LIV - NA VILA DOS PESCADORES

LIV - NA VILA DOS PESCADORES

Jesus se dirigiu ao Mar da Galiléia, aos locais de origem dos seus apóstolos.

Estes há muito não retornavam por ali e estavam saudosos dos seus familiares, o que motivou Jesus a tomar aquela atitude de deixá-los visitar os seus entes queridos.

Lá chegando, encontraram um grande número de pescadores, inclusive aqueles homens que haviam herdado o barco e o serviço de Pedro, com a Obrigação de cuidarem da família dele.

Os parentes dos apóstolos, sabendo da chegada deles, foram ao encontro daquele grupo liderado por Jesus.

Uma multidão estava então ali.

Um certo homem conduzia nos braços a sua filhinha portadora de uma determinada enfermidade que lhe provocava o completo desequilíbrio do estomago e dos intestinos.

Ninguém lograva curá-la daquele mal pertinaz.

Desesperado, agitado em meio à multidão, aquele homem abriu caminho até Jesus, apresentando-lhe aquela criança muito emagrecida pela desnutrição.

Jesus fitou o pai e a filha e pediu:

— Simão Pedro, busca um pouco daquela água do mar.

Pedro pegou uma vasilha e, buscando a água, levou-a até Jesus. Este perpassou a mão naquela vasilha e a ergueu, dizendo:

— Pai, Tu que criaste o Céu e a Terra; Tu que enfeixas nas mãos todo o poder de ontem, hoje, amanhã e sempre; Tu que fazes nascer tudo o que existe na Terra, inclusive os homens, faze que de Ti possa neste momento descer a cura a esta criança!

Levando a mão por sobre a vasilha, Jesus pediu que aquele pai desse à filha aquela água.

Um daqueles homens observou:

— Senhor, ninguém bebe dessa água! Nela ha muita impureza. Jesus lhe disse:

— Crê no que vês porque sabes do que se trata. Se creres cm mim verás que o Pai está em mim e eu estou no Pai!

A menina bebeu normalmente daquela água e o seu pai, maravilhado, disse:

— Creio em ti!

— Crês em mim, Joaquim, porque tua filha está doente?

— Não! Creio em ti porque és o Emissário dos Céus que veio para nos salvar!

Jesus retirou-se dali com os apóstolos e um destes lhe indagou:

— Senhor, aquela criança irá curar-se?

— Sim, porque o Pai assim deseja. Disse-o, respirou fundo e continuou:

— Crede que vim ao mundo para lhe dar uma nova paz?

— Sim, Senhor! - responderam os apóstolos.

— Não vim a este mundo para trazer a paz, e sim a espada. Não vim para julgar nem condenar o mundo. Não vim para derrogar as leis, e sim para lhes dar cumprimento. Aquele que crê e vive em mim jamais estará abandonado, porque o que vos digo será escrito por vós e permanecerá em vós. Os homens trilharão outros caminhos, buscarão muitas aventuras. Aqueles que fugirem do que vos digo serão condenados por si mesmos, mas aqueles que me puderem entender beberão do remédio, da forma que o bebeu aquela menina, e sararão. Quanto àqueles que não crerem em mim, beberão o amargo do fel e não entrarão nos Céus, por não terem compreendido as minhas palavras, e se perderão por si mesmos, porque o seu final é como um juízo e ele dará testemunho da verdade. Toda verdade estará com aquele homem que acredita poder ser livre em se tornando simples nas vestes e na conduta, em se equilibrando no seu sentimento de amor, esquivando-se da falsa vestimenta dos escribas e fariseus, que não serão alçados aos Céus. De simples verde se vestem em lírios do campo, mas florescem e se tornam belos, e sua beleza se torna igualitária por provir da simplicidade dos Céus. Grandes reis se vestiram pomposamente, mas não tiveram a beleza dos lírios dos campos; não ascenderão ao Céu, porque este é daqueles que são simples e puros de coração. Ninguém pode chegar ao Pai senão através do amor - e eu sou o amor entre vós! Para tal princípio foi que me fiz homem neste mundo, para que todos vejam a minha obra e escutem a minha palavra. E a minha palavra é tal uma espada atravessando o coração daquele que não tem a coragem de envergar a veste da simplicidade beber das águas limpas dos grandes templos, por não serem lá vistos com bons olhos, porque chamados de mendigos, ladrões, prostitutas. Porém, todos eles são filhos de Deus que nasceram na Terra para que estejam em paz com o Pai. Aqueles Que então entenderem a minha palavra estarão comigo, mas aqueles que não me podem entender, aqueles que ostentam os seus galardões de ouro e se fazem pode-10sos sobre a Terra, pobres se verão perante os grandes que ascenderão sobre lies. Não ouvistes o que eu vos disse de Lázaro? Ele pôde ascender aos Céus e foi grato ao Senhor, enquanto que o homem assentado nos seus galardões e ignorando a simplicidade teve a amargura de ser sacrificado pela sua própria espada. Hoje caminho entre vós, e me vedes, mas já chegam os dias em que não mais me vereis. Agora ide e festejai com os vossos parentes, pois muitos de vós não tereis tão perto os parentes, porque os meus dias se encurtam e a minha missão tem que ser cumprida na Terra. Então festejai em minha memória e em memória dos vossos ancestrais.

Aquela multidão ouvia Jesus falar com os seus apóstolos, ordenando que fossem ao lar dos seus parentes.

Todos os apóstolos desejavam que Jesus os acompanhasse, apresentá-lo a algum parente que o desconhecia, mas Jesus lhes disse:

— Não! Ide, porque hoje o mundo vos pertence. Porém, chegará o dia em que realmente estarei em vós e então o mundo já não vos pertencerá, e pertencereis a Deus - porque em verdade vos digo que ainda não estou em vós.

Simão Pedro se adiantou:

— Sim, Mestre, estás em mim! Já disseste que andarias ao nosso lado.

— Repito-vos: estarei convosco. Hoje podeis ver-me e entender-me, e as vezes nem tanto compreender-me como o devíeis, mas chegará o dia em que nlo mais me vereis, e então me entendereis. E quanto a ti, Simão Pedro, compreenderás então todas as minhas palavras e tomarás para ti as minhas regras e delas não tirarás uma só letra. Assim será e assim será visto!

Os apóstolos se retiraram e Jesus também se retirou dali, a multidão se dispersando e ele caminhando solitário.

Chegando àquela casa de prostituição onde estivera e pregara, Jesus ficou surpreso ao constatar que tudo ali se diferenciara. Não mais prostitutas: era uma hospedaria atendendo os viajores.

Ali ele encontrou Jacó, o proprietário, que o saudou, dizendo:

— Jesus! E's o homem de Nazaré!

— Jacó, tua boca e os teus lábios o disseram.

— És o Senhor de lodos os senhores, porque es o senhor dos profetas, porque entre todos não se levantou outro igual a ti!

— Disseste que sou de Nazaré e em verdade sou de Nazaré. Afirmo-te, porém: não apenas de Nazaré, mas também de Israel e de todos os povos e de todo o mundo, porque para este princípio vim a este mundo.

— Perdoa-me, Senhor, pelas minhas palavras! Bebes e comes comigo?

— Sim, Jacó, bebo e como contigo. Comeu, bebeu e disse:

— Jacó, é a última vez que adentro esta casa. Eu já estivera aqui e bem viste o quanto melhorou a tua vida e a vida dos demais que aqui frequentavam.

— Senhor, desde então mudou muito esta nossa vila, o nosso povo. Temos até uma sinagoga e até mesmo os pregadores que de longe nos vêm trazer a palavra de Deus, falar sobre as sagradas escrituras.

— Foi para tal testemunho, Jacó, que vim a este mundo, para chamar os culpados ao arrependimento. Não vim para os escribas e fariseus, e sim para os simples e humildes. Estes me ouvirão e estarão comigo, e assim será no curso do tempo. Os ricos não me ouvirão, pois dificultoso é que me entendam.

— Pousarás hoje em minha casa?

— Não! Recolher-me-ei sozinho. Aqueles que Deus me deu estarão com os seus familiares nesta noite e eu estarei com o meu Pai.

Disse-o, dali se retirou e saiu andando solitário pela praia. Já era noite escura. Jesus foi ter ao barco de Simão Pedro, colocou a mão sobre ele e orou:

— Abençoados são todos os homens que vivem no mar e dele tiram o seu alimento! Abençoados sejam todos os pescadores! Pai, está chegando o meu dia e Te peço: não Te afastes de mim, nem na minha vida nem na minha morte!

Subiu no barco e nele se deitou. Fitando o firmamento e orando, adormeceu.

Passou aquela noite serena.

Ao amanhecer, os pescadores encontraram Jesus dormindo no barco e o acordaram. Erguendo-se, ele foi ter com os apóstolos, dizendo-lhes:

— Hoje iremos ao Jordão.

— Mas, Mestre - observou um deles -, no Jordão não há mais ninguém. Depois que mataram João Batista, ninguém mais vai até lá.

— Sim, mas iremos mesmo assim! André, Judas, João e Pedro, segui-me!

JOÃO BERBEL