LX - JESUS RESSURGE

LX - JESUS RESSURGE

No terceiro dia da morte de Jesus, eis que no local da tumba chegaram Maria de Magdala, Marta e Joana.

Alguns guardas presentes dormiam, enquanto alguns sacerdotes estavam vigilantes.

Por eles haveria de passar, inevitavelmente, quem quer que desejasse chegar até o túmulo, não havendo outro caminho a trilhar, a não ser aquele estreito trajeto.

Aquelas mulheres, lá chegando, pediram permissão para entrar e passar óleo aromático no corpo de Jesus, justificando aos guardas que aquilo era do costume do seu povo.

Os guardas aquiesceram e acompanharam-nas. Porém, lá chegando, viram que a grande pedra da tumba havia sido inexplicavelmente retirada. Foi um grande susto.

Imediatamente os sacerdotes foram avisados. Olharam dentro do túmulo e lá viram apenas o pano que cobrira Jesus, manchado de sangue e algo assim.

As mulheres, espantadas e indignadas, gritaram, xingaram os guardas. Estes disseram:

— Ora, vigiamos toda a noite! E não estávamos sozinhos: também os sacerdotes vigiaram muito bem. Ninguém entrou aqui e não haveria meio de alguém passar por aqui sem que o víssemos. Vós mesmas constatastes: poderíeis passar por aqui ocultamente? Ora, de forma alguma o conseguiríeis!

Marta e Joana saíram dali. Maria de Magdala, estando a sair logo em seguida, viu dois homens estranhos. Um deles se lhe acercou e disse:

— Por que vens no meio dos mortos procurar quem está vivo? Maria de Magdala não entendeu aquelas palavras. Olhou à frente e lá viu então Jesus. Emocionadíssima, exclamou:

- Maria, não me toques, porque ainda não ascendi ao meu Pai. Vai até os meus irmãos e dize-lhes que ainda hoje irei ter com eles.

— Eles estão na casa de Marta. Estão sendo procurados e perseguidos por toda parte.

A notícia do desaparecimento do corpo de Jesus chegou até Caifás e ele loi imediatamente até lá.

Surpreso e irritado, viu aquela cena do túmulo aberto, ligo perturbador para todos. Ameaçou pressionar e responsabilizar os guardas, mas estes se defenderam, dizendo:

— Ora, os teus sacerdotes também estiveram de vigia conosco. Se há culpa em nós, eles também são culpados. Porém, não há como ninguém passar por aqui, à nossa vista!

Caifás suspirou fundo e exclamou:

— E' agora que tudo começa!

Saiu dali, apressou-se a se reunir no templo com todos os sacerdotes e lhes notificou que alguém havia roubado o corpo de Jesus, enfatizando que islo geraria um enorme desconforto para todos.

Nicodemos se adiantou:

— Jamais tive dúvidas de que Jesus é o Messias! Está escrito e matamos um inocente!

Irritadíssimo, disse Caifás:

— Blasfemas contra o nosso povo!

— Ora, não leste as Escrituras? Não está lá grafado que o Messias haveria de ser humilhado e sacrificado? Tudo o que ele próprio antecipou à nossa frente fizemos com ele. Matamos o Messias! Estou plenamente convicto: ele é o Messias!

Nicodemos disse-o e saiu do templo, acompanhado de José de Arimateia e outros amigos.

Maria de Magdala, do seu lado, se apresentou a Pedro e, contente, disse:

— Eu vi o Mestre! Ele não morreu! Ele está vivo!

— Ele morreu!

— Ele está vivo!

Pedro se sentou perturbado, não acreditando, assim como desacreditaram lodos os demais. Tomé disse:

— Isto é coisa de mulher! Estamos todos cansados. Bem vimos: o Mestre loi crucificado.

Pedro disse:

Ele é o Messias! Nisto acredito e sempre acreditarei. Ele é o Messias. Ele é o Messias. Fui covarde, como foi Judas. Neguei o meu Mestre e não sou digno de tocá-lo !

Ora, ele mesmo muito nos falava sobre Elias, afirmando sempre que Elias era o próprio João Batista. Disse-nos que Elias foi perseguido e que, quando os guardas chegaram para prendê-lo, nada mais encontraram, senão as suas vestes. Elias havia desaparecido. Ora, a mesma coisa aconteceu com Jesus! Eu acredito sim, Tomé! Disse Tomé:

— Estamos exaustos. Tudo se acabou! Jesus nos trouxe boas coisas que ficarão na nossa memória. Maria também está muito cansada. E somente isso!

Aborrecida por ter sido desacreditada por aqueles homens, Maria de Magdala saiu dali, mas reafirmando que Jesus voltaria e estaria com eles. Tomé disse ainda:

— Acreditarei apenas se tocar na mão dele! Estamos todos cansados, irmãos! Tudo já se acabou!

Pedro segurava numa coluna de madeira sustendo o telhado e chorava amarguradamente, arrependido.

De repente a porta se abriu sozinha, dando entrada a um homem todo vestido de branco. Era Jesus. Ainda mostrava as marcas de espinho na cabeça, as marcas de prego nas mãos. Acercou-se de Tomé e disse:

— Tomé, toca em mim e confere se menti para vós! Em verdade te digo: feliz é aquele que crê em mim sem ver!

Jesus sentou-se ao lado de Pedro. André também se sentou ao seu lado e Jesus abraçou os dois e disse:

— Ide, irmãos, e arrebanhai discípulos! Pregai em meu nome! Este será um novo mandamento aos meus irmãos da Terra. Ide e o anunciai a todos os povos! Não posso permanecer muito tempo entre vós, porque hei de ainda subir ao meu Pai, mas eu vos digo: eu sou a verdade e ninguém vai ao Pai a não ser por mim. Ide e reuni o maior número possível de pessoas. Chamai todos os meus irmãos e eu me mostrarei a todos, para que assim se cumpram as profecias. Não deveis permanecer em Israel, porque isto vos será perigoso. Ide a todos os povos e anunciai a Boa-Nova a todos os irmãos!

Jesus se foi e, atendendo à sua ordem, os apóstolos foram de casa em casa, chamando a todos para que se reunissem em certo local e vissem Jesus.

Até mesmo Nicodemos recebeu aquele chamado.

Uns acreditavam no que poderia ocorrer, outros desacreditavam, dizendo isto e aquilo.

Quinhentas foram as pessoas agrupadas naquele dia. Bela estava a tarde, muito claro o Sol. Eram cerca de três horas daquela tarde. Desde o meio-dia todos lá estavam, ansiosos pelos acontecimentos. Jesus caminhou no meio deles, despercebido, com um capuz a lhe cobrir a cabeça. Andou daqui e dali, retirou o capuz e então todos o viram em suas alvas vestes, já sem os sinais dos cravos às mãos e dos espinhos à cabeça, já não mostrando a fadiga do corpo. Subiu numa pedra e disse para que todos ouvissem:

— E' a última vez que me vereis, meus irmãos. Em nome do Pai aqui estou para vos pedir: ide e arrebanhai mais discípulos! O Pai se reconciliou com a Terra, de mim vos presenteando, e também eu vos abençôo, em nome do Pai. Ide, todos vós, meus irmãos, e pregai aos povos a minha Boa-Nova! Ensinai o que vistes, ouvistes e aprendestes! Não mais me vereis, mas estarei convosco cm todo o tempo. Não estareis sozinhos na Terra. Onde houver um ou dois corações reunidos em meu nome, lá estarei. Orai para que não vos derrube a tentação! Fazei o bem a quem vos perseguir e caluniar! O meu tempo perante vos já chegou ao fim. Dou-vos a minha paz, a minha paz vos deixo. Não vos dou a paz do mundo, porque o mundo não a pode dar. Glória a Deus, nosso Pai que está nas alturas, e paz na Terra a todos os homens de boa vontade! Que não se atemorize o vosso coração nem vos conturbeis quando o mal vos for lançado e quando vos perseguirem em meu nome, porque estarei convosco por todo o sempre, até que se consumam todos os séculos e séculos!

Naquele momento aquela pedra se expandiu e Jesus levitou, tendo ao seu lado Ismael e Gabriel, erguendo-o, como se ele fosse uma pluma.

Quase todos puderam vê-lo daquela forma, galgando em espírito a dimensão superior.

A certa altura, eis Jesus sentado naquele trono em que se instalara antes de nascer na Terra, tendo já ao seu lado a Corte Celestial. E indagou ao Grande Julgador do Universo:

— A quem cabe ser julgado na Terra? E a voz se ouviu:

— Senhor, não há mais nenhum juízo por sobre os homens da Terra, porque eles caminharão com as suas próprias pernas, crescerão por si mesmos, porque assim o cumpriste na Terra. Haverá muito derramar de sangue. O homem cairá e se reerguerá, e andará por si mesmo, com o seu próprio sacrifício, até chegar o dia em que, na evolução do tempo, no passar dos dias e dias, ele se aprimorará, porque criaste esta oportunidade, ó Grande Senhor, a todo irmão da Terra!

JOÃO BERBEL