VI - O ASSALTO

VI - O ASSALTO

Chegando a Damasco, logo Barnabé sentiu a falta de Benedites. Orlinda, olhos lacrimosos, disse-lhe:

— Marido, tenho uma notícia que certamente te será desagradável. Porém, nada pude fazer em contrário. Os romanos estiveram aqui e levaram nosso filho Benedites!

Barnabé ficou estacado e mudo, tentando absorver melhor o sentido inesperado daquela informação. Permaneceu assim por algum tempo, tentando digerir aquilo que lhe era ali passado.

Orlinda segurou nas mãos dele e indagou:

— Ouviste o que eu disse?

— Falaste do nosso filho... O que realmente aconteceu com ele?

— Quando aqueles romanos chegaram aqui, com suas vestes e montarias vistosas, muitos os admiraram, muitos os temeram. Todos eles se instalaram bem em frente à nossa casa e aqui pemianeceram por alguns dias. Benedites fez amizade com um deles e de repente já o trazia para dentro de casa. Era um rapaz que guiava todos os outros soldados. Embora houvesse dificuldade de melhor se entenderem, nosso Benedites parecia compreender aquela língua estranha. Tomaram-se muito amigos e partiram para Roma. Não tive como segurá-lo aqui. Passaram alguns dias aqui conosco e pude observar aquele jovem que guiava aquele grupo de homens mais velhos do que ele e que em tudo lhe obedeciam. De repente já passaram a dormir aqui dentro de casa...

— Mas quem era esse jovem?

— Não sei, mas seu nome é Tomás. E' um jovem muito bom. Benedites passou a percorrer com eles toda a cidade. Criaram entre si um amizade muito bonita e Benedites me disse que iria embora com eles. Aqueles romanos adoraram-no .

- Mas deixaste ir embora o nosso filho ?! Irei até Roma e o trarei de volta !

- Eu bem sabia que ficarias nervoso, mas mesmo se estivesses aqui não lograrias convencê-lo a ficar. Os olhos dele brilhavam tanto! E ele me dizia: — Mãe, não são as forças da Terra que me guiam para aquela cidade estranha. Lembra-te do que ocorreu comigo quando criança e também, outra vez, na viagem que fiz com meu pai? Aquele senhor dizia que alguém viria buscar-me e que eu deveria partir

Barnabé se deteve a pensar um pouco e depois disse:

— Lembro-me, sim. Daquela viagem não posso esquecer-me de forma nenhuma. Seja, pois, o que Deus quiser!

— Ele garantiu que não demoraria para voltar aqui.

— Meu Deus! Saímos lá da Galiléia para fugir dos romanos e, chegando aqui, no momento cm que pensava que a vida nos sorria, eis que os próprios romanos retiram de mim o meu filho amado!

— Ora, ainda tens outro filho para criar... Camarfeu está aqui conosco...

— Deves saber algo. Tenho lá os meus parentes e conheci vários deles, vários amigos. Lá conheci Joaquim, que cria uma sua sobrinha, a pequena Joana, que está sozinha no mundo. E' gente de muito bom agrado. Selei um compromisso de ceder nosso Camarfeu para se casar com aquela menina.

— Mas como podes fazer uma coisa desta?! Temos conversado muito e sabes que sou muito contrária a essas leis criadas pelo teu povo. Primeiramente devíeis indagar às pessoas se desejam ou não se unirem umas às outras em matrimônio. O casamento é uma coisa sagrada, é feito para sempre. Agindo assim, pareces o povo lá da Judéia, que se casa e descasa, não mantendo a união como fazemos.

— Deixa de falar asneira, mulher! O que fiz está feito! Agora me preocupo apenas com Benedites.

Os olhos daquele pai denunciavam o ardente desejo de ir em busca do filho. A partir daí um pesadelo começou a tomar a sua mente.

Osnã foi observando que Barnabé já não se interessava pelos negócios, que estava cada vez mais aprofundado naquela tristeza, julgando ter perdido o filho para sempre.

Os negócios desandaram preocupantemente. Osnã procurou Barnabé e ponderou:

— Concordo contigo, com os teus problemas familiares, mas temos de levar avante o nosso comércio. Nossos negócios não podem parar. Sei que estou nós dois. Como faremos então? Por volta de quatro meses acabará a nossa mercadoria e assim estaremos em dificuldades, temos muitos animais e precisamos movimentar a tropa às viagens.

Tristonho se mostrava Barnabé. Orlinda pedia:

— Marido , precisas reagir! Nosso filho não morreu. Os Céus exercem uma força sobre ele. Se aqui estivesses, também tu não o segurarias. Precisas erguer a cabeça e trabalhar. Beneditos já é um homem, não é mais aquela criança. Lá na terra nova ele aprenderá. Quem sabe ele ainda possa ajudar muito o nosso povo? As vezes poderá convencer as autoridades romanas a não escravizarem o nosso povo, a serem mais generosas, terem mais piedade. Sim, porque Benedites não é uma pessoa comum como poderias imaginar.

As palavras da esposa levaram ânimo àquele coração amargurado. Ele foi à procura de Osnâ e disse:

— Temos poucas mercadorias e não compensa nos desfazermos delas nestes dias, como bem sabes. Sei também das tuas dificuldades. Eu muito gostaria então que viajássemos juntos.

Os dois por fim se animaram e organizaram para a viagem. A tropa se preparou e partiu.

Osnã via Barnabé sempre tristonho e lhe dizia:

— Primo, a nossa vida não é como a imaginamos e desejamos. Se achas que teu filho te traiu indo para Roma, muito mais te digo: não conheces a força dos romanos. Eles dominarão o mundo inteiro! Bem que poderia vir mesmo esse Rei, esse Messias para que expulsasse daqui esse povo invasor que leva daqui os tributos. Os impostos poderiam ser aplicados no nosso próprio povo, para que pudéssemos produzir, alimentar-nos melhor, ser mais felizes. Mas, pelo que vejo, as coisas não são assim tão fáceis. O que havemos de fazer é trabalhar da melhor forma possível para garantir o sustento das nossas famílias, para que nossos filhos possam seguir esta nossa mesma jornada. São dias, semanas de viagem que muito nos cansam, sem falar nos perigos que a estrada nos arma. Temos de estar sempre atentos, redobradamente. Observa a nossa montaria. Temos de ir revezando os animais para que possamos chegar ao fim da jornada. É sempre dificultoso, é muito penoso para nós e os animais. A vida sempre nos castiga mesmo, mas quem quer conseguir alguma coisa nesta Terra há de trabalhar, lutar bastante. Apesar dos pesares, Barnabé, sei que Deus é muito bom para nós. A gente trabalha muito, mas não tem muito o que reclamar, pois sempre recebemos aquilo que merecemos.

Ora, se a gente trabalha muito. Deus nos dá muito, e se trabalhamos pouco, Deus nos dá pouco. Vejo tanta gente com tanta necessidade! Vejo os meus parentes: Vivem rezando nas sinagogas, achando que orações encherão a barriga deles. E muitas vezes temos de ajudá-los, porque os parentes têm de ser uns pelos outros.

Pois o que aprendi com meu pai e vou ensinando aos meus filhos. Assim a gente vai levando a vida. Tudo é muito complicado, muito complicado mesmo!

A viagem prosseguia, os dois sempre dialogando, e Barnabé, envolvido com as ocorrências, foi esquecendo o seu filho.

Por fim, chegaram ao destino. Fizeram bons negócios e se prepararam para retornara Damasco.

Ora, os comerciantes estavam sabendo do aumento dos saques nas estradas, naqueles dias, e lhes aconselharam:

— Se fôssemos vós, aguardaríamos mais alguns dias, até que as coisas se acalmem. Tem havido muitos assaltos. Tem vindo por aqui um pessoal lá do Velho Mundo. Esses homens observam tudo aqui, vigiam os comerciantes que sairão em viagem e assim organizam as suas emboscadas. Há muitos deles nas estradas. E' melhor então que aguardeis aqui por mais alguns dias. Ide para uma hospedaria, deixai descansar a tropa e descansai vós próprios.

Resolveram então ouvir os conselhos.

Uma semana se passou e a notícia ainda era preocupante: os assaltantes agiam em peso.

Barnabé estava desesperado, ansioso para seguir viagem, mas Osnã ponderou:

—Aguardemos aqui, pois se seguirmos agora poderemos perder tudo, até a própria vida. Conheço muito bem a situação.

— Mas já passou uma semana!

Barnabé não se continha em sua ansiedade, mas foi acalmado por Osnã. Mais dias passaram e não se abria uma chance de viajarem.

Quinze dias ficaram ali hospedados e por fim Barnabé já não mais suportava aquela estagnação. Osnã, diante dos lamentos do primo, resolveu partir, não obstante as notícias de que a coisa estava complicada, ia de mal a pior.

Partiram, procurando as vias mais dificultosas, mais longínquas, mais seguras, tentando fugir dos saqueadores.

Bem distantes estavam quando viram lá longe uma preocupante e denunciadora poeira.

— Corramos! - sugeriu Barnabé.

Nao! - disse Osnã. — :são saqueadores. Permanece calado! Deixa tudo por minha conta! Não laças nenhum movimento, pois para esses homens pouco importa perderem ou tirarem a vida.

— Vamos retornar!

— Não! Permanece em silencio!

Aqueles homens rudes chegaram e o chefe indagou dos caravaneiros:

— O que levais aí?

— Não levamos boas coisas - respondeu Osnã, com serenidade. — Levamos encomendas de irmãos contaminados de lepra, irmãos que não têm ninguém para olhar por eles.

— Levaremos toda a carga!

— Se quiserdes fazê-lo, que assim seja! Não temos como debater convosco. Felizes já estaremos se nos deixardes vivos. Apenas ficaremos tristes por estarmos trabalhando para um senhor e uma boa causa.

Aquele chefe observava o rosto de piedade de Osnã, que com isto tentava ludibriar aqueles malfeitores. O chefe, mordendo a isca, tomou uma decisão incomum para aquela gente destemida e impiedosa, dizendo:

— Se assim é, deixo que leveis metade da carga.

—Ah! Já me sinto muito feliz e gratificado pela bondade do teu coração! -exclamou Osnã, levando avante a sua camuflagem de sentimentos. — Estou certo de que o Eterno, o Altíssimo que está nos Céus, fará com que deste pouco consigas fazer muito para ti e para os teus!

— Separai os animais! - ordenou aquele chefe, que, passados uns instantes, indagou a Osnã: —Tu não mentes para mim, não é mesmo?

— Como eu poderia mentir?

Ora, dos doze animais, os saqueadores pegaram apenas dois. Osnã disse, em agradecimento:

— Rogarei ao Altíssimo para que possais tirar bastante proveito das mercadorias!

— Vens sempre por estas paragens?

— Sim, quando posso, para ajudar os nossos irmãos necessitados.

— Então, segue em paz o teu caminho!

Um dos bravios saqueadores, contrafeito com aquela inesperada atitude benevolente do chefe, observou com ironia:

— Agora estás querendo mostrar-te caridoso?...

O chefe movimentou bruscamente a rédea do seu animal, fazendo com que este girasse para o lado daquele homem, e disse com autoridade:

-Conheço um homem quanto esia engana ! Ora, se fossem mentirosos, reagiriam, e não reagiram, não ficaram raivovosos quando lhes falei violentamente.

Voltando-se para os caravaneiros, ordenou então o chefe:

— Ide! Segui cm paz o vosso caminho!

E, de fato, apenas dois animais carregados foram levados no saque. A tropa dc Osnã seguiu para Damasco.

Barnabé, ainda com aquela ocorrência trancada na garganta, disse ao primo:

— E's um artista! Como pudeste enganar tão bem aquele homem?! Com que facilidade o fizeste!

— Ora, há tempos e tempos estou nesta lida! Preciso manter-me vivo! Eu não esperava que aquele salteador nos deixasse qualquer mercadoria, e apostava apenas em que nos deixasse vivos. Ora, quanto a isto ninguém teria a sorte que tivemos.

— Mas disseste àquele homem que a mercadoria se destinava aos leprosos. Mentiste, pecaste perante o Altíssimo! Na nossa lei bem sabemos que não podemos pronunciar em vão o nome do Altíssimo!

— Mas quem te disse que não farei o que prometi? Bem, na verdade não era mesmo essa a minha intenção, mas agora doarei a metade aos nossos irmãos leprosos. Levar-lhes-ei dois animais com mercadorias.

— Realmente o farás?!

— Sim! - disse Osnã, batendo a mão no ombro dc Barnabé. — E fica certo de que isto será muito bom para nós!

Chegando cm Damasco, dc fato Osnã separou dois animais, sem ver qual era a mercadoria que carregavam, e os levou a uma comunidade de leprosos, pouco distante de Damasco.

Retornando, disse Osnã a Barnabé:

— Para tudo temos uma saída! Bem viste que, realmente, não menti em nome de Deus. Ora, afirmei àquele homem que daria mercadorias aos leprosos, mas nada disse sobre quanto lhes daria. Apenas afirmei, da melhor forma possível, a minha intenção. Então isto nos dará alegria e felicidade, e mais alegres e felizes ficaram os leprosos, pois são necessitados de todas aquelas coisas. Quase sempre, na nossa vida tão corrida, nem nos lembramos desses irmãos leprosos, e agora pudemos fazer algo de bom por eles.

— Mas como cobriremos o nosso prejuízo?

-Ora, Barnabé, é muito fácil ! Quando é que lucrávamos com as nossas mercadorias? Pois agora aumentaremos o preço e aumentaremos o nosso lucro. Como as mercadorias estarão em falta, pelos transtornos ora observados, ninguém reparará o aumento no preço, pois justificaremos afirmando que a mercadoria se tornou custosa. Assim é que cobriremos o prejuízo e nada perderemos.

- Ah ! Por isso é que és um homem rico ! Muito ainda tenho de aprender contigo !

E ali começaram a comercializar.

JOÃO BERBEL