LVI - LÁZARO

LVI - LÁZARO

Muitos aguardavam por Jesus, homens e mulheres desejosos de ouvi-lo e tocá-lo.

Por ali passava um povo vindo da Babilônia, muitos em direção a locais da Galiléia, muitos em direção a Belém.

Hospedaram-se por ali e Jesus ve a oportunidade de lhes pregar a sua doutrina de amor. Em certo momento, Jesus chamou os apóstolos e disse:

— Viajemos à Galiléia. Preciso rever alguns parentes. Caminharam dali junto àquela comitiva e um homem chamou por Jesus, que vai ter com ele e parou ao lado do seu carro de boi. Disse aquele homem:

— Falaste tão belamente! Falaste do reino dos Céus, de tão boas coisas! Como devo fazer, Senhor, para entrar no reino dos Céus!?

— Queres mesmo entrar no reino dos Céus?

— Sim, quero!

— Então cumpre com as leis de Deus.

— Mas, Senhor, já o tenho feito. Guardo todos os mandamentos, tal pomo os ouvi do meu pai. Isto já é suficiente para que eu ingresse no reino dos Deus?

— Não! Guardas apenas em palavras as leis do Pai. Palavras se tornam apenas palavras. Disse Moisés: Guardai os meus mandamentos. Porém, eu vos digo, irmãos: o reino dos Céus está dentro de cada um de vós e está dentro de mim. Para entrar no reino do Pai há que se amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo tanto quanto a si mesmo.

— E como devo fazer para amar a Deus e ao meu próximo?

— Ninguém serve a dois senhores. Ninguém serve a Deus se servir a Mamom. De tudo o que tens, separa aquilo que te garanta o sustento e dá aos pobres o restante.

— Mas, Senhor, sou um grande mercador. Herdei do meu pai uma grande fortuna. Devo pegar tudo isto e doar aos pobres?!

— Faze isto e ganharás um tesouro nos Céus!

O rico mercador acelerou os seus animais, murmurando:

— Este homem deve estar louco!

Jesus percebeu a sua discordância e deixou que ele seguisse. Aproximando-se-lhe os seus apóstolos, disse-lhes:

— Vistes o que aconteceu? É mais fácil um camelo atravessar o fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos Céus!

A caminhada seguiu e a caravana se dispersou, enquanto que Jesus e os seus se acercaram da casa de Maria, sua mãe.

De longe chegou correndo uma mulher chamada Marta, parente de Jesus, a lhe dizer, lamentosa:

— Meu irmão Lázaro morreu, Senhor! Se estivesses aqui tê-lo-ias curado, mas nos abandonaste, Senhor!

— Marta, irmã de Lázaro, acreditas realmente que eu poderia salvá-lo?

— Sim! Se erguesses as mãos e pedisses aos Céus, ele não teria morrido!

— Leva-me até o sepulcro de Lázaro!

Foram até o túmulo e Maria, mãe de Jesus, indo ter com ele, disse-lhe:

— Meu filho, há muito ele está morto e nada poderás fazer. Os apóstolos também o abordaram e Tomé lhe disse:

— Senhor, não dês esperanças quanto a curar esse homem. Está morto e nada mais se pode fazer.

— Afasta-te de mim, geração incrédula! Não entendestes nada do que vos tenho dito!

Jesus ordenou que retirassem a pesada pedra do túmulo e, fazendo-o e olhando lá para dentro, muitos murmuraram:

— Jesus deve estar doido! Ele andou bastante e deve estar fora do juízo.

João se acercou de Maria e disse:

— Mãe, Jesus tem andado, pregado e curado muito, mas tem dormido pouco. O Sol deve ter afetado a cabeça dele!

Aumentando o tom de voz, disse Jesus:

— Pai, contempla-me o quanto Te contemplo! Eu Te peço, Pai, não por mim, porque eu já creio em Ti, mas para que eles creiam que realmente estás em mim! Não o faças, Pai, para me engrandecer, e sim para exaltar a fé destes meus irmãos!

Jesus ergueu bem alto a mão esquerda, colocou a direita na altura do ombro e disse:

— Lázaro, levanta-le e sai para fora!

Todos ficaram silenciosos, apreensivos, e Jesus permaneceu na mesma posição à frente da tumba. Logo apareceu lá do fundo um manto branco que se aproximou lentamente, Lázaro então se mostrando a todos.

Jesus fitou toda aquela gente e disse:

—Aquele que crer em mim, mesmo estando morto, viverá!

Disse-o e retirou-se dali.

Marta, Maria e Isabel se acercaram dele e o abraçaram. Disse-lhes porém Jesus:

— Lázaro precisa de cuidados, e não eu! Dai-lhe o que de comer. Jesus foi ter à sua casa, pouco permaneceu lá e se afastou. Foi até a casa de Saul, que já partira para Deus. Lá pegou as Escrituras e leu. Sentando-se, conversou com os seus parentes, todos comentando deslumbrados o retorno de Lazaro e Jesus lhes falando do reino dos Céus, da necessidade de se amarem mutuamente e se mostrarem todos iguais, de todos falarem uma só língua, com os templos recebendo todos os povos e todos crendo num só Deus, em Toda a Terra.

Maria e os apóstolos se aproximaram daquela residência em que uma multidão, comovida com a volta de Lázaro, estava a ouvir Jesus. Joaquim disse a Jesus:

— Mestre, tua mãe e teus irmãos estão lá fora. E Jesus lhe disse:

— Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos? Meus irmãos são todos aqueles que cumprem a minha vontade e a vontade do meu Pai que está nos Céus. Hoje estou entre vós e por vós derramarei o meu sangue, para que o meu amor germine no coração de cada um de vós. Não mais poderei retornar aqui e os vossos olhos não mais me verão, mas estarei convosco em todos os dias, em todos os momentos.

E Jesus pregou em toda aquela tarde. Assim que encerrou a sua fala, Maria o abraçou e ele a beijou, dizendo:

— Mãe, o teu filho ainda está na Terra, porém não por muito tempo mais. Ainda sou o Príncipe desta Terra, mas as trevas estão chegando!

— Meu filho, não digas estas coisas! És bondoso e Deus está ao teu lado. Escândalo algum cairá sobre ti, de forma alguma!

-Não te preocupes com o escândalo, mãe. É necessário que haja escândalo, mas ai daquele que pelo escândalo se envolver! É necessário que a escuridão tome a Terra e apague a luz. Todavia, em três dias a luz retornará e todos me verão ao lado do meu Pai, anunciado pelos anjos que me guardam, aqueles mesmos que anunciaram a minha descida a este mundo. Eles alegrarão os Céus com o meu retorno. Não desci ao mundo para que ele fosse julgado por minhas mãos, e sim para dar testemunho à verdade, para que aqueles que crerem em mim se tornem homens livres. Para tal princípio, mãe, é que vim a este mundo.

Os apóstolos e parentes de Jesus contiveram a multidão para que ele pudesse adentrar a sua casa. Ao entrar, disse aos seus apóstolos:

— Vistes-me, caminhastes comigo. Vistes como procedi com os meus irmãos, não menosprezando a um deles sequer. Dei água ao sedento, dei pão ao faminto, dei vestes ao nu, curei o enfermo e amparei o aprisionado. Dias virão em que todos vós devereis fazer a mesma coisa, para que também vos reconcilieis com o Pai, porque tive fome e me destes o que de comer, tive sede e me destes o que de beber, estive nu e me cobristes, estive doente e fostes visitar--me, e estive em cárcere e fostes assistir-me.

Pedro indagou:

— Ora, Mestre, quando foi que te vimos numa dessas situações? Jesus, olhos lacrimejantes, disse:

— Todas as vezes que deixardes de fazê-lo a um desses pequeninos, será a mim que estareis negando fazer!

— Mas, Mestre, ainda és muito novo e muito tempo terás pela frente.

— Simão Pedro, és bem-amado por mim, tanto quanto todos os meus irmãos e a minha mãe, e também todos aqueles que vêm a mim, mas o meu tempo é chegado. A água foi retirada do poço e foi dada aos gentios, ao povo da Judéia e da Samaria, e também aos judeus, e tal água edificará os corações, tornar-se-á pura e cristalina perante os olhos de Deus, porque enxugará muitas lágrimas sobre a Terra, porquanto nela está a minha memória, nela está o meu espírito, que estará convosco.
Jesus emudeceu e saiu para repousar. Todos respeitaram a sua vontade e não o perturbaram.

Porém, Jesus não dormia: orava ao Pai. Pedro se lhe acercou, indagando:

— Senhor, posso ficar aqui?

— Sim.

Jesus orou numa linguagem incompreensível a Pedro, que também ouvia outra voz igualmente incompreensível. E assim foi por toda a noite. Pedro adormeceu e noutro dia viu que ali ainda dormia Jesus. Assim que Jesus acordou, indagou-lhe Pedro:

- Que linguagem estranha foi aquela de ontem e que nada compreendi?

- Simão Pedro, ainda estás inepto a conhecer a linguagem dos Céus. É através do amor que um dia entenderás porque há de ser assim.

Foi servido o alimento a todos.

De repente ali chegou Joana. Abraçou Jesus comovidamente e disse:

— Mestre e Senhor, o meu marido já não mais está neste mundo! Morreu há alguns dias.

— Ele cumpriu os seus deveres de esposo e pai. Também será apresentado aos anjos dos Céus. Não temas mal algum.

Marta se adiantou e sugeriu:

— Ora, Jesus ressuscitou Lázaro e assim poderia ir a Damasco e ressuscitar também Camarfeu.

Joana disse:

— Isto é impossível! Jesus disse:

— Marta, os meus olhos muito se alegram vendo os teus contentes. Alegro-me por ti e por Lázaro. Ele retomou a vida porque não estava morto: estava vivo e vivo reassumiu a vida, mas não estará convosco por muito tempo, da mesma forma que também eu já não estarei muito tempo entre vós.

— Mas, Senhor, vai e ressuscita Camarfeu, para que também ele permaneça ao menos por mais um tempo entre nós.

— Marta, sobre os Céus e sobre a Terra há coisas que ainda não podes entender. Porém, alegra-te por eu ainda estar contigo e também alegra-te por teu irmão Lázaro.

JOÃO BERBEL