LXV - A MORTE DE MARIA

LXV - A MORTE DE MARIA

As contínuas e ferrenhas perseguições faziam com que o cristianismo se tornasse quase que uma seita secreta.

Todavia, no reduto das famílias continuava brilhando fortemente a luz do Cristo.

A doutrina de Jesus não deixava de ser pregada às escondidas, todos sabendo que por toda parte estavam os persecutores, alavancados por um grande fanatismo.

Saulo brilhava sob a própria coroa da sua imperfeição. Pregava animosamente contra os cristãos, mostrando que falsos eram os profetas que então se levantavam.

Todos o admiravam na eloquência do seu verbo e aqueles que se lhe mostravam contrários eram encurralados e mortos.

Em Cafamaum vivia um homem que albergava no coração o amor e a simplicidade. Tornara-se um autêntico cristão, desde quando vira o seu irmão paralítico ser curado por Jesus.

Tal homem era Elcênio, casado com Heloísa, jovem das cercanias do mar da Galiléia. Nasceram-lhes os filhos Oséias, Zete, Olívia, Maria e Pedro.

Elcênio era muito conhecido por ali e tinha permanente contato com os apóstolos de Jesus.

Certo dia, eis Elcênio visitando a mãe de Jesus, já bastante envelhecida e se aproximando da partida a Deus.

Permaneceu ali por alguns dias, relembrando os tempos da sua infância por lá, quando estivera com Jesus e presenciara a maravilhosa cura do irmão.

Maria comentava com Elcênio que já se sentia muito doente e aguardava o momento de partir.

Lá estavam várias crianças e também João, já de barbas alvas, bem idoso.

Elcênio comentou com Maria que Saulo perseguia impiedosamente os cristãos e ansiava por encontrar e matar qualquer dos apóstolos de Jesus. João, ouvindo-o, disse:

—Amigo, em mim eles não colocarão a sua mão!

— Lembra-te de Estêvão? Ele foi achado e apedrejado.

— Sim, fomos informados pela boca da própria irmã dele.

— Da irmã de Estêvão?!

— Sim, da própria Abigail. E se tanto te espantas, ela é a própria esposa de Saulo!

Elcênio tremulou naquele momento e observou:

— Ora, se ela é irmã de Estêvão, é também uma cristã!

— Sim, é cristã.

— Então corre sério risco ao lado do marido! Maria se adiantou:

— Lembra-te do que nos ensinou Jesus: perdoar aos nossos inimigos, perdoar aos que nos perseguem e ferem. Seguimos juntos a Jesus. Todos esses momentos de apreensão e terror por cima dos nossos irmãos passarão. Jesus garantiu que não nos abandonaria, que aquele que permanecesse nos seus ensinos e perdesse a vida por ele teria fartos galardões nos Céus. Tenhamos fé, meus filhos! Acreditemos no Senhor! Ele está e estará conosco em todos os dias. Recordemos o que ele disse: que chegariam os tempos em que todos o admirariam. Acreditemos no Senhor!

Tombada pelo tempo, Maria se trancou por dias em seu quarto. Em certo momento chamou João e lhe disse:

— João, meu filho me disse que o tempo de permaneceres comigo já chega ao fim, que deves deixar estas terras e passar para os povos aquilo que viste e ouviste, aquilo que Jesus fez, para que isto se conserve na memória de todos. Meu filho me disse também que não serás morto nem por Saulo nem pelos romanos nem pelos sacerdotes, porque nas tuas mãos estará também o trabalho confiado a outros irmãos.

João a interrompeu, dizendo:

—Mas Pedro foi crucificado, e quanto aos demais, nem sabemos por onde andam!

— Não te perturbes, João! Eles pregam em terras estranhas. Muitos já se foram. Agora é chegado o teu momento. Sim, meu filho, porque a tua mãe já vai partir!

A casa de Maria começou a ficar repleta de gente. Saulo, estando por ali, avistou de longe aquela casa. Seus comandados viram aquela movimentação e um deles lhe disse:

—A casa está repleta de cristãos. Vamos até lá e prendamos a todos!

— Sim!

Mas Saulo viu, de longe, algo estranho. Um relâmpago cortou os céus de Um a outro lado, empanando as suas vistas, sem que ele entendesse aquilo.

De repente uma luz se desdobrou do alto e desceu até aquela casa, envolvendo Maria e causando admiração.

Maria partia e disse:

—Assim como me prometeu, meu filho veio buscar-me!

Jesus tomou Maria pelas mãos e beijou o seu rosto. Imediatamente ela readquiriu aquele seu belíssimo semblante da juventude, de quando dera à luz Jesus.

Os dois ascenderam às altas esferas e Maria disse:

— Filho, Saulo está lá por perto! Nossos irmãos correm sério risco! Jesus sorriu e disse:

— Não te perturbes com isso, mãe querida! Eles estão sob o crivo da justiça do Pai. Neles ninguém tocará, porque isso não é permitido.

João chorou inconsolavelmente pela partida de Maria, daquela que se colocara na condição de sua extremosa mãe.

Logo Saulo foi informado da morte de Maria. Seus homens queriam invadir o local, mas ele disse:

— Vi a tristeza que tomou outros sepultamentos. Deixai que eles façam o que têm de fazer. E' uma coisa sagrada até mesmo entre o nosso povo. Depois os perseguiremos.

Um daqueles homens observou:

— Perderemos uma grande oportunidade de prender esses tantos cristãos!

— Eles estão sob as nossas mãos - disse Saulo. — Não têm para onde ir. Todos choravam nos preparativos do sepultamento.

João sentiu vontade de orar e para isso saiu do meio daquele tumulto ao redor de Maria. Levi apareceu à sua frente e disse:

— Junta-te a todos os irmãos e retirai-vos todos daqui, sem que homem algum permaneça por aqui! Afasta-te daqui com eles! Irmão, entre o Céu e a Terra muitos tombarão e perderão a vida em nome de Jesus!

— Estás ao lado do Mestre?

— sim, estou.

— Mas morreste!

— Não te lembras do que disse o Mestre? Morre o corpo e não morre a alma. Estou aqui para te pedir: afasta-te daqui com os demais, deixa as terras da Galiléia. Mas não te perturbes, pois eles não te sacrificarão como fizeram aos demais. Estás próximo de Jesus e ele também está em ti!

— Tenho medo!

—Não tenhas medo! Jesus está contigo! Ele bem disse que estaria contigo.

— Tenho medo da morte! Não sei se estou preparado para morrer!

—A morte não existe: é apenas o começo de uma nova vida. Acredita: não estou morto, estou perto de ti. Aquele que crê em Jesus não morre!

— Todos os nossos irmãos pregavam em nome de Jesus. Quando nos encontrávamos, diziam do trabalho que efetivavam. Mas Jesus me ordenou que eu permanecesse ao lado da sua mãe. Não tive tempo para pregar em nome de Jesus.

— O que eles fizeram permanecerá entre eles e o que farás será ainda muito maior. O tempo não romperá contigo nem te destruirá, porque todo o teu tempo será dedicado a coisas que ainda não conheces. Exemplificarás aos povos as coisas belas que Jesus deixou, porque isto está escrito sobre ti. O tempo não apagará a tua voz da forma que de tantos apagou, e o teu trabalho não será em vão. Neste momento encontrarás em ti a força da justiça e do amor de Deus. Mas agora deves fugir desta região. Há lugares reservados a ti. Nada temas, porque Jesus estará contigo! Sou apenas um mensageiro que veio passar-te este recado. Reúne todos antes do amanhecer e com eles deixa este local na escuridão. Mas lembra-te: não deves carregar arma alguma na cintura, nada que possa ferir os teus irmãos. Leva apenas o necessário.

João carregava sempre a sua espada à cintura. Retirou-a e a colocou perto do corpo de Maria, o mesmo fazendo todos os demais. João orou:

— Maria, mãe do nosso Jesus e do nosso Salvador, não nos deixes sob o fogo do mal! Guia a nossa alma para a luz da redenção do teu bendito filho! Mãe, santíssima és, porque de ti veio ao mundo o Salvador! Creio em ti, Maria, e creio também no teu filho, o nosso Salvador! Creio em ti, Maria, pela luz que brilha no teu olhar! Creio em ti, Maria, pelas belas palavras que saem dos teus lábios! Creio em ti, Maria, pela bondade do teu coração! Creio em ti, Maria, pela mansuetude da tua alma! Tu que és santa perante os mortais, guia-nos sob a luz do teu bendito amor! Salva as nossas almas pecadoras das entranhas do fogo que queima nas nossas imperfeiçoes! Guia-nos, Maria, até o o teu filho amado, nosso Guia e Senhor de todos os senhores, o nosso Pai, o nosso Senhor Jesus! lodos disseram amém diante de João.

Na noite bem escura, as mulheres choravam por Maria, enquanto que, em silêncio, todos os homens saíram dali, sem que fossem percebidos pelos vigias de Saulo, e tomaram o rumo de Cafarnaum.

Ao amanhecer, Saulo ordenou que fossem até a casa de Maria e verificassem os acontecimentos. Lá chegando, viram que lá restavam apenas mulheres, crianças e alguns anciãos lendo as Escrituras.

Saulo ficou decepcionado e enraivecido, marcando dentro de si mesmo a promessa de um dia encontrar algum apóstolo de Jesus. Ora, ele sabia que João estivera por todo tempo ali, ao lado de Maria, e soube então que, com a morte dela, fora ele para outras terras. E dizia Saulo:

— Quando eu colocar as mãos nesse apóstolo de Jesus, ele se arrependerá de ter nascido!

Saulo e seus comandados deixaram aquela região. Prenderam vários seguidores de Jesus e os sentenciaram aos calabouços.

João se dirigiu ao mar. No meio do percurso parou com os demais para descansar e se afastou para orar. Lembrou-se das histórias contadas por Jesus, dos momentos em que ele acalmara a tempestade do mar, em que multiplicara os peixes e os pães. Ajoelhado, orava João:

— Senhor, não me abandones! Permanece comigo até que os meus dias se consumam! O meu coração é fraco, tanto quanto a minha alma!

O tempo estava úmido e João orava fervorosamente, pedindo forças para que pudesse enfrentar os seus momentos finais. Foi quando uma luz desceu sobre ele, iluminando toda aquela região, incandescendo toda a vegetação. Jesus se
apre¬sentou com um capuz e, acercando-se de João, retirou-o da cabeça e disse:

— João, cuidaste da minha mãe e eu não te abandonarei. Tempos duros cairão também sobre ti, João, mas os teus dias ainda não chegaram. Nada temas, porque a tua vida não será tombada por mãos dos homens, pois eles não terão poder nenhum sobre ti. Lembra-te de sempre olhar nos olhos dos demais e não te preocupes com o que dirás, porque as palavras serão colocadas em tua boca. João, deposito em ti todo o meu amor, para que conserves aquilo que eu fiz! Escreve sobre isso no teu próprio calabouço e ele será iluminado por ti!

— Senhor, sou chucro de conhecimento. Não sei escrever!

— Eu sou o Senhor, João, e estarei contigo! Dentro de ti está tudo aquilo de que necessitas: é o teu amor ! Porque foste escolhido dentre os demais para que dês testemunho à verdade, e a testificarás em mim, assim que chegar o dia.

— Senhor, o meu coração repousa sobre o teu espírito e mal nenhum temerei neste mundo, porque a minha vida está dedicada a ti!

Uma grande força interior tomava João naqueles momentos. Foi ter com os demais e os encontrou dormindo. Voz mudada, disse:

— E' chegado o nosso tempo! E' chegado o nosso momento, porque o nosso Senhor quer que assim seja! Tomareis o rumo de Cafarnaum e eu seguirei para o Mar da Galiléia. Vou ter com os meus parentes e amigos, dos quais muitos já morreram, enquanto eu ainda insisto em permanecer vivo.

João fixou Elcênio e disse:

—Tu terás o teu tempo, mas o tempo somente ao Senhor pertence. Crê em Jesus e ele estará contigo, assim como estará também com todos nós! Quando chegar o teu tempo, lembra-te: fixa os olhos daqueles que virão sobre ti. Estamos a serviço do Senhor e quem serve ao Senhor não pode parar para olhar para trás: deve seguir sempre em frente e nada deve temer!

Elcênio disse:

— Ora, há pouco dizias que tinhas medo de morrer...

— O medo é uma fraqueza daquele que não tem fé! Hoje o espírito do Senhor repousou sobre mim e sobre vós, e nada devemos temer, porque, ao que disse o Senhor, é necessário que a semente morra para que germine, para que faça nascer a luz!

— João, viste Jesus. O que podes dizer dele?

— No princípio era o verbo, e o verbo estava com Deus, e o verbo se fez luz, e a luz se fez homem, e o Príncipe se fez luz na Terra para clareá-la. Antes de o princípio se tornar luz e a luz se tornar verbo, o mundo estava na escuridão e a luz veio para clarear a Terra. Se sois filhos da luz, crede na luz, para que a luz esteja sobre vós! Jesus era o verbo e se fez luz para iluminar o mundo! Então crede na luz e deixai que a vossa luz vos ilumine, e para que, iluminados pela luz de Jesus, possais iluminar aqueles que estiverem diante de vós!

— Palavras sábias, não proferidas nem mesmo pela boca de outros profetas!

— O Senhor me pediu para não me preocupar com o que irei dizer, porque as palavras serão colocadas em minha boca. Disse Jesus que nem tudo que vem da carne ou do sangue é carne e é sangue, porque o princípio está em Deus: aquilo que é da Terra volta à Terra e aquilo que é de Deus volta para Deus. Disse o Senhor que, na sua bondade e na força dos seus anjos, o espírito pode soprar onde quiser, e que sua vontade seja então toda a vontade da Terra. Então não temais mal
algum. Ide e pregai, mesmo que tenhais que rastejar sobre a lama e a força do apedrejamento por parte dos nossos opositores! Jesus estará conosco e a sua luz nos iluminará nas trevas deste mundo!

João tomou o rumo do Mar da Galiléia, onde encontrou velhos amigos teimando pela vida, bem tombados pelo tempo.

JOÃO BERBEL