LXVI - A MORTE DE ELCÊNIO

LXVI - A MORTE DE ALCÊNIO

Até Saulo chegou a notícia dc que aquele grupo de cristãos seguira para Cafarnaum e então diligenciou para que aqueles homens fossem alcançados e mas¬sacrados.

Zete, filho de Elcênio, era jovem ligeiro e sagaz, bisbilhoteador das situações. Seguia disfarçadamente os passos de Saulo c o observava e ouvia. Entrava nas sinagogas em que Saulo chegava para pregar e dali tirava as suas conclusões sobre os atos dele.

Zete sabia que seu pai estivera na casa de Maria, sabia que ele integrara um grupo de cristãos indo para Cafarnaum.

Saulo lavrou a carta de execução de Elcênio, condenando-o ao apedrejamento, e o mesmo fez com relação a Ananias. Sabia que Elcênio passaria por Cafarnaum e iria para Damasco, em busca de Ananias.

Zete tomou ciência daquilo, de que o nome do seu pai figurava na lista de execução. Saiu sem ser percebido e, velozmente, foi ter à casa paterna, lá avisando o pai das intenções de Saulo e sugerindo:

— Deves esconder-te, meu pai, porque ele te procura e não te perdoará de forma alguma!

Elcênio se ocultou entre as montanhas.

De Saulo saiu a ordem para que Elcênio fosse buscado por todos os lugares. Reviraram cada canto das propriedades e não o encontraram.

As estradas eram bem bloqueadas pelos soldados, todos os caminhos estavam barrados. Saulo estava certo de que Elcênio não escaparia daquele cerco e por ali permaneceu.

Havia ali uma sinagoga e lá Saulo começou a pregar. Lia as Escrituras e dali retirava belíssimas palavras, muito impressionando aquela gente de tendências marcadamente cristãs.
uizia provir dc uma lamilla cumpridora de todas as leis do judaísmo. Falava das dificuldades enfrentadas por Moisés para retirar do Egito o seu povo, das várias formas por que Deus se manifestara a Moisés, mostrando que ele era um grande profeta, um porta-voz de Deus, e que por quarenta anos guiara pelo deserto o seu povo, para que chegasse às terras de Canaã, à Terra Prometida aos judeus. Falava que trazia no coração as lembranças de Abraão, Jacó, Isaque e outros profetas que tinham vindo para provar que Deus é único e que qualquer um outro que contra ele se erguesse seria considerado um blasfemador. E salientava:

— Esta terra de Canaã foi concedida por Deus a todos os nossos irmãos e ela não pode ser dividida, de fornia alguma, seja pela admissão de outras crenças, outros deuses ou outras situações. Estou preparado por Roma e pelos sacerdotes para fazer com que a destinação do povo judeu seja concluída sobre a Terra! Nas minhas mãos estão todos os poderes para que todo irmão contrário seja condena¬do!

Saulo conquistou aquele povo com a sua oratória fremente c os seus argumentos, atraindo para si os que se diziam cristãos, exaltando nas Escrituras o alto poder de Deus. Dizia que a sua trajetória não seria vã e pedia que todos os que ali estavam lhe ajudassem a punir aqueles que manchavam a pureza do judaísmo.

Os mais fanáticos se colocaram bem próximos de Saulo, tocados pelos brios das suas tradições religiosas.

Durante uma semana, em todos os dias, mais e mais pessoas ali chegavam para ouvir as eloquentes exposições de Saulo. Este tocou no tema dc Moisés, falou dos opositores desse grande profeta que os mandou sacrificar. Falou de Elias e dos opositores dele, ressaltando que também estes haviam sido sacrifi¬cados. Mostrou que as Escrituras bem assinalavam que deveriam ser punidos pelo próprio Deus aqueles que contra Ele se revoltassem, porque o único Deus era aquele do povo judeu, o Deus que lhes concedera aquela terra para que dominassem todos os povos.

Saulo conquistava até a simpatia dos guardas romanos, tal era a força da sua fala e dos seus argumentos. E ele concluía:

— O nosso povo espera um Messias, mas não esse nazareno que veio de Maria e veio da Galileia! O Messias será aquele que veste a nossa roupagem, que fala a nossa língua, que prega um Deus igual ao nosso, que não blasfema nem se coloca igual a Ele. Então encontrastes pela frente esse falso profeta que foi sacrificado numa cruz. Ora, se esse galileu fosse realmente o Messias, teria Icrras de Canaã. Não, o Messias não c esse que glorificais, julgando-o maior do que o nosso próprio Deus! O Altíssimo sabe proteger aquele que pratica um bom trabalho. Deus é bondoso e generoso para com todos aqueles que oram todos os dias. Deus é generoso para com todo aquele que faz com que toda a sua família também ore. Deus é generoso para com todos aqueles que O amam. Então Deus vos dará coisas maravilhosas e que estão muito além do que podeis imaginar! Basta que vos torneis obedientes a Deus, que creiais nele tanto quanto creram Moisés e Abraão. Segui o mandamento de amardes a Deus sobre todas as coisas. Amar a Deus é entregar ao castigo aqueles que não são obedientes a Deus, aqueles que não O amam, para que a justiça de Deus se faça presente. Procurai então e entre-gai-nos os seguidores de Jesus, o falso profeta! Estamos aqui porque sabemos que Elcênio falou aqui, afirmando ter sido beneficiado por Jesus. Entregai-nos esse Elcênio e Deus vos dará a recompensa! Cuidai para que isso aconteça e Deus vos dará muito mais do que tendes! Não acreditais nas Escrituras? Colocai-vos contra as Escrituras? O que nos ocorrerá se não seguimios os nossos ancestrais? Por que Moisés, que passou toda uma vida no deserto, e Abraão e outros teriam manchado o seu nome? Trazei-nos então esse que foi seguidor de Jesus! Já executamos mui¬tos em nome de Deus. Trazei-nos esse para que o próprio Deus faça cumprir a sua justiça! Se não o fizerdes, estareis agindo em contrário às Escrituras, cm rebeldia contra Deus! E o que aconteceu com aqueles que tinham sido contrários a Moisés? Perderam a sua vida. E quanto a vós, também perdereis a vossa vida?
Aqueles homens, inflamados na sua distorcida crença, ergueram a mão em apoio a Saulo. De repente uma grande caçada teve origem ali, em busca de Elcê¬nio. Tudo reviraram e não o encontraram.
Zete bem sabia onde se escondia o pai, mas se resguardava no silêncio.

Saulo ordenou que toda a família de Elcênio fosse confinada na sinagoga e mandou espalhar que ela não sairia dali enquanto não aparecesse Elcênio. Era concedido um determinado tempo e, não aparecendo Elcênio, toda a família seria apedrejada por aquela comunidade.

Lá estavam presos todos os filhos, netos, noras e demais familiares de Elcênio. No décimo quinto dia, não aparecendo Elcênio, foi determinada a supressão da alimentação de toda aquela grande família, inclusive das próprias crianças.

Tal pavorosa notícia chegou até Elcênio. Ele se pôs a orar a Deus e a Jesus, até que se lhe apresentou a luminosa figura de Jesus.
por láe aprisionou toda a minha família.

— Meu li lho, é necessário que a semente morra para que possa germinar. Amas-me tanto quanto amas o teu Deus?

— Mestre, eu te amo mais do que a tudo no mundo!

— Ama a Deus sobre todas as coisas e ama o teu próximo tanto quanto a ti mesmo! Não temas mal algum! Que dos teus olhos fuja o medo, porque a tua missão já chegou ao fim! Através de ti é que Saulo passará a ver a vida de forma diferente! Vai, meu filho!

Jesus soprou nas mãos e nelas se formou uma esfera de luz. Elcênio respirou fundo e Jesus lhe disse:

— Lembra-te de que morre apenas o corpo e não a alma! Para ti não há outro alvitre. Mas hoje recebes a força do Espírito Santo e serás santo sobre eles, porque serás guiado pelos meus anjos. Lembra-te da fé de João Batista? Pois ele também estará contigo!

Elcênio viu então João Batista ao lado de Jesus. Comovidíssimo, ajoelhou-se aos pés daqueles dois grandiosos espíritos e disse:

— Senhor, o Céu me deu hoje um presente! Não temo mais a morte, porque a morte não existe!

Os dois luminares ascenderam dali. Elcênio ajeitou as suas vestes e desceu a montanha.

Era a manhã e todos ainda dormiam.

Lá no distante da rua apareceu um homem andejando. Foi abordado por dois guardas e os empurrou para os lados. Tentaram pegá-lo, mas não conseguiram.

De repente se ouviu o estridente som de uma corneta, vindo lá de dentro da sinagoga. Todos acordaram. Zete se acercou do seu pai e o abraçou, seu pai lhe beijando a testa e tomando a direção da sinagoga.

Logo Saulo já estava à frente daquele templo, vendo todos já preparados para o sacrifício, com pedras e paus às mãos.

Elcênio estava próximo à escada da sinagoga, aquela multidão enfileirando-se à sua frente. A ordem viria de Saulo, que lhe disse:

— Elcênio, és um homem valente vindo até aqui, sem resistência. Vê: o teu próprio povo te trai!

— Es a mim que queres, e não a minha família. Testemunhas são todos os que aqui me veem. Estou aqui em atenção a ti. Disseste que esses são meus, e na realidade são todos meus irmãos, porque assim Jesus nos ensinou!

— Nenhuma exigência podes lazer perante mim, porque a tua sentença já foi decretada!

— Que mal podes fazer-me? Não, mal algum me podes fazer, e também não a este povo, porquanto falso é o teu testemunho, enquanto o meu é verdadeiro! Sei que a teus pés tombarei sem vida, mas o que é esta vida para aquele que acredita num Salvador da Terra? Saulo, estive com o Mestre e ele ordenou que a ti eu dissesse que ele está em mim e mal algum me atingirá!

— Este homem está louco! Estamos prontos a matá-lo e ainda diz estas coisas! E justo o teu julgamento em tua defesa, mas a ti não cabe nenhuma defesa!

— Es um homem de palavra, Saulo! Conheces muito bem as Escrituras e sabes que nela tudo está escrito. Então liberta os meus familiares e dá aqui a tua palavra para que mal algum caia sobre eles, pois não é a eles que queres, e sim a mim, conforme está escrito com a tua própria letra, condenando-me à execução.

Naquele momento, todos os familiares foram liberados. Saindo da sinagoga, correram a abraçar Elcênio, mas foi ordenado que os retirassem e Elcênio pediu que eles se fossem dali.

Saulo disse:

— Havia contigo um certo homem chamado João, conforme nos foi informado.

— Esse é um apóstolo do Mestre. Ele está muito mais alto do que eu e não sirvo nem para atar as sandálias dele! Sobre esse as tuas mãos não poderão cair!

— Por quê?

— Porque assim está escrito!

— Escrito onde? Nas tuas leis?

— Nas leis de Jesus!

Elcênio baixou a cabeça, reergueu-a e disse:

— Senhor Jesus! Chegou o meu fim!

Imediatamente foi dada a ordem de execução. Uma pedra atingiu o seu peito, provocando-lhe grande dor, e logo pedras e pedras caíram sobre ele. Desfalecido, Elcênio ergueu a cabeça, bem à frente de Saulo, que se aproximou, e disse:

— Jesus! Em tuas mãos coloco o meu espírito!
sentiu o impacto daquele olhar profundo. Aquelas fortes palavras de Elcênio mar¬cavam fundo a alma daquele homem destemido.

0 corpo de Elcênio foi entregue aos seus familiares. Segurando o corpo do pai, Zete ameaçou Saulo:

—Ainda terás de prestar conta a Jesus por matar tanta gente! Quero ver ti hora em que tiveres de enfrentar Jesus!

Saulo ouviu aquilo calado, pois dera a palavra de que nada de mal seria feito com os familiares de Elcênio. Os militares tentaram prender Zete, que resistiu com toda força. Saulo acudiu:

— Nada farei contigo, pois sou um homem de glória e honra!

Zete saiu e se reuniu aos familiares, que começaram a ser perseguidos por aquele povo e decidiram ir para o Mar da Galiléia, ali vivendo como pescadores

JOÃO BERBEL