LXI - PILATOS E A PERSEGUIÇÃO

LXI - PILATOS E A PERSEGUIÇÃO

Jesus continuava transmitindo as suas mensagens em espírito, através de um e outro, para que o cristianismo crescesse.

Ananias recebeu a sua visita espiritual, a lhe pedir que fosse até a casa de Marta e que fosse ordenado que Felipe deixasse aquela região e tomasse a direção de Roma.

Deveria procurar Zaqueu para que lhe desse o necessário apoio para a viagem.

Assim, Ananias foi até Jericó e contatou Zaqueu. Este tinha um bom relacionamento com as autoridades, já que trabalhava para César.

Ananias encontrou na casa de Marta um clima de certa indecisão, os seguidores de Jesus confusos quanto ao rumo que deveriam tomar.

Todos permaneciam em oração, confiantes em que Jesus lhes guiaria os passos, porém, tomados de certo temor pela grande perseguição instaurada pelos sacerdotes por cima de qualquer um que ousasse afirmar que Jesus havia aparecido para quinhentos de seus seguidores e havia subido aos céus ladeado dos anjos.

Zaqueu foi até os sacerdotes e pediu clemência, que não perseguissem os seguidores de Jesus. O sumo-sacerdote Caifás lhe respondeu:

— Não sou eu quem deve estar preocupado com o teu povo, e sim tu mesmo e o povo de Roma.

Combinaram de ir até Pilatos para que fosse estabelecida a ordem quanto à perseguição dos cristãos e aguardaram a audiência.

Zaqueu, Darúbio, Nicodemos, José de Arimatéia e outros defensores de Jesus se uniam no templo tentando mostrar que os sacerdotes se haviam precipitado e errado no julgamento e condenação de Jesus.

Porém, Caifás vociferava, invocando as passagens de Moisés, de Abraão e outros profetas para justificar a sua ação pretendendo defender a dignidade de Deus.

Nicodemos se ergueu e disse:

- Foi derramado o sangue de um inocente! Jesus nada há de errado para que fosse condenado.

Caifás redarguiu:

— Moisés convocou Deus e Deus executou os faltosos. Hoje represento Deus e, em nome de Deus, todo aquele que blasfemar contra as santas leis será punido, porque nelas está escrito que não se há de levantar falso testemunho nem blasfemar contra Deus. Ora, a justiça foi cumprida!

Zaqueu, Darúbio, José de Arimatéia e outros simpáticos a Jesus ouviram de Nicodemos:

— Tudo isto representa a vontade do próprio Jesus. Ele não ergueu voz contra ninguém, não odiou ninguém. Muito pelo contrário! A sua figura era muito forte! Não se podia ver tanta força num homem como se viu em Jesus!

Comentaram sobre a breve visita a Pilatos para obter a permissão de castigo aos cristãos.

Disse Nicodemos:

— Não faço parte desse contexto. Sei que Jesus é o Messias. Isto me licou bem claro. Carrego nos ombros o peso duro de ter presenciado o seu sofrimento sem nada poder ter feito por ele. Mas estou certo de que ele não nos abandonará.

Deixaram o templo, lá permanecendo apenas Zaqueu. Os sacerdotes foram então até o castelo de Pilatos reivindicar justiça a Pôncio Pilatos contra os cristãos.

À frente de Pilatos, que estava sentado, Caifás ergueu a voz:

— Devemos castigar todos os seguidores daquele galileu! Pilatos estranhou:

— Galileu?! Ora, não executamos galileu algum.

— Aquele que pregava às multidões.

— Ah! Falas então de Jesus! E por que quereis ainda mais sangue? Já não o matastes, já não estais satisfeitos com o que fizestes? Quereis matar ainda os seus familiares e seguidores? Que culpa me trazeis quanto aos familiares de Jesus?

— A culpa é a blasfêmia contra a nossa religião.

— A religião é vossa, e não minha. Enquanto eu existir não perseguirei seguidor algum daquele inocente de quem derramastes o sangue. Não entendo a vós que vos dizeis irmãos e de repente matais o vosso próprio povo! Garanto--vos que não posso entender!

— E' por que não podes entender? Porque não compreendes que Abraão nos mostrou o rumo da vida. O Deus de Abraão, Isaque e Jacó foi ofendido pela blasfemia desse Jesus!

Pilatos silenciou por alguns instantes, para depois erguer a voz e dizer:

— Se viestes a mim pedir para que eu derrame ainda mais sangue inocente, isto não farei! Que esse vosso Deus faça cair sobre cada um de vós a vossa própria maldição, por terdes derramado sangue inocente! Sim, porque as minhas mãos, nesse caso, foram lavadas. Muitos foram os ladrões e assassinos que por aqui passaram, homens que roubaram, saquearam, mataram. Foram assassinos que a sangue frio mataram inocentes. Ora, mesmo assim, muito constrangido ficava o meu coração quando eu tinha que sentenciar um desses malfeitores. Pesadelos me assaltavam a noite toda. Na manhã em que me trouxestes Jesus, eu já tinha ouvido de minha mulher a visão tenebrosa sobre o que queríeis e fiz tudo o que pude para que aquele sangue inocente não fosse derramado. Ora, viestes agora tentar fazer com que eu persiga aquela gente?! Não! Enquanto vida eu tiver, não moverei perseguição contra nenhum desses, pois já sinto nos ombros o duro peso de ter visto derramar sangue inocente, por ser a autoridade competente, mas, como já disse, não cabem a mim tais castigos. Tentei libertar Jesus de toda forma, mas vós mesmos o levastes à crucificação. Então que tal maldição seja o cálice que, a cada dia, cada um de vós haja de beber! Não tenteis jogar sobre os meus ombros a culpa desse sangue inocente!

Estava em jogo o destino daqueles seguidores de Jesus. Queriam desgarrá-los do rebanho e justiçá-los em nome da glória de Israel.

Os sacerdotes, por si mesmos, deram início então a uma feroz perseguição aos cristãos, até mesmo nos territórios da Judéia, antiga terra de Canaã, que se dividira em duas porções: havia um espaço separando os judeus dos não judeus, estes que já lá estavam bem antes da chegada dos judeus e não haviam sido tocados por fatores religiosos, a exemplo do povo de Samaria.

Zaqueu estivera com os sacerdotes no seu encontro com Pilatos e tudo ouvira. Indo à casa de Marta, deu a notícia da perseguição que lhes seria movida pelos sacerdotes, sugerindo que todos os seguidores de Jesus se afastassem de Jerusalém, para que não sofressem o preço de um grande castigo. Puseram--se então em oração, pedindo uma orientação superior.

Naqueles momentos, todos orando com fervor, Pedro, olhos brilhantes, se ergueu e falou numa linguagem diferente que ninguém entendeu.

André também se ergueu e também falou numa linguagem desconhecida.

E eis que também Mateus se ergueu e agiu do mesmo modo, o mesmo ocorrendo ainda com João.

Os quatro falaram, pois, daquela forma estranha que os ouvintes quase nada puderam entender.

Pedro se adiantou, dizendo:

— O caminho é aquele que o Mestre nos ensinou: é todo feito de espinhos. Mas agora temos a glória de Deus sobre os nossos ombros, porque somos os responsáveis pela introdução dos ensinos do Mestre junto aos povos. Lembrai-vos do que nos recomendara Jesus: que seguíssemos a pregar de dois em dois. Faremos então o que nos fora ordenado no passado. Tomaremos rumos diferentes e nos reencontraremos aqui. Lembrar-nos-emos sempre do que nos recomendou Jesus: que se não formos bem aceitos numa casa deveremos bater o pé, sacudir a roupa, para que não carreguemos conosco ao menos um grão de areia desses irmãos contrários, e que mantenhamos limpo o coração. Ora, servimos a Jesus, estivemos ao lado dele e assim será ainda!

Pedro saiu com João, André saiu com Tiago e assim se movimentaram os demais, aos pares.

Pedro resolveu adentrar a Samaria, a Judéia, pregar àquele povo sem religião, enquanto que os demais tomaram a direção de Cafarnaum e de outras localidades, todos se afastando dali, com exceção de Ananias e Estêvão.

JOÃO BERBEL