LV - A TEMPESTADE

LV - A TEMPESTADE

Além dos quatro apóstolos convocados por Jesus, um grupo de pessoas seguiu no caminho até o rio Jordão.

Chegando àquele local em que João batizara, Jesus caminhou dentro das águas e delas bebeu, sem pronunciar uma única palavra.

Assim que ele saiu das águas, foi abordado pelos apóstolos com a indagação:

— Mestre, vieste aqui para recordar João e batizar o povo da forma que ele fazia?

— Não foi tal testemunho que nos trouxe aqui, e sim a vontade do próprio João. Credes no que vedes, e se não vedes não crereis, porque ainda Itou no vosso tempo e o vosso tempo é este tempo.

Disse-o e saiu dali, indo ter às águas e molhando todo o corpo. Várias pessoas foram até ele, para que as batizasse. E caíam de joelhos, pedindo:

— Senhor, batiza-nos como fazia João!

— O batismo do homem está dentro da sua própria alma. Não é necessário que se derrame a água sobre vós, porquanto já vos banhais todos os dias. Se orardes ao Pai com amor, recebereis o batismo, porque aquele que •lá em mim já o batizo com o espírito do meu Pai. Orai para que não vos atinjam as tentações!

— Mas, Senhor, é necessário que ergas as mãos sobre nós!

— Orai e vigiai, porque as línguas de fogo também estão sobre a vossa cabeça! Já não fostes todos batizados pelas mãos de João? Então já recebestes força do arrependimento. Orai e assim estareis livres da tentação!

— Mas, Mestre, rogamos-te!

— Ora, ja vos dei o que desejais.

Jesus partiu dali, enquanto todos ficaram a observá-lo. Sentou-se e, pedindo que todos também se sentassem, disse:

— Todos vós não credes no Pai dos Céus? Ora, da mesma forma deveis crer em mim. O Pai vos deu João para que ele vos batizasse, e se João batizou a todos, recebestes as forças dos Céus.

Judas se acercou e disse:

— Mestre, João disse que batizava com as águas e que o Messias batizaria com o fogo do espírito santo.

— Judas, queres que desça fogo dos Céus para que todos acreditem em mim? Digo então a ti, Judas, e digo-o a todos vós: o que vedes hoje aqui nunca mais se repetirá sobre a Terra, porque acima de mim mais ninguém há que o Pai vos pudesse mandar. Eu sou o Emissário de Deus e para dar testemunho da verdade é que estou entre vós. Elias fez cair fogo dos Céus para mostrar a força de Deus, desafiando os sacerdotes, fazendo estremecer Jesebel, Abal e Acad. Isto está escrito, mas Elias já esteve entre vós e o fogo não desceu dos Céus - porque em verdade vos digo que João Batista foi o próprio Elias que veio para que eu pudesse estar entre vós e vos dizer com firmeza estas palavras que vos digo. Todavia, ele ainda permanece entre vós e vossos olhos não podem ver nem compreender.

Naquele momento houve ali o ribombar de um fortíssimo trovão, embora o céu estivesse limpo. Repentinamente o tempo se transformou com rapidez para um temporal. Temerosos, todos queriam correr dali.

Jesus lhes disse:

— Por que temeis o que vem dos Céus? Aquilo que vem dos Céus vem de Deus. Ora, isto é apenas o poder de João, porque ele ja simboliza o trovão, que é o fogo do céu.

Naquele momento o céu se escureceu e uma repentina tempestade começou a lançar trovões por toda a volta, como que fazendo estalar relâmpagos por sobre aquela gente. Grandemente assustados, todos se recolheram para bem perto de Jesus, que se ergueu e disse:

— Temeis o fogo dos Céus? Se temeis tais pequenas coisas, o que seria então das grandes coisas? Nada temais, porque estais comigo!

Ergueu os braços, soprou na palma das mãos e, movimentando-as ao alto, imediatamente se desfez o peso da atmosfera e cessaram os trovões. Disseram a Jesus:

Mestre, estamos arrependidos, porque sabemos que o poder esta em tuas mãos. Vieste para libertar o nosso povo!

— Todo homem epie sentir a mim já estará liberto e não sofrerá perseguição alguma, porque sabe quem eu sou, porque sabe que sou um bom pastor- e um bom pastor conhece as suas ovelhas. Quando as ovelhas ouvem o pito do bom pastor, vão ter com ele, e assim sou: o pastor que veio dos Céus. E o bom pastor não deixa perder-se uma única de suas ovelhas, porque se apenas uma se desgarrar do rebanho, ele a buscará e novamente agregará ao rebanho, e este passará calmamente pela porta do seu abrigo, porque sabe que lá estará seguro, longe dos lobos. Mas se uma das ovelhas passar por cima da perca, será chamada de saqueadora e não será uma boa ovelha nem permanecerá no meu rebanho.

Pedro indagou:

— Mas, Senhor, o que queres dizer com isso, com o destino daquela ovelha que pular sobre a cerca? Ora, se ela estiver ao vosso lado não estará de todo protegida?

— Não teimes, Simão Pedro! Tempo chegará em que muitos, em meu nome, enganarão a muitos. Essa ovelha que passar por sobre a cerca estará explorando a fé dos pequeninos, como fazem muitos sacerdotes, enriquecendo-se em cima deles. Então eu sou o bom pastor e as minhas legítimas ovelhas adentram a porta do meu abrigo, e nenhuma haverá de pular a cerca, porque todas ouvem a mim. Contudo, tempo virá em que não mais estarei entre vós, e então devereis tomar cuidado, minhas ovelhas, pois muitas armadilhas serão instaladas ao longo do vosso caminho. Lembrai-vos, porém: ovelha alguma Que estiver bem preparada cairá nas armadilhas dos lobos. Nesses dias havereis de tomar cuidado para não vos confundirdes com os que pulam sobre a cerca, e com estes que serão verdadeiros lobos cobertos com pele de ovelha. Nesses dias vereis e entendereis a mim sob a força da simplicidade. Tudo se acalmou. Pedro indagou:

— Mestre, o que foi que aconteceu?

— Não pedistes, meus irmãos, que João Batista estivesse convosco? Pois ele vos respondeu a todos, mostrando estar presente no tempo, presente em vós. Entende, Simão Pedro: o que morre é somente o corpo, porque ele é leito do pó da terra e à terra retorna, mas o que é de Deus retorna para Deus.

— Mestre, como fizeste tais coisas?

— Simão Pedro, de mim nada fiz. Foi por força da vossa vontade de rever o Batista que as línguas de fogo desceram sobre a Terra. Foi necessário que os vossos olhos vissem.

Deixando o Jordão, Jesus e os seus apóstolos retornaram ao Mar da Galiléia, lá chegando ao entardecer.

Jesus adentrou e abençoou a casa de cada um deles, dizendo:

— Esta casa ora recebe a força do espírito santo!

Todos se sentiram bastante felizes com a presença de Jesus. Aquela comunidade melhorara grandemente desde que Jesus ali estivera e promovera as suas curas.

Na manhã do outro dia, Jesus chamou Pedro e lhe disse que precisava atravessar o mar e que, estando muito cansado, dormiria em todo o trajeto de barco.

Pedro ponderou:

— O tempo não está favorável à travessia, Senhor, mas estando contigo creio que conseguiremos.

Os apóstolos adentraram o barco e Jesus se deitou num banco que lá dentro havia, logo adormecendo.

De repente as águas se mostraram agitadas, o vento elevando ondas bravias e aos poucos colocando todos em inquietação.

Mesmo com o agitar do barco, Jesus dormia. E, depois, mesmo com os relâmpagos e trovões do temporal que logo se armou, Jesus permanecia adormecido.

Os homens estavam em franco desespero, mais ainda vendo Jesus naquele profundo sono, ainda que fustigado pelas águas.

O barco subia e descia ao embate das grandes ondas, amedrontando a todos.

No auge da consternação, Pedro não se conteve e chacoalhou Jesus, dizendo:

—Acorda, Mestre! Como consegues dormir sob uma tal tempestade?! Estamos desesperados, vamos morrer! Jesus se ergueu e disse:

— Geração incrédula! Homens sem fé! Não acreditais naquilo que vos tenho dito?! Por que temeis algo de mal que vos pudesse acontecer? Se acreditásseis em mim não estaríeis em tormenta.

— Senhor, estamos apavorados!

Jesus puxou sobre a cabeça a sua veste molhada, ergueu as mãos ao alto, soprou nelas em direção ao céu e imediatamente o temporal cessou.

Disse-lhes Jesus:

— Não temais mal algum quando estiverdes comigo. Ainda não é chegado vosso tempo, mas assim que isto se der, nenhum de vós sentirá mal algum, porque mesmo nesses dias estarei convosco, ainda que não me virem os vossos olhos, e sentireis que estou dentro do vosso coração. Disse-o, deitou-se e readormeceu.

Na escuridão da noite, chegaram à praia, ainda sob alguma chuva. Procuraram por Jesus e não o viram dentro do barco. Apreensivo, indagava Pedro:

—Aonde foi o Mestre?! Será que ele caiu na água?! Será que ele morreu e não vimos?!

Subitamente, eis que, vindo da praia, Jesus foi visto caminhando por sobre as águas.

— E' um fantasma! - gritou Pedro. Observando melhor, disse:

— E' o Mestre que vem! E Jesus o chamou:

— Vem ter comigo, Simão Pedro!

— Mestre, eu posso?!

— Sim, se acreditares! Podeis fazer tudo aquilo em que crerdes, meus a mãos! Vem, Simão Pedro!

Pedro desceu do barco e andou sobre as águas, ao lado de Jesus.

— Mestre! - exclamou. — Não acredito que possa fazer isto!

Ao dizê-lo, Pedro vacilou e caiu nas águas. Seguro por Jesus, foi levado ao barco, onde se lamentou:

— Por que não consegui, Mestre?! Eu andei sobre as águas, mas caí!

— Tiveste dúvida, não tiveste fé!

Clareou o dia e Jesus ordenou que o conduzissem até uma certa ilha, afirmando estar lá um povo necessitado dele. E lá foram ter, alcançando aquela gente ilhada que, por sua enfermidade, haveria de viver isolada, sem nenhum contato com as populações.

Jesus caminhou em meio àquela gente, que muito bem o recebeu, já que sabia de quem se tratava, por informações obtidas de pescadores que se aventuravam na coragem de contatá-la. E Jesus curou todos aqueles homens e mulheres, invitando-os a que anunciassem a Boa-Nova.

Jesus se retirou dali com a notícia de que em certo lugar havia um louco perigosíssimo que destruía tudo o que via pela frente.

As mulheres amedrontaram os apóstolos dizendo que aquele homem já havia matado várias pessoas, mas Jesus, sem se importunar com as tantas admoestações, foi até ele.

Chegando lá o barco, ouviram aquele homem urrar medonhamente. Jesus desceu e, querendo os apóstolos acompanhá-lo, ordenou que o aguardassem.

Jesus se aproximou do homem tresloucado e urrando tal uma fera. Ergueu ao alto a mão direita, a outra levando ao peito, e se manteve silencioso, enquanto urros e urros terríveis eram ouvidos.

— Senhor! - gritava aquele homem. — Não te aproximes de mim! Senhor, não me lances às profundezas dos Infernos! Tens todo poder sobre este mundo e então dá-nos outro castigo, e não esse! Lança-nos naqueles porcos, mas não no Inferno, Senhor!

— Espíritos imundos, afastai-vos!

Aquele homem pulou alto e, indo ao chão, começou a estrebuchar, enquanto aqueles espíritos obsessores, tomando os porcos, atiravam-se no despenhadeiro.

Jesus se acercou e logo viu que ali chegavam a esposa, o pai e a mãe daquele homem.

Aquele pai, comovido, disse:

— Senhor, curaste o meu filho! Tínhamos de trancá-lo, mas mesmo assim ele fugia, provocando pânico em todos.

Aquele homem, todo sujo, se ergueu e foi abraçado fortemente por Jesus, que lhe disse:

— Vai para casa! Fixando aquele pai, disse:

— Dá um banho e vestes novas ao teu filho. Ele estava morto e agora vive!

Aquela mulher disse:

— Jamais vi tanta força como vi em ti! Temos seguido as Escrituras. Es aquele que veio para nos salvar ou devemos aguardá-lo ainda?

— Desci ao mundo para dar testemunho da verdade. Aquele que crê em mim caminha com a verdade!

Virou as costas e foi ter ao barco, que singrou as águas e retornou às origens.

JOÃO BERBEL