VIII - O GRANDE PROJETO

VIII - O GRANDE PROJETO

Benedites respirava o ar da alegria, sempre ouvindo a voz daquele espírito amigo, a lhe pedir:

—Acalma-te! Ainda não é chegada a tua hora!

Benedites dormiu e, deixando o corpo, encontrou aquele espírito dc rosto fino e longos cabelos e barba, o homem que preparava os sentimentos para a chegada do Salvador.

O bom ancião pediu a Benedites que tivesse todo cuidado, conservando a simplicidade nas palavras, falando o mínimo possível, deixando que o seu próprio sentimento se expressasse.

Benedites, no outro dia, acordou sob as gratas lembranças daquele sonho, daquelas alvas montanhas, do jardim florido, com flores parecendo revestidas de neve. Entendeu que, perante o grande Imperador, deveria ouvir mais e falar menos.

Ao lado de Tomás, Benedites ia aprendendo as leis romanas, estudando tudo o que lhe fosse possível.

Na mente dc César persistia aquela intenção de instituir aquele cogitado censo, pensando em modificar a situação do povo judeu e do povo romano. Ali ele tivera notícia, por parte de um jovem judeu, que aquele povo era muito sacrificado. Até então
o Imperador vinha recebendo notícias apenas através das suas milícias. Era sabido que, na cobrança de impostos, muitos judeus eram mortos, mas tais notícias não chegavam a César, que apenas recebia notícias do montante dos tributos que ali chegavam para sustentar os romanos.

As pessoas mais abastadas viviam no Interior do Império. Todos teriam de pagar impostos, mas ali os soldados romanos não agiam com a severidade observada junto ao povo judeu.

Seis meses passados, César chamou Benedites para participar de uma reu¬nião com os seus assessores.

Preparado por sonhos que viam povoando varias de suas noites, eis então o jovem à frente do Imperador e de seus conselheiros. A exemplo de todos, ajoeIhou-se aos pés do soberano. Foi ordenado que se erguesse c tomasse lugar na roda dos assessores.

Disse César:

—As notícias que me chegam do povo judeu mostram uma situação de adversidade. Por via de nossos oficiais, cientificamo-nos de que temos perdido muito tributo e, assim, haveremos de reformular a nossa política. Vendo aqui este jovem, determinei que cie aqui permanecesse, que estudasse as nossas leis e costumes. Agora ele se prepara para voltar ao seu povo. Retornará para Israel e será um dos nossos mensageiros. Aprenderá aqui, aprimorará os seus conhecimentos para que possa passar tudo ao povo judeu. Na qualidade de Imperador, afirmo que promoveremos um censo. Eu gostaria que Benedites se erguesse e, tendo alguma idéia sobre o procedimento do censo, comentasse aqui conosco.

Humildemente, Benedites se ergueu, deu dois passos à frente, estacou e, em palavras simples, disse:

— Majestade, para mim é um prazer imenso servir ao senhor. Bem sei que o meu humilde conhecimento nem perto chega daquele das autoridades aqui presentes, mas o meu desejo é somente ajudar. Então reafirmo o medo do povo judeu perante a chegada da tropa romana. Isto faz com que o povo se torne violento. Quando os comandantes visitam os vilarejos para cobrar os impostos, muitas vezes tiram muito além do que deveriam tirar. Isso ocorre porque não têm exata noção de quantas são e quem são as pessoas. Muitas vezes a desigualdade de cobrança cria uma grande raiva no povo judeu, um ódio para com o povo romano. Porém, muito fâcil é resolver o problema. Criando o censo, teremos a quantidade certa dc pessoas habitando os vilarejos, as várias províncias. Em cada local então aplicaremos a nova situação. Ao invés de incumbir os romanos dc cobrar os tributos, há de incumbir o próprio povo judeu de cobrar os seus tributos e pagá-los a Roma. Assim é que lograremos apagar do coração dos judeus aquele ódio para com os romanos, e assim trabalharão mais e produzirão mais. Sabendo quantos e quem são os contribuintes, saberemos quanto teremos dc tributos a cobrar. Assim saberemos, antecipadamente, quanto é que Roma receberá, e então saberemos o valor ideal a fixar na cobrança. Em meio ano constataremos o quanto foi recebido de impostos e então estaremos certos quanto às desigualdades, quanto àqueles mais espertos que nada pagam. Nomearemos em cada localidade uma pessoa que terá por trabalho apenas a cobrança de impostos, uma pessoa que será responsável ali. Se houver
punindo toda uma região pela recusa e desonestidade de uma única pessoa. César, que tudo ouvia com a maior atenção, disse:

— Temos os nossos representantes, os nossos reis, os nossos governadores, os nossos anfitriões.

— Ora, esses se enriquecem bastante à custa do povo judeu, às vezes até mesmo retirando de Roma o que é de Roma. Deveria ser revista a atuação desses íeis, desses representantes de Roma, para que não se enriquecessem tanto, e mais dinheiro viesse a Roma e atendesse às necessidades do povo romano. Em troca, o exército romano há de dar a proteção requisitada pelo povo judeu. Assim o ganho será dobrado: teremos melhores situações e maior fartura.

Indagou César:

— Vieste daquele povo para me dizer tais coisas? —Não! Vim a convite de Tomás.

— Mas como vieste assim, guiado por Tomás?

— Em criança tive a visão de um senhor que me disse que eu viria para Roma. Muito pequeno, fui abordado por um senhor na madrugada, quando juntava o rebanho do meu pai. E depois que cresci, numa das viagens que com meu pai fiz à Pérsia, em busca das mercadorias do Velho Mundo para negociá-las em Damasco, tive de novo aquela visão. Aquele senhor me disse que um romano me convidaria para seguir para terra estranha. E aconteceu que, estando meu pai viajando, recebi o convite de Tomás. Foi então que viajei com cie para cá, e hoje muito me alegro por estar diante do Imperador e constatar que ele é um sábio homem, de muita inteligência, e não aquela figura proposta pelos que se colocam na condição de inimigos dc Roma.

— Palavras sábias são as tuas, jovem! Mas falaste assim apenas para conquistar a minha confiança?

— Não, Majestade! Não foi esta minha intenção. Ora, tens homens muito melhores do que eu e que podem executar qualquer serviço. Não, não foi esse o meu propósito! Digo-te o que o meu coração sente e pede para dizer, e te peço desculpas se minhas palavras não te agradaram ao ouvido.

—As tuas respostas atendem a todas as minhas necessidades. Já te havia pedido que te preparasses para retornar ao teu povo e assim me ajudasses. Daremos mais um tempo para que iniciemos a execução do nosso novo plano. Daqui a alguns dias chegará uma tropa e então outra tropa seguirá para Israel. Veremos quais são as boas-novas que nos serão trazidas e então voltaremos a conversar.

Oscar te dará todo o apoio. Continua estudando e indagando a esse senhor invisível que fica ao teu lado o que de melhor poderemos lazer para eliminar qualquer conflito entre o povo romano e o povo judeu-porque a nossa intenção não é criar conflito com ninguém, não é fomentar guerras e guerras. Ora já enfrentamos muitas guerras, já tivemos de dominar muitas terras através da força, e bem sinto que jamais a guerra é uma experiência tão boa e válida como possa o homem imaginar. Já vi crianças, jovens e anciãos sendo aniquilados nas frentes de batalha, e isto para mim não é uma experiência nada boa. Contudo, eu haveria de seguir as leis a mim consignadas para que me tornasse Imperador. Hoje já fugimos de tal intenção, pois o tempo nos vem mostrando a vida da forma que ela é. Pretendo não mais efetivar derramamento de sangue e fazer tudo da melhor forma possível, para que possamos viver bem e ajudar os povos a viverem bem - pois o Imperador somente vive bem se o seu povo vive bem, somente pode ser um grande rei se assim todos o aceitarem. Ninguém é um grande rei sem assim mesmo ser reconhecido.

Os assessores presentes começaram a opinar, a maioria aprovando aquele novo projeto.

Benedites se fez seguir com Tomás, enquanto tinha curso aquela reunião. À tarde Oscar chegou em casa. Lá encontrou Benedites e lhe disse:

— Foste muito elogiado pelo que disseste. O grande César não sabe dc onde veio tal sabedoria saindo da boca de um jovem simples. Indagou-me se tu foste mandado aqui pela comunidade judaica, mas eu lhe garanti que não é este o caso. Ora, sei que és judeu, mas que também nem sabes rezar direito nem tens em mãos as Escrituras do teu povo.

— Ora, eu já vos disse a todos que realmente tive as duas visões daquele ancião que agora está sempre ao meu lado. Sim, tenho sonhado muito com ele. Tudo o que eu disse à frente de César veio desse senhor, e não dc mim. Foi ele quem mandou transmitir tudo aquilo.

— Muito bem! O que é isso não sei, mas agradou a todos os conselheiros de César. Eles passaram todo o dia reunidos. Acham que devem efetivamente criar esse censo e pensam em nos enviar para Israel para cumprirmos o plano. Eu e Tomás iremos para Israel, acompanhados dc grande número de soldados. Percorreremos todo o reino e tu estarás conosco. Antes disso, porém, César te chamará novamente para ouvir da tua própria boca se realmente estarás preparado para a missão.

Mas dize-mc: como lograrás contar todo aquele povo? Irás de casa em casa?

— Não! Indo de casa em casa não conseguiremos contar a todos, pois muitos fugirão, muitos se ocultarão.

Deixaremos que, ligado às autoridades romanas, o próprio povo judeu promova o seu censo.

— Não sei se César aceitará essa medida, se confiará no povo judeu.

— Se ele não confiar nos judeus, nada poderá ser conseguido; permanecerá a mesma situação de conflito. Há de se ter confiança. Talvez que este possa ser apenas o começo de um segundo, terceiro, quinto, décimo censos, até que consigamos acertar. Assim que tudo estiver acertado, verás que tudo passará a funcionar com perfeição. Será uma maravilha! Tudo promoverá um tal êxito que dará a chance para que aquelas pessoas confiem cm Roma. Vigerá a mútua confiança. Os soldados romanos estarão garantindo a segurança do povo judeu, estarão prendendo os ladrões e anarquistas, estarão protegendo as populações. Tal proteção será paga com os tributos que virão para cá. Verás como tudo funcionará às mil maravilhas!

Passados dois meses, eis nova reunião do conselho.

Benedites foi chamado e agiu com o mesmo respeito e obediência perante César, pedindo desculpas para o caso de suas palavras não serem bem interpretadas.

O conselho começou interrogando Benedites, ali colocando as mesmas palavras de dúvida sobre a consecução daquele plano.

— Como será feito o censo? - indagavam. —As tropas forçarão as pessoas, em suas casas, a que participem?

— Não! - disse Benedites. — Como eu já disse, não há necessidade disso. Deixemos que o próprio povo judeu faça tudo.

— Mas como haveremos dc confiar nessa gente que se diz povo dc Deus?

— Ora, as autoridades romanas já exercem naturalmente a sua força, e então devem dar poder também aos judeus para que possam administrar o seu povo, exigir dele obediência.

— Como isto pode ser feito?

— Ora, criaremos novas situações. Ao invés de nos valermos dos governadores c seus assessores, recorreremos aos próprios judeus. Os governadores se enriquecem e enviam cada vez menos dinheiro a Roma.

—Acreditamos em muitos conselheiros que lá estão ao lado dos governadores.

— Concordo! Porém, ao invés de criarmos situações agressivas e alarmantes para o povo judeu, por que não nos tornamos amigos dele? Haveremos de lhe seres humanos, criaturas também tementes a Deus.

— Pois bem! Iremos lá, Taremos tudo isso c as coisas funcionarão mesmo corretamente?

— Não! Mas será um começo. Faremos o primeiro censo, prepararemos os locais. A notícia inicial do censo gerará uma confusão, o que será normal. Depois reafirmaremos a notícia. Nomearemos líderes dentro do próprio povo judeu e eles estarão trabalhando por nós.

— Mas como acontecerá isso? Farão a coisa sozinhos?

— Não! Todo o censo haverá de ser inspecionado, supervisionado pela tropa romana.

César, que a tudo ouvia, concordou com o plano e disse a Benedites:

— Aguarda então trinta dias para que preparemos a tropa. Viajarás com Oscar e Tomás. Alguns centuriões estarão a proteger-vos de possíveis ataques.

Trinta dias passados, novo conselho se reuniu e foi indagado a Benedites:

— Estás realmente preparado para a missão? Não temes os romanos, os judeus?

— Temo apenas a Deus! Homem algum daTerra me intimida!

— Nem a César temes?

— César é um grande senhor. Pode determinar qualquer ordem e executarei com amor e carinho. Não hei de temer César, pois nada hei de fazer que prejudique César, nosso grande Imperador. O meu trabalho será entregue às mãos dele, e se um dia eu não mais lhe servir, enfrentarei a minha execução na condição de amigo, e jamais dc inimigo dele.

César, ouvindo aquilo, disse:

— Benedites, és mesmo fiel a mim! Não vejo mentira nos teus olhos, meu jovem; vejo apenas a coragem de poder trazer até mim tais sugestões e informações que nenhum dos demais me trouxe. Mas eu te afirmo, meu jovem: se for preciso que eu te dependure pela cabeça, isto certamente farei; e se for necessário te decepar, isto também farei; e se for preciso te jogar ao fogo, eu mesmo te jogarei! Não és, para mim, diferente dos demais!

— Serei apenas um humilde servo que deseja servir ao Imperador com toda a força do coração. Devo-te total obediência. Se aquilo que foi proposto vier a falhar, estarei aqui diante do senhor para que faças dc mim o que justo julgares.

Decidido e feliz, César determinou que Oscar preparasse um batalhão para dar início ao grande projeto.

JOÃO BERBEL