LVIII - EM JERUSALÉM

LVIII - EM JERUSALÉM

Acercando-se de Jerusalém com os seus seguidores, Jesus chamou Judas, André e Tiago, dizendo-lhes:

— Segui no caminho. A frente encontrareis três casas. Lá há um burrico virgem que deveis pedir por empréstimo. Se o dono perguntar, dizei-lhe que o levareis para servir ao Senhor e que ele logo o devolverá.

Os três seguiram e de fato lá encontraram o burrico amarrado. Pegaram-no e levaram-no até Jesus, que o montou e seguiu.

Quando soube que Jesus chegava a Jerusalém, toda a cidade se alvoroçou e uma multidão enorme se aglomerou para recebê-lo.

Era gente de toda parte, alguns jogando ao chão as suas vestes para a passagem de Jesus e o burrico em que montava.

Muitos jogavam no caminho de Jesus os galhos de oliveira e nutras plantas, desejosos de que uma farta colheita lhes fosse então propiciada.

Na entrada, Jesus foi abordado por Nicodemos, que se mostrava muito preocupado com a chegada dele, sabendo que os romanos poderiam detê-lo, julgando estar ocorrendo uma rebelião ou algo assim, diante daquele tumulto, daquela gritaria da população. E pediu então Nicodemos:

— Mestre, pede a esse povo que se cale!

— Se eu ordenar que se cale, até as pedras falarão! Nicodemos, cumprem-se aqui as profecias!

Nicodemos sentiu um estranho impacto no coração e indagou:

— Mas, Senhor, a que profecias aludes?

— Nicodemos, és mestre aqui em Israel e não sabes que o Filho do homem haverá de ter uma triunfante entrada em Jerusalém?

E ouviam-se os gritos da multidão:

— Hosana! Hosana! Hosana!

Nicodemos baixou a cabeça, sentido. Ao reerguê-la, Jesus viu os seus olhos tristes e, estacando ali, disse:

— Jerusalém, Jerusalém! Queria ser eu uma galinha e ter todos os vossos filhos sob as minhas asas, como se fossem os meus pintainhos! Jerusalém! Jerusalém! Nunca mais serás a mesma, porque não soubeste reconhecer o Filho do Homem, e então de ti não restará pedra sobre pedra: serás atacada por todos os lados!

Jesus se movimentou à frente, aclamado pela multidão, todos querendo senti-lo, tocá-lo.

A certa altura, parou e pregou, falando da partilha do pão, do reino de Deus sendo conquistado pelo sacrifício de amor.

Devagar a multidão mais e mais vulto tomava. Não demorou para que até os sacerdotes se acercassem dali e se pusessem de ouvidos atentos à fala forte de Jesus. Ordenaram que um deles fosse questionar Jesus e ele assim o fez:

— Mestre - porque assim és chamado por todos, muitos dizendo que és bondoso...

Jesus, sabendo por antecipação a pergunta que o sacerdote formularia, disse:

— Mestre eu sou, mas não bondoso, porquanto bondoso é tão somente o Pai que está nos Céus.

E o sacerdote indagou:

— É lícito pagar a César os nossos tributos?

— Vem cá! Dá-me uma moeda.

O sacerdote colocou a moeda na mão de Jesus e este indagou:

— De quem é esta efígie?

— De César.

— Então dá a César o que é de César! Outro sacerdote se lhe acercou e indagou:

— Sabemos que curas, que fazes boas obras. Tais obras são feitas por Deus e com Deus?

Sabendo da armadilha que mais uma vez lhe armavam, disse:

— Responder-te-ei se antes responderes à minha pergunta. Queres indagar-me com qual autoridade opero as minhas obras, mas primeiramente me responde: com que autoridade João Batista batizava?

O sacerdote engasgou e não respondeu a Jesus, porque se ele dissesse que a autoridade de João se firmava em Deus, o mesmo diria Jesus quanto as suas próprias obras, e, doutra parte, não poderia desacreditar João Batista, tal era a devoção do
povo por ele. Jesus disse:

— Havia um certo senhor que resolveu formar uma grande vinha e resolveu arrendar o plantio aos seus servos, que eram muitos, e a vinha muito produziu. O senhor enviou um dos servos para que fosse lá receber dos arrendatários a parte que lhe cabia. Ora, bateram no servo e o despacharam de lá. O lenhor enviou outro servo para receber e ele foi recebido da mesma forma. Então o senhor enviou o seu próprio filho, o mais querido, e então o mataram, porque acharam que matando o filho daquele senhor passariam a ser os donos da vinha. Porém, o próprio senhor enfim foi até lá e lhes tirou tudo o que era de direito. E a vinha se dividiu a todos os povos. Sabeis o que quer dizer isto? Eu sou a vinha e todo galho que se apartar de mim não produzirá um bom fruto, e aquele que permanecer em mim terá um bom fruto!

Jesus caminhou e à frente lhe abordaram uns escribas e fariseus, um deles lhe indagando:

— Tens curado as pessoas. Com isto fizeste milagre?

—A obra é feita pelas mãos do meu Pai, porque eu estou no Pai e o Pai está em mim. Para tal princípio é que vim a este mundo.

Levaram até Jesus um rapaz cego. Jesus cuspiu no chão, fez um barro e aplicou nos olhos daquele rapaz, que berrava e berrava, raivoso, e lavou os olhos. Uns diziam que era cego de nascença, e eis que passou a enxergar naquele momento.

Os sacerdotes a tudo acompanhavam. Um deles se ergueu na multidão e disse:

— Eu conheço esse rapaz! Ele não é cego! É uma farsa! Jesus lhe disse:

— Preguei em todos os templos, em todos os lugares, ó fariseus hipócritas que não entrais no reino dos Céus nem deixais entrar os pequenos! Tudo o que fiz, fi-lo em nome do meu Pai. Negais a entrada desses pequeninos no reino do meu Pai porque vós próprios não lograis entrar! Não mais estarei diante de vós!

Jesus saiu dali, seguido de muitos, e permaneceu silencioso, uma vez que duvidavam da cura daquele rapaz.

Alguns homens se acercaram de Jesus e um deles disse:

— Conheço esse rapaz. É filho de Zebedeu. Se quiseres, podemos ir até lá. É
muito pobre e quase ninguém o conhece, fica sempre trancado. Arrancaram-no à força do quarto e trouxeram-no para que pudesses tocar nos olhos dele e curá-lo. Não acho que és um mentiroso, Senhor!

Naquele momento chegou ali uma mulher muito curvada, dificultosamente se mantendo de pé, apresentando problemas na coluna toda torta. Fora conduzida por outras, com sacrifício.

Jesus a fixou e disse:

— Mulher, acreditas que eu sou Filho de Deus? Acreditas que eu sou o Messias?

— Acredito, porque muito e muito bem têm dito de ti. Por piedade. Senhor, toca as minhas costas com as tuas mãos milagrosas! Estou certa de que se não lograres curar-me, aliviarás a minha dor, o que já estará muito bom!

Jesus colocou a mão no pescoço dela, na sua coluna, e foi erguendo, ela gritando e gritando de dor. Apreensivos, alarmados, os homens tentaram afastar Jesus daquela mulher, mas não reuniram força para tanto. Seguraram o braço dele com toda a força que tinham e Jesus não manifestava nenhuma aparente força em contrário. E, em verdade, as mãos de Jesus nem tocavam naquela mulher, e ela se endireitou. Os homens soltaram Jesus e ele a abraçou. Comovida, ela colocou a cabeça no ombro de Jesus, que disse:

— Mulher, vai, porque Deus está também contigo! Anuncia a Boa-Nova aos teus irmãos, aos teus filhos, aos teus amigos!

Vendo aquilo, os sacerdotes muito se admiraram e saíram em direção ao templo.

Jesus se pôs em oração intensa, o que às vezes o fazia sangrar. Nicodemos se lhe acercou e disse:

— Mestre, tenho visto o bem que tens praticado. São tantos os que necessitam de ti! Ora, não acho viável tua vinda a Jerusalém.

—Aqui está a minha missão!

Virando-se, Jesus viu que o sumo-sacerdote Caifás ali chegara, com outros sacerdotes, e disse:

— Ó sacerdotes! Ó Jerusalém, que matas os teus profetas, de ti não restará pedra sobre pedra! Afirmo-vos: se destruirdes o vosso grande templo, dentro de três dias eu o reconstruirei!

— Estás louco! - disse Caifás, dali se afastando. Nicodemos disse:

- Mestre, sei que es o Messias, sei que és o Emissário de Deus que veio para libertar o povo!

— Vim em nome da verdade, e aquele que crê na verdade também crê em mim!

Jesus permanecia à frente do templo, rodeado da exaltada multidão. A certa altura chamou João e disse:

— João, vai até a minha mãe e dize-lhe que ela não mais beijará nem abraçará o seu filho, porque o meu tempo é chegado. Pede que ela se apresse e dize que estou fazendo tudo o que o meu Pai ordenou que eu fizesse, que nem ao menos uma letra será mudada. Dize-lhe que ela me verá ainda, mas não do jeito que sempre me viu. Vai, João, e apressa os passos, porque o tempo já veio! E' chegado o momento da escuridão, o momento de o Príncipe deste mundo partir! E' necessária a treva, mas ai daquele que pela escuridão vivenciar os seus sentimentos! Caminha a noite toda, João, o mais rápido que puderes!

Naquele momento, Estêvão e Ananias se apresentaram diante de Jesus, e ao lado dele também estava Nicodemos, que disse:

— Mestre, não é bom que permaneças aqui. Caifás, o sumo-sacerdote, montará todas as armadilhas para te pegar.

—Armadilha alguma deste mundo pode pegar-me, porque ovelha alguma cai em armadilha de lobo!

Jesus se ergueu, levou a mão ao alto e disse:

— Jerusalém, Jerusalém! E's tu o símbolo de Israel. Povo de Israel, homens do templo, Jerusalém que matas os teus profetas, não fareis mal a mim, e os que virão após mim, em amor a mim, farão com que este templo seja todo destruído, e dele não restará uma só pedra! Porém, em verdade vos digo que é necessário que morra o grão para que uma planta germine. Eu sou a planta, eu sou a vinha da vida, e aquele que permanecer em mim produzirá bons frutos. Porém, se destacardes de mim os galhos, sozinhos não produzireis bons frutos I o Pai celestial não deixará que brote uma só má planta, pois, sendo má, será lançada ao fundo do mar. Já ouvistes o que foi dito sobre mim, e para testemunho disso é que estou aqui!

Jesus se retirou do recinto do templo e se reservaria à oração naquela noite. Ordenou aos apóstolos que permanecessem no templo e caminhou até um olival próximo. Ajoelhou-se e orou com fervor.

Naquele momento os anjos Ismael, Rafael, Miguel e Gabriel se acercaram de Jesus e este lhes disse:

— Eu sou o juiz deste mundo, mas não desci a este mundo para julgar os homens, esim para mostrar o amor!

Gabriel lhe disse:

— Senhor, fizeste o teu trabalho! Miguel lhe disse:

— Senhor, glorificado és, pois cumpres a tua missão! Rafael lhe disse:

— Os Céus estão contigo! Ismael lhe disse:

— Sempre foste e sempre serás o Senhor do mundo! Acima de ti não há mais ninguém, meu glorioso Senhor! Faze o que está em tuas mãos, porque, a partir deste momento, a Terra não será a mesma!

Jesus orou intensamente, tendo os quatro anjos ali consigo. Encerrada a sua oração, disse a Miguel:

— Senhor dos Exércitos dos Anjos, o Filho do Homem tem que se reconciliar até mesmo com as sombras, porque quando encerrarmos o nosso trabalho tudo haverá de estar consumado, segundo a vontade do Pai que está nos Céus.

Um clarão se formou e se desfez ao lado de Jesus, que permaneceu em silêncio por instantes e depois disse:

— Príncipe das Trevas, Senhor da Escuridão, diante de ti me apresento! Um espírito muito bem paramentado se apresentou ao lado de Jesus e lhe disse:

— Jesus, és tu, Senhor, aquele a quem chamam Filho de Deus, mas nas minhas mãos há tanto poder quanto nas tuas! Viste o que está para acontecer? Ainda hoje passaste perto daqueles homens crucificados. Sabes da dor que tens de enfrentar, o grande sofrimento que padecerás? E no entanto bastaria que erguesses as mãos e te afastasses de Israel, e assim terias ainda mais glórias do que já cabem a ti.

— Senhor dos Tormentos, Senhor da Escuridão, eu estou na Luz e a Luz está em mim! Em verdade te afirmo: não tenho a ti por inimigo, mas faze como faço. E para este princípio que vim para este mundo. Não vim somente para curar corpos perecíveis, mas também para redimir almas eternas. O Pai que nos criou tem por ti tanto amor quanto tem por mim. Arrependa-te e reconcilia--te com a Luz, enquanto ainda é tempo! Lembro-me das tantas guerras e do sofrimento que provocaste. Sei que a paixão e a euforia que assumiste no irmão entendeste a grandeza do amor de Deus perante todos os Seus filhos. Chego ao fim do meu trabalho na Terra e nesse dia verás que o Pai reconciliar-se-á com a Terra.

Aquele vulto que ali se formara saiu de perto de Jesus, que orou intensamente, pedindo que o legítimo amor imperasse em todos aqueles espíritos sombrios que provocavam as suas influenciações negativas até mesmo nos templos, intuindo os sacerdotes para que cada vez mais se revestissem do ouro e explorassem a fé dos necessitados.

Por ali permaneceu Jesus até na manhã do outro dia, quando reencontrou Marta, Maria de Magdala, Joana e outras mulheres que o seguiam, e lhes disse:

— Tanto tormento vejo nos vossos olhos! Por que vos amedrontais? Disseram:

—Ah! Senhor, é pelas tuas palavras, por dizeres que chega o momento da tua partida!

— Glorificarei a todo aquele que me glorificar na Terra, ao chegar no meu reino. Nada deveis temer! Não somente do pão vive o homem, mas também da força do meu amor. Não vos deixarei órfãos. Rogarei ao Pai e Ele vos enviará um outro Espírito Consolador que permanecerá convosco e fará o que faço e muito mais, do que a vossa razão ainda não está preparada para receber. Em tese me glorificará na Terra e todos saberão a verdadeira finalidade da descida do filho do Homem a este mundo.

Permanecei em mim e permanecerei em vós!

A multidão já se fazia presente ali, com inúmeros enfermos de toda sorte, todos ansiosos para tocar em Jesus para que se livrassem dos seus males. E milhares e milhares de pessoas foram chegando.

Estando perto do templo, Jesus parou e viu o grande sacrifício de animais, o sangue derramado. Sabia que aquele era um local respeitável em que as pessoas iam orar a Deus e que haveria de ser um templo sagrado. Viu as aves presas, os homens abatendo tantos animais, de tudo fazendo um grande comércio. O odor era horrível, não compatível com o que haveria de predominar num templo que teria de se enfeitar apenas de flores.

Vendo tudo aquilo, Jesus se indignou e disse àqueles comerciantes:

— Fizestes da Casa do Pai um covil de ladrões! E derrubava tudo o que via pela frente, libertando os animais, gritando palavras de ordem.

Aquele grande tumulto despertou a necessidade de proteção e logo os sacerdotes acionaram a guarda romana para que restabelecesse a paz no templo, e assim foi feito.

O povo, não entendendo e não aceitando aquela atitude de Jesus, rebelou--se contra ele, afastando-se. Muitos desses haviam sido curados e mesmo assim o abandonaram.

Chegaram os guardas. Dentre eles estava Demétrius, que ansiava pela chegada do comandante Cornélius. Aos guardas foi ordenada a retirada de Jesus.

Demétrius se pôs em frente a Jesus e o abraçou e beijou no rosto. Jesus lhe disse:

— Tu, Demétrius, beijaste o Filho do Homem, e então santificado será o teu nome, porque também tu estarás um dia comigo na glória!

Disse Demétrius:

— Senhor, és tão bondoso! Somente vi maravilhas em ti! Vim para te retirar daqui, embora tanto tenhas feito por mim!

— Demétrius, o que tens de fazer deve ser feito. Se veio a ordem para que me retires daqui é porque tenho mesmo de sair. Se leres as Escrituras verás lá o Filho do Homem agindo para retirar os exploradores e sendo repelido. Fiz o que me ordenaram. O meu serviço está pronto: agora faze o teu!

Jesus se retirou e se dirigiu à casa de Marta, onde permaneceu com os seus apóstolos.

Eis que naqueles momentos emergiu por ali um grupo de rebeldes judeus desejosos de ver a expulsão da força romana em todo o Israel. Um dos revoltosos se chamava Judas, porque era proveniente da Judéia. Ele se acercou de Jesus, dizendo:

— Sou Judas, da Judéia. Vim para me tornar um judeu. Sou fervoroso no que faço. Leio as Escrituras, sou letrado. Vejo muita miséria no povo de Israel, vejo muita desordem provocada pelos guardas romanos, que levam de nós tudo aquilo que temos. Disseram-me que és o Messias e que vieste para libertar o povo de Israel.

Jesus se ergueu e disse:

— Judas, Homem que veio da Judéia, compreendes as coisas de Deus? Leste o que está escrito nas leis?

— Sim, li e sigo!

— Então o que queres que eu faça?

— Ora, Senhor, reconcilia-te com essa multidão! Ergue a mão e um grande exército virá até ti e marchará contra Roma!

- Judas, Homem da Judéia, perguntei-te se havias lido as Escrituras e respondeste que sim.

Ora, porque então me tentas, se nada disso compreendes? O que rezam os mandamentos da Lei de Deus? Não matarás! E te afirmo: aquele que pela espada mata também pela espada já estará morto. Não vim para libertar o povo de Israel, e sim para dar testemunho da verdade, para que lodos aqueles que crerem em mim conheçam a verdade e da verdade se façam homens livres.

Silencioso foi saindo Judas, e Jesus o chamou de volta, dizendo:

— Homem da Judéia, arrepende-te dos teus pecados e reconcilia-te com Deus!

— Vi João batizando e as palavras dele eram fortes!

— Ouviste então o que João disse? Caíste de joelhos para que ele te batizasse?

— Sim!

— Então deixa que o amor de Deus nasça em ti e reconcilia-te com os teus inimigos. Ama-os e Deus te amará. De que adianta uma nação enfrentar a outra, e outras enfrentarem ainda outras, assim espalhando sempre o ódio na seara? Não foi este o princípio que me trouxe aos homens; vim para trazer todos os povos, até mesmo os gentios, ao arrependimento, e trazer o fogo dos Céus para a união dos povos, para que todos se reconciliem entre si.

Todavia, Judas, amigo do rebelde Barrabás, não deu ouvidos a Jesus e .saiu dali.

Jesus permaneceu próximo ao templo, na casa de Marta. Os rumores sobre a recente atitude dele no templo se intensificaram. Os sacerdotes procuravam uma forma de condená-lo.

Naquela noite, Jesus por lá ficou, aguardando o amanhecer do outro dia, a véspera da Páscoa.

Em certo momento levaram-lhe um rapaz endemoninhado, vindo de longe, e, da mesma forma, outros lhe foram levados com o mesmo problema de inlluenciação de espíritos malignos. Jesus os curou e devagar se afastou um pouco da cidade, com os seus apóstolos.

Pondo-se em oração, pedia forças ao Pai. Chegou até ele um grupo de onze leprosos e um deles lhe disse:

— Senhor, os anjos dos Céus estão contigo. São um verdadeiro exército que levanta os paralíticos, os doentes. Podes limpar-nos da lepra?

Jesus ergueu a mão e curou aqueles leprosos, ordenando-lhes que fossem ter com os sacerdotes e lhes falassem da sua cura. Obedeceram-lhe, apenas um retornando e dizendo a Jesus:

— Senhor, sei que aqueles homens se apresentarão aos sacerdotes. E quanto a mim, o que devo fazer?

— Vai e fala aos teus irmãos sobre a maravilha que presenciaste. Ele se foi e Jesus disse aos seus apóstolos:

— Em verdade vos digo que, daqueles onze, apenas esse realmente se curou.

Com tais curas se uniu uma nova multidão em volta de Jesus, dando por esquecido o acidente em que ele verberara contra os merceeiros do templo. Assim, Jesus retornou ao templo e lá disse:

— Ó filhos de Israel, para dar testemunho da verdade, a mando do meu Pai, aqui estou entre vós, e que se levantem também os vossos filhos e os vossos pais, porque é chegado o momento em que a Luz se prepara para se despedir deste mundo.

Mas entre vós há de florescer o verdadeiro amor e o Pai há de se reconciliar com todos vós, e haveis de fazer o que há de ser feito. Para este princípio é que vim a este mundo.

Acompanhado de Nicodemos, Jesus foi até uma das casas de José de Arimatéia que este lhe cedera para que lá passasse a noite com os seus apóstolos.

Os sacerdotes excomungaram-no, dizendo que ele não poderia pregar no grande templo. Nicodemos tentava acalmá-los, mas eles se mostravam cada vez mais inconformados e irritados com a incômoda presença de Jesus, porque este verberava contra a avareza deles, afirmando que aqueles que se refestelavam com os seus galardões de ouro seriam miseráveis no reino dos Céus. E, de fato, os sacerdotes guardavam para si grandes fortunas obtidas dos fiéis no templo, e a fala e presença de Jesus exacerbavam o seu medo de perder o poder, julgando eles que Jesus poderia assumir a figura de um grande rei e levar por água abaixo toda a sua autoridade e as suas vantagens monetárias.

JOÃO BERBEL