LXIII - FELIPE E PILATOS

LXIII - FELIPE E PILATOS

Os cristãos eram sistematicamente perseguidos e o castigo maior era o apedrejamento, o que era temido por todo Israel.

Um clima de desentendimento e revolta tomou conta das antes equilibradas relações entre judeus e romanos.

As leis eram severas e todos os cristãos eram mesmo castigados impiedosamente. Passaram a se esconder como podiam, acuados e amedrontados.

Em Roma ganhava ênfase o jovem Felipe, apadrinhado por Benedites, que se tornara um conselheiro dos mais respeitados. Assim, Felipe se livraria de qualquer persecução, pelo grande nome de Benedites.

Muitos soldados se haviam tornado cristãos, porque tinham ouvido Pedro e sua extraordinária mensagem de fé e amor. A população cristã crescia rapidamente.

Tibério manifestava o seu ódio, fazendo dele o móvel da destruição e da morte. Fez com que aquela igreja de Pedro fosse quase desativada.

A alta perseguição afastava os frequentadores. Os que insistiam na crença cristã eram jogados aos leões.

Felipe recebeu a incumbência de manter em segredo aquela fé e aquele povo cristão. Afeiçoara-se desde pequeno aos ensinos de Jesus, através de Marta, sua mãe.

Um destacamento militar de Roma se dirigiu a Jerusalém, com a ordem para que prendesse Pôncio Pilatos. Nessa missão seguia Felipe, na condição de pacificador.

Em Jerusalém, Pôncio Pilatos fora grandemente rebaixado de seu posto de governador.

Tornara-se apenas uma figura mandatária menor, à semelhança de um prefeito. Era muito perseguido pelos sacerdotes, que sobre ele queriam jogar toda a culpa da crucificação de Jesus.

Todavia, Pilatos já carregava no coração um grande arrependimento por ter ordenado a execução de muitas criaturas, de malfeitores e desordeiros.

Para mostrar o poder de Roma, o castigo de morte era seguido à risca, para que ficasse bem assinalada a supremacia romana perante o povo judeu.

Também governador aclamado por Roma era Herodes, que exercia o poder com mão firme e forte.

Sua descendência lhe dava como herança a condição de ser um rei que dominaria toda aquela região, embora submetido ao poder de Roma.

Aquele destacamento militar chegou a Jerusalém e imediatamente Felipe foi apresentado aos sacerdotes, ele próprio também sob o qualificativo de sacerdote.

Aquela classe sacerdotal estava informada daquela igreja de Roma e isto muitísssimo a revoltava.

Sob tal clima é que Felipe adentrou o grande templo, sabedor de que já haviam incendiado a casa de Marta, sua mãe, que se mudara para a casa da mãe de Jesus, na Galiléia.

Caifás, já bem idoso, o afrontou:

— Com que autoridade assumiste em Roma a tua religião? E' uma nova crença? Estabeleceste lá uma fé fincada nas Escrituras Sagradas?

Os olhos de Felipe brilhavam quando ele respondeu:

— Os nossos ensinos são os mesmos que Jesus passou aos seus apóstolos e que eles nos passaram. Isto custou a queima da nossa casa, o prejuízo total do nosso dinheiro, queimado pelos romanos e judeus, e a perseguição de cada um de nós.

Porém, eu te afirmo: grande é somente aquele que deixa o Cristo entrar no seu coração!

Caifás arregalou os olhos e empinou a cabeça, indagando:

— E o que é esse Cristo?

— Nas vossas Escrituras é dito que o Messias, o Filho de Deus, é o Cristo, que vem diretamente do próprio Deus. Ele fez parte de um todo que habitou entre nós.

— Então chamas Jesus, o Galileu, de Cristo, o Deus Vivo?!

— É assim que o entendemos, e bendito seja todo aquele que ouviu a palavra de Jesus! Porque aqueles que ouviram a palavra de Jesus serão salvos, pois isso mesmo ele nos ensinou, que é através do perdão e do amor que ingressamos nos
Céus, que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos Céus. Ele chamou todos os culpados ao arrependimento, chamou todos os desesperados e lhes mostrou que ele é o caminho, a verdade e a vida. E nele e nos seus ensinos que cremos! Sim, estamos sendo perseguidos, mas a nossa igreja está cheia. Pedro nos disse o que Jesus lhe afirmara: que ele, Pedro, era a pedraem que edificaria a sua igrej a. E hoje ela já existe! Já há sinos que badalam, anunciando os cultos religiosos. Ora, estiveste ao lado dele e não o compreendeste?
Caifás ergueu a roupa, cobrindo o rosto, e disse:

— Blasfêmias levanta este homem contra o nosso Deus! Ó Deus de Israel, faze com que esta boca não blasfeme contra Ti! Para nós existe apenas um Deus, o Deus de Abraão, de Isaque e Jacó. É o mesmo Deus que libertou do Egito o nosso povo e caminhou com ele pelo deserto. Qualquer outro que se levantar contra Ti será castigado e punido conforme a nossa lei!

Felipe fitou Caifás, os demais sacerdotes e, meneando a cabeça, pediu licença e saiu em silêncio, sem mais nada dizer, mesmo que chamado a retornar e dialogar ainda.

Felipe foi até Pôncio Pilatos, que já sabia que aquele jovem destemido havia erguido a voz contra os sacerdotes no grande templo e assim o chamou a um diálogo.

Ora, Pilatos via toda a cidade desde a sacada do seu palácio. Dali acompanhava toda a movimentação do templo, tudo o que acontecia. Se havia alguma confusão, imediatamente mandava até lá a sua guarda para acalmar o povo.

Felipe se sentou ao lado dele e ouviu:

— Não tenho boas notícias para ti, meu jovem. Sei que és um seguidor de Jesus, hoje chamado de cristão pelo povo romano. Fico muito honrado com a tua visita. Tenho prestado um grande serviço a Roma, cuidando de todos os deveres, cumprindo todas as obrigações que me estão afetas. Tinha guardas sob o meu comando e eles foram retirados, porque fui rebaixado de posição. Ora, tu, mesmo sendo cristão, és o único de tal povo podendo andar livre: não és perseguido nem pelo povo romano nem pelo povo judeu. Lembro-me de ter estado aqui diante de uma multidão que me trazia Jesus para que o crucificasse. Jesus trazia consigo uma verdade que permanecia oculta para todos nós. Lutei, pelejei para que ele dissesse a sua verdade à minha frente, mas ele permaneceu em silêncio. Perguntei-lhe se era um rei e ele respondeu que, caso fosse um rei, teria um exército para defendê-lo. Insistindo na pergunta, se ele era, mesmo assim, um rei, ele disse que fora para tal princípio que descera à Terra. Eu esperava então que uma condenação, por dizer-se rei, cairia sobre ele, mas ele completou dizendo que o seu reino não é deste mundo. Disse-lhe que eu era o homem que podia tanto salvá-lo quanto condená-lo, mas ele, com palavras mansas, sem de¬monstrar raiva alguma, disse que isso eu somente poderia fazer se o Pai dos Céus me autorizasse. E dizia: O poder que tens será tirado um dia, e não o meu. Então, Felipe, tu bem podes cuidar da tua religião em Roma. Mas, naqueles momentos, disse eu aos sacerdotes que sobre os meus ombros não cairia maldição alguma, porque eu lavava as mãos por ter de derramar sangue inocente, e que toda maldição recaísse nos judeus, naqueles que me haviam conduzido Jesus. Todavia, os meus poderes foram tirados, parece que a maldição caiu sobre mim. Fui chamado a Roma. Sei que permanecerei por aqui por pouco tempo, sei que devo retornar para Roma. Eu gostaria de lhe pedir que me dissesses ou então que perguntasses a esse Cristo, a esse Jesus, ou a esse Deus que cultuas, qual foi o mal que cometi por ser assim punido por ele.

Felipe permaneceu silencioso, com a mente um tanto confusa, tentando absorver alguma informação superior. Lembrou-se dos últimos dias que estivera ao lado de Benedites e então disse a Pilatos:

— Meu irmão - se assim posso chamar-te, por ver tristeza e lágrima nos teus olhos -, fui levado daqui para Roma, ainda bem jovem, e lá estive com Benedites. Ele era judeu e era um respeitado conselheiro dos romanos.

— Sim, bem sei! Ele criou o censo, ele conseguiu a paz que ora é quebrada, porque César passou a outro o seu poder, uma vez estando no fim da vida.

— Pois bem! Eu era filho único e não queria abandonar aqui a minha mãe, porque já perdera o meu pai e fora curado por Jesus. Os olhos de Benedites, vendo-me, alegravam-se. Quando as coisas se complicaram com Pedro, nosso mestre maior, Benedites me disse que Jesus havia estado com ele e dito que todos aqueles que seguissem a sua Boa-Nova e se arrependessem do fundo da alma não padeceriam em espírito o fogo do Inferno. Jesus invitou ainda Benedites a que tivesse fé, porque sempre estaria ao lado dele e ao nosso lado. Estranhei que Benedites me dissesse aquilo e lhe objetei que ele não estivera ao lado de Jesus, ao que ele respondeu: — Muito pelo contrário! Jesus esteve ao meu lado por todo tempo e me passou todas as informações. Eu queria ser um dos seus apóstolos, caminhar ao lado dele, tocá-lo e senti-lo, mas aqueles que enviaram Jesus à Terra me guiaram para Roma e depois vi o quanto isto era importante, Felipe, nao vieste para ca para constituir família, e sim para suster aos ombros o peso de ser cristão. Então se um mal recair nos teus ombros e tua alma se quedar angustiada, lembra-te de que és daqueles que ouvem Jesus quando disse que aquele que pede, obtém. Então, irmão, não temas mal algum. Há o fogo da treva, mas ele consumirá somente aquele que tentar apagar a luz daquele que brilha. Caminharei por Jerusalém, pela Palestina, pela Judéia e pela Galiléia, onde visitarei a minha mãe, e depois dessas andanças, que não demorarão muito, retornarei a Roma.

— Quanto a mim, permanecerei por aqui. Sei que, com o enfraquecer do meu poder, Herodes se torna o grande governador. Tenho algumas pendências para resolver por aqui. Como há tanto tempo tenho lidado com situações e situações, devo preparar o meu retorno a Roma. Foi-me concedido pelo grande Imperador que eu ficasse por aqui durante algum tempo. Vai, jovem, e assim que voltares prepararemos a nossa viagem a Roma!

Felipe organizou as suas caminhadas por aquelas vastas regiões. Ao seu lado seguiam alguns judeus e alguns soldados romanos.

Assim, chegou à Palestina, passando pelo local em que vivera com os pais, naquela casa que fora incendiada. Ajoelhou-se diante daquelas ruínas e orou fervorosamente.

Naqueles momentos lhe apareceu Pedro e disse:

— Felipe, não temas mal algum, pois em ti ninguém tocará. Por tal razão é que foi necessária a tua mudança para Roma. Não te preocupes! Recorda tudo o que te ensinei sobre Jesus e prega! Vai ao povo da Judéia, da Samaria, e vai depois ao Mar da Galiléia, porque lá se reunirão todos os nossos irmãos, vindos de todos os lados. Reúna-te a eles depois que pregares o que te passei.

Ao lado de Pedro se apresentou Jesus. Felipe, vendo-o, estremeceu e mergulhou na lembrança de sua infância, quando sofria no leito, sem remédio, e quando fora tocado e curado por Jesus.

Fixando nos olhos dele, disse Jesus:

— Felipe, também és um dos meus escolhidos! Estarei contigo até que se consumam todos os séculos e séculos. Se em verdade me amas, apazigua as minhas ovelhas, sem temor algum, pois contra ti não será erguido um só dedo. Por enquanto ainda não é chegado o teu tempo!

Felipe chorava, comovidíssimo. Os guardas, logo atrás, viam-no como se ele conversasse sozinho, pois não viam nem Pedro nem Jesus. Era a expansão dos dons de Felipe, que, alentado em sua fé, naquele momento cancelou a sua viagem à
Galiléia e subiu ao norte da Palestina, dirigindo-se a Judéia e lá pregando em nome do Cristo, arrebanhando um grande número de simpatizantes. E foi ter também com as populações de Samaria, dali seguindo à Galiléia.

Lá estava Marta, sua mãe, ao lado da mãe de Jesus, de Maria de Magdala e de Ingrid, Princesa da Pérsia.

Há muito Marta não tinha notícias de Felipe. Ela o fitou, viu a barba que ainda não vira, a pele castigada pelo Sol. Estranhou aqueles homens que o acompanhavam e exclamou:

— E's ou não o meu filho?!

— Mãe! Estou saudoso de ti!

— Sei que foste para Roma, meu filho, e hoje te vejo ao lado desses homens!

— Mãe, estavas certa! Os meus olhos estão agraciados, porque sou um cristão!

A mãe de Jesus se acercou dele e disse:

— Felipe, tens sido bem-sucedido? E' tão forte esta palavra cristão !

— Santa és, Maria, Mãe de Deus! Roga por nós que somos pecadores e nos guarda no teu bendito amor, para que sejamos limpos de corpo e alma! Deixa que as águas santas do teu filho bem-amado se derramem sobre nós para arrancar do nosso corpo todas as feridas de sofrimento pela pobreza da nossa alma! Glorificada és perante a humanidade! Belo é o teu amor para com todos! Louvores rendo a ti por tua ternura e o teu carinho!

Naqueles momentos em que pronunciava tais palavras, Felipe estava transfigurado e Maria, fitando o seu rosto modificado, percebeu estar à frente de Levi. Chorou com grande emoção, ajoelhou-se e agradeceu a Jesus. Erguendo--se, fixou os olhos de Felipe e lhe disse:

— Bem-aventurado és tu, Felipe, pois não foram nem a tua carne nem o teu sangue que pronunciaram essas palavras! Foi Levi, trazido por meu filho! E glorioso serás, Felipe, e guiarás muitos irmãos à salvação!

Maria de Magdala segurou nas mãos dele e disse:

— Felipe, andei por caminhos tortuosos da vida. Conheci o fogo da aflição, conheci a desilusão por andar perdida pela vida, por ter por companheira a má fama, por algum tempo. Mas Jesus me tocou e perdoou pelo que eu era, e me abençoou. Hoje as minhas mãos estão a serviço de Jesus. Aqui estou com a minha amiga Ingrid, que sempre me dá a necessária força. Vê: ela também é uma cristã e o seu trabalho também se volta para Jesus. Vendo o sofrimento e a discriminação recaindo sobre os nossos irmãos leprosos, e tendo visto Jesus limpar os leprosos, tento, não porém com a força que tem Jesus, amenizar a dor desses irmãos. Ingrid abandonou a realeza, o conforto e poder de ter uma coroa à cabeça para vestir a roupagem da simplicidade e servir a Jesus. Ingrid, na sua ímpar beleza, acercou-se de Felipe e disse:

— Felipe, os meus olhos se alegram por ver-te, mesmo com tão grande peso aos ombros. Por onde quer que vamos, ouvimos falar da grande erseguição. Quantos irmãos nossos foram apedrejados como se fossem ulheres adúlteras! Quantos deles são sacrificados sem piedade! Muitas sinagogas não os aceitam, de forma nenhuma. Os grandes sacerdotes ditam as das leis e o povo as segue. Parece que olvidaram totalmente os ensinamentos e Jesus e perseguem todos aqueles que caminharam com ele. A mãe de Jesus se adiantou:

— Tudo o que está acontecendo fora previsto por Jesus, mas ele também isse que bem-aventurados seriam aqueles que fossem perseguidos e injuriados m nome dele, e que, por todo mal que sofressem, tivessem a grandeza de perdoar, porque grandes seriam os galardões deles nos Céus. O nosso coração e acha muito apertado, mesmo aqui na Galiléia, numa região mais pobre das terras de Canaã, embora seja também uma terra prometida por Deus, e Jesus ela se fez presente a bem do mundo inteiro. Então é certo que muitos dos ossos serão felizes ao chegarem aos Céus, mesmo que sejam aqui apedreja-os pelo povo judeu.

Felipe estava com o coração repleto de alegria e amor. Comovido, isse àquelas mulheres:

— Pois bem! Agora vos digo!

Numa pausa, fitou o rosto de sua mãe, agora vendo-a mais baixa do que ele. Acariciou o seu rosto, puxando para trás os seus cabelos, notando nela o vanço da idade. Disse então:

— Mãe, nada tenho que reclamar, porque estive com Pedro e ele ja me havia confortado. E de repente vi Jesus atrás de Pedro. Tão lindo era o seu rosto! Seus cabelos pareciam ouro! A sua barba brilhava como se fora feita só e luz! Jesus me estimulou, desejando que eu fosse feliz no meu trabalho na Terra e que desse prosseguimento à sua missão. Disse-me que, por enquanto, ouço seria o peso dos meus ombros e mandou que eu refizesse os seus caminhos, perpassando pelos lugares em que pregara e falasse que ele não morreu, que ainda permanece vivo nos corações. Obedeci-lhe então e hoje estou aqui perante ós. Porém, curto será o meu tempo por aqui.

- Pousa aqui esta noite e descansa conosco.

— Eu muito gostaria, mas o meu tempo já se esgota. Preciso ir a Roma com urgencia. Há lá um grande templo a que denominamos igreja. Assim que lá chegar, e pela bela visão que há pouco tive, passarei a chamar aquele templo de Igreja de São Pedro, porque ele é santo sobre os santos dos Céus. Lá Pedro crescerá cada vez mais nos corações. Embora o grande Imperador ainda promova muitos sacrifícios, o povo não perde a sua fé: quanto mais eles matam, mais cresce o número de cristãos.

Ingrid indagou:

— Como é feito lá o sacrifício dos nossos irmãos? São crucificados, como vemos por aqui?

— Não. O grande Imperador buscou leões na Africa. Ingrid disse:

— Lembro-me do meu pai, que é o Rei da Pérsia. Muitas vezes lhe ofereceram esses animais como presente. Eu já os vi. E do costume desse povo jogar as pessoas aos leões. É terrível! Deixam os animais por três dias sem comer e depois começam a fazer com que eles se enervem. Quando constatam que a raiva dos leões foge do controle, lançam-lhes as pessoas. As vezes as vítimas não morrem na hora e então vão sendo mordidas, arranhadas. É sangue por todo lado, antes de a vítima ser estraçalhada e devorada. Lembro-me do que me disse meu pai. Quando um animal desse sente o desejo da carne humana, ataca sem medo, estando faminto. É muito terrível, Felipe!

Os olhos de Felipe estavam orvalhados. Sua mãe, apreensiva, o abraçou, dizendo:

— Não, meu filho, não retornarás a Roma! Permanecerás aqui comigo!

— Mãe, a minha missão está nas mãos de Jesus!

— Felipe, já perdi o teu pai e não quero perder-te! Não, não posso deixar que aquilo aconteça contigo! Prefiro que aconteça comigo!

Maria se adiantou:

— Marta, eu também perdi o meu filho na cruz! Pude ver e sentir o quanto era triste tudo aquilo! Mas ele nos confortou a todos. Felipe, o desejo é teu, e não da tua mãe!

— Permanece aqui - pediu Marta -, pois aqui também podes realizar a obra de Jesus!

— Não, mãe! Era para eu estar morto e bem te recordas disto. Se Jesus não tivesse aparecido em casa naquela tarde, para me curar, talvez que a senhora não mais me visse hoje. Se Jesus achou que eu deveria viver é porque ele precisa de mim!

Felipe se despediu e seguiu para o Mar da Galiléia. Chegou bem à noite e por lá pernoitou.

Notava-se uma grande movimentação na casa de Pedro. Lá estavam todos os apóstolos, com exceção de João.

Felipe se acercou e logo foi vista pelos apóstolos a chegada daqueles militares a acompanhá-lo, e então tremularam.

Felipe se adiantou, apresentando-se a André:

— André, sou Felipe. Sou também um dos vossos! Estes homens de Roma apenas me protegem por algum tempo. Pedro me ordenou que eu viesse até vós.

— Como poderias ser mandado por Pedro?! O meu irmão foi crucificado e todos viram o sangue escoar pela sua garganta, pelo seu rosto, pelos seus cabelos, porque o pregaram de cabeça para baixo. Ah! Não viste tanta coisa triste como vimos! E tinha que ser visto de longe, porque não podíamos acercar--nos. Quanta tristeza, quanta dor no nosso coração! Caminhamos ao lado de Jesus, estivemos muito tempo ao lado do Mestre, aprendemos com ele, mas quão difícil é superar aquela cena perto da casa de Jesus! Pedro estava sempre ao lado de Jesus, sempre sentia Jesus, e morreu daquele jeito. Felipe, não sei quem és, mas para te falar a verdade, tenho medo de ver um romano, um dos que nos querem apedrejar. Por várias vezes fugimos espavoridos e vimos muitos e muitos irmãos sendo apedrejados. Não é mais aquele tempo em que podíamos andar livres e pregar. Todos nós fomos para longe daqui e hoje nos reunimos aqui para saudar os nossos familiares, porque é o dia da nossa festa. Mas a que vens, Felipe?

— Lembremo-nos do que disse o Mestre: orai e vigiai, porque sobre vós estão as línguas de fogo.

— O que mais sabes de Jesus?

— Sei que ele é o caminho, a vida e a verdade, que ninguém sobe até o Pai se não passar por ele.

— Tais palavras são realmente de Jesus. De quem as ouviste? Felipe fez menção de se acercar mais, indagando:

— André, vais ouvir-me?

— Não te aproximes de mim, mesmo que sejas sabedor das palavras de Jesus! O que queres de nós?

— Ora, não esperaste que eu falasse! Pedro ordenou que eu viesse ate vós para que possa comer do vosso mesmo pão, para que me abençoeis entre vós, para que eu também seja um dos vossos.

— Com que autoridade poderíamos fazê-lo?

— Com a mesma força com que Jesus escolheu cada um de vós, para que batizásseis em nome dele. Então peço que me acolhais neste momento.

— Como podemos confiar em ti? Quem és?

— Esqueceste rapidamente, André! Já me viste, já me tocaste e oraste por mim!

— Mas quem és?

— Posso fazer com que a tua mente receba um copo de água fresca...

— E como podes fazê-lo?

— Deves lembrar-te, André, de uma certa casa. Era tarde, e lá chegaste, com os demais, a mando de Jesus. Lá repousastes e a cada um de vós foi ofertado alimento. Logo depois chegou lá o vosso Mestre, que saudou aquela mulher que estava sentada lá fora, desesperada pelo seu filho doente. Jesus a confortou, adentrou a casa e curou o filho dela. Se Jesus não houvesse passado por ali, era certo que aquele enfermo morreria.

— Lembro-me! Mas o que tem a ver aquilo com a tua presença?

— Pois, se não sabes, sou eu Felipe, filho de Marta! André estremeceu naquele momento e indagou:

— Mas o que sabes do meu irmão?

— Fui mandado a Roma antes de Pedro. Lá conheci Benedites, irmão de Camarfeu. Depois tive a oportunidade de estar com Pedro. Benedites conseguiu com César a construção de uma igreja enorme que começou a acolher muitos fiéis e muitos doentes, todos convertidos por Pedro. Eles passaram a ser chamados de cristãos e Pedro os batizava em nome de Jesus e do Espírito Santo. Estive ao lado dele, aprendendo o que Jesus ensinou. As autoridades romanas me mandaram para cá na condição de pacificador, para conversar com os sacerdotes e com Pilatos, ele que tem enfraquecidas as suas forças desde a crucificação de Jesus. Ele lavou as suas mãos...

— Mas crucificou Jesus!

— Por que dizes isto?! Pilatos lavou as suas mãos por ter de tirar a vida de um homem inocente. Ele concedeu a todos que escolhessem, mas os nossos irmãos optaram por soltar Barrabás e crucificar Jesus. Então nenhum peso de culpa recai aos ombros dos romanos, nem de César nem de Pilatos. Ao que se sabe, os sacerdotes ganharam demasiada força por sobre Pilatos e tentam, cada vez mais, através de Herodes, induzir a perseguição aos nossos irmãos. Estive ao lado de Caifás. Ele está muito velho e, ao que se vê, não durará muito tempo-e que Deus o tenha!

— Por ele nada pode ser feito, porque ele próprio construiu o seu mundo de sangue. Pela espada feriu e pela espada perecerá.

— André, não aprendeste com Jesus? Não devemos julgar para não sermos julgados, não devemos condenar para que não sejamos condenados. Amar-nos uns aos outros - eis o lema de Jesus. O Mestre já perdoou a todos os sacerdotes. Pois bem! Estive mesmo com Pedro. Lembro-me, na época da minha partida, das dificuldades enfrentadas por Pedro e pelos demais. Nossa casa foi toda queimada e hoje minha mãe vive ao lado da mãe de Jesus. Ainda há pouco pude ver as ruínas daquela casa. Ajoelhei-me naquele chão e roguei forças para que eu não venha a cair em tentação e para que a minha missão seja bem--sucedida. Ora, quando eu orava, vi Pedro se acercando de mim. Ele me disse que eu deveria vir aqui e encontrar todos vós - e aqui estou!

André convidou Felipe a entrar e ordenou que, além dele, lá dentro permanecessem apenas os apóstolos.

Muita lamentação se ouvia daqueles irmãos. Felipe se ajoelhou à frente deles, obtendo a concordância de uns e a discordância de outros quanto à sua admissão entre eles. Orou fervorosamente, suas vestes, pelo esforço, ficando molhadas pelo suor.

Eis que naquele momento surgiu Pedro à frente deles, causando medo em alguns. Pediu que permanecessem em oração e, tocando em cada um, dizia:

— A minha alma ainda não é pura, ainda carrega as manchas do meu passado. Porém, também vós carregais convosco as manchas do vosso passado. Lembrai-vos de que não há ninguém maior do que Jesus capaz de vos aliviar os tormentos.

-Lembrai-vos do que o Mestre vos alertou: que todos seríeis perseguidos, que muitos seriam levados à morte. Sim, dentre vós, muitos ainda serão apedrejados, castigados, mas tende fé, acreditai no que Jesus vos disse: aquilo que veio do pó da terra volta à terra e aquilo que é de Deus volta para Deus. Se perderdes a vossa vida, ganhareis o que ganhei: estou morto, mas vivo por sobre vós. Não podeis então duvidar de mim, porque eu aceitei Jesus e hoje o galo não mais precisa cantar, não necessito mais ser colocado à prova, pois a prova maior que deveis afrontar é o desafio de vos amardes uns aos outros. Tudo aquilo que o Mestre anteviujá vem sendo realizado. Eu vos digo, assim como asseverou o Mestre: felizes são aqueles olhos que se guiam pelo coração para que vejam, felizes os que têm ouvidos para ouvir! Sois o Cristo, sois o próprio Jesus na ferra, e ele não vos abandonará. Quanto a este jovem que hoje se apresenta ante vós, Felipe, foi salvo por Jesus e, a exemplo de todos aqueles que foram libertos pelo Mestre, ele também foi chamado a dar a sua contribuição à Boa-Nova. Ide e pregai, meus irmãos, a todas as nações e a todos os homens, porque a Boa-Nova já está na Terra!

André se ergueu e se aproximou de Pedro, que se sentou a um canto, André se sentando ao seu lado e nele encostando a sua cabeça. Os apóstolos pediam:

— Pedro, não nos abandones! Permanece conosco! Não somos tão fortes quanto és! Temos medo da morte e tu medo algum tiveste!

Uma luz inundou o ambiente. Ali surgiu a fulgurante figura de Jesus, a dizer:

— Que a paz do Senhor esteja convosco! Que mal podeis temer, meus filhos? Eu já vos disse que sereis pescadores de homens. Cada um de vós será testado, mas eu estarei convosco por todo o sempre. Vinde a mim, vós que sofreis, vós que estais oprimidos e sobrecarregados, e eu vos aliviarei! Na casa do meu Pai há muitas moradas! Se assim não fosse eu jamais o teria dito. Em verdade vos digo: aquele que dentre vós for tombado na lida de divulgar o meu nome estará comigo no Paraíso. Não vos abandonarei! Jamais vos deixarei órfãos em um minuto sequer da vossa vida! Estarei com todos vós, meus irmãos, porque o espírito sopra onde quer. Lembrai-vos do maior mandamento que deixei entre vós: amar o Senhor Deus sobre todas as coisas e amar, tanto quanto a vós mesmos, o vosso próximo. Meus irmãos, ide e pregai em meu nome, até o momento final da vossa vida, e eu estarei convosco!

Pedro se acercou de Jesus, que colocou a mão no ombro dele, os dois se erguendo do chão, subindo ao mais alto.

Todos estavam deslumbrados e acolheram Felipe na sua irmandade.

Com isso, todos ganharam muita energia de fé e otimismo, superando todas aquelas apreensões e temores. Saíram e abençoaram, em nome de Deus e Jesus, todos os que estavam lá fora.

Felipe se despediu, dizendo:

— Vou partir para dar continuidade à minha missão.

E assim foi feito. Felipe dirigiu-se a Jerusalém e foi ter diretamente com Pôncio Pilatos. Fitou-o e viu nele a expressão de uma grande tristeza invadindo a alma. Os pertences dele já estavam preparados para que ele retornasse a Roma.

Aquela caravana loi até o mar e ta embarcaram todos. Pilatos seguia com os seus familiares e tudo o que lhe pertencia.

Na viagem, Felipe dialogava com Pilatos, acalmava-o, consolava-o de toda forma, afirmando que Jesus continuava vivo e perdoara a todos aqueles que haviam lançado o ódio contra ele, que Jesus era a expressão do puro amor na Terra, embora os corações dos homens não pudessem entender.

Chegando a Roma, Pilatos e os familiares se instalaram na casa em que morara Benedites.

Felipe foi até a igreja e lá saudou os serviçais.

César já morrera.

Tibério, o novo Imperador, estava bastante irado com a notícia de que Felipe afrontara os sacerdotes. Mandou chamá-lo e lhe disse, com sua voz forte e agressiva:

— Felipe, és um judeu e arrebanhaste para Roma muitos judeus. Parece que isto virou uma praga aqui! E' uma peste! Para onde quer que lançamos a vista vemos esse povo e a figura de tal povo não é agradável aos nossos olhos. Pior ainda é que muita da nossa gente enfiou na cabeça esse teu maldito Deus e esse teu maldito Jesus! Isso parece que virou mesmo uma praga e essa praga está dominando o mundo todo, alastrando-se por muitas de nossas províncias. Entretanto, por decreto eu te afirmo: proibida está toda manifestação pública dos teus irmãos judeus quanto à pregação em nome de Jesus. Foste a Israel para desafiar os sacerdotes que tão bem nos pagam os seus tributos, enquanto que das tuas próprias mãos nenhum tributo vem. Afirmo-te: todos vós que desafiastes as minhas leis servireis como meu divertimento, sereis jogados aos meus animais de estimação. Já sacrifiquei um próprio romano, um dos meus soldados que haveria de me servir de guarda. Grandioso é o passado do irmão dele diante do nosso exército, conseguindo para Roma muitas vitórias, mas aquele outro nos envergonhou e a mim mesmo desafiou. Não tive outra alternativa senão jogá-lo aos meus leões. Garanto-te, todavia, que jamais vi tanta coragem: em nada ele se lastimou. Atacado pelos leões, permaneceu em silêncio e em silêncio foi devorado, não manifestando nenhuma reação, nenhum grito, como se vê comumente. Porém, se isto pode servir de valentia e vanglória ao teu povo cristão, deves saber que ele era um romano. Então dize na tua igreja que isso está errado. Pedro morreu igual a Jesus, dependurado numa cruz, embora de cabeça para baixo. Este é o preço da traição a Roma ou da tentativa de desafiar Roma!

Felipe ouviu tudo em silêncio, com tudo concordando, ajoelhado à frente do grande Imperador.

Asseverou o Mestre: felizes são aqueles olhos que se guiam pelo coração para que vejam, felizes os que têm ouvidos para ouvir! Sois o Cristo, sois o próprio Jesus na ferra, c ele não vos abandonará. Quanto a este jovem que hoje se apresenta ante vós, Felipe, foi salvo por Jesus e, a exemplo de todos aqueles que foram libertos pelo Mestre, ele também foi chamado a dar a sua contribuição à Boa-Nova. Ide e pregai, meus irmãos, a todas as nações e a todos os homens, porque a Boa-Nova já está na Terra!

André se ergueu e se aproximou de Pedro, que se sentou a um canto, André se sentando ao seu lado e nele encostando a sua cabeça. Os apóstolos pediam:

— Pedro, não nos abandones! Permanece conosco! Não somos tão fortes quanto és! Temos medo da morte e tu medo algum tiveste!

Uma luz inundou o ambiente. Ali surgiu a fulgurante figura de Jesus, a dizer:

— Que a paz do Senhor esteja convosco! Que mal podeis temer, meus filhos? Eu já vos disse que sereis pescadores de homens. Cada um de vós será testado, mas eu estarei convosco por todo o sempre. Vinde a mim, vós que sofreis, vós que estais oprimidos e sobrecarregados, e eu vos aliviarei! Na casa do meu Pai há muitas moradas! Se assim não fosse eu jamais o teria dito. Em verdade vos digo: aquele que dentre vós for tombado na lida de divulgar o meu nome estará comigo no Paraíso. Não vos abandonarei! Jamais vos deixarei órfãos em um minuto sequer da vossa vida! Estarei com todos vós, meus irmãos, porque o espírito sopra onde quer. Lembrai-vos do maior mandamento que deixei entre vós: amar o Senhor Deus sobre todas as coisas e amar, tanto quanto a vós mesmos, o vosso próximo. Meus irmãos, ide e pregai em meu nome, até o momento final da vossa vida, e eu estarei convosco!

Pedro se acercou de Jesus, que colocou a mão no ombro dele, os dois se erguendo do chão, subindo ao mais alto.

Todos estavam deslumbrados e acolheram Felipe na sua irmandade.

Com isso, todos ganharam muita energia de fé e otimismo, superando todas aquelas apreensões e temores. Saíram e abençoaram, em nome de Deus e Jesus, todos os que estavam lá fora.

Felipe se despediu, dizendo:

— Vou partir para dar continuidade à minha missão.

E assim foi feito. Felipe dirigiu-se a Jerusalém e foi ter diretamente com Pôncio Pilatos. Fitou-o e viu nele a expressão de uma grande tristeza invadindo a alma. Os pertences dele já estavam preparados para que ele retornasse a Roma.

Aquela caravana toi ale o mar e la embarcaram todos. Pilatos seguia com OS seus familiares e ludo o que lhe pertencia.

Na viagem, Felipe dialogava com Pilatos, acalmava-o, consolava-o de Itda forma, afirmando que Jesus continuava vivo e perdoara a todos aqueles que haviam lançado o ódio contra ele, que Jesus era a expressão do puro amor na ferra, embora os corações dos homens não pudessem entender.

Chegando a Roma, Pilatos e os familiares se instalaram na casa em que morara Benedites.

Felipe foi até a igreja e lá saudou os serviçais.

César já morrera.

Tibério, o novo Imperador, estava bastante irado com a notícia de que Felipe afrontara os sacerdotes. Mandou chamá-lo e lhe disse, com sua voz forte e agressiva:

Felipe ouviu tudo em silêncio, com tudo concordando, ajoelhado à frente do grande Imperador. Tibério fitou-o e disse:

— Sabemos que crucificaste muitas pessoas. Com que autoridade o fazias?

Pilatos respondeu:

— Grande Imperador! Grande Senhor de Roma! Eu o fazia com o próprio poder outorgado e solicitado por Roma, porque todas aquelas pessoas já estavam previamente julgadas por Roma: eu apenas seguia o que já estava determinado.

— Pilatos, homem forte de Israel, poderias definir mais corretamente o teor dessas tuas palavras?

— Qual é a lei que recai sobre aquele que contraria as leis de Roma, sobre aquele que envergonhou o Imperador? Se hoje um soldado se afasta do seu exército e se une ao exército inimigo, com certeza Roma não terá piedade dele quando lançar as mãos sobre ele. E' assim é que, tal um soldado à frente de batalha, determinado a defender Roma e os princípios de Roma, assim como somos treinados e preparados por Roma, assim foi, Grande Imperador, que tive todo um preparo em minhas viagens, buscando terras estranhas, conquistando o povo e a terra para a soberania de Roma. De tal forma é que me preparei para servir Roma. Em cima disso compreendi que Roma é intocável e então me preparei, juntamente com os vários homens que lutaram do meu lado. Governei todo aquele estado de Israel, até o povo da Judéia. Puni aqueles que eram trazidos pelo povo judeu, aqueles que perseguiam as nossas tropas e se colocavam na condição de nossos inimigos. Levados à assembléia dos nossos ministros, eram condenados e eu apenas ordenava o sacrifício. Ora, se assim não fizéssemos, como é que conteríamos aquele povo?

— Eu já esperava a tua postura, porque te conheço há tempos. Mas, de acordo com as nossas leis e a bem do nosso povo, não mais servirás ao nosso exército. Não mais atuarás no cargo de governador, ou de general, ou mesmo de capitão. Em nada mais servirás!

— Que seja feita a vontade generosa do Grande Imperador! - disse Pilatos, para depois baixar a cabeça.

— És o culpado da crucificação de Jesus. Por tê-lo feito, eis que assim ergueste do nada um herói no meio do povo judeu. Sabemos de muitos motins, de muitos rumores desses seguidores de Jesus, e os nossos soldados estão aptos a agir.

Herodes passa a assumir toda aquela região, na condição de governador, e lhe enviarei outros servos para lhe engrossar as forças. Os seguidores desse Jesus serão perseguidos e executados, até que sejam exterminados todos os focos desnão agiste como nos outros casos? Não usaste, de forma alguma, qualquer artifício para camuflar os teus deveres para com Roma. Afirmaste aos sacerdotes que eles próprios crucificaram Jesus e que o único peso da sua crucificação cabe aos roma¬nos. Ora, retiraste de ti a culpa e a jogaste sobre o povo judeu. Pilatos respirou fundo, encheu de força o coração e disse:

— Grande Imperador, não cabe nem a mim nem ao povo romano tirar a vida de um inocente. Na condição de Imperador, o grande César nos ensinou que somente os culpados devem ser punidos. Jesus era um homem que não havia contrariado as leis de Roma, um homem que vivia de bem com o nosso exército, de tal forma que todos os nossos soldados sentiam prazer em estar ao lado dele. Isto muito irritou os sacerdotes. Ele era a figura de um homem simples, sem moradia, tal um andarilho qualquer que vive vendendo as suas ilusões, vendendo sonhos sobre a chegada de um mundo melhor, onde os homens pudessem dividir com o semelhante aquilo que têm. Assim era o mundo desse homem! Ora, culpa alguma vi nesse homem para poder crucificá-lo, e por isso não o executei: apenas segui as ordens do próprio povo judeu. Foram os próprios judeus que ordenaram a sua crucificação: apenas assinei a execução. Depois disso, eis-me aqui em Roma, de mim sendo retirado o poder de governar, de exercitar tudo aquilo que aprendi em toda a minha vida!

Tibério se ergueu e disse:

— Cala-te! Tu apenas fomentaste o surgir de um novo herói, um grande símbolo, e isso nos tem causado grande transtorno. Não és digno de erguer a voz perante mim! Devolve a Roma todos os teus pertences e, como herança, dou-te a casa de Benedites, que também era um dos vossos e enganou a todos vós que trouxestes para cá essa turba de judeus que se dizem cristãos e estão infernizando todo o povo romano!

Grandemente envergonhado, Pilatos retirou as suas armas e as depôs ali. Fitou aqueles que no passado muito o admiravam e saiu cabisbaixo. Disse Tibério:

— Isto sucederá a todo aquele, dentre vós, que se colocar contra o meu povo!

Felipe seguiu Pilatos, que lhe pediu:

— Leva-me até o teu Deus! Quero conhecer a tua igreja!

Os dois adentraram a igreja e Pilatos se ajoelhou ante o altar. Fixou Felipe e disse:

-Que mal fiz eu para ser desonrado e castigado desta forma?

- Serás lembrado, Pilatos, por toda a humanidade, na figura daquele que tentou salvar a vida de Jesus, lavando as mãos e dizendo ao povo que Jesus era inocente. Sim, por isso serás bem lembrado! Mal algum tens que temer!

— Com o comando, à frente das tropas, quantos povos levei à derrota, quantas divisas conquistei para Roma! Quanto lutei para que Roma fosse o que é hoje! E vê: hoje Tibério nem sequer volta os olhos a esse meu passado de lutas, não glorifica os ancestrais que elevaram Roma. O meu coração está cheio de vergonha, e a vergonha passará a ser a minha companheira! Agora quero ir até a minha nova casa.

Pilatos foi até o seu lar, abraçou os familiares e fez por não demonstrar nenhum laivo de sua tristeza interior. Deixou ali a esposa, desceu a escada e chamou Felipe. Os dois foram até uma torre em frente ao mar, subiram a escadaria e lá contemplaram a magnífica visão que mostrava ao longe qualquer navio que chegasse.

Aquele era um posto de observação, com sentinelas. Pilatos fitava o mar, via a sua beleza, rememorando as tantas glórias alcançadas. Disse a Felipe:

— Tens sido um bom companheiro e muito tenho aprendido contigo, coisas que eu não sabia. Felipe, és um bom homem! Nas tuas costas não pesa crime algum. E, quanto a mim, quantos crimes não cometi! Permite que me ajoelhe a teus pés - porque isto vi nos costumes do teu povo. Os seguidores de João Batista se ajoelhavam aos pés dele e ele os batizava com água, perdoando os seus pecados.

— Os pecados são perdoados sob a força do arrependimento. Arrepende--te e todos os teus pecados serão perdoados!

— Felipe, és um homem sábio, és um homem santo, és um homem feito de glória, e não eu! Sou um assassino! Digo-te a verdade: muitas vezes, faltando as cruzes para a crucificação, eu deixava as pessoas nos calabouços, uns aguardando a morte dos outros para que também fossem crucificados. Sei, Felipe, que o teu Deus e o teu Jesus não terão piedade de mim, porque um homem igual a mim nem precisa de piedade, porque não merece mesmo a salvação. Já sou um morto-vivo, sem nenhuma glória na Terra perante os homens, e tudo o que aprendi se acabou no nada! Tenho muita pena dos meus filhos e também da minha mulher, porque saberão da minha vergonha perante o exército de Roma: um grande comandante que de repente vê acabado o seu prestígio!

— Estás errado, Pilatos. Jesus está contigo!

- Jesus é puro de coração, e puro de aima. um nomem que somente pregou o bem não pode ter piedade de um assassino. Mas muito tenho que lhe agradecer, Felipe. Agradeço-te por ter viajado comigo e por ter-me ouvido nesses dias. Bem sei que quando eu precisar terei um ombro onde encostar a cabeça! Vai, Felipe! Procura descansar, pois a viagem foi muito longa. Vai!

Felipe ordenou que Pilatos se erguesse, colocou as mãos sobre o rosto dele, em gesto de carinho, e disse:

— Poucos são os homens com a tua coragem de ver e compreender a vida de forma diferente! A mim não me resta também muita coisa, Pilatos, porque tive a coragem, nem eu sei de onde tirada, de dizer aos grandes sacerdotes de Israel que Jesus é maior do que o Deus deles. Caifás urrava tal um lobo furioso! Jamais vi tanto ódio, tanta raiva num só coração! Pelo que aprendi, aquilo não pode provir de Deus, porque Deus, ao que nos ensinou Jesus, é somente amor e bondade!

— Fiquei sabendo dos teus desencontros com o povo judeu. Fica certo de que o Imperador ainda não fez algo contigo, da forma que agiu com Pedro, porque o que fez com Pedro criou uma grande revolta até mesmo entre os militares. Ora, todos sabem que aqui és o sucessor de Pedro, e se o Imperador fizer algo grave contra ti perderá muitos comandantes e muito prestígio entre o povo. Porém, não confies nesse Imperador! Ele não tem nada do antecessor, o generoso e sábio César que sabia escutar. Tibério não ouve ninguém, é a desgraça do povo romano! Permanece quieto lá na tua igreja e os teus te levarão o pão de cada dia, sem mais preocupação. Se lá permaneceres, Tibério não te perturbará de forma alguma.

Felipe abençoou Pilatos e se despediu, deixando-o naquela torre.

Pilatos caía sobre a sua própria e grande vergonha. Sem tamanho era a sua amargura, a sua tristeza.

Fitava lá de cima as corporações militares, soldados por toda parte. Sabia ter sido excomungado em relação aos soldados: não mais o ouviriam e zombariam dele.

Uma sentinela subiu a torre e Pilatos lhe disse que permaneceria ali por algum tempo.

Pediu que lhe emprestasse uma de suas armas e o soldado lhe passou a sua espada menor, dizendo:

— Todo sentinela deve permanecer armado.

— Vai para a tua família. Serve o Imperador com toda a força do teu coração!

Di sse-o Pilatos e se sentou. Naquele momento rememorou toda a sua traje-tória militar e política, as suas vitórias gloriosas à frente das grandes batalhas, a aclamação cio seu nome, a sua rorça maior por sobre os demais. Fora o homem de confiança de César, abraçando todo o poder. Relembrou a sua atuação em Israel, desviou a memória à figura de sua mulher, à imagem dos seus filhos, agora derruba¬dos pelo seu fracasso perante Tibério. Murmurou Pilatos:

— Não é necessário que o Sol deixe ver o meu olhar de covardia nem a vergonha que me inclina perante esses homens!

Com aquela lâmina cortou os dois pulsos, levou as mãos ao pescoço e deixou que o sangue se esguichasse sobre ele e sobre a cabeça, para que ficasse todo tingido de sangue.

No outro dia a sentinela chegou e encontrou o corpo de Pilatos horrivelmente se mostrando. Foi retirado dali e a notícia imediatamente chegou ao Imperador.

Tibério queria sangue. Ver os cristãos massacrados, apedrejados, humilhados era o que ele mais queria. Ordenou que entregassem o corpo de Pilatos a Felipe, que o levou à igreja e lá orou pela libertação daquela alma.

Pilatos era lançado às trevas, sob a covardia de não ter aceitado o cruel Imperador. Lá encontrou os seus inimigos, aqueles que ele crucificara e ora o surraram e dilapidaram por vasto tempo, até que alcançou a glória do arrependimento, sob a graça de uma redenção que o tirou das labaredas do sentimento de culpa, nas provas terríveis das regiões umbralinas. Penou por vários anos, torturado pelo alto potencial vingativo dos seus inimigos, até que chegou o dia do seu resgate à luz.

Felipe contemplou, constrangido, o corpo daquele que matara a si próprio.

Numa homenagem merecida a Pedro, seu mestre, Felipe colocou o nome de São Pedro naquela igreja, isto provocando uma grande devoção nos seus frequentadores, que passaram a idolatrar Pedro com intensidade. Um dos mais devotos colocou ali a imagem esculpida do fiel apóstolo.

Fortíssima ira cresceu nos cristãos contra as atitudes persecutórias do Imperador, que os fazia calar, inibindo qualquer manifestação religiosa, qualquer tentativa de expansão.

Inútil, porém, era a vontade do Imperador. A santificação de Pedro pelos fiéis aumentou e o clima devocional fez crescer o número de cristãos. Irado, Tibério ordenou uma perseguição ainda mais ferrenha.

Felipe, exaltado em sua fé, foi pregar em praça pública a libertação do calabouço com a pena de prisão perpétua.

Aprisionado, Felipe amargava a sua tristeza, a sua mágoa, a sua dor. Em suas orações passava a receber a visita das almas daqueles que haviam sido sacrificados em nome de Jesus e que ora lhe iam prestar homenagem, apoio e conforto.

Certo dia disse ele a uma das sentinelas:

— Não sei como nem por quê, mas tens que fazer vir até mim o Imperador, pois senão cairá uma praga sobre ti!

A sentinela, temerosa daquela praga, chamou um dos seus superiores, que se acercou de Felipe.

— Homem - indagou-lhe Felipe -, qual é o teu nome?

— Ora, não és um mensageiro de Deus? Não és um dos profetas de Israel? Então podes adivinhar o meu nome...

Felipe respirou fundo e disse:

— O nome da tua mulher é Isabel e ela não é originária de Roma: veio de outras províncias. Sebastião é o nome do teu filho, em homenagem ao teu tio. E quanto ao teu nome, queres mesmo que eu o pronuncie? És Paulo, nome também proveniente dos teus ancestrais, também oriundos da Judéia. Hoje cairá uma praga contra ti! Encontrarás morto, esta noite, o teu animal de estimação. As vacas de leite de teus sobrinhos, que estão longe daqui, morrerão, uma por dia, até o décimo dia. Tudo isso sucederá se não encontrares uma forma de eu me avistar com o Imperador!

Aquele militar soltou uma zombeteira risada. Porém, chegando a noite, viu que o seu cão estava morto. No outro dia foi ter de novo com Felipe e lhe disse:

— O nosso cão realmente morreu, assim como disseste.

— Agora começará a tombar uma vaca por dia, até o décimo dia, a partir do que morrerão duas vacas por dia, até o quinto dia, e assim será exterminado todo o gado, sem restar uma única cabeça. E, depois ainda, a praga começará a te atingir mais diretamente: morrerá o teu primeiro filho, depois o segundo, depois o terceiro, e assim por diante. A maldição pesará então sobre ti! Mas, para tudo evitar, bem sabes o que fazer!

Paulo era um homem de confiança do Imperador. Era temido por sua violência, executando qualquer ordem superior, sem pestanejar, porque assim mesmo é que se manteria no poder do comando.

Foram morrendo as vacas. Na quinta, Paulo entrou em desespero. Queria encontrar uma situação para contatar o grande imperador, mas esnarrava em quase intransponíveis dificuldades.

Ora, aconteceu que o Imperador transmitiu a Paulo a ordem de castigar certos cristãos de uma província próxima, rebeldes contra os impostos e a crueldade dos romanos jogando muitos cristãos aos leões para diversão do Imperador. Paulo executou muito bem a sua missão e recebeu elogios e agradecimentos do Imperador. Para Paulo era um bom momento. Disse então ao Imperador:

— Trago comigo um grande problema, mas temo que o meu problema possa ser também o problema do Grande Imperador!

— És um bom servo de Roma. Há muito vens cumprindo as nossas ordens, trabalhando da melhor forma possível. O que desejas de mim?

— Há uma tormenta caindo sobre a minha alma! Lembras-te do cristão Felipe?

— Ora, ele não pode provocar mal algum, porque se encontra no calabouço.

— Mas está aí a questão!

— O que ele te fez de mal?

— Ora, ele pediu que eu levasse o Imperador até ele, sob pena de cair sobre mim uma praga!

— Mas esse prisioneiro não exerce poder algum sobre ninguém! E qual é essa praga?

— Disse que naquela mesma noite morreria o meu cão, e isto de fato ocorreu. Disse que, em seguida, uma vaca dos meus parentes morreria por dia, até o décimo dia. Ora, sete vacas já morreram! E disse mais: que se o Imperador, mesmo assim, não se lhe apresentasse, duas vacas passariam a morrer a cada dia, até o quinto dia.

— Então aguardaremos para ver se tal poder está realmente sobre ele. Esperemos até que morram as dez vacas e que, após o décimo dia, morram as primeiras duas.

As vacas continuaram morrendo e, passado o décimo dia, mais duas morreram. A família de Paulo estava desesperada.

Tibério ordenou então que lhe levassem Felipe, notícia que os soldados espalharam para muitos.

Acorrentado, Felipe ouviu do Imperador:

— Agora te vales de forças tentando atemorizar-me com a matança de animais? Sobre mim nao exerces poder algum! E por que reclamas a minha presença?

— Tenho para ti um aviso dos nossos ancestrais.

— E qual é o aviso que o teu Jesus, que o teu Deus me dá?

— Liberta o teu povo para que ele seja livre na escolha da religião que quiser, para que possa servir a Deus e a Jesus, para que Roma siga o seu destino de manter a maior igreja de Jesus sobre a Terra, porque Roma está predestinada a ter a igreja de todas as igrejas, de ser o foco de Deus para o mundo, pois isto lhe está reservado!

Tibério, rindo, indagou:

— Se eu me negar a fazer isso, o que o teu Deus fará contra mim?

— Aos poucos te entregarás a uma maior lucidez para que te redimas dos teus pecados ou, caso contrário, acabes no nada, tanto quanto Pilatos, e assim teus sucessores no trono erguerão a grandeza do amor de Jesus e uma cruz será exaltada na nossa igreja, uma cruz que iluminará todo o povo, mas não simbolizando a morte, e sim a libertação da carne, tal como foi pregado por Jesus!

— Preparai Felipe para ser executado!

Levaram-no e atiraram-nos aos leões. Contudo, inexplicavelmente, os leões nem se mexeram, em nada se animando ou incomodando com a presença de Felipe, que se sentou perto deles e lhes acariciou a cabeça, como se agradasse um animal dócil.

Diante de tal incomum ocorrência, ordenaram a imediata retirada de Felipe. Levaram-no até um tronco e o amarraram, na presença de muitos soldados, que o executaram com flechas. Seu corpo foi queimado ali mesmo, no mesmo tronco.

JOÃO BERBEL