LXII - PEDRO E SUA IGREJA

LXII - PEDRO E SUA IGREJA

Chegando às terras de Samaria, Pedro viu que ali fora erguida uma espécie de templo a que chamavam de igreja, onde vários fiéis oravam.

Ali Pedro viu um aleijado que mal se sustinha de pé e por ali ficava esmolando alguma migalha. Antes de dar início à sua primeira pregação pública, Pedro se acercou daquele homem, que estendeu a mão e lhe pediu uma moeda. Disse-lhe Pedro:

— Não tenho ouro e não tenho prata, mas do que tenho eu te dou! Em nome de Jesus, levanta-te e anda!

O aleijado, com muita dificuldade, ergueu-se e abraçou Pedro.

Tal cura concedeu a Pedro uma grande força de fé, fazendo-o sentir que realmente estava às suas mãos o poder e a missão de implantar os ensinos de Jesus, criar novos templos, por onde quer que passasse.

Alentado em sua fé, Pedro subiu ao altar daquela igreja, que se repletou de gente a ouvi-lo:

— Eu era um pescador e da pesca tratava a minha família. As vezes ficava irritado pelas circunstâncias do meu trabalho, às vezes saindo à pesca e nada conseguindo pescar. Mas éramos felizes em casa, porque tínhamos uma vida confortável, herança do meu pai e que hoje deixei aos meus filhos. Um dia, chegando eu da pesca, vi um grupo de homens na praia. No meio deles um certo homem muito se destacava. De longe eu via aquela cena e bem entendia que algo diferente estava acontecendo. Imaginei que havia algum problema com algum de meus familiares, porque eles residiam ali perto do ancoradouro do meu barco. Por várias noites eu nada conseguia na pesca e o cobrador de impostos estava sempre lá a me aguardar para ver o quanto de peixe eu carregava e assim cobrar o tributo. Naqueles momentos o meu coração pulava de desespero, julgando ter pela frente algo de errado. De repente ouvi André, meu irmão, chamando por mim. Olhei para aquele homem diferente e julguei que era apenas um profeta qualquer. Ele se me acercou, fixou os meus olhos, chamou—me pelo nome e então algo estranho se formou dentro de mim. Aprisionado no meu medo, ouvi aquele homem me dizer: Segue-me! Então o desespero me invadiu a alma. Muita coisa teve de acontecer comigo, porque a minha ignorância me fazia sobre no entendimento do que me acontecia e da força do amor. Eu me via aprisionado no meu universo de trabalho e, de súbito, era fortemente chocado pelo sentimento daquele homem, pois o vi libertando da morte uma criança, erguendo um paralítico, dando visão aos cegos. Sua calma era a sua força, sua palavra era a sua arma. Ele me mostrou tudo com uma grande clareza e então deixei a minha família para segui-lo. Hoje estou aqui, no lugar de Jesus, para dizer a todos: Segui-me! Acreditai em mim!

Todos estavam maravilhados com a cura daquele aleijado e com a fala de Pedro, que insistia em que todos ali eram irmãos, que crescesse aquela irmandade, que todos se entrelaçassem num só sentimento, para que o amor fizesse morada nos corações. E ele chamava todos ao arrependimento.

A fé cresceu ali e de tal forma que nos dias seguintes aquela igreja já não comportava o número de pessoas.

Pedro e João pregaram ali por certo tempo e, chegando à Palestina, já encontraram um forte movimento contrário a Jesus. Foi-lhes informado que a casa de Marta fora incendiada, que a haviam expulsado dali, ela então se instalando na Galiléia.

Para a Galiléia seguiram então Pedro e João e lá encontraram muitos seguidores de Jesus ávidos de receberem notícias dele.

Muitos já se dispersavam, porque grandes eram as persecuções.

Assim, os apóstolos se reuniram e com eles pessoas oriundas de toda parte, buscando algo sobre Jesus.

Os apóstolos se puseram a orar e aquele mesmo fenômeno anterior ocorreu com eles: cada um deles falou numa língua diferente, expressando as mensagens de Jesus falando do amor, da igualdade, da partilha do pão. Muitos que ali estavam se
impressionaram e alegraram, porque, sendo estrangeiros puderam ouvir e entender tudo perfeitamente, na sua respectiva língua, o que era algo admirável, já que os rudes apóstolos, por si mesmos, não eram letrados e desconheciam aqueles idiomas.

Naqueles momentos desceu uma forte luz sobre os apóstolos e eles saíram pregando no meio da multidão, cada qual falando das suas vivências em relação a Jesus.

Pedro conquistara um amigo romana chamado Antenor de Áquila, através desse apóstolo pode aproximar-se e lalar com Jesus. Antenor também estava em meio àquele pessoal e convidou Pedro a ir com ele a Roma. Porém, grande era o medo de Pedro quanto a isto, pois sempre imaginava o pior a lhe acontecer, a exemplo da crucificação do Cristo. Soube, doutra parte, que em Roma havia um bondoso judeu chamado Benedites, muito simpático aos ensinos de Jesus, sendo ele irmão de Camarfeu, casado com Joana, tios de Jesus. Isto encheu de confiança o coração de Pedro, despertando-lhe a vontade de ir a Roma. Pedro reuniu os seus companheiros e disse:

— O Mestre deixou em minhas mãos a responsabilidade por cada um de vós, e cada um de vós é responsável perante Jesus. Deveis, cada qual, buscar uma terra estrangeira e ensinar tudo o que Jesus nos passou. Quanto a mim, vou para a parte mais difícil, que é Roma!

Os olhos de Pedro brilhavam, tal era a fé e a coragem que ele passara a demonstrar.

Antes de partir com Antenor, Pedro foi com João à casa da mãe de Jesus. Viram-na sentada, na maior tristeza pela partida de Jesus. Acercaram-se e Pedro disse:

— Mãe! Tu és a nossa mãe, porque o mundo todo te chamará de mãe, porque do teu ventre veio à Terra o Espírito Santo que a todos nós trouxe a salvação. Mãe, já não tenho medo no coração! Sabias que neguei por três vezes o teu filho, antes que o galo cantasse? Sim, mãe, eu o fiz, eu que tanta coisa maravilhosa tinha ouvido dos lábios de Jesus, quando nos dizia que não deveríamos ferir a ninguém, que o procurássemos quando nos sentíssemos oprimidos e sobrecarregados e ele nos aliviaria. Foi o Mestre que nos disse para que batêssemos e as portas se nos abririam. Mãe, nada mais temo, nem perder a minha própria vida, porque eu estou em Jesus e sei que ele vive dentro de mim! Não olharei mais para qualquer moeda da Terra! Toda a minha vida será dedicada a servir ao Mestre! Mãe, fui chamado a Roma e irei!

Maria disse:

— Pedro, Roma não é uma cidade igual às nossas. São terras diferentes e deverás estar guarnecido de muita fé.

— Mãe, já neguei Jesus, mas quando eu lhe disse que ele era o Cristo, o Filho do Deus vivo, ele me afirmou que não fora nem o meu sangue nem a minha carne que o haviam dito, e sim a vontade do Pai. Foi então que me disse que eu era pedra e que na pedra edificaria a sua igreja. Agora começo a entendei o que vai acontecer comigo, porém mal algum temerei, mãe, ainda que haja de perder a minha própria vida. Mãe, sinto o teu filho tão perto de mim!

- Sim ! Ele está conosco ! Disse que jamais nos abandonaria, e ele não te abandonará, Pedro! Segue os teus sentimentos e o amor do teu coração! Faze tudo com amor, porque se assim procederes, em toda parte estarás com o amor de Jesus. Vai e prega a todos os povos, em nome de Jesus!

Satisfeito, ciente de que aquela estação de luz se havia impregnado na sua alma e ali construído um novo templo, Pedro tomou o rumo de Roma. Lá encontrou Benedites, que, bem velho, o saudou:

— Os meus olhos se alegram vendo a ti, Pedro!

— Mas como?! Sabias que eu vinha?!

— Sim!

— De quem o soubeste?

— Do próprio Jesus! Pedro, chamado Simão, filho de Jonatas, e que estiveste ombro a ombro, lado a lado com o Messias, e que estiveste com o filho de Deus, o meu coração é o templo da tua morada!

Antenor de Áquila, irmão do centurião Demétrius, assistira toda a dolorosa partida de Jesus e, feliz, acompanhara Pedro até Roma.

Benedites e Pedro foram até César, que já estava bem idoso e lá estava ao lado de alguns de seus assessores militares.

Disse Benedites:

— Grande César, Imperador de Roma e o maior Imperador da Terra, aceita a saudação do teu nobre amigo!

César disse:

— Fica à vontade. Quem me apresentas? —Apresento-te um galileu.

— E o que é um galileu?

— Um dos que foram seguidores de Jesus. Ele se instala em nossa cidade e pede a permissão para construir aqui a sua igreja.

— Queres dizer um templo? Ora, templo só mesmo há em Israel, com aqueles fanáticos religiosos. Quanto a uma igreja, nada vejo em contrário. Acho que o povo daqui precisa também de um Deus. Tens então a permissão para que faças o que desejares. Procura os nossos arquitetos e eles edificarão o que desejas.

Pedro se ajoelhou aos pés de César, que ordenou que ele se levantasse e disse:

— Pela tua barba e pelas tuas vestes vejo que és um homem simples. Como era esse Jesus que foi executado em Israel?

Pedro disse:

— Um homem bom que pregava a ordem acima de tudo, que pregava a igualdade dos povos, que mostrava a necessidade de partilhar o pão, aquele que aconselhava ajudar a quem não tem. Ele mandou que nos amássemos uns aos outros e também amou todo o povo, sem distinção, tanto os judeus quanto os romanos. Vários guardas de Roma foram purificados pelas mãos dele.

— Sim, temos notícias desse Jesus, através de Cornélius. Ele nos informou de tudo, inclusive da ideologia de Jesus. Não vejo mal algum nele e no que pregou. Já estou muito velho e cansado, e o povo realmente precisa de um Deus. Benedites, há tempos estamos juntos. Fizemos o melhor para o povo judeu. Enquanto eu estiver por aqui, nenhum homem de Israel que for seguidor de Jesus será perseguido por mim ou por meus soldados. Espalha isto!

E assim foi feito. Era uma grande abertura para Pedro e a doutrina de Jesus. Logo se construiu uma grande igreja. Foram instituídos os cultos religiosos, abertos sempre com um sermão em que Pedro falava com fervor.

Assim, Pedro se tornou patrono daquela igreja e o líder supremo do cristianismo.

A notícia se espalhava quanto à estada e atuação de Pedro em Roma. Muitos e muitos dele se acercavam, muitos em busca de milagre, muitos em busca de um Deus.

Depois do décimo terceiro sermão de Pedro, morreu Benedites, que foi levado à igreja e dali ao sepulcro.

Pedro continuou com a sua pregação.

Demétrius e outros soldados levavam a Roma as notícias dos apóstolos que estavam em Israel.

Quando os sacerdotes do grande templo de Jerusalém souberam da grande igreja de Pedro e da sua diferenciação, no próprio nome e na exaltação de Jesus na qualificação de Messias, uma grande ira lhes subiu à cabeça.

Já sete anos, aproximadamente, decorriam da crucificação de Jesus.

Tibério assumiu o grande Império Romano. Mostrava nos olhos o sangue e a desavença.

Em Israel, a grande facção religiosa travava combate ideológico com Pilatos, que não torcia os braços aos sacerdotes. A partir da morte de Jesus, Pilatos extinguiu a crucificação, o que continuava vigindo apenas em alguns outros territórios.

Em certo momento foi chamado a Roma o grande Pôncio Pilatos. Por determinação de Tibério lhe foi tirado todo o poder, com a justificativa de que ele tinha por missão manter a ordem nas terras de Israel e que ele não mais a conseguia manter, uma vez já não mais executando os infratores.

Tibério criava um grande desconforto geral mudando a politica de Roma em relação a Israel. Aguarda romana, sob a nova lei, passou a perseguir o povo cristão por toda parte. Houve muito massacre.

Tentavam, por toda forma, prender os apóstolos e os seguidores de Jesus.

Ora, tais medidas fizeram espalhar muito e muito mais a figura de Jesus e sua doutrina, chegando até mesmo em terras distantes. Passaram a adorar Jesus na qualificação do próprio Deus.

A perseguição, contudo, era acirrada.

Ananias recebeu a ordem de deixar aquelas terras e ir para Damasco, o que fez.

Saulo era um homem letrado que havia conquistado bom espaço político por ser um aplaudido orador.

Tinha mesmo o dom da oratória e falava em lodos os templos. Era muito agraciado por isso. Com muita influência junto ao Imperador, foi-lhe concedido um exército para que com ele perseguisse os cristãos.

Estêvão e Ananias estavam separados pelas circunstâncias. Saulo se casara com a irmã de Estêvão, com o qual não mantinha um muito estreito iclacionamento. Pregador de Jesus, Estêvão era perseguido.

A Saulo foi consignada uma listagem de todos os que eram considerados seguidores de Jesus e que haveriam de ser caçados e julgados por blasfêmia, sendo levados ao apedrejamento. A tais fatores muito se aplicavam os soldados de Saulo.

Tibério ordenou a prisão e execução de Pedro, que se entregou sem manifestar nenhuma reação.

Pedro já conquistara o coração dos romanos naquela região e sua prisão era motivo de descontentamento.

Tibério ordenou que o prendessem e levassem até Israel para que lá o crucificassem. Os soldados cumpriram a ordem, levando-o até a sua terra natal, junto ao Mar da Galiléia.

Os soldados reuniram lá alguns sacerdotes e, à frente deles, esbofetearam Pedro, que se conservava impassível, sem derramar sequer uma lágrima.

O centurião Jerônimo, que comandava aquela ação, indagou a Pedro:

— Não derramas nenhuma lágrima e não proferes nenhuma palavra? Pedro disse:

— Nenhuma lágrima derramo, para que obtenhais o perdão!

— Perdoados por quem? Por ti?

— Não! Por Jesus! Por Deus!

— Vamos matar-te à frente do teu povo, para que ele presencie tudo.- Quem é o meu povo? O meu povo é o teu povo e o teu povo é o meu povo.

Por que não o fizeste perante o teu povo?

Ora, bem se sabia que sacrificar Pedro em Roma provocaria um grande desconforto, talvez uma indesejável rebelião, pelo tanto que o respeitavam.

Crucificá-lo nas terras dos judeus era uma estratégia para lhes mostrar o poder de Roma e dos próprios sacerdotes.

Jerônimo indagou:

— Não temes Roma?

— Nada temo além de Deus e Jesus.

— Sabes que a tua pena por defender Jesus será também uma crucificação?

— Sei!

— E mesmo assim não temes o sofrimento?

— Não! Porque Jesus está em mim e, igual a ele, peço que todos vós obtenhais o perdão!

— Então serás crucificado!

— Faze-o! Porém, não sou digno de ser crucificado da forma que fizeram com Jesus. Crucificai-me de cabeça para baixo!

Assim fizeram. Pedro foi fixado na cruz e, manifestando uma fé incomum, disse:

— Que Deus vos perdoe a todos! Jesus! Jesus! Jesus! Não me abandonaste e nas tuas mãos entrego o meu espírito!

Suas forças foram vencidas e ele foi retirado da cruz.

Uma rebelião se formou naquele momento. Os soldados, seguindo os sacerdotes, não quiseram entregar o corpo de Pedro a estranhos, para que não acontecesse o que ocorrera com o corpo de Jesus.

Sob grande conturbação, o corpo de Pedro foi levado para Roma e colocado dentro da sua própria igreja.

Foi um acontecimento de grande repercussão. Outros líderes surgiram ali e foram levados ao castigo, ao apedrejamento.

Antenor de Áquila começou a pregar naquela igreja, no lugar de Pedro. Foi preso e açoitado, mas os romanos não poderiam sacrificá-lo, para não suscitar maiores desavenças. Foi então jogado aos leões.

Tibério era um homem sanguinário. Havia levado a Roma vários leões da África e com isso iniciara o sacrifício dos cristãos, jogando-os àquelas feras para que os devorassem.

JOÃO BERBEL