente, mesmo que ela exalasse um horrível odor de fezes e outras imundícies, e a levou até uma hospedaria, ordenando que a banhassem e lhe tratassem os ferimentos.

Jesus se dirigiu a um arvoredo e se sentou num dos troncos. Seus apóstolos foram ter com ele e Pedro lhe disse:

— Mestre, nunca se viu tanta força num homem!

— Crês em mim pelas coisas que eu faço ou por aquilo que falo? Simão Pedro, se eu não operasse tais obras não acreditarias em mim? Hoje ainda caminho ao teu lado e todos aqueles que crêem em mim serão curados, porque eu estou no Pai e o Pai está em mim. Ora, se crês em minha obra também tens de acreditar em mim!

Jesus se ergueu e, vendo ali uma taverna que era um prostíbulo, caminhou até lá e a adentrou, sob os olhares de admiração daquelas mulheres. Seus apóstolos ficaram na porta, enquanto Jesus se sentou em meio às mulheres e alguns homens já embriagados.

Jesus fitou a todos e disse:

— Vós que andais pelo mundo em busca de aventura, sois filhos de Deus, da mesma forma que eu e os meus irmãos! Recordai que a cada um de vós foi dado um pai e uma mãe, e recebestes um nome para que Deus o glorificasse na Terra e fôsseis sustentados segundo a vontade do Pai. Ouvi-me no que vos digo!

Uma daquelas mulheres disse:

— Senhor, és tão bondoso! Ouvimos maravilhas a teu respeito. Quanto a nós, somos a perdição do mundo! Já estamos condenadas por todas as leis do teu Deus e dos profetas, porque em nós ninguém confia, a não ser na condição de prostitutas que somos.

- Mulheres de má fama, isto mesmo dizeis de vós porque também vós próprias acreditais que o sois!

Ouvindo Jesus pronunciar aquelas palavras, um homem indagou:

— Mas, Senhor, no Céu há lugar para nós, errantes e pecadores?

— Não vim para chamar os sãos ao arrependimento, e sim os pecadores. Se crede que vossa vida pode mudar, então a mudareis.

Saindo Jesus dali, algumas mulheres e alguns homens o seguiram. Caminhando, Jesus viu um mendigo que muito lamentava por sua situação.

Jesus o ergueu do chão e o abraçou, colocando a cabeça dele no seu ombro. Foi um fortíssimo abraço, a transfundir-lhe todo o seu puro amor.

Assim que Jesus o soltou, uma daquelas pessoas disse:

— Jesus, este homem há tempos não se banha. Cheira bebida e imundície. Como podes abraçá-lo assim?!

Aquele mendigo se acercou e disse:

— Senhor, tem piedade de mim!

— Hoje recebeste a salvação!

Um odor diferenciado e agradável tomou imediatamente aquele mendigo, perfume que foi sentido por homens e mulheres que então foram ter com ele. Jesus caminhou, deixando para trás aquela cidade, seguido da multidão. A certa altura, parou e, sentando-se, pôs-se a escrever no chão. Seus apóstolos e outros mais se lhe acercaram e, levantando-se, pôs-se ele ao lado de Jonatas e de alguns fariseus. Lendo na mente deles a sua indignação religiosa por ter entrado numa casa de prostituição, indagou-lhes:

— Escribas e fariseus, o que dizeis por eu comer e beber com as prostitutas?

Um daqueles homens o fixou e disse:

— O meu nome é Salomão. Herdei-o dos antigos para que eu bem seguisse os profetas e suas leis. Ora, se fosses apenas um profeta já saberias que errado é o que fizeste.

— Fariseus hipócritas, as prostitutas vos antecederão no reino dos Céus! Acreditais em mim por aquilo que faço, e não por aquilo que prego. Em verdade, em verdade vos digo que não pode ser roubado ao menos a mais miúda letra dos escritos deixados pelos vossos antigos profetas, mas também vos digo que ninguém pode chegar ao Pai senão através do amor. Se o vosso coração está enlaçado de amor apenas por aqueles que vos amam, então que amor dos Céus poderá derramar-se sobre vós? Lestes o que está escrito, ouvistes o que foi dito, tivestes o ensino de que o Pai e eterno por sobre todas as criaturas, que ele conhece todos os Seus filhos, porque Ele sabe de onde vêm e para onde vão. Todavia, aqueles que me podem compreender em tudo o que tenho dito e feito também conhecerão em mim o Pai e verão que não vim a este mundo para burlar a lei nem mudar um só til das suas palavras, e sim para dar cumprimento à verdade. Aquele que crer em mim estará salvo, porque eu estarei nele e ele estará em mim! Aquele fariseu voltou a questioná-lo:

— Ora, proclamas-te Deus a ti mesmo?!

— Poucas coisas da Terra compreendeste e não entendeste nada das coisas do Céu. Se fitasses o céu e o admirasses, talvez que lá não encontrarias o Pai que está nos Céus, mas eu posso vê-Lo e sei que Ele está próximo, a nos invitar a que nos amemos uns aos outros para que assim encontremos o verdadeiro amor. Se eu vos digo que sou deus vos espantais, mais ainda vos digo: também sois deuses. Basta crerdes no que eu faço e também fareis a mesma coisa. Se tivésseis a fé do tamanho de um grão de mostarda, ordenaríeis àquela montanha que se transportasse daqui para acolá e ela vos obedeceria. Contudo, tão miúda é no coração a vossa fé que ainda não atingiu a vossa alma. Então ainda não podeis entender aquilo que vem dos Céus, porque aquilo que é criado pela Terra morre na própria Terra, enquanto que o espírito, criado por Deus, retorna para o próprio Deus. Em verdade e em verdade vos digo: ninguém vai ao Pai se não passar por mim!

Aqueles fariseus saíram dali com aquelas palavras atordoando a sua mente, sem que penetrassem o seu mais profundo sentido.

Jesus se afastou e, sentando-se, novamente se pôs a escrever no chão. Passava o dia e a multidão se dispersava. Jesus se ergueu e caminhou vagarosamente. Maria se lhe acercou e disse:

— Senhor, estiveste em Damasco. Ora, também conheci Damasco. Hoje estamos em Cafarnaum, nas proximidades de Jericó. Poderias ir até minha casa em Jericó?

— Maria, ainda não me é cedido tal tempo. Todo tempo tem o seu tempo. Um dia entenderás, porque então saberás que a hora é chegada

JOÃO BERBEL