LVII - SERMÃO NA MONTANHA

LVII - SERMÃO NA MONTANHA

Jesus tomou o caminho de Belém, onde pregou o amor, a liberdade entre os povos, a partilha do pão. Dirigiu-se depois a Jerusalém, já acompanhado de uma enorme multidão.

A certa altura, chegou a um riacho. Abaixou-se, lavou as mãos e bebeu daquela água, no que foi por todos imitado.

Os olhos de Jesus caíram sobre uma mãe com o filho ao braço e ele indagou:

— Mulher, se o teu filho te pedir peixe, dar-lhe-ás uma serpente?

— Não, Senhor! Jamais farei tal coisa! Fitou o pai daquela criança e indagou:

— Homem, se o teu filho te pedir um pedaço de pão, dar-lhe-ás um escorpião?

— Não, Senhor!

— Olhai para os lírios do campo e vede quanta beleza! Olhai para as aves voando livres no céu! Contemplai a maravilha da natureza! Ora, as aves não plantam, não colhem, não têm celeiro, e nada o Pai lhes deixa faltar. Os lírios do campo se vestem com tanta formosura que nem mesmo o rei Salomão consegue nisto igualá-los, e, contudo, eles terminarão nos fornos. Em verdade, em verdade vos digo: se mãe alguma dá uma serpente ao filho que lhe pede peixe, e se pai algum dá um escorpião ao filho que lhe pede pão, por que achais que também o Pai que está nos Céus procederia de forma diferente? Ora, se o Pai veste tão bem os lírios do campo e alimenta as aves dos céus, por que então vos preocupais com o vosso amanhã, se o vosso amanhã é hoje? Se tendes o hoje para que façais o que é preciso, por que haveríeis de deixar para fazer amanhã aquilo que hoje podeis dar a Deus? Antes de ingressar no templo para entregar no altar a vossa oferenda, cuidai-vos se Deus não está de bem reconciliar-vos com os vossos irmãos, para depois entregar no altar a vossa Oferenda a Deus, porque ninguém pode agradar a Deus se não agradar aos seus irmãos. Quando cu vos digo que haveis de amar ao próximo da forma que amais a vós mesmos é porque o Pai também vos ama, da mesma forma que ama a mim e me mandou estar entre vós. Então vos peço: amai-vos uns aos outros tinto quanto eu vos amo. Isto deixo entre vós para serdes felizes. Ora, se amardes apenas aqueles que vos amam, que mérito tereis perante Deus? Se não amardes aqueles que vos perseguem, caluniam e lançam contra vós toda ira e todo mal, o que valereis mais do que eles? Sois o sal da vida. Se o sal se enfraquecer no vosso coração, a vossa vida também se enfraquecerá, e como então podereis salgar-vos? Eu sou o sal que veio dos Céus e que se derrama sobre vós para Que dele façais também o sal da vida. Ando convosco, mas virá o dia em que não mais o farei.

Jesus seguiu pronunciando aquelas palavras que toda aquela grande multidão podia ouvir e sentir, tal era a forte entonação da sua voz, ecoando por sobre todo aquele lugar.

E ele subiu até chegar ao cume da montanha, seguido de milhares de pessoas.

Passaram as horas e, a certa altura, os apóstolos se lhe acercaram, Pedro dizendo:

— Senhor, temos de dispersar esta multidão. Já chega a tarde e ela não tem o que comer. Temos apenas cinco peixes e poucos pães.

— Dá-lhes então, Simão Pedro, porque têm fome.

— Mas, Senhor, são milhares as pessoas que aqui estão! Como faremos com tão pouco alimento?!

— Traze-me os cestos dos pães e peixes. Levaram-lhe os cestos e ele disse:

— Simão Pedro, eu já afirmei: eu sou o pão da vida! Aquele que crê em mim não passa fome!

— Senhor, mas é tão pouco o que temos!

— Não teimes, Simão Pedro!

Jesus pegou os cestos e os apresentou ao alto. Em seguida entregou o cesto de peixes às mãos de Pedro e o cesto de pães às mãos de André, dizendo:

— Servi ao povo!

Obedeceram-no e, ao entregarem os peixes e os pães, estes se foram multiplicando e todos se fartaram de tanto comer.

Bem se via a alegria estampada no rosto dos apóstolos perante aquele ato extraordinário.

Jesus se ergueu e começou a falar:

— Bem-aventurados são todos os pobres de espírito, porque a Terra lhes será dada!
- Bem-aventurados são os mansos e pacíficos, porque eles verão a Deus!
- Bem-aventurados são os que choram, porque serão consolados!
- Bem--aventurados são todos os que têm sede e fome de justiça, porque serão saciados!
- Bem-aventurados são todos os corações misericordiosos uns para com os outros, porque a misericórdia de Deus cairá sobre eles!
- Bem-aventurados sereis todos vós quando fordes injuriados, perseguidos, caluniados em meu nome e no de minha causa, porque assim também foi feito com os profetas e seus seguidores! Eu sou o pão da vida e aquele que permanecer em mim não se perderá no caminho. Eu sou a videira e vós sois os meus galhos; se estes forem arrancados, a videira jamais produzirá fruto, mas se permanecerdes em mim, produzireis bons frutos. Não julgueis para não serdes julgados, pois aquele que julgar o seu irmão também será réu no juízo. Amai os vossos inimigos, porque se os odiardes, nada mais do que eles valereis. Quando alguém vos ofender a face direita, dai-lhe também a esquerda para que a esbofeteie. Se alguém roubar a vossa túnica, dai-lhe também o resto das vossas vestes para que as leve. Se alguém vos tomar algo emprestado, não o cobreis. Se alguém disser raca no juízo, também será réu. Todo aquele que olhar para uma mulher e a desejar já assim terá cometido adultério. Todo homem que escravizar ou abandonar a sua mulher também estará adulterando. Assim foi dito e não vim a este mundo para destruir o que já está escrito, e sim completá-lo, afirmando que não lhe será mudada uma única letra. Para isto desci a este mundo: para mostrar que aquele que julgar também será réu em juízo, que aquele que matar também será réu no juízo do Inferno, que aquele que condenar o seu irmão por uma causa qualquer também um dia será réu em juízo. Eu vos prego, porém, ao contrário do que pudésseis entender: não é com olho por olho, dente por dente, garra por garra, tentando vingar em nome de uma justiça criada pelo próprio homem, que fareis justiça, pois os que assim procedem também serão réus nos Infernos. Ouvi-me no que vos digo: amai-vos uns aos outros e levareis alegria ao vosso coração. Deus tanto vos ama que concedeu que eu viesse à Terra, para que eu aqui derrame o meu sangue e o amor floresça em vosso coração. Para todos vós deixo o meu maior ensinamento e ele permanecerá vivo no coração daquele que me pode ouvir e entender: amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo tanto quanto a vós próprios. Fazei-o grandes serão os vossos galardões nos Céus, porque penalizados serão todos aqueles que tentam enganar os seus irmãos para adquirir os seus galardões na Terra.

Aquele que, em amor a mim, entender o que eu digo não estará .oh o juízo da grande corte celestial, porque o prejuízo não é dado senão a si mesmo quando se erra. Se vos condenardes uns aos outros, sereis condenados pelos Céus, e se vos amardes uns aos outros, também sereis amados nos Céus. I )eus conhece todos os Seus filhos, e por isto eu vos peço: amai-vos, querei bem àqueles que vos perseguem, que lançam contra vós todo o seu ódio, porque grande será o galardão que o Pai vos reservará nos Céus.

Jesus retirou-se dali e foi abordado por uma mulher com um cesto contendo varias maçãs, que lhe disse:

— Bendito seja o ventre que te concebeu! E Jesus disse:

— Benditos sois todos vós que ouvis as minhas palavras e me seguis! Disse-o, pegou duas maçãs e as entregou a um menino, dizendo:

— Dai de comer àquele que tem fome, porque àquele que o faz também Deus nada deixará faltar.

Caminhou em meio à multidão, pregando com belas palavras.

Chegando a noite, a friagem do lugar foi dispersando a multidão.

Jesus e os apóstolos dormiram, o mesmo fazendo Joana, Marta, Maria de Magdala e várias outras mulheres que os acompanhavam.

No outro dia, Jesus e os seus saíram bem cedo, sem que os demais percebessem, e partiram para Jerusalém.

Chegando na Palestina e numa pequena cidade, disse Jesus aos apóstolos:

— Ide à cidade e pregai a minha Boa-Nova. Estarei convosco. Adentrai as casas em pares e, não sendo bem recebidos, afastai-vos e sacudi todo o pó de vossas vestes, para que o mal não vos acompanhe. Pregai que o reino dos Céus está próximo, ensinai tudo o que vos ensinei: que se amem uns aos outros para que sejam felizes.

Assim, foram aos pares, batendo em todas as casas e pregando durante lodo aquele dia, enquanto Jesus permaneceu com aquele grupo de mulheres. comeram do pão e beberam do vinho que levavam consigo.

Ao entardecer chegaram os apóstolos, dizendo que haviam sido bem recebidos em todas as casas.

Jesus lhes indagou:

— E o que disse o povo sobre o que sou, quando falastes de mim?

Um deles respondeu:

— Disseram que és um dos profetas ressuscitado. Jesus perguntou:

— E tu, Simão Pedro, quando te indagavam, quem dizias que eu sou?

— Tu, Mestre, és o Cristo, o filho do Deus vivo!

— Simão Pedro, tu és pedra e na pedra edificarei o meu templo - porque não foi nem a carne nem o sangue que te revelaram isso, e sim a vontade do meu Pai que está nos Céus!

Jesus saiu para orar, acompanhado de Pedro, André e João. Orou com grande fervor, numa linguagem que eles não entendiam.

De repente apareceu uma luz e duas esplendorosas figuras se postaram ao lado de Jesus. Dessa feita a voz foi clara ao entendimento:

— Tudo está consumado! Tudo acontecerá de acordo com o que está escrito!

Jesus disse:

— Benditos sejais todos vós, porque os meus sentimentos, a minha vida e a minha missão estão na mão do Pai!

Pedro disse:

— Senhor, armaremos aqui três tendas, uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias, que aí estão.

Jesus levou as mãos ao rosto e, de repente, uma voz se ouviu do alto:

— Este é o meu filho querido! Ouvi o que ele diz!

Jesus foi ter com o restante dos seus seguidores e, chegando a noite, adormeceram.

Ao amanhecer, Pedro acordou Jesus, dizendo:

— Mestre, ouvi o que disseram, que está tudo consumado, que tudo deve seguir conforme está escrito. O que quer dizer isso, Mestre?

— Simão Pedro, o Príncipe deste mundo ainda está na Terra, mas se prepara para se despedir deste mundo. A nossa missão termina em Jerusalém.

— Não, Mestre! Não permitirei que vás a Jerusalém!

— Simão Pedro, as profecias têm que ser cumpridas!

— Não, não deixarei que vás, Mestre!

—Afasta-te de mim, Satanás, que cometes más obras!

Pedro ficou aborrecido, bem entendendo que naquele momento um espírito queria abortar a missão de Jesus, impedindo que ele seguisse na linha do que fora escrito e programado.

JOÃO BERBEL