LXIV - A MORTE DE ESTEVÃO

LXIV - A MORTE DE ESTEVÃO

Os cristãos amargavam duríssimas penas com as perseguições contra eles movidas por judeus e romanos.

Em Roma se formavam muitos doutores da lei determinados a exterminar os cristãos. Eram chamados a intervir quando se manifestava algum foco da nova crença.

Estêvão e Ananias fugiam para locais em que o domínio romano era mais frágil.

Estêvão, com os ensinos hauridos de Levi e do próprio Jesus, constituiu o seu próprio Evangelho, que foi consumido pelo tempo.

Na Cirinéia, Estêvão encontrou Simeão, que o convidou para ir à sua casa.

Simeão Cirineu, no momento da ceia, relembrou aquele seu ato de ter carregado o madeiro de Jesus até o Calvário.

— Então quantas glórias devem ser rendidas a ti! - observou Estêvão.

— Estive várias vezes em Jerusalém e lá fui saudado por muitos irmãos cristãos por ter podido dividir com Jesus o peso da cruz. Isto muito me gratifica!

Naqueles momentos, Estêvão se viu semimediunizado diante de Cirineu. Era o espírito Levi que ali se manifestava, dizendo:

— Cirineu, na glória do Pai a grandeza maior está toda ligada às leis de amor. Nos Céus se cantam louvores por aquilo que realmente foi feito por amor. Carregaste o tronco de Jesus porque a tanto foste obrigado. Ora, na realidade sentias nojo dos escarros endereçados a Jesus. Tua roupa estava impecável e para receberes o Cordeiro de Deus na tua alma hás de ter limpo o coração, pois senão aquilo que pesou sobre os ombros de Jesus pesará também sobre os teus. Viste, partilhaste a dor de Jesus e isto muito te acrescentará em glória, porque ele não te abandonará, mas não afirmes o que não consegues ser.


- Deixa que Jesus peneire dentro do teu coração e anuncia Jesus sem medo de que sejas apedrejado, agredido por nossos irmãos. Tudo o que fizeres, faze-o em memória do Mestre e muitos louvores te serão acrescentados, e farto será o teu galardão!

Cirineu bem entendeu que um espírito falara por Estêvão. Ananias, ali presente, bem viu que os olhos dele manifestavam outra coloração e diferente brilho.

E aquela voz disse:

— Ananias, sou aquele que esteve contigo, aquele que Jesus ordenara que te seguisse.

Ananias baixou a cabeça e agradeceu a bondade dos Céus, dizendo:

— O senhor Deus é o Senhor de todos os Senhores! Ele é Único entre lodos e com o Seu amor fomos hoje agraciados, porque do Céu mandou um anjo para que ele te dissesse essas coisas, Cirineu. Não leves isso por mágoa ao teu coração, e sim toma-o pelo amor de Jesus, porque ele também está sobre ti!

Cirineu disse:

— Sou um péssimo servo de Jesus, porque talvez não o pudesse ter compreendido. O que devo fazer para ser digno do amor do Senhor Jesus?

Ananias disse:

— O que nos pediu Jesus? Que nos amássemos uns aos outros da forma com que ele nos amou. Faze isto em memória do Mestre e grande será no Céu o teu galardão, porque assim mesmo ele nos ensinou e aqui estamos por amor a ele e por amor a ti.

— Está muito perigoso circular por aí. Nossos persecutores estão por toda parte. Muitos não podem nem ouvir falar de Jesus. Há algum tempo eu ia a Jerusalém, percorria a Palestina e muitos se alegravam quando me encontravam, porque pude carregar nos ombros o madeiro de Jesus. Sentia-me muito lisonjeado por isso. Ora, hoje vejo a grande perseguição que movem contra os cristãos. Ouço dizer que são muitos os que têm sido apedrejados ou presos por nossos irmãos romanos e judeus. Isso nos traz muitas dificuldades. Já me sinto meio amedrontado! Não pretendo mais me mostrar. Como pode esse povo deixar de entender a mensagem de Jesus?! Garanto-vos, irmãos, que minhas andanças me causavam muita alegria.

Segui os caminhos trilhados por João Batista, por Jesus. Eles trouxeram novas esperanças ao povo. Mas como podemos semear Indo isso se somos, por toda forma, acossados, de um lado e de outro?! Temos de falar às escondidas e, com a minha mente tão conturbada, já nem mesmo sei mais o que falar!

— Procede da forma que disse Jesus - sugeriu Ananias.

— O que foi que ele disse?

— Que não nos preocupássemos com o que dizer, porquanto as palavras seriam colocadas em nossa boca. Mas deves saber que daqui iremos até a Pérsia.

— À Pérsia?! Aquele povo é bem mais cruel do que podeis imaginar! E' um povo antigo, de terras longínquas, o que lá se encontra, e seus caprichos são diferenciados.

— Tivemos uma amiga que encontramos na casa da mãe de Jesus. Por justiça lhe caberia o título de Rainha da Pérsia, mas ela o descartou. Então vamos até lá, sabendo dos irmãos que já pregam lá e sabendo que poderemos pregar livremente.

E assim Ananias e Estêvão tomaram o rumo da Pérsia, onde foram muito bem recebidos pelos governantes. Ali o Evangelho de Jesus foi aceito com muita facilidade, uma vez que suas sementes já haviam sido plantadas naquele território.

Os dois permaneceram na Pérsia por um considerável tempo, lá onde encontraram Mateus, Tiago e André, e todos pregaram Jesus com desenvoltura e receptividade.

Daquele grupo, Ananias e Estêvão eram os mais novos. Retornaram à Galiléia, indo ter diretamente à casa de mãe de Jesus.

Lá se radicara Joana, uma vez que seus filhos já estavam casados. Estava muito doente e era solicitamente cuidada por Maria.

Ananias e Estêvão comentaram sobre a grande difusão obtida pelo Evangelho de Jesus, principalmente nas terras mais longínquas.

Muito tempo decorrera. Já era longa a ausência de Estêvão. Tomou notícia de que sua irmã Abigail já se casara com Saulo. Este vinha de uma nobre família, de gente poderosa da alta cúpula do judaísmo; diplomado em Roma, era um grande orador e se dedicava de corpo e alma à religião herdada dos pais.

Em Roma foi concedido a Saulo um cargo de confiança, com ampla liberdade de ação em Israel. Tomou sua posição de severidade quando se deslocou para Israel, onde Caifás já não mais comandava a classe sacerdotal.

Em conjunção com os sacerdotes, Saulo passou a perseguir e castigar cruelmente os cristãos, a exemplo de outros homens de lei inclinados a restabelecer a ordem, desejando manterá integridade política e religiosa do povo judeu.

Apoiado pelos guardas romanos, Saulo criou um grupo de judeus ortodoxos dedicados à persecução dos cristãos. Oravam cedo, à tarde e à noite, buscando uma sintonia com o Altíssimo, mas agiam fanaticamente.

Saulo despontou entre os demais, por ser o mais rígido, aquele que jamais perdoava. Os informantes acusavam os cristãos, e Saulo, tomado de uma carta de condenação, promovia a execução à morte.

Flavia na Palestina um cristão destemido que ainda se encorajava a pregar publicamente. Falava em praça aberta.

Sua mãe fora curada por Jesus de uma hemorragia e também seus irmãos haviam sido curados.

Gratificado, não se casara e passara a ser um assumido cristão, pregando a doutrina de Jesus por toda parte.

Esse pregador, chamado Paulo, foi na Palestina o primeiro cristão executado.

Naqueles momentos em que Paulo pregava a libertação do homem pela força do amor, lá chegou Saulo e lhe perguntou:

— Qual é o teu nome?

— Paulo é o meu nome. Por que me perguntas?

— Eu sou aqui a autoridade máxima. Violaste as leis pregando uma crença errônea que não cabe ao nosso povo. Vens envenenando a nossa gente com falsas promessas de um falso Deus. O nosso Deus é somente um: é o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. Qualquer outro que pregar algo diferente será considerado falso profeta e deverá pagar com a vida. Agora testemunho esta verdade e assino a tua execução!

Saulo ordenou que aqueles seus comandados judeus apedrejassem Paulo, que tentou defender-se daquelas tantas pedradas e aos poucos se via vencido, dizendo:

— Senhor Jesus! Não me abandones, Senhor! Não me abandones! Passados alguns instantes, disse:

— Agradeço-te, Senhor, por acolheres a minha alma, porque a minha alma está em ti!

Uma pedrada violenta atingiu a sua cabeça. Seus olhos, arregalados, pareciam querer espirrar de seu rosto. E ele disse:

— Nas tuas mãos, Jesus, entrego o meu espírito!

Tais palavras foram marcantes, tanto quanto aquela cena triste. Tudo se gravava fortemente cm Saulo, mesmo o nome Paulo.

Os presentes saudaram o nome daquele mártir. Os familiares recolheram o seu coipo para sepultamento.

Aquela execução teve muita repercussão, alcançando os sacerdotes e os judeus com vivas de contentamento. Uma festa foi realizada para comemorar o fato.

Saulo ficou muito impressionado com aquilo, mas deu continuidade ao seu trabalho de persecução, com seguidos apedrejamentos.

Toda vez que Saulo encontrava a esposa Abigail, esta manifestava o seu descontentamento e o alertava, ressaltando o erro que ele estava cometendo. Ela afirmava ter visto Jesus e garantia que ele não era nada daquilo que os judeus propalavam.

E Saulo dizia:

— Devemos apagar a memória desse Jesus! Tal é o meu trabalho! E Abigail o contraditava:

— Meu senhor, serei tua eterna serva, pois assim foi constituído por Deus o nosso matrimônio e devo seguir-te da melhor forma possível. Nunca hei de te decepcionar! Porém, quanto mais perseguires esse povo, mais força esse povo ganhará!

— Então viste aquele galileu?!

— Sim, vi!

— E como era ele?

— Era difèrente de todos os homens. Tinha o rosto sereno. Suas palavras eram penetrantes. Quando ele nos fitava, parecia que o seu olhar entrava dentro da gente. Tinha os cabelos longos, lisos, dourados. Seus olhos eram claros e muito belos. Eu o vi de muito longe, muito pequeno, mas pude ouvir o que diziam dele, que realmente ele era o Emissário de Deus, pelo amor e ternura que manifestava para com os pobres. Ele não discriminava nem julgava ninguém, algo diferente do que aprendemos nas Escrituras.

— É por isso mesmo que ele deve ser apagado! Devemos acabar com esses cristãos! Não exterminaremos a todos, e sim cortaremos a cabeça dos líderes que pregam em contrário à nossa lei, endeusando esse falso profeta galileu. Ora, dizem que ele é o Messias! Que blasfêmia contra o nosso Deus! 0 Altíssimo nos enviaria, isto sim, um da nossa linhagem, um grande senhor sobre a Terra, um Messias que fosse mais do que Moisés, mais do que Abraão, e ele ergueria as mãos, fazendo castigar todos os que fossem contra Roma. Este seria o Messias, e não esse tão pobre galileu. Todos estão enganados por esse que se encheu de ilusão e acabou sendo crucificado. Não vi, mas muitos viram o sangue derramar-se dele pela cruz, pelo chão. Ora, se fosse o Messias verdadeiro, quem é que lograria colocar a mão sobre ele? Quem colocou a mão em Moisés? Quem colocou a mão em Elias? Não, ninguém o fez! E por que então o Messias seria subitamente pregado numa cruz, igual a outro qualquer?

Abigail, que permanecia em respeitoso silêncio, disse então: — És senhor das tuas funções. Aplica-as da melhor forma. Porém, cuidado, muito cuidado, pois não sabemos o que nos reserva o dia de amanhã! As vezes o teu castigo pode ser bem pior do que outro qualquer!

Saulo continuou perseguindo os cristãos, tendo plena autoridade para determinar a execução de qualquer um, em nome dos sacerdotes e do povo romano.

Dispersavam-se todos os pregadores cristãos. Muitos foram apedrejados, e quando estes se somaram cinco, já uma facilidade costumeira caracterizava a ação de Saulo.

Já não se executavam apenas os ostensivos pregadores, mas também qualquer outro que se dizia de sua família.

Aqueles que, pressionados, abjuravam a crença cristã eram perdoados, mas já não poderiam frequentar o templo.

Saulo pregava contra Jesus em praça pública e se tornou um homem muito respeitado em toda parte, pela sua fervente oratória.

À sua mão levava a listagem dos assumidos pregadores cristãos.

O fenômeno da aparição de Jesus aos quinhentos seguidores fez deles devotadíssimos e destemerosos cristãos que passaram a pregar o Messias por todos os territórios, levando a Boa-Nova do arrependimento e da libertação pelo amor.

Em sua mente jamais se apagaria tudo aquilo, mesmo com o maior empenho dos sacerdotes. Com a condenação e morte dos pais, os filhos sentiam aquele fervor de levar avante a missão cristã assumida pelos ancestrais.

Saulo de Tarso determinou a morte de mais trinta pessoas, por apedrejamento.

Naqueles dias, Ananias estava desejoso de chegar à casa paterna, mas bem sabia do grande perigo que correria. Afastou-se, pois, da Galiléia e tomou o rumo de Damasco, deixando para trás o companheiro Estêvão.

Ora, Saulo recebeu a notícia de que estava por ali, próximo à Palestina, um cristão que havia pregado por toda parte e então passou a persegui-lo, sem saber que se tratava do seu próprio cunhado Estêvão.

Encontrou-o a pregar a grandiosidade da luz de Jesus, a libertação dos homens através do amor.

Lá chegou uma delegação romana e Estêvão se viu cercado por todos os lados, sem escapatória.

Ajoelhou-se então e se entregou a Jesus. Dele se acercou Jesus e colocou a mão sobre a sua cabeça, enquanto era determinado o seu apedrejamento.

Estêvão, sem manifestar reação alguma, foi atingido na cabeça por uma pedrada.

Do meio das mulheres presentes se adiantou Abigail, foi ter com o seu irmão Estêvão e o abraçou fortemente. Tentando comunicar-se com a irmã, Estêvão abriu os olhos e disse:

— Está tudo certo, irmã! Jesus está comigo!

Jesus o retirou do corpo. Contemplando a cena triste do olhar lacrimejante de Estêvão, começou também a chorar. E Estêvão, sentindo aquela dor da morte violenta, disse:

— Senhor, ensinaste-nos a perdoar a todos, até os que nos perseguem, até os nossos inimigos, e eu já lhes perdoei!

Jesus disse:

— Minhas lágrimas são também por ele, porque ele ainda não me conhece!

— Sim, Senhor! Ele ainda não te conhece!

O corpo de Estêvão desfaleceu nos braços da irmã. Saulo ordenou que a retirassem dali, dizendo a um dos militares:

— Ela é uma dessas que choram por qualquer um...

Estêvão foi levado à casa dos pais e somente então Saulo se deu conta de que Estêvão era irmão de Abigail.

Isto lhe foi um forte castigo, mas era um homem determinado ao seu trabalho e que não media sacrifícios na obediência às Escrituras.

Grande tristeza tomou conta de Abigail. Trancou-se em seu quarto. Saulo respeitou a sua dor e a deixou em seu silêncio.

Abigail caiu de joelhos e começou a orar, invocar Jesus. Ao seu lado se lhe apresentou um jovem, que lhe disse:

—Aqui estou em nome de Jesus. Ele me enviou até ti para te confortar. Meu nome é Levi. Certa feita passei a teu irmão tudo o que sabia de Jesus.

Levi afastou o cabelo, mostrou no rosto o sinal da pedrada que o atingira e disse:

—Também eu morri em nome de Jesus! Não pude ver o final do trabalho dele na Terra, mas vi dos Céus. Não chores pelo teu irmão, porque também ele está nos Céus ao lado de Jesus. Não te preocupes ! Jesus ordenou que perdoes Saulo, porque o momento dele ainda não chegou. Sei que ele fez derramar muitas lágrimas. Muita dor ele provocou na Terra e haverá de passar pelas mesmas dores. Isto ocorrerá nesta vida, e nas outras vidas as coisas serão ainda piores! Chora por aqueles que não conheceram Jesus, que ainda não colocaram Jesus no coração. Chora também pelo teu marido. Sê uma boa esposa. Estêvão cumpriu a sua missão na Terra e jamais será esquecido. Nos ensinos do Mestre estará incluído o nome do teu irmão.

Ele não pecou contra Deus, porque fora preparado pelo Senhor para cumprir a sua missão. Não deixes que o teu coração se entristeça diante desses atos! Vem! Ergue-te e me abraça!

Levi a abraçou e enxugou as suas lágrimas, dizendo:

— Vai ter com o teu marido e dize-lhe que o teu coração está todo aberto para ele, que o que aconteceu foi apenas uma fatalidade, que teu irmão haveria mesmo de passar por tal situação, para que os olhos de Deus o vissem e recebessem no Seu eterno amor!

Sabendo-se amparada por aquele bondoso espírito, Abigail sorriu e ouviu ainda de Levi:

— Jesus te ama! És uma das suas escolhidas. Mostra a todos a força do perdão!

Levi atravessou as paredes e se foi. Abigail, sorridente, foi até o seu marido, que a estranhou e indagou:

— Não estás com raiva de mim?

— Não!

— Por quê?

— Ora, se eu contar, aí sim causarei raiva em ti, e isto foge do meu desejo. O conforto de que eu necessitava o Senhor me deu!

Abraçaram-se e ele lhe pediu perdão, ao que disse ela:

— Tens o coração bondoso!

Estêvão foi sepultado. Seus pais estavam muito aborrecidos, mas Abigail tratou de confortá-los, equilibrando tudo da melhor forma.

Abigail pediu permissão ao marido para ir à Galiléia. Lá chegando, foi diretamente à casa de Maria.

Ao contar sobre Estêvão, Abigail ouviu da mãe de Jesus:

— Eu já sabia!

— Mas quem te avisou?!

— Levi, um mensageiro de Jesus. Ele sempre me traz informações.

— Maria, nada sabes! Ora, eu estava triste, revoltada contra o meu marido, ai Levi foi ter comigo e me disse coisas belíssimas! Ele me abraçou e chorei, muito comovida e confortada.

— Nada há para duvidar, porque Jesus está conosco. Mas como foi?

— As portas estavam fechadas e o meu coração estava revoltado. Eu orava, não sei se de revolta ou de angústia. A dor era forte, porque eu muito vivera ao lado do meu irmão e ele era uma boa pessoa. Eu estava muito triste pelo que acontecera com ele. Chegou então aquele jovem e muito me confortou, afirmando que Estêvão estava muito bem, no Céu, ao lado de Jesus. Disse que Jesus preparara um novo mundo para todos aqueles que haviam estado do lado dele.

Naquele momento em que as duas dialogavam, ao lado de Joana, a porta se abriu sozinha e lá lhes apareceu Jesus, dizendo:

— A paz esteja convosco! Joana disse:

— Senhor, muito pedi a Deus que não me deixasse morrer antes de contemplar teus lindos olhos! Sei, Senhor, que não sou digna de atar as tuas sandálias, que não sou digna de estar junto a ti, mas te amo com todo o meu corpo e toda a minha alma! Sei que não hás de abandonar nenhum daqueles a quem proferiste as sublimes palavras do teu bendito amor!

— Bondoso é o Pai que está nos Céus! Sou apenas um igual a vós. Recebi a Terra e nela desci para que o amor florescesse em vosso coração. Não deixeis que se perturbe o vosso coração, pois estarei convosco para todo o sempre! Tenho comigo todos aqueles que o Pai me concedeu. Eu vos afirmo que o Reino dos Céus foi constituído através do amor, do amor de todos, do amor daqueles que deram o seu sangue a uma nobre causa. Pela justiça do próprio amor, foi ele reunido em infinidades de gotinhas. O Reino dos Céus foi edificado com o sacrifício de todos aqueles que se amam uns aos outros, da forma que vos ensinei. Assim o Pai fez e assim é o mundo. Na Casa do meu Pai há muitas moradas! Em verdade vos digo: todos aqueles que cumprirem a grandeza do amor e derem a própria vida em nome dessa nova vida e desse novo amor serão liberados do fogo eterno do Inferno e vivenciarão uma nova vida. Estes compreenderão então por que a mim foi dado todo o poder. O Pai se reconciliou com a Terra e muitas vidas advirão, e muitos também serão executados em meu nome, até que o novo mundo advenha. Nesses dias o Sol terá novo brilho, a Terra terá novos homens. Mas todos aqueles que não cumprirem com a lei de amor e não ouvirem o meu chamado enfrentarão grandes tempestades.

A terra se aluirá e engolirá a tantos que de mim não aceitaram o novo mundo nem aceitarão o que há de vir pela frente, porque as suas leis estão cravadas pelo fogo do próprio fogo, sob o castigo da espada pela própria espada. Mas aqueles que ouviram o meu chamamento vencerão todas as tempestades, toda a fúria da própria natureza que a muitos tragará. Muitos em mim se escandalizarão e derramarão sangue em meu nome, em nome de uma nova justiça que não se ajusta sobre eles de forma alguma, pois representa apenas a justiça de si mesmos, pela força dos grandes impérios e dos galardões e galardões que terão adquirido. Estes tombarão com a Terra, porque, mesmo gritando o meu nome, serão falsos profetas, e falsos serão também no juízo que os condenará na grandeza dos próprios galardões de ouro. Esta será a herança que terão das mãos de um falso Deus e de um falso Cristo. Mas eu estarei por sobre todos eles. Minha paz triunfará sobre os humildes, os pacíficos, os mansos de espírito, os misericordiosos, e todos os que forem perseguidos em meu nome receberão as suas glórias celestiais. Ah! Eu vou, mas não vos deixarei órfãos. Rogarei ao Pai e um outro Consolador virá nesses dias de tormento e dores, para que na virada desse tempo, na chegada dessa nova Terra, esse Santo Espírito possa permanecer convosco para todo o sempre, assim como eu também permaneço em vós. Estes terão a pureza de receber a verdade para uma nova ferra, para um só rebanho e para um só Senhor. Estes dirão: O Cristo é o Senhor e o Senhor é o Pastor de todas as ovelhas! E então o meu nome triunfará por sobre todos os povos, por sobre todas as criaturas da Terra. Nesses dias não haverá mais enfermidades, não haverá mais demônios aterrorizando os irmãos da Terra. Serão os dias da liberdade, cuja verdade será testemunha de todos os tempos. O homem haverá de morrer e renascer quanto lhe for necessário. A minha paz deixo convosco, para que a paz de Deus faça morada em vós!

Jesus segurou nas mãos de Joana e retirou do seu corpo a sua alma, levando-a às moradas espirituais.

Maria derramou as suas lágrimas no velório daquela sua querida irmã, rendendo louvores aos Céus, rogando que a sua própria partida fosse igual àquela de Joana.

Abigail desejou conhecer Ingrid e Maria de Magdala. Foi até o leprosario onde elas atuavam com o seu grande amor.

Comovida, lá Abigail se ajoelhou aos pés daquela que fora princesa na Pérsia. Ingrid a reergueu, indagando:

— Por que te ajoelhas aos meus pés?

— Porque és uma verdadeira cristã! Renunciaste á vida farta para viveras agruras dos miseráveis e leprosos!

— Eles não são leprosos nem miseráveis! São filhos de Deus e Jesus nos concedeu a grandeza de cuidarmos deles!

Ingrid fitou Abigail com profundidade, ao lado de Maria, e disse:

— Vai para o teu marido! Ele precisa de ti!

Abigail regressou ao seu lar, após a ausência de vários dias. Saulo entendera que ela viajara para tentar amenizar a dor da partida do irmão. Ao vê-la, nada de diferente viu nos olhos dela. Abigail lhe disse:

— Depositarei em ti todo o amor do meu coração!

JOÃO BERBEL