LIX - PRISÃO E CONDENAÇÃO

LIX - PRISÃO E CONDENAÇÃO

Instalado com os seus naquela casa de José de Arimatéia, Jesus pediu a Judas que fosse buscar o pão e o melhor vinho que pudesse encontrar.

Jesus procurava acalmar os seus apóstolos pedindo que não tivessem medo, afirmando que mal algum lhes aconteceria.

Judas logo retornou, muito contente por ter conseguido um bom vinho e vários pães, que colocou à mesa.

Uma grande multidão se acercara dali e Jesus ficou aguardando a chegada da noite. Viu o seu primo Darúbio observando-o próximo à janela e se manteve reunido apenas com os apóstolos.

Em certo momento chamou Judas à parte e lhe disse:

— Judas, lembra-te do que te foi dito! Dentre todos, és o meu bem--amado! Está grafado nas Escrituras que o Filho do Homem será vendido por trinta moedas de ouro. Judas, a ti cabe esta missão!

— Senhor, não a mim! Tira de mim este espinho, Senhor! Não coloques nos meus ombros tão pesado fardo!

— Judas, carregarei a minha cruz apenas um dia, enquanto tu a carregarás para a eternidade! Não duvides, porém, que estarei ao teu lado a todo momento. A cada um de nós foi entregue uma missão, e a tua missão, Judas, é essa. Ao estarmos
ceando, molha o pão no vinho e come, antes de mim, e sai. Ninguém reparará na tua saída, porque estarão fixados em mim.

A noite veio e toda aquela gente se dispersou dali. Jesus se sentou diante da grande mesa, dividiu os seus apóstolos, seis de cada lado, e lhes disse:

— E' chegado o momento, é chegada a minha hora! Esta é a última vez que bebo convosco o fruto da uva. Isto se dará novamente apenas no Paraíso, na Casa do meu Pai. Em verdade vos digo que na Casa do Pai há muitas moradas, e se assim não
fosse eu não vo-lo diria. Rogarei ao Pai que, lá onde eu estiver, possais estar comigo, porque em verdade vós me escolhestes: eu não vos escolhi, então nesta noite uma nova aliança é feita convosco. Dentre vós, porém, um há de me trair, porque assim está escrito! Pedro se adiantou:

— Não serei eu, Senhor, a te trair! Defender-te-ei com toda a força da minha alma e do meu coração!

— Simão Pedro, filho de Jonatas, antes que o galo cante me negarás por três vezes! Mas em verdade e em verdade vos digo, meus irmãos, que vós que me escolhestes apaziguareis as doze tribos de Israel!

André indagou:

— Ora, Senhor, então não haverá um traidor entre nós?

—A força da escuridão está em todo lugar, mas, dentre vós, aquele que primeiro molhar no vinho o pão será o que me entregará aos sacerdotes. Deveremos sair daqui e ir para o olival.

Judas molhou no vinho o pão e saiu comendo, indo ter com Caifás no templo.

Era a chegada da Páscoa e todos se preparavam para as orações e os sacrifícios.

A assembléia dos sacerdotes estava reunida. Nicodemos, ao lado de José de Arimatéia, tentava, por toda forma, defender Jesus e sua doutrina de amor, mostrando que Jesus era um bom e grande homem. E argumentava:

— Não vistes aqueles que tinham a peste e haviam sido expulsos das terras de Israel? Voltaram e foram curados pelas mãos de Jesus. Que prova maior quereis dos Céus?

Caifás disse:

— Ele blasfema! Ele é quem deve vir até nós para que o julguemos, e não nós sermos julgados por ele. Prega ele que os pobres têm um tesouro nos Céus. Afirma ser o Emissário de Deus e bem sabemos que da descendência do nosso povo somente dos grandes reis pode provir um grande homem para poder governar a Terra e libertar o povo de Israel.

Naquele momento Judas adentrou o templo e se apresentou à frente dos sacerdotes, dizendo a Caifás, que se lhe acercou:

— Venho entregar-vos Jesus de Nazaré! Nicodemos se adiantou:

— Vens entregar o teu Mestre?

— Sim, venho entregar Jesus.

— E qual é o teu preço?

— Trinta moedas de ouro. Pagaram-lhe o que pediu e Caifás disse:

— Vês, Nicodemos? Nossa lei permite que compremos um homem se ele entrega um dos seus, mesmo sendo um escravo. Então agora temos como trazer Jesus aqui para que diante de nós ele possa defender-se das acusações que temos contra ele. Mas lembra-te, Nicodemos: ninguém sai desta corte sem condenação!

Jesus se retirou com os apóstolos para o local chamado Jardim das Oliveiras e, parando perto de uma pedra, pediu-lhes:

— Peço-vos que não adormeçais nestes momentos. Começou a orar ao Pai e, passado um tempo, mais uma vez recebeu a presença do Senhor das Trevas, a tentá-lo:

— Vês o que acontece? Até mesmo os teus diretos seguidores te abandonaram e estão a dormir. E já imaginaste a dor que sentirás quando os pregos se cravarem nas tuas mãos, quando a lança te varar o peito, quando o chicote te massacrar o corpo, a humilhação de ser escarrado? Então não sabes o que enfrentarás?

Disse-o e passou a mão por sobre aquela grande pedra para que Jesus visse aqueles homens a empurrá-lo, aquele tronco pesado sulcando o seu ombro.

Jesus tudo aquilo via à sua frente, e o Senhor das Trevas, aliciante, insistia:

— Já experimentaste tal sofrimento?

Jesus o fixou e sorriu, ao invés de chorar, e aquele espírito indagou:

— Sorris perante o teu sofrer?!

— Sim! Mas oro por aqueles que farão aquilo, porque também serão responsabilizados - é a lei do Eterno!

— Mas, Jesus, ainda é tempo! Há muito poder em tuas mãos e podes reverter toda essa história. Não é necessária a guerra, o derramar do sangue. Observa o que irá acontecer!

Jesus viu à sua frente aqueles quadros sombrios do futuro, batalhas, explosões, sangue se derramando em profusão, multidões desesperadas, chorando e clamando por ele a todo instante. E o Senhor das Trevas insistia em lhe mostrar as mais tétricas visões do porvir, por toda forma tentando dissuadi--lo de cumprir o coroamento sacrificial da sua missão. E Jesus disse:

— Um dia eles se arrependerão, um dia eles cairão e se reerguerão com as próprias pernas. Assim é que deve ser feito, assim o quer a justiça do Pai: que através do sofrimento o homem se arrependa. Sim, necessária é a dor!

— Sou maior do que o teu Deus! Une-te a mim, e não ao teu Deus!

— Afasta-te de mim, Satanás, porque sobre mim não tens poder algum! Se quiseres beber das minhas águas, elas estão repletas de amor por todos os irmãos da Terra, porque enquanto o sofrimento assolar a Terra estarei junto deles, caminharei ao lado de todos os meus irmãos que estiverem em dificuldade!

Aquele espírito se retirou dali urrando.

Os apóstolos dormiam. Jesus, em oração, pedia:

— Pai, afasta de mim esse cálice! Serão lágrimas e lágrimas derramadas, Pai, em meu nome e por minha causa!

Vendo o sangue se derramar à sua frente, retratando nuamente tudo o que sucederia após a sua crucificação e o propagar da sua doutrina, Jesus deixou cair lágrimas e lágrimas sobre a pedra - lágrimas e suor de sangue, rolando da pedra à terra.

E Jesus dizia:

— Pai, de amor será esse cálice perante a humanidade! Seja feita a Tua vontade, e não a minha!

Recolheu aquela terra molhada do seu sangue e a cheirou, dizendo:

— O terra, em ti derramarei o meu sangue para que em ti germine o meu amor!

Acordou os seus apóstolos, pedindo que permanecessem despertos. Todavia, eles estavam exaustos, pois há vários dias pouco dormiam. E Jesus disse:

— O espírito quer, mas a carne é fraca!

Jesus se retirou dali e todos voltaram a adormecer, tomados pelo seu grande cansaço.

De repente os portões se abriram e deram entrada a Judas, que beijou a face de Jesus. Este fixou profundamente os olhos dele e disse:

— E' com um beijo que trais o Filho do Homem? Mas está tudo acertado, do jeito que deve ser. Judas, logo estarás comigo!

O ruído reinante, com os guardas romanos chegando, acordou Pedro, que ali chegou, arrancou a espada e golpeou a orelha de um guarda que acompanhava Judas, muito o sangrando. Jesus colocou as mãos no rosto e na orelha do militar e o sangramento cessou, ficando apenas a marca do ferimento. E disse Jesus:

SImão Pedro, nao ouviste o que eu disse? Aqueie que pela espada fere pela espada padecerá. Guarda os meus ensinamentos!

Os guardas fizeram menção de prender Pedro, mas Jesus se colocou à sua frente, dizendo:

— E' a mim que quereis! Deixai-o!

Amarraram então as mãos de Jesus e empurraram-no violentamente. Um dos sacerdotes chutou a sua coxa e ele se apoiou à frente, para não cair, e disse:

— Viestes prender o Filho do Homem como se ele fosse um bandido? Levaram-no até Caifás. Nicodemos ordenou que o desamarrassem, dizendo:

— Não trouxemos aqui um desordeiro, um ladrão! Trouxemos aqui um dos nossos irmãos e ele deve ser tratado com todo o respeito!

Caifás levou a mão à testa e abriu o interrogatório, dizendo a Jesus:

— Vi que vieste ao templo e vi o que tens feito no templo. Por que o fazes?

— O que fazes a mando do Pai?

— Ensino a orar, ensino a Santa Escritura. Em nome do Eterno conduzo o meu trabalho para que os louvores cheguem até Ele. Mas não me respondeste! Por que fizeste aquilo?

— Fiz aquilo também a mando do Eterno.

— Diz o povo que te proclamas rei. Serás o rei dos judeus?

— Não para tal propósito desci à Terra.

— Curas e até mesmo perdoas os pecados. Podes confirmar isto?

— Por qual das minhas boas obras me condenas?

— Não te condeno pelas tuas obras, e sim pelas tuas blasfêmias. Não flaslcmas contra o Eterno?

— Pcrgunta-o ao povo, e não a mim, porque tal resposta não me cabe. Falei abertamente em todas as sinagogas, em todos os templos, e jamais disse algo em oculto a alguém. Tudo o que fiz, fi-lo em nome do meu Pai que está nos Céus.

— Dizem por aí que és o Messias. És mesmo o Messias?

— Sim, eu sou! E doravante verás as profecias se cumprirem e verás o Filho ao lado do Pai, porque foi para tal princípio que vim à Terra!

Caifás, em fúria, rasgou a roupa e disse:

— Blasfemas! O pecador deve ser julgado até à morte! Aquele que assim blasfema, se proclamando a si próprio o filho de Deus, merece a condenação. Sabemos que não será da Galiléia que virá o Messias. Blasfêmia! Blasfêmia! Não quero mais ver o
rosto deste homem! Retirai-o de perto de mim! Ele deve ser castigado com a morte!

Nicodemos ponderou:

— Caifás, poder algum temos para condenar alguém à morte. Pilatos c o governador e somente ele pode fazê-lo.

Clareava o dia e Jesus foi levado até Pilatos, que, sabendo da boa conduta de Jesus, não se viu apto a julgá-lo e ordenou:

— Levai-o até Herodes. A jurisdição dele está muito além da minha. Herodes melhor sabe lidar com profetas.

Caifás, enraivecido, disse:

— Ele não é um profeta: é um blasfemador!

— Levai-o então a Herodes.

Estando Herodes bem perto dali, a ele foi então levado Jesus. Herodes, com a sua faustosa vestimenta e o seu ostentoso poder, nisto muito se diferenciava de Pilatos.

— Quem és tu? - indagou Herodes a Jesus. — E's um profeta igual a João Batista? E's um profeta igual a esses do povo de Israel?

Caifás, sentindo-se ofendido com as irônicas palavras de Herodes, reagiu:

— As leis de Roma não permitem que sejamos assim injuriados! Ela nos protege em nossa religião e devemos ser respeitados! Ele está aqui porque se proclama um rei!

Herodes indagou a Jesus:

— Proclamas-te rei?

— Se eu fosse um rei, teria atrás de mim um exército para me defender. O meu reino não é deste mundo.

Herodes então disse:

— Não vejo culpa nenhuma neste homem. Não cabe a mim condená-lo. Mas se ele é um rei, deve vestir-se igual a um rei.

Tirou então uma veste vermelha, colocou sobre os ombros de Jesus e disse:

— Quem manda nestas terras é Pilatos. Levai-o de volta a Pilatos. Retornaram-no a Pilatos, que, estranhando, indagou:

— Por que retornastes?! A mim não é cabido julgar este homem. Não vejo nele nenhuma culpa. Jesus estou ciente de que pregas a libertação do povo através do amor, mas dizem que falas em nome de uma verdade. Que verdade é essa, Jesus?

Jesus permaneceu em silêncio.

— Não sabes, Jesus, que a mim é dado todo o poder para te matar ou libertar?

Jesus o fixou e disse:

— Sobre mim não tens poder algum, a não ser se ele vier dos Céus. O poder que tens pode ser retirado, e não o meu. Matas o meu corpo, mas não matas o meu espírito!

Pilatos olhou para os sacerdotes e disse:

— Não vejo no que condenar este homem. Ele não cometeu erro algum com que eu pudesse apenas prendê-lo. Como posso aprisionar um homem que não fez mal a ninguém, um homem que prega a ordem? Vejo desordens em vossos templos e, quanto a ele, é vosso irmão de crença, e, mesmo assim, quereis que eu o mate?!

O guarda Antônio chamou Pilatos à parte e disse:

— Há uma lei estatuindo que na Páscoa havemos de soltar um dos prisioneiros, e isto é seguido por nós. Ora, por que então não trocamos, por que não soltamos Jesus e aprisionamos um outro? Assim, certamente que, mostrando os dois ao povo que está lá embaixo, ele pedirá a soltura de Jesus, que boas obras realizou no meio dele.

Pilatos pensou na proposta e depois disse:

— Então peguemos o pior dos prisioneiros, um que é assassino e ladrão. Peguemos Barrabás, que já roubou por toda parte, que é inimigo do povo judeu e também dos romanos.

E assim foi feito. Apresentando Jesus à multidão, disse Pilatos:

— Está aqui Jesus, um homem que crime algum tem perante Roma, que crime algum tem perante Israel. Foi trazido até mim para que eu o condene, mas não posso condenar a alguém que não há cometido crime algum, seja furto nu roubo, ou assassínio. Porém, em cumprimento às vossas leis, sempre soltamos um prisioneiro no dia da Páscoa, e agora vos apresentarei um deles. Trazei-me Barrabás!

Amarrado, da mesma forma que Jesus, Barrabás foi apresentado ao grande público. E Pilatos indagou à multidão:

— Quereis que soltemos Barrabás?

O público quase todo gritou afirmativamente, poucos gritando em contrário.

Jesus, fixando a multidão, foi atraído pelo olhar de sua mãe, um forte facho de luz perpassando dos dois por sobre o povo. E foi indagado à multidão:

— E Jesus, deve ser solto? E gritaram quase todos:

— Crucifica-o! Crucifica-o!

Dentre os que gritaram pedindo a morte de Jesus havia até muitos daqueles que haviam sido curados por ele.

Jesus foi retirado dali e surrado num tronco, tal um animal. E aquela surra durou toda aquela manhã, até quase o meio-dia. Fizeram uma coroa de espinhos e lhe colocaram à cabeça.

Quando Jesus sentiu a mais forte chicotada, todos os animais estremeceram e um grande gemido dali saiu. Até mesmo lágrimas podiam ser vistas nos olhos dos animais.

Um tronco pesado foi colocado nos ombros de Jesus, que, já muito enfraquecido, após duas noites sem dormir, começou a carregá-lo com sofreguidão. Caminhava com extrema dificuldade, olhando silencioso para um e para outro. Cuspiam nele, xingavam-no, diziam palavrões.

A certa altura, Jesus caiu, bem próximo a umas mulheres. Verônica, uma delas, enxugou o rosto dele. Fitando aquelas mulheres que choravam, Jesus lhes disse:

— Mulheres, não choreis por mim! Chorai por vós mesmas, chorai por vossos filhos! Se, estando verde, o lenho já queima, imaginai quando a lenha estiver seca! Mas em verdade, em verdade vos digo, mulheres, que felizes serão um dia as estéreis, que não amamentarão, porque serão muitas as mulheres que pedirão que os montes caiam sobre elas e os montes se dobrarão sobre elas!

Com muito esforço, Jesus se ergueu. Deu mais um passo e nenhum mais conseguiu. Caiu perto de um homem chamado Simeão, o Cirineu, um grande fazendeiro que levara a sua melhor ovelha para ser sacrificada no templo. Foram cortadas as cordas prendendo Jesus ao tronco e foi ordenado que Simeão o carregasse no lugar de Jesus. Ele obedeceu, não por sua vontade, mas por medo de poder ser preso pelos guardas que o haviam escolhido para aquilo. Com muito nojo, colocou ao ombro aquele tronco todo escarrado, sujando a sua roupa toda impecável para a festa da Páscoa, e o levou até o alto do monte.

Lá chegando, Jesus foi denudo no tronco, Verônica viu que que retiravam a corou de espinhos e viu no pano as marcas do rosto de Jesus, como se ali ficasse Um perfeito desenho. Vendo-o, guardou consigo aquele pano. Pregado à cruz, Jesus foi erguido com ela.

Era a Páscoa e o sacrifício de um homem haveria de ser mais rápido, a normalidade, aquilo era mais lento. Colocava-se um toco aos pés, para que sles confortavelmente se apoiassem, com isso mantendo os pulmões mais abertos. Não assim, porém, com Jesus: puseram o toco bem mais abaixo, pouco ele podendo firmar nele os pés. Da forma em que assim o colocavam, comprimidos eram os seus pulmões; a cabeça caindo mais à frente, prendia-se ais a sua respiração, ele se enfraquecendo mais e mais.

Dos dois lados de Jesus estavam dois ladrões, também crucificados. Um deles olhou para Jesus e disse:

— Jesus, tu és o Messias. Sei um pouco das Escrituras e lá é dito que tem toda a força do mundo. Ora, se és o Messias, então por que não pulas daí e te salvas?

Jesus o fixou e nada disse. O outro ladrão disse àquele primeiro:

— Não tens vergonha do que dizes?! Nem mesmo morrendo não te arrependes?! Nós fizemos por merecer a morte, mas não este homem. Ele nada fez de errado. Jesus, tem piedade de mim e perdoa os meus pecados quando entrares no Céu!

Jesus lhe disse:

— Ainda hoje estaremos no Paraíso.

Jesus olhava para a multidão festejando a sua morte, via a sua mãe chorando.

Cornélius viu que Maria procurava meios de se acercar do seu filho. Ela disse, em lágrimas:

— Ele é meu filho!

Cornélius, comovido, deixou que ela se acercasse de Jesus, juntamente eom João, Maria de Magdala e outras mulheres. Os sacerdotes tentaram barrá-los, um deles dizendo:

—Aqui somente nós podemos entrar, para ver se esse homem morrerá mesmo!

Cornélius lhes disse:

— Nós, romanos, não temos a coragem de fazer o que fazeis com os vossos irmãos! Esse homem está à morte! Ora, será que não tendes mãe?! Pois esta é a mãe dele!

E disse aos guardas, seus comandados:

— Não suporto ver esta cena!

Demétrius assumiu o comando de tudo e Cornélius, antes de sair, disse aos sacerdotes:

— Se me perguntarem se esse homem é o vosso Deus, responderei que sim, que se houver um homem puro na Terra, esse é o mais puro. Quanto a vós, sois imundos!

Cornélius saiu dali chorando.

O tempo se escoava. Jesus fixou Maria e disse:

— Mulher, este ao teu lado é o teu filho! João, esta é a tua mãe! Mãe, não chores por mim, porque bem sabias que isso haveria de acontecer!

Porém, Maria estava inconsolável. Amparavam-na João, Maria de Magdala, Joana, Marta e outras mais.

A multidão, curiosa, ficava fitando Jesus.

As forças dos três crucificados se foram esgotando. Logo morreram os dois que ladeavam Jesus, cujas forças também, por fim, se esgotaram.

No momento extremo, Jesus teve a visão de tudo o que ocorreria depois da sua partida. Olhou para a multidão e pediu:

— Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que fazem!

Olhou para os lados e sentiu a presença dos seus anjos protetores. Assim como rezavam as profecias, recitou então as Escrituras, para depois exclamar:

— Elias e Moisés!

Seus olhos brilhavam fulgurantemente. Tanta era a sua dor que ele buscava o seu último suspiro para dizer:

— Agora está tudo consumado! Pai, em Tuas mãos entrego o meu espírito!

No exato momento, eis se manifestando aquele idêntico repentino temporal que se formara dias atrás, às margens do Jordão. Um fortíssimo relâmpago cortou o céu de um lado ao outro, chegando a rasgar a cortina do grande templo.

A escuridão tomou aquela região. Quase nada se enxergava. A multidão se dispersou, apavoradíssima com o que pudesse acontecer. O horror tomava conta de todos.

Em meio à escuridão, Jesus foi golpeado com uma lâmina no peito. Passando a escuridão, choveu e, descido da cruz, o corpo de Jesus foi entregue àquelas mulheres que de perto o seguiam.

Ali estavam Nicodemos e José de Arimatéia, lastimando grandemente o ocorrido.

José de Arimatéia disse à mãe de Jesus:

— Podes colocá-lo na minha tumba. Ela foi preparada para mim e é bem segura.

De fato, aquela tumba era protegida por uma enorme pedra que impediria qualquer violação.

Os sacerdotes presentes contataram os guardas e pediram que lhes apresentassem o seu comandante.

Caifás disse então a Demétrius:

— Peço que monteis guarda à frente do túmulo de Jesus. Há muitos fanáticos entre eles que poderiam roubar aquele corpo e com isso gerar uma grande confusão para nós.

Demétrius lhe disse:

— Temeis Jesus até mesmo depois de morto?! Vós o matastes!

— Queres atender-nos ou quer que eu vá ter com Pilatos? Porque se acontecer algo e esse corpo sumir, estará armada uma enorme conturbação!

Limpo, o corpo de Jesus foi levado à tumba e foi ordenado aos guardas que o vigiassem por toda aquela noite.

Não confiando muito nos guardas, Caifás recrutou vários dos sacerdotes que por lá estavam para a comemoração da Páscoa, pedindo que também emgrossassem a vigilância diante do túmulo.

E assim foi feito.

JOÃO BERBEL