VII - COM CÉSAR

VII - COM CÉSAR

Milhares e milhares de soldados se aglomeravam cm Roma, ali onde chegava Benedites, que se instalou na casa dc Tomás.

Oscar, o irmão mais velho de Tomás, era um capitão que tinha estreita ligação com César.

Naquele dia, ao chegar em casa, Oscar estranhou a presença daquele jovem judeu que era Benedites, e repreendeu Tomás:

— Meu irmão, é a segunda viagem que fazes e já me trazes aqui um judeu?!

— Este é um meu amigo. Sei que aqui em Roma é permitida a presença de qualquer pessoa, de qualquer nacionalidade.

Palavras ásperas, linguagem rápida e não tão bem entendida por Benedites, eis Oscar interpelando o jovem judeu:

— Na qualidade de judeu, vens aqui tentar libertar o teu povo, assim como, ao que dizem, foi libertado dos egípcios?

Tomás atalhou:

— Deves falar mais devagar para que meu amigo possa entender a nossa linguagem.

— Desculpa-me! - pediu Oscar.

— Tenho a graça de pertencer àquela região - disse Benedites - e sou muito feliz, porque tenho pai e mãe que me deram muita educação. Teu irmão me convidou para que viesse para cá, e eu sentia que havia algo para eu fazer aqui.

— Mas como é que tens algo para fazer aqui?! - indagou Oscar. —Alguém te disse isto?

— Sim! Uma voz me disse que um dia eu teria o convite para abandonar a minha terra e vir para Roma, e é por isso que estou hoje aqui.

Interessado, Oscar se acercou e disse:

-Sei que tens muita dificuldade de expressar, mas explica-me melhor o disseste.

— Eu era ainda criança. Meu pai tinha muita vontade de deixar as terras dele e ir para Damasco, onde tem um parente que o ajudaria. Uma noite ele ordenou que eu juntasse todas as nossas ovelhas. Dormi pouco. Acordei de madrugada e fui juntar as ovelhas. De repente percebi um senhor ao meu lado, um ancião que me ajudou a reunir todo o rebanho. Ele me disse muita coisa maravilhosa e ficou lá comigo até o amanhecer. Depois ele desapareceu. Passado algum tempo, fomos para Damasco, onde meu pai começou a comercializar. Certo dia o acompanhei numa longa viagem e nela reencontrei o ancião, que novamente afirmou que eu receberia um convite e pediu que eu não o recusasse de forma alguma. Foi então que encontrei Tomás e nos tornamos grandes amigos. Ele comeu, bebeu, dormiu na minha casa. Conheceu minha mãe e meu irmão Camarfeu. Ora, isso me deixou muito alegre, encheu a minha vida de felicidade.

Oscar bem entendeu aquele linguajar misto de Benedites. Acercou-sc dele, sentou-se.

— Duvidas de mim? - indagou-lhe Benedites.

— Não! Somos daqui mesmo, desta região de Roma. Eu não gostava dos soldados romanos. Via com desconforto as tantas coisas ruins, as tantas barbaridades praticadas por eles. Dc repente uma voz falou ao meu ouvido, pedindo que eu ingressasse no exército romano. Tornei-me então um soldado. Hoje tenho facilidade em me aproximar e conversar com César, estar ao lado dos meus capitães, dos seus conselheiros. Lembro-me de quando ingressei nas hostes romanas. Minha voz de comando agradava bastante aos centuriões e logo fui promovido. Quando nos reuníamos no castelo, sentávamo-nos junto a César e seus conselheiros, cada qual então manifestando verbalmente as suas impressões e opiniões. Numa dessas ocasiões disse eu que o exército romano não fora criado para derramar sangue, para matar, e sim para apenas exercer uma determinada força, preservando as vidas humanas, porque Roma é humana, e não aquele fantasma destruidor. Era uma opinião completamente diferenciada das demais. Ninguém ali concordou, mas César se admirou grandemente das minhas palavras e ordenou que dele me aproximasse.

Ergui-me, aproximei-me e ouvi: — Meu jovem, sábias são as tuas palavras! Não é nada agradável matar as pessoas, não é nada bom derramar o sangue das pessoas. Quando tenho notícia de tais atrocidades, isto muito me incomoda. Tens toda a razão no que disseste! Pretendo levar avante o que sugeriste. O grande César disse então aos seus generais: — Este jovem está coberto de razão no que diz.

. Nosso exército é muito poderoso, e cada vida que se tira é um imposto a menos para os cofres de Roma. Pretendo então mudar essa política de morticínio, de carnificina. Temos de preservar a ordem, mas isto há de ser bem feito!

Benedites ouviu com atenção e satisfeito aquelas informações de Oscar, que completou dizendo que a partir daquele dia as milícias romanas começaram a agir com mais respeito perante o povo e as famílias, que já não matavam com faciidade aqueles que deixavam de pagar impostos, embora continuassem a pressionar a todos para que não deixassem de pagá-los. E dizia Oscar:

— O exército era muito temido, e a partir da nova política era gerada uma maior confiança por parte das populações. Naquele momento fui promovido e depois encaminhei meu irmão Tomás às nossas fileiras. Hoje somos dois homens de confiança do grande César. Deves saber que nosso soberano não tem nada contra o povo judeu, nem contra povo nenhum. A ordem de César é que todos continuem com a sua própria religião. O único interesse de Roma é manter a ordem. E isto que o grande César pede a todos.

— Mas não é isto o que se vê por lá - observou Benedites.

— Se não sabes, jovem, é muito difícil dominar a fúria de um soldado. Ele ja carrega na alma o desejo de matar, de destruir. Ainda não tive a oportunidade de visitar aquelas terras, mas te garanto que, chegando lá um dia, seremos maleáveis e tentaremos fazer um bom trabalho. Aquela área é hoje comandada por Cornélius, que lá exerce uma força poderosíssima sobre os demais. Calculo que dentro dc pouco tempo poderei caminhar por aquelas paragens. Mas quanto a ti, jovem, se quiseres ingressar no exército dc Roma serás o meu convidado.

— Como poderia ser isso, se os soldados detestam os judeus?!

— Não! Não é necessário vestires a roupagem militar. Temos muito trabalho por aqui, muitas ocupações diferenciadas. Podes servir Roma com o teu trabalho.

Assim, Benedites iniciou o seu trabalho. Dentro dc um mês já dominava o idioma romano. Aos poucos fazia amizade com as milícias e ingressava no exército, aprendendo aquela lida.

Ora, à medida que ganhava espaço e simpatia, Benedites ia dando expressão à voz que manifestava dentro dele. Dizia aos soldados que os tempos haviam mudado, que muitas e muitas famílias passavam fome e necessidade, no mundo todo.

Tentava, com mansidão, criar a disciplina e a educação entre os soldados.

Logo César tomou notícia de que havia ali uma criatura com certo diferenciado conhecimento e comportamento, com muita educação e que havia transmitido algo de bom aos soldados. Imediatamente mandou chamá-lo.

Benedites tremeu diante daquele chamado inesperado. Achou que iria morrer. Mas Oscar o acompanhava e o apresentou a César, que disse:

— És um jovem oriundo das terras de Canaã, das terras de Israel...

— Sim!

— E qual é o motivo da tua vinda?

— Senhor, não sei, mas vim de coração alegre...

— Têm-me chegado notícias de que tens ensinado boas maneiras aos nossos soldados.

— Sim, eu o tenho feito...

— Estou muito contente com isto. E dize-me: o que achas de cobrarmos tributo aos teus irmãos judeus?

— Dcsculpa-me pela minha franqueza, mas, na qualidade de judeu, acho péssima tal medida. Não se pode tirar tanto de muitas famílias passando por muitas necessidades, como é bem visto lá.
César fixou o jovem significativamente e Benedites disse:

— Perdão, senhor! Não era da minha vontade ofender-te!

— Não! Se me tivesses dito que é justo Roma cobrar os tributos, assim como tem dito toda e toda gente que aqui chega, certamente que eu te puniria, pois estarias sendo falso. Jovem, não é qualquer um que chega assim aos meus pés, com tanta sinceridade! Porém, como é que vou tratar de Roma e dos meus exércitos se não cobrar tributos dos povos, para garantir a própria segurança deles?

— O povo tem muito medo de Roma. Quando vê um romano, todo mundo se esconde, com medo de ser extorquido, saqueado ou morto.

— Mas o que devo fazer para mudar a situação?

— Como um gesto de simpatia, cobrar menos impostos, mas também tomando uma medida: cadastrar todos, fazer uma espécie de censo para conhecer todas as pessoas, todas as famílias. Os comandantes poderiam contatar as famílias, conhecê-las melhor. Ora, conhecendo todo o povo seria muito mais fácil e justo saber quanto cada um poderia pagar de tributo.

O grande César silenciou um pouco, coçou a cabeça e disse: —Acho que este jovem tem razão! Preparai o pessoal que seja capaz de fazer esse bendito censo! Reunamos o conselho e vejamos o que podemos fazer.

JOÃO BERBEL